Depois de todos os exércitos conquistadores que passaram pelas ruas de Zeal
durante séculos, foi, finalmente, o passo leve do turista dos domingos que fez a
cidadezinha ajoelhar-se. Assolada pelas legiões romanas e pela conquista dos
normandos, ela sobreviveu às agonias da Guerra Civil, sem jamais haver perdido sua
identidade para as forças de ocupação. Porém, após séculos de botas e espadas,
foram os turistas — os novos bárbaros — que derrotaram Zeal com as armas da
cortesia e do dinheiro vivo.
A cidade era ideal para uma invasão: sessenta quilômetros a sudoeste de Londres,
entre pomares e campos de lúpulo dos Bosques de Kent, suficientemente afastada da
cidade para tornar a visita uma aventura, mas bastante próxima para uma volta rápida
quando o tempo não estivesse bom. Durante os fins de semana entre maio e outubro,
Zeal era uma estação de águas para os londrinos sedentos. Em todos os sábados com
promessa de sol, eles chegavam aos enxames, despejando, nos parques da cidade,
em hordas ensurdecedoras, seus cães, suas bolas de plástico, as ninhadas de filhos, o
lixo, e depois instalavam-se no Tall Man para trocar histórias sobre o trânsito nas
estradas e na cidade e beber cerveja morna.
Os zealotes não se aborreciam com os visitantes dos fins de semana. Pelo menos,
ainda não tinha havido derramamento de sangue. Mas era justamente a falta absoluta
de agressividade que tornava a invasão mais insidiosa.
Aqueles turistas cansados da cidade grande começaram a provocar gradualmente
uma mudança pacífica, mas permanente, no lugarejo. Muitos queriam uma casa no
campo. Encantavam-se com a ideia de possuírem casas de pedra entre imensos
carvalhos e observarem pombos nas árvores do adro da igreja. Até o ar — diziam,
respirando fundo —, até o ar parecia mais puro. Cheirava a Inglaterra.
A princípio uns poucos, mas depois muitos, começaram a fazer ofertas para
comprar inúmeros celeiros vazios e casas abandonadas em Zeal e nas vizinhanças da
cidadezinha. Nos fins de semana, quando o tempo estava bom, perdiam horas, entre o
mato e as pedras, idealizando uma extensão para a cozinha e o local de instalação da
jacuzzi. Embora muitos deles, quando retornavam para o conforto de Kilburn ou de St.
Johns Wood, preferissem permanecer nesses centros, todos os anos, um ou dois
conseguiam fazer um bom negócio com um dos habitantes da cidade e compravam um
acre de boa vida.
Assim, com o passar dos anos e o envelhecimento dos nativos de Zeal, os selvagens
urbanos tomaram conta da cidade. A ocupação foi tranquila, mas a mudança ficou
evidente para quem quisesse ver. Aparecia nos jornais que o correio começou a
receber — quando um nativo de Zeal pensaria em ler a revista Harpers and Queen ou
o Times Literary Suplement? A mudança estava nos carros novos e brilhantes que
enchiam a única rua estreita, ironicamente chamada de High Road, que era a espinha
dorsal de Zeal. Estava no zumbido das fofocas no Tall Man, sinal certo de que os
negócios dos estrangeiros eram, agora, assuntos apropriados para debates e
zombarias.
Na verdade, com o passar do tempo, os invasores conquistaram um lugar mais
permanente no coração de Zeal, e os fantasmas malignos de suas vidas agitadas, o
Câncer e a Doença Cardíaca, seguiram suas vítimas até aquela terra recémdescoberta.
Como os romanos antes deles, como os normandos, como todos os
invasores, os novos habitantes gravaram sua marca mais profunda no território
usurpado, não construindo nele, mas sendo enterrados em seu solo.
O ar estava úmido naquele mês de setembro, o último setembro de Zeal.
Thomas Garrow, filho único do falecido Thomas Garrow, cavava numa das
extremidades do Campo de Três Acres, suando em bicas. A terra estava muito
molhada devido à tempestade da véspera, quinta-feira. A limpeza do campo para a
semeadura do ano seguinte não estava sendo tão fácil quanto ele esperava, mas
Thomas jurara que terminaria o trabalho até o final da semana. Era um trabalho
pesado, retirar as pedras e recolher os detritos das máquinas antiquadas que seu pai,
aquele filho da mãe preguiçoso, havia deixado enferrujando no meio do campo. Deviam
ter sido ótimos anos, pensou Thomas, realmente muito bons para que o pai pudesse
ter-se dado ao luxo de deixar sem uso a melhor parte de seus três acres.
Especialmente considerando-se que se tratava de uma terra boa e fértil. Afinal, era ali
o jardim da Inglaterra, onde a terra representava dinheiro. Deixar três acres
improdutivos constituía um luxo ao qual ninguém podia se dar nesses dias difíceis. Mas,
Jesus, isso era trabalho pesado, o tipo de trabalho ao qual o pai o obrigara quando
garoto e que ele ainda odiava profundamente.
Mas tinha de ser feito.
Além do mais, o dia começara bem. O trator estava quase novo após a revisão, e o
céu, cheio de gaivotas que vinham da costa para uma refeição de vermes
desenterrados na hora. Elas eram suas companheiras barulhentas enquanto trabalhava,
distraindo-o com seu atrevimento e agressividade. Porém, quando voltou ao campo,
depois de uma refeição leve no Tall Man, tudo começou a dar errado. O motor falhou,
apresentando o mesmo defeito pelo qual ele havia pago 200 libras para consertar; e
então, quando mal havia recomeçado o trabalho, encontrou a pedra.
Era uma pedra comum, com uns trinta centímetros acima do solo, o diâmetro visível
de pouco menos de um metro, a superfície nua e lisa. Não tinha sequer líquen, só
algumas marcas que podiam ter sido letras. Uma carta de amor, talvez, um "Fulano
esteve aqui", provavelmente, ou, mais provável ainda, uma data e um nome. Fosse o
que fosse, monumento ou marco, era agora um obstáculo. Teria de cavar ou, do
contrário, no próximo ano, iria perder três metros de terra arável. O arado jamais
passaria por uma pedra daquele tamanho.
Thomas estranhou o fato de a pedra ter sido deixada no campo por tanto tempo
sem que ninguém se tivesse dado ao trabalho de removê-la. Mas, afinal, há muito que o
Campo de Três Acres não era plantado; precisamente há mais de trinta e cinco anos.
E, pensando bem, talvez até mesmo desde o tempo de seu pai. Por algum motivo (se
Thomas sabia qual era, havia esquecido), essa faixa de terra dos Garrow estava
abandonada há muitos anos, quem sabe há muitas gerações. Na verdade, parecia ter
uma vaga lembrança de haver ouvido o pai dizer que nada podia crescer naquele lugar.
Mas isso era bobagem. Estava claro que a vegetação, pelo menos urtiga e mato,
crescia mais forte e maior naqueles três acres esquecidos do que em qualquer outro
lugar do distrito. Portanto, não havia razão para que a cevada não crescesse também.
Talvez até um pomar, embora este exigisse mais paciência e carinho do que Thomas
era capaz de dar. Qualquer coisa que plantasse, sem dúvida, iria crescer muito bem
num solo tão rico, e ele estaria ganhando três acres de terra fértil para melhorar suas
finanças abaladas.
Se ao menos conseguisse desenterrar aquela droga de pedra.
Chegou a pensar em contratar uma pá mecânica no lado norte da cidade, para
resolver o problema com sua mandíbula de ferro. Desenterrar e pulverizar a pedra em
dois segundos. Mas o orgulho o fez descartar a ideia de pedir socorro ao primeiro sinal
de dificuldade. De qualquer modo, o trabalho era pequeno. Ele mesmo iria desenterrar
a pedra, como seu pai o teria feito. Foi o que decidiu. Agora, duas horas e meia mais
tarde, arrependia-se de sua pressa.
O calor da tarde estava intenso e sufocante, sem nenhuma brisa para aliviar o peso
da atmosfera. O ar, cheio de estática, eriçava os cabelos na nuca de Thomas. O céu
sobre o campo estava vazio agora. As gaivotas, volúveis demais para permanecerem
no local depois da festa terminada, haviam embarcado numa corrente de ar morno com
cheiro de sal.
Até a terra, que de manhã exalava um perfume agridoce quando revolvida pelas
lâminas do arado, cheirava agora a algo menos agradável, e, enquanto cavava em volta
da pedra, Thomas pensava na podridão que a tornava tão fértil. Percebia, vagamente,
milhões de pequenas mortes em cada pá de terra que tirava. A morbidez desses
pensamentos incomodava-o. Parou por um momento, apoiado na pá, arrependendo-se
do quarto copo de cerveja que havia tomado no almoço. Apesar de ser a dose de
costume, hoje, a bebida parecia agitar-se em seu estômago, formando uma espuma
ácida de comida mal digerida.
Pense em outra coisa, ordenou a si mesmo, ou vai acabar vomitando. Para desviar o
pensamento do estômago, olhou para o campo. Não via nada diferente, apenas um
quadrado de terra com uma cerca viva não aparada. Um ou dois animais mortos na
sombra dos arbustos. Um estorninho e outra coisa qualquer que, de longe, ele não
podia dizer o que era. Havia uma sensação de ausência, mas também não era
incomum. O outono logo chegaria, e aquele verão havia sido longo demais, quente
demais e cansativo.
Thomas ergueu os olhos e viu a nuvem, que parecia uma cabeça mongólica,
descarregar um relâmpago de fogo sobre as montanhas. A luminosidade da tarde era
agora uma linha estreita e azul, comprimida contra o horizonte. Vai chover, pensou
Thomas, satisfeito. Chuva fria, talvez uma tempestade como a da véspera. Talvez
limpasse o ar definitivamente.
Olhou outra vez para a pedra obstinada e bateu nela com a pá. Um filete de chama
branca ergueu-se curvo no ar.
Usando toda a imaginação, Thomas amaldiçoou a pedra, em voz alta, a si mesmo e
o campo. A pedra continuava firme, no meio da vala que ele havia cavado. Quase não
tinha mais nenhuma alternativa. Depois de cavar mais de trinta centímetros, havia
colocado estacas sob a pedra, passando uma corda em volta dela, tentando puxá-la
com o trator. Nada feito. Talvez precisasse cavar mais, colocar as estacas mais fundo.
Não ia deixar que a maldita coisa o vencesse.
Resmungando, decidido, recomeçou a cavar. Mal notou um pingo de chuva nas
costas da mão. Sabia que um trabalho como aquele exigia concentração, cabeça baixa,
ignorando todas as distrações. Procurou não pensar em nada mais. Só existiam a
terra, a pá, a pedra e seu corpo.
Empurrar para baixo, retirar a terra, um ritmo de esforço hipnótico. Sua
concentração era tamanha que quase não notou quando a pedra começou a se mover.
O movimento tirou-o do transe. Endireitou o corpo, com as vértebras estalando,
certo de que se tratava de uma ilusão de óptica. Empurrou a pedra com o pé. Sim, ela
balançara em seu túmulo. Thomas estava cansado demais para sorrir, mas sentiu a
proximidade da vitória. A maldita estava vencida.
A chuva era mais intensa agora, refrescante em seu rosto. Enfiou outras estacas
sob a pedra e soltou-a mais um pouco. Ia ganhar a batalha. "Você vai ver", disse ele,
"você vai ver." A terceira estaca, mais profunda do que as outras, deve ter perfurado
uma bolha de gás sob a pedra, libertando um fedor tão forte que Thomas recuou alguns
passos para respirar ar puro. Mas não encontrou nada. Tudo que pôde fazer foi cuspir
catarro para limpar a garganta e os pulmões. Fosse o que fosse, a coisa sob a pedra
era de origem animal e estava podre demais.
Com esforço, voltou ao trabalho, respirando pela boca para não sentir o mau cheiro.
Tinha impressão de que seu cérebro estava crescendo, forçando os ossos do crânio.
"Foda-se," disse ele, colocando outra estaca sob a pedra. Suas costas pareciam a
ponto de se quebrar. Uma bolha abriu-se na mão direita. Um moscardo pousou em seu
braço e saciou-se à vontade, sem que Thomas o espantasse.
"Levante, Levante, Levante." Bateu a última estaca, sem perceber o que estava
fazendo.
Então a pedra começou a subir.
Thomas nem estava tocando nela. Alguma coisa a empurrava de baixo para cima.
Ele estendeu a mão para a pá ainda presa sob a pedra, de repente possessivo, como
se ela fosse uma parte de seu corpo e não quisesse deixá-la perto da cova. Não agora.
Não com a pedra balançando como se estivesse sobre um gêiser prestes a explodir.
Não com o ar amarelo e seu cérebro crescendo como uma abobrinha no verão.
Puxou a pá com força. Estava presa.
Praguejando, Thomas usou as duas mãos, mantendo-as a uma certa distância do
buraco. O movimento crescente da pedra lançava terra, vermes e cascalhos num
turbilhão.
Puxou outra vez a pá. Nada. Não parou para analisar a situação. Estava farto
daquele trabalho, só queria tirar a pá, a sua pá, daquele buraco e dar o fora dali.
A pedra inclinou-se, mas não soltou a pá. Thomas cismou que precisava tirá-la do
buraco para poder ir embora. Só quando a tivesse nas mãos, livre e inteira, poderia
obedecer a seus intestinos e correr.
O chão começou a se abrir sob seus pés. A pedra rolou para fora do túmulo, leve
como uma pena, impelida, talvez, por uma segunda nuvem de gás mais fedorenta do
que a primeira. Ao mesmo tempo, a pá se soltou, e Thomas viu o que a estava
segurando.
De repente, não havia nenhum sentido no céu nem na terra.
