Quando Cleveland Smith voltou à cela depois da entrevista com o oficial da
condicional, seu novo companheiro de prisão já estava instalado, olhando a luz solar
empoeirada pela janela de vidro reforçado. Foi uma curta exibição; durante menos de
meia hora a cada tarde (quando as nuvens permitiam), o sol encontrava seu caminho
entre a parede e o prédio da administração, e se esgueirava pelo lado da Ala B,
desaparecendo até o dia seguinte.
— Você é Tait? — perguntou Cleve.
O prisioneiro tirou os olhos do sol. Mayflower havia dito que o novo garoto tinha vinte
e dois anos, mas Tait parecia cinco anos mais jovem. Tinha cara de cachorro perdido.
E um cachorro feio; um cão abandonado pelos donos para brincar no meio do tráfego.
Olhos excessivamente atentos, lábios débeis demais, braços demasiadamente finos;
uma vítima nata. Cleve ficou irritado
por ter sido colocado com o rapaz. Tait era um peso morto, e Cleve não tinha energias
para gastar protegendo-o, apesar do papo-furado de Mayflower sobre estender a mão
amiga.
— Sim — o cãozinho respondeu. — William.
— As pessoas te chamam de William?
— Não — disse o garoto. — Me chamam de Billy.
— Billy — repetiu Cleve, e entrou na cela. O regime em Pentonville era relativamente
liberal; as celas ficavam abertas durante duas horas nas manhãs e frequentemente
duas horas durante as tardes, permitindo aos internos alguma liberdade de movimento.
Mas esse arranjo tinha suas desvantagens, e aí entrava o argumento de Mayflower.
— Me mandaram lhe dar alguns conselhos.
— É? — fez o rapaz.
— Nunca esteve no xadrez?
— Não.
— Nem no reformatório?
Os olhos de Tait piscaram.
— Pouco tempo.
— Então você sabe como é. Sabe que o seu já está na reta.
— Claro.
— Parece que fui escolhido como voluntário — comentou Cleve sem entusiasmo —
para impedir que te ferrem.
Tait fitou Cleve com olhos de um azul leitoso, como se o sol ainda estivesse neles.
— Não precisa se preocupar — respondeu o rapaz. — Você não me deve nada.
— Não devo mesmo. Mas parece que tenho uma responsabilidade social — Cleve
concluiu amargo — E é você.
Cleve estava no segundo mês de uma sentença por tráfico de maconha; era sua
terceira visita a Pentonville. Aos trinta anos de idade, estava longe da decadência. Seu
corpo era sólido, o rosto esguio e refinado; de terno, a dez metros de distância poderia
passar por um advogado. Mais de perto, o espectador poderia ver a cicatriz em seu
pescoço, recordação de um ataque feito por um viciado sem dinheiro, e uma certa
desconfiança no seu jeito de andar, como se a cada passo à frente ele mantivesse a
opção de uma retirada rápida.
Você ainda é jovem, dissera-lhe seu último juiz, ainda tem tempo de limpar as
manchas. Apesar de não ter discordado em voz alta, Cleve sabia, em seu coração, que
era um leopardo por nascença e formação. O crime era fácil, o trabalho não. Até que
alguém provasse o contrário, faria o que sabia melhor, e aguentaria as consequências,
caso fosse capturado. Ir para o xadrez não era tão difícil de engolir, se o sujeito tivesse
a atitude correta. A comida é passável, a companhia seleta; enquanto tivesse algo para
manter a mente ocupada, estaria satisfeito. Atualmente estava lendo sobre o pecado.
Aquele, sim, era um grande tema. Já escutara diversas explicações de como o pecado
entrara no mundo; de oficiais da condicional, de advogados e de sacerdotes. Teorias
sociológicas, teológicas, ideológicas. Algumas mereciam minutos de consideração; a
maioria era tão absurda (pecado nascido do ventre; pecado nascido do Estado) que ele
ria na cara de seus defensores. Nenhuma se sustentava por muito tempo.
Mas era uma boa ferida para cutucar. Precisava de um problema para ocupar seus
dias. E noites também; dormia mal na prisão. Não era a sua culpa que o mantinha
acordado, mas a dos outros. Afinal, ele era, só um avião, oferecendo sempre que
houvesse demanda; uma pequena engrenagem na máquina de consumo; não tinha nada
para sentir culpa. Mas havia outros, muitos outros, aparentemente, cujos sonhos não
eram tão benevolentes, nem as noites tão pacíficas. Eles choravam e reclamavam;
amaldiçoavam juízes locais e celestiais. O tumulto que faziam poderia acordar os
mortos.
— E sempre assim? — perguntou Billy depois de uma semana. Um novo interno
estava fazendo a maior zorra no andar de baixo; num momento, lágrimas; no seguinte,
obscenidades.
—E. A maior parte do tempo —respondeu Cleve. —Alguns precisam gritar um
pouco. Impede que suas cabeças acabem derretendo.
— Você, não — observou a voz sem melodia do beliche inferior. — Você só lê seus
livros e evita problemas. Eu vi. Você não se incomoda, não é?
— Dá para aguentar — respondeu Cleve. — Não tenho uma esposa que venha aqui
toda semana para me lembrar do que estou perdendo.
—Já esteve aqui antes?
— Duas vezes.
O garoto hesitou antes de dizer: — Então deve conhecer bem o lugar, não é?
— Bom, não estou escrevendo um guia turístico, mas já peguei o quadro geral. —
Parecia um comentário estranho da parte do garoto. — Por quê?
— Só curiosidade — retrucou Billy.
— Alguma pergunta?
Tait não respondeu durante vários segundos, e então disse: — Ouvi dizer que eles
costumavam... costumavam enforcar pessoas aqui.
Seja lá o que Cleve estava esperando que o rapaz dissesse, não era aquilo. Mas já
deduzira há vários dias que Billy Tait era esquisito. Olhares matreiros com aqueles
olhos azuis-leitosos; um jeito de encarar uma parede ou uma janela como um detetive
na cena de um crime, desesperado em busca de pistas.
— Acho que havia uma forca por aqui — comentou Cleve.
Novamente, silêncio; e depois outra pergunta, feita do modo mais desinteressado
que o rapaz conseguiu fingir. — Ela ainda está de pé?
— A forca? Não sei. Eles não enforcam mais ninguém Billy, não sabia? — Não houve
resposta da parte de baixo. — Que importância tem isso, afinal de contas?
— Só estou curioso.
Billy tinha razão; era muito curioso. Tao estranho, com seus olhares vazios e seu
jeito solitário, que a maioria dos homens o evitava. Só Lowell se interessou por ele, e
os seus motivos eram inequívocos.
— Quer me emprestar sua garota esta tarde? — perguntou a Cleve, enquanto
esperavam na fila para o café. Tait, que estava por perto, não disse nada; nem Cleve.
— Não me ouviu? Fiz uma pergunta.
— Ouvi. Deixe-o em paz.
— Uma mão lava a outra — insistiu Lowell. — Posso fazer alguns favores para você.
Podemos combinar alguma coisa.
— Ele não está à sua disposição.
— Bem, por que não pergunta a ele? — indagou Lowell, sorrindo através da barba.
— E aí, boneca?
Tait olhou na cara de Lowell.
— Não, obrigado.
—Não, obrigado — repetiu Lowell, e sorriu novamente para
Cleve, dessa vez sem humor algum. —Você o treinou direitinho. Ele também fica
sentadinho para pedir?
— Vá passear, Lowell — respondeu Cleve. — Ele não está disponível, e acabou.
— Você não tem como ficar de olho nele o dia todo — observou Lowell. — Mais
cedo ou mais tarde, ele vai ter que andar com as próprias pernas. A menos que seja
melhor ajoelhado.
A indireta arrancou uma risada do colega de cela de Lowell, Nayler. Nenhum dos
dois era homem que Cleve gostaria de encarar numa briga, mas suas habilidades no
blefe eram afiadíssimas, e ele as usou naquele momento.
— Você não vai querer problemas — desafiou a Lowell. — Barbas não cobrem
muitas cicatrizes.
Lowell olhou para Cleve, de cara fechada. Claramente não conseguia distinguir a
verdade do blefe, e era igualmente óbvio que não estava disposto a arriscar o pescoço.
— E melhor não dar mole —afirmou, e não disse mais nada.
O encontro no café não foi mencionado até aquela noite, quando as luzes já estavam
apagadas. Foi Billy que abordou o assunto.
— Você não devia ter feito aquilo — falou. — Lowell é um canalha malvado. Já ouvi o
pessoal comentando.
— Então queria ser estuprado, é?
— Não — negou rapidamente. — De jeito nenhum. Preciso ficar em forma.
—Não vai estar em forma para nada se Lowell puser as mãos em você.
Billy deslizou para fora do beliche e ficou de pé no meio da cela, quase invisível na
penumbra.
— Suponho que queira algo em troca — sussurrou.
Cleve se virou e olhou para a silhueta incerta a um metro de distância. — O que
você tem que eu poderia querer, Billy-Boy?
— O que Lowell queria.
— Foi assim que você entendeu aquela palhaçada? Que eu estava garantindo minha
posse?
— Foi.
— Como você disse: não, obrigado. — Cleve voltou a encarar a parede.
— Eu não quis dizer...
— Não me interessa o que você quis dizer. Eu não quero ouvir falar nisso, está bem?
Fique fora do caminho de Lowell, e não me venha com babaquices.
— Ei — murmurou Billy. — Não fique assim, por favor. Por favor, você é meu único
amigo.
— Não sou amigo de ninguém — Cleve disse para a parede. — Só não quero
problema algum. Entendeu bem?
— Sem problema algum — repetiu o garoto, inexpressivo.
— Certo. Agora... preciso tirar um cochilo.
Tait não disse mais nada, voltou ao beliche de baixo e se deitou, fazendo com que
as molas rangessem. Cleve ficou em silêncio, matutando sobre a conversa. Não tinha
vontade alguma de pôr as mãos no garoto; mas talvez tivesse sido áspero demais.
Bem, já estava feito. Da sua cama, podia ouvir Billy murmurando consigo mesmo, de
modo quase inaudível. Esforçou-se para ouvir o que o garoto dizia. Foram necessários
vários segundos de escuta cuidadosa para que Cleve pudesse perceber que Billy-Boy
estava rezando.
Cleve sonhou naquela noite. Com o quê, não conseguia se lembrar pela manhã, embora
curiosos vislumbres passassem pela sua cabeça enquanto tomava banho e fazia a
barba. Não passaram dez minutos naquela manhã sem que alguma coisa — sal
derramado na mesa do café, ou o som de gritos no pátio de exercícios — prometesse
decodificar seu sonho: mas a revelação não veio. Isso o deixou nervoso e malhumorado,
o que não era do seu feitio. Quando Wesley, um pequeno falsário que
conhecera na sua estada anterior, o abordara na livraria e começara a conversar como
se fossem amigos íntimos, Cleve mandou o baixinho calar a boca. Mas Wesley insistiu
em falar.
— Você está com problemas.
— É mesmo?
— Aquele seu garoto. Billy.
— O que tem ele?
— Anda fazendo perguntas. Está ficando intrometido. As pessoas não gostam disso.
Estão dizendo que você devia dar um jeito nele.
— Não sou o pai dele.
Wesley fez uma careta.
— Estou lhe dizendo; como um amigo.
— Me poupe.
—Não seja estúpido, Cleveland. Você está fazendo inimigos.
— É? — fez Cleve. — Cite um.
— Lowell — respondeu Wesley na hora. — Nayler também. Todo tipo de gente. Eles
não gostam do jeito de Tait.
— E como é o jeito dele? — Cleve retrucou de volta.
Wesley deu um pequeno grunhido de protesto.
— Só estou tentando ajudá-lo — protestou. — Ele é sonso. Feito um rato, porra.
Isso vai dar problema.
— Me poupe de suas profecias.
A lei das probabilidades exige que o pior dos profetas esteja certo algumas vezes;
aparentemente, esse era o momento de Wesley. No dia seguinte, voltando da oficina
onde exercitava o intelecto encaixando rodinhas em carros de plástico, Cleve encontrou
Mayflower esperando por ele na escada.
— Pedi que cuidasse de William Tait, Smith — comentou o oficial. —Você não tá
nem aí?
— O que aconteceu?
— Não, acho que não tá.
— Perguntei o que aconteceu. Senhor.
— Nada de mais. Não desta vez. Ele levou uma surra, só isso. Parece que Lowell
está a fim dele. Estou certo? — Mayflower olhou para Cleve, e quando não teve
resposta continuou: — Cometi um erro, Smith. Achei que havia algo a que apelar sob o
homem durão. Engano meu.
Billy estava deitado no beliche, rosto machucado, olhos fechados. Eles não se
abriram quando Cleve entrou.
— Você está bem?
— Claro — afirmou o garoto suavemente.
— Nenhum osso quebrado?
— Vou sobreviver.
— Você precisa entender...
— Escute. — Billy abriu os olhos. As pupilas tinham escurecido de algum modo, ou
era um truque de luz. —Estou vivo, ok? Não sou idiota. Eu sabia onde estava me
metendo, quando vim para cá. —Ele falava como se tivesse escolha. — Posso cuidar
de Lowell — continuou. — Portanto não se preocupe. — Fez uma pausa, e então disse:
—Você estava certo.
— Quanto a quê?
— Quanto a não ter amigos. Estou sozinho, você está sozinho. Certo? Só aprendo
um pouco devagar. Mas estou pegando o jeito da coisa. — Sorriu consigo mesmo.
— Você andou fazendo perguntas — falou Cleve.
— Ah, é? — Billy respondeu tranquilo. — Quem disse?
— Se quiser fazer alguma pergunta, pergunte a mim. As pessoas não gostam de
xeretas. Elas ficam desconfiadas. E então viram as costas, quando Lowell e sua turma
pegam pesado.
Nomear o algoz fez com que a testa de Billy se franzisse dolorosamente. Ele quase
tocou a face machucada.
— Ele está morto — murmurou o rapaz, de forma quase inaudível.
— Conta outra — comentou Cleve.
O olhar de resposta de Tait poderia ter cortado aço.
— Estou falando sério — insistiu sem um traço de dúvida na voz. — Lowell não vai
sair daqui vivo.
Cleve não respondeu; o rapaz precisava dessa fanfarronice, por mais ridícula que
fosse.
— O que tanto quer saber, para ficar xeretando por aí?
— Nada de mais — retrucou Billy. Não olhava mais para Cleve, mas para o beliche
de cima. Suavemente, continuou: — Só queria saber onde estão os túmulos, só isso.
— Os túmulos?
— Onde enterraram os homens que enforcaram. Alguém me disse que há uma
roseira onde Crippen foi enterrado. Já ouviu falar nisso?
Cleve balançou a cabeça. Só agora se lembrara do rapaz perguntando sobre a
forca; e agora os túmulos. Billy olhou para ele. O machucado inchava a cada minuto.
— Você sabe onde eles estão, Cleve? — perguntou. Novamente, aquela indiferença
fingida.
— Poderia descobrir, se você me fizesse a fineza de me dizer por que quer saber.
Billy olhou para fora do abrigo do beliche. O sol da tarde descrevia seu curto arco
nos tijolos pintados da parede da cela. Estava fraco hoje. O rapaz tirou as pernas do
beliche e sentou-se na beira do colchão, encarando a luz como fizera naquele primeiro
dia.
— Meu avô, isto é, o pai da minha mãe, foi enforcado aqui — afirmou ele, numa voz
sincera. — Em 1937. Edgar Tait. Edgar St. Clair Tait.
— O pai da sua mãe?
— Assumi o nome dele. Não queria o nome do meu pai. Nunca pertenci a ele.
— Ninguém pertence a ninguém — respondeu Cleve. — Você é independente.
