O homem em chamas desceu em disparada as escadas dos Laboratórios Hume
quando o carro da polícia — chamado, ele achava, pelo alarme que Welles ou Dance
haviam acionado lá em cima — apareceu no portão e subiu a passagem até o prédio.
Quando ele correu da porta, o carro freou no pé da escadaria e descarregou seu
conteúdo humano. Ele esperou nas sombras, exausto demais pelo terror para correr
mais, certo de que o veriam. Mas eles desapareceram pelas portas de vai-e-vem sem
sequer olhar para o tormento que ele sofria. Será que estou pegando fogo mesmo?,
ele se perguntou. Seria possível que aquele horrível espetáculo—sua carne batizada
com uma chama polida que ardia mas não consumia — fosse uma simples alucinação,
para seus olhos somente? Se fosse isso, talvez tudo o que sofrerá no laboratório não
passasse de delírio. Talvez não tivesse realmente cometido os crimes dos quais havia
fugido, o calor em sua carne lambendo-o num êxtase.
Olhou para o próprio corpo. Sua pele exposta ainda estava repleta de pontos lívidos
de fogo, mas um a um eles iam se apagando. Ele estava se apagando, percebeu,
como uma fogueira abandonada. As sensações que o haviam sufocado — tão intensas
e tão exigentes que doíam tanto quanto provocavam prazer — estavam finalmente
deixando.de lado suas terminações nervosas, deixando uma dormência pela qual ele
era grato. Seu corpo, aparecendo agora sob o véu de fogo, estava em condições
lamentáveis. Sua pele era um mapa desordenado de arranhões, as roupas em
farrapos, as mãos pegajosas de sangue coagulado; sangue, ele sabia, que não era o
seu. Não havia como evitar a verdade cruel. Ele tinha realmente feito tudo o que
imaginara ter feito. Mesmo agora, os policiais estariam olhando sua obra atroz.
Esgueirou-se para fora de seu esconderijo ao lado da porta e desceu o caminho,
olhando sempre em caso de volta dos dois policiais; nenhum reapareceu. A rua além do
portão estava deserta. Começou a correr. Havia conseguido apenas alguns passos
quando o alarme no prédio atrás dele foi cortado bruscamente. Por vários segundos
seus ouvidos zumbiram com a campainha silenciada. Então, estranhamente, ele
começou a ouvir o som do calor — o sorrateiro murmúrio de lenha queimando —
distante o bastante para que ele não entrasse em pânico, mas perto como as batidas
de seu coração.
Seguiu mancando, para se distanciar o quanto pudesse de seus crimes antes que
fossem descobertos; mas por mais rápido que corresse, o calor ia com ele, seguro em
algum lugar no fundo de suas entranhas, ameaçando incendiá-lo a cada passo.
Dooley levou vários segundos para identificar a cacofonia que estava ouvindo do andar
de cima agora que McBride havia silenciado o alarme. Eram gritos de macacos, e
vinham de uma das muitas salas descendo o corredor à sua direita.
—Virgil — ele chamou pelo poço das escadas. — Suba aqui.
Sem esperar que o parceiro chegasse, Dooley dirigiu-se para a fonte do barulho. Na
metade do corredor o cheiro de estática e carpetes novos deu lugar a uma combinação
mais pungente: urina, desinfetante e frutas podres. Dooley reduziu o passo: não
gostava do cheiro, da mesma forma que não gostava da histeria na confusão das vozes
dos macacos. Mas McBride demorava a responder ao seu chamado, e depois de
pouca hesitação, a curiosidade de Dooley venceu sua inquietação. Mão no coldre, ele
se aproximou da porta aberta e entrou. Sua aparição criou outra onda de frenesi dos
animais, uma dúzia ou mais de macacos rhesus. Eles se jogavam de encontro às suas
jaulas, dando cambalhotas, guinchando e batendo nas grades. Sua excitação era
infecciosa. Dooley podia sentir o suor começando a sair pelos poros.
— Tem alguém aí? — ele gritou.
A única resposta veio dos prisioneiros: mais histeria, mais pancadas nas jaulas.
Olhou para eles. Eles o encaravam de volta, os dentes expostos em sinal de medo ou
boas-vindas; Dooley não sabia qual, e nem desejava testar suas intenções. Ficou muito
atento para o banco no qual as jaulas estavam alinhadas quando começou um pentefino
no laboratório.
— Eu estava imaginando o que seria esse cheiro — disse McBride, aparecendo na
porta.
— Só animais — replicou Dooley.
— Eles nunca tomam banho? Bichos sujos.
— Alguma coisa lá embaixo?
— Nada — disse McBride, aproximando-se das jaulas. Os maçados encararam seu
avanço com mais ginástica.—Só o alarme.
— Aqui em cima também nada — disse Dooley. Já ia acrescentar "Não faça isso",
para impedir que o parceiro pusesse o dedo na grade, mas antes que as palavras
saíssem um dos animais agarrou o dedo esticado e o mordeu. McBride soltou o dedo e
deu um soco na grade em retaliação. Guinchando de raiva, o ocupante jogou seu corpo
magro numa dança lunática que ameaçava jogar jaula e macaco no chão.
— Vai precisar de uma vacina contra tétano — comentou Dooley.
— Merda! — exclamou McBride. — O que há de errado com esse filho da puta?
— Talvez não gostem de estranhos.
— As cabecinhas deles estão fora de si. — McBride chupou ruminante o dedo e
cuspiu. — Olhe só pra eles.
Dooley não respondeu.
— Eu disse, olhe... — repetiu McBride.
Muito baixinho, Dooley disse:
— Ali.
— O que foi?
— Venha aqui.
McBride afastou o olhar da fileira de jaulas e das bancadas abarrotadas e deslocouo
para onde Dooley estava olhando para o chão, com repulsa fascinada. McBride
esqueceu de chupar o dedo e abriu caminho por entre os bancos e banquetas até onde
estava seu parceiro.
— Ali debaixo — murmurou Dooley.
No chão lotado aos pés de Dooley estava um sapato bege de mulher; debaixo do
banco estava a dona do sapato. A julgar por sua posição contorcida, ela havia sido
posta ali pelo criminoso ou se arrastara para um esconderijo e morrera lá.
— Está morta? — perguntou McBride.
— Olhe para ela, pelo amor de Deus — replicou Dooley. — Ela foi dilacerada.
— Temos de checar os sinais vitais — McBride lembrou-o. Dooley não fez menção
de proceder, então McBride agachou-se na frente da vítima e conferiu a pulsação em
sua garganta rasgada. Não havia nenhuma. Sua pele ainda estava quente sob os dedos
do policial. Um fio de saliva em seu rosto ainda não havia secado.
Dooley, para completar o relatório, olhou para o corpo da morta. A pior ferida, na
parte superior do torso, estava coberta pelo corpo de McBride. Tudo o que ele podia
ver era uma cascata de cabelos castanhos e suas pernas, um pé sem o sapato, saindo
de seu esconderijo. Belas pernas, ele pensou; podia ter assoviado para elas um dia.
—É uma médica ou técnica—disse McBride.—Está vestindo um jaleco de
laboratório. — Ou estava. Na verdade, o jaleco havia sido rasgado de alto a baixo, bem
como as camadas de roupa por baixo, e depois, como se para completar a exibição, a
pele e os músculos também. McBride olhou no peito dela; o esterno havia sido
quebrado e o coração retirado de seu local, como se o assassino quisesse levá-lo
como uma recordação e sido interrompido no ato. Examinou-a sem se incomodar;
sempre se orgulhara do estômago forte.
— Está satisfeito com a morte dela?
— Nunca vi mais morta.
— Carnegie está vindo — disse Dooley, dirigindo-se a uma das pias. Sem se
importar com impressões digitais, abriu a torneira e jogou um bocado de água fria no
rosto. Quando levantou a cabeça, McBride havia deixado o tête-à-tête com o cadáver e
estava se dirigindo a uma bancada cheia de máquinas.
