Podia-se sentir o cheiro dos garotos antes de vê-los, o suor jovem entranhado
nos corredores com janelas gradeadas, o hálito azedo confinado, as cabeças mal
lavadas. Então, suas vozes, reprimidas pelas regras do confinamento, puderam ser
ouvidas.
Não corram! Não gritem! Não assobiem! Não briguem! chamava-se Centro de
Remanejamento para Menores Delinqüentes, mas na prática era mais uma maldita
prisão. Havia cadeados e chaves e carcereiros. Os gestos de liberalidade eram poucos
e infreqüentes, e não disfarçavam a verdade; Tetherdowne era uma prisão, apesar do
nome suave, e os seus ocupantes sabiam disso.
Não que Redman tivesse qualquer ilusão a respeito dos seus futuros alunos. Eram
durões e estavam presos por algum motivo. A maior parte era capaz de roubar
qualquer um que se aproximasse deles; de aleijar se tivesse vontade. Redman estava
há muitos anos na força para acreditar na mentira sociológica. Conhecia as vítimas,
conhecia os garotos. Não eram retardados mal-compreendidos, eram espertos, de
mentes rápidas e amorais, como as lâminas que escondiam sob as línguas. Sentimento
não tinha qualquer utilidade para eles, só queriam sair dali.
Bem-vindo a Tetherdowne.
O nome dela era Leverton Leverfall ou...
— Sou a Dra. Leverthal.
Leverthal, sim, era isso. A cadela perigosa que tinha conhecido em...
— Conhecemo-nos na entrevista.
— Sim.
— Estamos satisfeitos com sua presença, Sr. Redman.
— Neil; por favor, me chame de Neil.
— Procuramos não usar primeiros nomes na frente dos garotos, para que não
tenham a impressão de se aproximar de nossas vidas privadas. Portanto, prefiro que
deixe os nomes de batismo para as horas de folga.
A doutora não disse qual era seu primeiro nome. Provavelmente alguma coisa
fria. Ivone. Lídia. Ele inventaria algo adequado. Ela parecia ter cinqüenta anos e talvez
tivesse dez menos. Não usava maquilagem, e o cabelo era tão puxado para trás que só
por milagre os olhos não saltavam das órbitas.
— Vai começar a lecionar depois de amanhã. O superintendente pediu-me que
lhe desse as boas-vindas em seu nome e apresentasse suas desculpas por não estar
presente. Tem de tratar de problemas de fundos para a instituição.
— O eterno problema.
— Infelizmente sim. Estamos remando contra a maré; a atitude geral do país é
muito orientada para a Lei e a Ordem.
O que queria dizer exatamente a frase elegante? Castigue duramente qualquer
garoto apanhado atravessando a rua com o sinal fechado? Sim, ele também pensara
assim há muitos anos, e se vira num obsceno beco sem saída, tão ruim quanto ser
sentimental.
— O fato é que podemos perder Tetherdowne — disse ela —, o que será uma
pena. Sei que não parece grande coisa...
...mas é nosso lar — disse ele rindo. A piada caiu no vazio. Ela pareceu nem ter
ouvido.
— Você — a voz dele ficou mais áspera — você tem uma sólida experiência (teria
ela dito insólita?) na área. Esperamos que sua indicação seja bem recebida pelas
autoridades que mantêm a instituição.
Então era isso. Ex-policial serve de símbolo para aplacar os poderes vigentes,
para mostrar energia no departamento de disciplina. Na verdade ele não era bem o que
eles desejavam. Queriam um sociólogo que redigisse relatórios sobre o efeito do
sistema de classes na brutalidade dos adolescentes. Calmamente, ela lhe estava
dizendo que estava deslocado ali.
— Eu lhe disse por que deixei a polícia.
— Sim, mencionou alguma coisa. Invalidez, não foi?
— Não quis um trabalho de escritório, só isso; e não quiseram que eu continuasse
fazendo o que faço melhor. Seria perigoso para mim, segundo alguns.
Ela aparentemente ficou um tanto embaraçada com a explicação. Como psicóloga
que era, devia estar devorando suas palavras. Redman estava suas mágoas mais
íntimas. Que diabo, estava sendo sincero.
— Assim, fui posto na rua depois de vinte e quatro anos — hesitou e depois disse
— não sou um policial simbólico, nem sou também um policial típico. A força e eu nos
separamos. Compreende o que estou dizendo?
— Ótimo, ótimo. — Ela não entendia nem uma maldita palavra. Redman tentou
outra abordagem.
— Gostaria de saber o que disseram aos garotos.
— O que disseram?
— A meu respeito.
— Bem, alguma coisa da sua carreira.
— Entendo. — Então tinham sido avisados. Aí vêm os porcos
— Achamos que era importante.
Ele rosnou.
— Compreenda, muitos desses garotos têm problemas de agressividade. E uma
fonte de dificuldades para muitos deles. Não podem se controlar, portanto, sofrem.
Redman nada disse, mas a mulher olhou severamente para ele, como se tivesse
apresentado alguma objeção.
— Oh, sim, eles sofrem. Por isso nos esforçamos tanto para demonstrar
interesse por sua situação, procuramos mostrar que existem alternativas.
Ela foi até a janela. Do segundo andar tinham uma boa vista do terreno.
Tetherdowne tinha sido uma grande propriedade particular com muito terreno em volta.
Campo de esportes, a grama amarelada com a seca do verão. Mais adiante um grupo
de privadas externas, algumas árvores cansadas, arbustos, e depois só terra até o
muro. Redman tinha visto o muro do lado de fora. Alcatraz se orgulharia dele.
— Tentamos dar a eles um pouco de liberdade, um pouco de instrução e
simpatia. A idéia generalizada é de que os delinqüentes gostam das suas atividades
criminosas, não é mesmo? Mas não é o que diz minha experiência. Eles vêm a mim
com sentimento de culpa, arrasados...
Umas das vítimas arrasadas fez rapidamente um V com os dedos; às costas de
Leverthal, quando passou pelo corredor. Tinha o cabelo grudado na cabeça, com três
repartidos. Algumas tatuagens de implantação caseira, incompletas, no antebraço.
— Entretanto, cometeram atos criminosos — disse Redman.
— Sim, mas...
— E, sem dúvida, precisam não se esquecer disso.
— Acho que não precisam ser lembrados, Sr. Redman. Acho que se consomem
com sentimento de culpa.
Era uma entusiasta da culpa, o que não o surpreendeu. Esses analistas
assumiram os púlpitos, de onde costumavam falar os manuseadores da Bíblia, com
sermões antiquados sobre o fogo do inferno, mas com um vocabulário menos colorido.
Basicamente, porém, era a mesma história, completa com as promessas de cura, se
os rituais fossem observados. “E não se esqueçam: os justos herdarão o reino do céu.”
Redman viu que estava havendo uma perseguição no campo de esportes.
Perseguição e agora uma captura. Uma vítima estava com o pé sobre a outra vítima,
menor; um espetáculo impiedoso.
Leverthal viu a cena ao mesmo tempo em que Redman.
— Desculpe-me. Preciso...
Ela começou a descer a escada.
— Sua oficina fica na terceira porta à esquerda se quiser dar uma olhada — disse
ela, sobre o ombro. — Volto num minuto.
Uma ova que voltaria. A julgar pelo progresso da cena lá embaixo, seriam
necessárias três alavancas para separar os dois.
Redman foi até a. oficina. A porta estava trancada, mas através do vidro viu.as
bancadas, os tronos, as ferramentas. Nada mau. Podia até ensinar algum trabalho em
madeira, se lhe dessem tempo suficiente.
Um pouco frustrado por não poder entrar na oficina, voltou pelo corredor e
desceu a escada, encontrando facilmente o caminho para o campo ensolarado. Um
pequeno grupo de espectadores rodeava o lugar da luta, ou do massacre, que já tinha
terminado, Leverthal, de pé, olhava para o garoto no chão. Um dos guardas estava
ajoelhado perto da cabeça do menino; os ferimentos pareciam graves.
Alguns dos espectadores olharam para a cara nova quando Redman se
aproximou. Houve cochichos, alguns sorrisos.
Redman olhou para o garoto. Dezesseis anos talvez. Estava deitado com o rosto
no chão, como se escutasse alguma coisa na terra.
— Lacey — Leverthal disse o nome do menino.
— Está muito ferido?
O homem ajoelhado perto de Lacey balançou a cabeça;
— Não muito. Uma briguinha. Nada quebrado.
O rosto do garoto estava sujo de sangue que saía do nariz amassado. Os olhos
fechados. Tranqüilo. Era como se estivesse morto.
— Onde está a maldita maca? — disse o guarda. Evidentemente não se sentia
confortável, ajoelhado no chão duro.
— Estão vindo, senhor — disse alguém.
Redman achou que aquele era o agressor. Um garoto magro, dezenove anos
mais ou menos. O tipo de olhos que azeda o leite a vinte passos.
