Algumas profissões costumam ser praticadas durante o dia; outras, à noite. Gavin
era um profissional do segundo turno. Em pleno verão, ou em pleno inverno, encostado
numa parede, ou de pé em frente a uma porta, com o cigarro aceso nos lábios, ele
vendia, para quem se interessasse, o que guardava na sua calça jeans.
Às vezes, para turistas viúvas com mais dinheiro do que amor, que o contratavam
para um fim de semana de encontros ilícitos, beijos amargos e insistentes, e, talvez,
quando conseguiam esquecer os companheiros mortos, uma trepada em camas
perfumadas com lavanda. Outras vezes, para maridos perdidos, famintos pelo próprio
sexo e desesperados por uma hora de prazer com um garoto que não perguntava seus
nomes.
Para Gavin, tanto fazia. A indiferença era sua marca registrada, talvez um dos pontos
fortes de sua atração. O que simplificava a despedida quando a coisa terminava e o
dinheiro era pago. Dizer "tchau" ou "a gente se vê", ou nada, para uma pessoa que não
se importava se você ia viver ou morrer, era muito fácil...
E, para Gavin, a profissão nada tinha de desagradável. Mais ou menos uma noite, em
cada quatro, ele desfrutava de um pouco de prazer físico. Os piores casos eram como
um abatedouro sexual, com peles quentes e olhos sem vida. Mas, depois de tantos
anos, já estava acostumado.
Tudo era lucro. O trabalho lhe permitia comprar sapatos caros.
Gavin dormia boa parte do dia, aconchegado na cama, como num ninho, mumificado
entre os lençóis, a cabeça coberta pelos braços, para evitar a luz. Às três horas, mais
ou menos, levantava- se, fazia a barba, tomava um banho de chuveiro e depois
passava meia hora em frente ao espelho, inspecionando o próprio corpo. Sua
autocrítica era severa. Jamais permitia uma variação maior de meio a um quilo no peso
que considerava ideal, hidratava a pele quando estava seca, ou esfregava bastante
com sabonete, quando estava oleosa, examinando cuidadosamente o rosto para
detectar a ameaça de uma espinha. Seu cuidado extremo era em relação ao menor
sinal de doença venérea—o único tipo de inconveniente amoroso que já havia sofrido. A
ocasional dose de chatos era imediatamente eliminada, mas gonorreia, que havia
apanhado duas vezes, obrigava-o a ficar sem trabalhar durante três semanas, e isso
não era nada bom para o negócio. Assim sendo, policiava rigorosamente o próprio
corpo, correndo para a clínica ao primeiro sintoma de alguma alteração.
Raramente isso acontecia. Sem contar os chatos não convidados, naquela meia
hora Gavin limitava-se a admirar a combinação de genes que o havia criado. Ele era
maravilhoso. Todos diziam isso. Maravilhoso. O rosto, oh, o rosto, diziam, abraçando-o
com força, como se quisessem roubar um pedaço daquele encanto.
É claro que havia outras belezas na praça, contatadas através de agências, ou
mesmo na rua, para quem soubesse onde procurar. Mas a maioria dos garotos da rua
que Gavin conhecia tinha rostos que, perto do seu, pareciam inacabados. Rostos que
pareciam os primeiros esboços de um escultor, e não a obra final, não refinados,
experimentais. Gavin, porém, era a obra completa. Tudo que podia ser feito fora feito.
Tratava-se, agora, de preservar a perfeição.
Terminada a inspeção, Gavin vestia-se, olhava-se no espelho, talvez por mais alguns
minutos, depois levava a mercadoria embalada para o mercado.
Nesses dias estava trabalhando cada vez menos nas ruas. Era arriscado. Havia os
policiais e o fanático ocasional, decidido a purificar Sodoma. Quando sentia preguiça,
podia conseguir um cliente por meio da Agência de Acompanhantes, mas tinha que
pagar uma boa porcentagem do que ganhava.
Gavin possuía freguesia fixa, é claro, clientes que reservavam seus favores por
meses e meses. Uma viúva de Fort Lauderdale contratava-o sempre durante sua
viagem anual à Europa. Outra mulher, cujo rosto ele havia visto numa revista elegante,
procurava-o uma vez ou outra, só para jantar e conversar sobre seus problemas
conjugais. Havia um homem que Gavin chamava de Rover, a marca do carro do cliente,
que o contratava com intervalos de algumas semanas, para uma noite de beijos e
confissões.
Porém, nas noites sem nenhuma reserva, ele saía à procura de clientela. Gavin
havia aperfeiçoado ao máximo sua arte. Ninguém, entre os que trabalhavam na rua,
conhecia melhor o vocabulário do convite, aquele misto sutil de encorajamento e
indiferença, de delicadeza e sensualidade, o movimento de mudar o peso do corpo do
pé esquerdo para o direito, realçando o melhor ângulo da virilha. Nunca muito óbvio,
nunca a prostituição às claras. Apenas uma promessa casual.
Gavin gabava-se de que raramente precisava de mais alguns minutos para a
conquista e nunca gastava mais de uma hora.
Quando fazia seu jogo com a perfeição costumeira, escolhendo certo a esposa
desesperada, o marido arrependido, conseguia que eles lhe pagassem o jantar
(comprassem roupas, às vezes), que o levassem para a cama e se despedissem
amavelmente antes da saída do último carro do metrô da Linha Metropolitana para
Hammersmith. Longe e acabados estavam os anos de encontros de meia hora, três
chupadas e uma trepada na mesma noite. Para começar, Gavin já não possuía o
mesmo apetite de antes e, depois, estava se preparando para mudar em breve o curso
de sua carreira. Da prostituição na rua a gigolô, de gigolô a sustentado por uma mulher
e, então, a marido. Qualquer dia desses, ele sabia, iria casar-se com uma das viúvas,
talvez com a matrona da Flórida. Ela havia dito que podia vê-lo deitado na borda de sua
piscina em Fort Lauderdale, e Gavin não a deixava esquecer essa fantasia. Talvez
ainda não tivesse chegado a hora; porém, mais cedo ou mais tarde, iria conseguir. O
problema era que aquelas flores ricas precisavam de muito trato, e o pior era que
muitas pereciam antes de dar frutos.
Porém, seria ainda este ano. Oh, sim, este ano, com certeza. Alguma coisa boa iria
acontecer no outono, Gavin sabia.
Enquanto isso, via aprofundarem-se as linhas em volta de sua boca maravilhosa (era
maravilhosa, sem dúvida) e calculava as próprias chances na corrida entre o tempo e a
oportunidade.
Eram nove e quinze da noite do dia 29 de setembro, e fazia frio, mesmo no saguão
do Imperial Hotel. Não houve verão naquele ano. O outono tinha Londres entre os
dentes e sacudia a cidade, despojando-a dos restos de verão.
O frio chegou ao seu dente, o dente estragado e dolorido. Se tivesse ido ao
dentista, em vez de virar na cama e dormir mais uma hora, não estaria agora sentindo
dor. Bem, tarde demais, ficaria para o dia seguinte. Teria muito tempo. Não precisava
marcar hora.
Bastava sorrir para a recepcionista, que ela, derretendo-se completamente, prometia
arranjar um tempo para ele entre as consultas marcadas. Ele sorria outra vez, ela
corava, e Gavin era atendido, ao invés de esperar duas semanas, como os pobres
cretinos que não tinham rostos maravilhosos.
Nessa noite teria de aguentar. Só precisava de um cara cheio da grana — um
daqueles maridos que pagavam uma nota para levar na boca—e poderia, então, retirarse
para um clube noturno do Soho com seus pensamentos. Desde que não arranjasse
um maníaco por confissão, poderia livrar-se de sua carga e ficar livre às dez e meia.
Mas essa não era a sua noite. Havia uma cara nova na recepção do Imperial, uma
cara magra e abatida, com uma peruca esquisita pousada (grudada) na cabeça calva
que, há quase meia hora, observava Gavin com os olhos semicerrados.
O recepcionista habitual, Madox, era um homossexual não assumido, que Gavin já
tinha visto uma ou duas vezes fazendo a ronda dos bares, uma presa fácil para quem
gosta do tipo. Madox era massa de bolo nas mãos de Gavin, havia até comprado a
companhia dele por uma hora, há alguns meses. Gavin fizera abatimento no preço —
era boa política. Mas esse homem novo era certinho, perigoso e conhecia o jogo de
Gavin.
Calmamente, Gavin foi até a máquina de cigarros, seus passos acompanhando o
som do muzakno tapete vermelho escuro. Que porra de noite chata!
O recepcionista estava à sua espera, quando Gavin afastou-se da máquina com o
maço de Winston na mão.
— Com licença... senhor — A fala afetada, nada natural.
Gavin olhou amistosamente para ele.
— Sim?
— O senhor é residente deste hotel... senhor?
— Na verdade...
— Se não é, a gerência agradeceria se deixasse o local imediatamente.
— Estou esperando alguém.
— É mesmo?
O recepcionista não acreditou.
— Muito bem, então dê-me o nome que...
— Não é preciso.
— Diga-me o nome — insistiu o homem — que terei prazer em verificar se seu...
contato... está no hotel.
O filho da mãe ia mesmo criar caso, e isso diminuía as opções de Gavin. Ou levava
a coisa com calma e saía do hotel, ou bancava o cliente ofendido e acabava com a
alegria do homem. Mais para provocar do que por considerar a melhor tática, escolheu
a segunda opção.
— O senhor não tem direito... — Gavin começou a se irritar, mas o recepcionista não
se impressionou.
— Escute, filho — disse ele. — Sei o que você está querendo; portanto, não seja
atrevido ou chamarei a polícia. — O homem perdeu o controle da sua elocução, e, a
cada sílaba, seu sotaque mais se aproximava dos bairros pobres ao sul do rio. —
Temos uma boa clientela aqui, e ninguém quer negócio com gente da sua laia,
entendeu?
— Escroto — disse Gavin, em voz baixa.
— Bem, é um ponto acima de um chupador de peru, certo?
Touché.
— Agora, meu filho, você quer dar o fora com suas próprias pernas ou prefere ser
carregado com algemas pelos caras de azul?
Gavin jogou sua última cartada.
— Onde está o Sr. Madox? Quero falar com o Sr. Madox. Ele me conhece.
— Estou certo que conhece — zombou o recepcionista. — Tenho absoluta certeza.
Ele foi despedido por conduta indecorosa.
— A dicção artificial estava voltando. — Por isso, se fosse você, eu não invocaria o
nome dele aqui. Certo? Agora, vá andando.
Com a vitória garantida, o recepcionista recuou como um matador e despediu o
touro com um gesto.
—A gerência agradece sua presença. Por favor, não nos visite outra vez.
A partida era do homem de peruca. Que diabo, havia outros hotéis, outros saguões,
outros recepcionistas. Não precisava aturar toda aquela merda.
Gavin empurrou a porta com um sorridente "a gente se vê" para o homem. Talvez
aquilo fizesse o piolho suar numa noite em que estivesse voltando para casa e ouvisse
passos atrás dele. Era uma satisfação insignificante, mas era alguma coisa.
A porta se fechou, selando o calor lá dentro e Gavin lá fora. Estava mais frio, muito
mais frio do que quando entrou no hotel. Uma garoa fina começava a cair, cada vez
mais intensa, enquanto ele caminhava apressado pela Park Lane, a caminho de
Kensington. Na High Street havia uns dois hotéis onde podia abrigar-se por algum
tempo. Se não conseguisse nada, admitiria a derrota.
O tráfego era intenso em Hyde Park Corner, na direção de Knigntsbridge ou Vitoria,
contínuo, brilhante. Gavin imaginou-se de pé na ilha de concreto entre as duas pistas,
as pontas dos dedos enfiadas nos bolsos da calça jeans (apertada demais para
acomodar as mãos), solitário, esquecido.
Uma onda de infelicidade subiu das profundezas de sua alma. Estava com vinte e
quatro anos e cinco meses. Levava aquela vida, intermitentemente, desde os dezessete
anos, prometendo a si mesmo que iria encontrar uma viúva rica (a aposentadoria do
gigolô), ou uma profissão decente, antes dos vinte e cinco.