— O que eles fazem aqui, pelo amor de Deus? — ele comentou. — Veja só todas
essas coisas.
— É um tipo de pesquisa — disse Dooley.
— O que eles pesquisam?
— Como diabos vou saber? — cortou Dooley. Os guinchos intermináveis dos
macacos e a proximidade da morta lhe davam vontade de abandonar o local. — Vamos
deixar assim, tá?
McBride ignorou o pedido de Dooley; o equipamento o fascinava. Olhou enlevado o
encefalógrafo e o eletrocardiógrafo; as impressoras que ainda vomitavam metros de
papel em branco no chão; o monitor de vídeo e os consoles. A cena lembrou-o do
Marie Celeste. Um navio fantasma da ciência — que ainda zumbia alguma canção sem
melodia para si mesmo enquanto navegava, mas agora que olhava mais atentamente
percebia que não. Havia uma câmara de testes depois das bancadas.
— Dooley...?—ele perguntou, olhando ao redor. O homem tinha saído,
provavelmente para se encontrar com Carnegie. Contente por ser deixado à sua
exploração, McBride voltou a atenção à janela. Não havia luz do lado de dentro.
Curioso, ele deu a volta nos equipamentos, até encontrar a porta da câmara. Estava
entreaberta. Sem hesitação, entrou.
A maior parte da luz que vinha pela janela era bloqueada pelos instrumentos do outro
lado; o interior estava escuro. Os olhos de McBride levaram alguns segundos para
conseguir uma verdadeira impressão do caos que a câmara continha: a mesa virada; a
cadeira da qual alguém fizera lasquinhas; o emaranhado de cabos e equipamento
destruído — câmera, talvez, para monitorar as operações na câmara? — uma série de
refletores igualmente esmagados. Nenhum vândalo profissional poderia ter feito um
trabalho mais completo de quebrar a câmara.
Havia um cheiro no ar que McBride reconheceu mas, irritado, não conseguia
identificar. Ficou ali parado, hipnotizado pelo odor. O som de sirenes surgiu pelo
corredor; Carnegie estaria ali em momentos. Subitamente, a associação do cheiro lhe
ocorreu. Era o mesmo cheiro que dançava em suas narinas quando, depois de fazer
amor com Jessica e — como era seu ritual — se lavava antes de voltar para o quarto.
Era o cheiro de sexo. Ele sorriu.
Seu rosto ainda estava registrando prazer quando um objeto pesado cortou o ar e
bateu em seu nariz. Sentiu a cartilagem ceder e o sangue jorrar. Deu um ou dois
passos trêmulos para trás, evitando assim o corte seguinte, mas perdeu o equilíbrio na
confusão. Caiu de mau jeito sobre um monte de cacos de vidro, e ergueu a cabeça
para ver seu atacante, que segurava uma barra de ferro e andava em sua direção. O
rosto do homem lembrava um dos maçados: os mesmos dentes amarelados, os
mesmos olhos raivosos.
— Não!— gritou o homem ao descer o porrete improvisado em McBride, que
conseguiu aparar o golpe com o braço, agarrando a arma. O ataque o havia apanhado
de surpresa, mas agora, com a dor no nariz amassado para aumentar a fúria de sua
reação, era mais que páreo para seu agressor. Pegou o porrete do homem, como se
fosse pirulito de uma criança, e pulou urrando aos seus pés. Quaisquer preceitos que
pudesse ter aprendido quanto a técnicas de prisão tinham sido esquecidos. Desceu
uma saraivada de socos na cabeça e nos ombros do homem, forçando-o a recuar. O
homem agachou-se para evitar o assédio, e acabou tombando, gemendo, contra a
parede. Só agora, com seu antagonista surrado à beira da inconsciência, o furor de
McBride se acalmou. Ele ficou de pé no meio da câmara, tomando fôlego, e viu o
homem deslizar parede abaixo. Tinha cometido um erro tremendo. O atacante, ele via
agora, estava vestido com um jaleco branco de laboratório; estava, como Dooley
gostava irritantemente de dizer, do lado dos anjos.
— Merda — disse McBride. — Merda, cacete, porra.
Os olhos do homem se abriram, e ele olhou para McBride. Seu domínio da
consciência era evidentemente tênue, mas um olhar de reconhecimento atravessou seu
rosto sombrio, de sobrancelhas largas. Ou melhor, a ausência de reconhecimento.
— Você não é ele — murmurou.
— Quem? — perguntou McBride, percebendo que ainda podia salvar sua reputação
do fiasco se pudesse espremer uma pista da testemunha. — Quem você achou que eu
fosse?
O homem abriu a boca, mas não saiu palavra nenhuma.
Ansioso para ouvir o testemunho, McBride agachou-se ao seu lado e perguntou:
— Quem você pensou que estava atacando?
A boca abriu-se de novo; e de novo não saiu palavra. McBride chegou mais perto.
—É importante — ele disse. — Só me diga quem estava aqui.
O homem lutava para responder. McBride pressionou o ouvido na boca trêmula.
— No cu, pardal — o homem disse, e desmaiou, deixando McBride xingando seu pai,
que lhe transmitira um temperamento pelo qual temia viver o bastante para lamentar.
Mas também, para que servia a vida?
O Inspetor Carnegie estava acostumado à chateação. Para cada raro momento de
genuína descoberta que sua vida profissional lhe dera, ele suportara horas e mais
horas de espera. Para que corpos fossem fotografados e examinados, para que
advogados fossem convencidos e suspeitos intimidados. Há muito tempo ele desistira
de combater essa corrente de ennui e, à sua maneira, aprendera a arte de seguir com
ela. Os processos de investigação não podiam ser apressados; o homem sábio, ele
agora apreciava, deixava que os patologistas, os advogados e todas as suas tribos
tivessem a sua vez apressada. Tudo o que importava, no decorrer do tempo, era que o
dedo fosse apontado e o culpado tremesse.
Agora, quando o relógio do laboratório marcava meia-noite e cinquenta e três, e
mesmo os macacos dormiam em suas jaulas, ele estava sentado num dos bancos e
esperava que Hendrix terminasse seus cálculos. O cirurgião consultou o termômetro, e
então tirou as luvas como uma segunda pele e jogou-a sobre o lençol sobre o qual jazia
a morta.
— É sempre difícil — disse o doutor—fixar a hora da morte.
Ela perdeu menos de três graus. Eu diria que ela está morta há cerca de duas horas.
—Os policiais chegaram às quinze para a meia-noite—disse Carnegie — portanto
ela morreu cerca de meia hora antes?
— Mais ou menos isso.
— Ela foi colocada ali? — ele perguntou, indicando o lugar embaixo do banco.
— Ah, certamente. Não havia como ela se meter sozinha ali. Não com esses
ferimentos. São ferimentos e tanto, não são?
Carnegie olhou para Hendrix. O homem provavelmente já vira centenas de
cadáveres, de todo jeito concebível, mas o entusiasmo em seu rosto era indescritível.
Carnegie achava esse mistério mais fascinante, à sua maneira, do que o da morta e
seu carniceiro. Como é que alguém poderia gostar de tirar a temperatura retal de um
cadáver? Isso o deixava confuso. Mas o prazer estava ali, brilhando nos olhos do
homem.
— Motivo? — perguntou Carnegie.
—Bastante explícito, não é? Estupro. Ele a molestou de forma bem completa;
contusões ao redor da vagina; copiosos depósitos de sêmen. Muito com que trabalhar.
— E as feridas no torso?
— Rasgos. Não foram cortes.
— Arma?
— Não sei. — Hendrix fez um U invertido com a boca. — Quero dizer, a carne foi
esfarrapada. Se não fosse pelas provas de estupro, eu seria tentado a sugerir um
animal.