Viu a mão, viva, tão grande que podia segurar toda a lâmina de uma só vez.
Thomas conhecia aquilo tudo, a terra que se abria, a mão, o fedor. Conhecia de
algum pesadelo ouvido nos joelhos do pai.
Agora queria largar a pá, mas não dominava mais a própria vontade. Tudo que podia
fazer era obedecer ao imperativo do fundo da terra, puxar até partir os ligamentos dos
braços e os tendões começarem a sangrar.
Sob a fina camada de terra, Cabeça Descarnada farejou o céu. Era puro éter para
seus sentidos adormecidos, provocando um prazer quase doloroso. Reinos à sua
disposição, a poucos centímetros de distância. Após tantos anos, após a infindável
sufocação, havia luz novamente em seus olhos e o gosto de terror humano em sua
língua.
A cabeça quebrava agora a superfície, o cabelo negro coroado de vermes,
minúsculas aranhas vermelhas correndo no couro cabeludo. Elas o haviam irritado
durante cem anos, aquelas aranhas haviam penetrado em sua medula, e ele não via a
hora de esmagá-las. Continue puxando, ele ordenou mentalmente ao humano, e
Thomas Garrow puxou até perder as forças. Centímetro por centímetro, Cabeça
Descarnada foi içado do túmulo numa mortalha de preces.
A pedra que o prendia há tanto tempo fora removida, e ele começou a se arrastar
para fora, libertando-se da terra do túmulo como uma cobra de sua pele. Seu torso
estava livre. Os ombros tinham duas vezes o tamanho dos de um homem normal; os
braços, cheios de cicatrizes, eram extremamente fortes. Os membros latejavam com o
sangue em movimento, como asas de borboletas, realimentando-se com a
ressurreição. Os dedos longos e letais enfiavam-se no solo à medida que ganhavam
força.
Thomas Garrow ficou paralisado, olhando. Não sentia nada além de um espanto
reverente. Medo era para os que tinham alguma chance de vida, e ele não tinha
nenhuma.
Cabeça Descarnada estava completamente fora do túmulo. Começou a ficar de pé,
pela primeira vez em séculos. Torrões de terra úmida caíam do seu corpo à medida
que ele se erguia, em toda sua altura, um metro acima dos quase dois metros de
Thomas.
Thomas Garrow, na sombra de Cabeça Descarnada, olhava fixamente para o
buraco de onde o monstro tinha saído. Sua mão direita ainda segurava a pá. Cabeça
Descarnada ergueu-o pelos cabelos. O couro cabeludo abriu-se com o peso do corpo,
e Cabeça Descarnada agarrou-o pelo pescoço, com uma das mãos.
A sensação do sangue no rosto pareceu despertar Thomas. A morte estava
iminente, ele sabia. Olhou para as próprias pernas que se contorciam inutilmente,
depois ergueu os olhos para o rosto cruel de Cabeça Descarnada.
Era enorme, como uma lua cheia, imenso e ambarino. Olhou para um olho, para o
outro, depois para as fendas úmidas que formavam o nariz e, finalmente, com um terror
infantil, para a boca. Meu Deus, aquela boca. Era tão larga, tão cavernosa que parecia
cortar a cabeça ao meio quando se abria. Foi a última coisa que Thomas Garrow
pensou. Que a lua estava se partindo ao meio e despencando do céu em cima dele.
Então o Rei virou o corpo de cabeça para baixo, como sempre fazia com os inimigos
mortos, e enfiou Thomas no buraco aberto, no túmulo que seus antepassados haviam
aberto para enterrá-lo para sempre.
Quando a tempestade finalmente se abateu sobre Zeal, o Rei estava a mais de um
quilômetro do Campo de Três Acres, abrigado no celeiro de Nicholson. Na cidadezinha,
a vida continuava, com chuva ou sem ela. A ignorância era uma bênção. Não havia
nenhuma Cassandra entre os habitantes, nem o "Seu Futuro nas Estrelas", da Gazette
semanal, havia insinuado as futuras mortes de um geminiano, três leoninos, um
sagitariano e um pequeno sistema estelar de outros nos dias vindouros.
A chuva chegou com o trovão, com pingos grandes e frios, que logo se
transformaram numa torrente feroz. Só quando as sarjetas pareciam rios caudalosos,
as pessoas começaram a se abrigar.
Na construção, a pá mecânica que estava fazendo a horta de Ronnie Milton foi
deixada na chuva, a segunda vez em dois dias. O homem que a manobrava interpretou
a chuva como um sinal para se abrigar e conversar sobre cavalos de corrida e
mulheres.
Na porta dos Correios, três pessoas observavam os bueiros que se enchiam
rapidamente e, balançando a cabeça, comentavam que isso sempre acontecia com a
chuva; em meia hora, formou-se um pequeno lago na extremidade mais baixa de High
Street, tão profundo que dava para velejar nele.
E nesse mesmo lugar, na sacristia de São Pedro, Declan Ewan, o sacristão, via a água
descer a rua em pequenos riachos que formavam um mar no lado de fora dos portões.
Logo vamos ter gente se afogando, pensou ele, afastando-se da janela e voltando a
dobrar os paramentos. Estava estranhamente agitado nesse dia e não podia, não
queria, abrandar essa agitação. Nada tinha a ver com a tempestade, embora desde
criança apreciasse chuva forte. Não. Era outra coisa qualquer, ele não sabia o quê. Era
como ser criança outra vez. Como se fosse Natal e, a qualquer minuto, Papai Noel, o
primeiro Senhor no qual havia acreditado, aparecesse na porta. A ideia o fez rir alto,
mas a sacristia era severa demais para o riso, e ele silenciou, com um sorriso interior,
uma esperança secreta. * * *
Enquanto todos se abrigavam, Gwen Nicholson molhava-se até os ossos na chuva.
Estava ainda no pátio, tentando levar o pônei de Amélia para o celeiro. O estúpido
animal, nervoso com a tempestade, não queria mexer-se. Agora Gwen estava
encharcada e furiosa.
— Quer se mexer, seu idiota — gritou, competindo com o ruído da tempestade. A
chuva fustigava o chão e sua cabeça. Seu cabelo estava encharcado. — Vamos!
Vamos!
O pônei não se mexia, e seus olhos estavam quase completamente brancos de tanto
medo. E quanto mais o trovão ribombava e estalava, menos ele queria sair do lugar.
Furiosa, Gwen bateu com a mão no lombo do animal com mais força do que pretendia.
O pônei deu uns dois passos para trás, e Gwen aproveitou a oportunidade. Desde que
ele começasse a se mover, ela poderia puxá-lo o resto do percurso.
— Celeiro quente — prometeu ela. — Vamos, está muito molhado aqui fora, você
não quer ficar na chuva.
A porta do celeiro estava entreaberta. Sem dúvida, era convidativo, pensou ela, até
para um pônei burro. Arrastou-o até bem próximo ao celeiro e, com mais uma palmada,
conseguiu que ele passasse pela porta.
Como havia prometido ao maldito animal, o celeiro estava seco e agradável, embora
com o cheiro metálico da tempestade. Gwen amarrou o pônei na trave de madeira e
jogou um cobertor sobre ele. De jeito nenhum iria secar e escovar o animal. Isso era
obrigação de Amélia, sua filha. Fora o que haviam combinado quando concordara em
comprar o pônei. Amélia ficaria encarregada de escovar e pentear o animal. E, justiça
seja feita, ela cumpria o prometido, mais ou menos.
O pônei ainda estava apavorado. Batia os cascos e revirava os olhos como um mau
ator dramático, e havia espuma em sua boca. Como para se desculpar, Gwen bateu de
leve no flanco do animal. Tinha perdido a paciência. Aqueles dias do mês. Agora,
arrependia-se. Só esperava que Amélia não estivesse na janela do quarto, assistindo a
tudo.
Uma lufada de vento fechou a porta do celeiro, abafando o som da chuva lá fora. De
repente, tudo ficou escuro.
O pônei parou de bater com os cascos no chão. Gwen teve a impressão de que seu
coração também havia parado.
Atrás de Gwen, um vulto quase duas vezes maior do que ela apareceu entre os
fardos de feno. Ela não viu o gigante, mas suas entranhas se contorceram. Maldita
menstruação, pensou ela, massageando o baixo ventre. Normalmente ela era certa
como um relógio, mas nesse mês estava adiantada um dia. Precisava ir para casa,
trocar de roupa, lavar-se.
Cabeça Descarnada olhou para a nuca de Gwen Nicholson. Podia matá-la com um
simples apertão. Porém, por mais que desejasse, não podia tocar naquela mulher, não
nesse dia. Ela estava no seu ciclo de sangue, Cabeça Descarnada sentiu o cheiro ácido
e enjoativo. Aquele sangue era proibido, e ele jamais havia comido uma mulher
envenenada por ele.
Sentindo a umidade entre as pernas, Gwen saiu apressadamente do celeiro, sem
olhar para trás, e correu para a casa, deixando o pônei nervoso no escuro.
Cabeça Descarnada ouviu os passos da mulher afastando-se, ouviu quando ela
fechou a porta da casa.
Esperou, para ter certeza de que não iria voltar, e então caminhou para o animal,
estendeu o braço e segurou-o. O pônei escoiceou e reclamou, mas Cabeça
Descarnada, no seu tempo, havia apanhado animais muito maiores e muito mais fortes
do que esse.
Abriu a boca. Os dentes apareceram entre as gengivas ensanguentadas como
garras de gato. Duas fileiras em cada maxilar, duas dúzias de pontas aguçadas que
cintilaram quando ele as fechou em volta do pescoço do pônei. Sangue espesso e
fresco deslizou por sua garganta, e ele o engoliu avidamente. O sabor quente do
mundo que o fazia sentir-se forte e sábio. Era a primeira das muitas refeições que ele
faria, iria deliciar-se com o que quisesse, sem que ninguém pudesse impedi-lo, não
desta vez. E, quando estivesse pronto, derrubaria os pretendentes ao seu trono,
cremando-os em suas casas, destruiria seus filhos e usaria os intestinos das crianças
como colares. Esse lugar era seu. Só porque haviam dominado a selva durante algum
tempo, não queria dizer que eram os donos da terra. A terra era sua, e ninguém a
tomaria, nem mesmo a santidade. Agora conhecia o perigo. Jamais o dominariam outra
vez.
Sentado com as pernas cruzadas no chão do celeiro, com os intestinos cinzentos do
pônei à sua volta, ele planejou sua tática do melhor modo possível. Pensar não era seu
forte. Muito apetite embrutecia a razão. Vivia no eterno presente da própria fome, da
própria força, sentindo apenas o rude instinto territorial que, cedo ou tarde, iria
desabrochar em carnificina.
A chuva continuou com a mesma força durante uma hora. Ron Milton começava a ficar
impaciente. Uma falha da sua
natureza, à qual devia uma úlcera e um ótimo emprego na Design Consultancy. Milton
podia fazer as coisas mais depressa do que qualquer outro. Ele era o melhor e
detestava preguiça nas outras pessoas, tanto quanto nele mesmo. Esta maldita casa,
por exemplo. Haviam prometido que estaria pronta em meados de julho, jardim
aplainado, entrada de veículos terminada, tudo, e ali estava ele, dois meses depois
dessa data, olhando para uma casa ainda não habitável. Metade das janelas sem vidro,
faltando a porta da frente; o jardim, uma desordem; a entrada de veículos, um lamaçal.
Esse seria o seu castelo, seu refúgio do mundo que o fizera dispéptico e rico. Um
abrigo longe do movimento da cidade, onde Maggie podia plantar rosas, e as crianças,
respirar ar puro. Só que não estava pronto. Droga, a esse passo não conseguiria
mudar-se antes da primavera. Outro inverno em Londres. Uma perspectiva
desanimadora.
Maggie aproximou-se, abrigando-o sob o guarda-chuva vermelho.
— Onde estão as crianças? — ele perguntou.
Maggie fez uma careta.
— No hotel, atormentando a Sra. Blatter.
Há seis verões, Enid Blatter aguentava as peraltices dos filhos dos Milton durante os
fins de semana. Também tinha filhos e sabia como tratar Debbie e Ian. Mas havia um
limite até mesmo para sua reserva de paciência e boa vontade.
— Acho melhor voltarmos para a cidade.
— Não. Por favor, vamos ficar mais um ou dois dias. Poderemos voltar no domingo à
noite. Quero assistir à cerimônia do Festival da Colheita, no domingo.
Foi a vez de Ron fazer uma careta.
— Ora, que droga.
— É parte da vida do lugar, Ronnie. Se vamos morar aqui, precisamos pertencer à
comunidade.
Quando se aborrecia, Ron desafinava como um garoto. Enid conhecia-o tão bem
que adivinhou o que ele ia dizer.
— Eu não quero.
— Bem, não temos escolha.
— Podemos voltar esta noite.
— Ronnie...
— Não temos nada para fazer aqui. As crianças estão chateadas, você está
aborrecida...
Maggie ficou impassível. Não ia ceder nem um milímetro. Ele conhecia aquela
expressão tanto quanto ela conhecia sua voz desafinada.
Ron olhou para as poças d'água onde um dia seria seu jardim, incapaz de imaginá-lo
coberto de grama, com canteiros de rosas. Tudo, de repente, parecia impossível.
— Você volta para a cidade, se quiser, Ronnie. Leve as crianças. Eu ficarei. Voltarei
de trem na segunda-feira.
Muito esperta, pensou ele, oferecendo uma saída menos atraente do que ficar onde
estava. Dois dias na cidade, tomando conta das crianças, sozinho? Não, muito
obrigado.
— Está certo. Você venceu. Vamos ao maldito Festival da Colheita.
— Mártir.
— Desde que eu não tenha de rezar.