Mas o tempo estava passando, e nem de longe ele sonhava realizar sua ambição.
Fora-se o impulso inicial, e ele havia ganho mais uma linha sob os olhos.
O tráfego continuava como um rio brilhante, as luzes assinalando este ou aquele
imperativo, carros de gente com escadas para subir e cobras para lutar, sua passagem
isolando-o da margem, da segurança, naquela ânsia de chegar ao destino.
Gavin não era o que havia sonhado que seria, o que havia prometido ao próprio eu.
E a juventude já era ontem.
Para onde ir agora? O apartamento ia parecer uma prisão nessa noite, mesmo com
um pouco de maconha para amaciar as arestas. Ele queria, não, precisava estar com
alguém. Nem que fosse só para ver a própria beleza refletida em outros olhos. Ouvir
dizer o quanto era perfeito, encontrar alguém para pagar o jantar e o vinho, nem que
fosse o irmão mais rico e o mais feio do corcunda de Notre-Dame. Nessa noite
precisava de uma dose de afeição.
A coisa foi tão fácil que ele quase esqueceu o episódio no saguão do Imperial. Um
cara de cinquenta e poucos anos, com grana, sapatos Gucci, um sobretudo caro. Numa
palavra, qualidade.
Gavin estava de pé na porta de um pequeno cinema de arte, vendo as fotografias do
filme de Truffaut em cartaz, quando sentiu que alguém olhava para ele. Olhou para o
cara a fim de se certificar de que era um convite. O homem ficou nervoso. Deu alguns
passos, mudou de ideia, resmungou qualquer coisa e voltou, fingindo que estava
interessado no programa do cinema. Evidentemente inexperiente no jogo, pensou
Gavin, um novato.
Calmamente, Gavin acendeu um Winston, a chama do fósforo dourando seu rosto.
Fazia isso sempre, muitas vezes na frente do espelho para o próprio prazer. Ergueu os
olhos por uma fração de segundo — isso sempre dava resultado. Dessa vez, quando
fitou os olhos nervosos do homem, ele não recuou.
Gavin deu uma tragada no cigarro, sacudiu o fósforo e jogou-o no chão. Há meses
não fazia esse tipo de jogo, mas constatou, satisfeito, que não havia perdido a prática.
A identificação correta de um cliente em potencial, a oferta implícita nos olhos e nos
lábios, que podia ser interpretada como um gesto amistoso, se estivesse enganado.
Mas dessa vez não estava enganado, era artigo genuíno. Os olhos do homem
estavam pregados em Gavin, com um encantamento tão intenso que parecia quase
doloroso. Sua boca estava aberta, sem conseguir dizer as primeiras palavras. O rosto
não era grande coisa, mas também não era feio. Bronzeado muitas vezes e muito
depressa. Talvez tivesse vivido no exterior. Gavin supunha que o homem fosse inglês,
como indicava seu tipo de prevaricação.
Contrariando seus hábitos, Gavin fez o primeiro movimento.
— Gosta de filmes franceses?
Todo o corpo do homem relaxou de alívio.
— Gosto — respondeu.
— Vai entrar?
O homem fez uma careta.
— Acho... acho que não.
— Um pouco frio...
— Sim, está.
— Frio demais para ficar parado na rua, quero dizer.
— Oh, sim.
O homem mordeu a isca.
— Será... que aceita um drinque?
Gavin sorriu.
— É claro, por que não?
— Meu apartamento é aqui perto.
— Certo.
— Eu estava começando a me chatear, você sabe, em casa.
— Sei o que quer dizer.
Agora, o homem sorriu.
— Você é...?
— Gavin.
Ele estendeu a mão enluvada num gesto formal. Apertou com força a mão de Gavin,
sem nenhum traço da hesitação demonstrada antes.
— Sou Kenneth — disse o homem. — Ken Reynolds.
— Ken.
— Vamos sair do frio?
— Tudo bem.
— Fica bem perto daqui.
Reynolds abriu a porta do apartamento, e uma onda de ar quente e embolorado
envolveu-os. Depois dos três lances de escada, Gavin estava sem fôlego, mas
Reynolds não parecia cansado. Fanático por exercício, talvez. Ocupação? Alguma
coisa no centro da cidade. O aperto de mão, as luvas de couro. Talvez serviço do
governo.
— Entre, entre.
Havia dinheiro ali. O tapete espesso e macio abafou seus passos. Pouca coisa no
hall de entrada, um calendário na parede, a mesinha com o telefone, uma pilha de
catálogos, um cabide.
— Está mais quente aqui dentro.
Reynolds tirou o sobretudo e dependurou-o no cabide de pé. Ainda com as luvas, fez
Gavin entrar numa sala maior.
— Dê-me seu paletó — disse ele.
— Oh... certo.
Gavin tirou o paletó, e Reynolds voltou para o hall com ele. Reapareceu e começou a
tirar as luvas com um pouco de dificuldade porque o suor grudava-as em suas mãos. O
cara já estava nervoso, mesmo na própria casa. Geralmente eles começavam a se
acalmar quando sentiam-se a salvo atrás de portas trancadas. Mas esse não, era um
verdadeiro catálogo de tiques nervosos.
— Aceita um drinque?
— Sim, seria ótimo.
— Qual é o seu veneno?
— Vodca.
— Certo. Pura?
— Uma gota d'água.
— Purista, hein?
Gavin não entendeu a observação.
— Isso mesmo — respondeu.
— Como eu gosto. Desculpe-me por um momento... vou apanhar gelo.
— Tudo bem.
Reynolds deixou as luvas na cadeira ao lado da porta e saiu da sala. Como no hall,
o calor era quase sufocante, mas não havia nada de doméstico ou acolhedor na sala.
Fosse qual fosse sua profissão, Reynolds era um colecionador. As peças antigas
estavam por toda parte, nas paredes e nas estantes. A mobília era pouca e estranha.
Cadeiras tubulares muito usadas contrastavam com o apartamento caro. Talvez o
homem fosse diretor de alguma universidade, ou diretor de museu, alguma profissão
acadêmica. Não era a sala de um corretor da bolsa.
Gavin não entendia de arte, menos ainda de história; portanto, os objetos
significavam muito pouco para ele, mas, mesmo assim, foi olhar de perto, só para
demonstrar boa vontade. As estantes eram de uma monotonia incrível. Só pedaços de
cerâmica e de esculturas, nada inteiro, apenas fragmentos. Em alguns deles podia-se
distinguir a insinuação de um desenho, com as cores quase apagadas pelo tempo.
Alguns eram, evidentemente, partes de esculturas de seres humanos, um pedaço do
torso, de um pé (com os cinco dedos), um rosto quase completamente destruído, que
não era mais feminino nem masculino. Gavin bocejou disfarçadamente. O calor, a
coleção e a expectativa de sexo provocavam sono.
Voltou a atenção desinteressada para as peças dependuradas na parede. Eram
mais bonitas, mas nenhuma inteira. Para Gavin era incompreensível que alguém
gostasse de olhar para aquelas coisas. Nada tinham de atraentes. Os altos-relevos em
pedra, dependurados na parede, estavam todos gastos e manchados. A pele das
figuras parecia leprosa, e as inscrições em latim eram quase invisíveis. Não havia nada
de bonito nelas, estragadas demais para serem belas. Gavin sentiu-se sujo, como se
aquela condição fosse contagiosa.
Apenas uma peça despertou seu interesse. Uma pedra tumular, ou que ele julgou
ser uma pedra tumular, maior do que as outras e mais conservada. Um homem a
cavalo brandia a espada, inclinado sobre o corpo decapitado do inimigo. Sob o
desenho, algumas palavras em latim. As pernas dianteiras do cavalo tinham sido
quebradas, e as colunas que ladeavam o desenho estavam bastante desgastadas pelo
tempo; o restante da imagem, porém, tinha sentido. Havia até um traço de
personalidade no rosto do homem, o nariz longo, a boca larga. Era um indivíduo.
Gavin estendeu a mão para tocar a inscrição, mas recolheu-a quando ouviu
Reynolds entrar na sala.
— Não, por favor, pode tocar — disse Reynolds. — Está aí para proporcionar
prazer. Toque à vontade.
Agora, convidado a tocar a coisa, Gavin não sentia mais vontade. Estava
embaraçado, tinha sido apanhado em flagrante.
— Vá em frente, toque — insistiu Reynolds.
Gavin tocou a peça. Pedra fria, áspera sob as pontas de seus dedos.
— É romana — disse Reynolds.
— Uma lápide?
— Sim. Encontrada perto de Newcastle.
— Quem era ele?
— Chamava-se Flavinus. Era o porta-estandarte do regimento.
O que Gavin pensou ser uma espada era, na realidade, um estandarte. Terminava
num desenho quase todo apagado, uma abelha talvez, uma flor, uma roda.
— Então, você é arqueólogo?
— É uma parte do meu trabalho. Pesquiso lugares para escavações, uma vez ou
outra dirijo uma escavação, mas a maior parte do tempo faço a restauração dos
objetos.
— Como aqueles?
— Minha obsessão pessoal são as ruínas romanas da Grã- Bretanha.
Deixou os copos na mesa e aproximou-se das estantes.
— Isto tudo colecionei durante anos. Nunca me canso da sensação de manejar
objetos que passaram séculos sem ver a luz do sol. É como um mergulho na história.
Você compreende?
— É, compreendo.
Reynolds apanhou um fragmento de cerâmica da estante.
— É claro que os melhores achados ficam com as maiores coleções. Mas, se você é
esperto, consegue guardar algumas peças. A influência dos romanos foi incrível.
Engenheiros civis, de estradas, construtores de pontes.
Reynolds riu, de repente, do próprio entusiasmo.
— Oh, diabo — disse ele. — Estou fazendo uma preleção outra vez. Desculpe,
deixei-me levar pelo entusiasmo.
Recolocou os fragmentos nas estantes e voltou aos copos. De costas para Gavin,
enquanto servia os drinques, perguntou:
— Você é muito caro?
Gavin hesitou. O nervosismo do homem era contagioso, e a mudança brusca da
conversa, dos romanos para o preço de uma chupada, exigia uma certa acomodação.
— Depende — respondeu, ambíguo.
— Ah... — disse Reynolds, ainda ocupado com os copos. —
Quer dizer, qual é, exatamente, a natureza do meu... do meu pedido?
— Isso mesmo.
— É claro.
Voltou-se, entregando a Gavin uma boa dose de vodca, sem gelo.
— Não serei muito exigente.
— Não sou barato.
— Estou certo disso—sorriu brevemente—e estou disposto a pagar bem. Pode ficar
a noite toda?
— Quer que eu fique?
Reynolds franziu a testa com o copo entre os lábios.
— Acho que sim.
— Então eu fico.
A atitude de Reynolds mudou de repente. A indecisão foi substituída pela certeza.
—Tim-tim — disse ele, batendo o copo com uísque no copo com vodca de Gavin. —
Ao amor e à vida e a qualquer outra coisa que mereça ser paga.
O duplo sentido não escapou a Gavin. O homem estava extremamente tenso.
— Bebo a isso — disse Gavin, tomando um grande gole de vodca.
Em seguida, os drinques sucederam-se rapidamente, e, mais ou menos na terceira
dose, Gavin começou a se sentir relaxado e satisfeito, como há muito não se sentia,
contente em ouvir vagamente a dissertação de Reynolds sobre escavações e as glórias
de Roma, enquanto sua mente divagava. Obviamente iria passar a noite ali, ou pelo
menos ficaria até o nascer do dia; então, por que não tomar a vodca do cara e
aproveitar a experiência, pelo que ela valia? Mais tarde, provavelmente muito mais
tarde, a julgar pela disposição do homem para falar, fariam um sexo meio bêbado num
quarto escuro, e isso seria tudo. Conhecia esse tipo de cliente.
Homens solitários, talvez entre dois amores, e geralmente fáceis de serem
contentados. Aquele cara não estava comprando sexo, mas companhia, outro corpo
para compartilhar o espaço que ocupava, dinheiro fácil.
Então, o ruído.
A princípio, Gavin achou que alguma coisa estava batendo dentro de sua cabeça,
mas Reynolds levantou-se logo, com o rosto crispado. A expressão de bem-estar
desapareceu.
