A maré não nos levou para uma ilha, mas para um monte de pedras sem vida. É
absurdo chamar de ilha um monte de merda informe como esse. Ilhas são oásis no
meio do mar, verdes e generosos. Isto aqui é um lugar esquecido, sem focas na água,
sem pássaros no ar. A única utilidade de um lugar como este é se poder dizer que se
viu o coração do nada e se sobreviveu.
— Não está em nenhuma carta — disse Ray, examinando a carta das ilhas Hébridas
com a unha no ponto em que achava que devíamos estar. Era, como ele disse, um
espaço vazio no-mapa, apenas mar azul claro sem nenhuma indicação da existência de
rochas. Não era ignorada apenas pelas focas e pelos pássaros, mas pelos cartógrafos
também. Havia uma ou duas setas, perto do dedo de Ray, marcando as correntes que
deviam nos levar para o norte, minúsculos dardos vermelhos no oceano de papel. O
resto, como o mundo onde estávamos, era deserto.
Jonathan, é claro, ficou feliz quando descobriu que o lugar não constava do mapa.
Era como se isso o livrasse de toda a culpa. Os cartógrafos eram responsáveis por
estarmos ali, não ele. Não podiam culpá-lo por termos aportado num monte de pedra
que não estava nos mapas. A expressão de quem se desculpa foi substituída por outra,
de satisfação.
— Não se pode evitar um lugar que não existe, certo?—disse ele. — Não é possível.
— Podia ter usado os olhos que Deus lhe deu—revidou Ray, mas Jonathan não ia se
deixar acovardar por nenhuma crítica razoável.
— Foi tão de repente, Raymond — disse ele. — Quero dizer, com este nevoeiro eu
não podia fazer nada. Ele nos envolveu inesperadamente.
Foi, sem dúvida, uma coisa inesperada. Eu estava na cozinha preparando o café,
uma vez que nem Angela nem Jonathan demonstravam muito entusiasmo por esse
serviço, quando o casco do Emmanuelle raspou na pedra e continuou até a praia
pedregosa. Houve um momento de silêncio, e, então, a gritaria começou. Saí da
cozinha e vi Jonathan de pé no convés, com um sorriso constrangido, girando os braços
abertos como um semáforo da sua inocência.
— Antes que perguntem — disse ele ,—, não sei como aconteceu. Num momento
estávamos seguindo a costa...
— Oh, Jesus Cristo Todo-Poderoso. — Ray saiu da cabine, enfiando a calça jeans,
desgrenhado, depois de uma noite com Angela.
Eu fui agraciada com a honra duvidosa de ouvir os orgasmos de Angela a noite
inteira. Sem dúvida, era uma mulher exigente. Jonathan retomou o discurso de defesa.
— Antes que perguntem...
Mas Ray interrompeu-o com alguns insultos caprichados. Voltei para o abrigo da
cozinha, enquanto a briga fervilhava no convés. Era com satisfação que eu ouvia os
insultos de Ray. Cheguei a desejar que ele perdesse a calma e partisse aquele nariz
curvo tão perfeito.
A cozinha estava um lixo, com a comida espalhada pelo chão. Deixei tudo como
estava, as gemas de ovo, o bacon e as torradas com leite, congelados em poças de
gordura fria. A culpa era de Jonathan, ele que limpasse a sujeira. Servi-me de suco de
laranja, esperei que as recriminações acabassem e voltei ao convés.
O dia não tinha ainda duas horas, e o nevoeiro que impedira Jonathan de enxergar a
ilha ainda encobria o sol. Se fosse um dia igual aos da semana que havíamos passado
no mar, ao meio-dia o convés estaria quente demais para pés descalços; mas agora,
com o nevoeiro espesso ainda, senti frio, vestida só com a calça do biquíni. Para
velejar entre as ilhas, pode-se vestir qualquer coisa. Ninguém nos vê. Eu tinha
conseguido um bronzeado maravilhoso em todo o corpo. Mas, nessa manhã, desci para
apanhar minha suéter. O ar estava parado, sem vento, e o frio vinha do mar. Ainda é
noite lá embaixo, pensei, a poucos metros da praia, noite ilimitada.
Vesti a suéter e voltei para o convés. Ray estava estudando as cartas. Suas costas
nuas descascavam por excesso de sol, e eu vi a calvície no alto da cabeça, que ele
tentava esconder com os cabelos louros encaracolados e sujos. Jonathan olhava para a
praia, coçando o nariz.
— Cristo, que lugar — eu disse.
Ele ergueu os olhos, tentando sorrir. O pobre Jonathan tinha a ilusão de que seu rosto
podia encantar até uma tartaruga, fazendo-a sair da carapaça, e, para ser justa,
algumas mulheres simplesmente se derretiam quando ele olhava para elas. Mas eu não
figurava nessa lista, o que o irritava. Sempre achei que seus traços judaicos eram
suaves demais para serem belos. Minha indiferença era como uma capa vermelha para
um touro.
Uma voz, sonolenta e afetada, subiu da cabine. Nossa Dama da Cabine acabava de
acordar. Era a hora de sua entrada tardia em cena, com a nudez modestamente
coberta por uma toalha. Seu rosto estava inchado por excesso de vinho, e o cabelo
precisava de um pente. Mesmo assim, ela soltou todo o charme, com os olhos muito
abertos, Shirley Temple com belos seios.
— O que está acontecendo, Ray? Onde estamos?
Ray não ergueu os olhos dos cálculos, e a dama franziu a testa.
— Aconteceu um maldito navegador incompetente, só isso — disse ele.
— Eu nem sei o que aconteceu — protestou Jonathan, esperando uma
demonstração de simpatia da parte de Angela. Não houve nenhuma.
— Mas onde estamos? — repetiu ela.
— Bom-dia, Angela — eu disse e também fui ignorada.
— É uma ilha? — quis saber Angela.
— É claro que é uma ilha, só que ainda não sei qual — respondeu Ray.
— Talvez a Barra — sugeriu ela.
Ray fechou a cara.
— Não estamos nem perto da Barra — disse ele. — Se me deixarem refazer nossos
passos...
Refazer os passos no mar? Só se Ray estivesse certo de que era Jesus, pensei,
olhando para a praia. Era impossível calcular o tamanho do lugar, porque o nevoeiro
encobria a paisagem a partir de uns cem metros de onde estávamos. Talvez houvesse
uma habitação além daquele muro cinzento.
Depois de localizar o ponto vazio no mapa onde havíamos encalhado, Ray desceu
para a praia, a fim de examinar o casco. Mais para ficar longe de Angela, do que por
qualquer outra coisa, eu também desci. As pedras redondas da praia eram frias e
escorregadias sob meus pés descalços. Ray passou a mão no Emmanuelle, uma
quase carícia, depois se abaixou para verificar a avaria.
— Acho que não furou o casco. Mas não tenho certeza — disse ele.
—Vamos desencalhar com a maré alta — observou Jonathan na proa, com as mãos
na cintura. — Sem problemas. — Piscou para mim. — Sem nenhum problema.
—Uma merda que vamos desencalhar—disse Ray. — Venha dar uma olhada!