Um pequeno grupo de garotos saía agora do prédio principal, carregando uma
maca e um cobertor vermelho. Todos com um sorriso de orelha a orelha.
O grupo de espectadores começou a se dispersar, agora que o melhor tinha
terminado. Não era muito divertido apanhar os pedaços.
— Esperem, esperem — disse Redman — não vamos precisar de algumas
testemunhas? Quem fez isto?
Alguns descuidados erguer de ombros, mas a maioria deles fez-se de surda.
Afastaram-se lentamente, como se ninguém tivesse falado.
Redman disse:
— Nós vimos. Da janela.
Leverthal não ofereceu qualquer ajuda.
— Não vimos? — perguntou Redman, voltando-se para ela.
— Acho que estávamos muito longe para culpar alguém. Mas não quero mais ver
esse tipo de agressão, vocês entenderam?
Ela havia visto Lacey e o reconheceu de longe. Por que não o atacante também?
Redman culpou-se por não ter prestado atenção; sem nomes e personalidades para
completar os rostos, era difícil distinguir entre eles. O risco de uma acusação falsa era
grande, embora estivesse quase certo de que fora o garoto com olhos de azedar leite.
Não era hora de cometer erros, pensou. Tinha de deixar a coisa como estava.
Leverthal parecia indiferente â coisa toda.
— Lacey — disse ela em voz baixa — sempre Lacey.
— Ele pede para apanhar — disse um dos garotos que carregava a maca,
afastando uma mecha de cabelos louros dos olhos — ele não sabe das coisas.
Ignorando a observação, Leverthal orientou a colocação de Lacey na maca e
começou a andar para o prédio principal com Redman atrás dela. Tudo parecia tão
casual!—
Não é muito bom da cabeça, o Lacey — disse ela, quase como explicação; e
isso foi tudo. Nenhuma compaixão.
Redman olhou para trás quando enrolaram o cobertor vermelho no corpo imóvel
de Lacey. Duas coisas aconteceram, quase simultaneamente.
A primeira: alguém no grupo disse “aquele é o porco”
A segunda: Lacey abriu os olhos e os fixou em Redman, arregalados, claros e
reais.
Redman passou boa parte do dia seguinte arrumando a oficina. Muitas
ferramentas estavam quebradas ou danificadas por mãos inexperientes; serras sem
dentes, talhadeiras lascadas e sem corte, tornos quebrados. Ia precisar de dinheiro
para reabastecer a oficina com as ferramentas básicas da profissão, mas não era hora
de começar a fazer pedidos. Convinha esperar e fazer um trabalho decente. Conhecia
bem a política das instituições; a polícia estava cheia dela.
Às quatro e meia um sino começou a tocar, bem distante da oficina. Redman o
ignorou, mas, depois de algum tempo, o instinto o dominou. Sinos eram alarmes, e
alarmes eram tocados para alertar as pessoas. Deixou o trabalho de arrumação,
trancou a porta da oficina e seguiu seus ouvidos.
O sino estava tocando no que chamavam zombeteiramente de Unidade
Hospitalar, dois ou três quartos separados do bloco principal e decorados com alguns
quadros e cortinas. Não havia sinal de fumaça, portanto não se tratava de incêndio.
Mas ouviu gritos. Mais do que gritos. Verdadeiros uivos.
Apressou o passo nos corredores intermináveis e quando virou uma esquina,
caminhando na direção da Unidade, uma figura pequena colidiu com ele. O impacto
tirou o fôlego de ambos, mas Redman agarrou o garoto pelo braço, antes que ele
pudesse fugir. O menino reagiu rapidamente, chutando a canela de Redman com os
pés descalços. Mas Redman o segurou com firmeza.
— Me solta, seu filho da...
— Calma, calma!
Os perseguidores estavam próximos.
— Segura ele!
— Porra! Porra! Porra!
— Segura ele!
Era como lutar com um crocodilo; o garoto tinha toda a força do medo. Mas o
melhor da sua fúria tinha-se esgotado. As lágrimas inundavam-lhe os olhos contundidos,
enquanto cuspia no rosto de Redman. Era Lacey nos seus braços, Lacey, o de cabeça
não muito boa.
— Tudo bem. Nós o pegamos.
Redman recuou, cedendo a vez ao guarda que, com uma chave de braço, parecia
prestes a quebrar os ossos do rapaz. Três outras caras apareciam agora. Dois garotos
e um enfermeiro, uma criatura nada atraente.
— Me solta... Me solta... — Lacey gritava, mas tinha perdido toda a disposição
para a luta. A derrota punha um ar amuado no seu rosto, mas os olhos bovinos
voltaram-se acusadores para Redman, grandes e castanhos. Parecia ter menos de
dezesseis anos, quase no início da adolescência. Tinha a sugestão de uma penugem no
tosto e um pouco entre as contusões e um curativo malfeito no nariz. Mas era um rosto
quase feminino, um rosto de virgem, do tempo em que ainda existiam virgens. Contudo,
lá estavam os olhos.
Leverthal apareceu, tarde demais para fazer qualquer coisa.
— O que está acontecendo?
O guarda falou com voz esganiçada. A corrida tinha acabado com seu fôlego e
sua paciência.
— Ele se trancou no banheiro. Tentou sair pela janela.
— Por quê?
A pergunta foi feita ao guarda, não ao garoto. Uma confusão reveladora. O
guarda, embaraçado, deu de ombros.
— Por quê? — Redman repetiu a pergunta, dirigindo-se a Lacey.
O garoto olhava com vaguidão, como se não lhe tivessem feito qualquer
pergunta..
— Você que é o porco? — perguntou de repente, o ranho escorrendo do nariz.
— Porco?
— Ele quer dizer polícia — disse um dos garotos. A palavra foi dita com precisão
zombeteira, como se estivesse falando com um imbecil.
— Eu sei o que quer dizer, garoto — disse Redman, procurando ainda fazer
Lacey baixar os olhos. — Sei muito bem o que quer dizer.
— Você é?
— Fique quieto, Lacey — disse Leverthal — já arranjou muita encrenca.
— Sim, filho. Eu sou o porco.
A guerra de olhares continuou, uma batalha particular entre o garoto e o homem.
— Você não sabe de nada — disse Lacey. Não era uma observação maliciosa; o
garoto simplesmente estava contando sua versão da verdade. Não desviou os olhos.
— Tudo bem, Lacey, agora chega. — O guarda tentava arrastá-lo dali; a barriga
dele aparecia entre o paletó e a calça do pijama, uma abóbada macia de pele branca.
— Deixe ele falar — disse Redman. — O que é que eu não sei?
— Ele pode contar seu lado da história para o Superintendente — disse
Leverthal, antes que Lacey pudesse responder. — Não interessa a você.
Mas interessava muito. Aquele olhar fazia com que fosse da sua conta; tão
penetrante, tão trágico. Aquele olhar exigia que fosse da sua conta.
— Deixe o garoto falar — disse Redman, a autoridade. na sua voz calando
Leverthal. O guarda afrouxou um pouco a chave de braço.
— Por que tentou fugir, Lacey?
— Porque ele voltou.
— Quem voltou? Diga o nome Lacey. De quem está falando?
Durante alguns segundos, Redman percebeu que o garoto lutava contra um pacto
de silêncio; então o rapaz balançou a cabeça, desfazendo o intercâmbio elétrico entre
eles. Era como se tivesse perdido o caminho; uma espécie de perplexidade o
amordaçou.
— Não vai acontecer nada a você.
Lacey olhou para os pés, franzindo a testa.
— Quero voltar para a cama agora — disse. O pedido de uma virgem.
— Não vai acontecer nada, Lacey, eu prometo.
A promessa não pareceu surtir efeito; Lacey estava mudo. Mas, de qualquer
modo, era uma promessa, e Redman esperava que Lacey compreendesse isso. O
garoto parecia exausto pelo esforço da fuga malograda, da perseguição, e por ter
sustentado o olhar de Redman. Seu rosto estava pálido. Deixou que o guarda o virasse,
levando-o de volta à Unidade Hospitalar. Mas antes de virar a esquina do corredor,
aparentemente mudou de opinião; lutou para se libertar, não conseguiu, apenas ficou
de frente para seu interrogador outra vez.
— Henessey — ele disse, mais uma vez com os olhos nos de Redman.
E foi tudo. Desapareceu antes de poder dizer qualquer outra coisa.
— Henessey? — disse Redman, de repente sentindo-se um estranho. — Quem é
Henessey?
Leverthal estava acendendo um cigarro. Suas mãos tremiam levemente. Redman
não havia notado o tremor na véspera, mas não se surpreendeu. Não conhecia
psicanalista algum que não tivesse problemas particulares.
— O garoto está mentindo — disse ela. — Henessey não está mais conosco.
Uma pequena pausa. Redman nada disse. Só serviria para deixá-la nervosa.
— Lacey é esperto — continuou ela, levando o cigarro aos lábios sem cor. — Ele
conhece o ponto exato.
— Como?