—O que foi isso?—perguntou Gavin, levantando-se também um pouco tonto.
— Tudo bem — Reynolds o fez voltar à cadeira. — Fique aqui...
O som tornou-se mais forte. Um tambor dentro de um forno, batendo enquanto
queimava.
— Por favor, por favor, fique aqui por um momento. É só alguém lá em cima.
Reynolds estava mentindo, o barulho não vinha de cima, mas de algum lugar no
apartamento, uma batida cadenciada que ficava mais rápida, mais lenta, mais rápida
outra vez.
— Sirva-se de um drinque — disse Reynolds, na porta, com o rosto muito corado. —
Malditos vizinhos...
O chamado, pois era isso, estava diminuindo.
— Só um instante — prometeu Reynolds, saindo e fechando a porta.
Gavin também conhecia cenas desagradáveis. Amantes que apareciam em momentos
inoportunos, caras que ofereciam dinheiro para espancá-lo — houve um que,
atormentado pelo sentimento de culpa, havia destruído completamente o quarto de
hotel. Essas coisas aconteciam. Mas Reynolds era diferente, nada nele parecia indicar
alguma estranheza. Bem no fundo de sua mente, Gavin lembrava que os outros caras
também não pareciam estranhos, no começo. Ora, que diabo, preferiu afastar as
dúvidas. Se começasse a ficar nervoso cada vez que saía com um desconhecido, logo
deixaria de trabalhar. De certo modo, tinha de confiar na sorte e no próprio instinto, e
seu instinto dizia que esse cara não era dado a acessos de loucura.
Tomou um gole de vodca, tornou a encher o copo e esperou.
Não ouvia mais o. barulho, o que facilitava a explicação. Talvez fosse mesmo o
vizinho de cima, afinal. Não ouvia Reynolds andando ou se movendo no apartamento.
Procurou alguma coisa com que se ocupar, e seus olhos recaíram na lápide.
Flavinus, o porta-estandarte.
Havia algo de gratificante na ideia de ter o rosto perpetuado na pedra, numa forma
um tanto rude, é verdade, e colocado ao lado dos próprios ossos, mesmo sabendo
que, algum dia, um historiador iria separar a pedra dos ossos. O pai de Gavin quisera
ser enterrado, e não cremado. Do contrário, dizia, como iriam lembrar dele? Quem iria
chorar ao lado de uma urna, num nicho na parede? A ironia era que ninguém ia ao seu
túmulo. Durante todos aqueles anos, desde a morte do pai, Gavin fora lá somente
umas duas vezes. Uma pedra com uma data, um nome, uma frase feita. Nem se
lembrava mais em que ano o pai havia morrido.
Mas as pessoas lembravam-se de Flavinus, pessoas que nunca o haviam conhecido,
que não conheciam a vida que ele levara, conheciam-no agora. Gavin levantou-se e
tocou o nome do porta-estandarte, a gravação tosca das letras "FLAVINUS", a
segunda palavra da inscrição.
O barulho recomeçou, repentinamente, mais frenético do que antes. Gavin olhou
para a porta, esperando ver Reynolds com alguma explicação. Ninguém apareceu.
— Droga.
O barulho continuou, furioso. Alguém, em algum lugar, estava muito zangado. E,
dessa vez, não havia dúvida, era naquele andar, a poucos metros de onde ele se
encontrava. Gavin ficou curioso. Esvaziou o copo com um gole e saiu para o corredor.
O barulho cessou quando fechou a porta da sala.
— Ken? — chamou, hesitante. A palavra pareceu morrer em seus lábios.
O corredor estava escuro, a não ser por uma luz fraca na outra extremidade. Talvez
uma porta aberta. Gavin encontrou um interruptor, mas não estava funcionando.
— Ken? — chamou de novo.
Dessa vez obteve resposta. Um gemido e o som de um corpo rolando, ou sendo
rolado. Reynolds teria sofrido um acidente? Jesus, ele podia estar imobilizado ou ferido
ali perto. Gavin precisava ajudá-lo. Por que seus pés relutavam em se mover? Sentiu,
nos testículos, o formigueiro da antecipação nervosa, como quando brincava de
esconder, dominado pela excitação da caça. Era quase agradável.
E, prazer à parte, podia ir embora agora, sem saber o que havia acontecido ao
homem? Precisava entrar naquele corredor.
A primeira porta estava entreaberta. Gavin empurrou-a e viu um escritório de
trabalho e estantes cheias de livros. As luzes da rua iluminavam uma mesa tosca. Nada
de Reynolds, nem do homem do tambor. Mais confiante agora, Gavin continuou pelo
corredor. A porta seguinte—da cozinha—também estava aberta. Não havia luz lá
dentro. As mãos de Gavin estavam úmidas de suor. Pensou em Reynolds tentando tirar
as luvas grudadas nas palmas suadas. Do que tinha medo? Era alguma coisa mais do
que o fato de apanhar Gavin na rua. Havia outra pessoa no apartamento, alguém com
gênio muito violento.
Quando viu a marca da mão na porta, o estômago de Gavin foi parar na garganta.
Era uma marca de sangue.
Empurrou a porta, mas alguma coisa impedia que se abrisse completamente.
Passou pela pequena abertura e entrou na cozinha. Uma lata de lixo não esvaziada ou
vegetais esquecidos empestavam o ar. Gavin passou a mão na parede, procurando o
interruptor, e o tubo fluorescente acendeu com um espasmo.
Os sapatos Gucci de Reynolds apareceram atrás da porta. Gavin puxou-os, e
Reynolds rolou do esconderijo. Havia, evidentemente, se escondido atrás da porta,
encolhendo-se como um animal espancado. Estremeceu quando Gavin o tocou.
—Tudo bem... sou eu—Gavin afastou a mão ensanguentada com que Reynolds
cobria o rosto. Um corte profundo ia da têmpora até o queixo, e outro, paralelo, mas
não tão profundo, atravessava a testa e o nariz, como se tivesse sido arranhado por
um garfo com dois dentes.
Reynolds abriu os olhos. Levou um segundo para reconhecer Gavin e disse:
— Vá embora.
— Você está ferido.
—Pelo amor de Deus, vá embora. Depressa. Mudei de ideia... Você compreende?
— Vou chamar a polícia.
O homem praticamente cuspiu as palavras.
— Que droga, saia daqui! Porra de vagabundo!
Gavin endireitou o corpo, tentando compreender o que havia acontecido. O homem
está agressivo por causa da dor. Procure ignorar os insultos e arranje alguma coisa
para cobrir os ferimentos. Era isso. Tratar do ferimento, depois ir embora. Se ele não
queria a polícia, tudo bem. Provavelmente não queria explicar a presença de um garoto
bonito na sua estufa.
— Deixe que eu faça um curativo...
Gavin voltou para o corredor.
Atrás da porta da cozinha, Reynolds disse "Não faça isso", mas o vagabundo não
ouviu. E, se tivesse ouvido, não faria muita diferença. Gavin gostava de desobedecer.
"Não faça isso" era um convite.
Apoiando as costas na porta, Reynolds tentou levantar-se, segurando a maçaneta. Mas
sua cabeça girava num carrossel de horrores, girando, girando, cada cavalo mais feio
do que o outro. Suas pernas se dobraram, e ele caiu como um idiota senil que era.
Droga! Droga! Droga!
Gavin ouviu a queda de Reynolds, mas estava demais ocupado, procurando uma
arma, para voltar correndo à cozinha. Se o intruso que havia atacado Reynolds ainda
estava no apartamento, queria estar preparado para defender-se. Encontrou, na
escrivaninha, uma espátula ao lado da correspondência não aberta. Dando graças a
Deus pelo achado, apanhou a arma leve, de lâmina fina e frágil, mas que, bem usada,
podia matar.
Mais satisfeito, voltou para o corredor e, por um momento, planejou sua tática. A
primeira coisa a fazer era localizar o banheiro, onde esperava encontrar o de que
precisava para o curativo de Reynolds. Até uma toalha limpa servia. Talvez, então, o
cara explicasse alguma coisa.
Depois da cozinha, o corredor fazia um ângulo fechado. Gavin virou o canto e logo
adiante viu a porta aberta, a luz acesa e a água brilhando nos ladrilhos. O banheiro.
Segurando a faca com as duas mãos, Gavin aproximou-se da porta. Os músculos
de seus braços estavam rígidos de medo. Será que isso daria mais força ao golpe, se
tivesse de usar a arma? Sentia-se inepto, pesado, um pouco idiota.
Havia sangue no batente da porta, a marca da palma de Reynolds. Foi aqui que
aconteceu — Reynolds tinha procurado apoio no batente quando recuou, fugindo do
assaltante. Se o intruso ainda estava no apartamento, tinha de estar no banheiro. Não
havia nenhum outro lugar para esconder-se.
Mais tarde, se houvesse mais tarde, provavelmente ele analisaria a situação e
classificaria de idiotice seu pontapé na porta, abrindo-a, provocando o confronto. Mas,
enquanto pensava na cretinice do que fazia, e estava fazendo, a porta abriu-se sobre
os ladrilhos cobertos de poças de água sanguinolenta, e, a qualquer momento, iria
aparecer alguém, com um gancho de ferro no lugar da mão, gritando
ameaçadoramente.
Não. Nada disso. O assaltante não estava ali; portanto, não se encontrava no
apartamento.
Gavin soltou com alívio o ar dos pulmões. Vendo negada a oportunidade de espetar
alguém, a faca amoleceu entre seus dedos. Agora, a despeito do terror, do suor nas
mãos, ficou desapontado. A vida pregava-lhe mais uma peça—surrupiava seu destino
pela porta dos fundos, deixando-o com um esfregão em vez de uma medalha. Tudo que
podia fazer era bancar o enfermeiro para o homem e dar o fora.
A decoração do banheiro era em tons de verde-claro, o sangue destoava dos
azulejos. A cortina cintilante do chuveiro, com desenhos de peixes e algas estilizados,
estava entreaberta. Parecia o cenário de um filme de horror, um pouco irreal. Sangue
vermelho demais, a luz muito clara.
Gavin deixou a faca no lavatório e abriu o armário com espelho. Estava cheio de
colutórios, complementos vitamínicos e tubos de pasta vazios, mas o único
medicamento era uma lata de Band-Aid. Quando fechou a porta, viu no espelho o
próprio rosto pálido. Abriu a torneira de água fria e abaixou a cabeça, para eliminar
parte do efeito da vodca e recuperar a cor perdida.
Quando ergueu a mão em concha cheia d'água, para lavar o rosto, alguma coisa se
mexeu atrás dele. Gavin ergueu o corpo com o coração batendo loucamente e fechou a
torneira. A água pingou do seu queixo e das pestanas, gorgolejando no ralo.
A faca ainda estava no lavatório, a um palmo de distância. O barulho vinha da
banheira, de dentro da banheira, um inofensivo patinhar na água.
O susto liberou a adrenalina em seu corpo, e seus sentidos destilaram o ar com
nova precisão. O cheiro forte e ácido de sabonete de limão, o brilho dos peixes-anjos
cor turquesa deslizando entre as algas cor de lavanda na cortina do chuveiro, as gotas
frias em seu rosto, o calor dentro dos olhos, todas as experiências novas, detalhes que
sua mente deixara passar até aquele momento, preguiçosa demais para ver, cheirar e
sentir até os limites de suas possibilidades.
Você está vivendo no mundo real, disse sua mente (era uma revelação) e, se não
tiver cuidado, é onde irá morrer.
Por que não tinha examinado a banheira? Cretino. Por que não a banheira?
— Quem está aí? — perguntou, esperando, sem esperança, que Reynolds tivesse
uma lontra nadando tranquilamente na banheira. Esperança ridícula. Havia sangue por
toda parte, pelo amor de Deus.
Deu as costas ao espelho quando o barulho parou — faça outra vez, faça outra vez!
— e abriu a cortina, fazendo-a correr nos ganchos de plástico. Na pressa de descobrir
o mistério, deixara a faca no lavatório. Tarde demais, cantaram em coro os anjos
turquesa, e ele olhou para a água.
