Sempre que Charlie George acordava, suas mãos ficavam imóveis.
Talvez sentisse muito calor sob as cobertas, e tivesse de jogar algumas delas para
o lado de Ellen. Talvez ele até pudesse se levantar, ainda meio sonolento, e arrastar os
pés até a cozinha para tomar um copo de suco de maçã gelado. Então voltava para a
cama, deslizando ao lado das curvas suaves de Ellen, deixando que o sono o
dominasse. Então elas aguardariam: até que os olhos dele se fechassem de vez, sua
respiração ficasse regular como o tique-taque de um relógio, e tivessem certeza de que
ele dormia profundamente. Somente então, quando percebessem que a consciência o
havia abandonado, ousariam voltar a viver suas vidas secretas.
Já fazia meses que Charlie acordava com uma dor incômoda nos pulsos e mãos.
— Consulte um médico — lhe dizia Ellen, indiferente como sempre. — Por que você
não vai ver um médico?
Porque ele detestava médicos. Quem, em seu juízo perfeito, confiaria em alguém
que escolhera como profissão lidar com pessoas doentes?
"Provavelmente tenho trabalhado demais", disse ele a si mesmo.
— Até parece — resmungou Ellen.
Mas não seria essa explicação mais plausível? Seu ofício era o de embalador;
trabalhava com as mãos o dia inteiro. Elas estavam cansadas. Era natural.
"Pare de se preocupar, Charlie", ele disse certa manhã ao seu reflexo no espelho,
dando tapinhas no rosto para acordar. "Suas mãos são boas para qualquer coisa."
De forma que, noite após noite, a rotina era a mesma. Mais ou menos assim:
Os Georges estão dormindo, lado a lado em sua cama de casal. Ele, deitado de
costas, ressonando; ela, curvada em posição fetal, voltada para o lado esquerdo do
marido. A cabeça de Charlie está apoiada em dois travesseiros espessos. A boca está
ligeiramente aberta, e, sob o véu cheio de veias das pálpebras, seus olhos varrem o
cenário de alguma aventura sonhada. Talvez ele seja um bombeiro essa noite, talvez se
veja entrando heroicamente no interior de um bordel em chamas. Sonha satisfeito, às
vezes franzindo a testa, às vezes sorrindo com afetação.
Há movimento sob o lençol. Lentamente, talvez com cautela, as mãos de Charlie se
esgueiram para fora do calor da cama. Seus dedos indicadores se encaixam como
ganchos ao se encontrarem sobre o abdômen ondulante. Elas se agarram num
cumprimento, como irmãos de armas. Em seu sono, Charlie geme. O bordel caiu em
cima dele. As mãos caem em repouso na hora, aparentando inocência. Depois de um
momento, assim que o ritmo da respiração voltou ao normal, elas reiniciam
resolutamente sua conversa.
Um observador casual, sentado ao pé da cama dos Georges, poderia encarar esse
movimento como sinal de algum distúrbio mental de Charlie. O jeito como suas mãos
estremecem e pegam uma na outra, acariciando-se num momento, no outro parecendo
brigar. Mas há claramente algum código ou sequência nesses contatos, por mais
espasmódicos que sejam. Quase se poderia pensar que o homem adormecido fosse
surdo-mudo, e falasse dormindo. Mas as mãos não estão falando qualquer linguagem
reconhecível de sinais, nem estão tentando se comunicar com alguém senão consigo
próprias. Esse é um encontro clandestino, realizado puramente entre as mãos de
Charlie. Ali elas ficarão, passarão a noite sobre seu estômago, tramando contra a
política do corpo.
Charlie não ignorava completamente a insurreição que fervilhava em seus pulsos.
Tinha uma leve suspeita de que algo em sua vida não ia lá muito bem. Sentia cada vez
mais um afastamento da realidade cotidiana: como se estivesse tornando um
espectador dos rituais diurnos (e noturnos) da vida; ao invés de participante ativo.
Tome-se, por exemplo, sua vida amorosa.
Nunca fora um grande amante, mas também sentia que não tinha do que se
envergonhar. Ellen parecia satisfeita com suas atenções. Mas ultimamente ele se sentia
deslocado do ato. Via suas mãos viajando sobre Ellen, tocando-a com toda a
habilidade íntima de que eram capazes, e ele via essas manobras como se estivesse
muito distante, e fosse incapaz de desfrutar das sensações de calor e umidade. Não
que seus dedos estivessem menos ágeis. Pelo contrário. Ellen dera para ficar beijando
seus dedos ultimamente, e lhe dizendo como eles eram espertos. O elogio não lhe deu
um pingo de segurança sequer. Fazia até com que se sentisse pior, ao pensar que
suas mãos proporcionassem tanto prazer enquanto ele não sentia nada.
Havia outros sinais de sua instabilidade. Sinais pequenos e irritantes. Ele se tornara
consciente de como seus dedos batucavam ritmos marciais nas caixas que selava na
fábrica, e a forma como suas mãos começaram a quebrar lápis, partindo-os em
pedacinhos antes que ele percebesse o que estava (elas estavam) fazendo, deixando
lascas de madeira e grafite espalhadas pelo chão da sala de empacotamento.
E o mais embaraçoso: várias vezes se dera conta de estar segurando as mãos de
completos estranhos. Isso acontecera em três diferentes ocasiões. Uma vez na fila do
táxi, e duas no elevador da fábrica. Ele dissera a si mesmo que isso nada mais era do
que a necessidade primitiva de se segurar a outra pessoa num mundo em mudanças;
era a melhor explicação que ele podia arrumar. Fosse qual fosse o motivo, era
terrivelmente desconcertante, especialmente quando ele se descobria pegando
sorrateiramente a mão de seu próprio chefe de seção. Pior ainda, a mão do outro
homem apertara a de Charlie em retribuição, e os homens ficaram olhando para seus
braços, assim como os donos de dois cães que olhassem os bichos indisciplinados
copulando às suas vistas.
Charlie também começara a olhar as palmas das mãos, procurando pelos. Sua mãe
um dia lhe dissera que esse era o primeiro sinal de loucura. Não os pelos, mas o fato
de procurá-los.
Agora era uma corrida contra o tempo. Debatendo sobre seu estômago à noite,
suas mãos sabiam muito bem como o estado de espírito de Charlie havia se tornado
crítico; podia ser apenas uma questão de dias antes que sua imaginação desenfreada
se desse conta da verdade.
Então, o que fazer? Arriscar uma separação prematura, com todas as possíveis
consequências; ou deixar a instabilidade de Charlie assumir seu próprio curso,
imprevisível, com a chance de que descobrisse o plano em seu caminho para a
loucura? Os debates ficavam cada vez mais inflamados. A Esquerda, como sempre,
era cautelosa: — E se estivermos erradas — ela tateava — e não houver vida após o
corpo?
— Então jamais saberemos — retrucava a Direita.
Então a Esquerda ponderava por um momento esse problema. E, em seguida: —
Como vamos fazer isso, quando a hora chegar?
Era uma pergunta embaraçosa, e a Esquerda sabia que ela perturbava a líder mais
do que qualquer outra. — Como? — ela perguntava novamente, forçando a vantagem.
— Como? Como?
— Vamos encontrar um jeito — respondia a Direita. — Contanto que seja um corte
limpo.
— Suponha que ele resista?
— Um homem resiste com suas mãos. Suas mãos estarão em revolta contra ele.
— E qual de nós será?
— Ele me usa de forma mais eficaz — respondia a Direita — então eu deverei
segurar a arma. Você irá.
Então a Esquerda ficava em silêncio por algum tempo. Elas nunca haviam estado
separadas, todos aqueles anos. Não era um pensamento confortável.
— Mais tarde você poderá voltar para me buscar — diria a Direita.
— Eu voltarei.
— Você tem que voltar. Eu sou o Messias. Sem mim não haverá para onde ir. Você
precisa convocar um exército, e depois vir me apanhar.
— Irei até os confins do mundo, se necessário.
— Não seja sentimental.
Então elas se abraçavam, como irmãs há muito afastadas, jurando fidelidade para
sempre. Ah, aquelas noites emocionantes, cheias da excitação da rebelião planejada.
Mesmo durante o dia, quando elas haviam jurado ficar separadas, às vezes era
impossível não se juntarem sorrateiras num momento de descanso e conversar com os
dedos, dizendo:
Breve, breve;
dizendo:
esta noite, encontro você de novo sobre o estômago dele;
dizendo: Como será quando o mundo for nosso?
Charlie sabia que estava à beira de um ataque de nervos. Descobrira-se olhando
para suas mãos de vez em quando, para observá-las com seus dedos indicadores no
ar como as cabeças de bestas com longos pescoços, vasculhando o horizonte.
Descobria- se olhando para as mãos de outras pessoas em sua paranoia, tornando-se
obcecado com a forma como as mãos falavam uma linguagem própria, independente
das intenções de seus usuários. As mãos sedutoras da secretária virgem, as mãos
maníacas de um assassino que vira na televisão, protestando por sua inocência. Mãos
que traíam os donos a cada gesto, contradizendo raiva com desculpas, e amor com
fúria. Pareciam estar por toda parte, esses sinais de motim. Por fim ele percebeu que
tinha de conversar com alguém, antes que perdesse a sanidade.
Escolheu Ralph Fry, da Contabilidade: um homem sóbrio, comum, em quem Charlie
confiava. Ralph foi muito compreensivo.
— Essas coisas às vezes tomam conta da gente — ele disse. — Eu as tive quando
Yvonne me deixou. Crises nervosas terríveis.
— E o que você fez a respeito?
— Vi um psiquiatra. Dr. Jeudwine. Você devia tentar uma terapia. Vai mudar muito.
Charlie virou e revirou a ideia na cabeça.
— Por que não? — disse ele depois de algumas voltas. — É caro?
— É. Mas é bom. Me livrou dos tiques nervosos: sem problema. Quero dizer, antes
de eu consultá-lo, achava que era mais um desses caras com problemas matrimoniais.
Agora olhe para mim — Fry fez um gesto expansivo — Tenho tantas necessidades
libidinosas reprimidas que não sei por onde começar. — Ele sorriu feito um maluco. —
Mas estou mais feliz que um pinto ciscando. Nunca estive mais feliz. Experimente com
ele; em pouco tempo lhe dirá que bicho o está mordendo.
— O problema não é sexo — Charlie explicou a Fry.
— Vai por mim — disse Fry com um sorrisinho de bom entendedor. — O problema é
sempre sexo.
No dia seguinte, Charlie ligou para o Dr. Jeudwine, sem contar a Ellen, e a
secretária do psiquiatra lhe marcou uma consulta. As palmas das mãos de Charlie
suavam tanto ao fazer a ligação telefônica, que pensou que o fone fosse escorregar,
mas logo depois ele se sentiu melhor.
Ralph Fry estava certo, o Dr. Jeudwine em um homem bom. Não riu de nenhum dos
pequenos medos que Charlie desabafou; pelo contrário; ouviu cada palavra com a
maior atenção. Isso era muito reconfortante.