— Você é novo aqui, e ele quer dar a impressão de ser dono de um mistério só
seu.
— Então, não é um mistério?
— Henessey? — ela fungou com desprezo. — Meu Deus, não. Ele fugiu da
custódia no começo de maio. Ele e Lacey... — Ela hesitou, contra a vontade — Havia
alguma coisa entre ele e Lacey. Drogas talvez, nunca descobrimos. Cheirar cola,
masturbação mútua, só Deus sabe o quê.
Sem dúvida o assunto era desagradável pára ela. A repugnância aparecia em
vários músculos tensos do seu rosto.
— Como foi que Henessey fugiu?
— Ainda não sabemos. Simplesmente não apareceu na chamada da manhã.
Revistamos o. lugar de cima a baixo. Mas ele tinha desaparecido.
— É possível que tenha voltado?
Uma risada genuína.
— Jesus, não. Ele odiava este lugar. Além disso, como ia entrar?
— Ele saiu.
Leverthal concedeu o ponto com um murmúrio.
— Ele não era muito inteligente, mas era astucioso. Não fiquei surpresa quando
demos por sua falta. Poucas semanas antes da fuga ele se fechou completamente. Eu
não conseguia uma palavra dele, mas até então costumava falar bastante.
— E Lacey?
— Completamente dominado pelo outro. É comum. Garoto mais novo adora o
mais velho, mais experiente. Lacey vem de um ambiente familiar muito instável.
Perfeito, pensou Redman. ‘tão perfeito que não acreditava numa só palavra.
Mentes humanas não eram quadros em exibição, numerados e postos na parede em
ordem de influência, um com a marca “Astucioso”, o seguinte “Impressionável”. Eram
sim rabiscos; borrifos espalhados de graffiti, imprevisíveis, que não podem ser
confinados.
E o garotinho Lacey? Esse era escrito sobre água.
As aulas começaram no dia seguinte, com um calor tão opressivo que a oficina,
às onze horas, era um verdadeiro forno. Mas os garotos responderam rapidamente ao
modo direto de Redman. Viam nele um homem que podiam respeitar, mesmo não
gostando dele. Não esperavam favores, e não receberam nenhum. Era um arranjo
estável.
De um modo geral. Redman achou o pessoal da instituição menos comunicativo
do que os garotos. Um bando estranho. Nenhum espírito forte entre eles, resolveu
Redman. A rotina de Tetherdowne, os rituais de classificação, de humilhação, pareciam
moer a todos, transformando-os em uma única espécie de cascalho. Passou a evitar
cada vez mais as conversas com seus iguais. A oficina era seu santuário, o lar longe do
lar, cheirando a madeira recém-cortada e a humanidade.
Só na segunda-feira seguinte um dos rapazes mencionou a fazenda.
Ninguém dissera a Redman que havia uma fazenda na instituição, e a idéia
parecia absurda.
— Quase ninguém vai lá agora — disse Creeley, um dos piores carpinteiros deste
mundo de Deus. — Ela fede.
Risos generalizados.
— Tudo bem, garotos, fiquem quietos.
As risadas pararam, com algumas piadinhas cochichadas no meio.
— Onde fica essa fazenda, Creeley?
— Não é uma fazenda de verdade, senhor — disse Creeley, mastigando a língua
(uma rotina incessante). — Só alguns barracos. E fedem, senhor. Especialmente
agora. Apontou, através da janela, para o terreno além do campo de esportes. Desde
que Redman o havia visto pela primeira vez, quando falava com Leverthal, o terreno
abandonado tinha brotado no calor escaldante, e estava mais cheio de mato do que
nunca. Creeley apontou para um distante muro de tijolos, quase completamente
escondido por um escudo de arbustos.
— Está vendo, senhor?
— Sim, estou vendo.
Mais risadinhas.
— Qual é a graça?— voltou-se para a classe. Uma dúzia de cabeças curvaramse
sobre o trabalho.
— Eu não iria até lá, senhor. Aquele muro é tão alto como a porra de uma pipa.
Creeley não estava exagerando. Mesmo no frescor do fim de tarde, o cheiro que
vinha da fazenda era de virar o estômago. Redman só teve de seguir o nariz, o campo
e passando pelos anexos. As construções que janela da oficina saíam do esconderijo
agora. Alguns barracos de ferro retorcido e madeira podre, um galinheiro e o chão de
tijolos era tudo que a fazenda tinha para oferecer. Como Creeley tinha dito, não era
bem uma fazenda. Era como fosse um pequeno Dachau doméstico, imundo e
abandonado. Obviamente alguém alimentava os poucos prisioneiros: galinhas, a meia
dúzia de gansos e os porcos, mas aparentemente não se davam ao trabalho de fazer
limpeza. Daí o cheiro de podridão. Os porcos, especialmente, viviam numa cama de
excremento, ilhas de esterco cozido ao sol com perfeição e povoadas por milhares de
moscas.
O chiqueiro propriamente dito dividia-se em dois compartimentos separados por
um alto muro de tijolos. Na parte anterior de um deles um leitão malhado estava deitado
na imundície, seu corpo cheio de parasitas e moscas. Outro, menor, podia ser visto na
parte mais escura da divisão, deitado na palha grossa de excremento. Nenhum dos
dois se interessou por Redman.
O outro compartimento parecia vazio.
Não havia excremento na parte da frente, descoberta, e era menor o número de
moscas entre a palha. Entretanto o cheiro acumulado de matéria fecal não era menos
penetrante, e Redman ia se afastar dali quando ouviu um barulho lã dentro, e um vulto
grande se levantou no escuro. Redman inclinou-se sobre a porta trancada de madeira,
ignorando o fedor por um ato de força de vontade e espiou para o interior do chiqueiro.
O porco saiu para vê-lo. Era três vezes maior do que os outros, uma vasta leitoa,
talvez a mãe dos leitões no outro compartimento. Mas, enquanto a cria era imunda, a
porca cintilava de limpeza, o corpo rosa escuro radiante de saúde. O tamanho dela
impressionou Redman. Devia ter o dobro do peso dele, calculou; uma criatura
formidável. A seu modo grosseiro, um animal com certo encanto, as pestanas douradas
e curvas e a penugem delicada no focinho, engrossando em cerdas em volta das
orelhas, e o olhar oleoso, atraente dos olhos marrons escuros.
Redman, um homem da cidade, raramente tivera oportunidade de ver a verdade
por detrás, ou anterior a carne no seu prato. Aquela porca maravilhosa era uma
revelação. A idéia pejorativa que sempre tivera sobre porcos, a fama que fazia daquele
nome sinônimo de imundície, tudo era desmentido por ela.
A porca era linda, desde o focinho fungador até o rabo em parafuso, uma
sedutora com patas de porco.
Os olhos do animal observaram Redman como um igual, ele estava certo disso,
admirando-o menos do que ele a admirava.
Ela estava segura de si, ele também. Eram iguais sob o céu brilhante.
De mais perto, o corpo dela tinha um cheiro adocicado. Evidentemente alguém a
havia escovado e alimentado naquela manhã. A manjedoura tinha ainda os restos da
comida da véspera. Intocados. A leitoa, pelo visto, não era gulosa.
Depois de algum tempo, ela aparentemente ficou satisfeita com a análise que
fizera e, roncando baixinho, virou-se nos pés ágeis e voltou para o interior mais fresco
do compartimento. A audiência estava terminada.
Naquela noite ele foi procurar Lacey. O garoto fora removido da Unidade
Hospitalar e estava sozinho num quarto. Aparentemente continuava a ser atormentado
pelos outros garotos no dormitório, e a alternativa era esse confinamento solitário.
Redman o encontrou sentado num tapete de velhas revistinhas infantis, olhando para a
parede. Os desenhos fortemente coloridos nas capas das revistas faziam seu rosto
parecer mais pálido do que nunca. Não tinha mais o curativo no nariz, e a equimose
começava a amarelar.
Redman apertou a mão de Lacey, e o garoto ergueu os olhos para ele. Olhos
muito diferentes agora. Lacey estava calmo, dócil mesmo. O aperto de mão, um ritual
introduzido por Redman sempre que encontrava os garotos fora da oficina, foi fraco.
— Você está bem?
O garoto fez um gesto afirmativo.
— Gosta de ficar sozinho?
— Sim, senhor.
— Logo vai ter de voltar ao dormitório.
Lacey balançou a cabeça.
— Não pode ficar aqui para sempre, sabe disso.
— Oh, eu sei, senhor.
— Terá de voltar.
Lacey fez outro gesto afirmativo. Era como se a lógica não tivesse penetrado seu
entendimento. Virou o canto de uma revistinha do Super-homem e olhou as figuras sem
atenção.
— Escute, Lacey. Quero me dar bem com você. Certo?
— Sim, senhor.
— Não posso ajudá-lo se você mentir para mim. Posso?
— Não.
— Por que mencionou o nome de Kevin Henessey na semana passada? Sei que
ele não está mais aqui. Ele fugiu, não foi?
