Como uma tragédia impecável, cuja elegância estrutural escapa aos que a sofrem, a
geometria perfeita do conjunto residencial da Rua Spector era visível apenas do alto.
Caminhando por seus desfiladeiros áridos, passando pelos corredores sujos de um
bloco residencial de concreto ao seguinte, pouco havia que seduzisse o olhar ou
estimulasse a imaginação. As poucas plantas que ornamentavam os pátios há muito
haviam sido mutiladas ou arrancadas; a grama, embora alta, recusava-se, teimosa, a
assumir um verde saudável.
Sem dúvida, o conjunto e seus dois projetos-irmãos haviam sido um dia o sonho de
um arquiteto. Sem dúvida, os planejadores urbanos haviam chorado de prazer ao ver
um projeto que abrigava trezentas e trinta e seis pessoas por hectare, e ainda
reservava espaço para um playground infantil. Sem dúvida, fortunas e reputações
haviam sido construídas sobre a Rua Spector, e em sua inauguração discursos a
exaltaram como o padrão pelo qual todos os futuros empreendimentos imobiliários
deviam ser avaliados. Mas os planejadores — lágrimas derramadas, discursos
pronunciados — haviam deixado o conjunto por conta própria; os arquitetos ocupavam
casas em estilo georgiano do outro lado da cidade e provavelmente jamais haviam
posto os pés ali.
Eles não teriam ficado envergonhados pela deterioração do conjunto, mesmo que
fossem propensos a isso. A menina dos olhos de todos eles (seria, sem dúvida, o seu
argumento) era brilhante como nunca; suas geometrias eram precisas, suas relações
métricas, calculadas; as pessoas é que haviam estragado a Rua Spector. E não
estariam errados ao fazer uma acusação dessas. Poucas vezes Helen vira um
ambiente urbano tão completamente vandalizado. Lâmpadas estilhaçadas e cercas de
quintais derrubadas; carros, cujos pneus e motores haviam sido removidos e cujos
chassis foram em seguida queimados, bloqueavam entradas de garagens. Numa
quadra, três ou quatro sobrados haviam sido inteiramente consumidos pelo fogo, as
janelas e portas tapadas com tábuas e ferro corrugado.
Mais espantosas ainda eram as pichações. Era isso o que ela tinha ido ver ali,
encorajada pelo papo de Archie a respeito do lugar, e não ficou desapontada. Era difícil
crer, olhando as múltiplas camadas de desenhos, nomes, obscenidades e frases
rabiscadas e borrifadas em cada parede livre, que a Rua Spector não tinha nem três
anos e meio. As paredes, virgens até pouco tempo, estavam tão profundamente
desfiguradas que o Departamento de Limpeza Urbana não poderia alimentar a menor
esperança de fazer com que voltassem à condição original. Uma demão de cal para
cancelar essa cacofonia visual só ofereceria aos escribas uma superfície nova e mais
tentadora para deixarem suas marcas.
Helen estava no sétimo céu. Cada esquina que ela virava oferecia material novo para
sua tese: "Grafites: a semiótica do desespero urbano." Era um assunto que unia suas
duas disciplinas favoritas — sociologia e estética —, e enquanto ela vagava pelo
conjunto começou a se perguntar se não haveria um livro, além de sua tese, sobre o
assunto. Andou de quadra em quadra, copiando grande número dos rabiscos mais
interessantes e anotando sua localização. Então voltou ao carro para apanhar a câmera
e o tripé, e retornou à área mais fértil, para fazer um registro visual completo dos
muros.
Foi um servicinho meio duro, aquele. Ela não era expert em fotografia, e o céu de
fins de outubro estava em sua força total, mudando a luz sobre os tijolos a todo
instante. A medida que ajustava e reajustava a exposição para compensar as
mudanças de luz, seus dedos iam ficando cada vez mais desajeitados, enquanto seu
ânimo diminuía. Mas ela continuou pelejando, sem ligar para a curiosidade dos
passantes, que aliás eram poucos. Havia muitos desenhos para documentar. Ela se
lembrou de que seu atual desconforto seria amplamente recompensado quando
mostrasse os slides a Trevor, cujas dúvidas a respeito da validade do projeto tinham
sido perfeitamente visíveis desde o começo.
— As pichações nos muros? — ele dissera, com aquele seu irritante sorriso de meia
boca. — Isso já foi feito um milhão de vezes.
Era verdade, naturalmente; mas também não era. Eram certamente obras cultas
sobre grafites, transbordantes de jargão sociológico: dessacralização cultural,
alienação urbana. Mas ela estava convencida de que poderia encontrar algo entre
aquele monte de rabiscos que analistas anteriores não haviam encontrado: alguma
convenção unificadora, talvez, que ela pudesse usar como ponto fulcral de sua tese.
Apenas uma vigorosa catalogação e um trabalho de comparação das frases e imagens
à sua frente revelariam correspondências entre elas; daí a importância daquele estudo
fotográfico. Muitas mãos haviam trabalhado ali; muitas mentes haviam deixado ali sua
marca, ainda que casualmente: se ela pudesse achar algum padrão, algum motivo
predominante, ou motif, a tese com certeza atrairia atenção séria, e portanto, por sua
vez, ela também.
— O que você está fazendo? — perguntou uma voz atrás dela.
Ela abandonou seus cálculos para ver uma jovem com um carrinho de bebê na
calçada atrás dela. Ela parecia cansada, pensou Helen, e afetada pelo frio. A criança
no carrinho choramingava, seus dedos melados segurando um pirulito laranja e o papel
de uma barra de chocolate. O grosso do chocolate e os restos de jujubas anteriores
estavam espalhados pela frente de seu casaquinho.
Helen ofereceu um sorriso fraco à mulher; ela parecia precisar de um.
— Estou fotografando as paredes — disse em resposta à pergunta inicial, embora
certamente aquilo fosse perfeitamente óbvio.
A mulher — que não tinha mais do que vinte anos, julgou Helen —indagou: —Você
quer dizer essa sujeira?
— As frases e as figuras — concordou Helen. E depois: — Sim. A sujeira.
— Você é da Prefeitura?
— Não, da Universidade.
— E nojento — afirmou a mulher. — O jeito como eles fazem isso. E não são só os
garotos.
— Não?
—Homens crescidos. Homens crescidos também. Não estão nem aí. Fazem isso à
luz do dia. Você vê eles... à luz do dia. — Ela olhou para a criança, que estava
esfregando o pirulito no chão.
— Kerry! — ela gritou, mas o garoto nem se deu conta. — Eles vão apagar isso?
— Não sei — respondeu Helen, e reiterou: — Sou da Universidade.
— Ah! — respondeu a mulher, como se fosse informação nova. — Então você não
tem nada a ver com a Prefeitura.
— Não.
— Tem uns que são obscenos, não são? Sujos mesmo. Fico até com vergonha de
ver certas coisas que eles desenham.
Helen fez que sim, olhando o garoto no carrinho. Kerry havia decidido guardar o
doce no ouvido.
— Não faça isso! — a mãe lhe disse, e inclinou-se para dar um tapa na mão da
criança. O tapa, de efeito moral, fez com que desatasse a chorar. Helen aproveitou a
oportunidade para voltar à câmera. Mas a mulher ainda queria conversa. — E não tem
só do lado de fora, não — ela comentou.
— Perdão? — disse Helen.
— Eles entram nos apartamentos quando estão vazios. A Prefeitura tentou fechar as
portas com tábuas, mas não adianta. Eles entram do mesmo jeito. Usam os
apartamentos como banheiro e escrevem mais pouca-vergonha nas paredes. Acendem
fogueiras também. Aí ninguém pode se mudar para lá.
A descrição aguçou a curiosidade de Helen. Será que os gra- fites nas paredes de
dentro seriam substancialmente diferentes dos que estavam exibidos ao público?
Certamente valia a pena investigar.
— Tem algum lugar aqui perto assim?
— Apartamentos vazios?
— Com grafites.
— Perto de onde a gente mora tem um ou dois — a mulher ofereceu. — Eu estou
em Butts' Court.
— Será que você podia me mostrar? — perguntou Helen.
A mulher deu de ombros.
— A propósito, meu nome é Helen Buchanan.
— Anne-Marie — replicou a mulher.
— Eu ficaria muito grata se você pudesse rne mostrar um daqueles apartamentos
vazios.
Anne-Marie ficou impressionada com o entusiasmo de Helen e não tentou disfarçar,
mas tornou a dar de ombros e acrescentou:
— Não tem muito para ver. E repetição disso aí.
Helen recolheu seu equipamento e elas andaram lado a lado pelos corredores de
interseção entre um quarteirão e o seguinte. Embora o conjunto fosse baixo, cada
quadra com altura de apenas cinco andares, o efeito de cada pátio interno era
horrivelmente claustrofóbico. As vielas e escadas eram o sonho de um ladrão, cheias
de cantos fechados e túneis mal iluminados. As lixeiras — aberturas dos andares
superiores pelas quais os sacos de lixo eram jogados — haviam há muito sido
fechadas, graças à sua eficiência como focos de incêndio. Agora os sacos plásticos de
lixo formavam pilhas enormes nos corredores, o conteúdo espalhado pelo chão. O
cheiro, mesmo no frio, era desagradável. No meio do verão deveria ser insuportável.
— Eu moro do outro lado — falou Anne-Marie, apontando para o lado oposto ao
pátio. —Aquela da porta amarela. —Então apontou para o outro lado da quadra. —
Cinco ou seis sobrados contando de lá para cá — ela disse. — Duas delas foram
esvaziadas. Tem poucas semanas. Uma das famílias mudou-se para Rus- kin Court; a
outra se mandou no meio da noite.
Dizendo isso, deu as costas para Helen e empurrou Kerry, que havia começado a
brincar com cuspe no lado do carrinho, contornando a praça.
— Obrigada — Helen agradeceu. Anne-Marie olhou de relance para trás, mas não
respondeu. Apetite atiçado, Helen encaminhou-se ao longo dos sobrados, muitos dos
quais, embora habitados, não mostravam muitos sinais de ocupação. As cortinas
estavam bem puxadas; não havia garrafas de leite nas portas, nem brinquedos de
criança abandonados onde haviam sido usados. Nada, na verdade, de vida por ali. Mas
havia mais grafites, chocantemente borrifados nas portas das casas ocupadas. Ela
examinou apenas de passagem os rabiscos, em parte porque teve medo de que uma
das portas se abrisse enquanto analisava uma obscenidade qualquer escrita por ali,
mas principalmente porque estava ansiosa para ver que revelações os apartamentos
vazios à frente poderiam oferecer.
O cheiro ruim de urina, tanto fresca quanto podre, recebeu-a na entrada do número
14, e debaixo disso o cheiro de tinta e plástico queimados. Hesitou por dez segundos
inteiros, imaginando se entrar no sobrado seria um movimento inteligente. O terreno do
conjunto habitacional atrás dela era indiscutivelmente estranho, encerrado em sua
própria miséria, mas os quartos à sua frente eram ainda mais intimidadores: um
labirinto escuro que seus olhos mal conseguiam penetrar. Mas quando a coragem lhe
faltou, pensou em Trevor, e de como queria calar sua condescendência. Pensando
assim, avançou para dentro do lugar, chutando deliberadamente um pedaço de madeira
esturricada para o lado, na esperança de que alertasse qualquer ocupante que
aparecesse.
Mas não houve qualquer sinal de ocupação. Ganhando confiança, ela começou a
explorar a sala da frente do sobrado que havia sido — a julgar pelos restos de um sofá
eviscerado num canto e o carpete encharcado — uma sala de estar. As paredes verdeclaras
estavam, conforme Anne-Marie havia prometido, completamente desfiguradas,
tanto por escrevinhadores menores — que se contentaram em trabalhar à caneta, ou,
de forma até mais simples, com carvão —, quanto por aspirantes a trabalhos públicos,
que haviam borrifado as paredes com meia dúzia de cores.
Algumas pichações tinham interesse, embora ela já tivesse visto muitas nas paredes
lá de fora. Nomes e casais familiares se repetiam. Embora ela nunca tivesse posto os
olhos naqueles indivíduos, sabia o quanto Fabian J. (A.OK!) queria deflorar Michel- le; e
que Michelle, por sua vez, estava com tesão por alguém chamado Mr. Sheen. Ali, como
em outro lugar, um homem chamado Rato Branco se gabava do tamanho de seus
dotes, e a volta dos Sylabbub Brothers era prometida em tinta vermelha. Uma ou duas
figuras que acompanhavam essas frases, ou pelo menos lhes eram adjacentes, tinham
interesse especial. Uma simplicidade quase emblemática as formava. Ao lado da
palavra Cbristos havia um boneco rabiscado com os cabelos se irradiando da cabeça
como espinhos, e outras cabeças empaladas em cada espinho. Perto havia a imagem
de um ato sexual tão brutalmente reduzida que Helen achou que ilustrava uma faca
cravada num olho cego. Mas, por mais fascinantes que fossem as imagens, a sala
estava escura demais para que pudesse fotografá-la, e ela se esquecera de trazer um
flash. Se quisesse um registro confiável dessas descobertas, teria de voltar, e por ora
se contentar com uma simples exploração do local.