— Um cão?
— Eu pensava mais era num tigre — disse Hendrix.
Carnegie franziu a testa.
— Tigre?
— Brincadeirinha — replicou Hendrix. — Eu estava brincando, Carnegie. Cristo, você
tem algum senso de ironia?
— Não tem graça — disse Carnegie.
—Não estou rindo—retrucou Hendrix, com um olhar azedo.
— O homem que McBride encontrou na câmara de testes?
— Ele o quê?
— Suspeito?
— Nem um milhão de anos. Estamos procurando um maníaco, Carnegie. Grande;
forte. Selvagem.
— E as feridas? Antes ou depois?
Hendrix fez uma careta.
— Não sei. O post-mortem nos dará mais detalhes. Mas por tudo o que vi, acho que
nosso homem estava num frenesi. Eu diria que a ferida e o estupro foram
provavelmente simultâneos.
As feições normalmente fleumáticas de Carnegie registraram algo perto do choque.
— Simultâneos?
Hendrix deu de ombros.
— O desejo é uma coisa engraçada — ele disse.
— Hilária — veio a resposta espantada.
Como era sua vontade, Carnegie fez com que seu motorista o deixasse a trezentos
metros de casa, para permitir que espairecesse antes de chegar, tomar um chocolate
quente e dormir. O ritual era observado religiosamente, mesmo quando o Inspetor
estava cansado demais. Costumava andar assim antes de entrar em casa; longa
experiência o havia ensinado que levar as preocupações profissionais para casa não
ajudavam nem a investigação nem sua vida doméstica. Ele aprendera a lição tarde
demais para evitar que sua esposa o deixasse e os filhos o abandonassem, mas ainda
aplicava esse princípio. *
Naquela noite, andava devagar, para permitir que as cenas chocantes que a noite
trouxera se dissipassem de alguma forma. A rota o levara a um pequeno cinema que,
lera na imprensa local, estava para ser demolido. Não estava surpreso. Embora não
fosse cineasta, os programas que aquele poeirinha oferecia havia decaído nos últimos
anos. A programação daquela semana era uma prova cabal: um programa duplo de
filmes de terror. Coisas lúgubres e derivativas a julgar pelos cartazes, com seus
desenhos crus e hipérboles desavergonhadas. "Você Nunca Mais Vai Dormir!" dizia
uma das chamadas; e, embaixo, uma mulher — muito acordada — encolhia-se na
sombra de um homem de duas cabeças. Que imagens triviais os populistas conjuravam
para instilar algum medo em suas plateias. Os mortos-vivos; a natureza crescendo e
perdendo o controle num mundo em miniatura; bebedores de sangue, profecias,
tempestades e todas as outras bobagens perante as quais o público se encolhia. Era
tudo tão risivelmente bobo: no meio daquele catálogo de terrores baratos não havia um
que se igualasse à banalidade do apetite humano, cujo horror (ou suas consequências)
ele via toda semana de sua vida de trabalho. Pensando nisso, sua mente passou em
revista uma série de instantâneos: os mortos à luz de lanternas, decúbito ventral e
abandonados ao esquecimento; e os vivos também, que encaravam o olho de sua
mente com fome nos próprios olhos: fome de sexo, de drogas, da dor dos outros. Por
que não punham isso nos cartazes?
Ao chegar em casa, uma criança gritou nas sombras ao lado de sua garagem; o
grito o gelou no ato. No outro grito ele percebeu o que era de fato. Não era criança,
mas um gato, ou gatos, trocando chamados de amor na passagem escurecida. Foi até
a passagem para enxotá-los. Suas secreções venéreas faziam a passagem feder. Não
precisou gritar; suas passadas foram suficientes para apavorá-los. Fugiram em todas
as direções, não dois, mas meia dúzia: uma verdadeira orgia estava acontecendo
aparentemente. Mas havia chegado no local tarde demais; o cheiro de suas seduções
era devastador.
Carnegie olhou sem expressão o elaborado conjunto de monitores e videocassetes
que dominavam seu escritório.
— O que é isso, pelo amor de Deus? — ele queria saber.
— As fitas de vídeo — disse Boyle, seu assistente — do laboratório. Acho que o
senhor devia dar uma olhada nelas.
Embora tivessem trabalhado juntos por sete meses, Boyle não era um dos policiais
favoritos de Carnegie; era possível sentir o cheiro da ambição por trás de sua
aparência tranquila. Em alguém com metade de sua idade, essa ganância teria sido
questionável; num homem de trinta, beirava o obsceno. A presente demonstração — a
apresentação de equipamento pronto para confrontar Carnegie quando ele entrasse às
oito da manhã — era simplesmente o estilo de Boyle: fugaz e redundante.
— Por que tantas telas? — Carnegie perguntou ácido. — O som também é estéreo?
— Eles tinham três câmeras rodando ao mesmo tempo, senhor. Cobrindo a
experiência de diversos ângulos.
— Que experiência?
Boyle fez um gesto ao seu superior para que se sentasse. Obsequioso até demais,
não é?, pensou Carnegie; cuidado com isso.
— Certo — Boyle instruiu o técnico de vídeo — pode rodar as fitas.
Carnegie bebericava a xícara de chocolate quente que havia trazido consigo. A
bebida era sua fraqueza, beirando ao vício. Os dias em que a máquina que a fornecia
quebrava ele era um homem infeliz. Olhou para as três telas. Subitamente, um título.
— Projeto Garoto Cego—diziam as palavras. — Restrito.
— Garoto Cego?— disse Carnegie. — O quê, ou quem, é isso?
— É obviamente um código de algum tipo — disse Boyle.
— Garoto Cego, Garoto Cego.—Carnegie repetia a expressão como se surrasse até
a submissão, mas antes que pudesse resolver o problema, as imagens nos três
monitores começaram a divergir. Elas exibiam a mesma figura — um rapaz de óculos,
de seus vinte e tantos anos, sentado numa cadeira — mas cada uma mostrava a acena
de um ângulo diferente. Uma captava o rapaz de corpo inteiro e de perfil; a segunda
era um close de frente, da cabeça e ombros, e a terceira um plano médio, filmada de
um ângulo no alto. As três imagens eram em preto e branco, e nenhuma delas estava
completamente centralizada ou focalizada. Na verdade, quando as fitas começaram a
rodar, ainda havia gente ajustando esses detalhes técnicos. Um ruído de fundo, de
conversa informal, passava entre o rapaz e a mulher — reconhecível até em breves
relances como a morta — que aplicava eletrodos em sua testa. A maioria da conversa
era difícil de entender; a acústica na câmera frustrava tanto o microfone quanto o
ouvinte.
— A mulher é a Doutora Dance — Boyle disse. — A vítima.
—Sim—disse Carnegie, vendo com atenção as telas.—Deu pra reconhecer. Por
quanto tempo segue essa preparação?
— Um bom tempo. A maioria não é edificante.
— Ora, então vamos para a parte edificante.
— Avance — disse Boyle. O técnico obedeceu, e os atores nas três telas se
tornaram comediantes com vozes esganiçadas. — Espere! — disse Boyle. — Recue
um pouco. — O técnico novamente fez como foi instruído. — Aí! — Boyle falou. —
Pare aí. Agora em velocidade normal. — A ação retomou o ritmo natural. — Aí é onde
realmente começa, senhor.
Carnegie havia chegado ao fim do chocolate quente; enfiou o dedo na nata macia no
fundo do copinho e levou-a, enjoativa de tão doce, à língua. Nas telas, a Doutora Dance
havia se aproximado do rapaz com uma seringa, agora passava um algodão na dobra
do cotovelo, e enfiava a agulha. Não pela primeira vez desde sua visita aos
Laboratórios Hume, Carnegie se perguntou o que exatamente eles faziam no
estabelecimento. Seria aquele tipo de procedimento lugar-comum na pesquisa
farmacêutica? O sigilo implícito da experiência — tarde da noite num edifício deserto —
sugeria que não. E havia aquele imperativo no título: "Restrito". O que estavam
assistindo obviamente não havia sido planejado para uma audiência pública.