Lacey olhou para o herói em três cores na revistinha.
— Não fugiu?
— Ele está aqui — disse Lacey em voz baixa.
O garoto de repente ficou confuso. Redman percebia pela voz e pelo rosto dele.
— Se ele fugiu, por que ia voltar? Para mim isso não faz muito sentido, o que
você acha?
Lacey balançou a cabeça. Os ferimentos no nariz abafavam as palavras, mas
elas saíram suficientemente claras.
— Ele nunca foi embora.
— O quê? Quer dizer que ele não fugiu?
— Ele é esperto, senhor. Não conhece Kevin. Ele é esperto.
Fechou a revista e olhou para Redman.
— Esperto como?
— Ele planejou tudo, senhor. Tudo.
— Tem de me explicar.
— Não vai acreditar em mim. Então isso é perder tempo, porque não vai mesmo
acreditar... Ele pode ouvir o senhor agora, ele está em toda parte. Não se importa com
paredes. Os mortos não se importam com essas coisas.
Morto. Uma pequena palavra, pouco maior do que vivo, mas que tirou o fôlego de
Redman.
— Ele pode ir e vir — disse Lacey — quando bem entender.
— Está dizendo que Henessey está morto? — perguntou Redman. Tome cuidado
Lacey!O garoto hesitou; sabia que estava numa corda bamba, arriscando-se a perder
seu protetor.
— O senhor prometeu — disse de repente, a voz fria como gelo.
— Prometi que nada de mal ia acontecer a você. Eu prometi e é verdade. Mas
isso não quer dizer que me pode contar mentiras, Lacey.
— Que mentiras, senhor?
— Henessey não está morto.
— Está, senhor. Todos sabem que está. Ele se enforcou. Lá no chiqueiro.
Redman já tinha ouvido muitas mentiras contadas por especialistas e consideravase
um bom juiz de mentirosos. Conhecia todos os sinais reveladores. Mas não via
nenhum no garoto. Ele estava dizendo a verdade. Redman sentia nos próprios ossos.
A verdade, toda a verdade, nada além da verdade.
Isso não significava que o que ele dizia era verdadeiro. Estava simplesmente
dizendo a verdade que ele via. Ele acreditava que Henessey estava morto. Isso nada
provava.
— Se Henessey estivesse morto...
— Ele está senhor.
— Se estivesse, como podia estar aqui?
O garoto olhou para Redman, sem qualquer traço de malícia no rosto.
— Não acredita em fantasmas, senhor?
A solução era tão transparente que deixou Redman confuso. Henessey estava
morto, mas Henessey estava ali. Logo, Henessey era um fantasma.
— Não acredita, senhor?
Não era uma pergunta retórica. Ele queria, não, ele exigia uma resposta razoável
para sua pergunta razoável.
— Não, garoto — disse Redman. — Não acredito.
Lacey aparentemente não se impressionou com o conflito de opiniões.
— Vai ver — disse simplesmente. — Vai ver.
No chiqueiro, ao final do terreno, a grande porca sem nome estava com fome.
Ela acompanhava o ritmo dos dias e, com sua progressão, os desejos cresciam.
Sabia que não era mais tempo para restos azedos de comida. Outros apetites haviam
substituído esses prazeres suínos.
Desde a primeira vez, adquiriu o gosto por alimento com uma certa textura, uma
certa ressonância. Não era exatamente comida o que exigia o tempo todo, só quando
sentia necessidade. Não pedia muito: uma vez ou outra, apetecia-lhe engolir a mão que
a alimentava.
Estava na porta da sua prisão, inquieta com a expectativa, esperando,
esperando. Bufava, rosnava, a impaciência transformando-se em fúria. No chiqueiro ao
lado, os filhos castrados, sentindo sua inquietação, agitavam-se. Conheciam a natureza
dela, sabiam que era perigosa. Afinal, tinha comido dois dos seus irmãos, vivos, novos,
molhados ainda do seu útero.
Ouviu, então, o barulho através do véu azul do cair da noite, o som suave da
passagem de alguém pelo mato rasteiro, acompanhado do murmúrio de vozes.
Dois garotos aproximavam-se do chiqueiro, tímidos e cuidadosos a cada passo.
Ela os deixava nervosos, o que era compreensível. As histórias dos seus truques eram
sem conta.
Por acaso ela não falava, quando irritada, com aquela voz possessa, contorcendo
a boca gorda, suma, para falar com língua de gente? Não ficava ás vezes de pé nas
patas traseiras, rosada e imperial, exigindo que os garotos menores fossem postos no
chiqueiro para mamar em suas tetas, nus, como se fossem crias suas? E por acaso
não batia com os cascos no chão até a comida que traziam estar cortada em petits
morceaux e posta na sua boca, segurada entre polegar e indicador trêmulos? Todas
essas coisas ela fazia.
E pior ainda.
Nessa noite, os garotos sabiam, não estavam levando o que ela queria. Não era a
carne a que tinha direito que estava no prato nas mãos deles. Não era a carne doce e
branca que havia pedido com aquela sua outra voz, a carne que, se ela quisesse,
poderia conseguir à força. Nessa noite a refeição era simplesmente bacon algo
passado, que fora roubado da cozinha. O alimento que ela realmente desejava, a carne
que fora perseguida e apavorada para alentar os músculos, depois batida como um bife
para seu deleite, essa carne estava sob proteção especial. Levaria algum tempo até
que eles pudessem levá-la ao abatedouro.
Enquanto isso esperavam que ela aceitasse suas desculpas e suas lágrimas e
que não os devorasse na sua fúria.
Um dos garotos tinha evacuado nas calças quando chegou ao chiqueiro, e a
porca sentiu o cheiro dele. Sua voz soou com timbre diferente, deliciando-se com o
estímulo do medo deles. Em vez do ronco baixo, ouviram uma nota mais alta, mais
quente. Dizia: eu sei, eu sei. Venham ser julgados. Eu sei, eu sei.
Ela os observou através das tábuas do portão, os olhos cintilando como pedras
preciosas na noite escura, mais brilhantes do que à noite, porque vivos, mais puros do
que à noite, porque cheios de desejo.
Os garotos ajoelharam-se perto do portão, as cabeças inclinadas para a frente,
em súplica, a travessa que dois deles seguravam coberta com um pedaço de pano fino
e manchado.
— Muito bem? — disse ela.
A voz era inconfundível para eles. A voz dele, saindo da boca da leitoa.
O mais velho, um garoto negro com lábio leporino, falou em voz baixa para os
olhos cintilantes, dominando o medo:
— Não é o que você queria. Desculpe-nos.
O outro garoto, pouco à vontade com a calça suja, murmurou desculpas também.
— Mas, vamos conseguir, vamos mesmo. Vamos trazê-lo logo, logo que for
possível.
— Por que não esta noite? — perguntou a porca.
— Ele está sendo protegido.
— Pelo novo professor. O Sr. Redman.
A porca aparentemente já sabia. Lembrou-se do confronto, do modo como ele a
havia olhado, como se ela fosse um espécime do zoológico. Então aquele era o inimigo,
aquele velho. Ela o teria também. Era mais do que certo.
Os garotos ouviram a promessa de vingança, satisfeitos porque o problema
estava fora das suas mãos.
— Dê a. carne para ela disse o garoto negro.
O outro levantou-se e tirou o pano da travessa. O bacon cheirava mal, mas a
porca mesmo assim fez ruídos úmidos de entusiasmo. Talvez ela os tivesse perdoado.
— Vamos, rápido.
O garoto segurou a primeira tira de bacon entre polegar e indicador e estendeu a
mão. A porca apanhou o bacon com o lado da boca e mastigou, mostrando os dentes
amarelados. Engoliu depressa.. O segundo, o terceiro, o quarto, o quinto, a mesma
coisa.
O sexto e último pedaço ela abocanhou com os dedos dele, com tamanha
elegância e rapidez que o garoto só gritou quando os dentes do animal se fecharam
sobre os dedos magros e ela os engoliu. Ele tirou a mão de cima do muro do chiqueiro,
olhando boquiaberto para a mutilação. Considerando as circunstâncias, o dano não era
muito grande. A ponta do polegar e metade do indicador tinham desaparecido. Os
ferimentos sangravam muito, sujando-lhe a camisa e os sapatos. A porca roncou e
bufou, aparentemente satisfeita.
O garoto deu um grito e correu:
— Amanhã disse a porca para o outro suplicante. —Não esta carne velha de
porco. Tem de ser branca. Branca e... rendada. — A porca achou ótima sua própria
piada.
— Sim — disse o garoto. Sim, é claro.
— Sem falta! — ordenou ela.
— Sim.
— Ou eu mesma vou buscar. Ouviu bem?
— Sim.
— Eu mesma vou buscar, onde quer que ele esteja escondido. Vou comê-lo na
cama, se quiser. Enquanto ele dorme, como seus pés, depois as pernas, depois seus
testículos, depois seus quadris...