A banheira estava cheia quase até a borda com água escura. Uma espuma marrom
espiralava na superfície, e o cheiro era de alguma coisa animal, como pelo de cachorro
molhado. Nada apareceu na superfície.
Gavin olhou para o fundo, tentando identificar a forma escura, e seu rosto refletiu-se
na espuma. Inclinou-se mais para a frente, sem entender o que via, até reconhecer a
mão com dedos toscos e perceber que estava olhando para uma forma humana
encolhida como um feto, completamente imóvel na água imunda.
Passou a mão na superfície para tirar a espuma suja, seu reflexo se partiu e pôde ver a
coisa na banheira. Era uma estátua, uma figura humana adormecida, mas com a
cabeça torcida, olhando para os sedimentos escuros da superfície. Os olhos pintados
estavam abertos, duas bolas no rosto mal esculpido; a boca era uma fenda; as orelhas,
alças ridículas na cabeça calva. Estava nua, sua anatomia mal caprichada como o
rosto, o trabalho de um aprendiz de escultor. Em alguns lugares, a tinta, solta talvez
pelo mergulho demorado, erguia-se em tiras do torso da estátua, revelando a madeira
escura.
Nada para sentir medo. Um objet d'art imerso na água para remover uma pintura mal
feita. O barulho que ouvira devia ter sido das bolhas que subiam da coisa, provocadas
por alguma reação química. Nenhum motivo para pânico. Continue batendo, meu
coração, como dizia o barman do Ambassador, quando um novo garoto aparecia em
cena.
Gavin sorriu. O que estava vendo não era nenhum Adonis.
— Esqueça que a viu.
Reynúlds estava na porta. Não sangrava mais, graças a um lenço rasgado que
segurava contra o ferimento. A luz refletida nos azulejos dava um tom esverdeado à sua
pele, sua palidez faria inveja a um cadáver.
— Você está bem? Não parece.
— Vou ficar bem... Agora, por favor, vá embora.
— O que aconteceu?
— Escorreguei. Água no chão. Escorreguei, só isso.
— Mas o barulho...
Gavin olhou para a banheira. Alguma coisa naquela estátua fascinava-o. Talvez a
nudez, e aquela segunda nudez que estava acontecendo debaixo d'água, o máximo do
strip-tease, a retirada da pele.
— Vizinhos, nada mais.
— O que é isto? — perguntou Gavin, sem tirar os olhos do rosto inacabado dentro
d'água.
— Não é da sua conta.
— Por que está todo encolhido? Está morrendo?
Gavin olhou para Reynolds e viu apenas o fim da resposta à sua pergunta, o mais
amargo dos sorrisos.
— Você vai querer dinheiro.
— Não.
— Droga! Esse é seu trabalho, não é? Tem dinheiro ao lado da cama, pegue quanto
acha que merece por perder seu tempo —olhou para Gavin com expressão calculista—
e por seu silêncio.
A estátua outra vez. Gavin não podia tirar os olhos dela, em toda sua crueza e
imperfeição. Seu próprio rosto, intrigado, flutuou na superfície da água, envergonhando
a mão do artista da estátua.
— Não fique imaginando coisas — disse Reynolds.
— Não posso evitar.
— Não tem nada a ver com você.
— Você a roubou, é isso? A estátua vale uma grana, e você a roubou.
Reynolds pesou a pergunta e, afinal, disse, como se estivesse cansado demais para
mentir.
— Sim. Eu a roubei.
— E esta noite alguém veio buscá-la...
Reynolds deu de ombros.
— É isso? Alguém veio buscar a estátua?
— Certo. Eu a roubei... — Reynolds recitou a frase decorada — ... e alguém veio
buscá-la.
— E só o que eu queria saber.
— Não volte aqui, Gavin seja-lá-quem-for. E não pense em nenhuma esperteza,
porque não estarei aqui.
— Quer dizer extorsão? — disse Gavin. — Não sou ladrão.
O olhar avaliador de Reynolds era agora de desprezo.
— Ladrão ou não, deve me agradecer. Se sabe agradecer.
Reynolds afastou-se da porta, dando passagem para Gavin.
Gavin não se moveu.
— Agradecer o quê? — perguntou.
Começou a se irritar. Sentia-se absurdamente rejeitado, como se quisessem
convencê-lo de uma meia-verdade por acharem que não merecia compartilhar do
segredo.
Reynolds não tinha mais forças para explicar. Encostou-se no batente da porta,
exausto.
— Vá — disse ele.
Gavin balançou a cabeça afirmativamente e deixou o homem na porta. Quando
passou do banheiro para o corredor, um pedaço de tinta certamente desprendeu-se da
estátua. Ouviu quando chegou à superfície, a batida da água na borda da banheira; viu,
mentalmente, o movimento da água dando a impressão de que o corpo se movia.
— Boa-noite — disse Reynolds, atrás dele.
Gavin não respondeu, nem apanhou o dinheiro. Deixe que ele fique com suas lápides
e seus segredos.
Entrou na sala para apanhar seu paletó. Flavinus, o porta-estandarte, olhava para
ele do seu lugar na parede. O homem deve ter sido um herói, pensou Gavin. Só um
herói seria comemorado daquele modo. Ele jamais seria lembrado assim, não teria
nenhum rosto de pedra para marcar sua passagem.
Fechou a porta da frente quando saiu, sentiu de novo a dor de dente, e, nesse
momento, o barulho recomeçou, as batidas de um punho fechado na parede.
Ou, pior, a fúria repentina de um coração desperto.
No dia seguinte, a dor de dente piorou, e Gavin foi ao dentista de manhã, esperando
conseguir atendimento imediato com a recepcionista. Mas seu encanto estava em maré
baixa, seus olhos não tinham aquela cintilação magnética de costume. Teria de esperar
até sexta-feira, a não ser que se tratasse de caso de emergência. Gavin confirmou,
porém, a moça discordou dele. Tudo indicava que ia ser um péssimo dia. Um dente
doendo, uma recepcionista lésbica, gelo nas poças d'água, mulheres tagarelando em
cada esquina, crianças feias, céu feio.
Foi quando começou a perseguição.
Não era a primeira vez que um admirador o perseguia, mas nunca desse modo. Nunca
assim, com sutileza tão sorrateira. Já o haviam seguido por dias, de bar em bar, de rua
em rua, com uma dedicação canina que o deixava quase louco. O mesmo rosto ansioso
todas as noites, criando coragem para lhe pagar um drinque, oferecer um relógio,
cocaína, uma semana na Tunísia, coisas assim. Gavin odiava essa adoração pegajosa
que logo azedava como leite e acabava fedendo insuportavelmente. Um de seus mais
ardentes admiradores, um ator com título de nobreza, segundo tinham contado, nunca
chegou perto dele, apenas se- guia-o por toda parte, olhando, olhando. A princípio,
Gavin sentiu-se lisonjeado, mas o prazer logo se transformou em irritação, e,
finalmente, ele abordou o cara num bar e ameaçou partir-lhe a cara. Naquela noite,
Gavin estava tão irritado, tão farto de ser devorado por olhares, que teria cometido
uma violência se o pobre-diabo não se tivesse acovardado. Gavin nunca mais o viu e,
às vezes, imaginava o ator enforcando-se de desgosto.
Mas esta perseguição não era tão óbvia, era pouco mais do que a sensação de
estar sendo seguido. Não possuía nenhuma prova concreta. Apenas a impressão
desagradável, cada vez que olhava em volta, de que alguém escondia-se nas sombras,
ou que à noite andava atrás dele, acompanhando cada movimento, cada hesitação de
seus passos. Era como uma paranoia, mas acontece que ele não era paranoico. Se
fosse, pensava, alguém já devia ter dito.
Além disso, houve alguns incidentes. Certa manhã, a mulher que morava no andar
abaixo do seu perguntou quem era seu visitante, o homem engraçado que chegava
tarde da noite e esperava durante horas e horas na escada, vigiando seu quarto. Gavin
não havia recebido nenhuma visita e não conhecia ninguém que combinasse com aquela
descrição.
Outra vez, numa rua movimentada, Gavin abrigou-se na entrada de uma loja vazia, para
acender o cigarro, e viu o reflexo do homem, distorcido pela vitrine suja. O fósforo
queimou seu dedo, Gavin abaixou os olhos, e, quando os ergueu, o homem que o
vigiava fora tragado pelo mar faminto da multidão. Era uma sensação horrível, e não
ficou só nisso.
Gavin nunca havia falado com Preetorius, embora às vezes trocassem um
cumprimento mudo, na rua, e procurassem saber notícias um do outro entre os
conhecidos comuns, como se fossem amigos. Preetorius era negro, mais ou menos
entre os quarenta e cinco anos e a ruína, um cafetão glorificado que se dizia
descendente de Napoleão. Comandava, há quase dez anos, algumas mulheres e três
ou quatro garotos e ganhava muito dinheiro. Quando Gavin começou a trabalhar,
aconselharam-no a procurar a proteção de Preetorius, mas ele sempre foi muito
independente para desejar aquele tipo de ajuda. Por essa razão, não era bem visto por
Preetorius e por sua tribo. E, quando se tornou parte fixa do cenário, ninguém desafiou
seu direito de ser independente. Diziam que Preetorius nutria uma certa admiração
relutante por Gavin.
Admiração ou não, devia estar um dia gelado no inferno quando Preetorius,
finalmente, quebrou o silêncio.
— Garoto branco...
Eram quase onze horas, e Gavin saía de um bar perto de St. Martin's Lane a
caminho de Covent Garden. Era grande ainda o movimento na rua. Devia haver clientes
em potencial entre os que saíam dos cinemas e dos teatros, mas Gavin não estava
disposto nessa noite. Tinha cem libras no bolso, ganhas na véspera e não depositadas
no banco. Não precisava mais do que isso.
Seu primeiro pensamento, quando viu os três negros bloqueando sua passagem, foi
de que queriam dinheiro.
— Garoto branco...
Então ele reconheceu o rosto chato e brilhante. Preetorius não era assaltante de
rua, nunca fora e nunca seria.
— Garoto branco, quero ter uma palavrinha com você.
Preetorius tirou uma noz do bolso, quebrou-a com a mão e colocou-a na boca.
— Não se importa, certo?
— O que você quer?
—Como eu disse, uma palavrinha. Não estou pedindo muito, estou?
— Não, não está. O que é?
— Não aqui.
Gavin olhou para os capangas de Preetorius. Não eram gorilas, esse não era o
estilo dos negros, mas também não eram fracotes. O cenário não parecia muito
saudável.
— Obrigado, mas não irei, obrigado — disse Gavin, começando a se afastar do trio
com a maior calma possível. Eles o seguiram. Gavin rezou para que não o seguissem,
mas o seguiram. Preetorius disse, atrás dele:
— Escute. Ouvi umas coisas ruins a seu respeito.
— Foi mesmo?
— Infelizmente foi. Disseram que você atacou um de meus garotos.
Gavin deu seis passos antes de responder.
— Eu não. Está falando com o homem errado.
—Ele o reconheceu, seu monte de lixo. Você fez umas coisas muito erradas.
—Já disse, não fui eu.
—Você é um lunático, sabia? Devia estar atrás das porras das grades.
Preetorius levantou a voz. Os transeuntes desviavam-se deles.
Sem pensar, Gavin saiu da St. Martin's Lane e entrou em Long Acre, antes de
perceber seu erro tático. O movimento era menos intenso e teria de fazer uma longa
caminhada pelas ruas de Covent Garden para chegar a outro centro de atividade. Devia
ter entrado à direita, não à esquerda, desse modo estaria logo em Charing Cross
Road, mais seguro. Droga, não podia voltar e caminhar diretamente para eles. A única
coisa a fazer era continuar andando (sem correr, nunca corra com um cão danado nos
seus calcanhares) e procurar manter a conversa naquele nível.
Preetorius disse:
— Você me custou muita grana.
— Não sei por quê...
— Pôs um de meus melhores garotos fora de circulação. Vai levar muito tempo para
que ele possa voltar ao trabalho. Está morrendo de medo, sabia?
— Escute... Eu não fiz nada a ninguém.
— Por que vem com essa porra de mentira para mim, seu monte de lixo? O que eu
fiz a você para me tratar assim?