— Então, vamos arranjar um reboque. — A confiança de Jonathan era inabalável.
— Pois acho melhor você arranjar mesmo alguma coisa, seu cretino.
— É claro, por que não? Mais uma hora ou duas, quando o nevoeiro levantar, darei
um passeio, procurarei ajuda.
— Vou fazer café — disse Angela.
Conhecendo Angela, eu sabia que o café iria demorar uma hora. Tinha tempo para
um passeio.
Comecei a andar pela praia.
— Não vá muito longe, amor — disse Ray.
— Não, não vou.
Amor, ele disse. Uma palavra fácil que não significava nada para ele.
O sol estava mais quente agora e tirei a suéter. Meus seios estavam bronzeados
como duas nozes, e, concluí, do mesmo tamanho delas. Mas, afinal, não se pode ter
tudo. Pelo menos eu tinha dois neurônios que funcionavam dentro da cabeça, o que não
acontecia com Angela. Angela tinha seios como melões e um cérebro capaz de
envergonhar uma mula.
O sol ainda não conseguira atravessar a névoa; filtrava-se apenas sobre a ilha,
criando uma paisagem em duas dimensões, sem cor nem peso, reduzindo o mar, as
pedras e o lixo na praia a uma mancha cinzenta como carne muito cozida.
Depois de andar uns cem metros, comecei a me sentir deprimida e retornei. À minha
direita, ondas muito pequenas e murmurantes chegavam à praia e desfaziam-se com
um suspiro cansado sobre as pedras. Nada de ondas majestosas, apenas a batida
cadenciada e leve de uma maré exausta.
Odiei o lugar naquele instante.
Quando voltei, Ray tentava o rádio, mas só conseguia ouvir um ruído vazio em todas
as frequências. Após várias tentativas e muitos palavrões, ele desistiu. O café foi
servido, e tivemos de nos contentar com sardinhas, cogumelos enlatados e os restos
das torradas. Angela serviu o banquete com sua pose habitual, como se estivesse
repetindo o milagre dos pães e dos peixes. De qualquer modo, era impossível ter
prazer na refeição. O ar parecia tirar o gosto de tudo.
— Engraçado, não é? — disse Jonathan.
— Hilariante — disse Ray.
— Não ouço nenhuma buzina de nevoeiro. Muito nevoeiro, mas nenhum som de
buzina. Nem o som de motores. Estranho.
Estava certo. Um silêncio total nos envolvia, uma quietude úmida e sufocante. A não
ser pela batida tímida das ondas e o som de nossas vozes, era como se estivéssemos
surdos.
Sentada na popa, olhei para o mar vazio. O sol começava a desenhar listras
coloridas na superfície cinzenta. Um verde sombrio e, mais ao fundo, a insinuação de
um azul arroxeado. Sob o barco, eu via galhos de algas e capilárias, brinquedos da
maré, ondulando na água. Parecia convidativo, e qualquer coisa era melhor do que a
atmosfera rançosa do Emmanuelle.
— Vou nadar um pouco — eu disse.
— Eu não faria isso, amor — aconselhou Ray.
— Por quê?
— A corrente que nos atirou aqui deve ser muito forte, não vai querer ser apanhada
por ela.
— Mas a maré está enchendo ainda. Ela me traria de volta para a praia. .
— Não sabe que outras correntes existem por aí. Redemoinhos, mesmo, são muito
comuns. Levam a gente para o fundo num segundo.
Olhei outra vez para o mar. Parecia inofensivo, mas eu havia lido que aquelas águas
eram traiçoeiras e desisti da ideia.
Angela começou uma cena de mau humor porque ninguém havia terminado o café, e
Ray desempenhava sua parte. Gostava de mimá-la, deixando que ela fizesse as coisas
mais idiotas. Isso me dava náuseas.
Desci para limpar a cozinha, e comecei a jogar o lixo no mar, pela vigia. Os detritos
não mergulharam imediatamente. Flutuaram numa mancha gordurosa, pedaços de
cogumelos e de sardinha, como se alguém tivesse vomitado na água. Comida para os
caranguejos, se é que algum caranguejo que se prezava podia viver naquele lugar.
Jonathan desceu para a cozinha, evidentemente sentindo-se ainda um pouco tolo,
apesar de toda a sua arrogância. Parou na porta, procurando chamar minha atenção,
enquanto eu bombeava água na pia para lavar os pratos de plástico, engordurados.
Tudo que ele queria era me ouvir dizer que não fora sua culpa e que, é claro, ele era
um Adonis kosher. Eu não disse nada.
— Posso ajudar? — perguntou ele.
— Não tem espaço para duas pessoas — respondi, tentando não ser muito brusca.
Mas ele se sentiu rejeitado mesmo assim. A coisa toda havia afetado seu amorpróprio
muito mais do que eu tinha imaginado, apesar de todo o seu ar de bravata.
— Escute — eu disse com voz suave —, por que não volta para o convés e toma um
pouco de sol, antes que fique quente demais?
— Sinto-me como um monte de merda — disse ele.
— Foi um acidente.
— Uma merda completa.
— Como você disse, vamos desencalhar com a maré alta.
Ele entrou na cozinha. Senti-me quase claustrofóbica. Seu corpo era grande demais
para aquele espaço, muito bronzeado, muito marcante.
— Eu disse que não tem lugar para dois, Jonathan.
Ele pôs a mão na minha nuca e começou a massageá-la levemente. Não me
esquivei. Queria dizer para me deixar em paz, mas a lassidão daquele lugar parecia
haver tomado conta do meu corpo. Com a outra mão, Jonathan acariciava minha
barriga, subindo para os seios. Eu aceitava com indiferença. Se era o que ele queria,
tudo bem.
No convés, Angela estava quase sufocada com um acesso de riso histérico. Eu a
imaginava lançando a cabeça para trás, sacudindo os cabelos longos. Jonathan
acabava de tirar o short. A oferenda do seu prepúcio a Deus tinha sido bem-feita. Sua
ereção era tão higiênica no seu entusiasmo que parecia inofensiva. Deixei que
colocasse a boca na minha, que sua língua explorasse minhas gengivas com a
insistência do dedo do dentista. Ele empurrou para baixo a calça do meu biquíni, o
suficiente para ganhar acesso, acertou a posição e apertou o corpo contra o meu.
Atrás dele, a escada estalou e, por cima de seus ombros, vi Ray inclinado, olhando
para as nádegas nuas de Jonathan e para nossos braços enlaçados. Será que ele
podia ver, pensei, que não estou sentindo nada? Teria compreendido que eu fazia
aquilo friamente e que só poderia sentir algum desejo se a cabeça, as costas, o pênis
de Jonathan fossem substituídos pelos seus? Silenciosamente, ele voltou para o
convés. Passou um instante, no qual Jonathan disse que me amava, e então ouvi
novamente o riso de Angela atenta ao que Ray descrevia que tinha visto. A cadela
podia pensar o que quisesse, eu pouco me importava.