— Sim, sim.
— Eu quero ele — disse a porca, raspando a palha com o casco. — Ele é meu.
— Henessey morto? — disse Leverthal, a cabeça abaixada, sem parar de
escrever um dos seus intermináveis relatórios. — Outra invenção. Uma hora o garoto
diz que ele está no Centro, na outra diz que está morto. Nem consegue inventar direito
uma história.
Era difícil argumentar com as contradições, a não ser aceitando a idéia dos
fantasmas, como acontecia com Lacey. De modo nenhum Redman ia discutir esse
assunto com a mulher. Essa parte era absurda. Fantasmas eram tolices; apenas
medos tornados visíveis. Mas a possibilidade do suicídio de Henessey fazia sentido
para Redman. Pressionou com esse argumento.
— Então, onde foi que Lacey arranjou essa história, sobre a morte de Henessey?
Uma invenção estranha...
Ela dignou-se a erguer os olhos, o rosto fechado como um caramujo na concha.
— Imaginações férteis são comuns por aqui. Se ouvisse as histórias que tenho
gravadas, o exotismo de algumas ia estourar seus miolos.
— Houve algum suicídio aqui?
— No meu tempo? — pensou por um momento, a caneta no ar. — Duas
tentativas. Nenhuma delas, eu acho, com a firme intenção de sucesso. Chamados de
socorro.
— Henessey foi um deles?
Com um pequeno sorriso irônico ela balançou a cabeça.
— Henessey era instável; mas de um modo completamente diferente. Pensava
que ia viver para sempre. Esse era seu pequeno sonho: Henessey, o Super.homem de
Nietsche. Tinha algo parecido com desprezo pelo rebanho comum. Na sua opinião, fazia
parte duma raça especial. Tão distante do resto de nós, meros mortais, quanto daquela
horrível...
Redman sabia que ela ia dizer leitoa, mas parou sem terminar a frase...
— ... aqueles pobres animais na fazenda — disse ela, olhando outra vez para o
relatório.
— Henessey passava muito tempo na fazenda?
— Não mais do que qualquer outro — mentiu ela. — Nenhum deles gosta do
trabalho da fazenda, mas faz parte das atribuições dos garotos. Limpar chiqueiro não é
uma ocupação agradável. Eu que o diga.
A mentira que de pronto havia reconhecido fez com que Redman não falasse do
último detalhe da história de Lacey, que a morte de Henessey tinha ocorrido no
chiqueiro. Deu de ombros e mudou de assunto.
— Lacey está tomando algum remédio?
— Alguns sedativos.
— Os garotos são sempre sedados depois de uma briga?
— Só quando tentam fugir. Não temos pessoal suficiente para supervisionar
garotos como Lacey. Não sei por que está tão preocupado.
— Quero que ele confie em mim. Eu prometi. Não quero desapontá-lo.
— Francamente, tudo isso está me parecendo proteção especial. O garoto é um
entre muitos. Não existem problemas únicos nem esperança especial de redenção.
— Redenção? — Uma palavra estranha.
— Reabilitação, seja lá como quiser chamar. Escute, Redman, vou ser franca. A
impressão geral é de que você realmente não está do nosso lado.
— Oh?
— Nós todos sentimos, e sei que isso inclui o Superintendente, que você devia
deixar que continuássemos o trabalho como estamos acostumados. Procure aprender
nossos métodos antes de começar a...
— Interferir.
Ela fez um gesto afirmativo.
— Uma palavra tão boa quanto outra qualquer. Você está fazendo inimigos.
— Obrigado pelo aviso.
— Este nosso trabalho já é difícil sem inimigos, acredite-me.
Ela tentou um olhar conciliatório que Redman ignorou. Com inimigos ele sabia
conviver, com mentirosos não.
A sala do Superintendente estava trancada há uma semana. Explicações sobre
seu paradeiro eram as mais diversas. Reuniões com as entidades financiadoras era a
favorita entre o pessoal do Centro, embora a secretária afirmasse que não sabia ao
certo. Estava havendo uma série de seminários na universidade, dirigida por ele, disse
alguém, para pesquisas que seriam úteis na solução dos problemas dos Centros.
Talvez o Superintendente estivesse assistindo aos seminários. Se o Sr. Redman
quisesse, podia deixar um recado, que seria transmitido ao chefão assim que possível.
Quando voltou para a oficina, Lacey estava â sua espera. Eram quase sete e
quinze da noite; as aulas haviam terminado há muito tempo.
O que está fazendo aqui?
Esperando, senhor.
— Esperando o que?
— O senhor. Queria entregar esta carta, senhor. Para minha mãe. Pode mandar
para ela?
— Pode mandar pelos canais normais, não pode? Dê-a a secretária, que ela a
envia para você. Sabe que tem direito a duas cartas por semana.
O rosto de Lacey se contraiu.
— Eles lêem as cartas, senhor, para o caso de a gente escrever alguma coisa
que não deve. E se a gente escreve, eles queimam as cartas.
— E você escreveu alguma cosa que não deve?
Ele fez um gesto afirmativo.
— O quê?
— Sobre Kevin. Contei para ela tudo sobre Kevin, sobre o que aconteceu com
ele.
— Não tenho certeza de que você entendeu bem os fatos sobre Henessey.
O garoto deu de ombros.
— E verdade, senhor — disse em voz baixa, aparentemente não se importando
mais em convencer Redman. — E verdade. Ele está lá, senhor. Dentro dela.
— Dentro de quem? Do que está falando?
Talvez Lacey estivesse falando, como Leverthal tinha sugerido, instigado apenas
pelo medo. Tinha de estabelecer um limite em sua paciência para com aquele garoto.
Uma batida na porta e Redman viu um indivíduo de cara manchada, chamado
Slape espiando pelo vidro.
— Entre.
— Telefonema urgente para o senhor, no escritório da secretária.
Redman detestava telefones. Máquina horrível. Nunca trazia boas notícias.
— Urgente? Quem é?
Slape deu de ombros e espremeu uma espinha no rosto.
— Fique aqui com Lacey, está bem?
Slape não parecia muito feliz com a perspectiva.
— Aqui, senhor?
— Aqui.
— Sim, senhor.
— Estou confiando em você, portanto, não me desaponte.
— Não, senhor.
Redman voltou-se para Lacey. A aparência magoada era agora uma ferida.
Aberta, quando ele começou a chorar.
— Está bem. Dê-me a carta. Eu a levo ao escritório.
Lacey tinha enfiado o envelope no bolso. Tirou-o relutantemente, entregando-o a
Redman.
— Diga obrigado.
— Obrigado, senhor.
Os corredores estavam vazios.
Era hora da televisão, e a adoração noturna da caixa mágica tinha começado.
Todos deviam estar grudados no aparelho branco e preto que dominava a sala de
recreação, absortos nos filmes policiais, programas de auditório e nas guerras
espaciais, as bocas abertas, as mentes fechadas. Um silêncio hipnótico descia sobre
todos até aparecer a promessa de violência ou a sugestão de sexo. Então o salão
explodia em assobios, obscenidades e gritos de encorajamento, voltando ao silêncio
durante os diálogos, enquanto esperavam outra arma, outro seio a mostra. Redman
ouvia tiros e música ecoando no corredor.
O escritório estava aberto, mas a secretária não estava lá. Provavelmente tinha
ido para casa. O relógio do escritório marcava oito e dezoito. Redman acertou seu
relógio de pulso.
O telefone estava no gancho. Fosse quem fosse que tinha telefonado, na certa
cansou de esperar e não deixou qualquer recado. Aliviado com a idéia de que não devia
ser tão urgente, ficou ao mesmo tempo desapontado por não falar com o mundo
exterior. Como Crusoé, vendo uma vela passando ao largo de sua ilha.
Ridículo, não estava preso ali. Podia sair quando quisesse. Daria um passeio
naquela noite, deixando de ser Crusoé.
Pensou em deixar a carta de Lacey na mesa, mas mudou de idéia. Tinha
prometido defender os interesses do garoto e era o que ia fazer. Se necessário. ele
mesmo poria a carta no correio.
Voltou para a oficina, sem pensar em nada especial. Vagas sugestões
inquietantes flutuavam em sua cabeça, prejudicando suas reações. Suspiros chegavamlhe
a garganta, sua testa franzia. Este lugar maldito, disse em voz alta, não se referindo
as paredes ou ao assoalho, mas a armadilha que representavam. Sentia que podia
morrer ali com suas boas intenções arrumadas em volta dele, como flores num caixão,
e ninguém ia saber, nem se importar, nem chorar. Idealismo era fraqueza naquele
lugar, bem como compaixão e indulgência. Inquietação era tudo, inquietação e...
Silêncio.
Era isso que estava errado. Embora a televisão ainda desse tiros e gritasse no
corredor, era acompanhada pelo silêncio. Nada de assobios, nada de vaias.