— Mas isso não é verdade — retrucou Billy dando de ombros levemente, ainda
olhando para a luz na parede. Sua certeza era irredutível; a gentileza com que falava
não diminuía a autoridade da declaração. — Eu pertenço ao meu avô. Sempre pertenci.
— Você nem era nascido quando ele...
— Isso não importa. Ir e vir; isso não é nada.
Ir e vir, cismou Cleve; será que Tait queria dizer vida e morte?
Mas não teve chance de perguntar. Billy estava falando de novo, o mesmo fluxo
baixo, mas insistente.
— Naturalmente, ele era culpado. Não do modo como eles pensavam que fosse, mas
culpado. Ele sabia o que era e do que era capaz; isso é culpa, não é? Ele matou
quatro pessoas. Ou pelo menos foi por isso que o enforcaram.
— Você está querendo dizer que ele matou mais?
Billy novamente deu de ombros; números aparentemente não significavam muito. —
Mas ninguém veio ver onde o enterraram.
Isso não está certo, não é? Eles não se importaram, acho. A família toda
provavelmente estava contente com a morte dele. Pensaram que ele estava ruim da
cabeça. Mas não estava, eu sei que não estava. Tenho as mãos dele, os olhos dele.
Foi o que mamãe disse. Ela me contou tudo sobre ele, sabe, antes de morrer. Ela me
disse coisas que nunca contara a ninguém, e só fhe contou por causa dos meus olhos...
— ele vacilou, e pôs a mão sobre os lábios, como se a luz flutuante no tijolo o houvesse
hipnotizado a falar demais.
— O que sua mãe lhe contou? — pressionou Cleve.
Billy pareceu pesar respostas alternativas antes de falar.
— Só que ele e eu éramos parecidos em algumas coisas — respondeu.
— Quer dizer malucos? —interrogou Cleve, mais ou menos brincando.
— Algo assim — respondeu Billy, olhos ainda na parede. Suspirou, e então permitiuse
outra confissão. —Foi por isso que vim para cá. Para que meu avô soubesse que
ele não tinha sido esquecido.
— Veio para cá? perguntou Cleve. — O que está dizendo? Você foi preso e
sentenciado. Não teve escolha.
A luz na parede extinguiu-se quando uma nuvem passou na frente do sol. Billy olhou
para Cleve. A luz estava ali, em seus olhos.
— Eu cometi um crime para vir para cá — respondeu o rapaz. — Foi um ato
deliberado.
Cleve balançou a cabeça. A afirmação era absurda.
— Eu tentei antes: duas vezes. Levou tempo. Mas cheguei, não foi?
— Não pense que sou bobo, Billy — preveniu Cleve.
—Não estou pensando —o outro respondeu. Agora parecia de algum modo mais
leve, depois de contar sua história; até mesmo sorriu, ainda que de modo hesitante,
enquanto dizia: —Você foi bom para mim. Não pense que não sei disso. Estou grato
agora. — Encarou Cleve antes de acrescentar: — Quero saber onde estão os túmulos.
Descubra e não darei mais um pio, prometo.
Cleve não sabia quase nada da prisão ou da sua história, mas conhecia alguém que
sabia. Havia um homem chamado Bishop — tão familiar aos internos que seu nome
adquirira o artigo definido — que costumava estar na oficina na mesma hora de Cleve.
Bishop estivera dentro e fora da prisão na maior parte dos seus quarenta e tantos
anos, geralmente por pequenos crimes, e — com todo o fatalismo de um perneta que
se aprofunda no estudo da monopedia — tornara-se especialista em prisões e no
sistema penal. Pouco das suas informações vinha de livros. Adquirira o grosso do seu
conhecimento de velhos presos e guardas que queriam jogar conversa fora, e aos
poucos se transformara numa enciclopédia ambulante sobre crime e castigo. Fizera
disso um negócio e vendia, por meio de palavras, seu conhecimento cuidadosamente
acumulado; às vezes, uma informação geográfica para um futuro fugitivo, às vezes,
como mitologia carcerária para o preso ateu em busca de uma divindade local. Cleve o
procurou, e apresentou seu pagamento em tabaco e vales.
— O que posso fazer por você? — perguntou Bishop. Ele era pesado, mas não de
modo doentio. Os cigarros finos como agulhas, que estava sempre enrolando e
fumando, ficavam pequenos em seus dedos de açougueiro, manchados de marrom pela
nicotina.
— Quero saber sobre os enforcamentos daqui.
Bishop sorriu.
— Ótimas histórias — reconheceu ele; e começou a contar.
Nos detalhes mais básicos, Billy estivera basicamente correto. Ocorreram
enforcamentos em Pentonville até o meio do século, mas a forca há muito fora
demolida. No lugar, agora, ficava o escritório da condicional na Ala B. Quanto à história
das rosas de Crippen, também havia alguma verdade nela. Diante de uma barraca no
terreno, que, segundo Bishop, era um depósito para equipamento de jardinagem, havia
uma pequena faixa de grama, em cujo centro florescia um arbusto, plantado (e, nesse
ponto, Bishop admitiu que não podia separar a verdade da ficção) em memória ao Dr.
Crippen, enforcado em 1910.
— Os túmulos ficam ali? — perguntou Cleve.
— Não, não — corrigiu Bishop, reduzindo metade de um de seus cigarrinhos a cinzas
com uma única tragada — Os túmulos estão junto ao muro, à esquerda e atrás da
barraca. Lá tem um grande gramado; você já deve ter visto.
— Nenhuma lápide?
— De jeito nenhum. O terreno sempre ficou sem marcas. Só o governador sabe
quem foi enterrado lá; e ele provavelmente perdeu a planta. — Bishop catou a sua lata
de tabaco no bolso da camisa do uniforme e começou a enrolar outro cigarro com
tamanha familiaridade que mal olhava o que fazia. — Sabe, ninguém tem permissão
para ficar de luto. O que os olhos não vêem o coração não sente; é essa a ideia.
Naturalmente, não é assim que a coisa funciona, não é? As pessoas esquecem
primeiros-ministros, mas se lembram dos assassinatos. Você pode caminhar sobre
aquele gramado, e a apenas dois metros de profundidade estão alguns dos homens
mais famigerados que já passaram por esta pátria amada e idolatrada. E nem mesmo
uma cruz para marcar o lugar. Um crime, não é?
— Você sabe quem está enterrado lá?
—Alguns cavalheiros muito perversos—respondeu Bishop, como se os estivesse
admoestando carinhosamente pelas suas travessuras.
—Já ouviu falar de um homem chamado Edgar Tait?
Bishop levantou as sobrancelhas; a gordura da testa ficou toda franzida. — São
Tait? Oh, certamente. Ele não é fácil de esquecer.
— O que você sabe sobre ele?
— Ele matou a esposa e os filhos. Passou a faca em todos eles, sim senhor.
— Todos?
Bishop colocou seu cigarro recém-enrolado nos lábios grossos. — Talvez nem todos
— considerou ele, estreitando seus olhos enquanto tentava recordar os detalhes
específicos. Talvez um deles tenha sobrevivido. Acho que talvez uma filha... — deu de
ombros.
— Não sou muito bom para recordar as vítimas. Mas, também, quem é? — Fixou seu
olhar tranquilo em Cleve. — Por que está tão interessado em Tait? Ele foi enforcado
antes da Guerra.
— 1937. Já deve estar bem decomposto, hem?
Bishop levantou o indicador.
— Nem tanto — ponderou ele. — Veja bem, o terreno em que esta prisão foi
construída possui propriedades especiais. Os corpos enterrados aqui não apodrecem
como em outros lugares.
— Cleve lançou a Bishop um olhar de descrença. — E verdade
— protestou tranqüilamente o gordo. — Ouvi isso de autoridades isentas. Acredite em
mim, sempre que precisam exumar um corpo do terreno, ele sempre é encontrado em
condições quase perfeitas. — Fez uma pausa para acender um cigarro, e fumou,
soprando a fumaça através da boca junto com suas palavras seguintes. — Quando
chegar o fim do mundo, os bons homens de Marylebone e Camden Town se erguerão
como carne podre e ossos. Mas, e os perversos? Dançarão para o julgamento com o
mesmo frescor do dia em que morreram. Imagine só. — Essa ideia perversa com
certeza o deliciou. O rosto amassado enrugou-se de prazer. — Ah! — meditou. — E
quem vai chamar quem de corrupto naquela bela manhã?
Cleve nunca entendeu precisamente como Billy conseguiu entrar para a equipe de
jardinagem, mas ele o fez. Talvez tivesse apelado diretamente para Mayflower, que
convenceu os superiores de que o rapaz podia ser confiado ao ar livre. Fosse como
fosse, no meio da semana, após a descoberta de Cleve da localização dos túmulos,
Billy estava cortando grama na fria manhã de abril.
O que aconteceu naquele-dia passou de boca em boca na hora da recreação. Cleve
escutou a história de três fontes independentes, nenhuma das quais estivera presente.
Os relatos variavam no colorido, mas eram claramente da mesma espécie. Era
basicamente o seguinte: a equipe de jardinagem, composta de quatro homens
supervisionados por um único oficial carcerário, estava se movendo ao redor dos
blocos, aparando a grama e tirando ervas daninhas na preparação para o plantio da
primavera. Aparentemente, a custódia estava relaxada. Levou dois ou três minutos
antes que o oficial até mesmo notasse que um de seus presos havia chegado à
periferia do grupo e escapulido. O alarme tocou; no entanto, os guardas não
precisaram procurar longe. Tait não tentara escapar, ou se o fizera fora frustrado por
algum tipo de crise, que o incapacitara. Fora encontrado (e aqui as histórias divergiam
consideravelmente) num grande trecho gramado ao lado do muro, deitado na grama.
Alguns relatos alegavam que ele estava com o rosto negro, o corpo dobrado e a língua
praticamente mastigada; outros que ele fora encontrado com o rosto no chão, falando
com a terra, choroso, suplicante. O consenso era de que o rapaz perdera a cabeça.
Os rumores fizeram de Cleve o centro das atenções; uma situação que ele não
apreciava. No dia seguinte, mal ficou sozinho; os homem queriam saber como era
compartilhar a cela com um lunático. Ele insistia em que não tinha nada a dizer. Tait
havia sido o perfeito companheiro de cela —silencioso, sem exigências e
inquestionavelmente são. Ele contou a mesma história para Mayflower quando foi
interrogado no dia seguinte; e para o médico da prisão, mais tarde. Não deu um pio
sobre o interesse de Tait nos túmulos, e fez questão de ver Bishop e pedir a ele um
silêncio semelhante. O homem estava disposto a concordar, se no devido tempo
soubesse a história toda. Cleve prometeu. Bishop, de acordo com sua posição
sacerdotal (Bishop quer dizer bispo), não deixaria de cumprir sua palavra.
Billy ficou separado do rebanho durante dois dias. Durante esse tempo, Mayflower
desapareceu de suas tarefas de oficial da condicional. Não foi dada nenhuma
explicação. No seu lugar, entrou um homem chamado Devlin, transferido da Ala D. Sua
reputação o precedia. Não era, aparentemente, um homem de rara compaixão. A
impressão foi confirmada quando, no dia do retorno de Billy Tait, Cleve foi chamado ao
escritório de Devlin.
— Ouvi dizer que você e Tait são íntimos — inqueriu Devlin. Ele tinha um rosto tão
franco quanto granito.
— Nem tanto, senhor.
— Não vou cometer o erro de Mayflower, Smith. Na minha opinião, Tait é encrenca.
Vou vigiá-lo como um falcão e, quando não estiver aqui, você vai fazê-lo para mim,
compreendeu? Se ele piscar, vai para o trem-fantasma. Vou tirá-lo daqui e mandá-lo
para uma unidade especial antes que possa peidar. Está me entendendo?
— Visitando seu avô, não foi?
Billy perdera peso no hospital; quilos dos quais seu corpo franzino não podia se dar
ao luxo de se desfazer. Sua camisa caía dos ombros; seu cinto estava no último
buraco. O emagrecimento destacou ainda mais sua vulnerabilidade física; o golpe de
um peso-pena o derrubaria, pensou Cleve. Mas isso deu ao seu rosto uma intensidade
nova, quase desesperada. Ele parecia todo olhos; e eles haviam perdido todos os
traços da luz do sol capturada. Também sumira a fachada de vacuidade, substituída
por uma sinistra determinação.
— Fiz uma pergunta.
— Escutei — respondeu Billy. Não havia sol naquele dia, mas de qualquer modo ele
olhava para a parede. — Sim, se quer saber, estava visitando meu avô.
— Devlin me mandou tomar conta de você. Ele quer você fora. Talvez transferido
totalmente.
— Fora? — O olhar de pânico que Billy deu a Cleve era intenso demais para ser
encarado por mais que alguns segundos. — Você quer dizer, fora daqui?
— Acho que sim.
— Eles não podem fazer isso!
— Ah, podem, sim. Chamam isso de trem-fantasma. Num minuto você está aqui; no
outro...
— Não — o garoto protestou, os punhos se fechando. Começara a tremer, e durante
um momento Cleve temeu um segundo ataque. Mas pareceu, por um ato de vontade,
controlar os tremores, e novamente voltou seu olhar para o colega de cela. As
escoriações que recebera de Lowell haviam empalidecido e adquirido um tom cinzaamarelado,
mas não haviam desaparecido;
seu rosto com barba por fazer estava pontilhado de pelos claros. Olhando para ele,
Cleve sentiu uma indesejada pontada de preocupação.
— Me conte — pediu Cleve.
— Contar o quê? — perguntou Billy.
— O que aconteceu nos túmulos.
— Fiquei tonto. Quando dei por mim já estava no hospital.
— Foi isso que você disse a eles, não foi?
— E verdade.
— Não foi isso que escutei. Por que não me explica o que realmente aconteceu?
Quero que confie em mim.
— Eu confio — assegurou o rapaz. — Mas preciso guardar isso para mim, veja bem.
E entre ele e eu.
— Você e Edgar? — perguntou Cleve, e Billy assentiu. — Um homem que matou
toda a família, menos a sua mãe?
Billy ficou claramente impressionado com o fato de Cleve possuir essa informação.
— Sim — respondeu, depois de pensar um pouco. — Sim, ele matou todos. Poderia
ter matado mamãe também, se ela não tivesse escapado. Ele queria acabar com a
família toda. Para que não existissem herdeiros para carregar o sangue ruim.
— Seu sangue é ruim?
Billy se permitiu o mais fraco dos sorrisos.
— Não — contestou. — Não penso assim. Meu avô estava errado. Os tempos
mudaram, não é?
Ele é louco, pensou Cleve. De imediato, Billy captou seu julgamento.
— Não estou maluco — negou. — Pode dizer isso a eles. Diga a Devlin e a qualquer
um que perguntar. Diga-lhes que sou um cordeirinho. — A ferocidade estava de volta
aos seus olhos. Não havia nada de cordeiro ali, embora Cleve não o comentasse.
— Eles não podem me transferir, Cleve. Não depois de chegar tão perto. Tenho
negócios aqui. Negócios importantes.
— Com um homem morto?
— Com um homem morto.
Fosse qual fosse a nova finalidade que ele apresentara a Cleve, as janelas se
fecharam quando Billy voltou ao convívio com os presos. Ele não respondia nem às
perguntas nem aos insultos; sua fachada de indiferença e seus olhos vazios eram
impecáveis. Cleve ficou impressionado. O garoto tinha futuro como ator, se decidisse
abandonar a maluquice profissional.
Mas o desgaste de ocultar sua urgência recém-encontrada começara a aparecer.
Num vazio ao redor dos olhos e no tremor durante os movimentos; e em silêncios
ensimesmados e irredutíveis. A deterioração física era aparente para o médico a quem
Billy continuava a se apresentar; o médico diagnosticou depressão e insônia profunda,
e prescreveu sedativos. Essas pílulas Billy repassava para Cleve, insistindo que não
precisava delas. Cleve ficou grato. Pela primeira vez em muitos meses começou a
dormir bem, sem ser perturbado por lágrimas e gritos de seus colegas.