O sobrado não era grande, mas as janelas haviam sido completamente tapadas com
tábuas, e, à medida que ela se afastava da porta da frente, a luz dúbia desaparecia por
completo. O cheiro de urina — que havia sido forte na porta, também aumentou, até
que, quando ela chegou ao outro lado da sala de estar e entrou num pequeno corredor
que levava a uma nova sala adiante — estava tão penetrante quanto o do incenso.
Essa sala, estando mais distante da porta da frente, era também a mais escura, e ela
teve de esperar alguns momentos na penumbra confusa para permitir que os olhos se
adaptassem. Ali, pensou, devia ter sido o quarto.
A pouca mobília que os residentes haviam deixado para trás fora feita em pedacinhos.
Apenas o colchão ficara relativamente intacto, jogado no canto do quarto entre uma
pilha deplorável de cobertores, jornais e pedaços de excremento.
Do lado de fora, o sol achou seu caminho por entre as nuvens, e dois ou três raios
de luz passaram entre as tábuas pregadas na janela do quarto e rasgaram o quarto
como anunciações, atingindo a parede oposta com linhas brilhantes. Ali, os grafiteiros
também haviam tido trabalho: o clamor costumeiro de mensagens de amor e ameaças.
Ela vasculhou rapidamente a parede, e ao fazer isso seus olhos foram levados pelos
raios de luz que atravessavam o quarto até a parede que continha a porta pela qual
havia passado.
Ali, os artistas também haviam trabalhado, mas tinham produzido uma imagem que
ela não vira em lugar algum. Usando a porta, que ficava no centro da parede, como
uma boca, os artistas haviam desenhado com spray uma única e vasta cabeça no
reboco nu. A pintura era mais bem-feita do que a maioria que ela vira, cheia de
detalhes que davam à imagem uma veracidade perturbadora. Os ossos malares
despontavam sob a pele de cor de manteiga; os dentes — afiados até formarem
pontas irregulares — convergiam todos para a porta. Os olhos do modelo estavam,
devido ao teto baixo do quarto, poucos centímetros acima da porta, mas o ajuste físico
só emprestava força à imagem, dando a impressão de que a figura havia jogado a
cabeça para trás. Fios de cabelos, com nós, serpenteavam do couro cabeludo até o
teto.
Seria o retrato de alguém? Havia algo de incomodamente específico nos detalhes
das sobrancelhas e nas linhas ao redor da boca larga; também nos detalhes
cuidadosos daqueles dentes terríveis. Certamente um pesadelo: um fac-símile, talvez,
de alguma coisa saída de um delírio de heroína. Fossem quais fossem suas origens,
era potente. Mesmo a ilusão da porta como boca funcionava. O pequeno corredor
entre a sala de estar e o quarto oferecia uma garganta admissível, com uma lâmpada
caindo aos pedaços no lugar das amígdalas. Além do esôfago, o dia brilhava branco
nas entranhas do pesadelo. O efeito do conjunto trazia à mente um quadro de tremfantasma.
A mesma deformidade heróica, a mesma intenção descarada de assustar. E
funcionou; ela ficou parada, em pé, no quarto, quase estupidificada pela imagem,
aqueles olhos vermelhos fixando-a sem misericórdia. Amanhã, determinou, tornaria a
voltar ali, dessa vez com um filme de alta velocidade e um flash para iluminar a obraprima.
Quando se preparava para sair, o sol entrou e as faixas de luz se desvaneceram.
Olhou para as janelas tapadas e viu pela primeira vez aquele slogan de quatro palavras
borrifado na parede debaixo delas.
Doces para um doce, dizia. Ela conhecia a citação, mas não sua fonte. Seria uma
profissão de amor? Se era, estranho local para uma jura dessas. Apesar do colchão no
canto, e da relativa privacidade do quarto, ela não conseguia imaginar a desejada
leitora dessas palavras entrando ali para receber seu buquê. Nenhum amante
adolescente, por mais excitado que pudesse estar, se deitaria ali para brincar de papaie-
mamãe; não sob o olhar de terror na parede. Ela foi até a parede para examinar a
escrita. A tinta parecia ser do mesmo tom rosa usado para colorir as gengivas do
homem que gritava; quem sabe a mesma mão?
Atrás dela, um ruído. Virou-se tão rápido que quase caiu em cima do colchão.
— Quem...?
Do outro lado do esôfago, na sala de estar, um garoto de seis ou sete anos, com os
joelhos esfolados. Olhava para Helen, os olhos brilhando na semiescuridão, como se
esperando por uma deixa.
— Sim? — ela perguntou.
— Anne-Marie perguntou se você quer uma xícara de chá — ele declarou quase sem
pausa ou entonação.
Sua conversa com a mulher parecia ter se passado há horas. Mas ela ficou feliz com
o convite. A umidade do sobrado a deixara com frio.
— Sim... — disse ao garoto. — Sim, por favor.
A criança não se moveu. Simplesmente continuou olhando para ela.
— Você vai me levar até lá? — ela perguntou.
— Se você quiser — ele respondeu, incapaz de um sinal de entusiasmo.
— Eu gostaria disso.
— Está tirando fotos? — ele perguntou.
— Sim, estou. Mas aqui não.
— Por que não?
— Está muito escuro — ela respondeu.
— Não funciona no escuro? — ele quis saber.
— Não.
O garoto fez que sim com a cabeça, como se a informação de algum modo se
encaixasse no esquema de suas coisas, e deu meia-volta sem dizer mais nada,
obviamente esperando que Helen o seguisse.
Se Anne-Marie havia sido taciturna na rua, não era nada disso na privacidade de sua
própria cozinha. A curiosidade reservada havia desaparecido, para ser substituída por
uma torrente de papo animado e um corre-corre constante entre meia dúzia de tarefas
domésticas menores, como um equilibrista tentando manter vários pratos girando
simultaneamente. Helen observava o ato de equilíbrio com certa admiração, pois suas
próprias habilidades domésticas eram desprezíveis. Por fim, a conversa desencontrada
encaminhou-se para o assunto que havia levado Helen até ali.
— As fotografias — lembrou Anne-Marie. — Por que você quer tirar aquelas fotos?
— Estou escrevendo sobre grafites. As fotos vão ilustrar o livro.
— Não é muito bonito.
— Não, você tem razão, não é. Mas eu acho interessante.
Anne-Marie balançou a cabeça.
— Eu detesto todo este lugar — afirmou. — Aqui não é seguro. As pessoas são
roubadas na porta de casa. Os garotos tocam fogo no lixo todo dia. No verão passado,
o corpo de bombeiros vinha aqui duas, três vezes ao dia, até fecharem as lixeiras.
Agora as pessoas jogam os sacos nos corredores, e isso atrai os ratos.
— Você vive aqui sozinha?
— Sim — respondeu. — Desde que o Davey foi embora.
— Era seu marido?
— Era o pai de Kerry, mas nunca nos casamos. Vivemos dois anos juntos, sabia?
Tivemos momentos felizes. Então ele simplesmente pegou suas coisas e foi embora,
num dia em que eu estava na casa da mamãe com Kerry. — Olhou para sua xícara. —
Melhor sem ele — disse. — Mas às vezes a gente fica com medo. Quer mais chá?
— Acho que não tenho tempo.
— Só uma xícara — insistiu Anne-Marie, já de pé e desplugando a chaleira elétrica
para reenchê-la. Quando ia abrir a torneira, viu algo na pia, e desceu o polegar,
esmagando a coisa. — Te peguei, sua desgraçada — falou, e então se virou para
Helen: — Isto aqui está cheio dessas malditas formigas.
— Formigas?
— Todo o conjunto está cheio. Elas são do Egito: formigas- faraós, é o nome delas.
Umas coisinhas marrons desgraçadas. Elas vivem nos dutos de aquecimento central,
veja você; assim elas entram em todos os apartamentos. O lugar está cheio delas, é
uma praga.
Esse improvável exotismo (formigas do Egito?) soou cômico para Helen, mas ela
não disse nada. Anne-Marie olhava o quintal pela janela da cozinha.
— Você devia dizer a eles... — ela sugeriu, embora Helen não estivesse certa se
estava recebendo instruções —... que as pessoas nem podem mais andar nas ruas...
— E mesmo assim tão ruim? — perguntou Helen, francamente farta desse catálogo
de infortúnios.
Anne-Marie virou-se para ela e encarou-a com dureza.
— Temos tido assassinatos aqui — revelou.
— Verdade?
— Tivemos um no verão. Era um velhinho, de Ruskin. Logo aqui ao lado. Eu não
conhecia ele, mas era amigo da irmã da vizinha. Esqueci o nome dele.
— E ele foi assassinado?
— Cortado em fatias em seu próprio quarto, lá na frente. Levaram quase uma
semana para encontrá-lo.
— E quanto aos vizinhos dele? Não notaram sua ausência?
Anne-Marie deu de ombros, como se as informações mais
importantes — o assassinato e o isolamento do homem — tivessem sido veiculadas e
qualquer outra pergunta a respeito fosse irrelevante. Mas Helen insistiu.
— Me parece estranho — ela ponderou.
Anne-Marie plugou a chaleira cheia de água. —Bom, aconteceu — replicou, sem se
abalar.
— Não estou dizendo que não, só...
— Os olhos dele foram arrancados — ela acrescentou, antes que Helen pudesse
expressar mais alguma dúvida.
Helen estremeceu.
— Não — murmurou.
— E verdade — respondeu Anne-Marie. — E não foi só isso o que fizeram com ele.
— Fez uma pausa de efeito, e então prosseguiu: — Sabe lá que tipo de pessoa é
capaz de fazer uma coisa dessas? Sabe lá. — Helen concordou. Estava pensando
exatamente na mesma coisa.
— Acharam o homem responsável por isso?
Anne-Marie fungou em desaprovação.
— A polícia não dá a mínima para o que acontece aqui. Ela fica fora do conjunto a
maior parte do tempo. Quando estão de ronda, tudo o que fazem é pegar garotos que
estão bêbados e coisas assim. Eles têm medo, sabia? E por isso que ficam longe.
— Desse assassino?
— Talvez — respondeu Anne-Marie. E depois: — Ele tinha um gancho.
— Um gancho?
— O homem que fez aquilo. Ele tinha um gancho, que nem Jack, o Estripador.
Helen não era especialista em assassinatos, mas tinha certeza de que Jack, o
Estripador, nunca usara nenhum gancho. Mas parecia bobagem questionar a
veracidade da história de Anne-Marie; embora ela silenciosamente se perguntasse o
quanto daquilo — os olhos arrancados, o corpo apodrecendo no apartamento, o
gancho — era elaborado. O mais escrupuloso dos repórteres certamente era tentado a
embelezar uma história de vez em quando.
Anne-Marie se servira de outra xícara de chá e ia fazer o mesmo para a sua
convidada.
—Não, obrigada — agradeceu Helen. — Realmente preciso
ir.
— Você é casada? —Anne-Marie perguntou de repente.
— Sou. Com um professor da Universidade.
— Qual o nome dele?
— Trevor.
Anne-Marie colocou duas colheres cheias de açúcar em sua xícara de chá. — Você
vai voltar? — perguntou.
— Sim, espero que sim. No final da semana. Quero tirar algumas fotos dos desenhos
no sobrado do outro lado.
— Bom, apareça.
— Apareço sim. E obrigada pela ajuda.
— De nada — respondeu Anne-Marie. — Você precisa dizer a alguém, não precisa?
— O homem aparentemente tinha um gancho em vez da
mão.
Trevor levantou a cabeça de seu prato de tagliatelle con prosciutto.
— Perdão?
Helen tivera um grande trabalho para recontar a história com o mínimo de emoção
possível. Estava interessada em saber o que Trevor acharia, e sabia que, se deixasse
sua posição clara, ele instintivamente assumiria uma visão oposta, por pura teimosia.
— Ele tinha um gancho — ela repetiu, sem inflexão. Trevor pôs o garfo de lado e mexeu
no nariz, fungando. —
Eu não li nada a respeito — observou.
— Você não lê os jornais locais — retrucou Helen. — Nenhum de nós lê. Talvez não
tenha chegado aos nacionais.