♦ * *
Amélia Nicholson entrou correndo na cozinha, com o rosto redondo muito pálido, e
desmaiou na frente da mãe. Sua capa de chuva verde estava manchada de vômito
oleoso, e as botas de plástico, sujas de sangue.
Gwen gritou por Denny. A menina desmaiada tiritava de frio e tentava dizer alguma
coisa.
— O que foi?
Denny desceu rapidamente a escada.
— Pelo amor de Deus...
Amélia começou a vomitar outra vez. Seu rosto estava quase
azul.—
O que há com ela?
— Acabou de entrar. Acho melhor chamar uma ambulância.
Denny encostou a mão no rosto da filha.
— Está em estado de choque.
— Ambulância, Denny... — Gwen tirou a capa de chuva verde e desabotoou a blusa
da filha.
Denny levantou-se vagarosamente. Podia ver o pátio pela janela rendada de chuva,
a porta do celeiro abrindo e fechando com o vento. Havia alguma coisa lá dentro.
Percebeu um leve movimento.
— Pelo amor de Deus... ambulância! — repetiu Gwen.
Denny não a ouvia. Alguém estava em seu celeiro, em sua propriedade, e ele tinha
um ritual severo para intrusos.
A porta do celeiro abriu-se outra vez, como que provocando-o. Sim! O invasor
escondia-se no escuro.
Denny apanhou o rifle que estava ao lado da porta, procurando não desviar os olhos
do quintal. Atrás dele, Gwen deixou Amélia no chão e foi para o telefone. A menina
começou a gemer. Logo estaria bem. Apenas um susto provocado por algum intruso
imundo, nada mais. Em suas terras.
Denny abriu a porta e saiu para o pátio. Estava em mangas de camisa e o frio era
cortante, mas não chovia mais. A terra molhada brilhava, e gotas caíam dos beirais do
telhado e do terraço, numa cadência desencontrada que o acompanhou até o celeiro.
A porta se abriu devagar e, dessa vez, ficou aberta. Denny não enxergava nada lá
dentro. Imaginou se não teria sido uma ilusão de óptica...
Mas não. Tinha certeza de ter visto um movimento. O celeiro não estava vazio. Algo
(não o pônei) o vigiava. Vira o rifle na mão dele e devia estar transpirando de medo.
Era isso que Denny queria. Invadir sua propriedade daquele modo. Deixe que pense
que vou estourar seu saco.
Atravessou o pátio com passos confiantes e entrou.
O estômago do pônei estava sob seus pés, uma das pernas à direita, a anca
devorada até o osso. Poças de sangue que começava a coagular refletiam as
aberturas do telhado. Denny sentiu náusea.
— Muito bem — desafiou as sombras. — Venha para fora! — Ergueu o rifle. — Está
ouvindo, seu filho da mãe? Para fora, eu disse, ou mando você para o inferno, aos
pedaços.
Estava disposto a fazer exatamente isso.
No fundo do celeiro alguma coisa se moveu entre os fardos.
Agora peguei o filho da mãe, pensou Denny. O intruso ficou de pé, com seus três
metros de altura, e olhou para Denny.
—Je-sus!
E, sem nenhum aviso, aquilo lançou-se para ele como uma locomotiva eficiente e
deslizante. Denny atirou, acertando a parte superior do peito, mas a bala não diminuiu
sua velocidade.
Nicholson deu meia-volta e correu. As pedras do pátio estavam lisas sob seus pés, e
ele não conseguia ser mais rápido do que a coisa. Num instante o monstro estava ao
seu lado e, num instante, agarrou-o.
Gwen deixou cair o fone quando ouviu o tiro. Correu para a janela a tempo de ver
seu doce Denny ser agarrado por uma figura gigantesca que, com um urro, jogou-o
para o ar como um saco de penas. Paralisada, viu o corpo contorcido no alto, antes de
despencar para o chão. Bateu no solo com um ruído surdo que Gwen sentiu em cada
osso, e o gigante lançou-se sobre ele, esmagando seu rosto com o pé.
Gwen tentou abafar o grito de horror com a mão na boca. Tarde demais. A voz saiu,
e o gigante olhou diretamente para ela, toda sua maldade parecendo atravessar o vidro
da janela. Oh, meu
Deus, ele a viu, e agora caminhava para ela, atravessando o pátio, uma máquina nua; o
sorriso, uma promessa de horror.
Gwen levantou Amélia do chão e apertou-a contra o peito, com o rosto da filha
encostado em seu pescoço. Talvez assim ela não visse; ela não devia ver. O som dos
passos se aproximava. A sombra imensa encheu a cozinha.
—Jesus, ajude-me.
O corpo enorme contra a janela impedia a entrada de luz, e o rosto maldoso e
nojento apareceu atrás do vidro molhado. Então, ele enfiou o braço, sem se importar
com os cacos de vidro que penetravam sua carne. Sentiu cheiro de carne de criança.
Queria carne de criança. Ia comer carne de criança.
Os dentes apareceram quando os lábios se abriram numa risada obscena. Fios
grossos de saliva pendiam das mandíbulas, e os dedos curvavam-se em garras, no ar,
como um gato tentando pegar um rato numa gaiola, avançando cada vez mais, cada
patada mais próxima do petisco.
Gwen abriu a porta que dava para o corredor, quando a coisa, perdendo a
paciência, começou a demolir o caixilho da janela para entrar. Gwen trancou a porta,
ouvindo o barulho de madeira e de louça estilhaçada do outro lado, e começou a
encostar os móveis na porta trancada. Mesas, cadeiras, cabide, consciente de que, em
poucos minutos, tudo seria reduzido a escombros. Amélia estava ajoelhada no chão do
corredor, onde a mãe a deixara. Felizmente, sem nenhuma expressão no rosto.
Muito bem, não podia fazer mais nada. Agora, para cima. Apanhou a filha, que, de
repente, pareceu leve como o ar, e subiu a escada de dois em dois degraus. Quando
estava no meio da subida, o barulho cessou completamente na cozinha.
Gwen teve, então, uma crise de realidade. No patamar do segundo andar, tudo
estava calmo e quieto. Finos grãos de poeira depositados no parapeito da janela, as
flores murchas, todo o ambiente doméstico igual, como se nada estivesse
acontecendo.
— Um sonho — disse ela. — Meu Deus, sim, um sonho.
Sentada na cama que, há oito anos, compartilhava com Denny, procurou pensar.
Um pesadelo horrível, provocado pela menstruação. Era isso. Uma fantasia
descontrolada sobre estupro. Deitou Amélia sobre o acolchoado cor-de-rosa (Denny
detestava cor-de-rosa, mas aceitava para fazer a vontade dela) e acariciou a testa
úmida da menina.
— Um sonho.
Então, o quarto escureceu, e ela ergueu os olhos, sabendo o que iria ver.
Lá estava ele, o pesadelo, cobrindo as janelas, os braços longos e finos sobre o
vidro, agarrados como os de um acrobata no parapeito, os dentes repulsivos
aparecendo e desaparecendo, enquanto Gwen olhava apavorada.
Com um movimento rápido, ela apanhou Amélia e foi para a porta. Atrás dela, os
vidros se quebraram, e uma lufada de ar frio varreu o quarto. A coisa estava chegando.
Gwen correu até o topo da escada, mas o monstro a perseguia de perto com a
boca aberta, como um túnel. Com um rugido, estendeu o braço para roubar a preciosa
carga de seus braços, imenso no pequeno espaço do patamar.
Gwen não podia correr mais do que ele, não podia lutar com ele. As mãos
agarraram Amélia e, sem nenhum esforço, tiraram-na de Gwen.
Amélia gritou, quando se sentiu agarrada, e suas unhas deixaram quatro cortes
profundos no rosto da mãe.
Gwen recuou, atordoada com aquela cena inacreditável, e perdeu o equilíbrio no
topo da escada. Quando caiu para trás, viu o rosto de Amélia molhado de lágrimas,
rígido como o de uma boneca, entre aquelas horríveis fileiras de dentes. Então, bateu
com a cabeça no corrimão, e seu pescoço partiu-se. O corpo sem vida rolou os seis
últimos degraus.
Ao cair da noite, a água da chuva começava a baixar, mas o lago artificial no fim da
ladeira tinha ainda vários centímetros de profundidade. Serenamente, ele refletia o céu.
Lindo, mas inconveniente. O Reverendo Coot, em voz baixa, recomendou a Declan
Ewan para não esquecer de informar o Conselho sobre os bueiros entupidos. Era a
terceira vez que o pedido era feito, e Declan corou.
— Desculpe, eu...
— Tudo bem. Sem problema, Declan. Mas precisamos desentupir esses bueiros.
Um rosto inexpressivo. Um momento. Um pensamento.
— É claro que as folhas que caem no outono sempre os entopem novamente.
Coot fez um gesto vagamente cíclico, significando que, na verdade, não fazia muita
diferença quando o Conselho resolvesse desentupir os bueiros, se resolvesse, e então
o pensamento desapareceu. Havia assuntos mais urgentes. Um deles era o sermão de
domingo. Por um segundo, perguntou a si mesmo por que não conseguia dar sentido ao
sermão naquela noite. Uma estranha inquietação no ar parecia anular o significado de
cada palavra que punha no papel. Coot foi até a janela onde estava Declan e coçou as
palmas das mãos. Talvez outra crise de eczema. Se, ao menos, ele pudesse falar,
encontrar as palavras para expressar sua tristeza. Nunca, nos seus quarenta e cinco
anos de vida, havia sentido tamanha incapacidade de comunicação, e nunca fora de
importância tão vital a necessidade de dizer alguma coisa.
— Posso ir agora? — perguntou Declan.
Coot balançou a cabeça.
— Mais um minuto, se não se importa.
Voltou-se para o sacristão. Declan Ewan tinha vinte e nove anos, embora aparentasse
ser bem mais velho. Traços imprecisos, rosto pálido, uma calvície incipiente e
prematura.
O que será que esta cabeça de ovo vai pensar da minha revelação?, pensou Coot.
Provavelmente, vai rir. Por isso não consigo encontrar as palavras, porque não quero.
Tenho medo de parecer idiota. Aqui estou eu, um religioso, dedicado aos mistérios do
cristianismo. Pela primeira vez, em quarenta e tantos anos, consegui ver algo diferente,
uma visão, talvez, e estou com medo que caçoem de mim. Pareço idiota ó Deus, idiota,
idiota.
Tirou os óculos, e o rosto de Declan virou uma mancha indefinida. Agora, pelo
menos, não precisava ver o sorriso de zombaria.
— Declan, esta manhã aconteceu uma coisa que só posso descrever como uma...
uma... visitação.
Declan ficou calado, a mancha imprecisa não se moveu.
— Não sei como dizer isto... nosso vocabulário é pobre quando se trata dessas
coisas... mas, francamente, nunca tive uma manifestação tão direta, tão inequívoca
de...
Coot parou. Ia dizer Deus?
— Deus — ele disse, sem muita certeza.
Por um momento, Declan não disse nada. Coot arriscou recolocar os óculos. O ovo
não se quebrou.
— Pode descrever o que viu? — perguntou Declan, perfeitamente tranquilo.
Coot balançou a cabeça. Passara o dia todo procurando as palavras, mas todas que
conhecia pareciam previsíveis demais.
— Como era? — insistiu Declan.
Por que ele não compreendia que não havia palavras? Preciso tentar, pensou Coot,
preciso.
— Eu estava no altar, depois das preces da manhã... — começou — e senti que
alguma coisa passava por meu corpo. Quase como eletricidade. Meus cabelos ficaram
em pé. Literalmente em pé.
Coot passou a mão pelo cabelo curto, revivendo a sensação. O cabelo em pé como
um campo de milho cinza-dourado. Aquele zumbido nas têmporas, nos pulmões, nas
virilhas. Na verdade, teve uma ereção. Não que pudesse contar isso para Declan. Mas
tinha ficado em pé na frente do altar, com uma ereção tão intensa que era como
descobrir novamente toda a força do desejo carnal.
— Não vou afirmar... não posso afirmar que era Deus, Nosso Senhor... — (mas
queria acreditar, queria que seu Deus fosse o Senhor do tesão). — Não posso sequer
afirmar que era alguma coisa cristã. Mas algo aconteceu hoje. Eu senti.
O rosto de Declan continuava impenetrável. Coot observou-o por alguns segundos,
impaciente para ver a expressão de desprezo.
— E, então? — perguntou.
— Então, o quê?
— Não tem nada para dizer?
O ovo franziu a testa por um momento, uma linha profunda na casca lisa. Depois
disse:
— Que Deus nos ajude — murmurou.
— O quê?
— Eu também senti. Não exatamente como descreveu, não um choque elétrico. Mas
alguma coisa.
— Por que disse que Deus nos ajude, Declan? Está com medo de alguma coisa?
Declan não respondeu.
— Se sabe algo sobre essas experiências, que eu não sei... por favor, diga-me.
Quero saber, para compreender. Deus, preciso compreender.
Declan franziu os lábios.
— Bem... — Seus olhos ficaram mais indecifráveis do que nunca, e, pela primeira
vez, Coot divisou uma sombra estranha naquele olhar. Desespero, talvez?
— Sabe que há muitas histórias sobre este lugar — disse ele —, histórias de
coisas... bem aqui.
Coot sabia que Declan andava pesquisando a história de Zeal. Um passatempo
inofensivo. O passado era passado.
— Durante séculos existiu um povoado aqui, muito antes da ocupação romana.
Ninguém sabe exatamente quando. Provavelmente sempre existiu um templo neste
lugar.
— Nada de estranho nisso — disse Coot com um sorriso, convidando Declan a
confirmar sua observação. Uma parte dele queria ouvir dizer que tudo estava bem em
seu mundo, mesmo que fosse mentira.