Durante o dia, o relacionamento entre ele e o rapaz, que sempre fora mínimo, caiu
para a mera cortesia. Cleve sentiu que Billy estava se fechando totalmente, afastandose
das meras preocupações materiais.
Não era a primeira vez que testemunhava esse recolhimento premeditado. Sua
cunhada, Rosanna, morrera de câncer no estômago três anos antes: um declínio
prolongado e, até as últimas semanas, constante. Cleve não era íntimo dela, mas talvez
essa distância houvesse lhe dado uma perspectiva quanto ao comportamento da mulher
que o resto da família ignorava. Ficara impressionado com a maneira sistemática como
ela se preparara para a morte, limitando suas afeições até que se restringissem às
figuras mais vitais de sua vida — seus filhos e seu pastor —, exilando todas as outras,
incluindo o marido de um casamento de quatorze anos.
Agora ele via o mesmo desapego e frugalidade em Billy. Como um homem treinando
para atravessar um deserto sem água e cioso demais de suas energias para gastá-las
num único gesto inútil, o rapaz estava afundando dentro de si. Era assustador; Cleve
sentia um desconforto cada vez maior de compartilhar o espaço limitado da cela com
Billy. Era como viver com um homem no Corredor da Morte.
O único consolo eram os tranquilizantes, que Billy convenceu o médico a continuar
fornecendo. Eles garantiam um sono tranquilo a Cleve, e durante vários dias, pelo
menos, sem sonhos.
Então ele sonhou com a cidade.
Primeiro não foi a cidade; primeiro veio o deserto. Um espaço vazio de areia negroazulada,
que feria as solas dos seus pés enquanto ele caminhava. A areia era soprada
por um vento frio em seu nariz, olhos e cabelos. Ele estivera ali antes, sabia. Seu ego
onírico reconhecia a paisagem de dunas estéreis, sem árvores ou habitações para
quebrar a monotonia. Mas em suas visitas anteriores viera com guias (ou pelo menos
era o que acreditava); agora estava sozinho, e as nuvens acima de sua cabeça eram
pesadas e cinzentas como cimento, sem promessa de sol. Durante o que pareceu
horas a fio, ele caminhou pelas dunas, os pés sangrando devido à areia cortante, o
corpo, polvilhado pelos grãos, tingido de azul. Quando parecia que a exaustão ia
derrotá-lo, viu ruínas, e se aproximou delas.
Não era um oásis. Não havia nada de saudável ou substancioso nessas ruas vazias;
nenhuma árvore frutífera nem fontes borbulhantes. A cidade era um conglomerado de
casas, ou partes de casas — às vezes andares inteiros, às vezes simples salas —
lançadas lado a lado em paródias da ordem urbana. Os estilos eram uma mistura
irreconciliável —belos estabelecimentos georgianos ao lado de pobres edifícios de
cômodos com salas queimadas; uma casa retirada de uma rua de terraços, perfeita até
no cão vitrificado na janela, lado a lado com uma suíte de cobertura. Todas pareciam
ter sido rudemente arrancadas de seus contextos; as paredes estavam rachadas,
oferecendo vislumbres de interiores privados; escadarias se lançavam céu acima, sem
destino; as portas abriam e fechavam com o vento, levando a lugar nenhum.
Havia vida ali, Cleve sabia. Não só os lagartos, ratos e borboletas — todos albinos
— que flutuavam e se arrastavam na frente dele enquanto caminhava pelas ruas
esquecidas — mas não vida humana. Ele sentia que cada passo que dava estava
sendo supervisionado, embora não percebesse sinal de presença humana; não na sua
primeira visita, pelo menos.
Na segunda, sua personalidade onírica deixou de lado a caminhada penosa e foi
direto para a necrópole, os pés facilmente ensinados seguindo a mesma rota da
primeira visita. O vento constante estava mais forte àquela noite. Ele prendera as
cortinas rendadas na janela e um penduricalho chinês balançava nelas. Ele também
carregava vozes; sons horríveis e estranhos que vinham de algum lugar distante além
da cidade. Ouvindo os pipilos e choramingos, como de crianças loucas, ficou
agradecido às ruas e às salas, por sua familiaridade, e pelo menos pelo conforto que
poderiam oferecer. Não tinha desejo algum de entrar naqueles interiores, com vozes ou
não; não queria descobrir o que marcava aqueles fragmentos de arquitetura para que
tivessem sido arrancados de suas raízes e jogados naquela desolação plangente.
No entanto, uma vez tendo visitado o local, sua recordação adormecida retornava a
ele, noite após noite; sempre caminhando, com os pés sangrando, vendo apenas ratos,
borboletas e aquela areia negra em cada portal, soprando para dentro de salas e
corredores que nunca mudavam de visita a visita; parecia, pelo que podia ver entre as
cortinas, ou através da parede quebrada, que elas tinham se fixado, de algum modo,
durante um momento fundamental, com uma refeição abandonada numa mesa posta
para três (o capão intocado, os molhos fumegando), um chuveiro aberto no banheiro
em que a lâmpada perpetuamente balançava, uma sala que poderia ser o escritório de
um advogado, um cão fraldeiro, uma peruca arrancada e lançada ao chão, descartada
sobre um bom carpete cujos detalhes intrincados estavam parcialmente devorados pela
areia.
Só uma vez ele viu outro ser humano na cidade; era Billy. Aconteceu de modo
estranho. Certa noite — enquanto sonhava com as ruas —, quase despertou do seu
sono. Billy estava acordado, de pé, no meio da cela, olhando para a luz que passava
pela janela. Cleve mal teve tempo de registrar o transe em que o rapaz parecia estar
antes do tranquilizante voltar a arrastá-lo para o seu sonho. No entanto, levou consigo
um fragmento da realidade, envolvendo o rapaz na sua visão. Quando alcançou
novamente a cidade, lá estava Billy Tait; de pé, na rua, rosto voltado para as nuvens, a
boca aberta, os olhos fechados.
A imagem ficou no ar por um instante. No seguinte, o garoto se afastou, os
calcanhares levantando nuvens negras de areia. Cleve o chamou. Billy, no entanto,
continuou correndo sem escutar; e, com aquela impressionante precognição que os
sonhos trazem, Cleve sabia onde o rapaz estava indo. Para os limites da cidade, onde
as casas rareavam e o deserto começava. Talvez para encontrar algum amigo
chegando naquele vento terrível. Nada o induziria a segui-lo, mas não queria perder
contato com o único ser humano que vira naquelas ruas despossuídas. Novamente
chamou o nome de Billy, mais alto.
Dessa vez, sentiu uma mão no braço, e deu um pulo, aterrorizado, para descobrir que
estava sendo sacudido para acordar em sua cela.
— Está tudo bem — disse Billy. — Você está sonhando.
Cleve tentou tirar a cidade da cabeça, mas durante vários
segundos perigosos o sonho sangrou para o mundo desperto; e, olhando para o rapaz,
viu o cabelo de Billy ser levantado por um vento que não pertencia, não podia
pertencer, aos confins da cela. — Você está sonhando — repetiu Billy. — Acorde.
Tremendo, Cleve sentou-se inteiramente no seu beliche. A cidade estava recuando
— quase se fora —, mas antes de perdê-la totalmente de vista sentiu a indiscutível
convicção de que Billy sabia sobre o que o estava acordando; haviam estado lá, juntos,
durante uns poucos momentos fugidios.
— Você sabe, não é? —acusou o rosto pálido ao seu lado.
O rapaz olhou perturbado.
— Do que você está falando?
Cleve sacudiu a cabeça. A suspeita tornava-se cada vez mais terrível a cada passo
para longe do sono. Mesmo assim, quando olhava para a mão ossuda de Billy, que
ainda agarrava seu braço, quase esperou ver grãos daquela areia de obsidiana sob
suas unhas. Só havia sujeira.
Porém, as dúvidas continuavam, muito depois da hora em que a razão deveria tê-las
submetido. Cleve deu por si vigiando o rapaz mais de perto a partir daquela noite,
esperando por algum sinal, da língua ou do olho, que revelasse a natureza do seu jogo.
Essa vigilância era uma causa perdida. Os últimos traços de acessibilidade
desapareceram depois daquela noite; o garoto tornou-se — como Rosanna — um livro
indecifrável, sem dar pistas da natureza do mundo secreto sob suas pálpebras. A única
alusão indireta àquela noite era a redobrada insistência de Billy para que Cleve
continuasse a tomar sedativos.
— Você precisa do seu sono — disse ele depois de voltar da enfermaria com mais
um suprimento. — Tome.
—Você também precisa dormir — respondeu Cleve, curioso para ver até onde o
rapaz insistiria naquilo. —Não preciso mais disso.
— Mas você precisa — insistiu Billy, oferecendo o frasco de cápsulas. — Sabe como
isso aqui é barulhento.
—Alguém me disse que elas viciam — respondeu Cleve, sem pegar as pílulas. —
Estou fora.
— Não — afirmou Billy. E agora Cleve sentiu um nível de insistência que confirmava
suas suspeitas mais profundas. O garoto queria que ele ficasse drogado, sempre quis.
— Eu durmo como um bebê — insistiu Billy. — Por favor, fique com elas. Senão serão
desperdiçadas.
Cleve deu de ombros.
— Se tem certeza — falou ele, satisfeito — seus medos confirmados —, para
mostrar que cedia.
— Tenho certeza.
— Então obrigado — pegou o frasco.
Billy sorriu. Com aquele sorriso, de certo modo, os maus momentos realmente
começaram.
Naquela noite, Cleve respondeu à atuação do garoto com uma das suas, fingindo
tomar os tranquilizantes, como sempre fazia, mas sem engolir as cápsulas. Uma vez
deitado em seu beliche, de rosto para a parede, tirou-as da boca e colocou-as sob o
travesseiro. Então fingiu dormir.
Os dias na prisão começavam e terminavam cedo; às 8:45 ou 9 horas da noite, a
maioria das celas nas quatro alas estava no escuro, os internos trancados até a aurora
e deixados em paz.
Aquela noite estava mais silenciosa do que a maioria. O chorão a duas celas de
distância fora transferido para a Ala D; houve poucas perturbações. Até mesmo sem a
pílula, Cleve sentiu sono. Do beliche de baixo, praticamente não vinha som nenhum,
exceto suspiros ocasionais. Era impossível adivinhar se Billy estava dormindo ou não.
Cleve manteve o silêncio, ocasionalmente dando uma rápida olhada na face luminosa
do seu relógio. Os minutos se arrastavam, e ele temeu, enquanto passavam as
primeiras horas, que muito em breve sua imitação do sono se tornaria a coisa real. De
fato, estava pensando nessa possibilidade, quando a inconsciência o venceu.
Acordou muito depois. Sua posição parecia não ter mudado. A parede parecia estar
diante dele, a tinta descascada como um mapa sombrio de algum território sem nome.
Levou um minuto ou dois para se orientar. Não vinha som do beliche de baixo.
Disfarçando seu gesto como um movimento de quem dorme, levou o braço ao alcance
do olho e espiou os números verdes de seu relógio. Era uma e cinquenta e um. Ainda
faltavam várias horas para a aurora. Ficou deitado na posição em que acordara durante
quinze minutos, escutando cada som na cela, tentando localizar Billy. Não quis se virar
e olhar, por medo de que o garoto estivesse em pé no meio da cela como na noite da
visita à cidade.
O mundo, embora escuro, estava longe de ser silencioso. Ele podia ouvir passos
monótonos de alguém que andava para um lado e para outro na cela correspondente
do andar de cima; água correndo nos encanamentos e o som de uma sirene na
Caledonian Road. O que não conseguia ouvir era Billy. Nem sequer sua respiração.
Outro quarto de hora se passou, e Cleve pôde sentir o torpor familiar voltando para
envolvê-lo novamente; se pudesse ficar parado mais tempo, poderia adormecer de
novo, e seria a manhã a próxima coisa que veria. Se quisesse descobrir algo, tinha que
se virar e olhar. Era melhor não tentar se mover sub-repticiamente, mas tentar se virar
da maneira mais natural possível. Foi o que fez, murmurando como se estivesse
dormindo, para dar mais peso à ilusão. Depois de se virar totalmente, e posicionar sua
mão ao lado do rosto para disfarçar sua espionagem, cautelosamente abriu os olhos.
A cela parecia mais escura do que na noite em que vira Billy com o rosto voltado
para a janela. Quanto ao rapaz, não estava visível. Cleve abriu os olhos um pouco mais
e vasculhou a cela o melhor que pôde por trás da mão. Havia algo errado, mas ele não
conseguiu descobrir o que era. Ficou deitado vários minutos, esperando que os olhos
se acostumassem à escuridão. Não se acostumaram. A cena diante dele continuou
indefinida, como uma pintura tão impregnada de sujeira e verniz que suas profundezas
recusassem o olhar investigador. No entanto, ele sabia —sabia — que as sombras nos
cantos da cela, e na parede oposta, não estavam vazias. Queria acabar com a
expectativa que fazia seu coração saltar, queria levantar a cabeça do travesseiro duro
e chamar Billy para fora do seu esconderijo. Mas o bom senso o convenceu do
contrário. Em vez disso, ficou parado, suando, e espiou.
E agora ele começava a perceber o que estava errado com a cena diante dele. As
sombras fechando a visão caíam onde não devia haver sombra nenhuma; elas se
espalhavam pelo quarto onde a luz fraca da janela deveria estar iluminando. De algum
modo, entre a janela e a parede, aquela luz havia sido sufocada e devorada. Cleve
fechou os olhos para dar à sua mente confusa uma chance de racionalizar e rejeitar sua
conclusão. Quando os abriu novamente, seu coração disparou. A sombra, em vez de
enfraquecer, crescera um pouco.
Ele nunca sentira um medo como aquele; nunca sentira um frio em suas entranhas
como o arrepio que o envolvia agora. Era como se tudo que pudesse fazer fosse
manter a respiração controlada e as mãos onde estavam. Seu instinto era de encolherse
e esconder o rosto, como uma criança. Dois pensamentos o impediam de fazê-lo.
Um era que o menor movimento poderia atrair atenção indesejada para ele. O outro,
que Billy estava em alguma parte da cela, e talvez tão ameaçado por aquela escuridão
viva quanto ele.
E então, do beliche inferior, o rapaz falou. Sua voz era suave, de modo a
presumivelmente não acordar o colega de cela. Era também estranhamente íntima.
Cleve não alimentou a ideia de que Billy estava falando em seu sono; o tempo de auto
ilusão voluntária já acabara. O rapaz estava se dirigindo à escuridão; não havia como
duvidar daquele fato desagradável.
— ...dói... — disse ele, com uma pálida nota de acusação. — .. .você não me disse
o quanto doía...
Era a imaginação de Cleve, ou o espectro das sombras floresceu um pouco em
resposta, como a tinta de uma lula na água? Ele estava terrivelmente assustado.
O rapaz voltou a falar. Sua voz era tão baixa que Cleve mal conseguiu entender as
palavras.
— ...precisa acontecer logo... — lembrou ele, com suave urgência. — ...não tenho
medo. Não tenho medo.
Novamente, a sombra mudou. Desta vez, quando Cleve olhou para seu coração,
teve uma ideia da forma quimérica que aquilo continha. Sua garganta estreitou-se; um
grito se alojou por trás de sua língua, louco para ser gritado.
— ...tudo que puder me ensinar... —dizia Billy. — ...rápido...