— "Velhinho Morto Por Maníaco Do Gancho"? — interrogou Trevor, saboreando a
hipérbole. — Eu teria considerado isso bem interessante. Quando disseram que isso
teria acontecido?
— Verão passado. Talvez estivéssemos na Irlanda.
— Talvez — concordou Trevor, tornando a pegar o garfo. Curvado sobre a comida,
as lentes polidas dos óculos refletiam somente o prato de massa e os pedacinhos de
presunto à sua frente, não seus olhos.
— Por que você diz talvez? — Helen provocou.
— Não está me parecendo certo — afirmou. —Na verdade, parece pretensioso
demais.
— Você não acredita? — ela perguntou.
Trevor levantou a cabeça do prato, a língua resgatando um fragmento de tagliatelle
do canto da boca. Seu rosto havia relaxado naquela expressão de descompromisso —
a mesma que usava, sem dúvida, quando ouvia seus alunos. — Você acredita? —
perguntou a Helen. Era um de seus estratagemas preferidos para ganhar tempo, outro
truque de seminário, questionar o questionados
— Não estou certa — replicou Helen, preocupada demais em encontrar terreno
sólido nesse mar de dúvidas para gastar energia marcando pontos.
— Tudo bem, esqueça a história — pediu Trevor, trocando a comida por outro copo
de vinho tinto. — E quanto à pessoa que a contou? Você acreditou nela?
Helen visualizou a expressão honesta de Anne-Marie enquanto ela lhe contava a
história do assassinato do velho.
— Sim — concordou. — Sim, acho que eu saberia se ela estivesse mentindo para
mim.
— Então por que isso é importante? Quero dizer, se ela está mentindo ou não, o que
importa, porra?
Era uma questão razoável, ainda que colocada de forma irritante. Por que isso
importava? Será que ela queria que suas piores sensações sobre a Rua Spector
fossem infundadas? O fato de que aquele conjunto habitacional era sujo, sem
esperanças, uma lixeira onde os indesejáveis e os despossuídos eram escondidos da
vista pública — isso tudo era um lugar-comum liberal, e ela o aceitava como uma
realidade social desagradável. Mas a história do assassinato e da mutilação do velho
era outra coisa. Uma imagem de morte violenta que, uma vez com ela, recusava-se a
se afastar de sua companhia.
Percebeu, para seu desgosto, que essa confusão estava estampada em seu rosto,
e que Trevor, observando-a do outro lado da mesa, não estava nem um pouco
entretido com ela.
—Se isso a incomoda tanto — afirmou —, por que não volta lá e pergunta, em vez
de ficar brincando de acredite-se-quiser durante o jantar?
Ela não pôde evitar de se levantar ao comentário dele.
— Pensei que gostasse de jogos de adivinhação —ponderou.
Ele lançou lhe um olhar irritado.
— Errou de novo.
A sugestão de que ela investigasse não era ruim, embora, sem dúvida, ele tivesse
outros motivos para oferecê-la. Ela via Trevor menos caridoso a cada dia que passava.
O que um dia percebera nele como um forte compromisso com o debate, reconhecia
agora como mero jogo de poder. Ele discutia não pela emoção da dialética, mas
porque era patologicamente competitivo. Ela o vira, várias vezes, assumir atitudes que
ela sabia que ele não esposava, simplesmente para derramar sangue. E, o que dava
mais pena, ele não estava sozinho nesse esporte. O mundo acadêmico era um dos
últimos refúgios do desperdiçador de tempo profissional. As vezes, o círculo deles
parecia inteiramente dominado por idiotas cultos, perdidos numa vastidão de retórica
ultrapassada e compromissos vazios.
De uma vastidão para outra. Ela voltou à Rua Spector no dia seguinte, armada com
um flash, além de um tripé e de um rolo de filme supersensível. O vento estava forte e
frio, mais furioso ainda por estar preso no labirinto de corredores e quadras. Ela foi até
o número 14 e passou a hora seguinte em seu interior emporcalhado, fotografando
meticulosamente as paredes tanto do quarto, quanto da sala de estar. Havia esperado
que o impacto da cabeça no quarto fosse amenizado por uma segunda visão; não foi.
Embora ela pelejasse para capturar sua escala e detalhes da melhor forma possível,
sabia que as fotos seriam no máximo um reflexo pálido daquele uivo perpétuo.
Muito de seu poder estava no contexto de que fazia parte, claro. O fato de que
alguém pudesse tropeçar numa imagem daquelas em vizinhanças tão insípidas, tão
conspicuamente sem mistérios, era como encontrar um ícone numa pilha de lixo: um
símbolo reluzente de transcendência, saído de um mundo de sofrimento e decadência
para um reino mais sombrio, porém tremendamente real. Ela estava dolorosamente
consciente de que a intensidade de sua reação provavelmente lhe desafiava a
articulação. Seu vocabulário era analítico, repleto de gírias e terminologias acadêmicas,
mas lamentavelmente pobre, quando se tratava de evocar imagens. As fotos, por mais
fracas que pudessem ser, seriam, ela esperava, pelo menos um indício da potência
deste quadro, mesmo que não pudessem evocar o modo como ele arrepiava uma
pessoa por dentro.
Quando saiu do sobrado, o vento estava tão impiedoso como antes, mas o garoto
que a esperava do lado de fora — o mesmo que a auxiliara no dia anterior — estava
vestido como se estivesse na primavera. Ele fazia uma careta com esforço, para
afastar os tremores.
— Oi — disse Helen.
— Eu esperei — anunciou a criança.
— Esperou?
— Anne-Marie disse que você voltaria.
— Eu não estava planejando voltar antes do final da semana —confessou Helen. —
Você poderia ter esperado um bom tempo.
A careta do garoto relaxou um pouco.
— Tudo bem — respondeu — Não tenho nada para fazer.
— E a escola?
— Não gosto — replicou o garoto, como se não fosse obrigado a ser educado, não
tivesse vontade.
— Sei — assentiu Helen, e começou a andar pela margem do pátio. O garoto foi
atrás. No trecho de grama, ao centro do pátio, várias cadeiras e duas ou três
arvorezinhas mortas haviam sido empilhadas.
— O que é isso? — indagou, meio para si mesma.
—A Noite da Fogueira — retrucou o garoto. — Semana que
vem.
— Claro.
— Vai ver Anne-Marie? — ele perguntou.
— Vou.
— Ela não está.
— Tem certeza?
— Tenho.
— Bom, talvez você possa me ajudar... — ela parou e se virou para encarar o
garoto; as pálpebras inferiores dele estavam com leves inchaços de fadiga. — Ouvi
falar que um velho foi assassinado aqui perto — ela comentou. —No verão. Sabe
alguma coisa a respeito?
— Não.
— Nada mesmo? Não se lembra de ninguém ter sido morto?
— Não — o garoto repetiu, com uma certeza impressionante. — Não me lembro.
— Bom, obrigada de qualquer maneira.
Dessa vez, quando voltou para o carro, o garoto não foi atrás. Mas quando virou a
esquina, saindo do pátio, olhou para trás e o viu em pé no ponto onde o deixara,
olhando para ela como se ela fosse louca.
Quando chegou ao carro e guardou o equipamento fotográfico na mala, o vento
trazia pingos de chuva, e ela ficou um pouco tentada a esquecer que um dia ouvira a
história de Anne-Marie e voltar para casa, onde o café seria quente, mesmo que a
acolhida não fosse. Mas precisava de uma resposta à pergunta que Trevor fizera na
noite anterior. Você acredita nisso?, ele perguntara, quando ela lhe contou a história.
Ela não soube como lhe responder então, e ainda não sabia. Talvez (por que sentia
isso?) a terminologia da verdade verificável fosse redundante ali; talvez a resposta final
à sua pergunta não fosse uma resposta, mas apenas outra pergunta. Se fosse isso.
Se. Ela tinha que descobrir.
Ruskin Court era tão pobre quanto seus moradores, se não mais. Não apresentava
sequer uma fogueira. Na varanda do terceiro andar, uma mulher lavava roupa antes que
a chuva caísse; na grama no centro do pátio, dois cães trepavam distraídos, o debaixo
olhando para o céu branco. Enquanto andava pelo calçamento vazio, ela deu um ar de
determinação ao rosto; um olhar com um propósito, Bernadette lhe dissera um dia,
evitava o ataque. Quando avistou as duas mulheres conversando no outro lado da
quadra, apressou-se naquela direção, feliz pela presença delas.
— Com licença?
As mulheres, ambas de meia-idade, interromperam a conversa animada e olharam
para ela.
— Será que as senhoras poderiam me ajudar?
Ela podia sentir que a examinavam, podia sentir a desconfiança de todas; não
disfarçavam isso. Uma delas, o rosto rosado, perguntou sem rodeios: — O que você
quer?
Helen subitamente se sentiu sem qualquer poder de sedução.
O que ela iria dizer àquelas duas que não fizesse parecer que seu motivo era fútil? —
Me disseram... — começou, e então tropeçou, ciente de que não conseguiria ajuda de
nenhuma das duas. — ...me disseram que houve um assassinato aqui perto. E
verdade?
A mulher rosada ergueu sobrancelhas tão depiladas que mal eram visíveis.
— Assassinato? — ela perguntou.
— Você é de algum jornal? — quis saber a outra mulher. Os anos haviam
amargurado irremediavelmente suas feições. A boca pequena era cheia de rugas
profundas; seus cabelos, tingidos de preto, mostravam um dedo de cinza nas raízes.
— Não, não sou — respondeu Helen. — Sou amiga de Anne-Marie, que mora em
Butts' Court. — Dizer amiga exagerava a verdade, mas pareceu suavizar um pouco as
mulheres.
— Está de visita? — perguntou a mulher rosada.
— De certa forma...
— Você perdeu a estação quente...
— Anne-Marie estava me falando de alguém que foi assassinado aqui, durante o
verão. Fiquei curiosa.
— E mesmo?
— ...sabem algo a respeito?
— Muita coisa acontece por aqui — acrescentou a segunda mulher. — Você não
sabe a metade.
— Então é verdade — reconheceu Helen.
— Tiveram que fechar os banheiros — falou a primeira mulher.
— Isso mesmo. Fecharam — disse a outra.
— Os banheiros? — perguntou Helen. — O que isso tinha a ver com a morte do
velho?
— Foi terrível — disse a primeira. — Foi o seu Frank, Josie, que te contou isso?
—Não, o Frank não —replicou Josie. —Frank ainda estava no mar. Foi a Sra.
Tyzack.
Testemunho estabelecido, Josie deixou que a colega contasse a história, e voltou o
olhar para Helen. A suspeita ainda não havia morrido em seus olhos.
— Foi no mês retrasado — lembrou Josie. — Bem no finzinho de agosto. Foi agosto,
não foi? — Olhou para a outra mulher em busca de confirmação. — Você é que tem
cabeça para guardar datas, Maureen.
Maureen parecia pouco à vontade.
— Eu esqueço — reconheceu, claramente sem interesse em falar.
— Eu gostaria de saber — afirmou Helen. Josie, apesar da relutância de sua
companheira, estava ansiosa para ajudar.
—Tem alguns lavatórios — começou — do lado de fora das lojas, você sabe,
lavatórios públicos. Não sei bem como isso aconteceu exatamente, mas havia um
garoto... bom, não era realmente um garoto, era um homem de vinte anos ou mais,
mas ele era... — ela procurou as palavras — .. .mentalmente abaixo do normal, acho
que é assim que se diz. A mãe costumava andar com ele por aí como se tivesse uns
quatro anos. De qualquer maneira, deixou que ele fosse aos lavatórios enquanto ia
àquele supermercado pequeno, qual é mesmo o nome? — virou-se para Maureen
esperando uma resposta, mas a outra apenas retribuiu o olhar, em franca
desaprovação. Mas Josie era ingovernável. — Foi em plena luz do dia — acrescentou a
Helen. — No meio do dia. De qualquer maneira, o garoto foi ao banheiro, e a mãe
estava na loja. E depois de algum tempo, você sabe como é, ela fica ocupada fazendo
compras, esquece dele, e aí lembra que já tem um bom tempo que não o vê...
Nesse ponto, Maureen não conseguiu evitar de interferir: a precisão da história
aparentemente tinha precedência sobre sua desconfiança.
— ...ela se meteu numa discussão com o gerente — ela corrigiu Josie. —Por causa
de um pedaço estragado de bacon que tinha comprado. Foi por isso que ela demorou
tanto...
— Sei — disse Helen.
— .. .de qualquer maneira — fez Josie, retomando o fio da narrativa — ela terminou
as compras e, quando saiu, ele ainda não estava lá...
— Então, ela pediu a alguém do supermercado... — começou Maureen, mas Josie
não ia deixar a narrativa ser tirada de suas mãos nesse ponto vital.