Jonathan continuava seu trabalho com carícias deliberadas, mas sem inspiração, a
testa franzida como um garoto tentando resolver uma equação impossível. A ejaculação
aconteceu inesperadamente, assinalada apenas por uma pressão mais forte dos dedos
dele no meu ombro e um franzido mais acentuado na testa. Os movimentos ficaram
mais lentos e pararam. Os olhos dele encontraram os meus por um momento. Tive
vontade de beijá-lo, mas ele não estava mais interessado. Afastou o corpo, com o
pênis ainda ereto, fazendo uma careta.
— Sou sempre muito sensível quando me satisfaço — murmurou ele, vestindo o
short. — Foi bom para você?
Fiz um gesto afirmativo. Era hilariante. A coisa toda era cômica. Encalhada ali, no
meio do nada, com aquele garotinho de vinte e seis anos, Angela e o homem que não
se importava a mínima se eu estava viva ou morta. Mas, afinal, talvez eu também não
me importasse. Sem saber por que, pensei nos restos de comida oscilando na água, à
espera da nova onda.
Jonathan já havia desaparecido. Liguei a máquina de fazer café, olhando pela vigia,
sentindo o sêmen seco e enrugado no meio das pernas.
Quando o café ficou pronto, Ray e Angela tinham saído para um passeio na ilha,
aparentemente à procura de ajuda.
Jonathan estava sentado no meu lugar, na popa, olhando para o nevoeiro. Mais para
quebrar o silêncio, eu disse:
— Acho que levantou um pouco.
— Será?
Coloquei a xícara com café perto dele.
— Obrigado.
— Onde estão os outros?
— Explorando.
Ele olhou para mim com expressão confusa.
— Ainda me sinto como um monte de merda. Vi a garrafa de gim ao lado dele.
— Um pouco cedo para beber, não acha?
— Quer um trago?
— Não são nem onze horas ainda.
— E daí?
Ele apontou para o mar.
— Siga meu dedo — disse. Inclinada sobre seu ombro, obedeci.
— Não, não está olhando para o lugar certo. Siga meu dedo... está vendo?
— Nada.
— Na beirada do nevoeiro. Aparece e desaparece. Lá! Outra vez!
Percebi alguma coisa na água a uns vinte ou trinta metros da popa do Emmanuelle.
Marrom, enrugada, girando.
— Uma foca — eu disse.
— Acho que não.
— O sol está esquentando o mar. Provavelmente elas estão vindo para se aquecer
nas rochas.
— Não parece uma foca. Gira de modo diferente...
— Talvez um pedaço de madeira...
— Pode ser.
Tomou um grande gole na garrafa.
— Deixei um pouco para a noite.
— Sim, mamãe.
Ficamos em silêncio por alguns minutos. Só as ondas batendo de leve na praia.
Uma vez ou outra a foca, ou fosse o que fosse, aparecia na superfície, girava e
desaparecia outra vez.
Mais uma hora, pensei, e a maré vai mudar e nos tirar deste pós-escrito da criação.
— Ei! — A voz de Angela, distante — Ei, caras!
Caras, ela nos chamava.
Jonathan ficou de pé com a mão protegendo os olhos do reflexo do sol nas rochas.
O dia estava muito mais claro, e o calor aumentava.
— Ela está acenando para nós — disse ele, sem entusiasmo.
— Deixe que acene.
— Ei, caras! — berrou ela, balançando os braços.
Com as mãos em concha ao lado da boca, Jonathan gritou a resposta.
— O que você quer?
— Venham ver — disse ela.
— Ela quer que a gente vá até lá para ver.
— Eu ouvi.
— Vamos — disse ele. — Não temos nada a perder.
Eu não tinha nenhuma vontade de ir, mas ele me puxou pelo braço. Não adiantava
discutir. O hálito dele estava inflamável.
Era difícil caminhar na praia. As pedras estavam cobertas com uma película de
algas verde-acinzentadas, como suor numa cabeça calva.
Jonathan estava tendo mais dificuldade do que eu. Duas vezes ele perdeu o
equilíbrio e caiu de costas, praguejando. Logo seu short adquiriu uma tonalidade verdeoliva
suja, e as nádegas apareciam por um rasgão.
Eu não era nenhuma bailarina, mas conseguia me equilibrar, avançando lentamente,
passo a passo, evitando as pedras maiores para não cair de muito alto, se
escorregasse.
De poucos em poucos metros, tínhamos de nos desviar de uma faixa de algas
fedorentas. Eu conseguia saltar por cima delas, mas Jonathan, com o equilíbrio
comprometido, passava por cima, enfiando os pés nus naquela massa pegajosa. Não
eram apenas algas. Havia também os detritos normais de qualquer praia, garrafas
quebradas, latas enferrujadas de Coca, rolhas sujas, pedaços de piche, fragmentos de
caranguejos, camisinhas amareladas. E, em cima de toda essa sujeira, enxames de
moscas, zumbindo para viver e vivas para zumbir.
Foi a primeira coisa viva que vimos.
Eu me esforçava para não cair, desviando daquelas faixas de algas quando uma
pequena avalanche de cascalho despencou à minha esquerda. Três, quatro, cinco
pedras rolavam umas sobre as outras para o mar, deslocando outras tantas ã sua
passagem.
Não havia nenhuma causa visível para aquele efeito.
Jonathan nem se deu ao trabalho de erguer os olhos. Estava muito ocupado
tentando manter o corpo na posição vertical.
A avalanche parou, com a fonte de energia esgotada. Então começou outra, desta
vez entre nós e o mar. Pedras maiores agora, ganhando peso com o movimento de
descida.
A sequência foi mais demorada também, pedra batendo em pedra até algumas
chegarem ao mar no fim da dança.
Plop.
Ruído surdo.
Plop, Plop, Plop.
Ray apareceu atrás de uma das grandes pedras, rindo como um idiota.
— Há vida em Marte — gritou ele, abaixando-se e desaparecendo atrás da pedra.
Mais alguns momentos perigosos e os alcançamos, com as testas cobertas de suor.
Jonathan parecia nauseado.
— Qual é a novidade? — perguntou.
— Veja o que encontramos — disse Ray, caminhando na nossa frente, entre as
pedras.
O primeiro choque.
Tendo chegado ao ponto mais alto, víamos o outro lado da ilha. A mesma praia sem
vida e o mar. Nenhum habitante, nenhuma embarcação, nenhum sinal de vida humana.
A ilha inteira não devia ter mais de meio quilômetro, menos do que as costas de uma
baleia.
Mas havia vida, e esse foi o segundo choque.
Protegido pelo anel de rochas lisas e grandes que circundava a ilha, vimos um
pedaço de terra dentro de uma cerca. As estacas apodreciam com a maresia, mas
entre elas e em volta delas havia rolos de arame farpado, formando uma espécie de
estábulo primitivo. Dentro dele, um pedaço de relva e, no centro, três carneiros. E
Angela.
Ela estava de pé na colônia penal, acariciando um dos presos e falando ternamente
com ele.
— Carneiros — disse ela, triunfante.
Jonathan chegou ao lugar antes de mim e perguntou secamente:
— E daí?
— Bem, é estranho, não é — disse Ray. — Três carneiros no meio de um lugar
como este?