— Está confortável? — perguntou um homem, fora da câme- ra. O rapaz fez que sim
com a cabeça. Seus óculos tinham sido retirados, e ele parecia meio apatetado sem
eles. Um rosto comum, pensou Carnegie; o sujeito — ainda sem nome — não era
Adônis nem Quasímodo. Estava um pouco encolhido, e seus cabelos espigados de um
louro sujo caíam nos ombros.
— Estou legal, Doutor Welles — ele respondeu à pessoa de fora da câmera.
— Não sente calor? Nem está suando?
— Não — replicou a cobaia, como que se desculpando. — Estou me sentindo
normal.
Aí está você, pensou Carnegie; e depois, para Boyle: — Rodou as fitas até o fim?
— Não, senhor — replicou Boyle. — Achei que iria querer vê-las primeiro. Só rodei
até a injeção.
— Alguma notícia do Doutor Welles no hospital?
— Da última vez em que ligamos, ainda estava em coma.
Carnegie grunhiu, e voltou a atenção às telas. Acompanhando
a explosão de ação com a injeção, as fitas agora se acomodavam numa ausência de
atividade; as três câmeras fixas em seu objeto míope com olhos que pareciam
bolinhas, o torpor ocasionalmente interrompido por uma pergunta de Welles quanto à
condição do rapaz. Tudo permanecia na mesma. Depois de três ou quatro minutos
desse estudo inerte, até mesmo as ocasionais piscadelas do rapaz começavam a
assumir maior significado dramático.
— Não esperem muito do enredo — comentou o técnico.
Carnegie riu; Boyle parecia desconfortável. Dois ou três minutos ainda se passaram de
forma semelhante.
— Isso não parece muita coisa — disse Carnegie. — Avance um pouquinho mais,
sim?O técnico ia obedecer quando Boyle disse:
— Espere.
Carnegie olhou para o homem, irritado por sua intervenção, e depois voltou à tela.
Alguma coisa estava mesmo acontecendo: uma sutil transformação havia ocorrido nas
feições insossas do sujeito. Ela havia começado a sorrir para si mesmo, e estava
afundando na cadeira como se submergisse o corpo esquálido numa banheira de água
quente. Seus olhos, que até o momento não haviam expressado mais que uma
agradável indiferença, agora começavam a se fechar em segundos, e rapidamente
tornar a se abrir. Quando o fizeram havia uma qualidade até então não vista neles: uma
fome que parecia saltar da tela e invadir a calma do escritório de Carnegie.
Carnegie pôs de lado o copinho de chocolate e aproximou-se das telas. Ao fazer
isso o rapaz também se levantou de sua cadeira e foi até o vidro da câmara, deixando
o alcance de duas câmeras. Mas a terceira ainda o gravava quando ele pressionou o
rosto contra a janela, e por um momento os dois homens se encararam por camadas
de vidro e tempo, aparentemente olhando um para o outro.
O olhar do rapaz agora era crítico, a fome estava rapidamente ultrapassando o
controle da sanidade. Olhos em chamas, ele colou os lábios na janela da câmara e a
beijou, língua trabalhando o vidro.
— O que está acontecendo, Cristo? — perguntou Carnegie.
Um burburinho havia começado a encher a trilha sonora; o
Doutor Welles perguntava em vão ao testando se poderia articular suas sensações,
enquanto Dance lia números captados pelos instrumentos de monitoração. Era difícil
ouvir com clareza — o ruído foi complementado por uma erupção de guinchos dos
macacos nas jaulas — mas era evidente que as leituras do corpo do homem subiam
num crescendo. Seu rosto estava corado; sua pele brilhava com um suor repentino. Ele
lembrava um mártir na fogueira; louco com um êxtase fatal. Parou de lamber o vidro,
arrancando os eletrodos nas têmporas e os sensores nos braços e no peito. Dance, a
voz agora registrando alarme, gritou-lhe que parasse. Então ela entrou e saiu
rapidamente do alcance da câmara; passando, presumiu Carnegie, para a porta da
câmara.
— Melhor não — disse ele, como se aquele drama fosse exibido só para seu
benefício, e ele pudesse impedir a tragédia. Mas a mulher não reparou. Um momento
depois ela aparecia em plano geral ao entrar na câmara. O homem foi cumprimentá-la,
derrubando equipamento ao fazê-lo. Ela gritou com ele — seu nome, talvez. Se era
isso, estava impossível de ouvir devido à barulheira da macacada. — Merda — disse
Carnegie, quando os braços do testando, que se debatiam, pegaram primeiro a câmera
de perfil, e depois a de plano americano: dois dos três monitores se apagaram. Só a
de frente, que estava a salvo fora da câmara, ainda gravava os acontecimentos, mas o
alcance restrito não dava mais que um relance ocasional de um corpo que se agitava.
Ao invés disso, o olho sóbrio da câmera fitava, quase ironicamente, o vidro manchado
de saliva da janela da câmara, cego para as atrocidades sendo cometidas a poucos
metros fora de seu alcance.
— O que, em nome de Cristo, deram a ele? — perguntou Carnegie, quando, em
algum lugar fora da câmara, os gritos da mulher se elevaram acima dos guinchos dos
macacos.
Jerome acordou no começo da tarde, com fome e machucado. Quando jogou para o
lado o lençol, ficou pasmo com seu estado: o torso estava cheio de arranhões, e a
região da virilha estava em carne viva. Trêmulo, sentou-se à beira da cama e ficou ali
algum tempo, tentando juntar os pedaços da noite passada. Lembrava-se de ter ido
aos Laboratórios, mas muito pouco depois disso. Fora uma cobaia remunerada por
vários meses, dando seu sangue, conforto e paciência para complementar os magros
rendimentos como tradutor. O arranjo havia começado como cortesia de um amigo que
fazia trabalho semelhante, mas enquanto Figley era parte do programa principal dos
laboratórios, Jerome fora abordado, após uma semana no local, pelos doutores Welles
e Dance, que o convidaram — sujeito a uma série de testes psicológicos —a trabalhar
exclusivamente para eles. Desde o início, ficara claro que o projeto deles (não lhe
contaram o propósito) era de natureza secreta, e que exigiriam sua total dedicação e
discrição. Ele estava precisando de dinheiro, e a recompensa que ofereciam era pouco
maior que a paga pelos Laboratórios, então concordara, embora as horas que exigiam
dele fossem antissociais. Por várias semanas ele fora obrigado a frequentar as
instalações de Pesquisa tarde da noite e muitas vezes trabalhava até de manhãzinha,
suportando as intermináveis perguntas de Welles sobre sua vida íntima e o olhar
penetrante de Dance.
Pensando no olhar frio dela, sentiu tremores. Seria porque uma vez ele havia se
iludido, achando que ela o olhara com mais carinho do que um médico? Essa ilusão, ele
se recriminou, era digna de pena. Ele não era o tipo de homem com que as mulheres
sonhavam, e todo dia que ele caminhava pelas ruas reforçava essa convicção. Ele não
se lembrava de uma ocasião em sua vida adulta em que uma mulher tivesse olhado em
sua direção e mantivesse o olhar; um tempo em que um olhar apreciativo de sua parte
houvesse sido retribuído. Por que isso o deveria incomodar agora, ele não sabia bem:
sua condição de abandonado era, sabia, lugar-comum. E a Natureza fora gentil;
sabendo, ao que parecia, que o dom da atração havia passado longe dele, achara por
bem reduzir sua libido. Semanas se passavam sem que seus pensamentos conscientes
lamentassem sua castidade forçada.