— Ela pediu a um dos homens do supermercado... — repetiu devido à interrupção de
Maureen — ...que fosse ao lavatório e o achasse.
—Foi terrível —afirmou Maureen, obviamente imaginando a atrocidade em sua
mente.
— Ele estava deitado no chão, numa poça de sangue.
— Assassinado?
Josie balançou a cabeça.
— Estaria melhor morto. Foi atacado com uma navalha... — ela deixou esse
fragmento de informação afundar antes de dar o golpe de misericórdia — .. .e cortaram
fora suas partes íntimas. Simplesmente cortaram, jogaram na privada e deram
descarga. Não tiveram razão alguma para fazer isso.
— Meu Deus!
— Estaria melhor morto — Josie repetiu. — Quero dizer, esse tipo de coisa não dá
para consertar, dá?
A história apavorante ficava ainda pior pelo sangue frio da narradora e pela
repetição casual de "estaria melhor morto".
— O garoto —indagou Helen. —Ele foi capaz de descrever quem o atacou?
—Não — respondeu Josie. —É praticamente um débil. Não consegue articular mais
de duas palavras.
— Não viram ninguém entrar no lavatório? Ou sair dele?
— Toda hora tem gente entrando e saindo... — disse Maureen. Essa explicação,
embora soasse adequada, não havia sido a experiência de Helen. O pátio e as
passagens não eram muito movimentados, longe disso. Talvez o shopping center fosse
mais movimentado, ela pensou, e pudesse oferecer uma cobertura adequada para um
crime desses.
— Então não acharam o culpado — ela concluiu.
— Não — Josie replicou, os olhos perdendo o fervor. O crime e suas consequências
imediatas eram o núcleo da história; ela tinha pouco ou nenhum interesse no culpado
nem em sua captura.
— Não estamos seguros nem em nossas camas — observou Maureen. — Pode
perguntar a qualquer um.
— Anne-Marie disse a mesma coisa — replicou Helen. — Foi aí que ela me contou a
história do velho. Disse que ele foi assassinado durante o verão, aqui em Ruskin Court.
— Eu me lembro de alguma coisa — acrescentou Josie. — Alguma coisa se falou,
eu ouvi. Um velho e o seu cachorro. Ele apanhou até a morte, e o cachorro acabou...
Não sei, certamente não foi aqui. Deve ter sido num dos outros blocos.
— Tem certeza?
A mulher pareceu ofendida por esse ataque à sua memória. — Ah, sim — enfatizou
ela. — Se tivesse sido aqui, teríamos sabido da história, não é?
Helen agradeceu à dupla por sua ajuda e decidiu dar uma volta pelo pátio, só para
ver quantos sobrados mais estavam abandonados. Assim como em Butts' Court, muitas
das cortinas estavam puxadas e todas as portas trancadas. Mas se a Rua Spector
estivesse sob o cerco de um maníaco capaz do assassinato e da mutilação de que ela
acabara de tomar conhecimento, não era de surpreender que os moradores fossem
para suas casas e lá ficassem. Não havia muito que se ver ao redor da quadra. Todos
os sobrados e apartamentos não ocupados haviam sido selados recentemente, a julgar
por uma confusão de pregos deixados num alpendre pelos operários da Prefeitura. Mas
uma coisa captou sua atenção. Rabiscada nas pedras do calçamento sobre o qual
estava caminhando — e quase apagada pela chuva e pelas marcas de pisadas —, a
mesma frase que tinha visto no quarto do número 14: Doces para um doce. As
palavras eram tão benignas; por que ela parecia sentir ameaça nelas? Seria pelo seu
excesso, talvez, pela pura superabundância de açúcar sobre açúcar, mel sobre mel?
Continuou caminhando, embora a chuva persistisse, e sua caminhada gradualmente
a levou para longe dos pátios e para uma terra de ninguém, de concreto, pela qual não
havia passado antes. Aqui era — ou havia sido — o local das diversões do conjunto. Ali
estava o playground das crianças, o escorrega de metal virado, a caixa de areia
emporcalhada pelos cachorros, a piscini- nha vazia. E ali também ficavam as lojas.
Várias haviam sido fechadas com tábuas; as que não o foram eram feias e sem
atrativos, as janelas protegidas por grossas telas de metal.
Ela andou ao longo delas, virou uma esquina, e à sua frente havia um prédio baixo
de tijolos. O lavatório público, ela intuiu, embora os sinais que o designassem como tal
há muito haviam desaparecido. Os portões de ferro estavam fechados e trancados a
cadeado. Em frente ao prédio insosso, o vento soprando ao redor de suas pernas, ela
não pôde evitar de pensar no que havia acontecido ali. No menino-homem, sangrando
no chão, incapaz de gritar. Sentia-se mal só de olhar. Voltou seus pensamentos para o
criminoso, em vez disso. Como seria ele, imaginou, esse homem capaz de tamanha
depravação? Tentou traçar uma imagem dele, mas nenhum detalhe que pudesse
imaginar era suficientemente forte. Mas os monstros também não eram muito terríveis
quando trazidos à luz do dia. Enquanto esse homem fosse conhecido apenas por seus
feitos, possuiria um poder indizível sobre a imaginação; mas a verdade humana por trás
dos terrores seria, ela sabia, amargamente desapontadora. Ele não era nenhum
monstro; apenas uma desculpa distorcida para um homem mais necessitado de pena
do que de temor.
Nova rajada de vento trouxe chuva mais forte. Era hora, ela decidiu, de acabar as
aventuras do dia. Dando as costas aos lava- tórios públicos, correu de volta pelos
pátios até o refúgio do carro, a chuva gelada alfinetando seu rosto a ponto de provocar
dormência.
Os convidados para o jantar pareciam espantados e gratificados com a história, e
Trevor, a julgar pela expressão de seu rosto, estava furioso. Mas agora estava feito;
não havia como voltar atrás. Nem ela podia negar sua satisfação de ter silenciado a
baboseira interdepartamental na mesa. Foi Bernadette, assistente de Trevor no
Departamento de História, quem quebrou o silêncio agonizante.
— Quando foi isso?
— Durante o verão — respondeu Helen.
— Não lembro de ter lido nada sobre isso — acrescentou Archie, muito melhor
depois de duas horas de bebida; a bebida amaciava uma língua que de outro modo
seria repugnante em seus autoelogios.
— Talvez a polícia esteja escondendo isso — comentou Daniel.
— Conspiração? — perguntou Trevor, obviamente cínico.
— Acontece toda hora — Daniel disparou de volta.
—Por que esconderiam uma coisa destas? —perguntou Helen. — Não faz sentido.
— Desde quando os procedimentos da polícia fazem sentido? — retrucou Daniel.
Bernadette interrompeu antes que Helen pudesse responder. — A gente nem se
interessa mais em ler sobre essas coisas — confessou.
— Fale por si mesma — alguém apitou, mas ela ignorou e foi em frente:
— Estamos bêbados de violência. Não a enxergamos mais, nem mesmo quando está
na frente de nossos narizes.
— Na televisão toda noite — Archie falou. — Morte e desastre em cores vivas.
— Não há nada de muito moderno nisso — reconheceu Trevor. — Um elisabetano via
a morte a toda hora. Execuções públicas eram uma forma muito popular de
entretenimento.
A mesa irrompeu numa cacofonia de opiniões. Após duas horas de fofocas
educadas, o jantar havia subitamente se inflamado. Ouvindo a discussão furiosa, Helen
lamentou não ter tido tempo de mandar revelar as fotos; os grafites teriam
acrescentado combustível a essa animada discussão. Purcell, como de costume, foi o
último a dar seu ponto de vista; e — novamente, como de costume — foi devastador.
— Naturalmente, Helen, meu amor — ele começou, o cansaço afetado em sua voz
com um quê de expectativa pela controvérsia —, suas testemunhas poderiam estar
todas mentindo, não é?
O falatório ao redor da mesa diminuiu, e todas as cabeças se voltaram para Purcell.
Perversamente, ele ignorou a atenção que obtivera e se virou para sussurrar no ouvido
do rapaz que havia trazido — uma nova paixão que, como em outras vezes, seria
descartada em questão de semanas por outro garoto bonito.
— Mentindo? — perguntou Helen. Ela já se sentia desconfortável com a observação,
e Purcell só havia dito algumas palavras.
— Por que não? — replicou o outro, levando seu cálice de vinho aos lábios. — Talvez
estejam todos construindo alguma ficção elaborada. A história da mutilação
espasmódica no banheiro público. O assassinato do velho. Até mesmo o gancho.
Todos são elementos bastante familiares. Você precisa ter em conta que existe algo de
tradicional nessas histórias de atrocidades. Antigamente as pessoas contavam-nas
umas às outras o tempo todo; havia um certo frisson nisso. Algo de competitivo talvez,
uma tentativa de encontrar um novo detalhe a ser acrescentado à ficção coletiva; um
detalhe novo que tornaria a história um pouco mais espantosa quando você a passasse
adiante.
— Ela pode ser familiar para você — Helen disse na defensiva. Purcell era sempre
tão ofensivo-, isso a irritava. Mesmo que houvesse validade em seu argumento, o que
Helen duvidava, ele nunca admitiria. — Eu nunca ouvi esse tipo de história antes.
— Não ouviu? — perguntou Purcell, como se ela estivesse admitindo seu
analfabetismo. — E quanto aos amantes e o louco que fugiu do hospício, lembra
dessa?
— Já ouvi essa... —concordou Daniel.
— A garota é eviscerada, normalmente por um homem com mão de gancho, e o
corpo deixado no topo do carro, enquanto o noivo se encolhe apavorado do lado de
dentro. E uma história de prevenção, alertando contra os perigos da
heterossexualidade desmedida. — A piada ganhou uma rodada de gargalhadas de
todos, menos de Helen. — Essas histórias são muito comuns.
— Então você está dizendo que eles estão me contando mentiras. .. — ela
protestou.
— Não exatamente mentiras...
— Você disse mentiras.
— Eu estava provocando — retrucou Purcell, usando seu tom apaziguador de modo
mais irritante do que nunca. — Não quis dizer que existe qualquer má-fé intencional
nisso. Mas você deve admitir que até agora não encontrou uma única testemunha.
Todos esses acontecimentos ocorreram em alguma data não-especificada com alguma
pessoa não-especificada. Eles são relatados a várias pessoas distantes. Na melhor
das hipóteses aconteceram com irmãos de amigos de conhecidos distantes. Por favor,
considere a possibilidade de que talvez esses acontecimentos não existam no mundo
real, mas sejam simplesmente fonte de prazer para donas de casa entediadas...
Helen não argumentou em resposta, pela simples razão de que não tinha argumento.
A questão levantada por Purcell sobre a completa falta de testemunhas era
perfeitamente coerente; ela própria havia se perguntado a respeito. Era estranho,
também, o jeito como as mulheres de Ruskin Court haviam apressadamente
consignado o assassinato do velho a outro bloco, como se essas atrocidades sempre
ocorressem em outro lugar — virando a próxima esquina, descendo a próxima
passagem —, mas nunca aqui.
— Então por quê? — perguntou Bernadette.
— Por que o quê? — estranhou Archie.
— As histórias. Por que contar essas histórias terríveis, se elas não são
verdadeiras?
— Sim — disse Helen, jogando a controvérsia de volta ao vasto colo de Purcell. —
Por quê?
Purcell aprumou-se, ciente de que sua entrada no debate havia mudado, de um só
golpe, a suposição básica.
— Não sei — ele reconheceu, feliz de ter acabado com o jogo, agora que havia
mostrado suas garras. — Você realmente não devia me levar muito a sério, Helen. Eu
tento não me levar. — O rapaz ao lado de Purcell deu um risinho.
—Talvez seja simplesmente um assunto tabu —disse Archie.
— Proibido... — apressou-se Daniel.
— Não do jeito que você pensa — retorquiu Archie. — O mundo inteiro não é só
política, Daniel.
— Que ingenuidade.
— O que há de tão proibido a respeito da morte? — perguntou Trevor. —
Bernadette já ressaltou isso: está na nossa frente o tempo todo. Televisão, jornais.
— Talvez não o bastante — sugeriu Bernadette.
— Alguém se incomoda se eu fumar? — interrompeu Purcell. — A sobremesa
parece ter sido infinitamente adiada...
Helen ignorou a observação e perguntou a Bernadette o que ela queria dizer com
"talvez não o bastante".
Bernadette deu de ombros.
— Não sei precisamente — ela confessou. — Talvez a morte devesse estar mais
perto; precisamos saber que ela está ali na esquina. A televisão não é íntima o
suficiente.
Helen franziu a testa. A observação fazia algum sentido para ela, mas na confusão
do momento não conseguia desencavar qualquer significado.