Preetorius apressou o passo e começou a andar ao lado de Gavin, deixando os
companheiros para trás.
— Escute... — murmurou —, garotos como aquele podem ser uma tentação, certo?
Eu posso entender isso. Se você põe um traseiro de garotinho no meu prato, não vou
rejeitar. Mas você o machucou, e, quando você machuca um dos meus garotos, eu
sangro com ele.
— Se eu tivesse feito isso, acha que estaria andando na rua agora?
— Talvez você não esteja muito bom da cabeça, sabia? Não estamos falando de uns
pequenos machucados aqui ou ali. Estou falando de você tomar banho de chuveiro com
o sangue do garoto, é disso que estou falando. Dependurando o garoto e cortando
todo o corpo dele, depois deixando-o na escada da minha casa, com uma porra de
meia cobrindo seu rosto. Está entendendo minha mensagem, agora, garoto branco?
Recebeu a mensagem?
Preetorius descreveu o crime com fúria genuína, e Gavin não sabia como controlar a
situação. Continuou a andar, em silêncio.
— O garoto idolatrava você, sabia? Achava que você era o modelo perfeito do
garoto de rua, para um principiante. Não gosta de saber isso?
— Não muito.
— Devia estar lisonjeado, cara, porque nunca passou disso.
— Obrigado.
— Teve uma boa carreira. Pena que tenha chegado ao fim.
Gavin sentiu um peso gelado na barriga. Pensou que Preetorius iria contentar-se
com a advertência. Mas, aparentemente, não. Estavam ali para machucá-lo. Jesus, iam
bater nele e por uma coisa que não tinha feito, da qual nem sabia.
— Vamos tirar você das ruas, garoto. Para sempre.
— Eu não fiz nada.
— O garoto o reconheceu, mesmo com aquela meia na sua cabeça. A voz era a
mesma, as roupas eram as mesmas. Admita, você foi reconhecido. Agora, aguente as
consequências.
— Foda-se.
Gavin começou a correr. Aos dezoito anos, ele corria por seu condado, precisava
daquela velocidade agora. Atrás dele, Preetorius deu uma gargalhada (uma boa
brincadeira!), e dois pares de pés saíram em perseguição a Gavin. Estavam perto,
mais perto — e Gavin em péssimas condições físicas. Suas coxas começaram a doer
depois de uns poucos metros, e a calça jeans era justa demais, dificultando os
movimentos. A corrida estava perdida antes de começar.
— O homem não te mandou ir embora — censurou um dos capangas, enfiando os
dedos no bíceps de Gavin.
— Uma boa tentativa — sorriu Preetorius, caminhando calmamente para os cães e a
presa ofegante. Fez um sinal quase imperceptível para o outro capanga.
— Christian? — chamou.
Aceitando o convite, Christian deu um murro no rim de Gavin. Ele dobrou o corpo
para a frente, praguejando.
Christian disse:
— Ali adiante.
Preetorius disse:
— Ande depressa.
E, de repente, eles o estavam arrastando para um beco escuro. Rasgaram seu
paletó e a camisa, os sapatos caros foram arrastados pela sujeira, e, então, eles o
seguraram ereto, gemendo. O beco era escuro, e os olhos de Preetorius pareciam
soltos no ar, na sua frente.
— Aqui estamos outra vez — disse ele. — Felizes como sempre.
— Eu... não toquei no garoto — disse Gavin, com voz entrecortada.
O capanga sem nome, o não-Christian, pôs a mão do tamanho de um presunto no
peito de Gavin e o empurrou para o fundo do beco. Ele escorregou na lama, e, por
mais que procurasse ficar de pé, suas pernas pareciam feitas de água. Seu ego
também. Não era hora de ser corajoso. Ia implorar, lamberia os pés deles, se fosse
preciso, qualquer coisa para evitar que fizessem um trabalho nele. Qualquer coisa para
evitar que arruinassem seu rosto.
Esse era o passatempo favorito de Preetorius, pelo menos era o que diziam na rua,
destruir a beleza. Tinha a habilidade rara de desfigurar irremediavelmente com três
golpes da sua navalha e fazia a vítima guardar os próprios lábios como lembrança.
Gavin caiu para a frente, as palmas no chão molhado. Alguma coisa podre e
pegajosa deslizou entre seus dedos.
Não-Christian trocou um olhar divertido com Preetorius.
— Ele não está uma beleza? — disse o homem.
Quebrando uma noz, Preetorius respondeu:
— Parece — disse ele — que o cara, afinal, encontrou seu lugar na vida.
— Eu não toquei nele — implorou Gavin. Só podia negar e negar, e, mesmo assim,
era causa perdida.
— Você é culpado como o diabo — disse não-Christian.
— Por favor.
—Na verdade, eu gostaria de acabar com isto o mais depressa possível — disse
Preetorius, consultando o relógio. — Tenho encontros marcados, gente para satisfazer.
Gavin ergueu os olhos para seus atormentadores. A rua iluminada estava a uns vinte
metros, se conseguisse quebrar o cordão daqueles corpos.
— Permita-me remodelar seu rosto. Um pequeno crime contra a estética.
A faca estava na mão de Preetorius. Não-Christian tirou do bolso uma corda com
uma bola na ponta. A bola vai na boca, a corda em volta da cabeça. Não se pode gritar
nem que nossa vida dependa disso. Então tinha de tentar.
Agora!
Gavin arremeteu para a frente, da posição em que estava, como um corredor saindo
da baliza, mas a sujeira molhada e escorregadia desequilibrou-o. Ao invés de uma
corrida para a salvação, tropeçou e caiu em cima de Christian, derrubando-o.
Começaram uma luta ofegante, e Preetorius, dignando-se sujar as mãos no lixo
branco, segurou Gavin e o pôs de pé.
— Não tem saída, escroto — disse ele, apertando a ponta da lâmina contra o queixo
de Gavin, onde a saliência do osso era mais acentuada, e começou a cortar, traçando
a linha do queixo, furioso demais para fazer um corte decente. Gavin soltou um urro
quando o sangue escorreu para seu pescoço, mas os dedos grossos de um dos
homens agarraram sua língua e seguraram-na com força.
O coração batia em suas têmporas, e janelas, uma depois da outra, abriam-se e
abriam-se na frente dele, e Gavin caía por elas, a caminho da inconsciência.
Melhor morrer. Melhor morrer. Iam destruir seu rosto, era melhor morrer.
Então, ele estava gritando outra vez, mas o som não saía da sua garganta. Através
do turbilhão nos ouvidos, tentou identificar a voz e compreendeu que agora estava
ouvindo os gritos de Preetorius.
Soltaram sua língua, e Gavin vomitou. Recuou, vomitando, procurando afastar-se de
uma confusão de pessoas que se debatiam à sua frente. Alguém havia interferido,
evitando que completassem seu desfiguramento. Um corpo estava estendido de costas
no chão. Não-Christian, olhos abertos, a vida fechada. Meu Deus, alguém havia matado
por ele. Por ele.
Com um gesto hesitante, levou a mão ao rosto para avaliar a avaria. A carne estava
profundamente lacerada desde o meio do queixo até um centímetro da orelha. Era um
ferimento sério, mas Preetorius, sempre organizado, ia deixar os maiores prazeres
para o fim, sendo interrompido antes de cortar as narinas de Gavin, ou seus lábios.
Uma cicatriz no queixo não ia ficar bonita, mas também não era um desastre.
Alguém saía da confusão e cambaleava para ele: Preetorius, com lágrimas
escorrendo pelo rosto, olhos como bolas de golfe.
Atrás dele, Christian, com os braços inutilizados, cambaleava na direção da rua.
Preetorius não estava indo naquela direção. Por quê?
Ele abriu a boca, e um filamento elástico de saliva, com pérolas enfiadas, pendia de
seu lábio inferior.
—Ajude-me — implorou ele, como se sua vida estivesse nas mãos de Gavin.
Ergueu a mão enorme, como que para agarrar uma gota de misericórdia no ar, mas
outro braço apareceu sobre seu ombro e enfiou uma lâmina em sua boca. O negro
gorgolejou uma vez, a garganta tentando acomodar a faca à sua largura, e então o
atacante puxou-a para cima e para trás, segurando o pescoço de Preetorius para
aguentar a força do golpe. O rosto apavorado dividiu-se em dois, e o calor subiu do
interior de Preetorius como uma nuvem, aquecendo Gavin.
A arma caiu no chão do beco com um ruído surdo. Gavin olhou para ela. Uma espada
curta de lâmina larga. Olhou outra vez para o homem morto.
Preetorius estava de pé, ereto, seguro pelo braço de seu algoz. A cabeça era uma
fonte e pendeu para frente. O carrasco interpretou aquele movimento como um sinal e
deixou cair o corpo aos pés de Gavin. Agora, sem o biombo do corpo de Preetorius,
Gavin viu-se frente a frente com seu salvador.
Num instante, identificou aqueles traços toscos: os olhos assustados e sem vida, a
boca como um corte no rosto, as orelhas como alças de xícara. Era a estátua de
Reynolds. A coisa sorriu, mostrando dentes muito pequenos para o rosto. Dentes de
leite, ainda não trocados. Mas, mesmo no escuro, Gavin notou uma melhora na
aparência da estátua. A testa parecia maior, o rosto mais proporcional. Era ainda um
boneco pintado, mas um boneco com aspirações.
A estátua fez uma mesura rígida, com todas as juntas estalando, e Gavin percebeu
o extremo absurdo da situação. A coisa se curvava, sorria, matava. Mas não podia
estar viva, ou podia? Mais tarde não ia acreditar, Gavin prometeu a si mesmo. Mais
tarde encontraria centenas de razões para não aceitar aquela realidade ali à sua frente.
Atribuiria à falta de sangue no próprio cérebro, à confusão, ao pânico. De um modo ou
de outro ia convencer-se de que aquela fantástica visão era irreal e seria como se
nunca tivesse acontecido.
Se pudesse tê-la pelo menos mais alguns minutos.
A visão estendeu o braço e tocou de leve o queixo de Gavin, passando os dedos
toscos nas bordas do ferimento feito por Preetorius. A luz incidiu num anel no dedo
mínimo, idêntico ao de Gavin.
— Vamos ficar com uma cicatriz — disse a estátua.
Gavin conhecia aquela voz.
— É uma pena — continuou a coisa, falando com a sua voz. — Mas podia ser pior.
Sua voz. A voz de Gavin. Meu Deus, a sua voz!
Gavin balançou a cabeça.
— Sim — disse a estátua, percebendo que ele compreendia.
— NÓS
— Sim.
— Por quê?
A estátua levou a mão ao próprio queixo, e, no mesmo lugar do ferimento de Gavin,
apareceu um corte, e, logo em seguida, uma cicatriz. Não sangrou. A coisa não tinha
sangue.
Porém, aquela testa não imitava a sua, os olhos penetrantes não começavam a ficar
como os seus, e a boca não se transformava na sua boca maravilhosa?
— E o garoto? — perguntou Gavin, juntando as peças do quebra-cabeças.
— Oh, o garoto... — Ergueu os olhos inacabados para o céu. — Um verdadeiro
tesouro! E como gritou.
— Você se banhou no sangue dele?
— Eu preciso. — Ajoelhou perto do corpo de Preetorius e pôs os dedos na cabeça
partida.—Este sangue é velho, mas serve. O garoto era melhor.
Passou o sangue de Preetorius no rosto, como se fosse pintura de guerra. Gavin
não disfarçou o nojo.
— É uma perda muito grande? — perguntou a estátua.
A resposta era não, é claro. A morte de Preetorius não era uma grande perda,
como não era uma grande perda que um garoto drogado, pervertido, tivesse dado
algum sangue e uma noite de sono para alimentar aquele milagre pintado. Aconteciam
coisas piores todos os dias, em algum lugar. Horrores imensos. Ainda assim...
— Você não pode me perdoar — disse a coisa. — Não está em sua natureza. Logo
também não estará na minha. Repudiarei minha vida de atormentador de crianças
porque estarei vendo com seus olhos, compartilhando sua humanidade...
A estátua levantou-se com movimentos ainda um tanto rígidos.
— Mas, até lá, devo fazer o que acho certo.