As palavras iam e vinham; mas Cleve mal as escutava. Sua atenção estava na cortina
de sombras, e a figura — bordada nas trevas — que se movia dentro dela. Não era
uma ilusão. Havia um homem ali dentro; ou melhor, a cópia tosca de um homem, de
tênue substância, a silhueta se deteriorando o tempo todo, sendo levada, com o maior
dos esforços, de volta para algo semelhante à humanidade. Dos traços do visitante,
Cleve viu pouco, mas o bastante para sentir deformidades que se expunham como
virtudes; um rosto semelhante a um prato de frutas podres, inchado, descascando,
crescendo aqui como um ninho de moscas e ali, subitamente, fechando-se num núcleo
pestilento. Como o garoto podia falar tão facilmente com aquela coisa? E, no entanto,
apesar da podridão, havia uma amarga dignidade na postura da criatura, na agonia de
seus olhos, e no círculo desdentado da sua boca.
Subitamente, Billy se ergueu. O movimento abrupto, depois de tantas palavras
sussurradas, quase arrancou o grito da garganta de Cleve. Ele o engoliu, e fechou os
olhos; deixou apenas uma frestinha, e olhava através das barras das pestanas para ver
o que acontecia em seguida.
Billy falava novamente, mas agora a voz era baixa demais para ser ouvida. Ele deu
um passo na direção da sombra, o corpo bloqueando grande parte da figura na parede
oposta. A cela não tinha mais que dois ou três passos de largura, mas, devido a algum
afrouxamento das leis físicas, o garoto pareceu dar cinco, seis, sete passos para fora
do beliche. Os olhos de Cleve se arregalaram; sabia que não estava sendo vigiado. A
sombra e o seu acólito tinham um assunto particular, e isso ocupava totalmente a
atenção deles.
A figura de Billy dentro do espaço da cela era menor do que parecia possível, como
se ele tivesse atravessado a parede para alguma outra província. E só agora, com os
olhos abertos, Cleve reconhecia aquele lugar. A escuridão da qual o visitante de Billy
era feito não passava de sombra de nuvem e poeira; por trás dele, quase invisível na
treva enfeitiçada, mas reconhecível para qualquer um que já houvesse estado lá,
estava a cidade dos sonhos de Cleve.
Billy alcançara seu mestre. A criatura se erguia sobre ele, esfarrapada e magra, mas
queimando com poder. Cleve não sabia como ou por que o garoto fora até ela, e temia
agora pela segurança de Billy, mas o medo de arriscar a própria segurança o manteve
preso ao beliche. Percebeu naquele momento que nunca amara ninguém o bastante,
homem ou mulher, para ter a coragem de penetrar dentro da sombra daquela sombra.
O pensamento trouxe-lhe um terrível senso de isolamento, sabia, naquele instante, que
ninguém, vendo ele caminhar para a danação, daria um único passo para salvá-lo da
beira do abismo. Duas almas perdidas; ele e o garoto.
Agora o senhor de Billy levantava a cabeça intumescida, e o vento incessante
naquelas ruas azuladas erguia sua crina para uma vida de fúria. No vento, as mesmas
vozes que Cleve escutara antes, o choro de crianças enlouquecidas, em algum lugar
entre lágrimas e uivos. Como que encorajada por essas vozes, a entidade moveu-se na
direção de Billy e o abraçou, envolvendo o rapaz em vapor. Billy não lutou contra esse
abraço, e sim o devolveu. Cleve, incapaz de assistir a essa horrível intimidade, fechou
os olhos e, quando (segundos? minutos? depois) os abriu novamente, o encontro
aparentemente terminara. A coisa sombria estava se desfazendo, abandonando seu
frágil direito à coerência. Fragmentou-se, pedaços da sua anatomia voaram para as
ruas como lixo ao vento. Sua retirada pareceu ser o sinal para a dispersão de todo o
cenário; as ruas e casas já estavam sendo devoradas pela poeira e pela distância.
Antes mesmo que o último dos pedaços da sombra tivesse sumido, a cidade
desaparecera. Cleve estava contente de estar livre dela. A realidade, por pior que
fosse, era preferível àquela desolação. Tijolo a tijolo pintado, a parede estava se
reagregando, e Billy, livre dos braços do seu mestre, voltava à sólida geometria da
cela, olhando para a luz que vinha da janela.
Cleve não voltou a dormir naquela noite. De fato, ele se perguntava, deitado no duro
colchão e olhando para as estalactites de tinta pendentes do teto, se algum dia, ao
dormir, voltaria a sentir segurança.
O sol era um showman. Lançava o brilho de sua luz com tanta animação, desejosa
de impressionar e distrair como qualquer vendedor de panelas. Mas por trás da
superfície brilhante que a luz iluminava existia outro estado; um que a luz do sol —
sempre a demagoga — conspirava para ocultar. Era vil e desesperada, aquela
condição. A maioria, cega pela luz, nunca a vislumbrava. Mas Cleve agora conhecia o
estado sem sol; até mesmo caminhara nele, em sonhos; e embora lamentasse a perda
de sua inocência, sabia que nunca poderia retraçar seus passos de volta à sala de
espelhos da luz.
Tentou de tudo para manter oculta sua mudança aos olhos de Billy; a última coisa
que desejava era que o rapaz suspeitasse que ele estava espionando. Mas o
ocultamento era quase impossível. Durante o dia seguinte, Cleve fez o máximo que
pôde para demonstrar normalidade, mas não conseguiu realmente acobertar sua
inquietação. Ela transparecia sem que ele pudesse controlá-la, como o suor de seus
poros. E o garoto sabia, não havia dúvida, sabia. Tampouco demorou a dar voz às
suas suspeitas. Quando, após a oficina da tarde, eles voltaram à cela, Billy
rapidamente abordou o assunto.
— O que há de errado com você hoje?
Cleve ocupou-se arrumando sua cama, até mesmo com medo de olhar para Billy.
— Nada de errado — respondeu. — Não estou muito bem, só isso.
— Dormiu mal? — perguntou o rapaz. Cleve podia sentir os olhos de Billy cravados
nas suas costas.
— Não — disse ele, dando um ritmo à sua negação para que saísse bem rápido. —
Tomei suas pílulas, como sempre.
— Ótimo.
A conversa esfriou, e Cleve pôde arrumar a cama em paz. Mas isso só podia ir até
determinado ponto. Quando deixou o beliche devidamente arrumado, viu Billy sentado à
mesinha, com um de seus livros aberto no colo. Ele folheava casualmente o volume,
sem qualquer sinal de sua suspeita anterior. Cleve, no entanto, sabia que não devia
confiar em simples aparências.
— Por que lê essas coisas? — perguntou o rapaz.
— Mata o tempo —respondeu Cleve, desfazendo a arrumação do beliche ao subir
nele e esticar-se.
—Não. Não estou perguntando por que você lê livros. Quero dizer, por que lê estes
livros? Todo esse negócio sobre pecado.
Cleve só ouviu em parte a pergunta. Deitar no beliche lembrava-o demasiadamente
de como havia sido a noite. Lembrava-o, também, de que a escuridão, mesmo agora,
arrastava-se pelo outro lado do mundo. Ao pensar nisso, seu estômago pareceu subir à
garganta.
— Você me ouviu? — perguntou o rapaz.
Cleve murmurou que sim.
— E então? Por que os livros? Sobre danação e tudo o mais?
— Ninguém mais os pega na biblioteca — respondeu Cleve, tendo dificuldade de
formar pensamentos para expressar-se, quando outros, silenciosos, muito mais
exigentes, pediam passagem.
— Então você não acredita?
— Não — respondeu. — Não. Não acredito numa única palavra.
O garoto ficou em silêncio durante algum tempo. Embora Cleve não olhasse para
ele, pôde ouvir Billy virando uma página. Então, outra pergunta, pronunciada de modo
mais baixo; uma confissão.
— Você já ficou com medo?
A pergunta surpreendeu Cleve, tirando-o de seu transe. A conversa passara de um
diálogo sobre leitura para algo mais pertinente. Por que Billy perguntaria sobre medo, a
menos que também estivesse assustado?
— O que poderia temer? — perguntou Cleve.
Com o canto do olho, viu o rapaz dar de ombros antes de responder.
— Coisas que acontecem — aduziu ele, sem vitalidade na voz. — Coisas
incontroláveis.
— Sim — respondeu Cleve, sem saber ao certo para onde ia a conversa. — Sim,
claro. As vezes, tenho medo.
— O que você faz então? — perguntou Billy.
— Não há nada a fazer, não é? — concluiu Cleve. Sua voz estava tão baixa quanto a
de Billy. — Deixei de rezar na manhã em que meu pai morreu.
Ele ouviu uma pequena batida, quando Billy fechou o livro, e inclinou a cabeça o
suficiente para ver o rapaz. Billy não pôde esconder inteiramente sua agitação. Ele está
com medo, percebeu Cleve; não quer que a noite chegue, tanto quanto eu. Ficou mais
seguro com a ideia de compartilhar seu medo. Talvez o rapaz não pertencesse
inteiramente à sombra; talvez até mesmo pudesse convencer Billy a desviar seu
caminho para fora daquele pesadelo em espiral.
Sentou-se ereto, a cabeça a centímetros do teto da cela. Billy pareceu fugir de suas
meditações; seu rosto era uma forma oval pálida, de músculos contraídos. Agora era o
momento de falar, compreendeu Cleve; agora, antes que as luzes fossem apagadas
nos andares e todas as celas mergulhadas nas sombras. Então não haveria tempo
para explicações. O rapaz já estaria meio perdido para a cidade, e não poderia mais
ser persuadido.
— Tenho sonhos — informou Cleve. Billy não disse nada, só olhou para ele, vazio de
expressão. —Sonho com uma cidade.
O garoto nem piscou. Obviamente, não ia oferecer nenhuma explicação; teria de ser
forçado.
— Você sabe do que estou falando?
— Billy sacudiu a cabeça. — Não — disse levemente. — Nunca sonho.
— Todo mundo sonha.
— Então simplesmente não me lembro dos sonhos.
— Eu me lembro dos meus — respondeu Cleve. Estava determinado, agora que
abordara o assunto, a não deixar Billy escapar facilmente. — E você está lá. Você está
na cidade.
Agora o rapaz piscou; só uma pestana traiçoeira, mas o bastante para assegurar a
Cleve que ele não estava gastando saliva.
— Que lugar é esse, Billy? — perguntou.
— Como posso saber? — retrucou o garoto, prestes a rir, mas depois desistindo da
tentativa. — Não sei, ora. Os sonhos são seus.
Antes que Cleve pudesse rebater, ouviu a voz de um dos guardas que passava pela
fileira de celas, mandando que os homens fossem para a cama, pois já era noite. Em
breve, as luzes seriam apagadas e Cleve estaria preso naquela cela estreita durante
dez horas. Com Billy; e fantasmas...
— Na última noite — ele disse, com medo de mencionar o que vira e ouvira sem a
devida preparação, mas com mais medo ainda de encarar outra noite nos limites da
cidade, sozinho nas trevas. — Na última noite, eu vi — hesitou. Por que as palavras não
vinham? —Vi...
— Viu o quê? — o garoto quis saber, o rosto insondável;
qualquer sinal de apreensão que estivesse antes em seu rosto havia desaparecido.
Talvez ele também tivesse ouvido o avanço do guarda e soubesse que não havia nada
a ser feito; nenhuma maneira de evitar o avanço da noite.
— O que você viu? — insistiu Billy.
Cleve suspirou.
— Minha mãe — respondeu.
O rosto do rapaz só traiu seu alívio no leve sorriso que se esgueirou pelos seus
lábios.
— Sim... vi minha mãe. Como se estivesse aqui.
— E isso o perturbou, não foi? — perguntou Billy.
— As vezes, os sonhos fazem isso.
O policial chegara ao B. 3. 20. — Luzes apagadas em dois minutos — disse
enquanto passava.
— Você deveria tomar mais daquelas pílulas — aconselhou Billy, deixando o livro de
lado e passando para o seu beliche. Então você seria como eu. Sem sonhos.
Cleve perdera. Ele, o grande blefador, fora vencido pelo garoto, e agora teria que
suportar as consequências. Ficou deitado, olhando para o teto, contando os segundos
até que as luzes fossem apagadas, enquanto, embaixo, o rapaz se despia e se enfiava
sob os lençóis.
Ainda havia tempo de saltar e chamar o guarda de volta; tempo de bater a cabeça
contra a porta até que alguém aparecesse. Mas o que poderia dizer para justificar seu
histrionismo? Que tivera pesadelos? Quem não tinha? Que estava com medo do
escuro? Quem não estava? Eles ririam na sua cara e o mandariam para a cama,
acabando com sua camuflagem, e o garoto e seu mestre esperando na parede. Não
havia segurança nessa tática.
Nem na oração. Ele dissera a verdade a Billy sobre desistir de Deus quando suas
orações pela vida de seu pai não fossem respondidas. Dessa negligência divina nascia
o ateísmo; a crença não podia ser reavivada agora, por mais profundo que fosse o seu
horror.
Pensamentos sobre seu pai conduziram inevitavelmente a pensamentos sobre a
infância; poucos assuntos, se houvesse algum, poderiam ter despertado seu interesse
o suficiente para tirá-lo de seus medos. Quando as luzes finalmente se apagaram, sua
mente assustada refugiou-se em lembranças. Seu batimento cardíaco ficou mais lento;
os dedos deixaram de tremer, e finalmente, sem perceber, o sono o conquistou.
As distrações disponíveis em sua mente consciente não estavam disponíveis para
seu inconsciente. Uma vez adormecido, as doces recordações foram banidas; as
memórias da infância se tornaram uma coisa do passado, e ele estava de volta, os pés
sangrando, àquela cidade terrível.
Ou melhor, em seus limites. Pois, nessa noite, ele não seguiu a rota familiar além da
casa georgiana e das casas próximas, mas caminhou pelos subúrbios da cidade, onde
o vento era mais forte do que nunca, e as vozes que ele carregava, mais claras.
Embora esperasse a cada passo encontrar Billy e seu companheiro tenebroso, não viu
ninguém. Só borboletas o acompanhavam pelo caminho, luminosas como o mostrador
do seu relógio. Elas pousavam em seus ombros e em seu cabelo como confetes, e
depois voavam novamente.
Ele alcançou a margem da cidade sem incidentes e ficou ali, parado, vasculhando o
deserto. As nuvens, sólidas como sempre, moviam-se no alto com a majestade de
destróieres. As vozes pareciam mais próximas esta noite, pensou, e as paixões que
expressavam, menos aflitivas do que achara antes. Se essa melhora estava nelas ou
na sua resposta a elas, não soube dizer.
E então, enquanto olhava as dunas e o céu, hipnotizado pelo seu vazio, ouviu um som e
olhou para trás para ver um homem sorridente, vestido com o que certamente era seu
traje dominical, saindo da cidade em sua direção. Trazia uma faca; o sangue nela, na
sua mão e na camisa, ainda estava úmido. Mesmo nesse estado onírico, e
aparentemente invulnerável, Cleve ficou intimidado pela visão e recuou — uma palavra
de autodefesa nos lábios. O homem sorridente, contudo, pareceu não vê-lo, e avançou
além dele rumo ao deserto, largando a lâmina enquanto cruzava alguma fronteira
invisível. Só agora Cleve percebia que outros estavam fazendo o mesmo, e que o chão,
no limite da cidade, estava cheio de objetos letais — facas, cordas (até mesmo uma
mão humana, cortada no pulso) —, a maioria dos quais praticamente enterrada.
O vento trazia novamente as vozes: retalhos de canções insensatas e risos
inacabados. Ele tirou os olhos da areia. O homem exilado já estava a cem metros da
cidade e, agora, de pé no topo de uma das dunas, aparentemente esperava. As vozes
tornavam-se cada vez mais altas. Cleve ficou subitamente nervoso. Sempre que estava
na cidade, e escutava aquela cacofonia, a imagem que fizera de quem a produzia
congelava seu sangue. Poderia agora suportar e esperar que as assombrações
aparecessem? A curiosidade venceu a prudência. Colou os olhos no ponto de onde
viriam, incapaz de afastar o olhar. O homem na roupa dominical começara a tirar sua
jaqueta. Ele a descartou e passou a afrouxar a gravata.