De vez em quando, quando sentia o sangue ferver, imaginava como a sra. Morrisey,
sua senhoria, devia ser ao banho: podia imaginar a firmeza de seus seios ensaboados,
ou a fenda escura de seu traseiro quando se abaixasse para passar talco entre os
dedos dos pés. Mas esses tormentos eram, felizmente, infrequentes. E quando sua
taça transbordava ele enfiava no bolso o dinheiro que economizara de suas sessões
nos Laboratórios e comprava uma hora de companhia de uma mulher chamada Ângela
(ele jamais soube seu segundo nome), na Rua Greek.
Muitas semanas se passariam antes que tornasse a ir lá, ele pensou: o que quer
que tivesse feito noite passada, ou, mais corretamente, tivesse feito a si mesmo, as
feridas quase o incapacitaram. A única explicação plausível — embora não conseguisse
lembrar dos detalhes — era que havia sido surrado no caminho de volta dos
Laboratórios; isso ou havia entrado num bar e alguém puxara briga com ele. Já havia
acontecido uma vez. Ele tinha um rosto que despertava o instinto de briga dos
bêbados.
Levantou-se e cambaleou até o pequeno banheiro colado ao quarto. Seus óculos
não estavam no lugar de sempre, ao lado do espelho de barbear, e seu reflexo estava
terrivelmente borrado, mas dava para perceber que seu rosto estava tão arranhado
quanto o resto de sua anatomia. E mais: um chumaço de cabelo havia sido arrancado
de sobre sua orelha esquerda; uma mancha de sangue pisado descia até o pescoço.
Cheio de dor, curvou-se para a tarefa de limpar as feridas e depois lavá-las com uma
solução antisséptica adstringente. Isso feito, voltou ao quarto para procurar os óculos.
Mas não os encontrou. Cobrindo sua idiotice de palavrões, revirou seus pertences para
pegar o par velho, e encontrou-o. O grau deles era velho—seus olhos haviam piorado
consideravelmente desde que os usara — mas pelo menos traziam a paisagem ao seu
redor a um tipo fantasmagórico de foco.
Uma melancolia indisputável tomou conta dele, composto por sua dor e aqueles
pensamentos inoportunos sobre a sra. Morrisey. Para manter sua intimidade afastada,
ligou o rádio. Uma voz escorreita emergiu, proporcionado os paliativos de costume.
Jerome sempre teve desprezo por música popular e seus defensores, mas agora,
andando pelo quartinho, sem vontade de se vestir com tecidos grossos quando seus
arranhões ainda doíam, as canções começaram a despertar nele algo além de
escárnio. Era como se ele ouvisse as palavras e a música pela primeira vez: como se
toda sua vida tivesse sido alheia a esses sentimentos. Enfeitiça- do, ele se esqueceu
da dor, e ouviu. As canções contavam uma história desconexa e obsessiva-, de amor
perdido e encontrado, tão-somente para ser perdido novamente. Os cantores enchiam
as ondas sonoras de metáforas— muitas das quais ridículas, mas potentes. Sobre
paraíso, corações em chamas; sobre pássaros, sinos, viagens, pôres-de-sol; sobre
paixão como loucura, fuga, tesouro inimaginável. As canções não o acalmavam com
seus sentimentos melosos; mexiam com ele, evocando, apesar das rimas fracas e da
melodia pobre, um mundo enfeitiçado pelo desejo. Começou a tremer. Seus olhos,
tensionados (assim ele pensava) pelos óculos aos quais estava desacostumado,
começaram a iludi-lo. Parecia que podia ver traços de luz em sua pele: fagulhas voando
das pontas de seus dedos.
Olhou para as mãos e os braços; a ilusão, longe de desaparecer em face a uma
análise, aumentou. Pontos de luz brilhante, como traços de fogo em cinzas, começaram
a subir por suas veias, multiplicando-se às suas vistas. Curiosamente, não se sentia
mal. Aquele fogo crescente simplesmente refletia a paixão na história que as canções
lhe contavam: amor, elas diziam, estava no ar, em cada esquina, esperando para ser
encontrado. Tornou a pensar na viúva Morrisey no apartamento de baixo, fazendo suas
coisas, suspirando, sem dúvida, como ele próprio já soluçara; esperando seu herói.
Quanto mais pensava nela, mais inflamado ficava. Ela não o rejeitaria, disse as músicas
o convenciam; ou, se o fizesse, ele deveria forçar a situação até que (novamente, como
prometiam as canções) ela se rendesse. Subitamente, pensando na rendição dela, o
fogo o engoliu. Gargalhando, deixou o rádio cantando no quarto, e desceu as escadas.
A maior parte da manhã se passara até que fosse possível reunir uma lista de
cobaias empregadas pelos Laboratórios; Carnegie havia sentido uma relutância da
parte do estabelecimento em abrir os arquivos para a investigação, apesar do horror
que havia sido cometido em suas instalações. Finalmente, logo após o meio-dia, haviam
lhe apresentado um Quem-é-Quem juntado às pressas, cinquenta e quatro pessoas ao
todo, e seus endereços. Nenhum, afirmavam os policiais, se encaixava na descrição do
testando de Welles. Os doutores, ao que foi explicado, estavam obviamente usando as
instalações do Laboratório para conduzir projetos particulares. Embora isso não fosse
encorajado, ambos foram pesquisadores sêniores, e lhes fora concedida uma certa
liberdade nessa questão. Era provável, portanto, que o homem que Carnegie procurava
jamais sequer tivesse estado na folha de pagamentos dos Laboratórios. Sem se
abalar, Carnegie ordenou uma seleção de fotografias tiradas da gravação do vídeo e
as distribuíra — com a lista de nomes e telefones — a seus homens. Dali por diante,
era fazer muitas visitas e ter paciência.
Leo Boyle correu o dedo pela lista de nomes que recebera.
— Outros quatorze — ele disse. Seu motorista grunhiu, e Boyle o olhou de esguelha.
— Você era parceiro de McBride, não era?
— Isso mesmo — replicou Dooley. — Ele foi suspenso.
— Por quê?
Dooley fez uma careta.
— O Virgil não tem educação. Não consegue pegar a cancha da técnica de prisão.
Dooley parou o carro.
— É aqui? — perguntou Boyle.
— O senhor disse número oitenta. Este é o oitenta. Na porta. Oito. Zero.
— Eu tenho olhos.
Boyle saiu do carro e caminhou até a porta. A casa era de bom tamanho, e havia
sido dividida em apartamentos: havia várias campainhas. Apertou a de J. Tredgold — o
nome de sua lista — e esperou. Das cinco casas que haviam visitado até agora, duas
não tinham ninguém e os residentes das outras três não tinham semelhança com o
malfeitor.
Boyle esperou no degrau alguns segundos e apertou a campainha novamente;
demorou-se mais desta vez.
— Ninguém em casa — Dooley disse da calçada.
— Parece que sim. — Mas enquanto falava isso, Boyle percebeu uma figura
passando ligeira pelo hall, seus traços distorcidos pelo vidro corrugado da porta. —
Espere um minuto — ele disse.
— O que foi?
— Alguém está lá dentro e não atende. — Ele apertou a primeira campainha
novamente, e depois as outras. Dooley aproximou-se até a porta, espantando com a
mão uma vespa atenciosa.
— Tem certeza? — perguntou.
— Vi alguém lá dentro.
— Tente as outras campainhas — sugeriu Dooley.
—Já tentei. Tem alguém lá dentro e não quer vir até a porta. — Bateu no vidro. —
Abra — ele anunciou. Polícia.
Muito inteligente, pensou Dooley; por que não um megafone, para que o mundo
inteiro pudesse ouvir também? Quando a porta, previsivelmente, continuou fechada,
Boyle virou-se para Dooley.
— Tem algum portão lateral?
— Sim, senhor.
— Então corra para os fundos, antes que ele fuja.
— Não devíamos chamar...?