No lugar em que a coisa havia passado o sangue de Preetorius, a pele já parecia
mais viva, não tanto como madeira pintada.
— Sou uma coisa sem nome — disse. — Sou um ferimento no flanco do mundo. Mas
sou também o estranho perfeito, pelo qual você sempre orou quando era criança, o
estranho que chegaria para buscá-lo, chamá-lo de belo, erguer seu corpo nu da rua e
levá-lo, através da janela, para o céu. Não sou? Não sou?
Como podia saber seus sonhos de infância? Como podia adivinhar aquele
simbolismo especial de ser erguido de uma rua cheia de doenças e levado para uma
casa que era o céu?
— Por que eu sou você — disse a coisa, respondendo à pergunta não enunciada —
aperfeiçoado.
Gavin apontou os corpos.
— Não pode ser eu. Eu jamais teria feito isso.
Não era muito delicado condenar a intervenção que lhe salvou a vida, mas estava
dizendo a verdade.
— Não mesmo? — disse o outro. — Acho que faria.
Gavin ouviu a voz de Preetorius, sentiu a faca no queixo, "um crime contra a estética", a
náusea, a impossibilidade de reagir. E claro que teria feito, teria feito uma dúzia de
vezes e chamaria isto de justiça.
A coisa não precisou ouvir essa conclusão. Era evidente.
— Voltarei para vê-lo outra vez — disse o rosto pintado. — Enquanto isso... se fosse
você... — riu — eu iria embora.
Gavin olhou-o nos olhos, para ter certeza, e começou a andar na direção da rua.
— Não por aí! Aqui!
Apontou para uma porta quase escondida através de sacos de lixo. Por isso ele
havia chegado rapidamente, em silêncio.
— Evite as ruas principais e não deixe que o vejam. Quando eu estiver pronto, eu o
encontrarei.
Gavin não esperou uma segunda ordem. Fosse qual fosse a explicação dos
acontecimentos daquela noite, tudo estava feito. Não era hora de perguntas.
Entrou pela porta sem olhar para trás, mas o que ouviu foi o bastante para revirar
seu estômago. O baque surdo de líquido no chão, o gemido de prazer da coisa. Gavin
podia imaginar como seria sua higiene.
Na manhã seguinte, nada parecia mais claro. Nenhuma compreensão repentina
sobre a verdade do que havia sonhado de olhos abertos. Apenas uma série de fatos
nus.
No espelho, o próprio corte no queixo, com o sangue coagulado e doendo mais do
que o dente estragado.
Nos jornais, a reportagem sobre os dois corpos encontrados na área de Covent
Garden, dois criminosos conhecidos da polícia, assassinados cruelmente no que a
polícia chamava de "guerra de gangues".
Na sua cabeça, a certeza de que seria encontrado, mais cedo ou mais tarde.
Alguém devia tê-lo visto com Preetorius e contaria à polícia. Talvez o próprio Christian e
logo estariam ali na sua porta com algemas e ordens de prisão. Qual seria a sua
defesa? Que o culpado não era um homem, mas uma espécie de efígie que, aos
poucos, estava se tornando uma réplica dele mesmo? A questão não era se iam
prendê-lo ou não, mas onde o prenderiam, na cadeia ou num manicômio?
Entre o desespero e a incredulidade, Gavin foi ao ambulatório de acidentados e
esperou pacientemente três horas para ser atendido, na companhia de meia dúzia de
feridos.
O médico foi muito direto. Não adiantava dar pontos, disse ele, o mal estava feito. O
ferimento devia e ia ser tratado, mas uma cicatriz feia era agora inevitável. Por que não
veio ontem à noite, quando aconteceu?, perguntou a enfermeira. Gavin deu de ombros.
Eles não se incomodavam nem um pouco. Compaixão artificial não o ajudava em nada.
Quando dobrou a esquina, viu os carros na frente da sua casa, a luz azul, os vizinhos
amontoados fofocando e rindo. Tarde demais para reclamar qualquer coisa da sua vida
anterior. A essa hora já se haviam apossado das suas roupas, seus pentes, seus
perfumes, suas cartas—e estavam revistando tudo como macacos à procura de
piolhos. Gavin sabia como aqueles filhos da mãe eram meticulosos quando convinha,
com que rapidez podiam juntar e dividir a identidade de um homem. Devorando,
sugando. Podiam apagar uma pessoa da face da terra num segundo, transformando-a
num vazio ambulante.
Não podia fazer nada. Sua vida lhes pertencia para zombar e salivar, até mesmo
para um momento de nervosismo, quando vissem suas fotografias, imaginando se,
numa noite escura, não tinham pago os favores daquele garoto.
Podiam ficar com tudo. Eram bem-vindos. A partir daquele momento, ele não teria
lei, porque as leis protegem a propriedade, e Gavin não possuía mais nada. Eles
haviam tirado tudo. Não tinha onde morar, nada de seu. O mais estranho era que
sequer sentia medo.
Deu as costas para a rua e para a casa onde tinha vivido durante quatro anos com
uma espécie de alívio, feliz por terem roubado sua vida com toda sua esqualidez.
Sentia-se mais leve.
Duas horas mais tarde e alguns quilômetros mais longe, Gavin parou para examinar os
bolsos. Tinha o cartão do banco, quase cem libras em dinheiro, uma pequena coleção
de fotografias, algumas dos pais e da irmã, a maioria dele mesmo, um relógio, um anel
e um cordão de ouro no pescoço. Podia ser perigoso usar o cartão — sem dúvida, o
banco estava avisado. A melhor coisa seria penhorar o anel e a corrente e partir para o
norte. Tinha amigos em Aberdeen que o esconderiam por algum tempo. Mas, antes,
Reynolds.
Gavin levou uma hora para encontrar a casa de Ken Reynolds. Não comia há quase
vinte e quatro horas, e seu estômago reclamava quando parou na frente da Livingstone
Mansions. Mandou que ele se calasse e entrou sorrateiramente no prédio. O interior
parecia menos impressionante à luz do dia. O pequeno tapete estava gasto, e a tinta
do corrimão, encardida de uso.
Sem pressa, subiu os três lances de escada até o apartamento de Reynolds e bateu
na porta.
Ninguém atendeu, e não se ouvia nenhum ruído lá dentro. É claro, Reynolds havia
dito — não volte, não estarei aqui. Teria, de algum modo, adivinhado as consequências
de atiçar aquela coisa contra o mundo?
Gavin bateu outra vez e teve certeza de ouvir alguém respirando no outro lado da
porta.
— Reynolds... — disse, encostando o rosto na porta. — Sei que você está aí.
Nenhuma resposta, mas havia alguém, Gavin tinha certeza. Bateu na porta com a
mão aberta.
— Vamos, abra essa porta. Abra, seu filho da mãe.
Um silêncio, depois a voz abafada.
— Vá embora.
— Quero falar com você.
— Vá embora, já disse. Vá embora. Não tenho nada pra lhe dizer.
—Você me deve uma explicação, pelo amor de Deus. Se não abrir a porra desta
porta, vou chamar alguém para abri-la.
Uma ameaça vazia, mas Reynolds respondeu:
— Não! Espere. Espere.
A chave girou na fechadura, e a porta se abriu apenas alguns centímetros. O
apartamento estava às escuras atrás do rosto que espiou para fora. Era Reynolds,
sem dúvida, mas com a barba por fazer e abatido. Cheirava a sujeira, mesmo através
daquela pequena abertura, e vestia uma camisa manchada e calça com um cinto cheio
de nós.
— Não posso ajudá-lo. Vá embora...
— Se me deixar explicar... — Gavin empurrou a porta, e Reynolds estava muito
fraco, ou muito confuso para evitar que ele a abrisse. Recuou cambaleando para o
corredor escuro.
— Que porra está acontecendo aqui?
O apartamento cheirava a comida estragada. O ar viciado era irrespirável. Reynolds
deixou que Gavin fechasse a porta antes de tirar uma faca do bolso da calça suja.
— Você não me engana — disse Reynolds. — Eu sei o que você fez. Ótimo trabalho.
Muito esperto.
— Quer dizer os assassinatos? Não fui eu.
Reynolds apontou a faca para Gavin.
— Quantos banhos de sangue foram necessários?—perguntou com os olhos cheios
de lágrimas. — Seis? Dez?
— Eu não matei ninguém.
—... monstro.
Reynolds empunhava a espátula que Gavin havia apanhado naquela noite.
Aproximou-se com ela na mão, evidentemente disposto a usá-la. Gavin encolheu-se, e
Reynolds, aparentemente, tomou coragem com aquela demonstração de medo.
—Já esqueceu como é ser de carne e osso?
O homem estava com os parafusos soltos.
— Escute... eu só vim conversar.
—Você veio para me matar. Eu posso denunciá-lo... por isso veio me matar.
— Sabe quem eu sou? — perguntou Gavin.
Reynolds sorriu com desprezo.
— Você não é o garoto bicha. Parece com ele, mas não é ele.
— Pelo amor de Deus... sou Gavin... Gavin.
Não encontrava as palavras para explicar, para evitar que a faca se aproximasse.
— Gavin... lembra-se? — foi tudo que conseguiu dizer.
Reynolds hesitou por um momento, olhando para o rosto de
Gavin.
— Você está suando — disse ele. E o olhar ameaçador desapareceu.
Abaixou a mão com a faca.
— Ele jamais poderá suar — disse. — Nunca soube, nunca vai saber como. Você é o
garoto... não a coisa. O garoto.
O rosto relaxou e agora parecia quase vazio.
— Preciso de ajuda — disse Gavin, com voz rouca. — Tem de me dizer o que está
acontecendo.
— Quer uma explicação? — disse Reynolds. — Pode ter toda que encontrar.
Levou-o para a sala. As cortinas estavam fechadas, mas, mesmo na
semiobscuridade, Gavin viu todas as peças antigas irremediavelmente destruídas. Os
cacos de cerâmica reduzidos quase a pó. Os altos-relevos de pedra destruídos; a laje
do túmulo de Flavinus, o porta-estandarte, era um monte de cacos.
— Quem fez isto?
— Fui eu — disse Reynolds.
— Por quê?
Andando com dificuldade no meio da destruição, ele foi até a janela, abriu um pouco
a cortina e espiou para fora.
— Ele vai voltar, você sabe — disse, ignorando a pergunta.
Gavin insistiu.
— Por que destruiu tudo?
— É doentia — disse Reynolds — a necessidade de viver no passado.
Voltou-se para a sala.
— Eu roubei a maior parte dessas peças durante muitos anos. Deram-me um cargo
de confiança, e eu abusei dele.
Chutou um monte de entulho, e a poeira subiu no ar.
— Flavinus viveu e morreu. Isso é tudo. Saber seu nome não significa coisa alguma.
Não o torna real outra vez. Ele está morto e feliz.
— E a estátua na banheira?
Reynolds conteve a respiração por alguns momentos, mentalmente vendo aquele
rosto pintado.
— Você pensou que fosse ele, não pensou? Quando bati na porta.
— Sim, pensei que havia terminado seu trabalho.
— Ele imita bem.
Reynolds fez um gesto afirmativo.
—Até onde posso entender sua natureza — disse ele —, sim, ele imita bem.
— Onde você o encontrou?
— Perto de Carlisle. Eu era o encarregado da escavação. Nós o encontramos na
sala de banhos, uma estátua, enrolada como uma bola ao lado dos restos de um
homem adulto. Um enigma. Um homem morto e uma estátua, deitados lado a lado,
numa casa de banhos. Não pergunte o que me atraiu para aquela coisa, eu não sei.
Talvez ele imponha sua vontade através de nossas mentes, tanto quanto do físico. Eu a
roubei e a trouxe para cá.
— E a alimentou?
Reynolds ficou rígido.
— Não pergunte.
— Estou perguntando. Você a alimentou?
— Sim.
—Você pretendia me sangrar, não é? Por isso me trouxe para cá, para me matar e
deixar que ele se banhasse...
Gavin lembrou o barulho dos punhos da criatura dentro da banheira, aquela exigência
furiosa por comida, como uma criança batendo nas grades do berço. Estivera tão perto
de ser sacrificado como um cordeiro!
— Por que ele não me atacou como atacou você? Por que não pulou da banheira e
tomou meu sangue?