— Acho que não estão muito bem — disse Angela.
Tinha razão. Os animais pareciam maltratados pela exposição aos elementos.
Tinham os olhos remelentos, a lã que os cobria, suja e emaranhada, deixava ver os
flancos frementes. Um deles caiu sobre o arame farpado e, aparentemente, não
conseguia mais levantar-se, com a barriga cheia demais ou doente.
— É cruel — disse Angela.
Concordei. Realmente era sadismo prender as criaturas naquele pedacinho de relva
e uma lata cheia de água estagnada.
— Estranho, não é? — disse Ray.
— Cortei meu pé. — Jonathan estava agachado sobre uma pedra, examinando a
parte interna do pé direito.
— Tem cacos de vidro na praia — eu disse, trocando um olhar vazio com um dos
carneiros.
—São tão inexpressivos—disse Ray.—Verdadeiros homens da natureza.
Curiosamente, os animais não pareciam tão infelizes. Seu olhar era filosófico e
parecia dizer: sou apenas um carneiro, não espero que gostem de mim, cuidem de
mim; mantenham-me vivo, pelo menos para a satisfação de seus estômagos. Não havia
balidos furiosos, nenhuma batida revoltada dos cascos.
Apenas três carneiros cinzentos esperando a morte.
Ray perdeu o interesse no caso. Caminhava de volta para a praia, chutando uma
lata vazia que estalava e saltava como as pedras da avalanche.
— Devemos libertá-los — disse Angela.
Eu a ignorei. O que significava a liberdade naquele lugar? Ela insistiu.
— Não acha?
— Não.
— Eles vão morrer.
— Alguém os prendeu ali por algum motivo.
— Mas vão morrer.
— Vão morrer na praia se os soltarmos. Não existe nenhuma comida para eles.
— Podemos alimentá-los.
— Torrada e gim — sugeriu Jonathan, tirando um pedaço de vidro da sola do pé.
— Não podemos deixá-los aqui.
— Não é da nossa conta — eu disse. A coisa começava a ficar chata. Três
carneiros. Quem se importava se estavam vivos ou mortos...
Há um hora eu havia pensado isso a meu respeito. Tínhamos algo em comum, os
carneiros e eu.
Comecei a sentir dor de cabeça.
—Eles vão morrer—choramingou Angela, pela terceira vez.
— Você é uma cadela burra — disse Jonathan. Falou sem raiva, calmamente, como
se estivesse afirmando um fato comum.
Não me contive e sorri.
—O quê?—Angela parecia ter sido picada por alguma coisa.
— Cadela burra — repetiu ele. — C-A-D-E-L-A.
Angela, vermelha de raiva e embaraço, foi direto ao ataque.
— Você nos trouxe para cá — disse, com desprezo furioso.
A acusação inevitável. Lágrimas nos olhos dela. Ferida pelas palavras.
— Eu fiz de propósito — disse Jonathan, molhando a ponta do dedo e passando a
saliva no corte. — Queria ver se podíamos deixar você aqui.
— Você está bêbado.
— E você é burra. Mas estarei sóbrio de manhã.
As velhas piadas ainda surtiam efeito.
Ofendida, Angela saiu andando pela praia, atrás de Ray, procurando conter as
lágrimas até estar fora da vista dos outros. Quase senti pena dela. Pensando bem,
Angela era presa fácil para qualquer um de nós.
— Você sabe ser um filho da mãe — eu disse para Jonathan.
Ele só olhou para mim com os olhos vidrados.
— É melhor ser minha amiga. Assim não serei um filho da mãe para você.
— Você não me assusta.
— Eu sei.
O carneiro estava olhando para mim outra vez. Retribuí o olhar.
— Porra de carneiros — disse ele.
— Não é culpa deles.
— Se tivessem alguma vergonha, cortariam as próprias gargantas.
— Vou voltar para o barco!
— Bichos feios.
— Você vem?
Ele segurou minha mão com força, como se nunca mais fosse largá-la. De repente,
olhou para mim.
— Não vá.
— Está muito quente aqui.
— Fique. A pedra é lisa e quente. Deite. Desta vez não vão interromper.
— Você sabia? — perguntei.
— Quer dizer, Ray? É claro que eu sabia. Acho que demos um bom espetáculo.
Puxou-me para ele, pondo uma das mãos acima da outra no meu braço, como se
estivesse puxando uma corda. O cheiro dele me fez lembrar a cozinha do barco, a
testa franzida, a declaração murmurada ("Te amo"), a saída discreta.
Déjà vu.
Porém, o que havia para fazer num dia como aquele, senão girar no mesmo círculo,
como os carneiros no cercado? Girando e girando. Respirar, sexo, comer, evacuar.
O gim havia chegado ao seu pênis. Ele tentou o máximo, mas sem resultado. Era o
mesmo que querer trançar espaguete.
Irritado, rolou para o lado.
— Foda. Foda. Foda.
Palavra sem sentido; uma vez repetida, perdia todo o significado, como tudo mais.
Não queria dizer nada.
—- Não faz mal — eu disse.
— Foda-se.
— Não faz mal, é verdade.
Ele não olhou para mim. Continuou a olhar para o seu pênis. Acho que, se tivesse
uma faca naquele momento, teria se castrado, depositando o órgão sobre a pedra
quente, como um santuário em honra da esterilidade.
Voltei para o Emmanuelle. Percebi, então, uma coisa estranha que não havia notado
antes. As moscas azuis não fugiam dos meus pés, mas deixavam-se amassar por eles.
Definitivamente letárgicas, ou suicidas. Pousadas na pedra quente, atiravam-se sob
meus pés, suas vidinhas coloridas apagando como pequenas luzes.
O nevoeiro estava desaparecendo, afinal, e, com o calor do sol, a ilha revelou outra
característica desagradável, o cheiro. Lembrava um quarto fechado, cheio de pêssegos
podres, um cheiro espesso e enjoativo. Penetrava nos poros tanto quanto nas narinas,
como um xarope. E sob o odor adocicado, algo mais, muito menos agradável do que
pêssegos, frescos ou podres. O cheiro de um ralo aberto entupido com carne velha,
como os ralos dos matadouros, cobertos com gordura seca e sangue negro. Devia ser
das algas, pensei, embora jamais tivesse sentido um cheiro igual em nenhuma outra
praia.
Quando passava pelas algas podres, tampando o nariz, ouvi o ruído de um pequeno
crime. Os gritos de alegria satânica de Jonathan quase abafavam as vozes patéticas
do carneiro que estava sendo assassinado, mas eu sabia exatamente o que o bêbado
filho da mãe acabara de fazer.
Dei meia-volta, girando os calcanhares sobre a massa de algas malcheirosas.
Certamente era tarde demais para salvar um dos carneiros, mas talvez desse para
evitar que massacrasse os outros dois. Eu não via o cercado, escondido atrás das
pedras, mas ouvia os gritos de triunfo de Jonathan e a batida surda dos golpes. Sabia
o que ia ver antes de chegar lá.