—Rápido! Eu monto guarda aqui. Se puder chegar aos fundos venha e abra a porta
da frente.
Dooley moveu-se; deixando Boyle sozinho na porta da frente. Ele tornou a tocar a
série de campainhas e, pondo a mão sobre os olhos colou a cara no vidro. Não havia
sinal de movimento no hall; seria possível que o passarinho já tivesse escapado? Ele
recuou um pouco e olhou as janelas de cima; elas retribuíram um olhar vazio. Já era
tempo de Dooley ter dado a volta na casa; mas até o momento ele não havia
reaparecido nem chamado. Congelado onde estava, e nervoso por suas táticas terem
perdido a vantagem que tinham, Boyle decidiu seguir seu nariz e dar a volta na casa.
O portão lateral havia sido deixado aberto por Dooley. Boyle avançou pela
passagem, tentando olhar por uma janela para uma sala de estar vazia antes de chegar
à porta dos fundos. Estava aberta. Mas Dooley não estava à vista. Boyle enfiou no
bolso a foto e a lista e entrou, odiando ter que chamar o nome de Dooley para não
alertar qualquer criminoso de suas presenças, mas nervoso com o silêncio. Cauteloso
como um gato sobre vidro quebrado, entrou sorrateiro no apartamento, mas todos os
aposentos estavam desertos. Na porta do apartamento, que dava para o hall onde vira
a figura, parou. Para onde tinha ido Dooley? O homem aparentemente desaparecera
de vista.
Então, um grunhido além da porta.
— Dooley? — ousou Boyle. Outro grunhido. Entrou no hall. Mais três portas se
apresentaram, todas fechadas; outros apartamentos, presumivelmente, ou quitinetes.
Sobre ocapacho marrom na porta da frente estava o cassetete de Dooley, largado ali
como se seu dono tivesse o abandonado na fuga. Boyle engoliu o medo e terminou de
entrar no hall. Novamente o gemido, mais perto.
Olhou ao redor e para o alto das escadas. Lá, no patamar do meio, jazia Dooley.
Estava quase inconsciente. Sofrerá uma tentativa canhestra de ter as roupas rasgadas;
grandes partes de sua anatomia inferior estavam expostas.
— O que houve, Dooley? — perguntou Boyle, aproximando-se do pé das escadas. O
policial ouviu sua voz e rolou para o lado dele. Seus olhos esgazeados abriram-se
aterrorizados sobre Boyle.
— Está tudo bem — Boyle o assegurou. — Sou eu.
Tarde demais Boyle percebeu que o olhar de Dooley não estava focalizado nele,
mas em alguma coisa atrás. Quando girou nos calcanhares para ver o que assustava
Dooley, uma figura pulou a toda em cima dele. Sem fôlego e com um palavrão na boca,
Boyle foi atirado ao chão, onde girou por alguns segundos antes que seu atacante o
agarrasse pelo paletó e pelos cabelos, tornando a colocá-lo de pé. Reconheceu na
hora o rosto selvagem que se jogava ante o seu — os cabelos compridos, a boca mole,
a fome — mas havia muita coisa que ele não esperava. Para começar, o homem
estava nu como um bebê, mas bem mais servido. Sem contar com o fato de que estava
em ponto de bala. Se o olho-de- peixe na virilha dele, piscando para Boyle, já não fosse
evidência suficiente, as mãos que agora rasgavam suas roupas tornavam a intenção do
atacante perfeitamente visíveis.
— Dooley! — Boyle gritou horrorizado ao ser jogado no corredor. — Pelo amor de
Deus! Dooley!
Seus pedidos foram silenciados quando bateu na parede oposta. O selvagem estava
às suas costas em meio segundo, amassando o rosto de Boyle contra o papel de
parede: pássaros e flores, entrelaçados, enchiam-lhe os olhos. Desesperado, Boyle
lutou, mas a paixão do homem lhe emprestava uma força ingovernável. Com uma
insolente mão segurando a cabeça do policial, ele rasgou as calças e cuecas de Boyle,
deixando suas nádegas expostas.
— Deus... — Boyle implorou para o padrão do papel de parede. — Por favor, Deus,
alguém me ajude... — Mas as orações não eram mais eficazes que seus esforços.
Estava pregado na parede como uma borboleta num alfinete, pronta para ser
despedaçada. Ele fechou os olhos, lágrimas de frustração descendo por suas faces. O
atacante largou a cabeça de Boyle e guiou o instrumento de violação. Boyle recusou-se
a gritar. A dor que sentiu não era tanta quanto a vergonha. Melhor talvez que Dooley
continuasse desmaiado; que essa humilhação fosse praticada e acabada sem
testemunhas.
— Pare — ele murmurou para a parede, não a seu atacante, mas a seu corpo,
pedindo-lhe que não achasse prazer naquele ultraje. Mas suas terminações nervosas
eram traiçoeiras; inflamavam-se com o ataque. Por baixo da agonia e da dor, uma
parte imperdoável dele rejubilava-se com a ocasião.
Nas escadas, Dooley levantou-se. Sua região lombar, fraca desde um acidente de
carro no Natal passado, começara a doer quase no instante em que o selvagem o
jogara ali. Agora, descendo as escadas, o menor movimento provocava agonias
excruciantes. Aleijado pela dor, desceu cambaleando até o final e olhou, surpreso, o
outro lado do corredor. Seria possível que aquele fosse Boyle — o convencido, o
homem em ascensão, sendo montado como um garoto de rua em busca de dinheiro
para drogas? A visão deixou Dooley transfigurado por vários segundos antes que
desgrudasse os olhos dali e os transferisse para o cassetete sobre o capacho. Moveuse
com cautela, mas o selvagem estava ocupado demais com o defloramento para
notá-lo.
Jerome escutava o coração de Boyle. Era uma batida alta, sedutora, e a cada
penetração no homem, ela parecia mais alta. Ele queria aquilo: o calor, a vida daquilo.
Sua mão moveu-se para o peito de Boyle, e cravou-se na carne.
— Me dê seu coração — ele disse. Era um verso de uma das canções.
Boyle gritou na parede quando seu atacante feriu seu peito. Havia visto fotos da
mulher dos Laboratórios; a ferida aberta de seu torso estava clara em sua cabeça.
Agora o maníaco pretendia cometer a mesma atrocidade. Me dê seu coração. Imerso
em pânico até o limite da sanidade, ele achou nova disposição, e recomeçou a lutar,
esticando a mão para trás e metendo as unhas no torso do homem: nada — nem
mesmo a tremenda perda de cabelo de sua cabeça — interrompia o ritmo das
estovadas, contudo. Numa atitude extrema, Boyle tentou insinuar uma das mãos entre
seu corpo e a parede e passá-la por entre as pernas para castrar o filho da puta.
Quando ia fazer isso, Dooley atacou, disparando uma chuva de pancadas com o
cassetete na cabeça do homem. A distração deu a Boyle pouco espaço de manobra.
Pressionou com firmeza contra a parede; o homem, agarrando o peito de Boyle com a
mão escorregadia de sangue, perdeu o contato. Boyle empurrou novamente. Dessa
vez, conseguiu afastar inteiramente o homem. Os corpos se separaram; Boyle virou-se,
sangrando mas fora de perigo, e viu Dooley seguir o homem corredor abaixo, batendo
em sua cabeça loura oleosa. Mas ele não tentava se defender: seus olhos em chamas
(Boyle jamais entendera a precisão física dessa imagem até agora) ainda estavam no
objeto de suas afeições.
— Mate-o! — Boyle disse baixinho, quando o homem sorriu — sorriu! — entre as
pancadas. — Quebre cada osso do corpo dele!