—Você também acha que são só histórias? —ela perguntou.
— Andrew tem uma teoria... —replicou Bernadette.
— Que gentileza — proclamou Purcell. — Alguém tem um fósforo? O garoto roubou
meu isqueiro.
— ...sobre a ausência de testemunhas.
— Tudo o que isso prova é que não encontrei ninguém que realmente tivesse visto
alguma coisa — argumentou Helen. — Não que as testemunhas não existam.
— Tudo bem — disse Purcell. — Ache uma. Se puder me provar que seu chacinador
está vivo por aí, pago o jantar de todo mundo no Appollinaires. Que tal? Sou generoso
por defeito, ou simplesmente sei quando não posso perder? —gargalhou, batendo os
dedos na mesa à guisa de aplauso.
— Me parece bom — reconheceu Trevor. — O que acha, Helen?
Ela não voltou à Rua Spector até a segunda-feira seguinte, mas por todo o fim de
semana esteve lá em pensamento: de pé do lado de fora do banheiro trancado, com o
vento trazendo chuva; ou no quarto, com o retrato avassalador. Pensamentos sobre o
conjunto habitacional tomavam toda sua atenção. Quando, no fim de uma tarde de
sábado, Trevor descobriu uma razão boba para discutir, ela deixou os insultos
passarem, observando o marido realizar o ritual familiar de auto martírio sem sequer
ser tocada por isso. Ele saiu batendo a porta, para visitar qualquer de suas mulheres
que fosse a favorecida daquele mês. Ela ficou feliz em vê-lo pelas costas. Quando ele
não voltou naquela noite, ela sequer pensou em chorar por isso. Ele era tolo e vazio.
Ela entrava em desespero por jamais ver um olhar assombrado naqueles olhos
mortiços, e de que valia um homem que não se assombrava?
Ele também não voltou no domingo à noite, e na manhã seguinte passou por sua
cabeça, enquanto estacionava o carro no centro do conjunto, que ninguém sabia que
ela havia ido lá, e que lá ela podia se perder por dias e ninguém saberia de nada.
Como o velho sobre o qual Anne-Marie havia lhe contado: sentado, esquecido em sua
poltrona favorita, com os olhos arrancados, enquanto as moscas se banqueteavam e a
manteiga ficava rançosa na mesa.
Já era quase a Noite das Fogueiras, e no fim de semana a pequena pilha de material
combustível em Butts' Court estava de tamanho substancial. A construção não parecia
equilibrada, mas isso não impedia que uma série de garotos e adolescentes subissem
nela e andassem por ali. A maior parte era feita de mobília, arrancada, sem dúvida, de
propriedades abandonadas. Ela duvidava de que aquilo pudesse se manter queimando
por muito tempo: se queimasse, seria pouco. Quatro vezes, no caminho para a casa de
Anne-Marie, foi abordada por crianças pedindo dinheiro para comprar fogos. Os bolsos
estavam sem moedinhas de troco, quando chegou à porta da frente.
Anne-Marie estava lá dentro, embora não a recebesse com nenhum sorriso de boasvindas.
Simplesmente recebeu sua visita como se hipnotizada.
— Espero que não se incomode por eu ter vindo...
Anne-Marie não respondeu.
— ...Eu só queria dar uma palavrinha.
— Estou ocupada — a mulher finalmente anunciou. Não houve convite para entrar,
nem lhe foi oferecido chá.
— Bem... Não vai levar mais de um momento.
A porta dos fundos estava aberta, e o vento soprava casa adentro. Papéis voavam
no quintal. Helen podia vê-los alçando voo como imensas mariposas brancas.
— O que você quer? — perguntou Anne-Marie.
— Só quero perguntar sobre o velho.
A mulher franziu a testa por um momento. Ela parecia estar com enjoo, pensou
Helen: seu rosto tinha a cor e a textura de um pão azedo, os cabelos estavam oleosos
e desgrenhados.
— Que velho?
— Da última vez em que estive aqui, você me contou sobre um velho que foi
assassinado, lembra?
— Não.
— Você disse que ele vivia na quadra ao lado.
— Não me lembro — disse Anne-Marie.
— Mas você me disse com certeza...
Alguma coisa caiu no chão da cozinha e se quebrou. Anne- Marie estremeceu, mas
não se moveu do alpendre, seu braço barrando a entrada de Helen na casa. A entrada
estava atulhada com os brinquedos da criança, mordidos e quebrados.
— Você está bem?
Anne-Marie fez que sim. — Tenho trabalho para fazer — disse.
— E não se lembra de ter me falado do velho?
— Você deve ter entendido mal — replicou Anne-Marie, e, então, a voz baixa: —
Você não devia ter vindo. Todo mundo sabe.
— Sabe o quê?
A garota havia começado a tremer.
— Você não entende, não é? Pensa que as pessoas não estão vendo?
— O que importa? Eu só perguntei se...
— Não sei de nada — reiterou Anne-Marie. — O que quer que eu tenha dito a você,
foi mentira.
— Bom, obrigada de qualquer forma — respondeu Helen, perplexa demais com as
confusões de Anne-Marie para continuar insistindo. Mal se afastou da porta, ouviu a
trava se trancar atrás dela.
Aquela conversa foi apenas um dos vários desapontamentos que a manhã lhe
trouxe. Ela voltou à fileira de lojas e visitou o supermercado de que Josie havia falado.
Lá, perguntou sobre os lavatórios e sua história recente. O supermercado havia
mudado de dono no mês anterior, e o novo proprietário, um paquistanês taciturno,
insistia emei |q não sabia nada de quando ou por que os lavatórios haviam sido
fechados. Ela se deu conta, enquanto fazia suas investigações, de estar sendo
examinada pelos outros fregueses do estabelecimento; sentia-se como um pária. Essa
sensação se aprofundou quando, depois de deixar o supermercado, viu Josie
emergindo da lavanderia, e chamou-a só para ver a mulher apressar o passo e
mergulhar no labirinto de corredores. Helen foi atrás, mas rapidamente perdeu tanto
sua presa quanto o caminho.
Frustrada a ponto de derramar lágrimas, ela ficou ali entre os sacos de lixo
revirados e sentiu uma onda de desprezo por sua idiotice. Aquilo não era lugar para ela,
era? Quantas vezes, ela não criticara outros por sua presunção em afirmar
compreender sociedades que só tinham visto de longe? E lá estava ela, cometendo o
mesmo crime, indo ali com sua câmera e suas perguntas, usando as vidas (e as
mortes) dessa gente como alimento para conversas em reuniões. Não culpava Anne-
Marie por dar-lhe as costas; ela mereceria mais do que isso?
Cansada e com frio, decidiu que era hora de admitir que Purcell estava certo. Tudo
o que lhe contaram era ficção. Haviam brincado com ela — sentindo seu desejo de se
alimentar de alguns horrores — e ela, a perfeita idiota, caíra em toda conversa ridícula.
Era hora de pegar sua credulidade e ir para casa.
Mas precisava fazer uma coisa antes de voltar para o carro: queria dar uma última
olhada na cabeça pintada. Não como uma antropóloga entre uma tribo estranha, mas
assumidamente como quem pega um trem-fantasma: pela emoção da coisa. Chegando
ao número 14, entretanto, encarou o último e mais doloroso desapontamento. O
sobradinho havia sido fechado por escrupulosos funcionários da Prefeitura. A porta
estava trancada; a janela da frente, com tábuas.
Mas ela estava determinada a não se deixar derrotar tão facilmente. Deu a volta por
Butts' Court e localizou o quintal do número 14 por simples matemática. O portão
estava trancado por dentro, mas ela o forçou e, com esforço de ambas as partes, cie
se abriu. Uma pilha de lixo — tapetes mofados, uma caixa de revistas encharcadas de
chuva, uma árvore de Natal nua — havia bloqueado o portão.
Ela atravessou o quintal até as janelas com as tábuas, e olhou por entre os pedaços
de madeira. Não estava claro do lado de fora, mas era ainda mais escuro lá dentro; era
difícil perceber mais do que indícios vagos da pintura no quarto. Ela apertou o rosto
contra a madeira, ansiosa por uma percepção perfeita.
Uma sombra se moveu pelo quarto, momentaneamente bloqueando sua vista. Ela
recuou, espantada, sem ter certeza do que tinha visto. Talvez apenas sua própria
sombra, jogada contra a janela? Mas ela não havia se movido; a sombra, sim.
Tornou a se aproximar da janela, com mais cautela. O ar vibrava; ela podia ouvir um
gemido fraco vindo de algum lugar, embora não pudesse estar certa se vinha de dentro
ou de fora. Uma vez mais encostou o rosto nas tábuas ásperas, e subitamente algo
pulou na janela. Desta vez deixou escapar um grito. Ouviu um som de arranhões do
lado de dentro, unhas raspando a madeira.
Um cachorro! E dos grandes, para ter pulado tão alto.
— Estúpida — disse para si mesma, em voz alta. Estava molhada de um suor
repentino.
Os arranhões pararam quase no instante em que começaram, mas ela não
conseguiu voltar à janela. Obviamente, os operários que haviam fechado o sobrado não
o examinaram adequadamente, e encarceraram o animal por engano. Ele estava
faminto, a julgar pelos barulhos que tinha ouvido; estava feliz por não ter tentado entrar.
O cão — faminto, talvez meio louco na escuridão malcheirosa — poderia ter pulado em
sua garganta.
Ela olhava para a janela com tábuas. As frestas entre as tábuas não tinham mais
que um centímetro de largura, mas ela sentia que o animal estava em pé nas patas
traseiras, do outro lado, observando-a pela fresta. Podia ouvi-lo arfando, agora que sua
própria respiração estava se regularizando; podia ouvir suas garras arranhando o
alpendre.
— Desgraçado... — ela falou. — Bem feito para você.
Recuou na direção do portão. Colônias de pulgas e aranhas, perturbadas em seus
ninhos pelo movimento dos tapetes atrás do portão, corriam pelo chão, procurando
uma nova escuridão para servir de casa.
Ela fechou o portão atrás de si, e procurava voltar para a frente da propriedade,
quando ouviu as sirenes; duas espirais ameaçadoras de som que fizeram os pelos de
sua nuca se arrepiarem. Estavam se aproximando. Ela apressou o passo e deu a volta
em Butts' Court a tempo de ver vários policiais atravessando o gramado atrás da
fogueira e uma ambulância subindo pelo calçamento, indo até o outro lado do pátio. As
pessoas surgiam de seus apartamentos e olhavam de suas varandas. Outros andavam
pelo bloco, descaradamente curiosos, juntando-se a uma congregação cada vez maior.
Helen sentiu o estômago cair até os intestinos, quando se deu conta do ponto para
onde se voltava o interesse: a porta de Anne-Marie. A polícia abria caminho, através da
multidão, para os homens da ambulância. Um segundo carro de polícia seguira a rota
da ambulância até o calçamento; dois oficiais à paisana estavam saindo da casa.
Ela caminhou até a periferia da multidão. A pouca conversa que havia entre os
espectadores era conduzida em voz baixa; uma ou duas das mulheres mais velhas
choravam. Embora ela olhasse entre as cabeças dos espectadores, não conseguia ver
nada. Virando-se para um homem barbudo, cujo filho estava montado em seus ombros,
perguntou o que estava acontecendo. Ele não sabia. Alguém morrera, ele tinha ouvido,
mas não tinha certeza.
— Anne-Marie? — ela perguntou.
Uma mulher à sua frente se virou e perguntou: — Você conhece ela? — quase
apavorada, como se falasse de um ente querido.
— Um pouco — Helen replicou hesitante. — A senhora pode me dizer o que
aconteceu?
A mulher involuntariamente levou a mão à boca, como para impedir as palavras de
saírem. Mas elas apareciam assim mesmo: — A criança... — ela disse.
— Kerry?
— Alguém entrou na casa, pelos fundos. Cortaram sua garganta.
Helen sentiu o suor brotar novamente. Em sua mente, os jornais caíam sobre o
quintal de Anne-Marie.
— Não!!! —exclamou.
— Sem mais nem menos.
Ela olhou para a pessoa que estava tentando lhe vender a obscenidade e repetiu: —
Não. — Isso desafiava sua capacidade de acreditar; mas suas negações não podiam
silenciar o sentimento terrível que experimentava.
Deu as costas à mulher e afastou-se da multidão. Não havia nada para ver, ela
sabia, e, mesmo que houvesse, não tinha desejo de ver. Aquelas pessoas — que ainda
saíam de suas casas à medida que a história se espalhava — exibiam um apetite que a
enojava. Ela não era uma delas; jamais seria uma delas. Queria encher de tapas cada
rosto ansioso e fazê-lo voltar a si; queria dizer: "Vocês estão espionando dor e tristeza.