O rosto de Declan anuviou-se. Não podia dar nenhuma garantia.
— E havia uma floresta. Imensa. Os Bosques Selvagens... — Seria desespero ou
nostalgia atrás de seus olhos? — Não um bosquezinho qualquer. Uma floresta na qual
era possível esconder uma cidade, cheia de animais selvagens.
— Lobos, quer dizer? Ursos?
Declan balançou a cabeça.
—Esta terra era propriedade de certas coisas. Antes de Cristo. Antes da civilização.
A maioria não sobreviveu à destruição de seu habitat natural. Eram por demais
primitivos, suponho. Mas fortes. Não como nós, não humanos. Uma coisa
completamente diferente.
— E daí?
— Um deles sobreviveu até o ano de mil e quatrocentos. Existe um desenho gravado
na pedra, representando seu enterro. Está no altar.
— No altar?
— Sob a toalha. Descobri há algum tempo, mas não dei muita importância. Até hoje.
Hoje eu... tentei tocá-la.
Estendeu o braço e abriu a mão. A pele da palma estava cheia de bolhas, e pus
escorria delas.
— Não dói — disse ele. — Na verdade, está quase insensível. Foi bem feito. Eu
devia saber.
O primeiro pensamento de Coot foi que Declan estava mentindo. O segundo, de que
devia haver uma explicação lógica. O terceiro foi o que seu pai sempre dizia: "A lógica
é o último refúgio do covarde."
Declan continuou, agora extremamente excitado.
— Eles o chamavam de Cabeça Descarnada.
— O quê?
— O animal que enterraram. Está nos livros de história. Cabeça Descarnada porque
tinha uma cabeça enorme da cor da lua, que parecia feita de carne crua.
Declan não podia mais parar. Começou a sorrir.
—Ele comia crianças—disse Declan, com o sorriso satisfeito de um bebê prestes a
sugar o seio da mãe.
A atrocidade na fazenda dos Nicholson só foi descoberta no sábado de manhã. Mick
Glossop, voltando para Londres de carro, entrou na estrada que passava atrás da
fazenda ("Não sei por quê. Geralmente faço outro caminho. Estranho"), e as vacas
holandesas de Nicholson estavam fazendo um enorme barulho no portão, com os
úberes distendidos. Evidentemente, não tinham sido ordenha- das. Glossop parou o jipe
na estrada e entrou no pátio da fazenda.
O corpo de Denny Nicholson já estava coberto de moscas, embora o sol tivesse
nascido há menos de uma hora. Dentro da casa, só sobravam o vestido e um pé de
Amélia Nicholson. O corpo de Gwen Nicholson, inteiro, estava perto da escada, sem
nenhum sinal de violência sexual.
Às nove e meia, Zeal estava cheia de policiais, e o choque da carnificina registrava-se
em todos os rostos. Embora as informações sobre o estado dos corpos fossem
conflitantes, não havia dúvida quanto à brutalidade do crime. Sobretudo em relação à
menina, provavelmente esquartejada, e o corpo levado pelo assassino, só Deus sabia
para quê.
O Esquadrão contra Crimes instalou uma Unidade no Tall Man, e os policiais foram
de casa em casa, interrogando os moradores. Nada foi esclarecido imediatamente.
Nenhum estranho fora visto por perto, nenhum comportamento suspeito o bastante que
pudesse indicar um caçador furtivo ou um assaltante de lojas. Foi Enid Blatter, a mulher
de seios grandes e aparência maternal, que mencionou o fato de que não via Thomas
Garrow há mais de vinte e quatro horas.
Eles o encontraram onde o assassino o deixou, em péssimo estado devido ao tempo
de exposição, com vermes na cabeça e gaivotas nas pernas. A carne das canelas,
onde a calça saíra das botas, estava toda picada, com os ossos à mostra. Quando o
ergueram, bandos de vermes escorreram de suas orelhas.
No hotel, a atmosfera estava pesada naquela noite. No bar, o sargento-detetive
Gissing, vindo de Londres para conduzir a investigação, encontrou um bom ouvinte em
Ron Milton. Era agradável poder conversar com um londrino, e Milton pagou o scotch
com água durante mais de três horas.
—Vinte anos fora — repetia Gissing—e nunca vi nada igual.
O que não era verdade. Havia o caso daquela prostituta (ou alguns aspectos
escolhidos do caso) que ele encontrou dentro de uma mala no departamento de
bagagem perdida na estação de Euston, há mais de dez anos. E o viciado que resolveu
hipnotizar um urso polar no zoológico de Londres. Foi uma visão macabra o que tiraram
do poço dos ursos. Stanley Gissing já vira muita coisa, sem dúvida...
—Mas isto... nunca vi coisa igual—insistia. — Sinto vontade de vomitar.
Ron não sabia ao certo por que estava escutando a conversa de Gissing. Alguma coisa
para passar o tempo. Ron, um radical na juventude, jamais gostara de policiais e sentia
uma satisfação perversa em ver aquele idiota vaidoso completamente atarantado.
— O homem é uma porra de lunático — disse Gissing. — Pode estar certo. Vamos
pegá-lo com facilidade. Um homem como esse não tem nenhum controle, você entende.
Não procura despistar, não se importa de viver ou morrer. Deus sabe, um homem
capaz de fazer em pedaços uma garotinha de sete anos está muito perto da loucura
total. Já vi alguns deles.
—Já?
— Oh, sim. Já os vi chorando como crianças, cobertos de sangue, como se
acabassem de sair dos matadouros, e com lágrimas escorrendo pelo rosto. Patético.
— Então, vai pegá-lo.
— Assim — Gissing estalou os dedos. Levantou-se, cambaleando um pouco. — Tão
certo como Deus criou o mundo, nós o apanharemos — Olhou para o relógio, depois
para o copo vazio.
Ron não fez menção de pedir nova dose.
—Muito bem—disse Gissing—preciso voltar para a cidade. Fazer meu relatório.
Cambaleou para a porta, deixando Milton pagar a conta.
Cabeça Descarnada viu o carro de Gissing sair da cidade e tomar a estrada do
norte, os faróis pouco potentes na escuridão. Mas o barulho do motor subindo a colina,
depois da fazenda dos Nicholson, deixou-o nervoso. Aquela coisa rugia e tossia como
nenhum animal conhecido, e o homo sapiens sabia controlá-la. Se ia retomar o Reino
dos usurpadores, mais cedo ou mais tarde, teria de vencer um daqueles animais.
Cabeça Descarnada dominou o medo, preparando-se para o confronto.
A lua estava alta no céu.
No banco de trás do carro, Stanley, quase dormindo, sonhava com garotinhas. No
sonho, as encantadoras ninfetas subiam uma escada de mão, a caminho da cama, e
ele estava ao lado da escada, olhando para as calcinhas levemente sujas que
desapareciam, uma a uma, no céu. Era um sonho muito conhecido, que ele jamais
admitiria sonhar, nem quando estava bêbado. Não por vergonha, pois sabia que muitos
dos seus companheiros de trabalho tinham sonhos tão estranhos quanto o seu, e talvez
até mais ousados. Mas era um sonho só seu e não queria dividi-lo com mais ninguém.
O jovem policial, que há quase seis meses servia de chofer para Gissing, esperava
que o sargento adormecesse completamente para ouvir no rádio o resultado do
campeonato de cricket. A Austrália não estava bem qualificada para o teste. Um rally
de última hora parecia pouco provável. Ah, isso sim é que era uma boa profissão,
pensava ele, enquanto dirigia. Bate de longe a rotina da vida de policial.
Ambos absortos em seus sonhos, motorista e passageiro, não viram Cabeça
Descarnada. Ele estava agora ao lado do carro, acompanhando facilmente a marcha
do veículo com seus passos enormes pela estrada sinuosa e escura.
De repente, a raiva dominou-o e, rugindo, saiu do campo para o asfalto.
O motorista desviou do vulto imenso que apareceu na frente dos faróis, berrando
como uma matilha de cães raivosos.
O carro derrapou no asfalto molhado e raspou o lado esquerdo nos arbustos que
ladeavam a estrada, e os galhos açoitaram o para-brisa. No banco de trás, Gissing
caiu da escada que estava subindo, no momento em que o carro chegou ao fim da
cerca viva e bateu num portão de ferro. O sargento foi atirado contra o banco da
frente, mas não se feriu. O impacto atirou o motorista para frente e através do parabrisa,
em dois segundos. Seus pés, agora no nariz de Gissing, estremeceram.
Na estrada, Cabeça Descarnada observou a morte da caixa de metal. A voz
torturada, o guincho do flanco arranhado, o rosto amassado assustaram-no. Mas
estava morta.
Esperou cautelosamente alguns segundos antes de avançar e farejar aquele corpo
amassado. Havia um cheiro ardido no ar, que irritava suas narinas, o cheiro de sangue
da caixa de metal, que saía do torso quebrado e escorria pela estrada. Certo de que o
animal estava morto, ele se aproximou.
Havia alguém vivo na caixa. Nenhuma criança saborosa, só carne dura de homem.
Um rosto engraçado estava voltado para ele. Redondo, olhos arregalados e
assustados. A boca idiota se abria e fechava como a de um peixe. Cabeça Descarnada
chutou a caixa para abri-la e, não conseguindo, arrancou as portas. Então, enfiou o
braço para dentro e tirou o homem, apavorado, do seu refúgio. Seria um representante
da espécie que o havia dominado? Aquele inseto assustado, de boca mole? Cabeça
Descarnada riu das súplicas do homem, depois o virou de cabeça para baixo,
segurando-o por um pé. Esperou que o homem parasse de gritar e procurou, entre as
pernas de Gissing, o órgão masculino. Não era grande. Na verdade, estava bastante
encolhido de medo. Gissing resmungava, sem parar, coisas sem sentido. O único som
que Cabeça Descarnada entendeu foi o que ouvia agora, o grito estridente que sempre
acompanhava a castração. Uma vez terminada, jogou Gissing ao lado do carro.
O fogo começava no motor amassado. Cabeça Descarnada sentiu o cheiro. Não era
tão primitivo a ponto de temer o fogo. Respeitava-o, sim, mas não o temia. O fogo era
um instrumento que ele havia usado muitas vezes para queimar inimigos, para cremálos
em suas camas.
Recuou, afastando-se do carro quando a chama encontrou a gasolina e subiu. O
calor chegou até ele e sentiu o cheiro dos pelos do peito chamuscados, mas estava
mesmerizado pelo espetáculo. O fogo acompanhou o sangue do animal de metal,
consumindo Gissing, lambendo os rios de combustível como um cão ávido numa trilha
de urina. Cabeça Descarnada observou, aprendendo uma lição nova e letal.
No caos de sua sala de trabalho, Coot lutava inutilmente contra o sono. Passara boa
parte da noite no altar, algum tempo em companhia de Declan. Nessa noite não orou,
apenas desenhou. Agora tinha uma cópia da cena gravada na pedra do altar sobre a
mesa à sua frente, e há uma hora olhava para ela. Mas o esforço era inútil. O desenho
gravado era ambíguo, ou sua imaginação muito limitada. Fosse como fosse, não
conseguia dar muito sentido à imagem. Sem dúvida, representava um enterro, mas era
tudo que Coot conseguia ver. Talvez o morto fosse um pouco maior do que os que o
estavam enterrando, mas nada excepcional. Pensou no bar de Zeal, The Tall Man, e
sorriu. Algum humorista medieval, sem dúvida, acharia divertido gravar a cena do
enterro de um dono de bar sob a toalha do altar.
No corredor, o relógio desregulado bateu meia-noite e quinze, o que significava que
devia ser quase uma hora. Coot levantou-se da cadeira, espreguiçou-se e apagou a
lâmpada de mesa. O brilho do luar, infiltrando-se através da cortina, surpreendeu-o.
Era lua cheia do equinócio de outono, e a luz, embora fria, era luxuriante.
Pôs a tela de arame na frente da lareira e saiu para o corredor, fechando a porta da
sala de trabalho. O relógio tiquetaqueava barulhento. De algum lugar, para o lado de
Goudhurst, veio o som de uma sereia.
O que está acontecendo?, pensou ele, abrindo a porta da frente. Viu faróis de
carros na colina e o pulsar distante das luzes azuis da polícia, mais ritmado do que o
tique-taque atrás dele. Acidente na estrada do norte. Muito cedo para gelo, e não fazia
ainda muito frio. Olhou as luzes, que cintilavam, encravadas na colina como pedras
preciosas nas costas de uma baleia. Pensando bem, estava frio ali fora. Não dava para
ficar parado no...
Franziu a testa. Teve a impressão de ver um movimento no canto do cemitério da
igreja, sob as árvores. O luar pintava um quadro monocromático. Árvores negras,
pedras cinzentas, mas, delineada claramente contra o mármore de um túmulo distante,
estava à figura de um gigante.
Coot saiu como estava, de chinelo.
O gigante não estava sozinho. Havia alguém ajoelhado na frente dele, muito menor,
uma forma mais humana, o rosto erguido, claro como a luz. Era Declan. Mesmo àquela
distância, Coot podia ver que ele sorria para o mestre.
Coot queria chegar perto, ver melhor aquele pesadelo. No terceiro passo, seu pé
rangeu no cascalho.
O gigante moveu-se nas sombras. Estava voltando-se para ele? O coração de Coot
se apertou. Não, Deus, faça com que ele seja surdo, por favor, não deixe que ele me
veja, faça-me invisível.
Aparentemente a prece foi atendida. O gigante não deu sinal de haver notado sua
presença. Enchendo-se de coragem, Coot avançou, indo de laje em laje, procurando
esconder-se, mal ousando respirar. Estava agora muito perto do quadro vivo e podia
ver a cabeça da criatura, inclinada para Declan, e ouvia o som de lixa sobre pedra, que
saía de sua garganta. Porém, isso não era tudo.