Redman voltou correndo para o vestíbulo e seguiu o corredor até a sala de
recreação. Naquela área do prédio era permitido fumar, e o ar estava pesado com o
cheiro de cigarros velhos. Lá adiante continuava o barulho do tiroteio. Uma mulher
gritou o nome de alguém.. Um homem respondeu que tinha sido atingido por um tiro.
Histórias, contadas pela metade, pairavam no ar.
Chegou ao salão e abriu a porta.
A televisão disse: “Deite-se!”
“Ele tem uma arma!”
Outro tiro.
A mulher, loura, com seios grandes, levou um tiro no coração e morreu na
calçada, ao lado do homem que amava.
A tragédia não tinha espectadores. A sala de recreação estava vazia, as velhas
poltronas e banquetas, rabiscadas com esferográficas, continuavam dispostas para
uma audiência que havia encontrado espetáculo mais interessante. Redman passou
entre elas e desligou o aparelho. Quando sumiu a fluorescência azul-prateada e cessou
o ritmo insistente da música, Redman percebeu, no escuro, no silêncio, que havia
alguém na porta.
— Quem está aí?
— Slape, senhor.
— Mandei ficar com Lacey.
— Ele teve de ir, senhor.
— Ir?
— Ele fugiu, senhor. Não pude evitar.
— Droga. O que quer dizer que não pôde evitar?
Redman andou para a porta e tropeçou numa banqueta que raspou o linóleo, em
protesto.
Slape se encolheu.
— Desculpe, senhor — disse ele. — Não consegui pegar Lacey. Tenho um pé
aleijado.
Sim, Slape mancava.
— Para onde ele foi?
Slape deu de ombros.
— Não tenho certeza, senhor.
— Pois tente se lembrar.
— Não precisa ficar zangado, senhor.
O “senhor” foi dito com voz arrastada, uma paródia de respeito.
A mão de Redman formigou, louca de vontade de dar um murro naquele
adolescente cheio de espinhas. Estava a dois passos da porta. Slape não se moveu.
— Saia do caminho, Slape.
— Francamente, senhor, não pode ajudar Lacey agora. Ele se foi.
— Já disse, saia da frente.
Quando se moveu para o lado para empurrar Slape, ouviu um estalido na altura
da barriga e viu que o filho da mãe tinha um canivete encostado à altura de seu umbigo.
A ponta espetava a gordura da barriga.
— Não há necessidade de ir atrás dele, senhor.
— Pelo amor de Deus, o que você está fazendo, Slape?
— Estamos só fazendo um jogo — disse ele, com os dentes cinzentos cerrados.
Não tem mal nenhum. E melhor deixar as coisas como estão.
A ponta da faca tirou sangue. Morna, ela desceu para a virilha de Redman. Slape
estava disposto a matá-lo, não havia dúvida. Fosse qual fosse o jogo, Slape estava se
divertindo. O brinquedo chamava-se matar o professor. A faca estava sendo
pressionada, com lentidão infinitesimal contra a pele de Redman. O filete de sangue era
agora um riacho
— Kevin gosta de sair e brincar, às vezes — disse Slape.
— Henessey?
— Isso mesmo; gosta de nos chamar pelos sobrenomes, não é? É mais
masculino, certo? Isso significa que não somos crianças, isso significa que somos
homens. Mas Kevin não é um homem, na verdade, o senhor compreende. Ele jamais
quis ser um homem. Na verdade, acho que detestava a idéia. Sabe por quê? (A faca
dividia o músculo agora, delicadamente). Ele pensou que, quando ficasse homem, ia
começar a morrer e Kevin costumava dizer que não ia morrer nunca.
— Nunca morrer.
— Nunca.
— Quero conhecer Kevin.
— Todo mundo quer, senhor. Ele é carismático. Essa a palavra da doutora para
ele, carismático.
— Pois quero conhecer esse sujeito carismático.
— Logo.
— Agora.
— Eu disse logo.
Redman segurou pelo pulso a mão que empunhava o canivete com tanta rapidez
que Slape não teve oportunidade de aprofundar a arma. A resposta do adolescente foi
lenta, dopada, talvez, e Redman o dominou. O canivete caiu da mão dele e Redman
segurou com mais força, passando com facilidade o outro braço pelo pescoço magro e
emaciado do garoto. A palma de Redman apertou o pomo-de-adão do assaltante,
fazendo-o gargarejar.
— Onde está Henessey? Você vai me levar a ele.
Os olhos que fitavam Redman estavam apagados, como as palavras, a íris, como
ponta de alfinete.
— Leve-me a ele! — mandou Redman.
A mão de Slape encontrou o corte na barriga de Redman, e seu punho fechado
socou o ferimento. Redman praguejou, soltando o braço, e Slape quase se livrou, mas
Redman acertou a virilha do garoto com o joelho, num golpe rápido e vigoroso. Slape
queria dobrar o corpo em agonia, mas o braço no pescoço não permitiu. O joelho subiu
novamente, com mais força. E outra vez. Uma vez mais.
Lágrimas de dor rolaram pelo rosto de Slape, abrindo caminho pelo campo
minado de espinhas.
— Posso machucar você muito mais do que você a mim — disse Redman. —
Portanto, se quiser ficar fazendo este jogo a noite toda, para mim esta ótimo. Vou usar
você como um saco de areia.
Slape balançou a cabeça, respirando com dificuldade pela traquéía comprimida.
— Não quer mais?
Slape balançou a cabeça outra vez. Redman o soltou, atirando-o pelo corredor
contra a parede. Choramingando de dor, o rosto contraído, Slape deslizou pela parede
até o chão onde se enrolou na posição fetal, as mãos entre as pernas.
— Onde está Lacey?
Slape começou a tremer; as palavras saíram num atropelo.
— Onde pensa que está? Kevin o pegou.
— Onde está Kevin?
Slape olhou para Redman atônito.
— Não sabe?
— Se soubesse não perguntava.
Slape pareceu cair para a frente enquanto falava, soltando um suspiro de dor.
Redman pensou que estava desmaiando, mas Slape tinha outras idéias. De repente o
canivete estava em sua mão e subia na direção da virilha de Redman. Ele recuou,
desviando-se da lâmina por um fio de cabelo e Slape estava de pé outra vez, a dor
esquecida. O canivete cortava o ar para a frente e para trás, Slape sibilando suas
intenções por entre os dentes cerrados.
— Mato você, porco. Mato você, porco.
Então escancarou a boca e berrou:
— Kevin! Kevin! Socorro!
Os golpes no ar ficavam menos precisos ã medida que Slape perdia o controle,
com o rosto cheio de lágrimas, ranho e suor, atirando-se para a vítima escolhida.
Redman escolheu o momento para desfechar um golpe contundente no joelho de
Slape, na perna fraca, imaginou. Acertou. Slape berrou e cambaleou para trás, girando
e batendo de cara na parede. Redman foi atrás dele, pressionando as costas do
garoto. Tarde demais percebeu o que tinha feito. O corpo de Slape relaxou, e a. mão
com o canivete, presa entre o corpo e a parede, escorregou para fora, cheia de
sangue e sem a arma. Slape exalou o ar da morte e caiu pesadamente contra a
parede, aprofundando mais a faca na barriga. Morreu antes de chegar ao chão.
Redman o virou com o rosto para cima. Jamais se acostumara com a morte
súbita. Ir assim de repente, como uma imagem na televisão. Desliga-se e pronto.
Nenhuma mensagem.
O silêncio completo do corredor pesava sobre ele enquanto se dirigia para o
vestíbulo. O corte na barriga não era grave, e o sangue tinha feito da camisa um
curativo natural, quando secou, tecendo o algodão com a pele e fechando o ferimento.
Quase não o incomodava. Mas esse era seu menor problema. Precisava desvendar
mistérios e não se sentia capaz. A atmosfera viciada, sufocante do lugar o deixava,
também, usado e exausto. Não era possível saúde ali, nem bondade, nem razão.
De repente acreditou em fantasmas.
No vestíbulo uma lâmpada estava acesa, nua, suspensa no espaço morto. À sua
luz ele leu a carta amarrotada de Lacey. As palavras borradas no papel foram como
fósforos acesos nas cinzas do seu pânico:
“Mamãe:
eles me deram para a porca comer. Não acredite neles se disserem que nunca
amei você, ou se disserem que fugi. Nunca fugi. Eles me deram para a porca. Eu
amo você.
Tommy.”
Redman pôs a carta no bolso e começou a correr para fora do prédio e através
do campo. Estava bem escuro agora, uma escuridão profunda, sem estrelas, e o ar
estava pegajoso. Mesmo à luz do dia, Redman não tinha muita certeza do caminho. À
noite era muito pior. Logo viu que estava perdido, em algum lugar entre o campo de
esportes e as árvores. Longe demais para ver a silhueta do prédio principal atrás dele,
e as árvores à sua frente pareciam todas iguais.
O ar da noite estava pesado: nenhuma aragem para refrescar o corpo cansado.