Por quê? Por quê?" Mas não tinha mais coragem. O nojo só lhe deixara energia
suficiente para sair dali, deixando a multidão com seu esporte.
Trevor havia voltado para casa. Não tentou explicar sua ausência, mas esperou que
ela o interrogasse. Como ela não o fez, ele afundou numa bonomia tranquila que era
pior do que seu silêncio expectante. Ela mal se deu conta de que seu desinteresse era
provavelmente mais perturbador, para ele, do que o histrionismo que esperava da parte
dela. Mas ela não podia ter se importado menos.
Helen sintonizou o rádio na estação local e aguardou o noticiário. As notícias
apareceram, sem dúvida, confirmando o que a mulher na multidão lhe dissera. Kerry
Latimer estava morto. Uma pessoa ou pessoas desconhecidas haviam chegado a casa
e matado a criança enquanto ela brincava no chão da cozinha. Um porta-voz da polícia
disse os lugares-comuns de sempre, descrevendo a morte de Kerry como um "crime
indizível", e o assassino como "um indivíduo perigoso e profundamente perturbado". Até
que daquela vez a retórica pareceu justificada, e a voz do homem emocionou-se
perceptivelmente quando falou da cena que os policiais haviam encontrado na cozinha
da casa de Anne-Marie.
— Por que o rádio? — Trevor perguntou casualmente, depois que Helen já havia
escutado três boletins de notícias consecutivos. Ela não via por que esconder de Trevor
sua experiência na Rua Spector; ele descobriria mais cedo ou mais tarde. Friamente,
ela lhe deu um resumo, por alto, do que havia acontecido em Butts' Court.
— Essa Anne-Marie é a mulher que você conheceu primeiro quando foi até o
conjunto, estou certo?
Ela fez que sim com a cabeça, esperando que ele não fizesse muitas perguntas.
Estava perto de chorar, e não tinha intenção de desabar na frente dele.
— Então você estava certa — ele reconheceu.
— Certa?
— Sobre ter um louco naquele lugar.
— Não — ela respondeu. — Não.
— Mas o garoto...
Ela se levantou e ficou na janela, olhando do segundo andar para a rua escura lá
embaixo. Por que ela sentia a necessidade de rejeitar a teoria conspiratória de forma
tão urgente? Por que rezava agora para que Purcell estivesse correto, e que tudo o
que ouvira daquela gente eram mentiras? Ela voltava sempre a Anne- Marie como ela
estava quando a visitara naquela manhã: pálida, trêmula; na expectativa. Ela havia se
comportado como quem esperava uma chegada, não havia?, louca para afastar
visitantes indesejados para que pudesse voltar à tarefa de esperar. Mas esperar o quê,
ou quem? Seria possível que Anne-Marie realmente conhecesse o assassino? Teria
talvez o convidado a entrar na casa?
— Espero que achem o filho da puta — ela aduziu, ainda olhando a rua.
— Acharão — replicou Trevor. — Um assassino de bebês, pelo amor de Deus! Vão
dar grande prioridade a isso.
Um homem apareceu na esquina da rua, virou-se e assoviou. Um enorme cão
alsaciano apareceu correndo, e os dois partiram na direção da catedral.
— O cachorro — murmurou Helen.
— O quê?
Com tudo o que acontecera, ela havia esquecido o cachorro. Agora, o choque que
ela sentira, quando o cão pulara na janela, a sacudia novamente.
— Que cachorro? — Trevor indagou.
— Voltei ao apartamento hoje, onde tirei as fotos dos grafites. Havia um cachorro lá.
Trancado.
— E daí?
— Vai morrer de fome. Ninguém sabe que ele está lá.
— Como sabe que ele não estava trancado para proteção?
— Estava fazendo um barulho tão grande... — ela acrescentou.
— Cães latem — replicou Trevor. — E para isso que servem.
— Não... — ela disse bem baixinho, lembrando-se dos barulhos através da janela
com tábuas. — Ele não latiu...
— Esqueça o cão — pediu Trevor. — E a criança. Você não pode fazer nada a
respeito. Estava só de passagem.
As palavras dele apenas refletiam seus próprios pensamentos do começo do dia,
mas de algum modo — por motivos que ela não conseguia definir com palavras — essa
convicção havia enfraquecido nas últimas horas. Ela não estava simplesmente de
passagem. Ninguém jamais simplesmente passava-, a experiência sempre deixava suas
marcas. As vezes, ela apenas arranhava; outras vezes, arrancava pedaços. Helen não
sabia a extensão de sua ferida atual, mas sabia que era mais funda do que podia ver, e
isso a deixava com medo.
— Estamos sem bebida — ela reconheceu, esvaziando as últimas gotas de uísque
em seu copo.
Trevor parecia satisfeito por ter um motivo para ser útil. — Vou sair então, ok?
Posso comprar uma garrafa ou duas?
— Claro — ela respondeu. — Se você quiser.
Ele só esteve fora meia hora; ela gostaria que ele tivesse se ausentado por mais
tempo. Não queria conversar, só ficar sentada e pensar enquanto o mal-estar em seu
estômago não passava. Embora Trevor tivesse feito sua preocupação pelo cachorro se
dissipar — e talvez justificadamente —, ela não conseguiu deixar de voltar, em
pensamento, ao sobrado trancado: retratar novamente o rosto enfurecido na parede do
quarto e ouvir o ganido abafado do animal arranhando com as patas as tábuas da
janela. Não importava o que Trevor tivesse dito, ela não acreditava que o lugar
estivesse sendo usado como um canil improvisado. Não, o cachorro estava aprisionado
ali, sem dúvida, correndo em círculos, levado, em seu desespero, a comer as próprias
fezes, ficando cada vez mais louco a cada hora que passava. Ela ficou com medo de
que alguém — crianças, talvez, procurando mais madeiras para sua fogueira —
invadisse o lugar, ignorando o que ele continha. Não que ela temesse pela segurança
dos invasores, mas que o cão, uma vez libertado, viesse atrás dela. Ele saberia onde
ela estava (assim sua cabeça embriagada imaginava) e, farejando-a, viria até ali.
Trevor voltou com o uísque e beberam juntos até de madrugada, quando o
estômago dela começou a revirar. Ela se refugiou no banheiro — Trevor do lado de
fora, perguntando se ela precisava de alguma coisa, ela dizendo, fraca, para que a
deixasse sozinha. Quando uma hora depois ela saiu, Trevor havia ido para a cama. Ela
não se juntou a ele, mas deitou-se no sofá e cochilou até o amanhecer.
O assassinato virou notícia. Na manhã seguinte saiu na primeira página de todos os
tabloides e também em posições proeminentes nos grandes jornais. Havia fotografias
da mãe transtornada sendo levada da casa, e outras, borradas mas expressivas,
tiradas sobre o muro do quintal e pela porta aberta da cozinha. Aquilo no chão era
sangue, ou uma sombra?
Helen não se incomodou em ler os artigos — sua cabeça dolorida rebelava-se
contra o pensamento —, mas Trevor, que trouxera os jornais, estava ansioso para
conversar. Ela não sabia definir se isso era uma tentativa dele de fazer as pazes, ou
um interesse genuíno pelo assunto.
— A mulher está sob custódia — ele afirmou, a cara enfiada no Daily Telegraph. Era
um jornal ao qual ele tinha aversão, politicamente, mas sua cobertura de crimes
violentos era notoriamente detalhista.
A observação exigiu a atenção de Helen, quisesse ela ou não. — Custódia? —ela
perguntou. —Anne-Marie?
— Sim.
— Deixe eu ver.
Ele passou o jornal e ela olhou de relance a página.
— Terceira coluna — ajudou Trevor.
Ela achou o lugar, e lá estava, preto no branco. Anne-Marie fora levada sob custódia
para um interrogatório com o fim de esclarecer o lapso de tempo entre a hora estimada
da morte da criança e a hora em que fora comunicada. Helen leu as frases relevantes
mais uma vez, para ter certeza de que havia entendido direito. Sim, tinha. O patologista
da polícia estimava que Kerry morrera entre seis e seis e meia daquela manhã; o
assassinato não havia sido relatado até as doze.
Ela leu o relatório uma terceira e uma quarta vez, mas a repetição não fez nada para
alterar os fatos horríveis. A criança havia sido assassinada antes do amanhecer.
Quando ela fora a casa naquela manhã, Kerry já estava morto há quatro horas. O
corpo ficara na cozinha, a poucos passos de onde ela havia estado, e Anne-Marie não
dissera nada. Aquele ar de expectativa que ela tinha — o que significava aquilo? Que
ela esperava alguma deixa para pegar o telefone e chamar a polícia?
— Meu Deus... — exclamou Helen, e deixou o jornal cair.
— Que foi?
— Preciso ir à polícia.
— Por quê?
— Para dizer a eles que estive na casa — ela replicou. Trevor parecia bestificado. —
O bebê estava morto, Trevor. Quando vi Anne-Marie ontem de manhã, Kerry já estava
morto.
Ela discou o número dado pelo jornal para qualquer pessoa que fornecesse
informações, e meia hora depois um carro da polícia veio apanhá-la. Muita coisa a
surpreendeu nas duas horas de interrogatório que se seguiram, não menos o fato de
que ninguém relatara sua presença no conjunto à polícia, embora ela certamente
tivesse sido percebida.
— Eles não querem saber — o detetive lhe disse. — Você deve achar que um lugar
daqueles está cheio de testemunhas. Se está, elas não estão aparecendo. Um crime
desses...
— É o primeiro? — ela perguntou.
Ele olhou para ela por sobre uma mesa caótica. — Primeiro?
— Me contaram algumas histórias sobre o conjunto. Assassinatos. Neste verão.
O detetive balançou a cabeça.
— Não que eu saiba. Houve uma série de assaltos; uma mulher ficou no hospital por
uma ou duas semanas. Mas assassinatos, não.
Ela gostou do detetive. Os olhos dele a lisonjeavam com um olhar penetrante, e seu
rosto denotava franqueza. Longe de ligar se pareceria tola ou não, ela comentou: —
Por que eles contam mentiras assim? Sobre pessoas com os olhos arrancados. Coisas
terríveis.
O detetive coçou o nariz comprido.
— Nós ouvimos isso também — ele admitiu. —Pessoas vêm aqui, confessam todo
tipo de merda. Alguns falam a noite toda sobre coisas que fizeram, ou pensam que
fizeram. Contam tudo para você nos mínimos detalhes. E quando você dá alguns
telefonemas, descobre que é tudo inventado. Saiu das cabeças deles.
— Talvez se eles não contassem as histórias... acabariam fazendo as coisas,
realmente.
O detetive assentiu. — Sim — ele respondeu. — Deus nos ajude. Você pode ter
razão.
E as histórias que haviam contado a ela? Seriam confissões de crimes não
cometidos? Relatos das piores coisas, imaginados para impedir que a ficção se
tornasse realidade? O pensamento corria atrás de sua própria cauda: essas terríveis
histórias ainda precisavam de uma primeira causa, uma fonte a partir da qual elas
brotavam. Enquanto atravessava as ruas cheias a caminho de casa, perguntou-se
quantas pessoas poderiam conhecer essas histórias. Seriam as invenções uma moeda
comum, como Purcell havia dito? Haveria um lugar, por menor que fosse, reservado em
cada coração para o monstruoso?
— Purcell ligou — Trevor a informou quando ela chegou em casa. — Nos convidando
para jantar fora.
O convite não foi bem-vindo, e ela fez uma careta.
—Appollinaires, já esqueceu? — ele lembrou-a. — Ele disse que nos levaria a todos
para jantar, se você provasse que ele estava errado.
O pensamento de ganhar um jantar às custas da morte do filho de Anne-Marie era
grotesco, e ela disse o que pensava.
— Ele vai ficar ofendido, se você recusar.
— Estou pouco ligando. Não quero jantar com Purcell.
— Por favor — ele interveio com suavidade. — Ele pode ficar difícil, e eu quero
mantê-lo sorrindo nesse momento.
Ela olhou para ele. O olhar que ele exibia o fazia parecer um cocker spaniel
encharcado. Manipulador filho da puta, ela pensou; mas afirmou: — Tudo bem, eu vou.
Mas não espere que eu saia dançando em cima das mesas.
— Deixamos isso por conta do Archie — ele falou. — Eu disse a Purcell que
estávamos livres amanhã à noite. Está bom para você?
— Tanto faz.
— Ele reservou uma mesa para as oito horas.
Os jornais noturnos haviam relegado A Tragédia do Bebê Kerry a poucos
centímetros de coluna numa página interna. Devido a tantas notícias novas, os
jornalistas simplesmente descreviam as investigações de casa em casa que se
desenrolavam agora na Rua Spector. Algumas das últimas edições mencionavam que
Anne-Marie fora solta depois de um extenso período de interrogatórios, e estava agora
morando com amigos. Também mencionaram, de passagem, que o funeral seria no dia
seguinte.