As roupas de Declan estavam rasgadas e sujas, seu peito magro, descoberto. O
luar incidia sobre o esterno e as costelas. Seu estado e sua posição eram evidentes.
Aquilo era adoração — pura e simples. Então, Coot ouviu o ruído de líquido caindo
sobre alguma coisa. Chegou mais perto. O gigante estava urinando no rosto de Declan.
A urina caía dentro da boca do sacristão e escorria por seu corpo. Os olhos de Declan
brilhavam de alegria, enquanto recebia o batismo, e ele girava a cabeça de um lado
para o outro para que a profanação fosse completa.
O cheiro da urina da criatura chegava até Coot, ácido e nojento. Como Declan podia
suportar aquilo sobre todo o seu corpo? Coot sentiu vontade de gritar, acabar com
aquela devassidão, mas, mesmo à sombra da grande árvore, o vulto da criatura era
aterrador. Muito alto e muito largo para ser humano.
Era, sem dúvida, a besta dos Bosques Selvagens que Declan tentara descrever, o
devorador de crianças. Será que, quando enalteceu o monstro, já sabia o poder que ele
teria sobre a sua imaginação? Que, quando aparecesse, iria ajoelhar-se a seus pés,
chamando-o de Senhor (antes de Cristo, antes da Civilização, havia dito), iria deixar
que esvaziasse a bexiga em cima dele, recebendo a imundície com um sorriso?
Sim, oh, sim.
Portanto, deixe que Declan tenha seu momento. Não arrisque o pescoço por ele,
pensou Coot, ele está onde deseja estar. Lentamente, recuou para a sacristia com os
olhos fixos naquela cena de degradação. O líquido do batismo foi diminuindo e cessou,
mas as mãos de Declan, em concha na frente do rosto, continham ainda uma boa
quantidade dele. Levou as mãos à boca e bebeu.
Coot teve um acesso irreprimível de náusea. Por um momento, fechou os olhos para
não ver a cena, e, quando os abriu, a cabeça do monstro estava voltada para ele com
olhos que incendiavam a escuridão.
— Cristo Todo-Poderoso!
A coisa olhava para ele. Sim, dessa vez, fora descoberto. O monstro rugiu, a
cabeça mudou de formato na sombra, e a boca imensa se abriu.
— Meu doce Jesus!
Agora o vulto avançava para Coot, com a agilidade de um antílope, deixando o
acólito encolhido sob a árvore. Coot deu meia-volta e correu, correu como não corria há
muitos anos, ziguezagueando entre as sepulturas. As porta, a sensação de segurança,
estava a poucos metros. Não por muito tempo, talvez o suficiente para pensar, para
encontrar uma arma. Corra, seu filho da mãe! Por Cristo. Quatro metros.
Corra!
A porta estava aberta.
Quase três, um metro agora...
Entrou e voltou-se para fechar a porta. Mas não. Cabeça Descarnada enfiou o braço
atrás dele, e Coot viu a mão três vezes maior do que qualquer mão humana. Os dedos
contraíram-se no ar, tentando encontrar Coot, enquanto o monstro rugia furioso.
Coot aplicou todo seu peso contra a porta, tentando fechá-la. O friso de ferro do
batente prendeu o braço de Cabeça Descarnada. O rugido transformou-se num uivo de
dor, fúria e agonia, misturadas num brado que foi ouvido de uma extremidade a outra
de Zeal.
O berro cortou a noite até a estrada do norte, onde os restos de Gissing e do
motorista estavam sendo recolhidos num saco plástico. Ecoou nas paredes geladas da
Capela do Descanso, onde os corpos de Denny e Gwen Nicholson já entravam em
decomposição. Foi ouvido nos quartos de Zeal, onde casais vivos dormiam lado a lado,
talvez com um dos braços adormecido sob o corpo do companheiro ou da
companheira. Onde a velha senhora, insone, estudava a geografia do teto. Onde
crianças sonhavam com o útero materno, e os bebês lamentavam o refúgio perdido. Foi
ouvido uma vez, outra e muitas outras, enquanto Cabeça Descarnada descarregava
sua fúria.
O berro uivante estonteou Coot. Sua boca murmurava preces, mas não via nenhum
sinal da ajuda que implorava. Suas forças diminuíam. O gigante, aos poucos, ia
conseguindo abrir a porta. Coot escorregou no assoalho muito encerado, com os
músculos cansados e trêmulos. Não tinha nenhuma chance de vencer essa luta, não se
tentasse opor sua força à do animal, músculo por músculo. Se queria ver o dia
seguinte, precisava usar alguma estratégia.
Coot empurrou a porta com mais força, olhando em volta à procura de uma arma. A
coisa não podia entrar, não podia chegar perto dele. Sentia um cheiro forte e ácido.
Por um momento, viu a si mesmo despido, ajoelhado na frente do gigante, com o jorro
de urina batendo na sua cabeça. O quadro foi seguido pela visão de outras cenas de
depravação. Coot precisou esforçar-se para não desistir da luta, para não se deixar
dominar por todas aquelas obscenidades. A mente da coisa tentava penetrar na sua, e
uma faixa espessa de imundície forçava a entrada em suas lembranças, procurando
trazer à superfície pensamentos há muito enterrados. Será que a coisa exigiria
adoração, como qualquer outro deus? E sua exigência não seria simples e real? Não
ambígua, como a do Senhor a que ele servia agora. Uma boa ideia. Entregar-se àquela
certeza que forçava a porta e abrir o coração e o corpo, deixando que ele o destruísse.
Cabeça Descarnada. A palavra pulsava na mente de Coot — Cabeça Descarnada.
Desesperado, percebendo que suas frágeis defesas morais estavam a ponto de
desmoronar, viu o cabide alto no lado esquerdo da porta.
Cabeça Descarnada. Cabeça Descarnada. O nome era um imperativo. Cabeça
Descarnada. Cabeça Descarnada. Fazia pensar numa cabeça escalpelada, com as
defesas arrancadas, uma coisa prestes a explodir, que podia ser dor ou prazer. Mas
não era difícil descobrir.
A coisa quase estava tomando posse dele. Coot sabia. Era agora ou nunca.
Estendeu o braço para o cabide, para apanhar uma bengala. Uma especial, entre as
que estavam ali. Coot a chamava de bengala de corrida, um metro e meio de madeira
resistente, bem usada e forte. Puxou-a com a ponta dos dedos.
Cabeça Descarnada aproveitou a diminuição da força atrás da porta, quando Coot
estendeu o braço para a bengala. O braço que parecia coberto de couro avançou,
indiferente à dor causada pelo ferro do batente. A mão com dedos de aço segurou a
aba do paletó de Coot.
Coot ergueu a bengala e bateu com força no cotovelo de
Cabeça Descarnada, onde o osso era vulnerável, mais superficial. A arma partiu-se
com o impacto, mas fez o trabalho. No outro lado da porta, os uivos recomeçaram, e o
braço desapareceu rapidamente. Quando os dedos passaram para fora, Coot bateu a
porta e trancou-a. Depois de um curto espaço de tempo, segundos apenas, o ataque
recomeçou, desta vez batidas na porta com os punhos cerrados. As dobradiças
começaram a se curvar, a madeira gemia. Não ia demorar nada para que ele entrasse.
O monstro era forte e estava furioso.
Coot foi até o telefone. Polícia, disse ele, e começou a discar. Logo o monstro iria
perceber que mais valia deixar a porta e atacar as janelas. Tinham caixilhos de chumbo,
mas não resistiriam por muito tempo. Coot tinha só alguns minutos, provavelmente
segundos, dependendo de sua capacidade de raciocínio.
Sua mente, livre da invasão de Cabeça Descarnada, era um coro de preces
fragmentadas e de perguntas. Se eu morrer, pensava, serei recompensado no céu por
ter tido uma morte mais brutal do que qualquer vigário do campo pode esperar? Existe
alguma compensação no paraíso para quem é eviscerado no hall de entrada da própria
sacristia?
Só um homem estava de serviço na delegacia de polícia. Os outros se encontravam
na estrada do norte, fazendo a limpeza da festa de Gissing. O pobre policial não
entendeu muita coisa do que o reverendo disse, mas ouviu o som de madeira sendo
quebrada e os uivos tremendos como música de fundo.
O policial desligou e passou um rádio, pedindo ajuda. A patrulha na estrada do norte
levou vinte, talvez vinte e cinco segundos para responder. Nesse intervalo de tempo,
Cabeça Descarnada destruiu a parte central da porta da sacristia e estava demolindo o
resto. Não que a patrulha soubesse disso. Depois do que acabavam de ver, o corpo
queimado do motorista e o de Gissing sem os órgãos genitais, sentiam a insolência dos
experientes, transformados em veteranos em uma hora. O policial, na delegacia, levou
um bom minuto para convencê-los da urgência do caso de Coot. Então, Cabeça
Descarnada estava dentro da sacristia.
No hotel, Ron Milton assistiu ao desfile de luzes na colina, ouviu as sereias e os
uivos de Cabeça Descarnada, e a dúvida dominou-o. Seria essa a cidadezinha tranquila
que havia escolhido para morar com a família? Olhou para Maggie, que, depois de
acordar com o barulho, dormia outra vez, com o vidro de sedativos quase vazio na
mesa de cabeceira. Certo de que ela teria zombado da ideia, Ron sentiu que tinha
obrigação de protegê-la. Queria ser seu herói. Porém, era ela quem frequentava as
aulas noturnas de autodefesa, enquanto ele engordava com os almoços por conta da
companhia. Vendo-a dormir, Ron sentiu uma tristeza inexplicável, pensando no pouco
poder que tinha sobre a vida e a morte.
Cabeça Descarnada estava no hall da sacristia, coberto por uma chuva de madeira
partida. As lascas enfiavam-se em seu corpo, e o sangue escorria dos ferimentos. O
suor ácido do animal enchia o ar como incenso.
Farejou à procura do homem, mas não o encontrou. Frustrado, arreganhou os
dentes, expelindo o ar num assobio fino, e atravessou o hall, caminhando para a sala
de trabalho. Havia calor na casa, a vinte metros, seus nervos sentiam e conforto
também. Cabeça Descarnada virou a mesa, destruiu duas cadeiras, em parte para
fazer espaço para o próprio corpo, mas especialmente pelo puro prazer da destruição.
Jogou para longe a grade protetora da lareira e sentou-se. O calor envolveu-o,
vivificante e curativo. Entregou-se ao prazer de senti-lo no rosto, na barriga musculosa,
nos braços e pernas. No sangue também, trazendo a lembrança de outros fogos, fogos
ateados por ele nos campos de trigo.
Lembrou-se de outra fogueira, que em vão tentou afastar da memória. A humilhação
daquela noite viveria com ele para sempre. Tinham escolhido tão bem a estação do
ano. Pleno verão, há dois meses sem chuva. O mato que crescia nos Bosques
Selvagens estava seco como um pavio, até as árvores incendiaram-se com facilidade.
Foi obrigado a abandonar sua fortaleza, com os olhos lacrimejantes, confuso e
apavorado, e viu-se rodeado de estacas pontudas e redes e aquela... coisa que eles
tinham, aquela visão capaz de subjugá-lo.
É claro que não tinham coragem suficiente para matá-lo, eram muito supersticiosos.
Além disso, não haviam reconhecido sua autoridade, mesmo quando o feriam, seu
terror não era uma homenagem à sua força? Então, eles o enterraram vivo, o que era
pior do que a morte. O pior que podiam ter feito. Porque ele podia viver e viver, e nunca
morrer, mesmo debaixo da terra. Fizeram-no esperar cem anos, e sofrer, e mais cem e
mais cem, enquanto as gerações caminhavam pela terra sobre sua cabeça e viviam e
morriam, e o esqueciam. Talvez as mulheres não tivessem esquecido. Podia sentir o
cheiro delas, mesmo através da terra, quando chegavam perto de seu túmulo, e,
embora não soubessem, sentiam-se angustiadas e convenciam seus homens a ficarem
longe daquele lugar, deixando-o completamente sozinho. A solidão foi a maior vingança,
pensou, pelas vezes que ele e seus irmãos levavam mulheres para a floresta, abriam
as pernas delas, faziam o que tinham de fazer e soltavam-nas outra vez, sangrando,
mas férteis. Elas morriam ao dar à luz os filhos daquele estupro. Sua anatomia não
podia sobreviver à agitação de um ser híbrido, aos seus dentes, à sua angústia. Era a
única vingança que ele e os irmãos tiveram do sexo de barriga grande.
Cabeça Descarnada masturbou-se, olhando para a reprodução da "Luz do Mundo",
acima da lareira. A imagem não despertava tremores de medo ou de remorso. Era a
imagem de um mártir assexuado, de olhos mansos e tristes. Nenhum desafio naquela
figura. O verdadeiro poder, o único que podia vencê-lo, aparentemente tinha
desaparecido, perdido para sempre, substituído por um pastor virgem. Cabeça
Descarnada ejaculou em silêncio, e seu sêmen sibilou nas brasas da lareira. O mundo
era seu para governar sem desafios. Teria calor e comida em abundância. Bebês
também. Sim, carne de bebê, a melhor de todas. Coisinhas minúsculas que acabavam
de sair do ventre da mãe.
Espreguiçou, suspirando com a perspectiva daquele petisco, a mente repleta de
atrocidades.
De seu refúgio, na cripta, Coot ouviu os carros da polícia chegarem à sacristia,
depois o som de pés no caminho de cascalho. Calculou que devia haver, pelo menos,
meia dúzia de homens. Devia ser suficiente.
Cautelosamente, caminhou no escuro para a escada.