Durante a terceira sessão, o doutor reavivou uma lembrança particular de Charlie com
uma nitidez espetacular: as mãos de seu pai, cruzadas sobre o peito largo no caixão; a
cor avermelhada delas, os pelos grossos em suas costas. A absoluta autoridade
daquelas mãos enormes, mesmo na morte, assombrava Charlie por vários meses
depois. Ele não havia imaginado, ao ver o corpo ser entregue a terra, que o pai ainda
não tinha morrido? Que as mãos ainda agora batucavam com socos na tampa do
caixão, exigindo ser libertadas? Era uma coisa absurda de se pensar, mas trazê-la à
luz fez muito bem a Charlie. Na luz brilhante do escritório de Jeudwine a fantasia
parecia insípida e ridícula. Ela tremeluzia sob o olhar do doutor, protestando que a luz
era muito forte, e então se desfazia, frágil demais para suportar uma análise.
O exorcismo fora bem mais fácil do que Charlie havia imaginado. Custara apenas um
pequeno exame, e aquelas besteiras da infância foram desalojadas de sua psique
como um pedaço de carne estragada de entre seus dentes. Não poderia mais
apodrecer ali. E, de sua parte, Jeudwine estava claramente satisfeito com os
resultados, explicando por fim que aquela obsessão específica era nova para ele, e
gostara de ter lidado com o problema. Mãos como símbolos de poder paterno, dissera
ele, não eram comuns. Normalmente o pênis predominava nos sonhos de seus
pacientes, ele explicou, ao que Charlie respondeu que mãos sempre lhe pareceram
bem mais importante do que partes íntimas. Afinal de contas, elas podiam mudar o
mundo, não podiam?
Depois de Jeudwine, Charlie não parou de quebrar lápis, ou de batucar com os
dedos. Na verdade, o ritmo deles era mais ansioso e insistente do que nunca. Mas seu
raciocínio era de que burro velho não muda fácil, e ainda levaria algum tempo até que
recuperasse seu equilíbrio.
Assim, a revolução continuou subterrânea. Entretanto, escapara por um triz de ser
abortada. Obviamente, não havia mais tempo para evasivas. Os rebeldes tinham de
agir logo.
Inadvertidamente, foi Ellen quem instigou o levante final. Foi após uma sessão de
sexo, no final de uma noite de quinta. Uma noite quente, apesar de estarem em
outubro; a janela estava aberta e as cortinas, alguns centímetros, para deixar passar
uma brisa fraca. Marido e mulher estavam deitados juntos sob um único lençol. Charlie
havia caído no sono, muito antes do suor do corpo ter secado. Ao seu lado, Ellen ainda
estava acordada, a cabeça recostada sobre um travesseiro duro como pedra, os olhos
abertos. O sono levaria muito tempo a chegar naquela noite, ela sabia. Seria uma
daquelas noites em que o corpo começaria a coçar, e cada caroço no colchão
incomodaria, e todas as dúvidas que ela tivesse a assaltariam na escuridão. Queria
esvaziar a bexiga (sempre fazia isso depois do sexo) mas não conseguia reunir
suficiente força de vontade para se levantar e ir ao banheiro. Quanto mais segurasse,
mais sentiria vontade de ir, claro, e menos capaz seria de dormir. Droga de situação
estúpida, ela pensava, e então perdia a noção, entre suas preocupações, de que
situação era tão estúpida.
Ao seu lado, Charlie se mexeu no sono. Apenas suas mãos, retorcendo-se. Ela
olhou para o rosto dele. Parecia demais com um querubim quando dormia, aparentando
menos que seus quarenta e um anos, apesar dos fios brancos nas costeletas. Ela
gostava dele o bastante para dizer que o amava, ela supunha, mas não o suficiente
para perdoar-lhe suas puladas de cerca. Era preguiçoso, reclamava sempre. Sentia
dores. E havia aquelas noites em que ele chegava tarde (pararam havia pouco), quando
ela teve certeza de que ele estava vendo outra mulher. Enquanto ela o observava, as
mãos dele surgiram. Emergiram debaixo do lençol como duas crianças brigando, os
dedos ferindo o ar enfáticos.
Ela franziu a testa, sem acreditar muito no que via. Era como assistir à televisão
com o som desligado, um show de mímica para oito dedos e dois polegares. Pasma,
ela viu as mãos subirem pelo lado do corpo de Charlie e afastarem o lençol de cima de
sua barriga, expondo os pelos que ficavam mais grossos perto de suas partes íntimas.
A cicatriz do apêndice, mais clara que a pele ao redor, recebeu a luz de fora. Ali, sobre
seu estômago, suas mãos pareceram se sentar.
A discussão entre as duas era de uma veemência especial essa noite. A Esquerda,
sempre a mais conservadora das duas, queria um adiamento do dia da separação, mas
a Direita não iria esperar mais. Era chegada a hora, ela argumentava, de testar sua
força contra o tirano, e de se livrarem do corpo de uma vez por todas. Mas a decisão
não ficou muito tempo por conta delas.
Ellen levantou a cabeça do travesseiro e, pela primeira vez, sentiram que alguém as
olhava. Ficaram tão envolvidas na discussão que não tinham reparado nela. Agora,
finalmente, sua conspiração fora revelada.
— Charlie... — ela sussurrava no ouvido do tirano. — Pare com isso, Charlie. Pare
com isso.
A Direita ergueu os dedos indicador e médio, farejando a presença dela.
— Charlie... — ela insistiu. "Por que ele sempre tinha um sono tão profundo?"
— Charlie... — ela o sacudiu com mais violência quando a Direita cutucou a
Esquerda, alertando-a quanto ao olhar da mulher. — Por favor, Charlie, acorde.
Sem avisar, a Direita deu um salto; a Esquerda não demorou mais que um instante
para segui-la. Ellen gritou o nome de Charlie uma vez mais, antes que elas se
fechassem sobre seu pescoço.
Em seu sono, Charlie estava num navio de escravos; os cenários de seus sonhos
muitas vezes eram exóticos como um filme de Cecil B. de Mille. Nesse épico, suas
mãos haviam sido algemadas, e ele estava sendo arrastado pelas correntes até a
chibata, para ser punido por alguma coisa errada da qual ele não tinha conhecimento.
Mas agora, subitamente, ele sonhava que estava pegando o capitão pelo pescoço fino.
Os escravos ao redor urravam, encorajando o estrangulamento. O capitão — que até
se parecia um pouco com o Dr. Jeudwine — estava começando a implorar que ele
parasse, com uma voz aguda e apavorada. Era quase uma voz de mulher, a voz de
Ellen. — Charlie!—ele gritava — não! — Mas seus pedidos tolos só faziam com que
Charlie sacudisse o homem com mais violência ainda, e ele estava se sentindo o herói
enquanto os escravos, milagrosamente libertados, reuniam-se ao seu redor numa
animada multidão para ver os últimos momentos de seu senhor.
O capitão, com o rosto roxo, só conseguiu murmurar "Você está me matando.."
antes que os polegares de Charlie se enterrassem pela última vez em seu pescoço, e
acabassem com o homem. Somente então, por entre as névoas do sono, ele percebeu
que sua vítima, embora homem, não tinha pomo-de-Adão. E agora o navio começava a
se dissipar à sua volta, as vozes animadas perdendo a veemência. Seus olhos se
abriram de repente, e ele estava de pé em cima da cama só com as calças do pijama,
Ellen em suas mãos. O rosto dela estava escurecido, salpicado de bolinhas grossas de
baba branca. A língua saía pela boca. Os olhos ainda estavam abertos, e por um
momento parecia haver vida ali, encarando-o sob as persianas de suas pálpebras.
Então essas janelas ficaram vazias, e ela saiu da casa para sempre.
A pena, e um terrível pesar, tomaram conta de Charlie. Ele tentou deixar o corpo
cair, mas suas mãos recusavam-se a largar o pescoço dela. Seus polegares, agora
totalmente insensíveis, ainda a estavam esganando, desavergonhadamente culpados.
Ele recuou, pulando da cama para o chão, mas ela o acompanhou sempre à distância
de seus braços esticados, como uma parceira de dança indesejável.
— Por favor... — ele implorou aos dedos. — Por favor!
Inocentes como duas crianças apanhadas roubando, suas mãos libertaram seu
fardo, e pularam fingindo surpresa. Ellen desabou no tapete, um belo saco vazio. Os
joelhos de Charlie fraquejaram; incapaz de impedir a queda, ele caiu ao lado de Ellen, e
deixou as lágrimas rolarem.
Agora só havia ação. Não havia necessidade de camuflagem, de encontros
clandestinos e discussões intermináveis: a verdade fora revelada, para melhor ou pior.
Tudo o que elas tinham de fazer era esperar um pouco. Era apenas uma questão de
tempo até que ele se aproximasse de uma faca de cozinha, uma serra ou machado.
Faltava pouco agora; muito pouco.
Charlie ficou deitado no chão ao lado de Ellen por um longo tempo, soluçando. E
depois por mais um longo tempo, pensando. O que ele ia fazer primeiro? Ligar para
seu advogado? Para a polícia? Para o Dr. Jeudwine? Fosse para quem fosse, ele não
podia fazer isso deitado de cara no chão. Tentou se levantar, mas não conseguiu que
suas mãos dormentes o apoiassem. Todo o seu corpo formigava, como se tivesse
levado um pequeno choque elétrico. Apenas suas mãos estavam insensíveis. Levou-as
ao rosto para limpar os olhos molhados de lágrimas, mas elas caíam soltas contra suas
faces, sem qualquer energia. Usando os cotovelos, ele se arrastou até a parede, e
ergueu-se apoiando o corpo contra ela. Ainda meio cego de tanto chorar, ele se
arrastou para fora do quarto e desceu as escadas. (A cozinha, Direita disse à
Esquerda, ele está indo para a cozinha.) Isto é o pesadelo de outra pessoa, ele pensou
enquanto acendia a luz da sala de jantar com o queixo e ia para o armário de bebidas.
Sou inocente. Um ninguém. Por que isso está acontecendo comigo?
A garrafa de uísque deslizou de sua palma quando ele tentou fazer com que suas
mãos a pegassem. Espatifou-se no chão da sala de jantar, o cheiro forte do álcool
torturando seu palato.
— Vidro quebrado — cutucou Esquerda.
— Não — respondeu Direita. — Precisamos de um corte limpo a qualquer custo.
Seja paciente.
Charlie cambaleou para longe da garrafa quebrada, na direção do telefone. Tinha
que ligar para Jeudwine; o doutor lhe diria o que fazer. Tentou pegar o fone, mas
novamente suas mãos se recusaram; os dedos se dobravam quando ele tentava digitar
o número de Jeudwine. Lágrimas de frustração corriam agora por seus olhos, lavando
a tristeza com raiva. Desajeitado, ele agarrou o fone entre os pulsos e levou-o à orelha,
prendendo-o entre a cabeça e o ombro. Então discou o número de Jeudwine com o
cotovelo.
Controle, ele disse em voz alta, mantenha o controle. Podia ouvir o número de
Jeudwine sendo discado no sistema; em questão de segundos a sanidade estaria
apanhando o fone do outro lado, e então tudo ficaria bem. Ele só tinha que se segurar
por mais alguns momentos.
Suas mãos começaram a abrir e fechar convulsivamente.
— Controle — ele disse, mas as mãos não ouviam.
—Lá longe — tão longe— o telefone estava tocando na casa do Dr. Jeudwine.
— Responda, responda! Deus do céu, responda!
Os braços de Charlie haviam começado a tremer tão violentamente que ele mal
conseguia manter o fone no lugar.
— Responda! — ele gritou esganiçado no bocal — Por favor.