Reynolds passou a palma da mão na boca.
— Ele viu seu rosto, é claro.
É claro. Viu meu rosto e quis apossar-se dele, não podia ter o rosto de um homem
morto, por isso me poupou. A lógica do seu modo de agir era fascinante, agora que
entendia. Gavin experimentou uma pitada da paixão de Reynolds por desvendar
mistérios.
— O homem na casa de banhos. O que vocês descobriram.
— Sim...?
— Ele o impediu de fazer a mesma coisa a ele, certo?
— Provavelmente por isso seu corpo nunca foi removido, apenas selado. Ninguém
compreendeu que ele morreu lutando com a criatura que queria roubar sua vida.
O quadro estava quase completo, só faltava responder à sua revolta.
Este homem esteve prestes a matá-lo para alimentar a estátua. A fúria de Gavin
explodiu. Agarrou a camisa e a pele de Reynolds e sacudiu-o. Seriam os ossos ou os
dentes chocalhando?
— Ele quase tomou meu rosto. — Fitou os olhos injetados de Reynolds. — O que
acontece quando ele conseguir terminar o trabalho?
— Eu não sei.
— Diga-me o pior. Diga-me!
— Tudo é suposição.
— Pois adivinhe!
— Quando ele terminar a imitação do corpo físico, acho que irá roubar a única coisa
que não pode imitar, sua alma.
Reynolds não sentia mais medo de Gavin. Sua voz estava doce, como se falasse a
um condenado. Chegou a sorrir.
— Escroto!
Gavin puxou o rosto de Reynolds para junto do seu. Os perdigotos brancos pintaram
o rosto do homem.
— Você não se importa! Não liga a mínima, certo?
Começou a esmurrar o rosto de Reynolds, uma, duas vezes, outra vez mais, até
ficar sem fôlego.
O velho suportou o castigo em silêncio, oferecendo ora uma, ora a outra face, o
sangue desaparecendo dos olhos vermelhos, só para voltar outra vez.
Finalmente, Gavin parou.
Reynolds, de joelhos, começou a tirar pedaços de dentes da boca.
— Eu mereci isso — murmurou.
— Como se pode impedi-lo? — perguntou Gavin.
Reynolds balançou a cabeça.
— Impossível — murmurou, puxando a mão de Gavin. — Por favor — disse, e,
segurando o pulso, abriu os dedos e beijou a palma da mão.
Gavin deixou Reynolds no meio das ruínas de Roma e saiu para a rua. Sabia agora
pouco mais do que antes. A única coisa que podia fazer era encontrar o animal que
possuía sua beleza e acabar com ele. Se falhasse, perderia seu único atributo certo,
um rosto maravilhoso. Essa conversa de alma e humanidade nada significava para ele.
Queria seu rosto.
Atravessou Kensington com passo decidido. Depois de tantos anos como vítima das
circunstâncias, via a circunstância personificada, finalmente. Daria sentido a ela ou
morreria tentando.
No apartamento, Reynolds abriu a cortina para ver o quadro da noite caindo sobre o
quadro da cidade.
Não viveria aquela noite, não caminharia mais por aquela cidade. Fechou a cortina e
apanhou a espada curta. Encostou a ponta no peito.
"Vamos", murmurou para si mesmo e para a espada, apertando o punho da arma.
Mas a dor de alguns centímetros da lâmina em seu corpo foi bastante para atordoá-lo.
Sabia que ia desmaiar antes de terminar a tarefa. Então, foi até a parede, encostou
nela o punho da espada e deixou-se empalar pelo peso do próprio corpo. Foi o
bastante. Não sabia se a espada o havia trespassado completamente, mas, com a
quantidade de sangue que estava perdendo, na certa morreria. Tentou girar o corpo
para que a lâmina penetrasse mais profundamente, mas não conseguiu e caiu de lado.
O impacto o fez sentir a espada dentro do corpo, uma presença rígida e cruel que o
transfixava completamente.
Levou mais de dez minutos para morrer, mas, durante esse tempo, descontando a
dor, estava satisfeito. Fossem quais fossem as falhas cometidas em seus cinquenta e
sete anos, e eram muitas, sentia que estava morrendo de um modo que não
envergonharia seu adorado Flavinus.
Quase no fim começou a chover, e as batidas das gotas no telhado fizeram-no
imaginar que Deus estava enterrando a casa, selando seu corpo para sempre. E o
momento final chegou com uma esplêndida ilusão. Uma luz, acompanhada por vozes,
pareceu surgir da parede. Fantasmas do futuro escavando sua história. Sorriu para
recebê-los e ia perguntar em que ano estavam quando compreendeu que morrera.
A criatura era muito melhor na tática de evitar Gavin do que este na de encontrá-la.
Três dias haviam passado sem que Gavin visse sequer um sinal dela.
Porém, o fato da sua presença, próxima, mas nunca demais, era inegável. Num bar,
alguém dizia: "Vi você ontem à noite em Edgware Road", quando Gavin não estivera
nem perto, ou "Então, como se saiu com o árabe?", ou, ainda, "Não fala mais com os
amigos?"
E, por Deus, Gavin começava a gostar daquela sensação. A preocupação foi
substituída por um prazer que não conhecia desde os dois anos de idade: tranquilidade.
E daí, se alguém estava fazendo seu trabalho, iludindo a polícia e o pessoal da rua?
E daí, se seus amigos (que amigos, sanguessugas) estavam sendo ignorados por sua
cópia orgulhosa? E daí, se sua vida estava sendo roubada e usada completamente em
seu lugar? Ele podia dormir sabendo que ele, ou alguma coisa tão parecida com ele
que não se percebia a diferença, estava acordada à noite e sendo adorada. Começou
a ver a criatura, não como um monstro aterrorizador, mas como seu instrumento, quase
como sua persona. A criatura era a substância; ele, a sombra.
Acordou, sonhando.
Eram quatro e quinze da tarde, e era intenso o barulho do tráfego na rua. Um quarto
quase escuro, o ar tão respirado e re-respirado e respirado outra vez, que cheirava a
pulmão. Fazia mais de uma semana que deixara Reynolds nas ruínas e, durante esse
tempo, só três vezes aventurara-se a sair do pequeno apartamento de quarto, cozinha
e banheiro. O sono era mais importante agora do que comida ou exercício. Tinha droga
bastante para sentir-se feliz, caso o sono não viesse, o que era raro, e agora gostava
do ar viciado, da faixa de luz através da cortina da janela, da sensação de um mundo,
em algum lugar, do qual ele não fazia parte.
Pensara, hoje, em sair para respirar um pouco de ar fresco, mas não sentia
disposição. Talvez mais tarde, muito mais tarde, quando os bares começassem a
esvaziar e ninguém o notasse; talvez saísse do casulo para ver o que havia para ser
visto. Por enquanto, havia os sonhos...
Água.
Sonhou com água. Estava sentado ao lado de um lago cheio de peixes, em Fort
Lauderdale. E o ruído molhado dos saltos e mergulhos dos peixes continuava, como
que derramando-se do sonho. Ou seria o contrário? Sim, ouvira água correndo
enquanto dormia, e o sonho criou um quadro para acompanhar o que ouvia. Agora,
acordado, o som continuava.
Vinha do banheiro e não estava escorrendo; alguém chapinhava na água. Alguém
havia invadido o apartamento enquanto ele dormia e estava tomando banho. Examinou
mentalmente a lista dos possíveis intrusos, os poucos que sabiam onde ele se
encontrava. Paul, um prostituto que tinha dormido no chão duas noites antes. Havia
Chink, o traficante, e uma mulher do andar de baixo que ele achava que se chamava
Michelle. A quem queria enganar? Nenhum deles teria arrombado a porta para entrar.
Sabia muito bem quem era. Estava só fazendo um jogo, sentindo prazer no processo
de eliminação, antes de chegar à única possibilidade real.
Ansioso pelo reencontro, deslizou para fora do casulo de lençol e edredom. Ao
contato do ar, seu corpo transformou-se numa coluna arrepiada de frio, e a ereção do
sono desapareceu. Atravessou o quarto para apanhar o roupão dependurado atrás da
porta e viu-se no espelho, uma moldura gelada para um filme de terror, um arremedo
de homem, encolhido pelo frio, iluminado pela luz fraca e indecisa. Tão insubstancial
que a imagem parecia bruxulear no espelho.
Vestiu o roupão, a única peça de roupa comprada recentemente, e foi até a porta do
banheiro. Não ouviu nenhum ruído. Abriu a porta.
O chão de plástico estava gelado sob seus pés nus, e tudo que ele queria era ver
seu amigo e voltar para a cama. Mas devia mais do que isso ao que restava de sua
curiosidade. Queria fazer perguntas.
A luz que passava através do vidro opaco havia enfraquecido consideravelmente nos
três últimos minutos, e o começo da noite e o prenúncio de uma tempestade
congelavam a obscuridade. A banheira estava cheia quase até a borda com água
oleosa, calma e escura. Como da primeira vez, nada apareceu na superfície. A coisa
estava escondida no fundo.
Há quanto tempo se havia aproximado de uma banheira verde-claro num banheiro
verde claro, e espiado para o fundo da água? Podia ter sido ontem. Sua vida, desde
então, transformara-se numa longa noite. Olhou para a água. Lá estava a coisa,
deitada, como antes, dormindo toda vestida como se não tivesse tido tempo de tirar a
roupa antes de se esconder. A cabeça, antes calva, estava coberta de fartos cabelos,
e os traços do rosto, completos. Não havia nem sinal do rosto pintado. Aquela coisa
tinha uma beleza plástica que era Gavin, exatamente Gavin. As mãos perfeitas estavam
cruzadas sobre o peito.
A noite adiantava-se. Não podia fazer nada além de ver a coisa dormir, e Gavin logo
se cansou da espera. Ele o havia seguido até ali, certamente não iria fugir agora. Gavin
podia voltar para a cama. Lá fora, a chuva diminuía o ritmo dos que voltavam para
casa. Alguns acidentes, motores aquecidos demais, corações também. Gavin ouvia a
vida. O sono ia e vinha. No meio da noite, acordou com sede. Estava sonhando com
água e ouvia o som na banheira, como antes. A criatura estava saindo do banho,
segurando a maçaneta da porta, abrindo.
Lá estava ele. A única luz do quarto era a que vinha da rua e mal dava para iluminar
o visitante.
— Gavin? Está acordado?
— Estou.
— Quer me ajudar? — pediu ele. Não havia o menor sinal de ameaça na voz. Era
como um irmão pedindo a ajuda de outro.
— O que você quer?
— Tempo para me curar.
— Curar?
— Acenda a luz.
Gavin acendeu a lâmpada de cabeceira e olhou para o vulto na porta. Os braços
cruzados, dentro da banheira, escondiam um enorme ferimento a bala, no peito. A
carne estava dilacerada, revelando as entranhas pálidas. Não sangrava, é claro, ele
jamais sangraria. De onde estava, Gavin não via nada que se parecesse com a
anatomia humana dentro daquele corpo.
— Meu Deus — disse ele.
— Preetorius tem amigos — disse o outro, tocando as bordas do ferimento. Gavin
lembrou-se de um quadro na parede da casa de sua mãe. Cristo em toda a sua glória
— o Sagrado Coração flutuando dentro do Salvador —, e os dedos, apontando para a
agonia sofrida, diziam: "Isto é para você."
— Por que você não está morto?
— Porque ainda não estou vivo — disse a coisa.
Ainda não, lembre-se disso, pensou Gavin. Insinuação de mortalidade.
— Sente dor?
— Não — disse a coisa tristemente, como se desejasse sentir. — Não sinto nada.
Todos os sinais de vida são artificiais. Mas estou aprendendo. — Sorriu. — Aprendi a
bocejar e a arrotar.
A ideia era absurda e patética. O arroto, uma falha do sistema digestivo,
considerado como sinal precioso de humanidade.
— E o ferimento?
— ... está fechando. Com o tempo, estará completamente fechado.
Gavin ficou calado.
— Sente nojo de mim? — perguntou com voz inexpressiva.
— Não.
A coisa olhava para ele com olhos perfeitos, idênticos aos seus.
— O que foi que Reynolds lhe contou?