Helen não alimentava qualquer pensamento de voltar à Rua Spector para o funeral,
quando foi para a cama naquela noite, mas o sono aparentemente a fez mudar de
ideia, e acordou com uma decisão já tomada.
A morte dera vida ao conjunto habitacional. Andando da rua até Ruskin Court, ela
nunca havia visto tanta gente circulando por ali. Muitos já estavam se enfileirando ao
longo do meio-fio para ver o cortejo funeral passar, e pareciam ter apanhado os
lugares cedo, apesar do vento e da ameaça de chuva sempre presente. Alguns vestiam
peças de roupas pretas — um casaco, um cachecol — mas a impressão geral, apesar
das vozes baixas e das testas estudadamente franzidas, era de celebração. Crianças
correndo, intocadas pela reverência; gargalhadas ocasionais escapando de adultos que
faziam fofocas — Helen podia sentir um ar de expectativa que fez seu estado de
espírito, apesar da ocasião, tornar-se quase tranquilo.
Mas não era a presença de tanta gente que a reconfortava, ela admitia, feliz de estar
de volta à Rua Spector. Os pátios, com suas arvorezinhas tortas e grama cinzenta,
eram mais reais para ela do que os corredores acarpetados pelos quais costumava
andar; os rostos anônimos nas varandas e ruas significavam mais que seus colegas na
Universidade. Numa palavra, ela se sentia em casa.
Por fim, apareceram os carros, andando em marcha de tartaruga pelas ruas
estreitas. Quando o féretro apareceu — seu caixãozinho branco coberto de flores —,
várias mulheres na multidão manifestaram sua tristeza em silêncio. Uma espectadora
desmaiou; um grupinho de pessoas ansiosas se agrupou ao seu redor. Até as crianças
estavam quietas agora.
Olhos secos, Helen observava. As lágrimas não lhe vinham com facilidade,
especialmente na companhia de outros. Quando o segundo carro, conduzindo Anne-
Marie e duas outras mulheres, emparelhou com ela, viu que a mãe perturbada também
estava dispensando qualquer manifestação pública de pesar. Ela parecia, na verdade,
quase honrada por estar participando, sentada ereta no banco de trás do carro, as
feições pálidas, como se fosse a fonte de muita admiração. Era um pensamento
amargo, mas Helen sentia como se estivesse vendo o melhor momento de Anne-Marie;
o único dia numa vida de outro modo anônima em que ela era o centro das atenções.
Lentamente, o cortejo passou, e desapareceu.
A multidão ao redor de Helen já se dispersava. Ela se separou das poucas pessoas
que ainda permaneciam se lamentando no meio-fio e atravessou a rua até Butts' Court.
Era sua intenção voltar ao sobrado trancado, para ver se o cachorro ainda estava lá.
Se estivesse, ela descansaria a cabeça, e se encontrasse algum zelador do lugar o
informaria sobre o fato.
O pátio estava, ao contrário de outros pontos, praticamente vazio. Talvez os
residentes, sendo vizinhos de Anne-Marie, tivessem ido ao crematório para o serviço.
Qualquer que fosse a razão, o lugar estava assustadoramente deserto. Somente as
crianças permaneciam brincando ao redor da pirâmide da fogueira, suas vozes
ecoando pela extensão vazia da quadra.
Alcançou o sobrado e ficou surpresa ao descobrir a porta novamente aberta, como
da primeira vez em que ali estivera. A visão do interior fez sua cabeça ficar mais leve.
Quantas vezes, nos últimos dias, imaginara estar ali, olhando para aquela escuridão?
Não vinha nenhum som lá de dentro. O cão fugira, sem dúvida; ou então morrera. Não
poderia haver nenhum mal — poderia? — em entrar no lugar uma última vez, só para
olhar o rosto na parede e a frase que o acompanhava.
Doces para um doce. Ela nunca procurou saber as origens da frase. Não importa,
pensou. O que quer que a frase tivesse significado um dia, ali se transformava, como
tudo o mais; ela inclusive. Helen ficou na sala da frente por alguns momentos,
procurando ganhar tempo para saborear o confronto adiante. Muito atrás dela, as
crianças soltavam gritinhos agudos como se fossem pássaros loucos.
Ela passou por cima de um amontoado de móveis e entrou no pequeno corredor que
ligava a sala de estar ao quarto, ainda adiando o momento. Seu coração batia
acelerado: um sorriso brincava em seus lábios.
E pronto! Finalmente! O retrato estava ali, penetrante como sempre. Ela recuou na
penumbra da sala para admirá-lo mais completamente, e seu salto prendeu-se ao
colchão que ainda estava no canto. Olhou para baixo. A cama esquálida fora virada,
para mostrar sua face intacta. Alguns cobertores e um travesseiro em frangalhos
haviam sido jogados sobre ela. Alguma coisa brilhava entre as dobras do primeiro
cobertor. Abaixou-se para olhar mais de perto e descobriu ali um punhado de doces —
chocolates e caramelos — embrulhados em papel brilhante. E, jogadas entre eles, nem
tão atraentes nem tão doces, uma dezena de navalhas. Havia sangue em várias. Ela
tornou a se levantar e afastou-se do colchão, e ao fazer isso um zumbido na sala ao
lado alcançou seus ouvidos. Ela se virou, e a luz no quarto diminuiu quando uma figura
entrou no espaço entre ela e o mundo exterior. Recortada contra a luz, ela mal pôde
ver o homem na porta, mas sentiu seu cheiro. Ele tinha cheiro de algodão-doce; e o
zumbido estava com ele, ou nele.
— Eu só vim ver. — ela disse — ...o desenho.
O zumbido continuou: o som de uma tarde sonolenta, longe dali. O homem na porta
não se mexeu.
— Bom... — ela disse. —Já vi o que vim ver. — Esperava em vão que suas palavras
o levassem prontamente a andar para o lado e deixá-la passar, mas ele não se moveu,
e ela não conseguia encontrar a coragem de desafiá-lo, andando na direção da porta.
— Preciso ir — ela falou, sabendo que, apesar de seus melhores esforços, o medo
vazava por entre cada sílaba. — Estão me esperando...
Isso não era inteiramente falso. Aquela noite, todos estavam convidados para jantar
no Appollinaires. Mas não seria antes das oito, e ainda faltavam quatro horas. Ninguém
sentiria sua falta por um bom tempo.
— Se você me der licença — ela pediu.
O zumbido havia parado um momento, e no silêncio o homem na porta falou. Sua
voz sem sotaque era quase tão doce quanto seu cheiro.
— Não precisa ir embora ainda — ele disse baixinho.
— Tenho que estar... que estar...
Embora não pudesse ver seus olhos, ela os sentia, e esses olhos a faziam se sentir
tonta, como aquele verão que zunia em sua cabeça.
— Eu vim para você — ele disse.
Ela repetiu as quatro palavras mentalmente. Eu vim para você. Se eram uma
ameaça, certamente não haviam sido pronunciadas como tal.
— Eu não... conheço você — ela confessou.
— Não — o homem murmurou. — Mas você duvidou de
mim.
— Duvidei?
— Você não se satisfez com as histórias, com o que escreveram nas paredes. Então
fui obrigado a vir.
A tontura fazia sua mente tornar-se lenta, mas ela entendeu o essencial do que o
homem estava dizendo. Que ele era uma lenda, e ela, ao não crer nele, obrigara-o a se
mostrar. Olhou para as mãos dele. Uma delas estava faltando. Em seu lugar, um
gancho.
— Haverá alguma culpa — ele disse. — Vão dizer que suas dúvidas derramaram
sangue inocente. Mas eu digo: para que serve o sangue, se não para ser derramado?
E daqui a algum tempo, as investigações acabarão. A polícia sairá daqui, as câmeras
serão apontadas para algum novo horror, e as pessoas ficarão sozinhas para tornar a
contar histórias do Homem dos Doces.
— Homem dos Doces? — ela perguntou. Sua língua mal conseguia formar essa
palavra inocente.
— Eu vim para você — ele murmurou tão suavemente que a sedução parecia estar
no ar. E, dizendo isso, saiu da passagem e se deixou iluminar.
Ela o conhecia, sem dúvida. Ela o havia conhecido o tempo todo, naquele lugar
guardado para terrores. Era o homem na parede. A pessoa que lhe pintara o retrato
não era fantasista: o retrato que uivava sobre ela coincidia, em cada extraordinário
detalhe, com o homem em que ela agora punha os olhos. Ele brilhava a ponto de ser
espalhafatoso: sua carne, um amarelo pálido; seus lábios finos, um azul-claro; seus
olhos selvagens, reluzentes como se suas íris contivessem rubis incrustados. Sua
jaqueta parecia feita de retalhos; as calças, a mesma coisa. Ele parecia quase ridículo,
pensou ela, com sua roupa de bufão manchada de sangue e o indício de ruge nas
faces marcadas. Mas as pessoas eram superficiais. Precisavam desses espetáculos e
engodos para conservar seu interesse. Milagres; assassinatos; demônios expulsos e
pedras roladas de tumbas. O glamour barato não anulava a sensação que havia por
baixo. Era apenas, na história natural da mente, os penachos brilhantes que atraíam a
espécie a se acasalar com seu lado secreto.
E ela estava quase encantada. Por sua voz, por suas cores, pelo zumbido que vinha
de seu corpo. Mas lutou para resistir ao encantamento. Havia um monstro ali, debaixo
daquele visual cativante; seu ninho de navalhas estava a seus pés, ainda ensopado de
sangue. Ele hesitaria em rasgar sua garganta, se pusesse as mãos nela?
Quando o Homem dos Doces avançou em sua direção, ela se abaixou e levantou o
cobertor, jogando-o em cima dele. Uma chuva de navalhas e doces caiu ao redor de
seus ombros. O cobertor foi atrás, cegando-o. Mas antes que ela pudesse aproveitar o
momento para escapar, passando pelo homem, o travesseiro que estava sobre o
cobertor rolou à frente dela.
Não era um travesseiro. O que quer que estivesse no caixãozinho branco, que ela
vira no carro do funeral, não era o corpo do Bebê Kerry. Ele estava ali, a seus pés, o
rosto sem sangue virado para ela. Estava nu. Todo o corpo mostrava sinais da ação do
monstro.
Nos dois segundos que levou para registrar esse último horror, o Homem dos Doces
jogou o cobertor para um lado. Na luta para fugir de suas dobras, seu paletó havia
desabotoado, e ela viu — embora seus sentidos protestassem — que o conteúdo de
seu tronco havia apodrecido e o oco estava agora ocupado por um ninho de abelhas.
Elas enxameavam em sua caixa torácica e agarravam-se, numa massa fervilhante, aos
restos de carne que haviam ali. Ele sorriu com a repugnância explícita dela.
— Doces para um doce — ele murmurou, e estendeu a mão com o gancho na
direção do rosto dela. Helen não conseguia mais ver a luz do mundo exterior, nem ouvir
as crianças brincando em Butts' Court. Não havia como fugir para aquele mundo
saudável. O Homem dos Doces ocupava toda a sua visão; seus braços cansados não
tinham forças para mantê-lo afastado.
— Não me mate — ela disse num sopro.
— Você acredita em mim? — ele perguntou.
Ela assentiu na hora. — Como poderia não acreditar? — respondeu.
— Então por que quer viver?
Ela não entendia, e estava com medo de que sua ignorância viesse a ser fatal;
portanto, não disse nada.
— Se você aprendesse — continuou o monstro — só um pouquinho comigo... você
não imploraria para viver. —A voz dele caíra para um sussurro. — Eu sou um boato —
ele cantou no ouvido dela. — E uma condição abençoada, acredite em mim. Viver nos
sonhos das pessoas; ser sussurrado nos cantos das ruas; mas não ter de existir. Você
entende?
Seu corpo cansado entendia. Seus nervos, cansados de tremer, entendiam. A
doçura que ele oferecia era vida sem viver; era estar morta, mas lembrada em toda
parte; imortal em fofocas e grafites.
— Seja minha vítima — ele pediu.
— Não... — ela murmurou.
— Não vou forçar você — ele replicou, o perfeito cavalheiro. — Não vou obrigar você
a morrer. Mas pense; pense. Se eu matar você aqui... Se eu usar meu gancho em
você... — ele traçou o caminho da ferida prometida com seu gancho. Ia da virilha ao
pescoço. — Pense como este lugar ficaria marcado pelos comentários... Apontariam
para ele quando passassem e diriam: "Ela morreu aqui; a mulher de olhos verdes." Sua
morte seria uma parábola para assustar crianças. Amantes a usariam como desculpa
para ficarem mais agarradinhos...