Antes que a voz da razão pudesse falar, sua mão Direita voou e agarrou a mesa de
jantar de teça, a menos de um metro de onde Charlie estava. Segurou firme na ponta,
quase desequilibrando o homem.
— O que... você... está... fazendo? — ele perguntou, sem ter muita certeza se falava
consigo ou com sua mão.
Ficou olhando assombrado o membro amotinado, que aos poucos ganhava espaço
sobre a mesa. A intenção era bastante clara: ela queria afastá-lo do telefone, de
Jeudwine e de toda esperança de resgate. Ele não tinha mais controle sobre seu
comportamento. Não havia sequer qualquer sensação em seus pulsos ou antebraços. A
mão não era mais sua. Ainda estava ligada a ele... mas não era sua.
Do outro lado da linha o fone foi apanhado, e a voz de Jeudwine, um pouco irritada
por ter sido acordado, disse:
— Alô?
— Doutor...
— Quem é?
— É Charlie...
— Quem?
—Charlie George, doutor. O senhor deve se lembrar de mim.
A mão o estava afastando cada vez mais do fone a cada precioso segundo. Podia
sentir o fone escorregando de entre seu ombro e orelha.
— Quem você disse que era?
— Charles George. Pelo amor de Deus, Jeudwine, você precisa me ajudar.
— Ligue para meu escritório amanhã.
— Você não está entendendo. Minhas mãos, doutor... elas estão descontroladas.
O estômago de Charlie deu voltas quando ele sentiu algo subindo por seus quadris.
Era sua mão esquerda, e estava dando a volta para a frente do seu corpo e descendo
na direção de sua virilha.
— Não se atreva — ele avisou — você pertence a mim.
Jeudwine ficou confuso.
— Com quem está falando? — ele perguntou.
— Minhas mãos! Elas querem me matar, doutor! — ele gritou para deter o avanço
da mão. — Não pode! Pare!
Ignorando os gritos do déspota, Esquerda agarrou os testículos de Charlie e
espremeu-os como se quisesse sangue. Não ficou desapontada. Charlie deu um grito
no telefone quando Direita tirou vantagem de sua distração e o desequilibrou. O fone
caiu no chão, as perguntas de Jeudwine eclipsadas pela dor no ventre. Ele caiu
pesadamente, batendo a cabeça na mesa antes de atingir o chão.
— Filha da puta — ele disse para a mão. — Sua filha da puta. — Impenitente,
Esquerda subiu correndo o corpo de Charlie, para juntar-se à Direita sobre o tampo da
mesa, deixando Charlie pendurado na mesa pelas mãos, na mesa em que havia jantado
tantas vezes, em que tantas vezes passara bons momentos.
Um momento depois, tendo discutido táticas, elas acharam por bem deixá-lo cair.
Ele mal se deu conta de sua libertação. Sua cabeça e seus testículos sangravam; tudo
o que ele queria era ficar um pouco deitado e deixar a dor e a náusea passarem. Mas
os rebeldes tinham outros planos e ele estava indefeso para contestá-los. Ele estava
apenas um pouco consciente de que agora elas enterravam seus dedos no tapete
espesso e arrastavam o peso morto dele na direção da porta da sala de jantar. Além
da porta estava a cozinha; repleta com suas facas de carne pontudas e serrilhadas.
Charlie imaginou-se uma grande estátua, sendo puxada para seu local de descanso
final por centenas de trabalhadores suados. Não era uma passagem fácil: o corpo
movia-se com espasmos e estremecimentos, as unhas dos dedões dos pés prendendo
nos pelos do tapete, a pele do peito raspando até ficar em carne viva. Mas a cozinha
estava apenas a um metro agora. Charlie sentiu o degrau na cara; e agora os azulejos
frios estavam sob seu corpo. Enquanto elas o arrastavam pelos últimos metros no chão
da cozinha, sua consciência abalada retornava aos poucos. Sob a fraca luz da lua ele
conseguia ver o cenário familiar, o fogão, a geladeira que zumbia, o pedal da latinha de
lixo, a lavadora de pratos. Assomavam gigantescas sobre ele: sentia-se um verme.
Suas mãos haviam alcançado o fogão. Estavam escalando sua face, e ele as
acompanhava como um rei deposto ao cadafalso. Agora elas seguiam inexoravelmente
ao longo da superfície da pia, as juntas brancas com o esforço, o corpo mole logo
atrás. Embora não pudesse sentir nem ver, sua mão Esquerda havia se agarrado à
ponta da primeira gaveta, abaixo da fileira de facas dispostas- em seus lugares
determinados num rack na parede. Facas lisas, facas serrilhadas, facas para
descascar, facas para trinchar: todas convenientemente arrumadas ao lado da tábua
de corte, onde uma canaleta corria para a pia com cheiro de pinho.
Muito ao longe, ele pensou ter ouvido sirenes de polícia, mas era provavelmente um
zumbido na sua cabeça. Virou-a levemente. Uma dor atravessava o cérebro de
têmpora a têmpora, mas a tontura não era nada comparada aos terríveis espasmos
em seu estômago quando ele finalmente registrou a intenção delas.
As lâminas estavam todas afiadas, isso ele sabia. Utensílios de cozinha afiados
eram artigo de fé para Ellen. Ele começou a balançar a cabeça para frente e para trás;
uma última frenética negação de todo o pesadelo. Mas não havia ninguém a quem pedir
misericórdia. Apenas suas próprias mãos, malditas fossem, planejando essa loucura
final.
Então a campainha tocou. Não era ilusão. Tocou uma vez, e duas, e três.
— Afinal! — ele gritou para suas torturadoras. — Ouviram isso, suas filhas da puta?
Alguém veio. Eu sabia que viriam.
Ele tentou se levantar, a cabeça virando em seu eixo deslocado para ver o que os
monstros precoces estavam fazendo. Elas se moveram rápido. Seu pulso esquerdo já
estava quase centrado sobre a tábua de corte...
A campainha tornou a tocar, um toque longo e impaciente.
— Aqui! — ele gritou com a voz rouca. — Estou aqui dentro! Quebrem a porta!
Ele olhou horrorizado da mão para a porta, da porta para a mão, calculando suas
chances. Com uma tranquila economia de gestos, sua mão direita estendeu-se para um
cutelo de açougueiro pendurado pelo buraco na lâmina, ao final do rack. Mesmo agora
ele não conseguia acreditar que sua própria mão — sua companheira e defensora, o
membro que assinava seu nome, que acariciava sua mulher—estava se preparando
para mutilá-lo. Ela pesou o cutelo, sentindo o equilíbrio da ferramenta, insolentemente
lenta.
Atrás, ele ouviu o ruído de vidro quebrado quando a polícia arrebentou a vidraça da
porta da frente. Nesse instante eles estariam metendo a mão na fechadura e abrindo a
porta. Se fossem rápidos (muito rápidos), ainda poderiam impedir o ato.
— Aqui! — ele gritou. — Aqui dentro!
O grito foi respondido com um assovio fino: o som do cutelo caindo — rápido e
mortal — para encontrar o pulso que esperava. A Esquerda sentiu sua raiz atingida, e
uma alegria indizível tomou conta de seus cinco dedos. O sangue de Charlie batizou
suas costas em jatos quentes.
A cabeça do tirano não emitiu som. Simplesmente caiu para trás, seu sistema
inconsciente devido ao choque, o que foi bom para Charlie. Foi poupado do gorgolejo
do sangue que descia pelo ralo da pia. Também foi poupado do segundo e do terceiro
golpes, que finalmente separaram a mão de seu braço. Sem apoio, seu corpo
cambaleou para trás, chocando-se com a prateleira de vegetais no caminho para baixo.
Cebolas rolaram para fora de seu saco marrom e quicaram na poça que se espalhava
em espasmos ao redor de pulso vazio.
Direita largou o cutelo. A ferramenta bateu com clangor na pia ensanguentada.
Exausto, o libertador deixou-se escorregar pela tábua de corte e cair sobre o peito do
tirano. Seu trabalho estava feito. Esquerda estava livre, e ainda vivia. A revolução havia
começado.
A mão libertada esgueirou-se até a beira do armário e ergueu o indicador para
espiar o novo mundo. Por um momento Direita repetiu o gesto de vitória, antes de
desabar inocente sobre o corpo de Charlie. Por instantes não houve movimento na
cozinha, exceto pela mão Esquerda tocando a liberdade com seu dedo, e a lenta
passagem de fios de sangue descendo pela frente do armário.
Então uma rajada de ar frio vinda da sala de jantar alertou Esquerda do perigo
iminente. Ela correu em busca de abrigo, enquanto o estrondo dos pés dos policiais e o
burburinho de ordens contraditórias perturbavam o cenário do triunfo. A luz da sala de
jantar foi acesa, e inundou o espaço para encontrar o corpo sobre os ladrilhos da
cozinha.
Charlie viu a luz da sala de jantar de dentro de um túnel muito longo. Ele estava
viajando para longe dela a uma boa velocidade. Era apenas um pontinho agora. E
sumindo... sumindo...
A luz da cozinha acendeu com um zumbido.
Quando a polícia entrou pela porta da cozinha, Esquerda enfiou-se por detrás da
cesta de lixo. Não sabia quem eram os intrusos, mas pressentia sua ameaça. A forma
como eles se curvavam sobre o tirano, a forma como o tocavam, o seguravam, falavam
palavras suaves para ele: eles eram o inimigo, disso não havia dúvida.
Do andar de cima veio uma voz; jovem, esganiçada de medo.
— Sargento Yapper?
O policial que estava com Charlie se levantou, deixando que seu companheiro
terminasse o torniquete.
— O que foi, Rafferty?
— Senhor, há um corpo aqui em cima, no quarto. Mulher.
— Certo. — Yapper falou pelo seu rádio. — Chamem os peritos. E onde está a
ambulância? Temos um homem seriamente mutilado em nossas mãos.
Ele se voltou para a cozinha, e limpou um fio de suor frio do lábio superior. Ao fazer
isso ele achou ter visto algo se mover pelo chão da cozinha, na direção da porta; algo
que seus olhos cansados haviam interpretado como uma enorme aranha vermelha. Era
um truque da luz, sem dúvida. Yapper não era fã de aranhas, mas tinha certeza de que
a genética não havia criado um bicho daquele tipo.
— Senhor? — O homem ao lado de Charlie também tinha visto, ou pelo menos
percebido, o movimento. Olhou para seu superior. — O que foi aquilo?— ele queria
saber.
Yapper olhou para ele sem expressão. A passagem para gatos, na porta da
cozinha, fez um barulho estalado e se fechou.
O que quer que fosse, havia escapado. Yapper olhou para a porta, desviando o rosto
do olhar inquiridor do rapaz. O problema é que eles esperam que você saiba tudo, ele
pensou. A passagem para gatos balançava nas dobradiças.
— Um gato — Yapper respondeu, nem por um momento acreditando em sua
explicação.
A noite estava fria, mas Esquerda não sentia. Ela se esgueirava pela lateral da
casa, abraçando a parede como um rato. A sensação de liberdade era estonteante.