A relva verde-acinzentada estava vermelha. Jonathan se encontrava no cercado com
os carneiros. Os dois sobreviventes arremetiam para trás e para a frente em pânico,
com balidos de terror. Jonathan estava de pé, o corpo ereto, sobre o terceiro animal. A
vítima, com as pernas dianteiras dobradas sob o corpo, apresentava as pernas
traseiras rígidas com a aproximação da morte. O corpo estremecia em espasmos
nervosos, e os olhos estavam quase completamente brancos. O topo da cabeça estava
esfacelado, o cérebro cinzento exposto, com lascas de ossos, reduzido a uma massa
informe pela pedra que Jonathan ainda brandia. Bateu outra vez com a arma na cabeça
do carneiro. Pedaços voaram em todas as direções, os pingos de matéria quente e
sangue chegaram até meu corpo. Jonathan parecia um louco de pesadelo (o que,
naquele momento, acho que ele era). O corpo nu, antes branco, estava manchado
como o avental de um açougueiro depois de um dia de trabalho árduo no matadouro. O
rosto era mais restos de carneiro do que Jonathan...
O animal estava morto. Os balidos patéticos haviam cessado completamente. Ele
caiu para a frente como uma personagem de história em quadrinhos, e uma de suas
orelhas enganchou no arame farpado. Jonathan olhou para o animal com um sorriso
aparecendo sob o sangue. Oh, aquele sorriso que servia para tanta coisa. Não era o
que ele usava para conquistar as mulheres? O sorriso que falava de desejo e de amor?
Agora, finalmente, estava sendo usado para a coisa certa, o sorriso aberto do
selvagem satisfeito, de pé sobre a presa, com a pedra numa das mãos e sua
masculinidade na outra.
Então, o sorriso foi diminuindo, e ele recobrou a consciência.
—Jesus! — disse Jonathan, com uma onda de nojo subindo das entranhas.
Eu vi quando o surto de náusea o fez inclinar a cabeça para a frente e vomitar o gim
e a torrada digerida.
Fiquei parada. Não queria consolá-lo, acalmá-lo... Jonathan simplesmente estava
além da minha ajuda.
Virei as costas.
— Frankie — disse ele no meio do fluxo de bile.
Eu não podia olhar para ele. Não podia fazer nada pelo carneiro, estava morto,
acabado. Tudo que eu queria era fugir daquele círculo de pedras e esquecer o que
tinha visto.
— Frankie.
Comecei a andar o mais depressa possível, naquele caminho perigoso, para a praia
e para a sanidade relativa do Emmanuelle.
O cheiro subia do solo para meu rosto em ondas imundas.
Ilha horrível. Nojenta, fedida, louca.
Andando com dificuldade sobre as algas e a sujeira, eu só pensava em ódio. O
Emmanuelle não estava longe...
Então, as pequenas pedras começaram a rolar, como antes. Parei, equilibrando-me
no topo estreito de uma rocha e olhei para a esquerda, onde, naquele momento, um
dos pedregulhos parava a sua descida. Uma pedra maior, com uns doze centímetros
de diâmetro, moveu-se espontaneamente e rolou para a praia, atingindo as pedras
próximas e começando outro êxodo na direção do mar. Franzi a testa, minha cabeça
zumbiu.
Algum animal — um caranguejo talvez — movia as pedras. Ou seria o calor que, de
algum modo, emprestava-lhes vida?
Outra vez, uma pedra maior...
Continuei a andar, e as pedras continuaram a rolar atrás de mim, uma pequena
sequência depois da outra, criando um ruído quase ininterrupto.
Sem nenhum motivo real e palpável, comecei a ficar com medo.
Angela e Ray tomavam sol no convés do Emmanuelle.
— Mais umas duas horas e poderemos fazer esta coisa tirar o traseiro da areia —
disse ele, entrecerrando os olhos.
A princípio, pensei que ele se referia a Angela, depois compreendi que falava em
levar o barco para o mar.
— É melhor tomar um pouco de sol — disse ele, com um sorriso.
— Tem razão.
Angela estava dormindo ou simplesmente ignorando-me. Fosse o que fosse, era
ótimo para mim.
Deitei no convés, perto dos pés de Ray, e deixei que o sol tomasse conta do meu
corpo. As manchas de sangue seco na minha pele pareciam escamas. Fui tirando uma
a uma, ouvindo o ruído das pedras e a batida tímida do mar.
Atrás de mim alguém virou uma página. Voltei-me. Ray, incapaz de ficar parado por
muito tempo, folheava um livro sobre as ilhas Hébridas.
Olhei para o sol. Minha mãe sempre dizia que olhar diretamente para o sol abria um
buraco atrás dos olhos, mas ele era quente e cheio de vida, e eu queria olhar para seu
rosto. Eu sentia um frio estranho e insistente na barriga e entre as pernas. Talvez
pudesse fazê-lo desaparecer olhando para o sol.
Olhei para a praia e vi Jonathan caminhando para o mar, na ponta dos pés. A
distância, parecia um monstro pintado de vermelho e branco. Tirou o calção e agachou
perto da água para lavar os restos de carneiro do corpo.
Então, a voz de Ray, muito baixa.
— Oh, meu Deus!
Pelo tom não podiam ser boas notícias.
— O que foi?
— Descobri onde estamos.
— Ótimo!
— Não, não é ótimo.
—Por quê? Qual é o problema?—Sentei no convés, olhando para ele.
— Está aqui, no livro. Um parágrafo sobre este lugar.
Angela abriu um olho.
— O que diz? — perguntou.
— Não é uma ilha. É um cemitério.
O frio entre minhas pernas aumentou. O sol não era suficiente para me aquecer ali,
onde devia ser a parte mais quente do meu corpo.
Olhei outra vez para a praia. Jonathan, agora, estava lavando o peito. As sombras
das pedras pareceram, de repente, muito negras e pesadas, suas arestas pousadas
sobre os rostos voltados para cima...
Jonathan percebeu que eu estava olhando e acenou.
Haveria cadáveres sob aquelas pedras? Enterrados com os rostos virados para o
sol, como veranistas numa praia?
O mundo é monocromático. Sol e sombra. O topo branco das pedras, suas barrigas
negras. Vida na parte de cima, morte embaixo.
— Cemitério? — disse Angela. — Que tipo de cemitério? „
— Mortos na guerra — disse Ray.
— O que quer dizer, vikings, ou coisa assim? — Angefa perguntou.
— Primeira Guerra Mundial, Segunda Guerra Mundial. Soldados dos navios
torpedeados, trazidos pela Corrente do Golfo. Aparentemente, a corrente os conduz
através dos estreitos e os atira nas praias das ilhas próximas.
— Atira na praia? — perguntou Angela.
— É o que diz aqui.
— Mas não agora.
— Tenho certeza de que um ou outro pescador ainda é enterrado aqui — observou
Ray.
Jonathan estava de pé, com a mão em pala sobre a testa, olhando para o mar
cinza-azulado, e eu acompanhei seus olhos como havia acompanhado seu dedo. A uns
cem metros, a foca, ou baleia, ou fosse o que fosse, girava outra vez sobre a água. Às
vezes erguia uma nadadeira, como o braço de um nadador pedindo ajuda.