Alguma coisa tocou nele, e Coot quase gritou, mordendo a língua antes de a voz
escapar da garganta.
— Não vá agora — disse uma voz atrás dele.
Era Declan, falando alto demais. A coisa estava acima deles, em algum lugar, e
podia ouvi-los se não tivessem cuidado. Oh, Deus, não deixe que ele ouça.
— Está lá em cima — disse Coot, num murmúrio.
— Eu sei.
A voz parecia vir das entranhas de Declan, não de sua garganta, encharcada de
imundície.
— Vamos fazê-lo descer até aqui, certo? Ele quer você, você sabe. E a mim
também...
— O que aconteceu com você?
O rosto de Declan estava quase invisível no escuro. Seus lábios se ergueram num
sorriso lunático.
— Acho que ele quer batizar você também. O que acha? Ia gostar, não ia? Ele mijou
em mim, você viu? E não foi só isso. Oh, não, ele quer muito mais. Ele quer tudo. Está
ouvindo? Tudo!
Declan agarrou Coot num abraço com fedor da urina da criatura.
—Vem comigo? — Sorriu malicioso, muito perto do rosto de Coot.
— Depositei minha confiança em Deus.
Declan riu. Não uma risada sem sentido, mas cheia de compaixão por aquela alma
perdida.
— Ele ê deus — disse Declan. — Estava aqui muito antes de este chiqueiro ser
construído, você sabe disso.
— Os cães também estavam.
—• O quê?
— Isso não quer dizer que vou deixar que levantem a perna para urinar em mim.
— Você é um velho devasso muito esperto, não é? — disse Declan, deixando de
sorrir. — Ele vai mostrar. Você vai mudar.
— Não, Declan. Solte-me...
O abraço era forte demais.
— Vamos subir, cara. Não devemos fazer deus esperar.
Empurrou Coot escada acima, sem soltar o abraço. Coot não
conseguia encontrar palavras, nenhum argumento lógico. O que podia dizer para que
aquele homem visse a própria degradação? Entraram abraçados na igreja, e Coot,
automaticamente, olhou para o altar, procurando alguma coisa que o tranquilizasse,
mas não encontrou nada. O altar fora profanado. As toalhas estavam rasgadas e sujas
de fezes; a cruz, os candelabros e os missais ardiam numa fogueira nos degraus. A
fuligem flutuava no ar escuro de fumaça.
— Você fez isso?
Declan rosnou.
— Ele me mandou destruir tudo. Derrubar pedra por pedra, se for preciso.
— Ele não se atreverá.
— Oh, é claro que sim. Ele não tem medo de Jesus, não tem medo de...
Por um momento, a voz de Declan ficou menos segura, e Coot aproveitou a
hesitação.
— Ele tem medo de alguma coisa que está aqui, do contrário teria vindo
pessoalmente, teria feito tudo isso sozinho...
Os olhos esgazeados de Declan desviaram-se de Coot.
— O que é, Declan? Do que é que ele não gosta? Pode me dizer...
Declan escarrou no rosto de Coot, e o catarro escorreu como uma lesma até o
queixo.
— Não é da sua conta.
— Em nome de Cristo, Declan, veja o que ele fez a você.
— Sei reconhecer meu senhor quando o vejo...
Declan estava tremendo.
— ...e você também o reconhecerá.
Virou Coot de frente para a porta do lado sul. Estava aberta, e a criatura curvava-se
graciosamente para entrar. Pela primeira vez, Coot viu Cabeça Descarnada na
claridade, e seu terror voltou mais intenso. Até então, tinha evitado pensar no tamanho
da coisa, em seu olhar, nas suas origens. Agora, vendo o monstro aproximar-se com
passos lentos, quase imponentes, Coot reconheceu sua superioridade. Não era um
mero animal, apesar da juba e das espantosas fileiras duplas de dentes. Os olhos da
criatura eram como punhais em seu corpo, com um brilho de desprezo que não podia
existir em nenhum animal. A boca abriu-se imensa. Quando não tinha mais para onde
fugir, Declan soltou Coot. Não que Coot tivesse intenção de fazer qualquer movimento,
o olhar era insistente demais. Cabeça Descarnada estendeu o braço e apanhou
Coot. O mundo girou dentro de sua cabeça.
Eram sete policiais, não seis como Coot havia pensado. Três empunhavam armas,
levadas de Londres por ordem do sargento- detetive Gissing. O falecido sargento
Gissing, que seria condecorado postumamente. Os sete homens competentes e fiéis
eram comandados pelo sargento Ivanhoe Baker. Ivanhoe não era um homem heroico,
nem por inclinação, nem por educação. Sua voz, que ele pedira a Deus para não traí-lo
quando desse as ordens apropriadas, mais parecia o gemido de um garoto assustado
quando Cabeça Descarnada apareceu na porta da igreja.
— Eu estou vendo a coisa! — disse ele.
Todo mundo via. Tinha três metros de altura, estava coberta de sangue e parecia
um inferno ambulante. Ninguém precisava ser avisado de sua presença. As armas
foram erguidas sem esperar a ordem de Ivanhoe, e os homens desarmados, sentindose
despidos de repente, beijaram os cassetetes e rezaram. Um deles fugiu.
— Mantenham suas posições! — esganiçou Ivanhoe. Se aqueles filhos da mãe
fugissem, ele ficaria sozinho. Não havia recebido nenhuma arma, apenas autoridade,
que não servia de consolo naquele momento.
Cabeça Descarnada ainda segurava Coot pelo pescoço, com o braço estendido. As
pernas do reverendo balançavam a meio metro do solo, sua cabeça pendia inerte, os
olhos estavam fechados. O monstro mostrou o corpo para seus inimigos, como uma
prova de sua força.
— Devemos... por favor... podemos... atirar no filho da mãe? — perguntou um dos
homens armados.
— Ivanhoe engoliu em seco, antes de responder.
— Vamos atingir o vigário.
— Ele já está morto — disse o policial.
— Não temos certeza.
— Tem de estar morto. Olhe para ele...
Cabeça Descarnada sacudia Coot como se fosse um edredom, e o recheio
começou a cair, para horror de Ivanhoe. Então, num gesto lento, quase preguiçoso,
Cabeça Descarnada jogou-o para os policiais. O corpo caiu no caminho de cascalho
perto do portão e ficou imóvel. Ivanhoe recuperou a voz.
— Fogo!
Não precisou repetir. Os dedos dos homens apertaram os gatilhos antes de a
palavra acabar de sair da sua boca.
Cabeça Descarnada foi atingido por três, quatro, cinco balas em rápida sucessão,
quase todas no peito. Sentindo as picadas, ergueu uma das mãos para proteger o
rosto e cobriu os testículos com a outra. Não esperava essa dor. O ferimento
provocado pela arma de Nicholson fora esquecido no prazer imenso da carnificina, mas
estes dardos machucavam-no e continuavam a atingi-lo. Sentiu uma ponta de medo.
Seu instinto mandava fugir para a segurança das colinas. Conhecia moitas e cavernas
onde podia esconder-se e pensar nesse novo problema. Mas antes precisava distraílos.
Os homens avançaram rapidamente, entusiasmados com a vitória fácil, enquanto
Ivanhoe, tirando os crisântemos do vaso de uma sepultura, vomitava dentro dele. A
estrada, além do largo da igreja, estava escura, e Cabeça Descarnada começou a se
sentir mais seguro. Podia desaparecer na noite, sumir dentro da terra, como havia feito
milhares de vezes. Atravessou o campo. A cevada não fora ainda colhida e estava
pesada de grãos. Cabeça Descarnada corria, amassando as plantas sob os pés. Seus
perseguidores começavam a perder terreno. O inimigo gritava ordens, palavras
confusas que Cabeça Descarnada não entendia. Não fazia mal, ele conhecia os
homens. Assustavam-se com facilidade. Não iriam muito longe à sua procura, nessa
noite. Usando a escuridão como desculpa, interromperiam a caçada, convencidos de
que os ferimentos do monstro eram mortais. As crianças confiantes de sempre.
Subiu até o topo da colina e olhou para baixo, para o vale. Abaixo da serpente que
era a estrada, seus olhos, os faróis dos carros, a cidadezinha era um círculo quente e
iluminado, com luzes azuis e vermelhas piscando no centro. Ao longe, estendiam-se em
todas as direções os vultos negros das montanhas sobre as quais cintilavam as
estrelas. Durante o dia, parecia um vale pintado, uma cidade pequenina, de brinquedo.
À noite, era impenetrável, muito mais dele do que dos homens.
Os inimigos já voltavam aos seus abrigos, como havia imaginado que fariam. Não
haveria mais caçada naquela noite.
Cabeça Descarnada, deitado no chão, viu um meteoro incendiando-se enquanto
caía, a sudeste. Uma rápida e brilhante faixa de luz, iluminando a borda de uma nuvem
antes de se apagar. A manhã estava ainda muitas horas adiante, no futuro. Logo ele
recobraria suas forças e, então, os incendiaria completamente.
Coot não estava morto, mas tão perto da morte que quase não fazia diferença.
Oitenta por cento dos ossos de seu corpo estavam quebrados, seu rosto e o pescoço
eram um labirinto de lacerações, e uma das mãos estava completamente esmagada.
Certamente ele ia morrer. Era só uma questão de tempo e de resistência.
No vilarejo, todos que haviam percebido fragmentos da tragédia criavam suas
próprias histórias, e o que haviam realmente testemunhado emprestava maior crédito
às invenções fantásticas. O caos no cemitério da igreja, a porta destruída da sacristia,
o carro cercado por um cordão de segurança na estrada do norte. Os acontecimentos
daquela noite de sábado não seriam facilmente esquecidos.
O cancelamento da cerimônia da colheita não surpreendeu ninguém.
Maggie insistiu.
— Vamos voltar para Londres, agora.
— Ontem você queria ficar. Queria fazer parte da comunidade.
— Isso foi ontem, antes de toda esta... esta... Há um maníaco solto por aí, Ron.
— Se formos agora, nunca mais voltaremos.
— Do que está falando? É claro que voltaremos.
— Se sairmos quando o lugar está ameaçado, desistiremos dele para sempre.
— Isso é ridículo.
— Você estava tão ansiosa para que nos vissem, para fazer parte da vida da cidade.
Muito bem, temos de ficar com eles na morte também. Eu vou ficar — até o fim. Você
pode voltar para Londres. Leve as crianças.
— Não.
Ele deu um suspiro de cansaço.
— Quero ver o assassino preso, seja quem for. Quero ter certeza de que tudo foi
resolvido, quero ver com meus próprios olhos. É o único modo de nos sentirmos
seguros aqui.
Ela concordou com relutância.
— Então, pelo menos vamos sair do hotel por algum tempo. A Sra. Blatter está
ficando biruta. Não podemos dar um passeio de carro? Respirar ar puro...
— É claro, por que não?
Era um agradável dia de setembro. O campo, sempre disposto a fazer surpresas,
cintilava de vida. Flores do fim da estação coloriam os arbustos ao lado da estrada, e
os pássaros mergulhavam em voos rasantes ao lado do carro. O céu estava azul, as
nuvens eram uma fantasia cremosa. A poucos quilômetros do vilarejo, os horrores da
noite anterior começaram a evaporar, e a estimulante exuberância do dia animou-os.
Quanto mais se distanciavam de Zeal, mais diminuíam seus temores. Ron começou
logo a cantar.
Debbie criava caso no banco traseiro. Num momento era "papai, estou com calor",
logo depois "papai, quero suco de laranja", em seguida, "preciso fazer xixi".
Ron parou o carro num trecho vazio da estrada, bancando o pai indulgente. As
crianças tinham passado por maus pedaços, podiam ser um pouco mimadas.
— Tudo bem, querida, pode fazer xixi aqui, depois vamos procurar sorvete para
vocês.
— Onde está o lá-lá? — disse a menina.
Um eufemismo estúpido, inventado pela mãe de Maggie, pensou Ron.
Maggie sabia lidar melhor com Debbie nesses casos.
— Pode ir atrás desses arbustos — disse ela.
Debbie fez cara de horror. Ron e Lan trocaram um leve sorriso.
O garoto fez uma careta e voltou à revistinha lida e relida.
— Depressa, está bem? — resmungou ele. — Depois poderemos ir a algum lugar
mais decente.
Algum lugar mais decente, pensou Ron. Ele quer dizer uma cidade. É um garoto da
cidade. Vou levar algum tempo para convencê-lo de que uma montanha com uma bela
paisagem é um lugar decente. Debbie continuava criando caso.
— Aqui eu não posso, mamãe...
— Por que não?
— Alguém pode me ver.
— Ninguém vai ver, querida — garantiu Ron. — Agora, obedeça a sua mãe. —
Voltou-se para Maggie. — Vá com ela, meu bem.
Maggie não se mexeu.
— Ela está bem.
— Não pode pular o portão sozinha.
— Então, vá você.
Ron, resolvido a não discutir, forçou um sorriso e disse:
— Vamos.
Debbie saiu do carro, e Ron a passou sobre o portão de ferro para o outro lado. A
colheita já fora feita, e o campo cheirava a... terra.
— Não olhe — disse Debbie, com os olhos arregalados — você não deve olhar.
Aos nove anos, a menina já era uma manipuladora. Podia tocar o pai melhor do que
o piano em que estudava. Ele sabia disso, e ela também. Ron sorriu e fechou os olhos.
— Tudo bem. Está vendo? Estou com os olhos fechados. Agora, ande depressa.
Debbie, por favor.
-— Prometa que não vai espiar.
— Não vou espiar. — Meu Deus, pensou ele, a menina está fazendo um espetáculo.
— Ande depressa.