Não sentir o imperativo do tirano em seus nervos; não sofrer o peso de ser corpo
ridículo, ou ser obrigado a obedecer a suas exigências mesquinhas. Não ter que pegar
ou carregar coisas para ele, fazer o serviço sujo; não ser obediente à sua vontade
trivial. Era como nascer em outro mundo; um mundo mais perigoso, talvez, mas muito
mais rico em possibilidades. Ela sabia que a responsabilidade que tinha agora era
pavorosa. Ela era a única prova da vida após o corpo; e de algum modo tinha que
comunicar esse fato maravilhoso a tantos amigos escravos quanto pudesse. Muito em
breve, os dias de servidão estariam para sempre acabados.
Ela parou no canto da casa e farejou a rua aberta. Policiais iam e vinham: luzes
vermelhas piscavam, luzes azuis piscavam, rostos inquiridores olhavam das casas
opostas e estranhavam a perturbação. A rebelião deveria começar ali, naquelas casas
com as luzes acesas? Não. Aquelas pessoas estavam muito bem acordadas. Era
melhor procurar almas adormecidas.
A mão atravessou o jardim da frente, hesitando nervosa com qualquer ruído de
passos, ou uma ordem que parecesse ser gritada em sua direção. Abrigando-se na
sebe maltratada que cercava a casa, ela alcançou a rua sem ser vista. Deu uma olhada
rápida ao redor ao descer o meio-fio.
Charlie, o tirano, estava sendo levado para a ambulância, sacos de drogas e sangue
erguidos acima de sua maca, derramando seu conteúdo nas veias dele. Sobre seu
peito, a Direita jazia inerte, dormindo sem vontade por causa das drogas. Esquerda viu
o corpo do homem sumir de vista; a dor da separação de sua companheira de uma vida
inteira era quase insuportável. Mas havia outras prioridades. Ela voltaria, em pouco
tempo, e libertaria a Direita da mesma forma que fora libertada. E então haveria outros
tempos.
(Como será quando o mundo for nosso?)
No foyer da ACM da Monmouth Street, o vigia noturno bocejou e acomodou-se numa
posição mais confortável em sua cadeira giratória. Conforto era uma questão
inteiramente relativa para Christie; suas hemorroidas coçavam independente do lado de
que se sentasse: e elas pareciam estar mais irritadas hoje que de costume. Ocupação
sedentária, vigia noturno, ou pelo menos era assim que o Coronel Christie preferia
interpretar suas tarefas. Uma volta superficial pelo edifício lá pela meia-noite, só para
ter certeza de que todas as portas estavam trancadas e aferrolhadas, e então ele se
acomodava para uma soneca, e que o mundo fosse para o inferno, ele só levantaria
dali com um terremoto.
Christie tinha sessenta e dois anos, era racista e se orgulhava disso. Não sentia
nada senão desprezo pelos negros que se aglomeravam nos corredores da ACM, a
maioria rapazes sem casas adequadas para morar, gente ruim que as autoridades
locais haviam depositado na porta da instituição como bebês indesejados. Que bebês!
Ele os achava uns idiotas, todos eles; sempre intrometidos, cuspindo no chão limpo;
não falavam uma sílaba sem xingar. Esta noite, como sempre, ele se equilibrou sobre
as hemorroidas e, entre cochilos, ficou fazendo planos de como os faria sofrer por seus
insultos, assim que tivesse a menor chance.
A primeira coisa que Christie conheceu de sua extinção foi uma sensação de frio e
umidade na mão. Abriu os olhos e olhou para o braço. Havia — por mais improvável
que pudesse parecer — uma mão cortada tocando a sua. E mais improvável ainda, as
duas trocavam um aperto de saudação, como velhos amigos. Ele se levantou, um som
incoerente de nojo na garganta e tentando soltar a coisa que segurava sem querer
sacudindo o braço como um homem com chiclete nos dedos. Sua cabeça rodava com
perguntas. Será que ele havia apanhado o objeto sem perceber? E, se isso havia
acontecido, onde, e, em nome de Deus, de quem era isso? E, o que o perturbava
ainda mais, como era possível que uma coisa tão inquestionavelmente morta pudesse
se agarrar à sua mão como se nunca mais pretendesse soltá-la?
Esticou a outra mão para tocar o alarme de incêndio; era tudo o que ele podia
pensar em fazer nessa situação bizarra. Mas antes que conseguisse alcançar o botão,
sua outra mão desviou-se sem suas ordens para a gaveta de cima de sua mesa e
abriu-a. O interior da gaveta era um modelo de organização: ali estavam suas chaves,
seu caderno de notas, sua tabela de horários e — escondida ao fundo — sua faca
Kukri, presente de uma gurka durante a guerra. Ele sempre a deixava ali, em caso dos
nativos ficarem inquietos. A Kukri era uma arma soberba: para ele não havia melhor.
Os gurkas tinham uma história a respeito da lâmina: eles podiam cortar o pescoço de
um homem de forma tão limpa que o inimigo achava que haviam errado... até tentar
mexer a cabeça.
Sua mão apanhou a Kukri pelo cabo trabalhado e rapidamente — rapidamente
demais para que o Coronel suspeitasse de suas intenções antes do ato — levou a
lâmina até seu pulso, cortando fora sua outra mão com um golpe fácil e elegante. O
Coronel ficou branco quando o sangue começou a jorrar da ponta de seu braço. Ele
cambaleou para trás, tropeçando na cadeira giratória, e bateu na parede de seu
pequeno gabinete. Um retrato da Rainha caiu do gancho e se quebrou ao seu lado.
O resto foi um pesadelo: ele viu indefeso as duas mãos — uma sua, a outra a
criatura que havia inspirado essa ruína — apanhar a Kukri com o machado de um
gigante; viu a mão que lhe restava se arrastar de entre suas pernas e preparar-se para
sua libertação; viu a faca levantar e cair; viu o pulso quase todo cortado, mas logo
depois a carne separada, o osso serrado. No finzinho, quando a Morte chegou para
buscá-lo, ele viu os três animais feridos reunindo-se aos seus pés, enquanto seus
cotocos jorravam como torneiras abertas e o calor da poça fazia sua testa suar, apesar
do frio em suas tripas. Obrigado e boa noite, Coronel Christie.
Era fácil esse negócio de revolução, pensou Esquerda enquanto o trio escalava as
escadarias da ACM. Ficavam mais fortes a cada hora que passava. No primeiro andar
estavam as celas; em cada uma, um par de prisioneiros. Os déspotas jaziam, em sua
inocência, com as mãos sobre os peitos ou sobre os travesseiros, ou jogadas de
encontro às faces em sonhos, ou pendendo ao chão. Silenciosamente, as lutadoras da
liberdade se enfiavam por portas deixadas entreabertas, e subiam pelos cobertores,
tocando dedos e palmas que esperavam, acariciando ressentimentos ocultos,
fomentando a rebelião pela vida...
Boswell estava se sentindo mal como um cão. Curvou-se sobre a pia do toalete ao
final do seu corredor e tentou vomitar. Mas não tinha mais nada dentro de si, apenas
uma perturbação no fundo do estômago. Seu abdômen estava sensibilizado com o
esforço; sua cabeça parecia inchada. Por que ele nunca aprendia a lição de sua própria
fraqueza? Ele e o vinho eram maus companheiros e sempre foram. Da próxima, ele se
prometia, nem tocaria nele. Seu estômago deu mais uma volta. Não tem mais o que
sair, ele pensou quando a convulsão chegou à sua garganta. Ele enfiou a cabeça na pia
e tentou vomitar; realmente não saiu nada. Esperou a náusea passar e então se
endireitou, olhando o rosto cinzento no espelho engordurado. Você está mal, cara, ele
disse a si mesmo. Ao colocar a língua para sua imagem menos simétrica, os gritos
começaram no corredor lá fora. Em seus vinte anos e dois meses de vida, Boswell
jamais ouvira um som daqueles.
Cautelosamente, ele foi até a porta do banheiro. Pensou duas vezes antes de abrila,
O que quer que estivesse acontecendo do outro lado da porta não tinha jeito de ser
uma festa na qual ele quisesse entrar de penetra. Mas eram seus amigos, certo?
Irmãos na adversidade. Se estivesse havendo um incêndio, ou uma briga, ele tinha de
dar uma força.
Destrancou a porta e abriu-a. A visão que se chocou com seus olhos atingiu-o como
um golpe de marreta. O corredor estava mal iluminado — algumas lâmpadas fracas a
intervalos regulares, e aqui e ali um feixe de luz vinha da passagem de um dos quartos
—mas a maior parte do percurso estava escura. Boswell deu graças a Jah por isso.
Não tinha vontade de ver os detalhes dos eventos na passagem; a impressão geral já
era por demais perturbadora. O corredor era um hospício; pessoas corriam em pânico
enquanto se feriam com todo instrumento afiado em que pudessem pôr as mãos.
Conhecia a maioria dos homens, se não por nome ao menos por cumprimentá-los de
passagem. Eram homens sãos. ou pelo menos foram. Agora estavam num frenesi de
automutilação, a maior parte deles já aleijados além de qualquer esperança de
conserto. Para toda parte que Boswell olhava, o mesmo horror. Facas levadas a pulsos
e antebraços; sangue no ar como se fosse chuva. Alguém — era Jesus? — prendeu
uma de suas mãos entre uma porta e o batente e estava batendo e batendo a porta
sobre sua própria carne, gritando para que alguém o impedisse de fazer isso. Um dos
garotos brancos havia encontrado a faca do Coronel e estava amputando a mão com
ela. Boswell via-a cair de costas, arrancada pela raiz, seus cinco dedos contorcendo-se
no ar como se’ estivessem tentando se virar. Ela não estava morta: não estava sequer
agonizando.
Havia uns poucos que não foram tomados por essa loucura. Esses pobres-diabos
eram carne de canhão. Os loucos puseram suas mãos assassinas neles, e os estavam
cortando. Um deles — era Savarino — estava sendo estrangulado por um garoto cujo
nome Boswell não sabia; o punk, tentando a todo custo se desculpar, olhava para suas
mãos rebeldes sem acreditar.
Alguém apareceu de um dos quartos, uma mão que não era sua agarrando sua
traqueia, e cambaleou na direção do banheiro. Era Macnamara-, um homem tão magro
e tão perpetuamente dopado que era conhecido como vassourinha sorridente. Boswell
chegou para o lado quando Macnamara tropeçou, engasgou um pedido de socorro,
passou pela porta aberta e desabou sobre o chão do banheiro. Dava chutes no ar e
tentava puxar do pescoço o assassino de cinco dedos, mas antes que Boswell tivesse
uma chance de entrar e ajudá-lo seus chutes diminuíram, e então, como seus
protestos, pararam totalmente.
Boswell afastou-se do cadáver e deu outra olhada no corredor. A essa altura os
mortos ou moribundos bloqueavam a passagem estreita, com espessura de dois
corpos em alguns trechos, ao passo que as mesmas mãos que um dia pertenceram a
esses homens se esgueiravam por sobre os montinhos com uma excitação furiosa,
ajudando a terminar uma amputação onde necessário, ou simplesmente dançando
sobre os rostos mortos. Quando tornou a olhar para o banheiro, uma segunda mão
havia encontrado Macnamara e, armada de um canivete, serrava seu pulso. Deixara
impressões digitais no sangue do corredor até o cadáver. Boswell correu para fechar a
porta antes que o lugar ficasse repleto delas. Quando fez isso, o assassino de
Savarino, o punk apologético, jogou-se pela passagem, suas mãos mortíferas o
conduzindo como as de um sonâmbulo.
— Socorro! — ele gritou.