— Quantas pessoas foram enterradas? — perguntou Angela, sem muito interesse.
Parecia indiferente ao fato de estarmos sentados sobre um túmulo.
— Centenas, provavelmente.
— Centenas?
— Aqui só diz "muitos mortos".
— E eles os colocavam em caixões?
— Como vou saber?
O que mais podia ser aquele monte de sujeira esquecido por Deus, senão um
cemitério? Olhei para a ilha como se, só então, a reconhecesse pelo que ela era.
Agora, eu tinha razão para desprezar aquelas costas curvas, a praia sórdida, o cheiro
de pêssego.
— Será que enterraram por toda parte ou só no alto daquela colina onde
encontramos os carneiros? — perguntou Angela. — Provavelmente no alto, longe da
água.
Sim, eles deviam ter tido água demais. Os pobres rostos esverdeados, picados
pelos peixes, os uniformes podres, as medalhas de identificação cobertas de algas.
Que morte, e pior ainda, que viagem depois da morte, esquadrões de companheiros,
levados pela corrente do Golfo até aquele porto horrível. Eu imaginava os corpos
daqueles soldados, sujeitos aos caprichos das marés, levados para trás e para a frente
no dorso das ondas, até uma perna ou um braço enganchar-se numa rocha, deixando
de ser possessão do mar. Com cada maré vazante descobertos, encharcados de água
salgada e gelatinosa, cuspidos pelo mar para apodrecer um pouco e serem
descarnados pelas gaivotas.
Senti uma vontade mórbida de caminhar outra vez pela praia, sabendo o que sabia
agora, chutando as pedras, na esperança de descobrir um ou dois ossos.
Antes mesmo de a ideia se formar, meu corpo tomou a decisão. Eu estava de pé,
descendo do Emmanuelle.
— Aonde você vai? — perguntou Angela.
—Jonathan — murmurei, com os pés já no chão.
O fedor era mais definido agora, o cheiro dos mortos. Talvez ainda enterrassem
afogados ali, como Ray havia sugerido, sob as pilhas de pedras. O iatista descuidado,
o nadador imprudente, seus rostos desmanchados pela água salgada. As moscas azuis
pareciam menos preguiçosas. Ao invés de se deixarem pisar, saltavam e voavam na
frente de meus pés com um novo entusiasmo pela vida.
Jonathan havia desaparecido. Seu calção estava ainda sobre as pedras, na beira da
água. Olhei para o mar. Nada, nenhuma cabeça, nenhum vulto, nenhum braço
acenando, nada.
Gritei seu nome.
Minha voz aparentemente assustou as moscas, que voaram em nuvens
efervescentes. Jonathan não respondeu.
Comecei a andar na beira da água, os pés, uma vez ou outra, molhados por uma
onda preguiçosa. Lembrei-me, então, que eu não havia dito nada sobre o carneiro
morto para Ray e Angela. Talvez fosse um segredo entre nós quatro. Jonathan, eu e os
dois outros carneiros.
Foi quando o vi a poucos metros—com o peito branco, largo e limpo, sem nenhuma
mancha de sangue. Então é um segredo, pensei.
— Onde você esteve? — perguntei.
— Andando para eliminar — respondeu.
— Eliminar o quê?
— O excesso de gim — respondeu, com um largo sorriso.
Retribuí o sorriso espontaneamente. Ele havia dito que me
amava, na cozinha do barco, e isso valia alguma coisa.
Atrás dele, o tamborilar das pedras rolando. Jonathan estava a menos de dez
metros de mim agora, caminhando nu, completamente desinibido, a passos lentos.
O barulho das pedras, de repente, adquiriu um ritmo marcado. Não eram mais sons
ao acaso, quando uma pedra atingia outra —era uma batida, uma sequência de sons
repetidos, uma pulsação cadenciada.
Não acidental, mas intencional.
Não por acaso, mas deliberadamente.
Não pedra, mas pensamento. Atrás da pedra, com a pedra, levando a pedra.
Jonathan, perto agora, brilhava. Sua pele estava quase luminosa, cheia de sol,
desenhada em relevo contra a escuridão atrás dele.
Espere...
Que escuridão?
A pedra ergueu-se no ar como um pássaro, desafiando a lei da gravidade. Uma
pedra negra e lisa, saindo da terra. Tinha o tamanho de um bebê, um bebê assobiador,
e cresceu atrás da cabeça de Jonathan, cruzando o ar na direção dele.
A praia estivera flexionando os músculos, atirando pequenas pedras no mar, o
tempo todo reforçando a própria vontade para erguer aquela rocha do chão e lançá-la
contra Jonathan.
Continuou a crescer atrás dele, com fúria assassina, mas minha garganta não tinha
voz para gritar meu pavor.
Jonathan estaria surdo? Sorriu outra vez, pensando que minha expressão de horror
fosse uma brincadeira por causa da sua nudez. Ele não sabia que...
A pedra abriu a parte superior da cabeça dele, do meio do nariz para cima, deixando
a boca ainda aberta, a língua cheia de sangue e atirando o resto da sua beleza para
cima de mim, numa nuvem de poeira líquida e vermelha. A parte superior da cabeça
partida pela pedra voou para mim com a expressão intacta. Quase caí, e ela passou
por mim, rolando para o mar. Uma vez sobre a água, a pedra assassina perdeu a força
e tremulou no ar, antes de mergulhar nas ondas.
Aos meus pés, sangue. Uma trilha que levava até o corpo de Jonathan, com a
cabeça aberta, toda sua maquinaria interna exposta para o céu.
Eu ainda não conseguia gritar, embora sabendo que, para manter a sanidade,
precisava libertar o terror que me sufocava.
Alguém tinha de ouvir, me amparar, levar-me dali, explicar, antes que as pedras
recuperassem o ritmo assassino. Ou, pior ainda, antes que as mentes, sob a praia, não
satisfeitas com o crime por procuração, afastassem as lajes das suas sepulturas e se
erguessem para me beijar pessoalmente.
Mas o grito não saía.
Tudo que eu podia ouvir eram as batidas leves das pedras à direita e à esquerda.
Eles queriam nos matar a, todos, por termos invadido seu solo sagrado. Lapidados até
a morte, como heréticos.
Então, a voz.
— Pelo amor de Deus...
Voz de homem, mas não era Ray.
Ele parecia ter surgido do ar, um homem pequeno e forte, de pé, na beira do mar.
Segurava um balde numa das mãos e, na outra, um molho de feno cortado. Comida
para os carneiros, pensei.
Ele olhou para mim, depois para o corpo de Jonathan, com expressão de medo nos
velhos olhos.
— O que aconteceu? — perguntou, com acentuado sotaque galés. — Em nome de
Cristo, o que aconteceu?
Quando balancei a cabeça, tive a impressão de que ia soltar- se do meu pescoço.
Talvez eu tenha apontado para o cercado dos carneiros, talvez não. Fosse como fosse,
o homem parecia ler meu pensamento e começou a subir para o topo da ilha,
desfazendo-se do balde e do feno.