— Ron olhou para o carro. Ian, no banco de trás, continuava a ler, absorto em algum
herói barato, vivendo a aventura. Ian era tão sério. Ron não conseguia dele mais do
que um ou outro sorriso rápido. Não era afetação, Ian não tentava assumir ares de
mistério. Parecia satisfeito em deixar todo o teatro para a irmã.
Atrás da moita, Debbie abaixou as calcinhas de domingo e agachou-se, mas, depois
de toda aquela discussão, o xixi não vinha. Procurou concentrar-se, mas só piorou as
coisas.
Ron olhou para o horizonte, além do campo. Viu algumas gaivotas disputando um
petisco. Observou-as por algum tempo, cada vez mais impaciente.
— Vamos, meu bem —- disse ele.
Olhou outra vez para o carro. Ian observava-o com extrema chateação, ou qualquer
coisa parecida. Havia algo mais em seu rosto? Uma profunda resignação, talvez? O
garoto voltou à revistinha Utopia, ignorando o olhar do pai.
Então, ouviu o grito estridente de Debbie.
— Cristo!
Num segundo, Ron saltou o portão de ferro com Maggie logo atrás dele.
— Debbie!
Ela estava de pé ao lado da moita, olhando para o chão, choramingando, com o
rosto muito vermelho.
— O que aconteceu, pelo amor de Deus? — Maggie estava tendo dificuldade para
escalar o portão.
— Está tudo bem... tudo bem.
Ron viu uma toupeira morta no campo, os olhos comidos pelas aves, a pele
apodrecida, cheia de moscas.
— Oh, meu Deus, Ron. — O tom acusador de Maggie insinuava que Ron havia posto
o animal morto ali, de propósito.
— Está tudo bem, queridinha — disse ela, empurrando o marido e tomando Debbie
nos braços.
Os soluços acalmaram um pouco. Crianças da cidade, pensou Ron. Vão ter que se
acostumar a essas coisas se vierem morar no campo. Aqui não existe varredores de
rua para recolher os gatos atropelados todas as manhãs. Maggie embalava a filha, e,
aparentemente, as lágrimas tinham diminuído.
-— Ela vai ficar bem — disse Ron.
— É claro que vai, não é, meu bem?
Maggie ajudou-a a levantar a calcinha. Debbie fungava ainda, a privacidade
esquecida com o susto.
No carro, Ian ouvia as lamentações da irmã e tentava concentrar-se na revistinha.
Ela faz qualquer coisa para chamar atenção, pensou. Está bem, o palco é todo dela.
De repente, tudo escureceu.
Ergueu os olhos com o coração pesado. A poucos centímetros dele, alguma coisa
inclinou-se e espiou para dentro do carro. Um rosto que era o verdadeiro inferno. Ian
queria gritar, mas sua língua parecia paralisada. Tudo que fez foi urinar no banco e
espernear inutilmente, quando os braços longos e cheios de cicatrizes entraram pela
janela. As unhas do animal enfiaram-se em seus tornozelos, rasgando as meias. Um pé
de sapato novo caiu. Agora, a coisa segurava seu pé e puxava-o sobre o banco
molhado, na direção da janela. Ian recuperou a voz. Não a sua voz, mas um som
patético e idiota, muito aquém do terror que sentia. E, de qualquer modo, tarde demais.
Suas pernas já estavam fora da janela. Ian olhou pelo vidro traseiro antes de a coisa
retirá-lo por completo do carro e, como num sonho, viu o pai no portão, com uma
expressão ridícula. Ron estava saltando o portão, correndo para salvá-lo, mas seus
movimentos eram lentos demais, ineficientes demais. Desde o começo, Ian sabia que
não seria salvo porque, em seus sonhos, havia morrido desse modo centenas de vezes,
e o pai nunca chegava a tempo. A boca era maior do que ele havia sonhado, um buraco
enorme no qual estava entrando de cabeça. Cheirava como as latas de lixo nos fundos
da lanchonete da escola, mil vezes pior. A última coisa que sentiu foi uma terrível
náusea, quando a coisa decapitou-o com os dentes.
Ron jamais havia gritado em toda a sua vida. Gritar era coisa de mulher, até aquele
momento. Então, ali, de pé, vendo o monstro fechar os maxilares no pescoço de seu
filho, o único som apropriado foi um berro.
Cabeça Descarnada ouviu o grito e virou a cabeça para Ron, sem nenhum sinal de
medo. Entreolharam-se. O olhar do Rei atravessou Ron como uma lança, pregando-o
no chão, gelando-o até a medula. Maggie quebrou o encanto, sua voz um canto
fúnebre.
— Oh... por favor... não.
Sacudindo a cabeça, Ron libertou-se do olhar de Cabeça Descarnada e caminhou
para o carro, para seu filho. Mas a hesitação dera a Cabeça Descarnada o segundo de
vantagem de que, na verdade, ele não precisava, e o monstro já estava longe com a
presa entre os dentes, o sangue esguichando por todos os lados. Carregados pela
brisa, salpicos do sangue de Ian atingiram o rosto de Ron como uma chuva fina.
Declan, no coro de São Pedro, estava atento ao murmúrio. Ainda estava ali. Cedo
ou tarde, ele teria que destruir a fonte daquele som, mesmo que significasse sua morte.
O novo mestre ia exigir que o fizesse. Mas fazia parte do ritual, e a ideia da morte não
o assustava. Nos últimos dias, havia realizado ambições que acalentava (em segredo,
mas bem definidas) há anos.
Olhando para o rosto do monstro, recebendo no corpo todo a sua urina, Declan
sentira o prazer mais intenso de sua vida. Se aquela experiência, que antes teria
considerado repulsiva, podia ser tão maravilhosa e completa, como seria a morte?
Muito mais requintada. E se conseguisse morrer nas mãos de Cabeça Descarnada,
naquelas mãos enormes que cheiravam tão mal, não seria o requinte dos requintes?
Ergueu os olhos para o altar e para os restos do fogo apagado pela polícia. Os
policiais procuraram-no depois da morte de Coot, mas Declan conhecia uma porção de
esconderijos e não o encontraram. Tinham coisa mais importante para fazer. Declan
apanhou alguns volumes dos Cantos de Louvor e os atirou nas cinzas úmidas. Os
candelabros estavam retorcidos, mas ainda inteiros. Não havia nem sinal da cruz.
Talvez completamente derretida, talvez recolhida por algum policial. Declan arrancou
algumas páginas de um livro de hinos e acendeu um fósforo. Os velhos cânticos
pegaram fogo imediatamente.
Ron Milton sentia o gosto há muito esquecido das lágrimas. Há tantos anos não
chorava, especialmente na frente de outros homens. Porém, não se importava agora.
Aqueles policiais filhos da mãe não eram mesmo humanos. Só ficaram olhando para
ele, ouvindo sua história, com expressões aparvalhadas.
— Requisitamos homens de todas as divisões num raio de muitos quilômetros, Sr.
Milton — disse o rosto compassivo com olhos compreensivos. — Estão percorrendo as
montanhas. Nós apanharemos essa coisa, seja lá o que for.
— Ele levou meu filho, você compreende? Ele o matou na minha frente...
Os homens não pareciam entender o horror de tudo aquilo.
— Estamos fazendo todo o possível.
— Não é o bastante. Essa coisa... não é humana.
Ivanhoe, dos olhos compreensivos, sabia perfeitamente o quanto a coisa não era
humana.
—Vão chegar pessoas do Ministério da Defesa. Não podemos fazer muito, antes de
verificarem as provas — disse ele. Acrescentou, como uma desculpa: — É o dinheiro
público, senhor.
— Seu porra de idiota! O que importa quanto vão gastar para matar essa coisa? Não
é humana. Veio diretamente do inferno.
O olhar de Ivanhoe não era mais compassivo.
—Se veio do inferno, senhor—disse ele —, não teria atacado o reverendo com tanta
facilidade.
Coot. Esse era o homem. Por que não havia pensado nisso antes? Coot.
Ron nunca fora muito religioso. Mas estava disposto a ver as coisas com a mente
aberta e, agora que conhecia a oposição, ou um dos seus membros, estava pronto
para modificar suas opiniões. Acreditaria em qualquer coisa que lhe desse uma arma
contra aquele demônio.
Precisava falar com Coot.
— E sua mulher? — disse o policial, quando Ron se afastou.
Maggie estava numa das salas, atordoada por sedativos.
Debbie dormia ao lado dela. Não podia fazer nada. Estavam em segurança, ali, tanto
quanto era possível.
Precisava falar com Coot, antes que ele morresse.
Ele devia saber as coisas que os reverendos sabem e compreendia o sofrimento
melhor do que aqueles macacos. Afinal, a morte de um filho era o centro da religião
dele.
Quando entrou no carro, teve a impressão de sentir o cheiro do filho, do garoto que
ia continuar seu nome (Ian Ronald Milton era seu nome completo), o menino que era o
esperma feito carne, circuncidado como o pai. A criança quieta que havia olhado para
ele, de dentro do carro, com expressão tão resignada.
Dessa vez as lágrimas não apareceram. Dessa vez, sentiu apenas uma fúria que era
quase maravilhosa.
Eram onze e meia da noite. Num dos campos do sudoeste da fazenda de Nicholson,
Cabeça Descarnada descansava banhado de luar. A colheita já fora feita, os tocos
deixados começavam a escurecer, e subia da terra um cheiro tantalizante de vegetal
apodrecido. Ao lado dele estava seu jantar, Ian Ronald Milton, de costas no chão, com
a barriga aberta. Uma vez ou outra o animal apoiava-se no cotovelo e enfiava as mãos
naquele corpo de criança que começava a esfriar, procurando um pedaço mais
apetitoso.
Ali, sob a lua cheia, banhado de luar, distendendo os membros e comendo carne
humana, Cabeça Descarnada sentia-se invencível. Retirou um rim da travessa ao seu
lado e o engoliu inteiro.
Delicioso.
Consciente, apesar dos sedativos, Coot sabia que estava morrendo e que seu tempo
era precioso demais para entregar-se ao sono. Não sabia o nome do rosto que o
interrogava na luz amarelada do quarto, mas havia na voz uma insistência tão delicada
que tinha de continuar ouvindo, embora isso perturbasse sua concentração no processo
de fazer as pazes com Deus. Além disso, as perguntas interessavam-no também,
todas girando em torno do animal que o havia reduzido àquele estado.
—Aquela coisa levou meu filho — disse o homem. — O que sabe sobre o animal?
Por favor, diga-me. Vou acreditar em qualquer coisa que me disser. — Agora havia
desespero. — Apenas explique...
Deitado no travesseiro quente, pensamentos confusos enchiam a mente de Coot. O
batismo de Declan, o abraço da besta, o altar, seus cabelos e sua pele arrepiados.
Talvez pudesse dizer alguma coisa para aquele pai.
— ...na igreja...
Ron aproximou-se mais de Coot. O padre já cheirava a terra.
— ...o altar... ele tem medo... o altar...
— Quer dizer a cruz? Ele tem medo da cruz?
— Não... não...
— Não...
O corpo estalou e ficou imóvel. Ron viu a morte no rosto de Coot, a saliva secar nos
lábios, as pupilas do olho que havia restado, contraídas. Olhou durante um longo tempo
antes de chamar a enfermeira e foi embora.
Havia alguém na igreja. A porta, selada pela polícia, estava entreaberta, o cadeado
arrombado. Ron empurrou-a e entrou. A única luz vinha de uma fogueira nos degraus
do altar, alimentada por um jovem que Ron tinha visto algumas vezes no vilarejo. O
homem ergueu os olhos, sem parar de atirar as páginas do livro no fogo.
— O que posso fazer pelo senhor? — perguntou, sem muito interesse.
— Eu vim para... — Ron hesitou. O que podia dizer ao homem? A verdade? Não,
alguma coisa estava errada.
— Eu fiz uma pergunta — disse o homem. — O que deseja?
Ron aproximou-se e começou a ver melhor o jovem ao lado
do fogo. Sua roupa estava suja de lama, e os olhos, muito fundos, pareciam aspirados
pelo cérebro.
— Não tem direito de estar aqui...
— Pensei que qualquer pessoa pudesse entrar na igreja — disse Ron, olhando para
as páginas que queimavam rapidamente.
— Não esta noite. Trate de dar o fora.
Ron continuou andando na direção do altar.
— Dê o fora, eu disse!
As caretas e os sorrisos maliciosos eram de um louco.
— Eu vim para ver o altar. Depois de vê-lo, irei embora, não antes.
— Esteve falando com Coot, é isso?
— Coot?
— O que o velho maluco lhe disse? É tudo mentira, não importa o que tenha dito. Ele
nunca disse a verdade em toda a sua miserável vida, sabia? Acredite em mim. Ele
costumava subir ali — atirou um livro de preces no púlpito — para dizer uma porção de
mentiras!
— Quero ver o altar pessoalmente. Veremos se ele estava mentindo...
— Não, não vai ver nada!
O homem atirou outro punhado de livros na fogueira e ficou na frente de Ron.
Cheirava não a lama, mas a fezes. Inesperadamente, ele atacou. Seus dedos
apertaram o pescoço de Ron, e os dois caíram. Os dedos de Declan procuravam os
olhos de Ron, os dentes estavam perto do seu nariz.
Ron ficou surpreso com a fraqueza dos próprios braços. Por que não tinha jogado
squash, como Maggie sempre aconselhava, por que seus músculos estavam tão
lentos? Se não tivesse cuidado, o homem ia matá-lo.
De repente, uma claridade tão intensa como se o dia estivesse nascendo à meia-noite,
iluminou a janela do lado oeste, seguida por uma nuvem de gritos. Chamas imensas
sobrepujaram a fogueira no altar, tingindo o ar. O vitrô da janela parecia estar
dançando.