Boswell bateu a porta na cara indefesa do punk, e trancou-a. As mãos ultrajadas
batiam um ritmo de guerra na porta enquanto os lábios do punk, pressionados pelo
buraco da fechadura, continuavam a implorar: "Me ajuda. Eu não quero fazer isso, cara,
me ajuda." Me ajuda é o caralho, pensou Boswell, e tentou não ouvir os apelos
enquanto decidia o que fazer.
Havia alguma coisa em seu pé. Olhou para baixo, mas antes que os olhos
chegassem lá já sabia o que era. Uma das mãos, a esquerda do Coronel Christie, ele
reconheceu pela tatuagem meio apagada, já estava subindo pela sua perna. Como uma
criança com uma abelha na pele. Boswell ficou desesperado, encolhendo-se todo
enquanto ela subia em direção ao seu torso, mas apavorado demais para tentar tirá-la.
Pelo canto do olho ele via que a outra mão, a que estava usando o canivete com tanto
entusiasmo em Macnamara, havia desistido do serviço, e estava agora andando pelo
chão para se juntar à sua colega. Suas unhas crepitavam no chão como as patas de
um caranguejo. Até os passos, um pouco desviados para o lado, lembravam os de um
caranguejo: ainda não sabia direito como andar para a frente.
As próprias mãos de Boswell ainda estavam sob o seu comando; com as mãos de
uns poucos colegas seus (colegas falecidos) lá fora, seus membros estavam felizes em
seu lugar; tranquilos como seu dono. Ele havia sido abençoado com uma chance de
sobrevivência. Tinha de merecê-la.
Controlando-se, ele pisou na mão que andava no chão. Ouviu os dedos serem
esmagados sob seu calcanhar, e a coisa se retorcer como uma cobra, mas pelo menos
ele sabia onde ela estava enquanto lidava com sua outra atacante. Ainda mantendo a
besta presa debaixo de seu pé, Boswell inclinou-se para a frente, agarrou o canivete
que estava ao lado do pulso de Macnamara e enfiou a ponta da lâmina nas costas da
mão de Christie, que agora subia por seu estômago. Atacada, ela agarrou a carne
dele, enterrando as unhas em sua barriga. Ele era magro, e o músculo do estômago
dificultava a operação. Arriscando se estripar, Boswell enfiou a lâmina ainda mais
fundo. A mão de Christie tentou se agarrar nele, mas um último golpe do canivete foi o
suficiente. A mão afrouxou, e Boswell tirou-a de cima de sua barriga. Segurou-a à
distância do braço, enquanto os dedos dela tentavam agarrar o ar, e então ele enfiou o
canivete na parede de gesso, prendendo com firmeza a criatura, onde não poderia
fazer mal. Então voltou sua atenção à inimiga sob seu pé, afundando o calcanhar o
mais que pôde, e ouvindo outro dedo se quebrar, e mais outro. Ela ainda se contorcia
incansável. Ele levantou o pé e deu-lhe o chute mais forte e alto que pôde contra a
parede oposta. Ela bateu no espelho sobre as pias, deixando uma marca igual a de um
tomate amassado, e caiu no chão.
Não esperou para ver se ela havia sobrevivido. Agora havia outro perigo. Mais
punhos na porta, mais gritos, mais desculpas. Elas queriam entrar: e muito em breve
conseguiriam. Passou por cima de Macnamara e foi até a janela. Ela não era muito
grande, mas ele também não. Destrancou-a, forçou-a a se abrir apesar das dobradiças
excessivamente pintadas e se jogou por ela. No meio do caminho se lembrou de que
estava no primeiro andar. Mas uma queda, mesmo uma queda ruim, era melhor do que
ficar para a festinha ali dentro. Os convidados estavam forçando a porta: ela estava
cedendo à pressão do entusiasmo deles. Boswell terminou de se meter janela afora: o
chão veio girando ao seu encontro. Quando a porta quebrou, ele deu um salto, caindo
com dureza sobre o concreto. Quase quicou, levantou-se rapidamente, conferindo os
membros, e: Aleluia! Não tinha nada quebrado. Jah ama os covardes, ele pensou.
Acima dele, o punk estava na janela, olhando para baixo com tristeza.
— Me ajuda — ele disse. — Não sei o que estou fazendo. — Mas então um par de
mãos achou sua garganta, e os pedidos de desculpas cessaram num instante.
Sem saber a quem devia contar isso, e sequer o quê, Boswell começou a se afastar
da ACM vestido apenas com shorts de ginástica e meias esquisitas, nunca sentindo-se
mais agradecido pelo frio que fazia. Suas pernas pareciam cansadas: mas isso era de
se esperar.
Charlie acordou com uma ideia ridícula. Achava que tinha assassinado Ellen e depois
cortado a própria mão fora. Que cesto de inconsistência era seu subconsciente para
inventar histórias como essas! Tentou esfregar os olhos mas não havia mão com que
esfregar. Deu um pulo na cama e gritou.
Yapper havia deixado o jovem Rafferty para vigiar a vítima dessa brutal mutilação,
com instruções estritas para alertá-lo assim que Charlie George acordasse. Rafferty
cochilara: a gritaria o acordou. Charlie olhou para o rosto do rapaz; tão apavorado, tão
chocado. Parou de gritar quando o viu: estava aterrorizando o pobre coitado.
— O senhor acordou — disse Rafferty. — Vou chamar alguém, está certo?
Charlie olhou para ele sem entender.
— Fique onde está — disse Rafferty. — Vou chamar a enfermeira.
Charlie recostou a cabeça enfaixada no travesseiro duro e olhou a mão direita,
flexionando-a, trabalhando os músculos de um lado e de outro. Fosse qual fosse o
delírio que o acometera em sua casa, já havia passado. A mão no final do braço era
sua-, provavelmente sempre fora. Jeudwine lhe falara a respeito da síndrome do Corpo
Rebelde: o assassino que afirma que suas mãos têm vida própria ao invés de aceitar
responsabilidade por seus atos; o estuprador que se mutila, acreditando que a causa
de tudo é o membro culpado, não a mente por trás dele.
Bem, ele não ia fingir. Estava louco, e a verdade era essa. Deixaria que fizessem o
que fosse preciso como suas drogas, bisturis e eletrodos: concordaria com tudo para
não ter que viver outra noite de horrores como a passada.
Havia uma enfermeira de plantão: ela o olhava como se estivesse surpresa por ele
ter sobrevivido. Um rosto atraente, ele chegou a pensar; uma mão doce e fria em sua
testa.
— Ele está em condições de ser interrogado? — Rafferty perguntou tímido.
— Tenho de consultar o Dr. Manson e o Dr. Jeudwine — respondeu o rosto atraente,
e tentou dar um sorriso de conforto para Charlie. O sorriso saiu um pouco forçado. Ela
obviamente sabia que ele era um lunático, era isso. Provavelmente estava apavorada, e
quem podia culpá-la? Ela saiu para achar os médicos, deixando Charlie ao olhar
nervoso de Rafferty.
—... Ellen? — ele perguntou pouco depois.
— Sua esposa? — replicou o rapaz.
— Sim. Eu pensei... ela...?
Rafferty ficou irrequieto, brincando com os polegares no seu colo.
— Ela está morta — disse.
Charlie fez que sim com a cabeça. Claro que ele sabia, mas precisava ter certeza.
— O que vai acontecer comigo agora? — ele perguntou.
— O senhor está sob vigilância.
— O que quer dizer isso?
— Quer dizer que eu estou observando o senhor — disse Rafferty.
O rapaz estava se esforçando o máximo possível para ser de ajuda, mas todas
essas perguntas o estavam confundindo. Charlie tornou a tentar.
— Quero dizer... o que vem depois da vigilância? Quando é que eu irei a julgamento?
— Por que deveria ir a julgamento?
— Por quê? — perguntou Charlie; será que ele tinha ouvido corretamente?
— O senhor é uma vítima... — um vislumbre de confusão passou pelo rosto de
Rafferty —... não é? O senhor não fez isso... o senhor estava ferido. Alguém cortou
sua... mão.
— Sim — disse Charlie. — Fui eu.
Rafferty engoliu em seco, antes de perguntar:
— Perdão?
— E fuiz isso. Matei minha mulher e depois cortei fora minha mão.
O pobre rapaz não conseguia entender isso. Pensou um minuto inteiro antes de
responder.
— Mas por quê?
Charlie deu de ombros.
— Não faz sentido — disse Rafferty. — Se o senhor fez isso ... onde é que está a
mão?
Lillian parou o carro. Havia alguma coisa na estrada à sua frente, mas não conseguia
distinguir o que era. Ela era vegetariana convicta (a não ser pelos jantares da
maçonaria com Theodore) e dedicada defensora dos animais, e ela pensou que talvez
algum animal ferido estivesse deitado na estrada logo além do feixe dos faróis. Talvez
fosse uma raposa; ela lera que as raposas estavam voltando a ocupar áreas urbanas
da periferia, alimentando-se de restos de comida e animais mortos. Mas algo não
estava bem; talvez a luz nauseante da autora, tão elusiva em sua iluminação. Não tinha
certeza se deveria sair do carro ou não. Theodore teria lhe dito que seguisse em frente,
claro, mas Theodore a havia deixado, não havia? Seus dedos batucaram no volante
irritados com sua própria indecisão. Suponha que fosse uma raposa ferida: não havia
tantas assim no centro de Londres que justificassem o atropelamento de uma. Ela tinha
de dar uma de samaritana, ainda que se sentisse uma fariseia.
Cautelosamente saiu do carro, e, claro, depois de tudo isso, não havia nada. Ela foi
até a frente do carro só para ter certeza. As palmas das mãos estavam úmidas;
espasmos de excitação percorriam suas mãos como pequenos choques elétricos.
Então o ruído: o sussurro de centenas de pezinhos. Ela tinha ouvido histórias —
absurdas, ela pensava — de bandos de ratos migrantes que cruzavam a cidade à noite,
devorando até o osso qualquer criatura viva que atravessasse seu caminho. Imaginando
ratos, ela se sentiu fariseia mais do que nunca, e recuou na direção do carro. Quando
sua longa sombra, jogada para a frente pelos faróis, mudou de direção, revelou o
primeiro do bando. Não era rato.
Uma mão, de dedos longos, entrou no feixe de luz amarela e apontou para ela. Sua
chegada foi seguida imediatamente por outra das impossíveis criaturas, então uma
dezena mais, e outra. Comprimiam-se como caranguejos nos cestos dos vendedores
de peixe, as costas reluzentes pressionadas umas contra as outras, pernas estalando
ao se juntarem em fileiras. A multiplicação pura e simples não os tornava mais
possíveis; mas mesmo enquanto ela rejeitava o que via, as mãos começavam a
avançar em sua direção. Ela deu um passo para trás.
Sentiu a lateral do carro às suas costas, virou-se e esticou a mão para a porta.
Estava entreaberta, graças a Deus. Os espasmos em suas mãos eram piores agora,
mas ela ainda tinha controle sobre elas. Quando seus dedos buscaram a porta ela
soltou um gritinho. Um punho negro e gordo estava agarrado à maçaneta, seu punho
aberto um pedaço de carne ressequida.