Mesmo que Dooley, depauperado como estava, tivesse em estado adequado para
obedecer a ordem, não teria tido chance de cumpri-la. Seus gestos foram
interrompidos por uma voz que vinha do corredor. Uma mulher havia emergido do
apartamento pelo qual Boyle havia passado. Ela também fora vítima do rapaz, a julgar
por seu estado; mas a entrada de Dooley na casa havia obviamente distraído seu
molestador antes que pudesse causar sérios danos.
— Prendam ele! — ela disse, apontando para o rapaz sorridente. — Ele tentou me
estuprar!
Dooley aproximou-se para prender o prisioneiro, mas Jerome tinha outras intenções.
Pôs a mão no rosto de Dooley e empurrou-o contra a porta da frente. O capacho
marrom deslizou sob seus pés: ele caiu. Quando conseguiu recuperar o equilíbrio
Jerome estava longe. Boyle fez uma tentativa canhestra de detê-lo, mas os farrapos de
suas calças se enrolaram em suas pernas e Jerome, ligeiro, logo já tinha subido as
escadas.
— Peça socorro — Boyle ordenou a Dooley. — E rápido.
Dooley assentiu, e abriu a porta da frente.
— Há alguma saída no andar de cima? — Boyle perguntou a Sra. Morrisey. Ela
balançou a cabeça. — Então pegamos o filho da puta encurralado, não foi? — ele
perguntou. — Vá, Dooley! — Dooley desceu a rua mancando. — Ea senhora — ele
disse à mulher — pegue algo que sirva de arma. Qualquer coisa sólida. — A mulher fez
que sim e voltou por onde viera, deixando Boyle caído ao lado da porta aberta. Uma
brisa suave secava fria o suor de seu rosto. No carro do lado de fora, Dooley pedia
reforços.
Num instante, pensou Boyle, os carros estariam ali, e o homem lá em cima seria
levado para dar seu depoimento. Não haveria oportunidade para vingança assim que
fosse preso; a lei tomaria seu curso plácido, e ele, a vítima, seria apenas um
observador. Se tinha que salvaguardar a ruínas de sua masculinidade, agora era a
hora. Se não — se ficasse ali parado, os intestinos em chamas — jamais se libertaria
do horror que sentira com a traição de seu corpo. Devia agir agora — devia acabar
com o sorriso no rosto de seu estuprador de uma vez por todas — ou então viver com
nojo de si mesmo até que a memória se dissipasse.
A escolha não era nenhuma escolha. Sem maior discussão, levantou-se e começou
a subir as escadas. Ao atingir o patamar percebeu que não havia trazido arma, mas
sabia que se tornasse a descer perderia toda a oportunidade. Preparado, naquele
momento, para morrer se necessário, subiu.
Só havia uma porta aberta no andar de cima; através dela vinha o som de um rádio.
No andar de baixo, na segurança do hall, ouviu Dooley entrar para lhe dizer que o
chamado havia sido feito, apenas para parar no meio do anúncio. Ignorando a
distração, Boyle entrou no apartamento.
Não havia ninguém. Boyle levou apenas alguns momentos para checar a cozinha, o
pequeno banheiro e a sala de estar: todos vazios. Voltou ao banheiro, cuja janela
estava aberta, e enfiou a cabeça para fora. A queda para a grama do jardim abaixo era
razoavelmente fácil. Havia marcas de corpo do homem impressas no chão. Ele havia
pulado. Fora embora.
Boyle amaldiçoou seu atraso, e baixou a cabeça. Um fio de suor desceu pela perna.
Na sala ao lado, as canções de amor continuavam tocando.
Para Jerome, não houve esquecimento, não desta vez. O encontro com a sra.
Morrisey, interrompido por Dooley, e o episódio com Boyle que se seguira, todos
apenas serviram para alimentar seu fogo. Agora, à luz dessas chamas, ele via
claramente os crimes que havia cometido. Lembrava-se com uma clareza terrível do
laboratório, da injeção, dos macacos, do sangue. Os atos de que se lembrava,
entretanto (e havia muitos), não despertavam nele qualquer sensação de pecado.
Todas as consequências morais, toda vergonha ou remorso, fora enterrado pelo fogo
que mesmo agora lambia sua carne e inflamava novos entusiasmos.
Refugiou-se num beco quieto para se fazer apresentável. As roupas que havia
conseguido agarrar antes de fugir eram uma confusão só, mas serviriam para evitar
que ele atraísse uma atenção indesejável. Enquanto abotoava as calças—o corpo
parecia tenso como se se ressentisse de estar oculto — tentou controlar o holocausto
que trovejava entre suas orelhas. Mas as chamas não cediam. Cada fibra sua parecia
viva ao fluxo do mundo ao seu redor. As árvores ao longo da estrada, a parede às suas
costas, as próprias pedras do calçamento sob seus pés descalços lhe atiçavam
fagulhas, e queimavam agora com fogo próprio. Ele sorriu ao ver a conflagração se
espalhar. O mundo, em cada detalhe ansioso, sorriu de volta.
Excitado além do controle, virou-se para a parede contra a qual se apoiara. O sol
havia caído por completo sobre ela, e estava quente: os tijolos cheiravam
maravilhosamente. Depositou beijos em suas faces terrosas, as mãos explorando cada
reentrância. Murmurando besteiras adocicadas, baixou o zíper, encontrou um nicho
confortável e o preencheu. Sua mente corria com imagens líquidas: anatomias
misturadas, femininas e masculinas em um único indistinguível congresso. Acima dele,
mesmo as nuvens haviam pegado fogo; enfeitiçado por suas cabeças em chamas, ele
sentiu o momento elevar-se em sua excitação. A respiração era rápida agora. Mas o
êxtase? Certamente continuaria para sempre.
Sem aviso, um espasmo de dor viajou por sua espinha do córtex aos testículos e
voltou, provocando convulsões. Suas mãos perderam contato com o tijolo e ele
terminou seu clímax agonizante no ar ao cair sobre o pavimento. Por vários segundos
ele estava onde havia caído, enquanto os ecos de espasmo inicial pulavam para cima e
para baixo de sua espinha, diminuindo a cada retorno. Podia sentir o gosto de sangue
na garganta; não tinha certeza se havia mordido o lábio ou a língua, mas achava que
não. Sobre sua cabeça circulavam pássaros, elevando-se preguiçosos num espiral de
ar quente. Ele viu o fogo nas nuvens derramar-se.
Levantou-se e olhou para o tributo de sêmen que depusera no chão. Por um frágil
instante ele teve novamente um fragmento da visão que acabara de ter; imaginar um
casamento de sua semente com a pedra do calçamento. Que filhos sublimes o mundo
se orgulharia de ter, ele pensou, se ele só pudesse copular com tijolo ou árvore;
sofreria com prazer as agonias da concepção, se tais milagres fossem possíveis. Mas
as pedras do calçamento eram imóveis à sedução de sua semente; a visão, como o
fogo acima dele, esfriava e escondia suas glórias.
Guardou o membro ensanguentado e recostou-se na parede, analisando vezes sem
conta os estranhos eventos de sua vida recente. Algo de fundamental estava mudando
nele, disso não tinha dúvida; o arrebatamento que havia tomado conta dele (e, sem
dúvida, tomaria conta de novo), não era nada que tivesse experimentado até então. E o
que quer que tivessem injetado em seus sistema não mostrava sinais de se dissipar
naturalmente; longe disso. Podia sentir ainda o calor dentro de si, como quando deixara
os Laboratórios; mas daquela vez o rugido de sua presença era mais alto que nunca.
Era um novo tipo de vida que estava vivendo, e o pensamento, embora aterrador, o
exultava. Nem uma vez ocorreu ao seu cérebro rodopiante e erotizado que esse novo
tipo de vida, no devido tempo, exigiria um novo tipo de morte.
Carnegie fora avisado por seus superiores de que se esperava resultados; ele
estava agora passando a surra verbal que recebera para seus comandados. Era uma
fileira de humilhação, na qual o maior era encorajado a chutar o menor, e esse, por sua
vez, seu inferior. Carnegie às vezes se perguntava em que o homem no final da fileira
descarregava sua ira; no cão, provavelmente.