Lá fora estava tão parado quanto dentro da casa, como se o mundo todo fosse o
interior, um quarto sufocante, limitado por um teto pintado de nuvens.
Parou no escuro, o sangue pulsando na cabeça e tentou se orientar.
À esquerda, onde julgou que estavam as privadas, brilhava uma luz. Certamente
estava completamente enganado sobre sua posição. A luz era no chiqueiro. Viu a
silhueta do galinheiro em ruínas. Havia vultos lá, vários, de pé, parados, como que
assistindo a um espetáculo que ele ainda não podia ver.
Começou a andar na direção do chiqueiro, sem saber o que faria quando
chegasse lá. Se todos estivessem armados como Slape e com as mesmas intenções
assassinas, então seria seu fim. A idéia não o preocupou. Naquela noite, a idéia de
deixar esse mundo fechado era de certa forma uma opção atraente. Para baixo e para
fora.
E havia Lacey. Depois de falar com Leverthal tivera um momento de dúvida,
quando perguntou a si mesmo por que se preocupava tanto com aquele garoto. A
acusação de proteção especial era de certo modo verdadeira. Haveria algo nele que
desejava Thomas Lacey nu ao seu lado? Não era esse o subtexto da observação de
Leverthal? Mesmo naquele momento, correndo na direção da luz, só pensava nos olhos
do garoto, imensos e exigentes, profundamente fixos nos seus.
Lá adiante via os vultos na noite, afastando-se da fazenda. Redman os via
iluminados pela luz do chiqueiro. Tudo estaria terminado? Fez uma longa curva para a
esquerda dos barracos para evitar os espectadores que se afastavam da cena. Não
faziam qualquer barulho, não havia riso nem conversa entre eles. Como uma
congregação saindo de um enterro, caminhavam no escuro, separados uns dos outros,
as cabeças abaixadas. Era tétrico ver aqueles delinqüentes sem Deus tão dominados
pela reverência.
Chegou ao galinheiro sem encontrar nenhum deles face a face.
Alguns estavam ainda em volta do chiqueiro. A parede do compartimento da
porca estava cheia de velas, dezenas e dezenas. Queimavam firmes no ar parado,
lançando uma luz quente nos tijolos e nos rostos dos poucos que olhavam ainda para os
mistérios do chiqueiro.
Leverthal estava entre eles, bem como o guarda que tinha se ajoelhado perto da
cabeça de Lacey no primeiro dia. Dois ou três garotos estavam ali também, rostos que
ele reconheceu, mas de cujos nomes não se lembrava.
Ouviu um barulho no chiqueiro. As patas da porca na palha, aceitando os olhares
deles. Alguém estava falando, mas Redman não podia dizer quem era. Uma voz de
adolescente, um pouco desafinada. Quando a voz parou o monólogo, o guarda e um
dos garotos saíram de forma, como se tivessem sido dispensados, e se afastaram no
escuro. Redman aproximou-se mais. O tempo era tudo agora. Logo os primeiros da
congregação teriam atravessado o campo e estariam entrando no prédio principal.
Veriam o corpo de Slape, dariam o alarme. Precisava encontrar Lacey agora, se é que
Lacey podia ser encontrado.
Leverthal o viu primeiro. Ergueu a vista do chiqueiro e acenou com a cabeça,
cumprimentando, aparentemente sem dar importância à presença dele. Era como se
fosse inevitável, como se todos os caminhos levassem à fazenda, à casa de palha e ao
cheiro de excremento. Fazia sentido ela pensar assim. Redman quase acreditava
também.
— Leverthal — disse ele.
Ela sorriu abertamente para ele. O garoto ao lado de Leverthal olhou e sorriu
também.
— Você é Henessey? — perguntou Redman, olhando para o garoto.
Ele riu e Leverthal também.
— Não — disse ela. — Não. Não. Não. Henessey está aqui.
Apontou para o chiqueiro.
Redman andou os metros que faltavam para a parede do chiqueiro, esperando —
e ao mesmo tempo não querendo — ver a palha, o sangue, a porca e Lacey.
Mas Lacey não estava li. Só a porca, grande e animada como sempre, de pé
sobre pedaços das próprias fezes, as orelhas imensas e ridículas batendo sobre os
olhos.
— Onde está Henessey? — perguntou Redman, os olhos fixos nos da porca.
— Aqui — disse o garoto.
— Essa é a porca.
— Ela o comeu — disse o garoto, sorrindo ainda. Obviamente achava a idéia
deliciosa. — Ela comeu Henessey e ele fala através dela.
Redman teve vontade de rir. Isso fazia com que as histórias de Lacey
parecessem quase plausíveis em comparação. Estavam dizendo que a porca estava
possuída.
— Henessey se enforcou mesmo como Tommy disse?
Leverthal fez um gesto afirmativo.
— No chiqueiro?
Outro gesto afirmativo.
De repente a porca mudou de aspecto. Na imaginação, Redman a viu erguer-se
para farejar os pés do corpo de Henessey ainda em contorções, sentindo a morte que
chegava, salivando à idéia da carne. Viu-a lamber o orvalho que emanava da pele dele
já quase cadáver, lambendo, delicadamente a princípio, depois devorando. Não era
difícil entender como os garotos haviam feito daquela atrocidade uma mitologia,
inventando hinos, servindo a porca como se fosse um deus. As velas, a reverência, o
sacrifício de Lacey tudo isso evidência de doença, mas não mais estranho do que
milhares de outros costumes religiosos. Podia até mesmo entender a lassidão de
Lacey, sua incapacidade de lutar contra as forças que o dominavam.
Mamãe, eles me deram para a porca comer.
Não “mamãe, ajude-me, salve-me”. Apenas: “eles me deram para a porca”.
Tudo isso podia entender: eles eram crianças, a maior parte sem instrução,
alguns beirando a instabilidade mental, todos susceptíveis à superstição. Mas não
explicava Leverthal. Ela olhava para o chiqueiro outra vez, e Redman só então notou
que seus cabelos estavam soltos, esparramados sobre os ombros, cor de mel à luz
das velas.
— Para mim parece uma porca, pura e simplesmente —disse Redman.
— Ela fala com a voz dele — disse Leverthal em voz baixa. — Fala em línguas
diferentes, pode-se dizer. Logo vai ouvi-lo. Meu querido garoto.
Então ele compreendeu.
— Você e Henessey?
— Não fique tão horrorizado — disse ela. — Henessey tinha dezoito anos, os
cabelos mais negros que você já viu. E ele me amava.
— Por que ele se enforcou?
— Para viver para sempre — disse ela — para nunca ser um homem e nunca
morrer.—
Nós o procuramos durante seis dias — disse o garoto, quase cochichando no
ouvido de Redman. — E mesmo depois, ela não deixava ninguém chegar perto dele,
queria Henessey só para ela. A porca, quero dizer. Não a doutora. Todos amavam
Kevin, compreende? — murmurou ele com intimidade. — Ele era bonito.
— E onde está Lacey?
O sorriso amoroso de Leverthal desapareceu.
— Com Kevin — disse o garoto. — Onde Kevin quer que ele esteja.
Apontou para a porta do chiqueiro. Um corpo estava deitado na palha, de costas
para a porta.
— Se você quiser Lacey tem de entrar e apanhar o corpo — disse o garoto, e
imediatamente segurou com dedos fortes a nuca de Redman.
A porca reagiu ao movimento súbito. Começou a patear na palha, mostrando o
branco dos olhos.
Redman tentou se livrar da mão do garoto, ao mesmo tempo acertando o
estômago dele com o cotovelo. O garoto recuou sem ar, praguejando, e foi substituído
por Leverthal.
— Vá para ele — disse ela, agarrando o cabelo de Redman. — Vá para ele se
você o quer. — Suas unhas arranharam a têmpora e o nariz de Redman, passando
perto dos olhos.
— Tire as mãos de mim! — disse ele, tentando afastá-la, mas ela não o largava,
balançando-lhe a cabeça para a frente e para trás, tentando empurrá-lo contra a
parede.
O resto aconteceu com pavorosa rapidez. O cabelo longo da mulher passou pela
chama da vela e incendiou-se, as chamas subindo rapidamente pela cabeça. Gritando
por socorro ela caiu pesadamente sobre o portão do chiqueiro que, com o peso, cedeu
para dentro. Redman viu, sem poder fazer nada, a mulher em chamas cair na palha. O
fogo espalhou-se avidamente pela parte descoberta do compartimento, na direção da
porca, queimando rapidamente a palha seca.
Mesmo então, in extremis, a porca era ainda uma porca. Nenhum milagre,
nenhuma palavra, nenhuma súplica, em línguas. O animal entrou em pânico quando as
chamas o cercaram, encurralando o corpo enorme e lambendo seus flancos. O ar ficou
cheio do cheiro de bacon queimado quando as chamas subiram pelo seu corpo, acima
da cabeça, devorando as cerdas como se fossem relva seca.