E agora Cleve achava que via algo nas dunas, e o barulho evoluiu para um uivo
estático de boas-vindas. Ele olhou, desafiando os nervos a traí-lo, determinado a ver
esse horror nas suas muitas faces...
Subitamente, acima do barulho da música desses seres, alguém estava gritando; a
voz de um homem, mas aguda, castrada pelo terror. Não vinha da cidade do sonho,
mas daquela outra ficção que o ocupava, e cujo nome não conseguia recordar.
Redobrou sua atenção, voltando a olhar as dunas, determinado a não perder a reunião
que ocorreria diante dele. O grito naquele outro e inominado lugar chegou a uma altura
capaz de destruir a garganta, e parou. Mas agora um sino de alarme tocava em seu
lugar, mais insistente do que nunca. Cleve podia sentir seu sonho escapando.
— Não... — murmurou. — ... deixe-me ver...
As dunas se moviam. Mas o mesmo acontecia com sua consciência — fora da
cidade e de volta para sua cela. Seus protestos não lhe trouxeram nenhum alívio. O
deserto sumiu, a cidade também. Ele abriu os olhos. As luzes na cela ainda estavam
apagadas; o alarme tocava. Escutou gritos nas celas, em cima e embaixo, e o som das
vozes dos guardas, subindo numa confusão de perguntas e exigências.
Ficou deitado no beliche por um momento, esperando, mesmo agora, retornar ao
espaço do seu sonho. Mas não; o alarme era agudo demais, a histeria, crescente nas
celas ao redor, perturbadora demais. Ele admitiu sua derrota e sentou-se, totalmente
acordado.
— O que está acontecendo? — perguntou a Billy.
O rapaz não estava no seu lugar perto da parede. Dormia, pelo menos dessa vez,
apesar do barulho.
– Billy?
Cleve curvou-se na borda do seu beliche e deu uma olhada no espaço abaixo.
Estava vazio. Os lençóis e cobertas, desfeitos.
Cleve saltou do beliche. Todo o conteúdo da cela podia ser visto em duas olhadas,
não havia onde se esconder. O garoto não estava em parte alguma. Teria sido levado
enquanto Cleve dormia? Não seria sem precedentes; esse era o trem-fantasma de que
Devlin falara; a remoção inexplicada de prisioneiros difíceis para outros
estabelecimentos. Cleve nunca ouvira dizer que isso acontecia à noite, mas havia uma
primeira vez para tudo.
Foi até a porta para ver se podia entender a gritaria lá fora, mas o barulho desafiava
sua compreensão. A explicação mais provável é que seria uma luta, suspeitou; dois
presos que não suportavam a ideia de mais uma hora no mesmo espaço. Tentou
compreender de onde viera o grito inicial, da direita ou da esquerda, de cima ou de
baixo; mas o sonho confundia qualquer ideia de direção.
De pé diante da porta, esperando que um guarda passasse, sentiu uma mudança no
ar. No início foi tão sutil que quase não a registrou; só quando levantou a mão para
esfregar os olhos sono- lentos percebeu que os braços estavam totalmente arrepiados.
Moveu os lábios para formar a palavra "Billy", mas não disse nada. O arrepio
chegara à sua espinha; agora ele começava a tremer. A cela não estava vazia, afinal;
havia alguém com ele naquele pequeno espaço.
Reuniu toda a coragem e forçou-se a virar e olhar. A cela estava mais escura do que
quando acordara; o ar era um véu perturbador. Mas Billy não estava na cela; não havia
ninguém.
E então ouvia-se novamente o barulho, que atraiu a atenção de Cleve para o beliche
de baixo. O espaço estava negro como piche, uma sombra — como aquela na parede
— profunda e volátil demais para que possuísse origens naturais. De dentro dela, uma
tentativa arfante de respirar que poderia ter sido o último momento de um asmático. Ele
percebeu que a escuridão na cela vinha dali — do espaço estreito da cama de Billy; a
sombra vazava para o chão e se enrolava como névoa até o topo do beliche.
O suprimento de medo de Cleve não era inesgotável. Nos últimos dias, usara-o em
sonhos e em devaneios; suara, gelara, vivera no limite da experiência sã e sobrevivera.
Agora, embora seu corpo ainda insistisse em se arrepiar, sua mente não fora levada ao
pânico. Sentia-se mais calmo do que nunca; moldado pelos eventos recentes numa
nova imparcialidade. Ele não ia se acovardar; não ia cobrir os olhos e rezar pela
chegada da manhã, pois, se o fizesse, algum dia acordaria morto e nunca saberia qual
a natureza daquele mistério.
Respirou fundo e aproximou-se do beliche, que começava a estremecer. O ocupante
amortalhado na parte mais baixa estava se movendo violentamente.
— Billy — disse Cleve.
A sombra se moveu. Enrolou-se ao redor de seus pés; deslizou até seu rosto,
rescendendo à chuva sobre pedra, fria e sem conforto.
Ele estava a menos de um metro do beliche e ainda assim não conseguia enxergar
nada; a sombra o desafiava. Recusando-se a não ver, avançou rumo à cama. Diante
disso, o véu esgarçou-se como fumaça, e a forma que rolava no colchão tornou-se
aparente.
Era Billy, naturalmente; mas também não era. Um Billy perdido, talvez, ou por vir. Se
fosse esse o caso, Cleve não queria parte de um futuro que poderia causar tamanho
trauma. Ali, no beliche inferior, uma forma sombria e miserável, ainda se solidificando,
enquanto Cleve assistia, construindo-se a partir das sombras. Havia algo de raposa
hidrófoba em seus olhos incandescentes, em seu arsenal de dentes afiados como
agulhas; algo de inseto caído de costas no modo como curvava-se sobre si mesmo, as
costas mais parecendo concha do que carne, e mais pesadelo do que ambos.
Nenhuma parte era fixa. Qualquer que fosse sua configuração (talvez tivesse muitas),
Cleve presenciava a dissolução daquele estado. Os dentes tornavam-se ainda mais
compridos e, ao fazê-lo, mostravam-se menos substanciais, sua matéria esticada até o
ponto da fragilidade, e então dispersa como neblina; seus membros crispados,
pedalando no ar, também se tornavam insignificantes. Sob o caos, ele viu o fantasma
de Billy Tait, de boca aberta, balbuciando estertores, lutando para fazer-se conhecer.
Ele queria enfiar a mão no redemoinho e retirar o garoto, mas sentia que o processo
que presenciava tinha seu próprio ritmo e poderia ser fatal intervir. Tudo o que pôde
fazer foi esperar enquanto os magros e pálidos membros de Billy e seu abdome
ofegante se contorciam para se destacar daquela horrenda anatomia. Os olhos
luminosos foram praticamente a última coisa a ir embora, escorrendo para fora das
órbitas em milhares de filamentos que se evaporavam em fumaça negra.
Finalmente, viu o rosto de Billy, sua face inocente de qualquer expressão.
Cleve lembrou-se de como o garoto reclamara com a criatura da cidade. — ...isso
dói... — Ele dissera. Você não me disse como doía... — Era uma verdade
incontestável. O corpo do garoto era uma ruína de suor e ossos; difícil conceber visão
mais desagradável. Mas humana; pelo menos isso.
Billy abriu a boca. Seus lábios estavam vermelhos e viscosos, como se estivesse de
batom.
— Agora... — ele perguntou, tentando falar entre respirações dolorosas — ... o que
vamos fazer?
O ato de falar pareceu ser demais para ele. Fez um som de engasgo no fundo da
garganta e apertou a mão contra a boca. Cleve abriu espaço enquanto Billy se levantou
e cambaleou até o balde no canto da cela, reservado para os dejetos noturnos. Não
conseguiu chegar lá antes que a náusea o vencesse; um fluido escorreu entre seus
dedos e caiu no chão. Cleve desviou o olhar enquanto Billy vomitava, preparando-se
para o fedor que teria que tolerar até a hora da limpeza na manhã seguinte. No entanto,
não foi o cheiro de vômito que encheu a cela, mas algo mais adocicado e enjoativo.
Perplexo, Cleve olhou novamente para a figura agachada no canto. No chão, entre
seus pés, poças de um líquido escuro; filetes desse líquido corriam por suas pernas
nuas. Até mesmo na escuridão da cela, não havia dúvida de que era sangue.
Na mais organizada das prisões, a violência pode — e inevitavelmente o faz —
irromper sem aviso. O relacionamento de dois presos, encarcerados juntos durante
dezesseis horas de cada vinte e quatro, era imprevisível. Mas, segundo parecia aos
prisioneiros e carcereiros, não havia ressentimentos entre Lowell e Nayler; nem houve
som algum na cela, até que começassem os gritos; nenhuma discussão, nenhuma voz
alterada. O que induziu Nayler a espontaneamente atacar e trucidar seu colega de cela,
e depois infligir ferimentos devastadores a si mesmo, era um tema para debate no
refeitório e no pátio de exercícios. O porquê do problema, no entanto, ficava
subordinado ao como. Os rumores que descreviam a condição do corpo de Lowell,
quando encontrado, desafiavam a imaginação; mesmo entre os homens calejados na
brutalidade casual, as descrições eram ouvidas com um choque. Lowell não era muito
querido; era valentão e trapaceiro. Mas nada que tivesse feito merecia tamanha
mutilação. O homem fora estripado; os olhos perfurados, a genitália arrancada. Nayler,
o único possível antagonista, conseguira depois abrir o próprio estômago. Estava numa
Unidade de Terapia Intensiva; o prognóstico não era esperançoso.
Foi fácil, para Cleve, com a rumorosa indignação percorrendo a ala, passar o dia
despercebido. Ele também tinha uma história para contar; mas quem acreditaria nele?
Ele mal conseguia acreditar em si mesmo. Na verdade, volta e meia, naquele dia,
quando as imagens retornavam a ele, Cleve perguntava a si mesmo se estava
inteiramente são. Mas a sanidade era uma festa móvel, não era?; a loucura de um
homem podia ser a política de outro. Tudo o que ele sabia ao certo era que vira Billy
Tait se transformar. Apegou-se àquela certeza com uma tenacidade nascida de um
qua- se-desespero. Se deixasse de acreditar na evidência dos seus próprios olhos, não
teria nenhuma outra defesa para manter afastada a escuridão.
Depois das abluções e do café, a ala inteira foi confinada nas celas; oficinas,
recreação — qualquer atividade que exigisse movimento entre os andares — foram
canceladas, enquanto a cela de Lowell foi fotografada e examinada, e em seguida
limpa. Depois do café, Billy dormiu durante a manhã; um estado mais próximo ao coma
do que ao sono, tamanha a sua profundidade. Quando acordou para o almoço, estava
mais alegre e extrovertido do que Cleve o vira em semanas. Não havia nenhum sinal,
sob a conversa vazia, do que ele sabia que acontecera na noite anterior. A tarde, Cleve
o confrontou com a verdade.
— Você matou Lowell — afirmou ele. Não havia por que tentar fingir ignorância; se
agora o rapaz não se lembrasse do que fizera, certamente se recordaria com o tempo.
E com aquela memória, quanto tempo levaria para se recordar de que Cleve assistira à
sua transformação? Era melhor que confessasse logo. — Eu vi você —reiterou Cleve.
—Eu vi você mudar...
Billy não pareceu muito perturbado por essas revelações.
— Sim — respondeu. — Eu matei Lowell. Você me culpa?
— A pergunta, que pedia centenas de outras, foi feita de maneira leve, como se fosse
nada mais do que uma questão de pouca importância.
— O que aconteceu com você? — perguntou Cleve. — Eu vi você —ali — ele
apontou para o beliche inferior, horrorizado com a lembrança. — Você não era humano.
— Eu não queria que você me visse — respondeu o garoto.
— Dei as pílulas para você, não dei? Não devia ter me espionado.
— E na noite anterior... —disse Cleve. —Eu também estava acordado — continuou.
O garoto piscou como um pássaro surpreso, a cabeça ligeiramente inclinada. —
Você foi realmente idiota — comentou. — Muito idiota.
— Goste disso ou não, não estou de fora — afirmou Cleve.
— Eu tenho sonhos.
— Ah, sim. —Agora uma ruga marcava aquela testa de porcelana. — Sim. Você
sonha com a cidade, não é?
— Que lugar é esse, Billy?
— Li em algum lugar: os mortos têm estradas. Já ouviu isso? Bem... eles também
possuem cidades.
— Os mortos? Quer dizer que é algum tipo de cidade-fantasma?
— Nunca quis que você se envolvesse. Você foi mais direito comigo do que a maioria
das pessoas daqui. Mas eu lhe disse, vim a Pentonville a negócios.
— Com Tait.
— Isso mesmo.
Cleve quis rir; o que ele ouvira — uma cidade dos mortos?
— só empilhava bobagem em cima de bobagem. E, no entanto, sua razão exasperada
não encontrava explicação mais plausível.
— Meu avô matou os filhos — contou Billy — porque não queria passar sua condição
para mais uma geração. Ele aprendeu tarde, sabe. Não percebeu, até ter esposa e
filhos, que não era como a maioria dos homens. Ele era especial. Mas não queria
passar as habilidades que recebera. E não queria que seus filhos sobrevivessem com o
mesmo poder no sangue. Ele teria se suicidado, e terminado o trabalho, mas minha
mãe escapou. Antes que ele pudesse encontrá-la e matá-la também, foi preso.
— E enforcado. E enterrado.
— Enforcado e enterrado; mas não perdido. Ninguém é perdido, Cleve. Nunca.
— Você voltou para encontrá-lo.
— Mais do que isso: para fazer com que ele me ajudasse. Eu sabia desde os dez
anos de idade do que era capaz. Não conscientemente; mas tinha uma certa ideia. E
tinha medo. E claro que tinha medo; era um mistério terrível.
— Essa mutação... você sempre a realizou?
— Não. Eu só sabia que era capaz dela. Vim aqui para que meu avô me ensinasse,
me mostrasse como fazer. Mesmo agora... - olhou para os braços devastados —...
com ele me ensinando... a dor é quase insuportável.
— Então por que fazer isso?
O garoto olhou para Cleve com incredulidade. — Não ser eu mesmo; ser sombra e
fumaça. Ser algo terrível. — Ele parecia verdadeiramente surpreso com a indisposição
de Cleve. — Você não faria o mesmo?
Cleve balançou a cabeça.
Billy concordou.
— Foi o que meu avô pensou. No seu julgamento, ele chamou a si mesmo de
abominação. Não que compreendessem o que ele estava falando, naturalmente, mas
foi isso o que falou. Ele se levantou e disse: "Sou o excremento de Satã..." — Billy
sorriu com a lembrança. — "Pelo amor de Deus, me enforquem e me queimem." Ele
mudou de ideia desde então. O século está ficando velho e sem graça; precisa de
novas tribos. — Olhou atentamente para Cleve.
— Não se preocupe, — falou — não vou feri-lo, a menos que comece a contar coisas.
Você não vai fazer isso, não é?
— O que poderia dizer que não parecesse loucura? — Cleve respondeu, calmo. —
Não. Não vou dizer nada.
— Ótimo. E logo irei embora; e você irá embora. E poderá esquecer.
— Duvido.
— Até mesmo os sonhos acabarão, quando eu não estiver aqui. Você só os
compartilha comigo porque possui um ligeiro talento paranormal. Confie em mim. Não
há nada o que temer.
— A cidade...
— O que tem ela?
— Onde estão seus habitantes? Não vi ninguém. Não; não é bem verdade. Vi uma
pessoa. Um homem com uma faca... indo para o deserto...