Por um momento, Declan esqueceu sua vítima, e Ron, aproveitando a pausa,
empurrou o queixo do adversário para trás, livrou um joelho e golpeou com força o peito
que estava sobre ele. O inimigo foi atirado longe, e Ron atacou. Segurando-o pelos
cabelos com uma das mãos, com a outra socou furiosamente o rosto do lunático. Não
bastava ver o sangue escorrendo do nariz, nem ouvir o estalo da cartilagem partida.
Ron continuou batendo até seu punho sangrar. Só então soltou Declan.
Lá fora, as chamas consumiam Zeal.
Cabeça Descarnada fizera muitas fogueiras antes, muitas e muitas. Mas a gasolina
era uma nova arma, e ele estava ainda aprendendo a usá-la. Não precisou de muito
tempo. O truque consistia em juntar as caixas com rodas. Isso era fácil. Abrir seus
flancos e deixar sair o sangue, um sangue que lhe causava dor de cabeça. As caixas
eram presas fáceis, alinhadas na rua como gado no matadouro. Cabeça Descarnada
caminhou entre os carros, enlouquecido com a fúria mortal, espalhando o sangue pela
rua principal e ateando fogo. Rios de fogo líquido inundavam os jardins, penetravam
sob as portas. Os telhados de palha logo se incendiaram, as casas de madeira
arderam. Em poucos minutos, Zeal era uma imensa fogueira.
Na igreja de São Pedro, Ron arrancou a toalha imunda do altar, tentando não pensar
em Debbie e em Maggie. A polícia as levaria para um lugar seguro. O que tinha de
fazer agora era mais importante.
Sob a toalha, encontrou uma caixa grande, com um entalhe rústico na parte da
frente. Ron não olhou para o desenho, tinha coisas mais urgentes para fazer. A besta
estava solta lá fora. Ouvia os rugidos de triunfo e estava ansioso, sim, ansioso para
enfrenta- lá. Para matar ou ser morto. Mas, antes disso, a caixa. Estava coberta de pó,
um pó que eriçava os cabelos em sua nuca, que erguia seu pênis numa dolorosa
ereção. Sentia todo o corpo arder como num êxtase de amor. Avidamente, encostou as
mãos na caixa, e um choque violento subiu por seus braços. Ron recuou, temendo, por
um momento, perder a consciência, mas a dor, aos poucos, passou. Ele procurou
alguma coisa para tocar a caixa sem encostar as mãos nela.
Desesperado, enrolou na mão um pedaço da toalha do altar e tirou um candelabro
da fogueira. O fogo chamuscou o pano, e o calor chegou à sua mão. Ron voltou para o
altar e começou a bater na caixa, como um louco. Estava com as mãos dormentes. Se
o candelabro em brasa estava queimando suas palmas, Ron não sentia. Afinal, isso não
importava agora. Tinha uma arma a poucos centímetros dele. Precisava alcançá-la,
usá-la. Sua ereção latejava, seus testículos estavam em fogo.
— Venha para mim — disse ele. — Venha, venha. Venha para mim. Venha para mim
— chamando para seus braços aquele tesouro, como se estivesse tentando hipnotizar
e levar para a cama uma mulher desejada, exigida por sua ereção.
— Venha, venha para mim.
A madeira da caixa começava a se partir. Ofegante, Ron usou o canto do pé do
candelabro como alavanca para retirar os pedaços maiores. O altar era oco, como ele
havia imaginado. E estava vazio.
Vazio.
A não ser por um bloco de pedra do tamanho de uma bola de futebol. Seria esse o
tesouro? Parecia tão insignificante. Mas o ar que o envolvia estava carregado de
eletricidade, e seu sangue, agitado ainda. Enfiou a mão na abertura e apanhou a
relíquia.
Lá fora, Cabeça Descarnada cantava vitória.
Sopesando a pedra na mão quase insensível, Ron via imagens sem conta passando
por sua mente. Um cadáver com os pés em chama. Um catre incendiando-se. Um cão
correndo pela rua como uma bola viva de fogo. Estava tudo do lado de fora, esperando
para acontecer.
Contra o perpetrador, Ron tinha aquela pedra.
Havia confiado em Deus, pelo menos pela metade de um dia, e acabara ficando na
merda. Era só uma pedra, uma porra de uma pedra. Girou a bola entre as mãos,
tentando decifrar as marcas e saliências. Devia significar dirima, coisa que ele não
conseguia entender.
Um barulho na outra extremidade da igreja, um estalo, um grito; além da porta, uma
rajada de fogo.
Duas pessoas entraram cambaleantes, acompanhadas pela fumaça e pelas
súplicas.
— Ele está incendiando a cidade — disse uma voz que Ron conhecia.
Era aquele policial com expressão benigna que não acreditava no inferno, tentando
manter sua convicção, talvez em benefício da sua companheira, a Sra. Blatter do hotel.
A camisola da mulher estava rasgada. Os seios nus sacudiam com os soluços. Ela
parecia não saber que estava praticamente nua, nem onde estava.
— Cristo, ajude-nos — disse Ivanhoe.
— Não tem porra de Cristo nenhum aqui — soou a voz de Declan.
Ele estava de pé, cambaleando na direção dos intrusos. Ron não via o rosto dele,
mas sabia que estava quase irreconhecível. A Sra. Blatter desviou-se dele e correu
para o altar. Ela se havia casado bem ali, onde ardia a fogueira de Declan.
Ron não podia desviar os olhos do corpo dela.
A mulher era gorda, tinha os seios pendentes, e a barriga caía sobre os genitais, e
Ron pensou que ela jamais devia vê-los. Mas era por eles que seu pênis pulsava, por
eles sua cabeça parecia girar...
A imagem dela estava em suas mãos. Por Deus, ali estava ela, o equivalente vivo da
pedra que ele segurava. Uma mulher. A pedra era a estátua de uma mulher, uma Vênus
mais grosseira do que a Sra. Blatter, com o ventre distendido pela gravidez, seios
como montanhas, os genitais, um vale que começava no umbigo e abria-se para o
mundo. Durante todo aquele tempo, sob a toalha e a cruz, haviam adorado uma deusa.
Ron afastou-se do altar e começou a correr pela passagem central, empurrando a
Sra. Blatter, o policial e o lunático.
— Não vá lá fora — disse Ivanhoe.—A coisa está bem perto.
Ron segurou sua Vênus com força, sentindo-se seguro com ela nas mãos. Atrás
dele, o sacristão gritava um aviso para seu Senhor. Sim, era um aviso, sem dúvida.
Ron abriu a porta com um pontapé. O fogo estava em toda parte. Um catre
incendiando-se, um cadáver (o encarregado do correio) com os pés em chamas, um
cão, como uma bola de fogo, correndo pela rua. E, naturalmente, Cabeça Descarnada,
em silhueta, contra o cenário de chamas. Ele olhava em volta, talvez ouvindo o aviso
gritado do sacristão, mas, provavelmente, pensou Ron, por saber, sem que ninguém
dissesse, que a mulher fora encontrada.
— Aqui! — berrou Ron. — Estou aqui! Estou aqui!
Cabeça Descarnada caminhou para ele com o passo firme do
vencedor prestes a conquistar a vitória final e absoluta. A certeza de Ron fraquejou.
Por que o monstro caminhava para ele com tanta segurança, aparentemente não se
importando com a arma que tinha nas mãos?
Por acaso não a teria visto, não teria escutado o aviso?
Anão ser que...
Oh, meu Deus.
A não ser que Coot estivesse errado. E aquilo não passasse de uma pedra, um
pedaço de pedra inútil e sem nenhum significado.
Então, duas mãos agarraram seu pescoço.
O lunático.
A voz rouca cuspiu em seu ouvido: "Seu porra".
Ron viu Cabeça Descarnada aproximando-se, ouviu o lunático berrar.
— Aqui está ele. Segure. Mate-o. Aqui está ele.
De repente, as mãos soltaram seu pescoço, e Ron, virando a cabeça, viu que
Ivanhoe arrastava o louco de volta para a igreja.
— Ele está aqui! Aqui!
Ron olhou para Cabeça Descarnada. A besta estava quase em cima dele e, muito
tarde, ergueu a mão com a pedra. Mas não era Ron que o animal queria, era Declan,
que ele farejava e ouvia. Ivanhoe soltou Declan no momento em que as mãos enormes
passaram por Ron, estendidas para o louco. O que se seguiu foi uma cena
incrivelmente pavorosa. Ron não teve coragem de ver aquelas mãos destroçarem o
corpo de Declan, mas ouviu as súplicas que se transformaram num urro de dor e de
descrença. Quando olhou, não havia nada parecido com um corpo humano no chão ou
na parede...
.. .E, agora, Cabeça Descarnada caminhava para ele para fazer o mesmo, ou talvez
pior. A cabeça enorme voltou-se para Ron, com a boca escancarada. Ron viu os
efeitos do fogo no monstro. Entusiasmado com a destruição, Cabeça Descarnada não
havia protegido o rosto nem o peito. Os pelos estavam chamuscados, a antes vasta
cabeleira, completamente queimada, a carne no lado esquerdo do rosto, enegrecida e
cheia de bolhas. Os olhos, também atingidos pelo fogo, nadavam num lamaçal de muco
e lágrimas. Por isso, ele havia seguido o som da voz de Declan, passando diretamente
por Ron. O animal estava quase cego.
Mas ele precisa enxergar agora. Precisa.
— Aqui... aqui — disse Ron. — Estou aqui!
Cabeça Descarnada ouviu e voltou-se para ele, tentando ver, tentando focalizar os
olhos.
— Aqui! Estou aqui!
O monstro soltou um rugido rouco. Era demais a dor da queimadura. Queria sair
dali, voltar para a floresta fresca banhada de luar.
Os olhos quase cegos viram a pedra que o homo sapiens acalentava como se fosse
uma criança. Cabeça Descarnada não estava enxergando bem, mas ele sabia. Aquela
imagem machucava sua mente. Ela o desafiava, provocava-o.
Não passava de um símbolo, é claro, um símbolo do poder, não o próprio poder,
mas sua mente não podia fazer a distinção. Para Cabeça Descarnada a pedra era a
coisa que ele mais temia. A mulher menstruada, com aquela abertura escancarada,
comendo a semente e cuspindo filhos. Aquela abertura, aquela mulher era a vida, a
fecundidade eterna. Ela o aterrorizava.
Cabeça Descarnada recuou, com as fezes escorrendo pelas pernas. O medo no
rosto da besta dava forças a Ron. Aproveitou a vantagem e avançou para o animal,
percebendo vagamente que Ivanhoe reunia alguns aliados atrás dele, homens armados
que via com os cantos dos olhos, ansiosos para derrubar o incendiário.
Agora, Ron sentiu que suas forças começavam a falhar. A pedra erguida acima da
cabeça, para que Cabeça Descarnada pudesse vê-la, parecia cada vez mais pesada.
— Vão em frente — disse ele para o grupo cada vez maior de zealotes. —Vão,
peguem o monstro. Peguem...
Começaram a fechar o cerco, antes mesmo de Ron acabar de falar.
Cabeça Descarnada mais sentiu o cheiro dos homens do que os viu. Seus olhos
feridos estavam fixos na mulher.
Arreganhou os dentes, preparando-se para o ataque. Estava rodeado pelo cheiro de
humanidade.
Por um momento, o pânico superou a superstição, e ele avançou para Ron,
enfrentando a pedra. O ataque apanhou Ron de surpresa. As garras enfiaram-se na
sua cabeça, e o sangue escorreu pelo rosto.
Então, os homens fecharam mais o cerco. Mãos humanas, fracas, brancas mãos
humanas agarraram o corpo de Cabeça Descarnada. Punhos cerrados batiam nas suas
costas, unhas arranhavam sua pele.
Ele largou Ron quando uma faca cortou os tendões das suas duas pernas. O grito
de dor do monstro parecia querer derrubar o céu. Nos olhos queimados, as estrelas
escorregaram quando ele caiu de costas no chão, quebrando a espinha.
Imediatamente, a multidão o dominou pelo puro peso do número. Cabeça Descarnada
quebrou um dedo aqui, arranhou um rosto ali, mas agora eles não iriam mais parar.
Aquele ódio era muito antigo. Estava nos ossos do povo, sem que soubessem.
Cabeça Descarnada resistiu o quanto pôde, mas sabia que a morte era certa.
Dessa vez não haveria ressurreição, não haveria a espera debaixo da terra até que os
descendentes daquele povo o esquecessem. Seria destruído completamente, era o
nada.
Pensando nisso, aquietou-se e forçou os olhos para ver o pequeno pai ao seu lado.
Seus olhos se encontraram, como se tinham encontrado na estrada quando ele
apanhou o garoto. Mas, agora, o olhar de Cabeça Descarnada não tinha força
nenhuma. Seu rosto estava vazio e estéril como a lua, vencido muito antes de Ron
atirar a pedra com força entre seus olhos. O crânio pouco resistente afundou, e uma
porção do cérebro espirrou na rua.
O Rei apagou. Tudo acabado de repente, sem cerimônia nem comemoração.
Apagado para sempre. Sem nenhum grito de vitória.
Ron deixou a pedra encravada no rosto da besta, levantou-se atordoado e levou a mão
à cabeça. O couro cabeludo estava solto, e ele tocou o osso do crânio. O sangue
continuava a correr. Mas, agora, braços o amparavam, e não precisava ter medo de
dormir.
Ninguém notou, mas, no corpo morto de Cabeça Descarnada, a bexiga começou a
esvaziar-se. Um riacho de urina correu pela rua. No ar frio, o líquido quente soltava um
leve vapor, e o nariz de espuma farejava à procura de um bueiro. Encontrou a sarjeta e
correu por ela até uma rachadura no asfalto. Então penetrou na terra amiga
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