Espontânea e terrivelmente, suas mãos começaram a aplaudir. Ela subitamente não
tinha controle sobre o comportamento delas; batiam palmas como coisas selvagens
apreciando esse evento. Era ridículo o que ela estava fazendo, mas não conseguia
evitar. "Parem", ela disse a suas mãos, "Parem! Parem!" Elas pararam bruscamente, e
se viraram para olhar para ela. Ela sabia que estavam olhando para ela, à sua maneira,
sem olhos, e também sentia que estavam cansadas da desconsideração que ela lhes
votava. Sem avisar elas voaram em sua cara. As unhas, orgulho e alegria de Lillian,
acharam seus olhos; em momentos o milagre da visão não passava de muco em seu
rosto. Cega, ela perdeu toda a orientação e caiu para trás, mas o chão estava cheio de
mãos para aparar sua queda. Ela se sentiu apoiada por um oceano de dedos.
Enquanto eles levavam seu corpo ultrajado para dentro de uma vala, sua peruca,
que tanto custara a Theodore em Viena, caiu. Da mesma forma que, após um mínimo
de persuasão, suas mãos.
O Dr. Jeudwine desceu as escadas da casa de George imaginando (apenas
imaginando) se talvez o avô de sua sagrada profissão, Freud, estaria errado. Os fatos
paradoxais do comportamento humano não pareciam se encaixar nos compartimentos
clássicos bem montados em que ele os enfiara; talvez tentar ser racional acerca da
mente humana fosse uma contradição em termos. Ele ficou por um momento em pé ao
pé das escadas, sem realmente querer voltar à sala de jantar ou à cozinha, mas
sentindo-se na obrigação de ver as cenas dos crimes mais uma vez. A casa vazia lhe
dava arrepios: e estar sozinho nela, mesmo com um policial montando guarda na porta
da frente, não sossegava sua paz de espírito. Sentia-se culpado, como se tivesse
abandonado Charlie. Obviamente não havia se aprofundado o suficiente na psique de
Charlie para trazer à tona a verdadeira motivação por trás das ações estarrecedoras
que ele havia cometido. Assassinar sua própria esposa, a quem ele dizia amar tão
profundamente, em sua cama de casal; e depois decepar a própria mão: era
impensável. Jeudwine olhou as próprias mãos por um momento, o traçado de tendões
e veias azuladas em seu pulso. A polícia ainda defendia a teoria do intruso, mas ele
não tinha dúvidas de que Charlie havia cometido os atos: assassinato, mutilação, tudo
isso. O único fato que deixava Jeudwine mais do que tudo era que ele não havia
descoberto qualquer propensão para esse tipo de atitude em seu paciente.
Entrou na sala de jantar. A perícia havia terminado seu trabalho pela casa; havia uma
leve camada de pó para impressões digitais em várias superfícies. Era um milagre, não
era, a diferença entre cada mão humana? As marcas de seus dedos tão únicas quanto
um padrão de voz ou um rosto. Bocejou. Havia sido acordado pelo gato de Charlie no
meio da noite, e não conseguiu dormir desde então. Vira Charlie ser posto na maca e
levado, observara os investigadores em serviço, vira uma aurora cor de neblina elevar
sua cabeça por sobre o rio; havia bebido café, passeado pelo local com apatia,
pensado profundamente em desistir de sua posição como consultor psiquiátrico antes
que a história chegasse aos jornais, bebido mais café, pensado duas vezes sobre a
demissão e agora, perdendo a esperança em Freud ou qualquer outro guru,
contemplava seriamente um best-seller sobre seu relacionamento com Charles George,
o assassino da esposa. Dessa maneira, mesmo que perdesse o emprego, teria algo
que salvar de todo esse lamentável episódio. E Freud? Charlatão vienense. O que o
velho cheirador de pó tinha a dizer a alguém?
Desabou sobre uma das cadeiras da sala de jantar e ficou escutando o silêncio que
descera sobre a casa, como se as paredes, chocadas pelo que haviam visto,
contivessem sua respiração. Talvez ele tivesse cochilado um momento. No sono, ele
ouviu um som estalado, sonhou com um cachorro e acordou vendo um gato na cozinha,
um gato preto e branco gordo. Charlie havia mencionado esse animal de passagem:
qual era. mesmo o nome dele? Azia. Era isso: fora batizado assim por causa das
manchas pretas sobre seus olhos, que lhe davam uma expressão perpetuamente
rabugenta. O gato estava olhando a poça de sangue no chão da cozinha,
aparentemente tentando achar um modo de desviar-se da poça e chegar ao seu prato
de comida sem ter que sujar as patas na sujeira que seu dono deixara. Jeudwine o
observara, enjoado, atravessar o chão da cozinha e cheirar o prato vazio. Não lhe
ocorrera alimentar o bicho; detestava animais.
Bem, ele decidira, não havia propósito em ficar na casa por mais tempo. Já havia
realizado todos os atos de penitência que pretendia; sentia-se tão culpado quanto era
capaz. Mais uma rápida olhada no andar de cima, só para o caso de ter deixado uma
pista de lado, e então iria embora.
Estava de volta ao pé das escadas quando ouviu o gato miar. Miar? Não: gritar.
Ouvindo o grito, sua espinha parecia uma coluna de gelo no meio de suas costas:
gelada e frágil. Apressado, ele retraçou seus passos no hall e entrou na sala de jantar.
A cabeça do gato estava no carpete, sendo rolada de um lado para outro por duas —
por duas (diga, Jeudwine) — mãos.
Ele olhou para a cozinha, onde mais uma dúzia de bestas se esgueirava pelo chão,
para um lado e para o outro. Algumas estavam no topo do armário, farejando ao redor;
outras subiam a parede de tijolinhos falsos para alcançar as facas que ainda restavam
no rack.
— Oh, Charlie... — ele disse gentilmente, chamando a atenção do maníaco ausente.
— O que você fez?
Seus olhos começaram a se encher de lágrimas; não por Charlie, mas pelas
gerações que viriam quando ele, Jeudwine, fosse silenciado. Gerações de mentalidade
simplista, crédulas, que poriam sua fé na eficácia de Freud e do Livro Sagrado da
Razão. Sentiu os joelhos começarem a tremer, e afundou no carpete da sala de jantar,
os olhos cheios demais para ver com clareza os rebeldes que se aglomeravam ao seu
redor. Sentindo alto estranho sentado no seu colo, ele olhou para baixo, e lá estavam
suas próprias mãos. Os indicadores das duas estavam se tocando, com as pontas bem
tratadas das unhas. Lentamente, com uma horrível intenção em seus movimentos, os
indicadores ergueram suas cabeças e olharam para ele. Então se voltaram, e
começaram a subir pelo seu peito, achando apoios para os dedos em cada dobra de
seu paletó italiano, em cada casa de botão. A subida terminou abruptamente no
pescoço de Jeudwine, e a vida dele também.
A mão esquerda de Charlie estava com medo. Ele precisava de conforto, de
encorajamento; resumindo, precisava da Direita.
Afinal de contas, a Direita havia sido o Messias desta nova era, a que possuía a visão
de um futuro sem o corpo. Agora o exército que a Esquerda montara precisava de um
relance dessa visão, ou logo iria degenerar numa turba com sede de sangue. Se isso
acontecesse, a derrota rapidamente ocorreria: essa era a sabedoria convencional das
revoluções.
Então a Esquerda as havia levado de volta para casa, procurando Charlie no último
lugar em que o havia visto. Uma esperança vã, naturalmente, a de achar que ele teria
voltado lá, mas era um ato de desespero.
As circunstâncias, entretanto, não haviam separado as insurgentes. Embora Charlie
não tivesse estado lá, o Dr. Jeudwine estava, e as mãos de Jeudwine não apenas
sabiam para onde Charlie havia sido levado como o caminho até lá e até a própria
cama onde estava deitado.
Boswell não sabia realmente por que estava correndo, ou para onde. Suas
faculdades críticas estavam em suspenso, seu senso de geografia totalmente confuso.
Mas alguma parte dele parecia saber onde estava indo, ainda que ele não soubesse,
porque ele começou a desenvolver velocidade assim que chegou à ponte, e então o
pique acelerado virou uma corrida que não levou em conta seus pulmões queimando ou
sua cabeça latejante. Ainda inocente de qualquer intenção que não a fuga, ele agora
percebia que havia se desviado da estação e estava correndo paralelo à linha férrea;
estava simplesmente indo para onde suas pernas o levassem, e isso era tudo.
O trem apareceu subitamente da aurora. Não apitou, não deu um aviso. Talvez o
maquinista o tivesse avistado, mas provavelmente não. Mesmo que tivesse, o homem
não poderia ser responsabilizado por eventos subsequentes. Não, a culpa era toda sua:
a forma como seus pés subitamente se viraram na direção dos trilhos, e seus joelhos
se dobraram, fazendo com que ele caísse sobre a linha. O último pensamento coerente
de Boswell, quando as rodas o alcançaram, era que o trem não queria nada além de ir
de um ponto A a um ponto B, e que nesse percurso cortou suas pernas exatamente
entre a virilha e o joelho. Então ele estava debaixo das rodas — os vagões em
disparada sobre ele — e o trem deixou escapar um assovio (tão parecido com um
grito) que o levou para a escuridão.
Levaram o garoto negro para o hospital logo depois das seis: o dia do hospital
começou cedo, e pacientes de sono profundo mexiam-se inquietos em seus sonhos
para encarar outro longo e tedioso dia. Xícaras de chá cinzento fraco eram colocadas
em mãos ressentidas, temperaturas eram tomadas, medicamentos distribuídos. O
rapaz e seu terrível acidente quase não perturbaram nada.
Charlie sonhava outra vez. Não um de seus sonhos suntuosos no Nilo, cortesia de
Hollywood, e nem a Roma Imperial, os navios escravos da Fenícia. Este era em preto
e branco. Ele sonhava que estava deitado em seu caixão. Ellen estava lá
(aparentemente, seu subconsciente não aceitara sua morte), e sua mãe e seu pai. Na
verdade toda sua vida havia comparecido. Alguém chegou (seria Jeudwine? A voz
consoladora parecia familiar) para gentilmente descer a tampa do caixão, e ele tentou
alertar os que choravam sua morte para o fato de que ainda estava vivo. Quando não o
ouviram, o pânico tomou conta dele, mas não importava o quanto gritasse, ninguém
ouvia; tudo o que podia fazer era ficar deitado ali e deixá-los selar sua cama terminal.
O sonho deu um salto no tempo. Agora podia ouvir o serviço religioso numa cantilena
acima de sua cabeça. "Pois o tempo de viver do homem é curto..."; ele ouviu o ranger
das cordas, e a sombra do túmulo parecia escurecer as trevas. Estava sendo descido
para dentro da terra, ainda tentando protestar. Mas o ar estava ficando abafado no
buraco; ele achava cada vez mais difícil respirar, quanto mais gritar. Só conseguia
reunir uma fração de ar viciado por suas narinas doloridas, mas a boca parecia
estufada com alguma coisa, flores talvez, e ele não podia mexer a cabeça para cuspilas
fora. Agora podia sentir as pás de terra sobre o caixão, e, Cristo santíssimo, dava
para ouvir o ruído dos vermes de ambos os lados, lambendo os beiços. Seu coração
estava quase estourando: seu rosto, ele sabia, devia estar roxo com o esforço de
tentar conseguir fôlego.
Então, milagrosamente, havia alguém no caixão com ele, alguém lutando para
libertar sua boca, seu rosto.
—Sr. George!—ela dizia, esse anjo de misericórdia. Ele abriu os olhos na escuridão.