— Não posso ajudá-lo. Também vou como visitante. Tudo o que sei é o que meu avô
me conta; é uma cidade ocupada por almas mortas. Seja lá o que vir por lá, esqueça.
Não é seu lugar. Você ainda não está morto.
Seria sábio acreditar sempre no que os mortos diziam?; seriam eles purgados de
toda mentira pelo ato de morrer, e depois passarem ao próximo estágio como santos?
Cleve não era tão ingênuo. Provavelmente levavam seus talentos com eles, bons e
maus, e os usavam d a melhor maneira possível. Havia sapateiros no céu, não havia?
Tolice pensar que eles haviam esquecido de como costurar o couro.
Talvez Edgar Tait houvesse mentido sobre a cidade. Havia mais sobre a cidade do
que Billy sabia. E as vozes no vento? O homem com a faca, deixando-a cair entre
várias armas antes de ir para Deus sabe onde? Que ritual era aquele?
Agora — sem medo, e nenhuma realidade imaculada a que se agarrar —, Cleve não
viu nenhuma razão para não ir voluntariamente até a cidade. O que poderia haver lá,
naquelas ruas empoeiradas, que fosse pior do que vira no beliche de baixo, ou do que
acontecera com Lowell e Nayler? Ao lado dessas atrocidades, a cidade era um refúgio.
Havia uma serenidade nas suas ruas e praças vazias; uma sensação de que a ação
terminara, de que toda a raiva e perturbação haviam acabado; de que aqueles
interiores (com a água correndo e a taça cheia) tinham visto o pior, e que agora
estavam contentes em ficar esperando o milênio. Quando aquela noite trouxe o sono, e
a cidade se abriu diante dele, Cleve entrou não como um homem assustado em
território hostil, mas como um visitante contente em relaxar num lugar que conhecia
bem demais para se perder, mas não o bastante para se entediar.
Como em resposta à sua tranquila descoberta, a cidade se abriu para ele.
Percorrendo as ruas, os pés sangrentos como sempre, descobriu as portas
escancaradas, as cortinas das janelas recolhidas. Não depreciou o convite que
ofereciam, mas foi olhar mais de perto as casas e sobrados. Numa inspeção mais
atenta, descobriu que não eram paradigmas de calma doméstica, como acreditara
primeiramente. Em cada lugar descobriu algum sinal de violência recente. Em um,
talvez não mais do que uma cadeira virada, ou uma marca no chão onde um calcanhar
deslizara numa mancha de sangue; em outros, manifestações mais óbvias. Um martelo,
com um coágulo na unha, fora abandonado numa mesa coberta com jornais. Havia uma
sala com as tábuas do assoalho arrancadas, e pacotes de plástico negro,
suspeitamente úmido, colocados próximo ao buraco. Em uma delas, havia um espelho
em pedaços; em outra, uma dentadura abandonada ao lado de uma lareira onde o fogo
crepitava e cuspia.
Eram cenas de assassinatos, todas elas. As vítimas tinham partido — para outras
cidades, talvez, cheias de crianças trucidadas e amigos assassinados —, deixando
essas imagens fixadas para sempre nos momentos sem fôlego que se seguiram aos
crimes. Cleve desceu as ruas, o perfeito voyeur, e espiou cena após cena,
reconstruindo em sua mente as horas que haviam precedido a estudada quietude de
cada sala. Aqui morrera uma criança: seu berço estava virado; ali, alguém havia sido
assassinado na cama, o travesseiro empapado de sangue, o machado no tapete. Seria
aquela a danação? Os matadores obrigados a esperar por uma parte da eternidade
(talvez por toda ela) na sala onde haviam matado?
Dos próprios malfeitores não viu nada, embora a lógica dissesse que deviam estar
por perto. Será que tinham o poder da invisibilidade para se ocultarem dos olhos
curiosos de passantes sonhadores, como ele? Ou será que um período neste lugar em
parte alguma os transformava, de modo que não fossem mais carne e sangue, mas
uma parte das suas celas: uma cadeira, uma boneca de porcelana?
Então lembrou-se do homem no perímetro da cidade, que aparecera com sua
melhor roupa, as mãos cobertas de sangue, e caminhara para o deserto. Ele não
estava invisível.
— Onde está você? —perguntou ele, de pé no limiar de uma sala comum, com o
fogão aberto e utensílios na pia, a água correndo sobre eles. — Apareça.
Sua visão captou um movimento e então olhou para a porta. Havia um homem ali.
Estivera ali o tempo todo, percebeu Cleve, mas tão parado, tão perfeitamente
harmonizado com o resto da sala, que não ficara visível até que moveu os olhos e olhou
na direção de Cleve. Este sentiu uma pontada de inquietação, pensando que cada
quarto que espiara possuía, provavelmente, um ou mais matadores, cada um
similarmente camuflado pelo êxtase. O homem, sabendo que fora visto, saiu do
esconderijo. Estava no final da meia-idade, e havia se cortado de manhã fazendo a
barba.
— Quem é você? — perguntou o homem. —Já vi você antes. Caminhando por aí —
falou de modo triste e suave. Um estranho matador, pensou Cleve.
— Só um visitante — disse ao homem.
— Não existem visitantes aqui — respondeu ele. — Só futuros moradores.
Cleve franziu a testa, tentando entender o que o homem dizia. Mas sua mente no
sonho era vagarosa, e antes que pudesse solucionar o enigma das palavras do homem
vieram outras.
— Eu conheço você? —perguntou o homem. —Percebi que esqueço cada vez mais.
Não adianta, não é? Se eu esquecer nunca irei embora, irei?
— Ir embora? — repetiu Cleve.
— Fazer uma troca — explicou o homem, realinhando a peruca.
— E ir para onde?
— De volta. Fazer de novo.
Agora ele se aproximou de Cleve. Esticou as mãos, palmas para cima; estavam
cheias de bolhas.
— Você pode me ajudar — afirmou ele. — Posso fazer um acordo com os melhores
deles.
— Não estou entendendo.
O homem pensou obviamente que ele blefava. Seu lábio superior, que possuía um
bigode tingido de preto, curvou-se. — Entende, sim — disse ele. — Você entende
perfeitamente. Quer apenas se vender, como todo mundo. Oferta mais alta, é? O que
é você, um assassino?
Cleve balançou a cabeça.
— Estou apenas sonhando — respondeu.
A irritação do homem amainou.
— Seja camarada — pediu. — Eu não tenho influência; não como alguns. Alguns
deles, sabe, vêm para cá e vão embora em questão de horas. São profissionais. Eles
fazem negócios. Mas e eu? Comigo foi um crime passional. Não me preparei. Ficarei
aqui até fazer um acordo. Por favor, seja camarada.
— Não posso ajudá-lo — declarou Cleve, sem ao menos estar certo do que o
homem estava pedindo.
O matador assentiu. — É claro que não — reconheceu ele.
— Eu não esperava...
Deu as costas a Cleve e foi até o forno. O calor saía dali e formava uma miragem
na grelha. Casualmente, colocou uma das mãos na porta e a fechou; assim que ele o
fez, ela se abriu novamente. — Sabe como é apetitoso o cheiro de defunto cozinhando?
— perguntou, enquanto voltava à porta do forno e tentava fechá-la uma segunda vez.
— Será que alguém pode me culpar? Pode?
Cleve o deixou com seus pensamentos; se havia algum sentido ali, não merecia seu
esforço para compreendê-lo. Essa conversa de trocas e fuga da cidade desafiava a
compreensão de Cleve.
Ele continuou perambulando, cansado agora de olhar para dentro das casas. Vira
tudo o que quisera ver. Certamente, a manhã estava próxima, e o sino tocaria na
prisão. Talvez fosse melhor acordar a si mesmo e acabar com a viagem naquela noite.
Enquanto pensava nisso, viu a garota. Ela não devia ter mais que seis ou sete anos,
e estava de pé na encruzilhada ali perto. Certamente, não era uma matadora.
Caminhou em sua direção. Ela, por timidez ou outro motivo menos benigno, virou para a
direita e saiu correndo. Cleve a seguiu. Quando chegou à encruzilhada, ela já estava
longe, na rua seguinte; novamente a seguiu. Aparentemente, nessas perseguições
oníricas as leis físicas não afetavam do mesmo modo perseguidos e perseguidores. A
garota parecia mover-se com facilidade, enquanto Cleve lutava contra um ar tão
espesso quanto o melado. No entanto, não desistiu, mas esforçou-se para alcançar a
menina. Logo estava longe de qualquer local que reconhecesse: uma colméia de pátios
e becos
— todos, supostamente, cenas de atrocidades. Ao contrário das ruas principais, este
gueto continha poucos espaços inteiros; só pedaços de geografia: um gramado, mais
vermelho do que verde;
um andaime com um nó de forca pendurado; um monte de terra, e agora,
simplesmente, uma parede.
A garota o levara para um beco sem saída; ela mesma desaparecera, deixando-o
diante de uma simples parede de tijolos, muito desgastada, com uma janela estreita.
Ele se aproximou; era claramente isso que fora conduzido a ver. Espiou pelo vidro
reforçado, sujo do lado de fora por um acúmulo de fezes de pássaros, e viu que estava
olhando para uma das celas de Pentonville. Seu estômago revirou-se. Que tipo de jogo
era esse? Sair de uma cela para aquela cidade, num sonho, só para voltar à prisão?
Mas alguns segundos de estudo esclareceram que não era a sua cela. Era a de Lowell
e Nayler. Eram deles as fotos coladas no tijolo cinzento; deles, o sangue espalhado no
chão, na parede, no beliche e na porta. Era outra cena de um crime.
— Deus todo-poderoso — murmurou. — Billy...
Afastou-se da parede. Na areia, a seus pés, lagartos copulavam; o vento que
descobrira o caminho para aquele beco trouxera borboletas. Enquanto assistia à sua
dança, o sino tocou na ala B, e era manhã.
Era uma armadilha. Seu mecanismo não estava claro para Cleve — mas ele não
tinha dúvidas quanto à sua finalidade. Billy iria para a cidade; em breve. A cela em que
cometera o assassinato já o esperava, e de todos os locais amaldiçoados que Cleve
vira naquela geografia de crimes, certamente a pequena cela encharcada de sangue
era o pior. O rapaz não sabia o que estava sendo planejado para ele; seu avô mentira
sobre a cidade, por omissão, deixando de contar a Billy que qualificações especiais
eram necessárias para existir nela. E por quê? Cleve recordou a conversa oblíqua que
tivera com o homem na cozinha. Aquela história de trocas, de tratos, de voltar. Edgar
Tait se arrependera dos seus pecados, não se arrependera? Decidira, com o passar
dos anos, que ele não era o excremento do Diabo, que voltar ao mundo não era uma
ideia tão ruim assim. De algum modo, Billy seria um instrumento daquele retorno.
— Meu avô não gosta de você — disse o garoto, quando foram trancados depois do
almoço. Pelo segundo dia consecutivo, todas as atividades de recreação e de oficinas
haviam sido canceladas, enquanto um inquérito estava sendo feito cela por cela sobre a
morte de Lowell, e — desde as primeiras horas da manhã — de Nayler.
— Não? — disse Cleve. — E por quê?
— Ele diz que você faz perguntas demais. Na cidade.
Cleve estava sentado no beliche de cima; Billy, numa cadeira
contra a parede oposta. Os olhos do garoto estavam injetados; um tremor leve, mas
constante, tomava conta do seu corpo.
—Você vai morrer — afirmou Cleve. De que outra maneira falar sobre o assunto, a
não ser assim? —Eu vi... na cidade...
Billy balançou a cabeça.
— As vezes, você fala como um louco. Meu avô diz que não devo confiar em você.
— Ele está com medo de mim, é por isso.
Billy riu com escárnio. Era um som desagradável, aprendido, adivinhou Cleve, com o
avô Tait. — Ele não tem medo de ninguém — respondeu Billy.
— Tem medo do que verei. Do que vou contar a você.
— Não — respondeu o garoto, com absoluta convicção.
— Ele disse para você matar Lowell, não disse?
Billy levantou a cabeça bruscamente.
— Por que disse isso?
— Você nunca quis assassiná-lo. Talvez assustá-los um pouco; mas não matá-los.
Foi ideia do seu querido avô.
—Ninguém me diz o que fazer — respondeu Billy; seu olhar estava gelado. —
Ninguém.
— Tudo bem — admitiu Cleve. — Talvez ele o tenha persuadido, hein? Talvez tenha
dito a você que era uma questão de orgulho familiar. Algo assim? —A observação,
claramente, tocara um nervo; os tremores aumentaram.
— E daí? E se ele fez isso?
— Já vi para onde você vai, Billy. Para um lugar que espera por você... — O rapaz
olhou para Cleve com intensidade, mas não o interrompeu. —Só assassinos ocupam a
cidade, Billy. E por isso que seu avô está lá. E se ele puder encontrar um substituto —
se ele puder fazê-lo cometer mais crimes — poderá ficar livre.
Billy ficou de pé, o rosto furioso. Não havia ali mais nenhum traço de zombaria.
— O que quer dizer com livre?
— De volta ao mundo. De volta para cá.
— Você está mentindo...
— Pergunte a ele.
— Ele não me enganaria. E sangue do meu sangue.
— Você acha que ele se importa? Depois de cinquenta anos naquele lugar,
esperando uma chance de sair. Você acha que ele dá a mínima para como vai fazer
isso?
— Vou contar a ele como você mente... — avisou Billy. A raiva não estava
diretamente direcionada para Cleve; havia ali uma ponta de dúvida que Billy estava
tentando suprimir. —Você está morto — reiterou ele. — Quando ele descobrir como
está tentando me envenenar contra ele. Você irá vê-lo, então. Oh, sim. Irá vê-lo. E
então desejará nunca ter nascido.
Parecia não ter saída. Mesmo que Cleve pudesse convencer as autoridades a removêlo
antes do cair da noite (uma chance realmente pequena; ele teria que reverter tudo o
que alegara sobre o garoto, dizer a eles que Billy era perigosamente insano, ou algo
parecido; certamente, não a verdade), mesmo que ele conseguisse ser transferido para
outra cela, não havia nenhuma promessa de segurança nessa manobra. O garoto havia
dito que era fumaça e sombra. Nem portas nem barras podiam manter insinuações
como aquelas a distância; o destino de Lowell e Nayler era prova disso. E Billy não
estava sozinho. Havia Edgar St. Clair Tait; que poderes ele possuiria? No entanto, ficar
na mesma cela com o rapaz naquela noite seria o mesmo que suicídio. Ele estaria se
entregando às mãos de monstros.
Quando deixaram suas celas para a refeição noturna, Cleve procurou Devlin, achouo,
e pediu a oportunidade de uma pequena entrevista, que foi concedida. Depois da
refeição, Cleve foi ter com o oficial.
— O senhor me pediu para ficar de olho em Billy Tait.
— O que há com ele?
Cleve pensara muito no que poderia dizer a Devlin que o levasse a ser transferido
imediatamente; não veio nada à sua cabeça. Gaguejou, esperando alguma ideia, mas
não tinha nada a dizer.
— Eu... eu... quero pedir uma transferência de cela.
— Por quê?
— O garoto é um desequilibrado — respondeu Cleve. — Tenho medo que ele me
machuque. Tenha outro ataque...
— Você pode derrubá-lo com uma mão amarrada atrás das costas; ele está em
péssimo estado. — Nesse ponto, se estivesse falando com Mayflower, Cleve poderia
ter feito um apelo direto ao homem. Com Devlin, essas táticas estavam fadadas ao
fracasso desde o início.
— Não sei por que você está reclamando. Ele tem se comportado muito bem —
sentenciou Devlin, apreciando a paródia de um pai carinhoso. — Quieto... sempre
educado. Ele não é perigoso para você nem para ninguém.