Ela estava certa: aquilo era uma sedução.
— A fama algum dia foi tão fácil? —ele perguntou.
Ela balançou a cabeça.
— Preferia ser esquecida — ela replicou — do que lembrada dessa forma.
Ele deu de ombros.
— O que os bons sabem? — ele indagou. —A não ser o que os maus os ensinam
através de seus excessos? — Levantou a mão do gancho. — Eu disse que não
obrigaria você a morrer e cumpro minha palavra. Mas me permita ao menos um beijo...
Aproximou-se. Ela murmurou alguma ameaça sem sentido, que ele ignorou. O
zumbido em seu corpo havia aumentado de volume. O pensamento de ter o corpo
tocado, da proximidade dos insetos, era horrível. Ela forçou seus braços pesadíssimos
a se erguerem para mantê-lo afastado.
O rosto lúgubre do homem refletia o retrato na parede. Ela não conseguia tocá-lo, e
em vez disso recuou. O som das abelhas aumentou; algumas, em sua excitação,
haviam subido pela garganta dele e saíam voando de dentro de sua boca. Andavam
sobre seus lábios; em seus cabelos.
Ela implorou repetidamente para deixá-la em paz, mas isso ele não faria. Por fim,
ela não tinha mais para onde fugir; a parede estava às suas costas. Defendendo-se
das picadas, pôs as mãos no peito fervilhante dele e o empurrou. Ao fazer isso, a mão
dele, num relance, envolveu sua nuca, o gancho arranhando a pele avermelhada de sua
garganta. Ela sentiu o sangue surgir; teve a certeza de que ele abriria sua jugular num
corte terrível. Mas a criatura havia dado sua palavra: e era pra valer.
Excitadas por essa súbita atividade, as abelhas espalhavam-se por toda parte. Ela
as sentia andando em seu corpo, buscando pedaços de cera em seu ouvido e açúcar
em seus lábios. Não tentou afastá-las. O gancho estava em seu pescoço. Se ela se
movesse um pouco, ele a feriria. Estava aprisionada, como em seus pesadelos da
infância, com todas as chances de fuga impossibilitadas. Quando o sono lhe trazia
tamanha desesperança — demônios por todo lado, esperando para rasgá-la membro a
membro —, um truque permanecia. Deixar rolar; desistir de toda ambição à vida e
entregar o corpo às trevas. Agora, com o rosto do Homem dos Doces colado ao dela,
e o som de abelhas mais forte do que sua respiração, jogou essa cartada escondida.
E, tão certo quanto nos sonhos, a sala e o monstro desapareceram.
Ela despertou da claridade para a escuridão. Houve vários momentos de pânico em
que não conseguia lembrar-se de onde estava, e depois vários outros em que se
lembrou. Mas seu corpo não sentia dor. Levou a mão ao pescoço; afora o arranhão do
gancho, estava intocado. Percebeu que se encontrava deitada no colchão. Será que
havia sido atacada enquanto jazia desmaiada? Desajeitada, investigou seu corpo. Não
estava sangrando; suas roupas não estavam rasgadas. Ao que parecia, o Homem dos
Doces simplesmente cobrara seu beijo.
Sentou-se. Uma luz fraca, precisa, passava pelas tábuas da janela — e nenhuma
pela porta da frente. Talvez estivesse fechada, raciocinou. Mas não; mesmo agora,
ouvia alguém sussurrando no umbral. Uma voz de mulher.
Não se mexeu. Aquela gente era doida. Sabiam o tempo todo o que a presença dela
em Butts' Court invocara e haviam protegido a ele — aquele psicopata melífluo; haviam
dado a ele uma cama e uma oferenda de bombons, escondendo-o de olhos curiosos, e
haviam mantido silêncio, quando ele trouxe sangue às suas portas. Até mesmo Anne-
Marie, os olhos secos no corredor de sua casa, sabia que seu filho estava morto a
poucos passos.
A criança! Era a prova de que ela precisava. De algum modo, eles haviam
conspirado para tirar o corpo do caixão (pelo que o haviam substituído... por um
cachorro morto?) e o levado até ali
— ao tabernáculo do Homem dos Doces — como um brinquedo, ou um amante. Ela
levaria o Bebê Kerry consigo — até a polícia
— e contaria toda a história. Acreditassem ou não — e provavelmente acreditariam
muito pouco —, o corpo da criança era um fato incontestável. Dessa forma, pelo
menos, alguns dos loucos sofreriam por sua própria conspiração. Sofreriam pelo
sofrimento dela.
Os sussurros na porta haviam parado. Agora, alguém estava andando na direção do
quarto. Não trazia luz consigo. Helen encolheu-se, esperando não ser vista.
Uma figura apareceu à porta. A penumbra era por demais impenetrável para que ela
pudesse distinguir mais do que uma figura magra, que se curvou e apanhou um saco no
chão. Uma cascata de cabelos louros identificou a recém-chegada como Anne-Marie: o
saco que apanhava era sem dúvida o cadáver de Kerry. Sem olhar na direção de
Helen, a mulher deu meia-volta e saiu do quarto.
Helen ouviu os passos sumirem na sala de estar. Rapidamente se levantou e foi até
o corredor. Dali, pôde ver vagamente a silhueta de Anne-Marie na porta do sobrado.
Nenhuma luz brilhava no pátio, adiante. A mulher desapareceu e Helen acompanhou-a o
mais rápido que pôde, os olhos fixos na porta da frente.
Tropeçou uma, duas vezes, mas alcançou a porta a tempo de ver a forma vaga de
Anne-Marie na noite lá fora.
Saiu do sobrado para o céu aberto. Estava frio; não havia estrelas. Todas as luzes
nas varandas e corredores estavam apagadas, e nenhuma luz brilhava nos
apartamentos; nem mesmo o brilho de uma televisão. Butts' Court estava deserta.
Ela hesitou antes de sair em perseguição à garota. Por que não ia embora agora —
a covardia a tentava — e tentava achar o caminho de volta para o carro? Mas se
fizesse isso, os conspira- dores teriam tempo de ocultar o corpo da criança. Quando
voltasse ali com a polícia, haveria lábios fechados e dar de ombros, e diriam que ela
havia imaginado o cadáver e o Homem dos Doces. Todos os terrores que ela havia
provado voltariam a ser simples rumores; as palavras numa parede. E a cada dia que
vivesse, dali em diante, se odiaria por não ter perseguido a sanidade.
Ela seguiu. Anne-Marie não estava contornando o pátio, mas andava direto para o
centro do gramado no meio da quadra. Para a fogueira! Sim; para a fogueira! Ela
agora se avolumava na frente de Helen, mais negra que o céu da noite. Helen só
conseguia distinguir os contornos da figura de Anne-Marie, andando até o limite das
tábuas e móveis de madeira empilhados, e abai- xando-se para subir até seu coração.
Era assim que ela planejava remover a prova. Enterrar a criança não trazia certeza
suficiente; mas cremá-la, e moer os ossos — quem jamais saberia?
Ela ficou a uns quinze metros da pirâmide e viu Anne-Marie sair dali e se afastar,
curvando sua figura na escuridão.
Rapidamente, Helen atravessou o longo gramado e localizou o espaço estreito entre
as tábuas empilhadas dentro do qual Anne-Marie havia colocado o corpo. Pensou ver a
forma pálida; havia sido colocada num oco. Mas não conseguia alcançá-la. Dando
graças a Deus por ser magra como a mãe, enfiou-se pela abertura estreita. Seu
vestido prendeu num prego. Virou-se para soltá-lo, os dedos tremendo. Quando tornou
a se voltar, perdeu o cadáver de vista.
Tateou cegamente à sua frente, as mãos encontrando madeira e trapos e o que
parecia o encosto de uma velha poltrona, mas não a pele fria da criança. Havia se
preparado, tornando-se fria, para o contato com o corpo: suportara coisa pior nas
últimas horas do que tocar num bebê morto. Determinada a não se deixar derrotar,
avançou mais um pouco, os joelhos ralados e os dedos espetados por farpas. Pontos
de luz apareciam nos cantos de seus olhos doloridos; o sangue zunia em seus ouvidos.
Mas ali!, ali!, o corpo não estava a mais de um metro e meio à sua frente. Abaixou-se
para esticar a mão por baixo de uma viga de madeira, mas seus dedos erraram o
trapinho abandonado por milímetros. Estendeu a mão ainda mais, o zumbido na cabeça
aumentando, mas ainda não conseguia alcançar a criança. Tudo o que podia fazer era
se dobrar ao meio e se espremer dentro do buraquinho que as crianças haviam deixado
no centro da fogueira.
Foi difícil passar. O espaço era tão pequeno que ela mal conseguia rastejar; mas
conseguiu. A criança estava com o rosto para baixo. Ela lutou contra os restos da
própria repugnância e foi apanhá-la. Ao fazer isso, algo pousou em seu braço. O
choque a sacudiu. Quase soltou um grito, mas reprimiu o impulso e afastou a irritação.
A coisa zumbiu quando saiu de sua pele. O zumbido que sentira nos ouvidos não era
seu sangue, mas a colmeia.
— Eu sabia que você vinha — disse a voz que chegava por trás, e uma mão enorme
passou por seu rosto. Ela caiu para trás e o Homem dos Doces a abraçou.
— Precisamos ir — ele afirmou em seu ouvido, entre fragmentos de luz que se
derramavam pelas tábuas empilhadas. — Está na hora de irmos embora, você e eu.
Ela lutou para se livrar dele, querendo gritar para que não acendessem a fogueira,
mas ele a agafrou com carinho. A luz aumentou, e com ela veio o calor; e, por entre as
madeiras e as primeiras chamas, Helen podia ver figuras se aproximando da pira,
saindo da escuridão de Butts' Court. Todos estiveram ali o tempo todo: esperando, as
luzes apagadas em suas casas, e quebradas ao longo dos corredores. A conspiração
final.
A fogueira se acendeu quase sozinha, mas por algum truque de construção as
chamas não invadiram seu esconderijo rapidamente; tampouco a fumaça penetrou entre
os móveis para sufocá-la. Ela era capaz de ver como os rostos das crianças brilhavam;
como os pais as chamavam para que não chegassem perto demais, e como elas
desobedeciam; como as velhas, de sangue fino, esquentavam as mãos e sorriam para
as chamas. O rugido e o crepitar se tornaram ensurdecedores, e o Homem dos Doces
deixou que ela gritasse até ficar rouca, com a certeza de que ninguém a ouviria; e,
mesmo que ouvissem, não teriam se movido para tirá-la do fogo.
As abelhas saíam da barriga do monstro à medida que o ar ficava mais quente, e
enchiam o ar com um voo apavorado. Algumas, tentando fugir, pegavam fogo e caíam
ao chão como pequenos meteoros. O corpo do Bebê Kerry, que jazia perto das
chamas crepitantes, começou a cozinhar. Seus cabelos finos queimaram, suas costas
encheram-se de bolhas.
Logo o calor desceu pela garganta de Helen e chamuscou seus pedidos de socorro.
Ela afundou, exausta, nos braços do Homem dos Doces, resignada com o triunfo dele.
Em momentos, todos estariam indo embora, como ele havia prometido, e não haveria
ajuda para impedir isso.
Talvez eles se lembrassem dela, como o homem dissera que poderiam, encontrando
seu crânio rachado nas cinzas do amanhã. Talvez ela pudesse se tornar, em breve,
uma história para apavorar crianças. Ela havia mentido, dizendo que preferia a morte a
uma fama questionável; não preferia. Quanto a seu sedutor, ele gargalhou quando a
conflagração as afastou. Não havia permanência para ele naquela noite da morte. Seus
feitos estavam numa centena de paredes e num milhão de lábios; e, se duvidassem
dele novamente, sua congregação poderia invocá-lo com doces. Tinha motivos para
gargalhar. E, enquanto as chamas avançavam sobre eles, ela avistou, através do fogo,
um rosto familiar passando por entre os espectadores. Era Trevor. Ele deixara sua
refeição no Appollinaires para vir procurá-la.
Ela o viu fazendo perguntas a este e aquele espectador da fogueira, mas eles
balançavam as cabeças, o tempo todo olhando a pira com sorrisos enterrados nos
olhos. Pobre idiota, ela pensou, acompanhando suas tentativas. Queria que ele olhasse
para dentro das chamas, na esperança de que pudesse vê-la queimando. Não para que
pudesse salvá-la da morte — ela já estava muito além disso —, mas porque ela tinha
pena do espanto dele e queria lhe dar, embora ele não fosse agradecê-la por isso, algo
para assombrá-lo. Isso é uma história para contar.
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