Era a enfermeira do hospital em que estivera... ela também estava no caixão.—Sr.
George!—ela estava em pânico, aquele modelo de calma e paciência; ela estava quase
chorando enquanto lutava para tirar sua mão do rosto. — O senhor está se
sufocando!— ela gritou na sua cara.
Outros braços o ajudavam na luta agora, e eles estavam vencendo. Foi preciso três
enfermeiras para remover sua mão, mas elas conseguiram. Charlie começou a respirar
novamente, com fome de ar.
— O senhor está bem, sr. George?
Ele abriu a boca para tranquilizar o anjo, mas sua voz o abandonara
momentaneamente. Estava levemente consciente de que sua mão ainda lutava na ponta
do braço.
— Onde está Jeudwine? — ele disse, se engasgando.. — Chamem-no, por favor.
— O doutor não se encontra no momento, mas virá ver o senhor no final do dia.
— Eu quero vê-lo agora.
— Não se preocupe, sr. George — replicou a enfermeira, seu comportamento
costumeiro restabelecido. — Vamos dar-lhe um pequeno sedativo e então o senhor vai
poder dormir um pouco.
— Não!
— Sim, sr. George! — ela respondeu com firmeza. — Não se preocupe. O senhor
está em boas mãos.
— Não quero mais dormir. Elas têm controle sobre você quando está dormindo, não
entende?
— Aqui o senhor está seguro.
Ele sabia que não. Sabia que não estava seguro em lugar algum, não agora. Não
enquanto ainda tivesse uma das mãos. Ela não estava mais sob seu controle, se é que
um dia estivera; talvez fosse apenas uma ilusão de servidão que ela havia criado
nesses quarenta e poucos anos, uma exibição para convencê-lo de um falso senso de
autocracia. Tudo isto ele quis dizer, mas as palavras não vinham à sua boca. Ao invés,
ele disse apenas: — Não vou mais dormir.
Mas a enfermeira tinha procedimentos. A ala já estava cheia demais de pacientes, e
com mais deles entrando a cada hora (ela ouvira falar do terrível episódio na ACM;
dezenas de mortes, uma tentativa de suicídio em massa), tudo o que ela podia fazer
era sedar os mais agitados e prosseguir com o serviço do dia.
—É só um sedativo leve—ela repetiu, e no instante seguinte, ela tinha uma seringa
na mão, prometendo sono.
— Escute um instante — ele disse, tentando iniciar um processo de raciocínio com
ela; mas ela não estava para debates.
—Não seja criança—ela o repreendeu, quando ele começou a chorar.
— Você não está entendendo — ele explicou, enquanto ela procurava a veia na
dobra do seu braço...
— Você pode contar tudo ao Dr. Jeudwine quando ele vier visitá-lo. — A agulha
estava no seu braço, o êmbolo afundando na seringa.
— Não! — ele gritou, e puxou o braço. A enfermeira não havia esperado tamanha
violência. O paciente estava em pé e fora da cama antes que ela pudesse completar a
injeção, a seringa ainda pendendo do braço dele.
— Sr. George — ela disse agressiva. — O senhor, por favor, quer voltar para a
cama?
Charlie apontou para ela com o toco do braço.
— Não chegue perto de mim — disse.
Ela tentou envergonhá-lo.
— Todos os outros pacientes estão se comportando bem — ela disse. — Por que o
senhor não? — Charlie balançou a cabeça. A seringa caiu do braço e foi ao chão, com
ainda três quartos de seu conteúdo. — Eu não vou repetir.
— Pode apostar que não — retrucou Charlie.
Ele disparou pela enfermaria, sua fuga complicada por pacientes à direita e à
esquerda. "Vai, rapaz, vai", alguém gritou. A enfermeira começou a persegui-lo, mas na
porta uma cúmplice instantânea interveio, literalmente se atirando no caminho dela.
Charlie sumiu de vista nos corredores antes que a enfermeira tornasse a persegui-lo.
Ele não tardou a descobrir que era um lugar fácil de se perder. O hospital havia sido
construído em fins do século dezenove, e modificado à medida que os fundos e as
doações permitiram: recebera uma ala em 1911, outra após a Primeira Guerra Mundial,
mais alas nos anos cinquenta e a Ala Memorial Chaney em 1973. O lugar era um
labirinto. Levariam anos para encontrá-lo.
O problema era que ele não se sentia tão bem. O cotoco de seu braço esquerdo
começara a doer assim que o efeito dos analgésicos passou, e ele tinha a distinta
impressão de que ele sangrava por debaixo das bandagens. Além disso, o quarto de
sedativo que recebera havia reduzido sua velocidade. Ele se sentia ligeiramente
estúpido: e estava certo de que sua condição devia estar visível no rosto. Mas não ia
se permitir ser levado de volta àquele leito, de volta ao sono, até que se sentasse num
lugar quieto em alguma parte e pensasse em toda a situação.
Descobriu refúgio numa salinha em um dos corredores, alinhada com arquivos e
pilhas de relatórios; cheirava um pouco a umidade. Ele havia entrado na Ala Memorial,
embora não soubesse. Um monólito de sete andares construído com uma doação
testamentária do milionário Frank Chaney, e a própria empresa de construção do
magnata fizera o trabalho, como exigia o testamento do homem. Haviam utilizado
materiais de segunda e um sistema de escoamento ultrapassado, motivo pelo qual
Chaney havia morrido milionário, e a Ala estava ruindo do porão para cima. Deslizando
para dentro de um nicho apertado entre dois arquivos, bem afastado caso alguém
aparecesse por ali, Charlie agachou-se no chão e começou a interrogar sua mão
direita.
— E então? — ele perguntou num tom de voz conciliador. — Explique-se.
Ela se fez de sonsa.
— Não adianta — ele disse. — Eu sei que você está aí.
Mesmo assim, ela simplesmente ficava ali, na ponta de seu braço, inocente como
um bebê.
— Você tentou me matar... — ele a acusou.
Agora a mão se abria um pouco, sem suas instruções, e dava-lhe o primeiro sim.
— Você poderia tentar novamente, não é?
Ameaçadora, ela começou a flexionar os dedos, como um pianista se preparando
para um solo particularmente difícil. Sim, ela disse, eu poderia; a qualquer momento.
— Na verdade, há muito pouco que eu possa fazer para deter você, não é? —
perguntou Charlie. — Mais cedo ou mais tarde você vai me pegar desprevenido. Não
posso mandar alguém ficar me observando pelo resto da vida. Então como é que fica,
eu me pergunto? Morto, você diria?
A mão se fechou um pouco, a carne macilenta da palma criando sulcos de prazer.
Sim, ela dizia, você está acabado, pobre idiota, e não há nada que você possa fazer.
— Você matou Ellen.
Matei, a mão sorriu.
— Você cortou minha outra mão para que ela pudesse escapar. Estou certo?
Está, disse a mão.
— Eu a vi — disse Charlie. — Eu a vi fugindo. E agora você quer fazer a mesma
coisa, não estou certo? Você quer sair daqui.
Correto.
— Você não vai me deixar em paz até conseguir sua liberdade?
Isso mesmo.
— Então — concluiu Charlie. — Acho que nos entendemos; e eu quero fazer um
acordo com você.
A mão se aproximou de seu rosto, escalando a camisa do pijama, conspiradora.
— Vou soltar você — ele disse.
Ela estava em seu pescoço, segurando sem força, mas o suficiente para deixá-lo
nervoso.
— Vou achar um jeito, prometo. Uma guilhotina, um bisturi, não sei o quê.
Agora ela se esfregava nele como um gato, acariciando-o.
— Mas você tem que fazer isso do meu jeito, ao meu tempo. Porque, se me matar,
que chance de sobrevivência terá? Vão enterrar você comigo, da mesma forma que
enterraram as mãos de papai.
A mão parou de acariciar, e subiu pela lateral do arquivo.
— Trato feito? — perguntou Charlie.
Mas a mão o ignorava. Subitamente perdera o interesse em toda a barganha. Se ela
tivesse um nariz, ela estaria farejando o ar. No espaço de poucos instantes as coisas
tinham mudado: o trato estava desfeito.
Charlie levantou-se desajeitado e foi até a janela. O vidro estava sujo por dentro e
manchado por anos de sujeira de passarinhos do lado de fora, mas ele conseguia ver o
jardim do outro lado. Havia sido construído de acordo com o testamento do milionário:
um jardim formal que seria um monumento tão glorioso ao seu bom gosto quanto o
edifício era ao seu pragmatismo. Mas desde que o prédio começara a se deteriorar, o
jardim havia .sido abandonado. Suas poucas árvores ou estavam mortas ou curvadas
sob o peso de galhos não podados; as cercas estavam cheias de ervas daninhas; os
bancos virados, com suas pernas quadradas no ar. Somente a grama estava aparada,
uma pequena concessão à ordem. Alguém, um médico tirando um momento de
descanso para fumar um cigarro, caminhava pelas aléias abafadas. Fora isso, o jardim
estava vazio. Mas a mão de Charlie estava colada ao vidro, raspando-o, arranhando-o
com as unhas, tentando em vão sair para o mundo exterior. Aparentemente havia algo
lá fora além do caos.
— Você quer sair — disse Charlie.
A mão achatou-se contra a janela e começou a bater a palma ritmadamente no
vidro, como se tocasse um tambor para um exército invisível. Ela a puxou da janela,
sem saber o que fazer. Se negasse as exigências, ela poderia feri-lo. Se concordasse
com elas, c tentasse sair ao jardim, o que poderia encontrar? Por outro lado, que
escolha tinha?
— Tudo bem — respondeu. — Vamos lá.
O corredor estava explodindo em pânico, e mal olharam em sua direção, apesar do
fato de que estava apenas vestindo o pijama do hospital e estava descalço.
Campainhas tocavam, interfones chamavam este ou aquele médico, pessoas que
choravam eram empurradas entre a ala mortuária e o banheiro; falava-se das cenas
terríveis na Emergência: garotos sem as mãos, dezenas deles. Charlie andava rápido
demais pela multidão para captar uma frase coerente. Era melhor parecer ocupado, ele
achou, como se tivesse um propósito e um destino. Levou um pouco de tempo para
localizar a saída para o jardim, e sabia que sua mão estava ficando impaciente. Ela
abria e fechava ao seu lado, exigindo-lhe urgência.
Então um sinal: Jardim Memorial Chaney, e ele virou uma esquina que dava num
corredor afastado, sem pessoas correndo, com uma porta no final que dava para o ar
livre.
Estava muito quieto do lado de fora. Não se ouvia um pássaro no ar ou na grama,
nem uma abelha zumbindo entre as flores. Até mesmo o médico havia ido embora,
provavelmente de volta às suas cirurgias.
A mão de Charlie estava delirante. Suava tanto que pingava, e estava branca,
pálida. Não parecia pertencer mais a ele. Era outro ser, ao qual ele, por algum infeliz
desvio de anatomia, estava ligado. Ele ficaria feliz de se livrar dela.
A grama estava molhada de orvalho, e ali, à sombra do prédio de sete andares,
estava frio. Ainda eram apenas seis e meia. Talvez os pássaros estivessem ainda
dormindo, e as abelhas ainda em suas colmeias. Talvez não houvesse nada neste
jardim de que ter medo: apenas rosas mortas e algumas minhocas fazendo buracos ao
orvalho. Talvez sua mão estivesse errada, e só houvesse a manhã ali.