— O senhor não conhece ele...
— O que está tentando fazer?
— Me coloque numa cela de Regra 43, senhor. Qualquer lugar, eu não me importo.
Só me tire do caminho dele. Por favor.
Devlin não respondeu, mas olhou para Cleve perplexo. Finalmente, disse: —Você
está com medo dele.
— Estou.
— O que há de errado com você? Já dividiu celas com caras durões e nunca se
assustou.
— Ele é diferente — respondeu Cleve; não havia muito a dizer, exceto: — Ele é
louco. Estou dizendo ao senhor que ele é louco.
— Todo mundo é louco, exceto eu e você, Smith. Não sabia? — Devlin riu. — Agora
volte para sua cela e pare de reclamar. Você não quer uma carona no trem-fantasma,
quer?
Quando Cleve voltou à cela, Billy estava escrevendo uma carta. Sentado em seu
beliche, curvado sobre o papel, parecia inteiramente vulnerável. O que Devlin havia dito
era verdade: o rapaz estava em péssimo estado. Era difícil acreditar, olhando para a
escada das suas vértebras, visíveis sob a camiseta, que aquela forma frágil pudesse
sobreviver aos estertores da transformação. Mas talvez não pudesse; talvez os rigores
da mudança o despedaçassem com o tempo. Mas não cedo o bastante.
— Billy...
O garoto não tirou os olhos da carta.
— ... o que eu disse, sobre a cidade...
Ele parou de escrever...
—.. .talvez eu estivesse imaginando tudo. Apenas sonhando...
...e recomeçou.
— ...só disse isso porque fiquei preocupado com você. Isso é tudo. Quero que
sejamos amigos...
Billy olhou para ele.
— Não está em minhas mãos.— respondeu, com muita simplicidade. — Não agora.
E com meu avô. Ele pode ser misericordioso; pode não ser.
— Por que precisa contar a ele?
— Ele sabe o que está em mim. Ele e eu... somos como um
/
só. E por isso que eu sei que ele não me enganaria.
Logo seria noite. As luzes se apagariam na ala, as sombras chegariam.
— Então só preciso esperar, não é? — perguntou Cleve.
Billy concordou.
— Vou chamá-lo, e então veremos.
Chamá-lo?, pensou Cleve. Será que o velho precisava ser invocado do seu lugar de
repouso todas as noites? Era isso que ele vira Billy fazer, de pé no meio da cela, olhos
fechados e rosto voltado para a janela? Caso fosse, talvez o rapaz pudesse ser
impedido de chamar os mortos.
Enquanto a noite se aprofundava, Cleve ficou deitado em seu beliche e pensou sobre
suas opções. Seria melhor esperar ali, e ver que julgamento viria de Tait, ou tentar
controlar a situação e bloquear a chegada do velho? Se fizesse isso, não haveria
retorno; nenhum espaço para pedidos de desculpas: sua agressão indubitavelmente
geraria agressão. Se não conseguisse impedir o garoto de chamar Tait, seria o fim.
As luzes se apagaram. Nas celas dos cinco andares da Ala B, os homens voltavam
os rostos para os travesseiros. Alguns, talvez, ficariam acordados planejando suas
carreiras, quando aquele pequeno hiato em suas vidas profissionais acabasse; outros
estariam nos braços de amantes invisíveis. Cleve prestou atenção nos sons da cela: o
barulhento progresso da água nos canos, a fraca respiração do beliche de baixo. As
vezes, parecia que ele vivera uma segunda vida naquele travesseiro mofado, um
náufrago nas trevas.
A respiração em baixo logo tornou-se praticamente inaudí- vel; tampouco havia som
de movimento. Talvez Billy estivesse esperando que Cleve adormecesse antes de agir.
Se era esse o caso, o garoto esperava em vão. Ele não fecharia os olhos, deixando
que o massacrassem enquanto dormia. Não era um porco para ser levado ao
matadouro sem reclamar.
Movendo-se da maneira mais cautelosa possível, para não levantar nenhuma
suspeita, Cleve desafivelou o cinto e o puxou das calças. Conseguiria uma corda mais
adequada rasgando o lençol e a fronha, mas não poderia fazer isso sem chamar a
atenção de Billy. Agora esperava, cinto na mão, e fingia estar dormindo.
Esta noite, ele estava grato pelo fato de o barulho na ala impedi-lo de dormir,
porque Billy só saiu do seu beliche duas horas depois, duas horas em que —apesar de
temer o que poderia acontecer, caso dormisse — as pálpebras de Cleve o traíram em
três ou quatro ocasiões. Mas outros na prisão estavam chorosos naquela noite; as
mortes de Lowell e Nayler haviam assustado até mesmo os presos mais durões. Gritos
— e respostas ofensivas dos que haviam sido acordados — pontuavam as horas.
Apesar da fadiga nos membros, o sono não o dominou.
Quando Billy finalmente saiu do beliche inferior, já passava de meia-noite, e o andar
estava praticamente silencioso. Cleve podia escutar a respiração do garoto; não era
mais regular, mas estava contida. Prestou atenção, com os olhos quase fechados,
enquanto Billy cruzava a cela até chegar no seu lugar costumeiro diante da janela. Não
havia dúvida de que ele estava prestes a chamar o velho.
Enquanto Billy fechava os olhos, Cleve se sentou, jogou longe o lençol e desceu do
beliche. O garoto demorou a reagir. Antes que compreendesse direito o que estava
acontecendo, Cleve havia cruzado a cela e jogado o rapaz contra a parede, tapando
sua boca com a mão.
— Não, nada disso — sussurrou. — Não vou acabar como Lowell — Billy lutou, mas
Cleve o dominou facilmente.
— Ele não virá esta noite — disse Cleve, olhando nos olhos arregalados do rapaz. —
Porque você não vai chamá-lo.
Billy lutou com mais violência para se libertar, mordendo com força a mão do
agressor. Cleve instintivamente removeu sua mão e em dois passos o rapaz estava na
janela, erguendo o braço. Na sua garganta, um estranho semicântico; no seu rosto,
lágrimas súbitas e inexplicáveis. Cleve o arrastou para longe.
— Pare com esse barulho! —gritou. Mas o garoto continuava. Cleve bateu nele, com
a mão aberta, mas com força, bem no rosto. — Cale a bocal — repetiu. Ainda assim, o
garoto se recusava a parar de cantar; agora a música adquirira outro ritmo.
Novamente, Cleve bateu nele; e mais uma vez. Mas o ataque não conseguiu silenciá-lo.
Houve um sussurro e mudança de ar na cela; uma alteração no jogo de luzes e
sombras. As sombras estavam se movendo.
O pânico tomou conta de Cleve. Sem avisar, cerrou o punho e bateu com força no
estômago do garoto. Quando Billy se curvou, um upper-cut acertou seu queixo. Ele
bateu com a cabeça contra a parede, o crânio acertando o tijolo. As pernas de Billy
cederam, e ele desmaiou. Um peso-leve, pensara Cleve certa vez, e tinha razão. Dois
bons socos e o garoto fora a nocaute.
Cleve olhou rapidamente ao redor da cela. O movimento nas sombras fora contido; no
entanto, elas tremiam, como galgos esperando a liberação. Com o coração em
disparada, ele levou Billy de volta ao seu beliche e o deitou. Não havia nenhum sinal de
retorno da consciência; o rapaz jazia frouxo no colchão, enquanto Cleve rasgava seu
lençol e o amordaçava, enfiando uma bola de tecido na boca do garoto para evitar que
ele emitisse algum som por trás da mordaça. Então, passou a amarrar Billy ao beliche,
usando seu cinto e o do garoto, suplementado por outras cordas feitas com lençóis
rasgados. Levou vários minutos para terminar o trabalho. Os olhos de Billy se abriram,
cheios de perplexidade. Então, percebendo sua situação, começou a jogar a cabeça de
um lado para o outro; não podia fazer muito mais para demonstrar seu protesto.
— Não, Billy — murmurou Cleve para ele, jogando um lençol sobre seu corpo preso
para impedir que algum carcereiro o visse pela portinhola antes da manhã. — Esta
noite, você não vai trazê-lo. Tudo o que eu disse era verdade, garoto. Ele quer sair; e
pretende usar você como via de escape. — Cleve segurou a cabeça de Billy, os dedos
pressionando suas faces. — Ele não é seu amigo. Eu sou. Sempre fui. — Billy tentou
livrar sua cabeça das mãos de Cleve, sem sucesso. — Não gaste sua energia —
aconselhou Cleve. — Vai ser uma longa noite.
Deixou o rapaz no beliche, cruzou a cela até a parede, e deslizou por ela até
agachar-se, de cócoras, e ficar vigiando. Ficaria acordado até de manhã, e então,
quando houvesse alguma luz para pensar, bolaria seu próximo plano. Por enquanto,
estava contente com o fato de que suas táticas rudes haviam funcionado. O garoto
parara de lutar; obviamente, havia percebido que os nós estavam muito bem-feitos para
que pudesse afrouxá-los. Um tipo de calma desceu sobre a cela; Cleve sentado no raio
de luz que entrava pela janela, o garoto deitado na escuridão do beliche inferior,
respirando de maneira regular pelas narinas. Cleve olhou o relógio. Faltavam seis
minutos para uma da madrugada. Quando chegaria a manhã? Ele não sabia. Cinco
horas, pelo menos. Descansou a cabeça e olhou para a luz.
Ela o hipnotizou. Os minutos passavam lenta, mas regularmente, e a luz não
mudava. As vezes, um policial passava pelo andar, e Billy, ouvindo os passos,
começava novamente a lutar. Mas ninguém olhou dentro da cela. Os dois prisioneiros
foram deixados com seus pensamentos: Cleve se perguntando se algum dia estaria
livre da sombra atrás dele, Billy entretendo os pensamentos sobre monstros
aprisionados que passam pela cabeça. E os minutos das horas mortas passavam,
minutos que se arrastavam pela mente como crianças obedientes, um sobre os
calcanhares do seguinte, e, depois da passagem de sessenta, aquela soma era
chamada de uma hora. E a aurora estava um pouco mais perto, não estava? Mas a
morte também, e assim, provavelmente, o final do mundo: aquela gloriosa última
trombeta de que Bishop falara com tanto carinho, quando os homens mortos sob o
gramado lá fora se levantariam frescos como o pão de ontem e encontrariam seu
criador. E sentado ali, contra a parede, escutando as inspirações e expirações de Billy,
e contemplando a luz no vidro e através do vidro, Cleve soube sem sombra de dúvida
que mesmo que escapasse dessa cilada, seria apenas um alívio temporário; que
aquela longa noite, seus minutos, suas horas, eram um gosto prévio de uma vigília mais
longa. Quase se desesperou naquele momento; sentiu sua alma afundar num buraco de
onde não parecia haver esperança de salvação. Ali estava o mundo real, chorou.
Nenhuma alegria, nenhuma luz, nenhuma expectativa; só essa espera na ignorância,
sem esperança, nem mesmo o medo, pois o medo só vinha com aqueles medos a
serem perdidos. O buraco era profundo e escuro. Ele espiou para fora, para a luz
através da janela, e seus pensamentos tornaram-se um círculo miserável. Esqueceu o
beliche e o rapaz deitado ali. Esqueceu a dormência nas pernas. Poderia, com o
tempo, ter esquecido até mesmo o simples ato de respirar, se não fosse pelo cheiro de
urina que o tirou de sua fuga.
Olhou para o beliche. O garoto estava esvaziando a bexiga; mas aquele ato era
simplesmente um sintoma de alguma outra coisa. Sob a coberta, o corpo de Billy
mexia-se de uma dúzia de maneiras que seus nós deveriam evitar. Cleve precisou de
alguns segundos para livrar-se da letargia, e ainda outros para perceber o que estava
acontecendo. Billy estava mudando.
Cleve tentou ficar de pé, mas seus membros inferiores estavam mortos depois de
ficar tanto tempo parado. Quase caiu para frente, e só conseguiu se equilibrar
esticando o braço para pegar a cadeira. Seus olhos estavam colados na escuridão do
beliche inferior. Os movimentos aumentavam em escala e complexidade. O lençol foi
jogado para fora. Sob ele, o corpo de Billy já estava além do reconhecimento; o mesmo
procedimento terrível que já vira antes, e coagulando em formas atrozes. Membros e
órgãos invocados do inefável, dentes se formando como agulhas e aparecendo numa
cabeça que crescera e ainda estava inchando. Implorou a Billy que parasse, mas com
cada respiração havia menos humanidade a quem apelar. A força que o garoto não
possuía fora dada à fera; ela já se livrara de quase todos os nós, e agora, enquanto
Cleve assistia, lutou para soltar-se do último, e rolou do beliche para o chão da cela.
Cleve recuou até a porta, os olhos perscrutando a forma alterada de Billy. Lembrou-se
do horror de sua mãe por lacraias e viu algo do inseto naquela anatomia: a maneira
como ele curvava suas costas brilhantes sobre si mesmo, expondo o labirinto de patas
que percorria seu abdome. Em outras partes, nenhuma analogia era evidente. A
cabeça estava cheia de línguas que limpavam os olhos com lambidas e corriam para
cima e para baixo nos seus dentes, molhando-os constantemente; de buracos
purulentos em seus flancos, vinha um fedor de esgoto. No entanto, até mesmo agora
havia algum resíduo de humanidade preso àquela podridão, o seu rumor só servindo
para aumentar a imundície do todo. Vendo seus ganchos e espinhos, Cleve recordouse
do grito crescente de Lowell; sentiu a própria garganta pulsar, pronta a deixar
escapar um som semelhante, se a fera se voltasse para ele.
Mas Billy tinha outras intenções. Ele se moveu — os membros num feixe horrível —
até a janela e se esticou, pressionando a cabeça contra o vidro como uma
sanguessuga. A música que produziu não era semelhante à canção anterior — mas
Cleve não tinha dúvida de que era a mesma invocação. Voltou-se para a porta e
começou a bater nela, esperando que Billy estivesse distraído demais com o seu
chamado para voltar-se contra ele antes que chegasse ajuda.
— Depressa! Pelo amor de Deus! Depressa! — Ele gritou o mais alto que sua
exaustão permitiu e olhou sobre os ombros para ver se Billy avançava em sua direção.
Não estava; continuava agarrado à janela, embora seu chamado já estivesse quase
silencioso. Sua finalidade fora alcançada. A escuridão tiranizava a cela.
Em pânico, Cleve voltou-se para a porta e recomeçou a bater com as mãos. Havia
alguém correndo pelo andar agora; ele podia escutar gritos e xingamentos de outras
celas. — Meu Deus, socorro! — gritou. Sentia um calafrio nas costas. Não precisava
voltar-se para saber o que estava acontecendo. A sombra crescia, o muro se dissolvia
de modo que a cidade e o seu ocupante pudessem atravessá-lo. Tait estava ali. Podia
sentir a presença do homem, vasta e tenebrosa. Tait, o matador de crianças; Tait, a
coisa da escuridão; Tait, o mutante. Cleve bateu na porta até que suas mãos
sangrassem. Os pés pareciam estar a um continente de distância. Estavam chegando?
Estavam chegando?
O calafrio atrás dele tornou-se um vento gelado. Viu sua sombra lançada contra a
porta pela luz azul oscilante; sentiu o cheiro de areia e sangue.
E então, a voz. Não a do garoto, mas do avô, de Edgar St. Clair Tait. Este era o
homem que se declarara o excremento do
Diabo, e ouvindo aquela voz abominável, Cleve acreditou tanto no inferno quanto no seu
mestre, acreditou que já estava nos intestinos de Satã, uma testemunha de suas
maravilhas.
—Você é curioso demais —censurou Edgar. —Está na hora de ir para a cama.