Confusa, eu o segui quase às cegas, mas ele já estava de volta antes que eu tivesse
chegado às rochas. Sua expressão era de pânico.
— Quem fez aquilo?
—Jonathan — respondi, estendendo o braço na direção do corpo, sem coragem de
olhar outra vez para ele.
O homem praguejou em galés e saiu da sombra das rochas.
— O que vocês fizeram? — gritou para mim. — Cristo, o que vocês fizeram?
Mataram suas oferendas.
— São só carneiros — eu disse. A decapitação de Jonathan repetia-se em minha
mente, num círculo sangrento.
— Eles exigem isso, não compreende? Do contrário, eles se levantam...
— Quem se levanta? — perguntei, sabendo a resposta. Percebendo o movimento
das pedras.
— Todos eles. Enterrados sem nenhum carinho ou lamento. Mas têm o mar dentro
deles, em suas cabeças...
Eu sabia do que ele estava falando. De repente, tudo ficou claro. Os mortos
estavam ali, como sabíamos. Sob as pedras. Mas tinham o ritmo do mar dentro deles e
não podiam descansar. Assim, para aplacar sua inquietação, amarravam os carneiros
no cercado, como oferendas de paz.
Será que os mortos comiam carne de carneiro? Não, não era comida o que eles
queriam. Era um gesto de reconhecimento — simplesmente isso.
— Afogados — dizia o homem. — Todos afogados.
Então, recomeçou o tamborilar das pedras que se avolumou, de repente num estrondo
ensurdecedor, como se a praia inteira estivesse se movendo.
E, com a cacofonia, três outros sons: corpos caindo n'água, gritos e destruição total.
Voltei-me e vi uma onda de pedras subindo para o ar, no outro lado da ilha...
Outra vez os gritos terríveis, arrancados de um corpo que estava sendo apedrejado
e destroçado.
Eles queriam o Emmanuelle. E Ray. Comecei a correr na direção do barco, com a
praia estremecendo sob meus pés. Atrás de mim, eu ouvia as botas do homem que
alimentava os carneiros. O barulho crescia. Pedras dançavam no ar como pássaros
gordos, cobrindo o sol, antes do mergulho sobre um alvo que eu não via. Talvez o
barco. Talvez carne...
Os gritos atormentados de Angela cessaram.
Cheguei na ponta da praia um pouco adiante do homem dos carneiros e vi o
Emmanuelle. O barco e seu conteúdo humano estavam além de qualquer esperança
de salvação. O Emmanuelle era bombardeado por infindáveis fileiras de pedras de
todos os tamanhos e formatos. O casco estava destruído, as vigias, o mastro e o
convés, quebrados. Angela estava nos restos do convés superior, evidentemente
morta. Mas a fúria da chuva de pedra ainda não tinha amainado. Continuava a bater
insistentemente no que restava do casco, atingindo o corpo sem vida de Angela,
fazendo-o mover-se de um lado para o outro, como se estivesse sendo levado pela
corrente.
Não vi Ray.
Foi aí que eu gritei e, por um momento, tive a impressão de que houve uma trégua
no ataque. Então, recomeçou, onda após onda de pedras e rochas erguendo-se da
praia e atingindo os alvos insensíveis. Não iam descansar enquanto não reduzissem o
Emmanuelle a despojos carregados pela maré e o corpo de Angela a pedaços tão
pequenos que pudessem ser engolidos por camarões.
A força com que o alimentador dos carneiros me agarrou paralisou a circulação do
meu braço.
— Venha — disse ele.
Ouvi a voz, mas não fiz nada. Eu estava esperando para ver o rosto de Ray — ou
ouvir sua voz me chamando. Mas não havia nada, só a barragem de pedras. Ele estava
morto em alguma parte das ruínas do barco — feito em pedaços.
O homem estava me arrastando pela praia.
— O barco — dizia ele —, podemos sair no meu barco...
A ideia de fuga parecia ridícula. A ilha nos tinha nas costas, pertencíamos a ela.
Mas eu o acompanhei, escorregando nas rochas úmidas, atravessando o
emaranhado de algas, de volta ao lugar de onde tínhamos vindo.
No outro lado da ilha, estava sua pobre esperança de vida. Um barco a remo, sobre
o cascalho da praia. Uma insignificante casca de noz.
Íamos sair para o mar dentro daquilo, como os três homens na peneira?
Não resisti quando ele me arrastou para nossa salvação. A cada passo, mais me
convencia de que a praia ia levantar-se de repente e nos apedrejar até a morte. Talvez
transformar-se numa parede, ou numa torre, quando estivéssemos a um passo da
salvação. Ela podia fazer qualquer jogo, qualquer um. Mas, talvez, os mortos não
gostassem de jogos. Jogos são para perder ou ganhar, e os mortos já haviam perdido.
Talvez os mortos ajam apenas com a árida certeza dos matemáticos.
Ele praticamente me atirou para dentro do barco e começou a empurrar para a
água. Nenhum muro de pedra se ergueu para impedir nossa fuga. Não apareceu
nenhuma torre, nenhuma chuva assassina de cascalhos. Até o ataque ao Emmanuelle
havia cessado.
Estariam saciados com as três vítimas? Ou a presença do alimentador dos
carneiros, um inocente, um servidor daqueles mortos caprichosos, protegia-me dos
seus ataques de fúria?
O barquinho entrou na água. Balançamos um pouco sobre as ondas mansas até
alcançarmos profundidade suficiente para usar os remos; estávamos nos afastando da
praia, e meu salvador, sentado na minha frente, remava com todas as forças, com a
testa orvalhada de suor, o velho rosto inexpressivo.
— Tinha de acontecer um dia — disse ele, em voz baixa e pesada. — Alguém tinha
de perturbar nosso modo de vida. Quebrar o ritmo.
Era quase soporífica a batida dos remos, para a frente, para trás. Tive vontade de
me enrolar na lona sobre a qual estava sentada e, dormir e esquecer. Atrás de nós, a
praia era uma linha distante. Eu não via mais o Emmanuelle.
— Para onde vamos? — perguntei.
— Vamos voltar para Tiree — respondeu ele. — Veremos o que será preciso fazer
por lá. Descobrir um modo de fazer uma reparação, ajudá-los a dormir profundamente
outra vez.
— Eles comem os carneiros?
— Para que os mortos querem comida? Não. Não. Eles não precisam de carne de
carneiro. Os animais representam um gesto de lembrança.
Lembrança.
Balancei a cabeça afirmativamente.
— É o nosso modo de lamentar a morte deles...
Ele parou de remar, muito abatido para continuar com a explicação, muito cansado,
e deixou que a maré levasse o barco para casa. Um momento de silêncio.
Então, alguma coisa arranhou o fundo do barco.
Um ruído leve como o de um rato, não mais do que isso, como alguém tentando tirar
as tábuas com as unhas para poder entrar. Não um homem, mas muitos. O som se
multiplicou, o leve arranhar das unhas apodrecidas na madeira.
Ficamos imóveis, em silêncio, sem acreditar. Mesmo ouvindo o pior, não
acreditamos no pior.