Gavin deu de ombros.
— Pouca coisa.
— Disse que sou um monstro? Que sugo o espírito humano?
— Não exatamente.
— Mais ou menos?
— Mais ou menos — admitiu Gavin.
A coisa fez um gesto afirmativo.
—Ele está certo. A seu modo, está certo. Eu preciso de sangue e isso faz de mim
um monstro. Na minha juventude, um mês atrás, eu me banhei em sangue. A madeira
adquiriu a aparência de carne. Mas não preciso mais, o processo está quase
terminado. Só preciso agora...
Hesitou, não porque ia mentir, pensou Gavin, mas porque não encontrava palavras
para descrever sua condição.
— Do que você precisa? — insistiu Gavin.
O outro balançou a cabeça, olhando para o tapete.
—Já vivi várias vezes, você sabe. Em certas ocasiões, roubei vidas e consegui o
que queria. Vivi por um tempo normal, depois desfiz-me do rosto que estava usando e
encontrei outro. Às vezes, como na última, fui desafiado e perdi...
— Você é uma espécie de máquina?
— Não.
— O que é, então?
— Sou o que sou. Não conheço nenhum outro igual a mim, mas por que devo ser o
único? Talvez existam outros, muitos outros, só que eu não os encontrei ainda. Assim,
eu vivo e morro e vivo outra vez, e não aprendo nada — falou com amargura — a meu
respeito. Você compreende? Você sabe o que é, porque vê outros iguais. Se estivesse
sozinho na terra, como ia saber o que era? Só o que o espelho pode mostrar. O resto
seria mito e conjectura.
O resumo foi feito sem nenhum sentimento.
— Posso me deitar? — perguntou a coisa.
Caminhou para a cama, e Gavin pôde ver o movimento adejante na cavidade
torácica, as formas inquietas e incoerentes, que começavam a se formar, no lugar do
coração. Com um suspiro, a coisa deitou-se de bruços na cama, com as roupas
encharcadas, e fechou os olhos.
— Vamos ficar bons. Só precisamos de tempo — disse.
Gavin foi até a porta do apartamento e a trancou. Depois, encostou a mesa sob a
maçaneta. Ninguém podia entrar e atacar a coisa enquanto ela dormia. Ficariam ali,
juntos e a salvo, ele e ele mesmo. Com a segurança garantida, fez café e, sentado na
cadeira, na outra extremidade do quarto, ficou vigiando o sono da criatura.
A chuva chicoteou violentamente a janela durante uma hora, depois amainou. Folhas
molhadas, levadas pelo vento, grudavam no vidro como mariposas curiosas. Gavin
olhava para elas uma vez ou outra, mas logo precisava voltar a olhar para ele mesmo,
para a beleza casual do braço estendido, o reflexo da luz dançando no pulso, as
pestanas. Mais ou menos à meia-noite, adormeceu na cadeira, ouvindo o uivo de uma
ambulância na rua e a chuva que voltava, violenta.
A cadeira não era confortável, e, a cada dois ou três minutos, Gavin acordava, sem
abrir completamente os olhos. A criatura estava de pé, ora ao lado da janela, ora na
frente do espelho, ou, ainda, na cozinha. A água jorrou. Ele sonhou com água. A
criatura despiu-se. Ele sonhou com sexo. Parou ao lado dele, com o peito intato, e
Gavin sentiu-se seguro com sua presença. Sonhou, por um instante apenas, que estava
sendo erguido da rua para a janela do céu. A criatura vestiu suas roupas, e ele
murmurou seu assentimento àquele furto, sem acordar. A criatura estava assobiando, e
havia uma ameaça de dia no vidro da janela, mas Gavin estava muito sonolento para se
levantar e satisfeito com a ideia de deixar que o jovem com suas roupas vivesse por
ele.
Finalmente, a criatura inclinou-se ao lado da cadeira e o beijou nos lábios, um beijo
de irmão, e saiu. Gavin ouviu quando ela bateu a porta.
Depois disso, houve dias, ele não sabia ao certo quantos, em que ficou no quarto,
sem fazer outra coisa a não ser tomar água. Era uma sede insaciável. Tomar água e
dormir, tomar água e dormir, luas gêmeas.
Nos primeiros dias, a cama estava molhada no lugar em que a criatura havia
dormido, e Gavin, muito cansado para trocar os lençóis. Na verdade, sentia prazer
naquela umidade que seu corpo absorvera depressa demais. Então, Gavin tomou
banho na água usada pela criatura e voltou para a cama encharcado, arrepiado de frio,
envolto no cheiro de bolor. Mais tarde, indiferente demais para se mover, esvaziou a
bexiga na cama, e aquela água, depois de algum tempo, ficou fria, até secar com o
calor de seu corpo.
Mas, por algum motivo, a despeito do quarto gelado, de sua nudez e sua fome,
Gavin não podia morrer.
Levantou no meio da sexta ou sétima noite e sentou na beirada da cama, procurando
descobrir a falha. Sem conseguir, começou a agitar-se no quarto, como a criatura
fizera dias atrás, ficando de pé na frente do espelho para examinar seu corpo
dolorosamente mudado, chegando à janela para olhar a neve que caía e derretia no
parapeito.
Finalmente, por acaso, encontrou a fotografia dos pais que, lembrava-se agora, a
criatura havia examinado. Ou fora sonho? Não. Tinha certeza de que a vira examinar a
fotografia.
Era, evidentemente, o obstáculo ao seu suicídio. Honras deviam ser prestadas.
Antes disso, como podia morrer?
Gavin caminhou para o cemitério, patinhando na neve derretida e suja, vestindo
apenas calça e camiseta. As observações das mulheres de meia idade e das crianças
pequenas foram ignoradas. Só interessava a ele o fato de morrer de pneumonia por
andar assim na rua. A chuva ia e vinha, às vezes mais espessa, tentando virar neve,
mas nunca realizando essa ambição.
Uma fileira de carros de diversas cores, parada na frente da igreja, indicava que
estava sendo realizada uma cerimônia. Gavin entrou pelo lado, no cemitério, famoso
pela bela vista, prejudicada nesse dia pela cortina de chuva gelada, mas ele via os
trens e os prédios altos de apartamentos, as fileiras infindáveis de telhados. Caminhou
entre as lápides, sem saber ao certo onde estava o túmulo do pai. Sua morte fora há
dezesseis anos e de modo algum memorável. Ninguém disse coisa alguma que valesse
a pena sobre a morte, em geral, nem sobre a morte de seu pai, especificamente; não
houve sequer uma ou duas gafes sociais para marcar o dia. Nenhuma tia arrotou na
mesa do bufê, nenhuma prima levou-o para o canto a fim de exibir o corpo.
Gavin imaginou se o resto da família alguma vez visitava o cemitério, se ainda
moravam no país. Sua irmã estava sempre falando em se mudar para a Nova Zelândia
e começar vida nova. Sua mãe, provavelmente, estava no quarto marido, pobre
homem, embora talvez ela fosse digna de pena, disfarçando o pânico com seu
tagarelar contínuo.
Ali estava a lápide. Sim, havia flores frescas na urna de mármore sobre os pequenos
azulejos de mármore verde. O velho não dormia ali esquecido. Obviamente, alguém,
sua irmã talvez, havia procurado consolo com o Pai. Gavin passou os dedos pelo nome,
pela data, pela frase feita. Nada excepcional, o que era o certo, porque não havia nada
de excepcional em seu pai.
Olhando para a pedra, as palavras saíram quase sem que ele percebesse, como se
o pai estivesse sentado na beirada do túmulo, balançando as pernas, penteando o
cabelo com os dedos, fingindo, como sempre fazia, que realmente se importava com
alguma coisa.
— Então, o que você acha?
O pai não parecia impressionado.
— Não sou grande coisa, sou? — perguntou Gavin.
Concordo com você, meu filho.
— Bem, sempre tive cuidado, como me ensinou. Nenhum filho da mãe anda por aí à
minha procura.
Estou muito satisfeito com isso.
— Não encontrariam muita coisa, certo?
O pai assoou o nariz, passando o lenço três vezes para limpá-lo. A primeira, da
esquerda para a direita; outra vez, da esquerda para a direita; e a última, da esquerda
para a direita. Sempre igual. Então, ele desapareceu.
— Seu velho monte de merda.
Um trem de brinquedo apitou, e Gavin ergueu os olhos. Lá estava ele—ele próprio—
de pé, completamente imóvel a poucos metros, com a roupa de Gavin, que havia
apanhado há uma semana no apartamento. Estava amarrotada e suja. Mas a carne!
Oh, era mais radiante do que a sua jamais fora. Quase brilhava na luz incerta do dia
chuvoso, e as lágrimas nas faces do seu fantasma davam maior encanto aos traços.
— Qual é o problema? — perguntou Gavin.
— Sempre que venho aqui, sinto vontade de chorar. — Caminhou para Gavin
passando por cima dos túmulos, os passos estalando no cascalho, deslizando na
grama. Tão real.
— Esteve aqui antes?
— Oh, sim, muitas vezes, através dos anos...
Através dos anos? O que ele queria dizer com "através dos anos"? Fora lamentar ali
as pessoas que havia matado?
Como que respondendo, a criatura disse:
— Venho visitar papai. Duas, três vezes por ano.
— Este não é seu pai — disse Gavin, quase achando graça na ilusão. — É meu.
— Não vejo lágrimas em seu rosto — disse o outro.
— Eu sinto...
—Nada—disse seu rosto.—Para ser sincero, você não sente coisa alguma.
Era verdade.
— Ao passo que eu... — as lágrimas assomaram outra vez, o nariz começou a
escorrer — ... eu sentirei falta dele até o dia da minha morte.
Certamente a criatura estava representando, mas, então, por que tanto sofrimento
em seus olhos e por que o rosto se enfeava, contraindo-se com o choro? Gavin
raramente chorava. As lágrimas faziam-no sentir-se fraco e ridículo. Mas aquela coisa
orgulhava-se das próprias lágrimas, glorificava-se nelas. Eram o seu triunfo.
E, mesmo então, percebendo que a criatura o havia dominado completamente,
Gavin não conseguia sentir nada que parecesse sofrimento.
— Fique com tudo — disse ele. — Fique com o ranho. Faça bom proveito.
A criatura mal ouvia.
— Por que tudo é tão doloroso? —* perguntou ela, depois de uma pausa. — Por que
é a dor da perda que me faz humano?
Gavin deu de ombros. O que ele sabia sobre a fina arte de ser humano? A criatura
limpou o nariz com a manga, fungou e tentou sorrir no meio do sofrimento.
— Desculpe — disse ela. — Estou fazendo papel de idiota. Por favor, perdoe-me.
Respirou fundo, tentando controlar-se.
— Tudo bem — disse Gavin. Aquela demonstração embaraçava-o, e só queria sair
dali.—
Suas flores? — perguntou, dando as costas ao túmulo.
A criatura fez um gesto afirmativo.
— Ah.
— Mesmo assim, ele não sabe de nada.
Nem olhou outra vez para a estátua. Deu meia-volta e caminhou pela passagem ao
lado da igreja. Então, a coisa perguntou:
— Pode me indicar um dentista?
Com um largo sorriso, Gavin seguiu seu caminho.
Era quase a hora do rush. A avenida que passava na frente da igreja estava
apinhada de carros velozes. Talvez fosse sexta-feira, e todos queriam chegar mais
cedo em casa. As luzes brilhavam, as buzinas tocavam.
Gavin saiu da calçada para o meio do tráfego, sem olhar para os lados, ignorando
as freadas, os palavrões, e começou a andar entre os cairos, como se estivesse num
campo aberto.
O para-lama de um carro raspou sua perna, outro quase colidiu com ele. Aquela
ansiedade para chegar ao lugar do qual logo estariam ansiosos para partir era ridícula.
Deixe que praguejem, que o odeiem, que vejam seu rosto sem formas e sigam para
casa, assombrados. Se as circunstâncias fossem favoráveis, talvez um deles entrasse
em pânico e, em vez de desviar, o atropelasse. Qualquer coisa estava bem. Daquele
momento em diante, ele pertencia ao acaso, do qual seria o Porta-Estandarte para
sempre.
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