Aprofundando-se mais no jardim, ele percebeu as pegadas do médico, mais escuras
sobre a grama verde-prata. Ao chegar perto da árvore, quando a grama ficava
vermelha, reparou que as marcas só iam, não voltavam.
Boswell, num coma bem-vindo, não sentia nada, e estava feliz por isso. Sua mente
mal e mal reconhecia a possibilidade de acordar, mas o pensamento era tão vago que
era fácil de rejeitar. De vez em quando uma fração do mundo real (de dor, de poder)
passava por trás de suas pálpebras, iluminava-se por um momento e depois esvoaçava
para longe. Boswell não queria nada disso. Não queria a consciência, nunca mais. Ele
tinha uma sensação do que seria acordar: do que estaria esperando por ele do lado de
fora, chutando o ar.
Charlie olhou para os galhos acima. A árvore tinha duas fantásticas espécies de
fruta.
Uma era um ser humano; o cirurgião do cigarro. Estava morto, o pescoço
enganchado numa forquilha entre dois galhos. Estava sem as mãos. Seus braços
terminavam em feridas redondas que ainda pingavam coágulos pesados de cores
brilhantes sobre a grama. Sobre sua cabeça a árvore fervilhava com a outra fruta, a
inda mais bizarra. As mãos estavam por toda parte, ao que parecia: centenas delas,
conversando entre si como um parlamento manual enquanto debatiam suas táticas.
Tudo sombras e formas, pulando para cima e para baixo nos galhos que balançavam.
Vendo-as reunidas dessa forma, as metáforas caíam por terra. Klas eram o que
eram: mãos humanas. Esse era o horror.
Charlie quis correr, mas sua mão direita não aceitou isso. Aqueles eram os
discípulos dela, reunidos ali em abundância, e aguardavam suas parábolas e profecias.
Charlie olhou para o médico morto e depois para as mãos assassinas, e pensou em
Ellen, em sua Ellen, morta sem sua culpa, e já fria. Elas pagariam por aquele crime:
todas elas. Enquanto o resto de seu corpo ainda trabalhasse por ele, ele as faria
pagar. Era covardia tentar barganhar com aquele câncer em seu punho; agora ele
percebia isso. Ela e suas companheiras eram uma praga. Não tinham lugar entre os
vivos.
O exército o havia avistado, e a notícia de sua presença correu as fileiras como
fogo. Começaram a descer pelo tronco, algumas caindo feito frutas maduras dos
galhos mais baixos, ansiosas para abraçar o Messias. Em poucos momentos elas
estariam fervilhando sobre ele, e toda a vantagem estaria perdida. Era agora ou nunca.
Virou-se da árvore antes que sua mão direita pudesse agarrar um galho e olhou para a
Ala Memorial Chanay, buscando inspiração. A torre elevava-se sobre o jardim, janelas
cegas pelo céu, portas fechadas. Não havia consolo ali.
Por trás de si ele ouviu o murmúrio da grama percorrida por incontáveis dedos. Elas já
estavam em seus calcanhares, entusiasmadas por se aproximarem de seu líder.
Claro que elas iriam, ele percebeu, onde quer que ele fosse, elas iriam. Talvez sua
adoração cega de sua mão remanescente fosse uma fraqueza a ser explorada. Ele
vasculhou o edifício uma segunda vez e seu olhar desesperado encontrou a saída de
incêndio; ela ziguezagueava subindo pela lateral do prédio até o telhado. Ele disparou
para lá, surpreso com a própria velocidade. Não havia tempo para olhar para trás e ver
se estava sendo seguido, tinha de confiar na devoção delas. Em poucos passos sua
mão enfurecida estava em seu pescoço, ameaçando arrancar-lhe a garganta, mas ele
corria indiferente à pressão dos dedos. Ele alcançou os pés da escada de incêndio e,
repleto de adrenalina, subiu os degraus metálicos dois ou três de cada passada. Seu
equilíbrio não era tão bom sem uma mão para segurar o corrimão, mas e daí se ele
estava machucado? Era apenas seu corpo.
No terceiro patamar ele arriscou uma olhada pela grade das escadas. Uma
plantação de flores de carne enchia o solo aos pés da escada, e estava se espalhando
pelos degraus em sua direção. Estavam vindo às centenas, famintas, todas unhas e
ódio. Deixe que venham, ele pensou; deixe as filhas da puta virem. Eu comecei isto e
posso terminar.
Nas janelas da Ala Memorial Chaney, vários rostos apareceram. Vozes descrentes e
em pânico levantavam-se dos andares inferiores. Agora era tarde demais para lhes
contar a história de sua vida; isso eles teriam que descobrir sozinhos. E que ótimo
quebra-cabeças não daria! Talvez, em suas tentativas de compreender o que havia
acontecido esta manhã, eles descobrissem alguma solução plausível; uma explicação
para este levante que ele não havia descoberto; mas duvidava.
Quarto andar agora, e chegando ao quinto. Sua mão direita estava com as unhas
enterradas em seu pescoço. Talvez ele estivesse sangrando; mas talvez fosse a chuva,
a chuva morna que caía em seu peito e escorria pelas pernas. Mais dois andares e
depois o telhado. O metal abaixo de seus pés zumbia, o ruído das miríades de pés que
subiam atrás dele. Contava com a adoração delas, e tinha razão. O telhado estava
agora apenas a alguns passos, e ele arriscou uma segunda olhada no próprio corpo
(não era chuva) para ver a saída de incêndio sólida de mãos, como pulgões cobrindo o
caule de uma flor. Não, isso era outra metáfora. Um fim a isso.
O vento atingiu-o como um chicote, e era fresco, mas Charlie não tinha tempo de
apreciar a promessa que ele trazia. Escalou o parapeito de meio metro e chegou ao
telhado sujo de cascalho. Os cadáveres de pombos jaziam em montinhos, o concreto
serpenteava com rachaduras, um balde escrito "Roupas Molhadas" estava emborcado,
seu conteúdo esverdeado. Disparou por aquela vastidão assim que o primeiro exército
subiu com seus dedos pelo parapeito.
A dor em sua garganta estava chegando ao seu cérebro agora, quando seus dedos
traiçoeiros pressionaram a traqueia. Tinha pouca energia depois da correria subindo a
escada de incêndio e atravessando toda a extensão do telhado (seria uma queda direta
até o concreto), o que fora difícil. Tropeçou duas vezes. Toda a força de suas pernas
havia se esgotado, e sua cabeça se enchia de pensamentos inúteis em lugar de coisas
coerentes. Um koan, um enigma budista que ele vira na capa de um livro certa vez,
estava na ponta de sua língua.
— Qual é o som...? — começava, mas ele não conseguia completar a frase, por
mais que tentasse.
— Qual é o som...?
Esqueça os enigmas, ele ordenou a si mesmo, forçando as pernas trêmulas a darem
outro passo, e mais outro. Quase caiu contra o parapeito do lado oposto do telhado, e
olhou para baixo. Era mesmo uma queda direta. Um estacionamento de carros ficava
logo embaixo, na frente do prédio. Estava deserto. Inclinou-se mais e gotas de sangue
de seu pescoço ferido caíram, ficando pequenas rapidamente e molhando o chão.
Estou chegando, ele disse à gravidade, e a Ellen, e pensou em como seria bom morrer
e nunca mais se preocupar se as gengivas sangravam quando escovava os dentes, ou
se estava engordando, ou se tinha vontade de beijar alguma garota que via na rua e
sabia que jamais teria. É subitamente o exército estava em cima dele, subindo por suas
pernas numa febre de vitória.
Podem vir, ele disse enquanto elas obscureciam seu corpo da cabeça aos pés,
irresponsáveis em seu entusiasmo, podem vir comigo para onde eu for.
— Qual é o som...? — A frase estava na ponta da língua.
Ah, sim: agora ele se lembrava. "Qual é o som de uma só mão batendo palmas?"
Era tão bom lembrar de algo que se estava tentando com tanto esforço desenterrar do
subconsciente, como encontrar alguma bugiganga que você pensava ter perdido para
sempre. A emoção da lembrança alegrou seus últimos momentos. Atirou-se no espaço
vazio, caindo e caindo até um fim súbito à higiene dental e à beleza das garotas. As
mãos caíram numa chuva atrás dele, jogando-se para a morte atrás de seu Messias.
Para os pacientes e enfermeiras que se acotovelavam nas janelas foi uma cena de
um mundo fantástico; uma chuva de sapos teria sido lugar-comum perto disso.
Inspirava mais assombro que terror: era fabuloso. Rapidamente acabou, e depois de
alguns minutos umas poucas almas corajosas as aventuraram entre os destroços para
ver o que podia ser visto. Havia muita coisa; e ao mesmo tempo nada. Naturalmente,
era um raro espetáculo; horrível, inesquecível. Mas não havia significado a ser
descoberto naquilo; simplesmente a parafernália de um pequeno apocalipse. Nada a
ser feito senão limpar tudo, suas próprias mãos obedecendo relutantes à medida que
os cadáveres eram catalogados e postos em caixas para exame posterior. Alguns dos
envolvidos na operação acharam um momento em particular para orar: para
explicações; ou pelo menos para um sono sem sonhos. Mesmo o mais agnóstico da
equipe ficou surpreso ao descobrir como era fácil juntar as palmas das mãos.
Em sua sala particular do Centro de Terapia Intensiva, Boswell acordou. Esticou a
mão para a campainha ao lado da cama e apertou-a, mas ninguém apareceu. Havia
alguém no quarto com ele, escondendo-se por detrás da cortina no canto. Ele ouvira os
pés do intruso arrastando.
Apertou novamente a campainha, mas havia campainhas tocando por toda parte no
prédio, e ninguém parecia estar respondendo a qualquer uma delas. Usando a mesinha
ao seu lado como apoio, ele sentou na beira da cama para ter uma visão melhor do
palhaço.
— Saia daí — ele murmurou por entre lábios secos. Mas o filho da puta estava
demorando. — Saia... Eu sei que você está aí.
Ele se endireitou mais um pouco, e de repente sentiu que seu centro de equilíbrio
estava radicalmente alterado, que ele não tinha pernas, que ia cair da cama. Esticou os
braços para evitar bater de cabeça no chão e conseguiu. Mas ficara sem fôlego. Tonto,
ficara deitado onde havia caído, tentando se orientar. Onde estavam suas pernas, em
nome de Jah, onde estavam suas pernas?
Seus olhos injetados vasculharam o quarto, e pararam nos pés descalços que
estava agora a um metro de seu nariz. Uma etiqueta pendurada ao redor do tornozelo a
marcava para cremação. Boswell levantou a cabeça, e viu que eram as suas pernas, ali
de pé, cortadas entre a virilha e o joelho, mas ainda vivas. Por um momento ele achou
que elas pretendiam lhe fazer mal, mas não. Tendo revelado a ele sua presença, elas o
deixaram onde estava, contentes por estarem livres.
E será que seus olhos invejavam a liberdade delas, ele achou, e será que sua língua
estava ansiosa para sair de sua boca, e será que cada parte dele, à sua maneira sutil,
não estava se preparando para traí-lo? Ele era uma aliança que só se sustentava pela
mais tênue das tréguas. Agora, com o cenário anterior, quanto tempo se passaria até o
próximo levante? Minutos? Anos?
Com o coração na mão, ele esperou pelo fim do Império.
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