Um movimento a bombordo. Virei a cabeça, e ele boiava para mim, rígido na água,
como um fantoche manejado por mãos invisíveis. Era Ray, com o corpo coberto de
ferimentos mortais, apedrejado até a morte e depois levado como um mascote
sorridente, como prova de poder, para nos assombrar. Era quase como se ele
estivesse caminhando sobre a água, com os pés escondidos pelas marolas, os braços
ao lado do corpo, conduzido para o barco. Olhei para o rosto dele. Lacerado e partido.
Um olho quase fechado, o outro dependurado para fora da órbita.
A dois metros do barco, mãos invisíveis largaram-no, e ele mergulhou no mar,
desaparecendo num redemoinho de água cor de rosa.
— Seu companheiro? — perguntou o alimentador dos carneiros.
Fiz um gesto afirmativo. Ray devia ter caído do Emmanuelle. Agora era como eles,
um afogado. Já haviam tomado posse dele para servir de brinquedo. Então, afinal, eles
gostavam de jogos, eles o apanharam na praia como crianças que apanham um
companheiro, ansiosos para que tomasse parte da brincadeira.
O barulho das unhas sob o barco cessou. O corpo de Ray desapareceu. Nem um
murmúrio se ouvia no mar claro, só a água batendo de leve no barco.
Apanhei os remos.
—Reme!—gritei para o alimentador dos carneiros. — Reme, ou vão nos matar!
Ele parecia resignado a qualquer forma de castigo que tivessem inventado. Balançou
a cabeça e cuspiu na água. Sob o cuspe grosso, alguma coisa se moveu, formas
pálidas giraram e saltaram, bem no fundo, onde não podíamos ver. De repente,
apareceram subindo para a superfície, os rostos desfeitos pelo mar definindo-se a
cada metro que subiam, os braços estendidos para nos abraçar.
Um recife de corpos. Dezenas de mortos, roí dos pelos caranguejos, comidos pelos
peixes, os restos de carne mal grudados nos ossos.
O barco balançou levemente quando as mãos o tocaram.
A expressão resignada do alimentador dos carneiros não se alterou quando o barco
foi sacudido para trás e para a frente, primeiro de leve, depois com tamanha violência
que fomos balançados como bonecos. Eles queriam virar o barco, e não podíamos
fazer nada. Um momento depois, o barco virou.
A água estava muito mais gelada do que eu podia imaginar, e fiquei sem fôlego.
Sempre fui uma boa nadadora. Comecei a me afastar do barco com braçadas fortes na
água clara. O alimentador dos carneiros não teve tanta sorte. Como muitos homens do
mar, ele não sabia nadar. Sem um grito nem uma prece, ele afundou como uma pedra.
O que eu esperava? Que se contentassem com quatro? Que iam me deixar para
encontrar uma corrente e a salvação? Fossem quais fossem minhas esperanças, elas
duraram pouco.
Senti um toque leve, muito leve nos tornozelos e nos pés, quase uma carícia.
Alguma coisa surgiu na superfície, perto do meu rosto. Percebi as costas cinzentas,
como se fosse um grande peixe. Agora meu tornozelo estava sendo agarrado, a mão
esponjosa, amolecida pelo longo tempo dentro d'água me segurou e começou a me
puxar implacavelmente para o fundo. Aspirei o que sabia ser meu último hausto de ar, e
a cabeça de Ray saltou para a superfície a menos de um metro da minha. Vi seus
ferimentos detalhadamente — os cortes lavados pelo mar eram feias abas de tecido
esbranquiçado, com o brilho do osso por baixo. O olho solto fora levado pela água; o
cabelo, grudado na cabeça, não disfarçava mais a parte calva.
A água fechou-se sobre minha cabeça. Meus olhos estavam abertos e vi o ar,
respirado com tanto esforço, subir, numa dança de bolhas prateadas. Ray estava ao
meu lado, consolador, atencioso, com os braços flutuando acima da cabeça, como
quem se entrega. A pressão da água distorcia seus traços, inchando as bochechas,
pondo para fora da órbita vazia fios de nervos como os tentáculos de um pequenino
polvo.
Deixei acontecer. Abri a boca e senti que se enchia de água gelada. O sal queimava
minhas narinas, o frio gelava meus olhos. Senti a água salgada descendo pela
garganta, um jorro de água ávida, entrando onde a água não devia entrar —
expulsando o ar dos meus canais e cavidades até tomar todo meu corpo.
Abaixo de mim, dois corpos, com os cabelos dançando na água, seguravam minhas
pernas. As cabeças balançavam suavemente, presas às cordas apodrecidas dos
músculos do pescoço, e, embora, quando bati naquelas mãos, a carne se tivesse
soltado dos ossos cinzentos em pedaços com bordas rendadas, os dedos amorosos
não se soltaram. Eles me queriam, sim, queriam-me com todo amor.
Ray também me segurava, abraçando-me, encostando o rosto no meu. Acho que o
gesto não tinha nenhuma finalidade. Ele não via, não sentia, não amava, não se
importava. E eu, perdendo a vida a cada segundo, sucumbindo completamente à força
do mar, não podia sentir prazer naquela proximidade que tanto havia desejado.
Tarde demais para o amor, a luz do sol era já apenas uma lembrança. Será que o
mundo se estava apagando—escurecendo aos poucos enquanto eu morria —, ou
estávamos tão fundo que a luz não podia nos alcançar? O pânico e o terror não
existiam mais — meu coração parecia ter parado de bater —, minha respiração não ia
e vinha em espasmos angustiados como antes. Uma espécie de paz me envolveu.
Agora, os dedos dos meus companheiros se soltaram, e a maré suave tomou conta
de mim. Uma violentação do corpo, uma devastação da pele e dos músculos, das
entranhas, dos olhos, da língua, do cérebro.
O tempo não tinha espaço ali. Os dias podiam ter-se transformado em semanas, eu
não sabia. Cascos de barcos deslizavam lá em cima, e, uma vez ou outra, talvez,
deixássemos nossas tocas nas rochas para vê-los passar. Um dedo com anel passava
na água, um mergulho fazia aparecer o céu, uma linha de pesca arrastava a isca. Sinais
de vida.
Talvez na mesma hora em que eu morri, ou talvez meses mais tarde, a corrente me
tenha retirado da rocha e me tenha tratado com alguma piedade. Libertando-me das
anêmonas marinhas e me entregando às marés. Ray está comigo. Sua hora também
chegou. A mudança do mar já foi feita, não podemos voltar atrás.
Incansável, a maré nos leva — às vezes flutuando, servindo de convés para as
gaivotas, às vezes mergulhados na água, mordidos pelos peixes — para a ilha.
Conhecemos a batida das ondas nos cascalhos e, sem ouvidos, escutamos o
tamborilar das pedras.
Há muito tempo o mar lavou da cena os restos da violência. Angela, o Emmanuelle
e Jonathan desapareceram. Só nós, os afogados, pertencemos à ilha, com os rostos
voltados para cima, sob as pedras, acalentados pelo ritmo das pequenas ondas e pela
absurda incompreensão dos carneiros.
Nenhum comentário:
Postar um comentário