Sua voz era a voz de uma porca, seus gritos, os gritos de uma porca. Grunhidos
histéricos saíam dos seus lábios, e ela lançou-se pela parte descoberta do chiqueiro,
passando pelo portão quebrado, pisando Leverthal.
O corpo da porca, queimando ainda, era uma coisa na noite, correndo pelo
campo, numa rota sinuosa por causa da dor. Os gritos não diminuíram quando a noite a
engoliu, pareciam ecoar para trás e para frente, no campo, como se procurasse a
saída num quarto fechado.
Redman passou por cima do corpo chamuscado de Leverthal e entrou no
chiqueiro. A palha queimava nos dois lados, e o fogo ia lentamente para a porta.
Redman semicerrou os olhos por causa da fumaça ardida e, abaixando a cabeça,
entrou na parte coberta.
Lacey estava na mesma posição, de costas para a porta. Redman o virou para
ele. O garoto estava vivo. Estava acordado. O rosto, manchado pelas lágrimas e pelo
terror, virou no travesseiro de palha, os olhos tão arregalados que pareciam prestes a
sair das órbitas.
— Levante-se — disse Redman, inclinando-se sobre ele.
O corpo pequeno estava rígido, e com dificuldade Redman endireitou as pernas e
os braços dele. Com palavras carinhosas, fez o garoto levantar-se quando a fumaça
começava a espiralar para dentro do compartimento.
— Vamos, está tudo bem, vamos.
Redman sentiu que alguma coisa passava por seu cabelo. Uma chuva de vermes
caiu no seu rosto e erguendo os olhos viu Henessey, ou o que restava dele, ainda
dependurado na viga do chiqueiro. O rosto era uma massa negra e amorfa. O corpo
estava devorado até a altura dos quadris, e as entranhas pendiam da carcaça fedida,
balançando em movimentos sinuosos de vermes na frente do rosto de Redman.
Se não fosse pela fumaça espessa, o cheiro do corpo seria insuportável. Mas
Redman sentiu apenas revolta, ímpeto que deu nova força ao seu braço. Tirou Lacey
debaixo do corpo e o empurrou para a porta.
Lá fora a palha começava a se apagar, mas a luz do fogo, das velas e do corpo
queimando, o obrigou a entrecerrar os olhos, saídos do escuro.
— Venha, garoto — disse ele, fazendo-o passar por entre as chamas.
Os olhos de Lacey eram botões brilhantes, com um brilho lunático. Não
transmitiam mensagem alguma.
Atravessaram a parte aberta do chiqueiro até o portão, evitando o corpo de
Leverthal, e no escuro caminharam na direção do campo aberto.
O garoto parecia estar saindo do estado de choque com cada passo que os
afastava da fazenda. Atrás deles, o chiqueiro era ainda uma lembrança chamejante. À
sua frente a noite estava tão parada e impenetrável como nunca.
Redman tentou não pensar na porca. Certamente devia estar morta.
Mas enquanto corriam parecia haver um barulho na terra, como se alguma coisa
muito grande os estivesse acompanhando, mantendo distância, cansada agora, mas
insistente na perseguição.
Redman puxava o braço Lacey e corria, cada vez mais depressa, o chão ainda
quente do sol sob os pés. Lacey choramingava agora, sem palavras, mas finalmente
um som. Era um bom sinal, o sinal de que Redman precisava. Tivera mais do que podia
suportar de coisas insanas.
Chegaram ao prédio sem incidentes. Os corredores estavam tão vazios como
quando ele os havia deixado, há uma hora. Talvez não tivessem ainda encontrado o
corpo de Slape. Era possível. Nenhum dos garotos parecia disposto a qualquer tipo de
recreação. Talvez tivessem ido silenciosamente para os dormitórios a fim de acabar, no
sono, o ato de adoração.
Estava na hora de procurar um telefone e chamar a polícia. Homem e menino
caminharam pelo corredor para o escritório do Superintendente de mãos dadas. Lacey
estava calado outra vez, mas não tinha mais o ar de louco; parecia que as lágrimas
purificadoras estavam próximas. Ele fungava, fazia barulhos na garganta.
Seus dedos apertaram mais a mão de Redman, depois relaxaram-se
completamente.
Na frente deles, o vestíbulo estava escuro. Alguém havia recentemente quebrado
a lâmpada que balançava ainda de leve no fio, iluminada pela luz opaca que vinha da
janela.—
Venha. Não precisa ter medo. Venha, garoto.
Lacey inclinou-se e mordeu a mão de Redman. O movimento foi tão rápido que o
homem não teve tempo de se defender e soltou o menino que correu pelo corredor
para longe do vestíbulo.
Não importava. Ele não podia ir longe. Pela primeira vez Redman ficou satisfeito
por haver muros e grades naquele lugar.
Redman atravessou o vestíbulo escuro para o escritório da secretária. Nada se
movia. Quem havia quebrado a lâmpada estava muito quieto, imóvel.
O telefone estava quebrado também. Não só quebrado, despedaçado.
Redman voltou para a sala do Superintendente. Havia um telefone lá. Não ia ser
detido por vândalos.
A porta estava trancada, mas Redman tinha se preparado para isso. Com o
cotovelo quebrou o vidro e, enfiando o braço, alcançou a fechadura. Não tinha chave.
Para o diabo, pensou ele, atirando-se de ombro contra a porta. Era de madeira
forte e resistente, e a fechadura, de boa qualidade. Seu ombro doía, e o ferimento na
barriga abrira-se de novo, quando a fechadura finalmente cedeu, e ele entrou na sala.
O chão estava coberto de palha; o cheiro ali dentro fazia com que o do chiqueiro
parecesse doce. O chefe estava atrás da mesa, mas seu coração tinha sido devorado.
— A porca — disse Redman. — A porca. A porca. — E dizendo “a porca”
apanhou o telefone.
Um barulho. Redman voltou-se e aparou o golpe no meio do rosto. A pancada
quebrou-lhe o osso malar e o nariz. A sala derreteu e ficou toda branca.
O vestíbulo não estava mais escuro. Havia velas acesas, centenas delas, ao que
parecia, em todos os cantos, em todas as saliências. Mas sua cabeça girava, sua vista
estava confusa por causa da concussão. Talvez fosse uma única vela, multiplicada
pelos sentidos que não podiam mais dizer a verdade.
Estava no meio da arena do vestíbulo, sem saber bem como podia estar de pé,
pois sentia as pernas adormecidas e inúteis sob o corpo. Na periferia da sua visão,
além da luz das velas, ouvia pessoas conversando. Não, não estavam conversando.
Não eram palavras. Eram sons sem sentido, feitos por pessoas que podiam ou não
estar ali.
Então ouviu o grunhido, o grunhido baixo e asmático da porca, e logo ela
apareceu saindo da luz dançante das velas. Não estava mais brilhante e bela. Seus
flancos estavam chamuscados, os olhos de conta, secos, o focinho, deformado. Ela
caminhou para ele muito devagar, e lentamente Redman notou a figura que a montava.
Era Tommy Lacey, é claro, nu, como no dia em que nasceu, O corpo tosado e sem
pêlos, como uma das crias da porca, seu rosto inocente de qualquer sentimento
humano. Os olhos dele eram agora os dela, e ele guiava a grande porca pelas orelhas.
E o ruído da porca, o som rouco e fanhoso não saía da boca do animal, mas da boca
de Lacey. Sua voz era agora a da porca.
Redman disse o nome dele em voz baixa. Não Lacey, mas Tommy. O garoto
pareceu não ouvir. Só então, quando a porca e seu cavaleiro se aproximaram, Redman
percebeu por que estava de pé. Tinha uma corda em volta do pescoço.
Nesse momento a corda se apertou, e Redman ficou dependurado no ar.
Nenhuma dor, mas um terror pavoroso, muito pior do que a dor, abriu-se nele, um
desfiladeiro de perda e pena, e tudo que ele era mergulhou nele.
Abaixo de Redman, a porca e o garoto pararam, bem embaixo dos seus pés. O
garoto, sempre grunhindo, desceu da porca e agachou-se ao lado dela. Através do ar
acinzentado, Redman via a curva da espinha do garoto, a pele perfeita das costas. Viu
também a corda cheia de nós que saía do meio das nádegas pálidas com a ponta
desfiada. Exatamente como o rabo da porca.
A porca ergueu a cabeça, embora seus olhos não pudessem ver. Redman sentiu
alguma satisfação em pensar que ela estava sofrendo e que ia sofrer até morrer.
Quase bastava pensar nisso. Então o animal abriu a boca e falou. Redman não sabia
como as palavras estavam saindo, mas saíam. Uma voz de garoto, desafinada.
— Esta é a sina da besta — disse a voz — comer e ser comida.
Então a porca sorriu, e Redman sentiu, embora pensasse que estava insensível,
o primeiro impacto de dor quando os dentes de Lacey tiraram um pedaço do seu pé, e
o garoto escalou, grunhindo, o corpo do seu salvador para o beijo da morte.
Nenhum comentário:
Postar um comentário