Cleve não quis se voltar. Seu último pensamento era de que deveria se voltar e
encarar a presença. Mas não estava mais sujeito à própria vontade; Tait tinha dedos na
sua cabeça e estava mexendo nela. Ele se virou e olhou.
O enforcado estava na cela. Não era a besta que Cleve vira parcialmente, a face de
larvas e ovos. Estava lá em carne e osso; vestido para outra era, e não sem charme.
Seu rosto era bem-feito; a testa larga, os olhos sem hesitação. Ainda usava sua aliança
de casamento na mão que acariciava a cabeça curvada de Billy, como a um cão de
estimação.
— Hora de morrer, senhor Smith — disse ele.
Do lado de fora, Cleve ouviu Devlin gritando. Ele não tinha fôlego para responder.
Mas estava ouvindo chaves na fechadura ou era só uma ilusão que sua mente criara
para aplacar o pânico?
A pequena cela estava cheia de vento. E o vento jogou longe a cadeira e a mesa, e
levantou os lençóis no ar com fantasmas da infância. E agora levava Tait, e o garoto
com ele; sugava-os de volta para as perspectivas fugidias da cidade.
— Venha agora — exigiu Tait, o rosto se corrompendo. — Precisamos de você, de
corpo e alma. Venha conosco, senhor Smith. Não seremos recusados.
— Não! — Cleve gritou de volta para o seu atormentador. A sucção puxava seus
dedos, seus olhos. — Eu não vou...
Atrás dele, a porta estalava.
— Eu não vou, está ouvindo?
Subitamente, a porta foi aberta, e ele jogado para a frente e para dentro do vórtice
de névoa e poeira que empurrava Tait e seu neto para longe. Quase foi com eles, mas
uma mão segurou sua camisa e o arrastou de volta, enquanto sua consciência se
entregava.
Em algum lugar, muito longe, Devlin começou a rir como uma hiena. Ele
enlouqueceu, concluiu Cleve; e a imagem que seus pensamentos eclipsados evocaram
foi do conteúdo do cérebro de Devlin escapando pela sua boca como uma matilha de
cães voadores.
Ele acordou em sonhos; e na cidade. Acordou lembrando-se de seus últimos
momentos conscientes; a histeria de Devlin, a mão impedindo sua queda, enquanto as
duas figuras eram sugadas para longe dele. Ele as seguira, aparentemente, incapaz de
evitar que sua mente em coma trilhasse novamente a rota familiar para a metrópole dos
matadores. Mas Tait ainda não vencera. Só estava sonhando com sua presença ali.
Sua personalidade corpórea ainda estava em Pentonville; seu deslocamento em relação
a ele informava cada um dos seus passos.
Escutou o vento. Era eloquente como sempre; as vozes indo e vindo em cada brisa
cheia de areia, mas nunca, até mesmo quando o vento quase morria, desaparecendo
inteiramente. Enquanto escutava, ouviu um grito. Naquela muda cidade, aquilo era um
choque; espantou ratos dos seus ninhos, e pássaros voaram de alguma praça isolada.
Curioso, ele perseguiu o som, cujos ecos quase podiam ser traçados no ar. Enquanto
corria pelas ruas vazias, escutou outras vozes que se elevavam, e agora homens e
mulheres apareciam nas portas e janelas de suas celas. Tantos rostos, e nada em
comum entre eles para confirmar as esperanças de um fisionomista. O assassinato
tinha tantas faces quanto ocorrências. A única qualidade comum era a miséria de
mentes desesperadas depois de uma era no local do seu crime. Olhou para elas
enquanto passava, distraído o suficiente pelas suas aparências para não notar até
onde o grito o levava, até descobrir mais uma vez o gueto, até onde a criança o
conduzira.
Agora ele dobrava uma esquina e, no final do beco que vira na visita anterior (a
parede, a janela, a câmara sangrenta além), estava Billy, contorcendo-se na areia aos
pés de Tait. O garoto parecia estar entre sua própria forma e a da fera que se tornara
diante dos olhos de Cleve. A parte melhor estava em convulsões, tentando se livrar da
outra, mas sem sucesso. Num momento, o corpo do rapaz emergia, branco e frágil, só
para ser absorvido no momento seguinte pelo fluxo da transformação. Seria um braço
que se formava, e era agarrado novamente antes que pudesse ganhar dedos? Era um
rosto pressionado pela casa de línguas que era a cabeça do monstro? A visão
desafiava a análise. Assim que Cleve fixava alguma característica reconhecível, ela era
novamente afogada.
Edgar Tait tirou os olhos da luta à sua frente e mostrou os dentes para Cleve, em
performance que daria inveja a um tubarão.
— Ele duvidou de mim, senhor Smith... — disse o monstro
— ... e veio procurar a sua cela.
Na colcha de retalhos da areia, surgiu uma boca que deu um grande grito, cheio de
dor e terror.
— Agora ele quer se afastar de mim — continuou Tait. — Você acendeu a dúvida
dele. Ele precisa sofrer as consequências.
— Apontou um dedo trêmulo para Cleve, e, no ato de apontar, o membro se
transformou, a carne tornando-se couro machucado. — Você veio onde não era
chamado, e veja a agonia que causou.
Tait chutou a criatura a seus pés. Ela rolou sobre as costas, vomitando.
— Ele precisa de mim — reconheceu Tait. —Não consegue perceber isso? Sem
mim, ele está perdido.
Cleve não deu resposta ao enforcado, mas abordou a fera na areia.
— Billy — falou ele, chamando o garoto para fora do seu fluxo.
— Perdido — disse Tait.
— Billy... — repetiu Cleve. — Me escute...
— Ele não vai voltar agora — afirmou Tait. — Você só está sonhando isto. Ele está
aqui, em carne e osso.
— Billy — insistiu Cleve. — Está me ouvindo? Sou eu; é o Cleve.
O garoto pareceu fazer uma pausa nos seus giros por um instante, como se ouvisse
o apelo. Cleve repetiu de novo o nome de Billy, e de novo.
Era uma das primeiras coisas que a criança humana aprendia; a reconhecer o
próprio nome. Se alguma coisa podia alcançar o rapaz, certamente seria o próprio
nome.
— Billy... Billy... — com a repetição da palavra, o corpo se enroscou.
Tait pareceu ficar inquieto. A confiança que apresentara agora fora silenciada. Seu
corpo estava escurecendo, a cabeça tornava-se bulbosa. Cleve tentou tirar os olhos
das sutis distorções da anatomia de Edgar e se concentrar na reconquista de Billy. A
repetição do seu nome dava resultados; a fera estava sendo vencida. A cada instante,
uma parte maior do garoto emergia. Ele parecia digno de pena; pele e osso na areia
negra. Mas seu rosto estava quase reconstruído agora, e os olhos fitavam Cleve.
— Billy...?
Ele assentiu. Seu cabelo estava colado à testa com suor; os membros se moviam
em espasmos.
— Você sabe onde está? Quem você é?
No início parecia que a compreensão abandonara o garoto. E então — aos poucos
— o reconhecimento formou-se nos seus olhos, e com ele veio um terror do homem de
pé sobre ele.
Cleve deu uma olhada em Tait. Nos últimos segundos, desde que olhara pela última
vez, quase todas as suas características humanas haviam sido apagadas de sua
cabeça e do torso superior, revelando corrupções ainda mais profundas do que as do
neto. Billy olhou sobre o ombro, como um cão chicoteado.
— Você me pertence — pronunciou Tait, embora a configuração de seu rosto
parecesse indicar a impossibilidade de falar. Billy viu os membros descendo para
agarrá-lo, e levantou-se para escapar deles, mas foi lento demais. Cleve viu o gancho
cheio de espinhos do membro de Tait enrolar-se ao redor do pescoço de Billy e puxálo.
O sangue saltou da garganta cortada, e com ele o gemido do ar escapando.
— Comigo — disse Tait, as palavras se deteriorando num resmungo
incompreensível.
Subitamente, o beco estreito estava se enchendo de luz, e o menino, Tait e a cidade
estavam sendo apagados. Cleve tentou segurá-los, mas escaparam dele; no seu lugar,
outra realidade concreta: uma luz, um rosto (rostos) e uma voz chamando-o de um
absurdo para outro.
A mão do médico estava em seu rosto. Era úmida.
— Que diabos estava sonhando? — perguntou, o perfeito idiota.
Billy se fora.
De todos os mistérios que o diretor — e Devlin e os outros policiais que entraram na
cela B. 3. 20 naquela noite — precisou encarar, a desaparição total de William Tait de
uma cela trancada foi a mais desconcertante. Da visão que deixou Devlin rindo como
um doido nada foi dito; era mais fácil crer em alguma ilusão coletiva do que acreditar
que tinham visto alguma realidade objetiva. Quando Cleve tentava falar sobre os
acontecimentos daquela noite, e das muitas noites anteriores, seu monólogo,
interrompido muitas vezes por lágrimas e silêncios, era recebido com entendimento
fingido e olhares de soslaio. No entanto, contou a história várias vezes, apesar da
condescendência dos ouvintes; e eles, sem dúvida procurando por uma pista entre suas
fábulas lunáticas quanto à realidade do ato houdiniano de Billy Tait, escutaram cada
palavra. Quando não acharam nada em suas histórias que ajudasse nas investigações,
começaram a perder a paciência com ele. O consolo foi substituído por ameaças.
Exigiram, com vozes cada vez mais altas, saber onde estava Billy. Cleve respondeu da
única maneira que sabia. — Para a cidade — contou. — Ele é um assassino, sabe?
— E o corpo dele? — o diretor quis saber. — Onde você acha que está o corpo ?
Cleve não sabia, e foi o que disse. Só muito depois, quatro dias mais tarde, quando
estava diante da janela, olhando a equipe de jardinagem levando as plantas da
primavera por entre as alas, lembrou-se da grama.
Encontrou Mayflower, que voltara à Ala B para substituir Devlin, e disse ao policial a
inspiração que tivera. — Está no túmulo — afirmou. — Está com o avô. Fumaça e
sombra.
Eles desenterraram o caixão durante a noite, com um escudo elaborado de estacas
e toldos para ocultar as escavações de olhos curiosos, e lâmpadas, claras como o dia,
mas não tão quentes, iluminavam os esforços dos voluntários da equipe de exumação.
A resposta de Cleve ao enigma do desaparecimento de Tait fora recebida com
perplexidade quase universal, mas nenhuma explicação — por mais absurda que fosse
— estava sendo posta de lado num mistério tão insondável. Assim, eles se reuniram na
tumba sem lápide para remover a terra que não parecia ter sido mexida durante cinco
décadas; o diretor, uma seleção de policiais do gabinete central, um patologista e
Devlin. Um dos médicos, acreditando que a ilusão mórbida de Cleve seria melhor
tratada se ele visse o conteúdo do caixão e contemplasse o terror com seus próprios
olhos, convenceu o diretor de que Cleve também deveria estar entre os espectadores.
Havia pouco no interior do caixão de Edgar St. Clair Tait que Cleve já não tivesse
visto antes. O cadáver do assassino — devolvido aqui (como fumaça, talvez) nem
exatamente fera, nem exatamente humano, e preservado, como Bishop prometera, tão
inteiro como no dia da sua execução — compartilhava o caixão com Billy Tait, que
estava deitado, nu como um bebê, no abraço de seu avô. O braço corrompido de
Edgar ainda estava ao redor do pescoço de Billy, e as paredes do caixão estavam
escuras de sangue coagulado. Mas o rosto de Billy não fora tocado. Ele parece uma
boneca, observou um dos médicos. Cleve quis replicar, dizendo que boneca nenhuma
tinha aquelas manchas de lágrimas no rosto, nem tamanho desespero nos olhos, mas o
pensamento recusou-se a sair em palavras.
Cleve foi libertado de Pentonville três semanas depois, após um apelo especial na
Junta da Condicional, com apenas dois terços da sua sentença completados. Ele
voltou, depois de meio ano, à única profissão que já conhecera. Qualquer esperança
que tivera de estar livre de seus sonhos teve vida curta. O lugar ainda estava com ele;
nem tão nítido nem tão assustador quanto antes, agora que Billy — cuja mente abrira
aquela porta — se fora, mas ainda um terror potente, presença constante que
desgastava Cleve.
Às vezes, os sonhos desapareciam quase inteiramente, só para voltarem mais tarde
com intensidade terrível. Cleve levou vários meses para entender o padrão desta
oscilação. Pessoas traziam o sonho para ele. Se ele passasse algum tempo com
alguém que tinha intenções de assassinato, a cidade voltava. E essas pessoas não
eram raras. Quando ficou mais sensível à marca letal nas pessoas à sua volta,
descobriu que mal podia andar na rua. Estavam em toda parte, esses assassinos
embrionários; pessoas vestindo roupas da moda, rostos alegres, caminhavam pela
calçada e imaginavam, enquanto andavam, as mortes de patrões e de cônjuges, de
estrelas de novelas e de alfaiates incompetentes. O mundo tinha assassinato em sua
mente, e ele não podia mais suportar seus pensamentos.
Só a heroína oferecia alguma liberação do fardo dessa experiência. Ele nunca usara
muita H intravenosa, mas ela estava rapidamente se tornando céu e terra para ele. Era
um vício caro, porém, um que seu círculo cada vez menor de contatos profissionais não
podia financiar. Foi um homem chamado Grimm — outro viciado tão desesperado para
evitar a realidade, que chegava a ficar em êxtase com leite fermentado — que sugeriu
a Cleve um trabalhinho para ganhar uma grana que pudesse aplacar seu apetite.
Parecia uma boa ideia. Um encontro foi arranjado, e uma proposta foi feita. O
pagamento pelo trabalho era tão alto que não podia ser recusado por um homem tão
necessitado de dinheiro. O trabalho naturalmente, era um assassinato.
Não existem visitantes aqui; só futuros moradores. Ele escutara isso antes, embora
não se lembrasse mais de quem, e acreditava em profecias. Se não cometesse o
assassinato agora, seria apenas uma questão de tempo até fazê-lo.
Mas, embora os detalhes do assassinato que cometeu fossem muito e terrivelmente
familiares para ele, Cleve não antecipou a colisão de circunstâncias que terminou
fazendo com que fugisse da cena do crime descalço, e correu tanto no pavimento e no
asfalto que, quando a polícia o cercou e atirou nele, seus pés estavam sangrando e
prontos, finalmente, para andar pela rua da cidade — como fizera nos sonhos.
A sala em que matara esperava por ele, e ele viveu ali, escondendo sua cabeça de
qualquer um que aparecesse na rua, durante vários meses. (Ele acreditava que ali o
tempo passava, pois sua barba crescera; embora raramente o sono viesse, e nunca
chegasse o dia.) Depois de algum tempo, no entanto, enfrentou com bravura o vento
fresco e as borboletas, e foi até o perímetro da cidade, onde as casas rareavam e o
deserto reinava. Foi, não para ver as dunas, mas para escutar as vozes que sempre
vinham, subindo e descendo, como os uivos de chacais ou de crianças.
Ficou ali durante muito tempo, e o vento conspirou com o deserto para enterrá-lo.
Mas não se desapontou com o fruto de sua vigília. Pois certo dia (ou ano), viu um
homem chegar àquele lugar e deixar cair uma arma na areia, e depois ir para o
deserto, onde, após algum tempo, os donos das vozes vieram encontrá-lo, pulando
como selvagens, dançando nas suas muletas. Eles o cercaram, gargalhando. Foi com
eles, gargalhando. E embora a distância e o vento nublassem sua visão, Cleve teve
certeza de que viu o homem ser agarrado por um dos celebrantes, e levado nos
ombros como um garoto, sendo depois conduzido nos braços de outro, como um bebê,
até que, no limite de seus sentidos, escutou o homem chorar enquanto era entregue de
volta à vida. Foi embora satisfeito, sabendo finalmente como o pecado (e ele) tinham
vindo ao mundo.
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