— Este estuprador ainda está solto, cavalheiros, apesar de sua foto em muitos
jornais esta manhã, e um método operacional que é, no mínimo, insolente. Nós vamos
pegá-lo, claro, mas vamos deter o filho da puta antes que tenhamos outra morte nas
mãos...
O telefone tocou. O substituto de Boyle, Migeon, pegou o fone, enquanto Carnegie
concluía a preleção aos policiais reunidos.
— Quero ele nas próximas vinte e quatro horas, senhores. Foi o cronograma que me
deram, e é o que temos. Vinte e quatro horas.
Migeon interrompeu.
— Senhor? É Johannson. Diz que tem algo para o senhor. É urgente.
— Certo. — O Inspetor pegou o fone. — Carnegie.
A voz do outro lado era tão suave que quase não se podia ouvi-la.
— Carnegie — disse Johannson — estivemos nos laboratórios; cavamos cada
informação que pudemos encontrar sobre os testes de Dance e Welles...
— E...?
— Também analisamos traços do agente na seringa que usaram no suspeito. Acho
que encontramos o Garoto, Carnegie.
— Que garoto? — Carnegie queria saber; achava os rodeios de Johannson irritantes.
— O Garoto Cego, Carnegie.
— E?
Por algum motivo inexplicável, Carnegie estava certo de que o homem sorriu do
outro lado da linha antes de responder:
— Acho que seria melhor você vir aqui e ver por si mesmo. Na hora do almoço está
bom?
Johannson poderia ter sido um dos maiores envenenadores da história: tinha todos os
requisitos. Uma mente meticulosa (envenenadores eram, na opinião de Carnegie,
pessoas de um comportamento exemplar), natureza paciente (venenos podiam levar
tempo para agir) e, o mais importante, um conhecimento enciclopédico de toxicologia.
Observando-o no trabalho, o que Carnegie fizera em dois casos anteriores, era ver um
homem sutil em seu ofício sutil, e o espetáculo gelava o sangue de Carnegie.
Johannson havia se instalado no laboratório do andar de cima, onde a doutora
Dance fora assassinada, ao invés de usar as instalações da polícia para a
investigação, porque, como explicara a Carnegie, muito do equipamento que a
organização Hume afirmava ter, simplesmente não era encontrado em parte alguma.
Seu domínio sobre o lugar, acompanhado por seus dois assistentes havia, entretanto,
transformado o laboratório de uma confusão deixada pelos doutores num sonho de
ordem. Apenas os macacos permaneciam uma constante. Por mais que tentasse,
Johannson não conseguia controlar o comportamento deles.
—Não tivemos muita dificuldade em achar a droga usada no seu homem — disse
Johannson. — Simplesmente checamos os traços que ficaram na agulha com materiais
encontrados na sala. Na verdade, parece que eles estavam fabricando esse negócio,
ou variação sobre o tema, por algum tempo. As pessoas aqui, claro, afirmam que não
sabiam de nada a respeito. Estou inclinado a acreditar neles. O que os bons doutores
faziam aqui era, tenho certeza, da natureza de uma experiência pessoal.
— Que tipo de experiência?
Johannson tirou os óculos e começou a limpá-los com a ponta de sua gravata
vermelha.
—Primeiro, achávamos que estavam desenvolvendo alguma espécie de alucinógeno
— ele disse. — Em alguns aspectos o agente usado em seu homem lembra um
narcótico. Na verdade — métodos a parte — acho que eles fizeram descobertas muito
excitantes. Avanços que nos levam a um território inteiramente novo.
— Então não é uma droga?
— Ah, sim, claro que é uma droga — disse Johannson, colocando de volta os óculos
— mas criada para um propósito muito específico. Veja você mesmo.
Johannson levou-o até a fileira de jaulas de macacos. Ao invés de ficarem
confinados separadamente, o toxicologista achara por bem abrir as portas de ligação
entre as jaulas, permitindo aos animais livre acesso para se juntar em grupos. A
consequência foi absolutamente clara: os animais começaram a realizar séries
elaboradas de atos sexuais. Porque, Carnegie se perguntou, macacos sempre faziam
coisas obscenas? Era a mesma tórrida exibição onde quer que ele levasse sua prole,
quando crianças, ao Zoológico de Regenfs Park; a Jaula dos Macacos provocava uma
pergunta embaraçosa atrás da outra. Depois de algum tempo parou de levar as
crianças. Simplesmente achou mortificante demais.
— Eles não têm nada melhor para fazer? — perguntou a Johannson, desviando o
olhar e tornando-o para o menage à trois que era tão íntimo a ponto do olho não saber
que membro era de que macaco.
—Creia em mim — Johannson deu um sorrisinho—isto não é nada comparado a
muito do comportamento que vimos deles desde que lhes demos uma dose do agente.
Desse ponto em diante eles ignoraram todos os padrões normais de comportamento;
desviaram os sinais de excitação, os rituais de fazer a corte. Não mostram mais
qualquer interesse por comida. Não dormem. Tornaram-se obsessivos sexualmente.
Todos os demais estímulos foram esquecidos. A menos que o agente seja eliminado
normalmente pelo organismo, suspeito que vão trepar até morrer.
Carnegie olhou para o resto das jaulas; as mesmas cenas pornográficas eram
exibidas em cada uma delas. Estupro em massa, ligações homossexuais, fervente e
extasiada masturbação.
— Não é de se espantar por que os doutores fizeram de sua descoberta um projeto
secreto — continuou Johannson. — Estavam para descobrir algo que poderiam ter-lhes
feito milionários. Um afrodisíaco que realmente funciona.
— Afrodisíaco?
—A maioria deles são inúteis, claro. Chifres de rinocerontes, enguias vivas no molho:
coisas simbólicas. São feitas para excitar por associação.
Carnegie lembrou-se da fome nos olhos de Jerome. A dos macacos era um reflexo.
Fome, e o desespero que a fome traz.
—E as pomadas também, tudo inútil. Cantharis vesticatora...
— Como?
— Mais conhecida como Mosca Espanhola, certo? É uma pasta feita de um inseto.
Também é inútil. Na melhor das hipóteses essas coisas são inflamãveis. Mas isso... —
Pegou um frasco de fluido incolor. — Isto é coisa de gênio.
— Eles não me parecem muito felizes com isso.
— Ah, ainda não está refinado — explicou Johannson. — Acho que os pesquisadores
se deixaram levar, e passaram para testes em cobaias vivas uns bons dois ou três
anos antes do que deviam. Esta coisa é quase letal do jeito em que está agora, não há
dúvida. Mas, no devido tempo, poderia dar certo. Sabe, eles deixaram de lado os
problemas mecânicos: este negócio opera diretamente na imaginação sexual, na libido.
Se você excitar a mente, o corpo acompanha. O truque é esse.
O chocalhar de uma grade próxima desviou a atenção de Carnegie das feições
pálidas de Johannson. Uma das fêmeas dos macacos, aparentemente não satisfeita
com as atenções de vários machos, estava toda aberta contra a jaula, os dedos
grossos esticados na direção de Carnegie. Seus homens, para não ficarem sem amor,
começaram uma sessão de sodomia.
— Garoto Cego? — perguntou Carnegie. — É Jerome?
— Cupido, não é? — disse Johannson, e acrescentou: — "O amor olha não com os
olhos, mas com a mente.
E por isso o Cupido é cego." Sonho de uma Noite de Verão.
— O Bardo nunca foi meu forte — comentou Carnegie. Voltou a olhar a fêmea. — E
Jerome? — perguntou.
— Ele está com o agente no sistema. Uma dose maciça.
— Então ele está igualzinho a esta turma!
— Eu presumiria — suas capacidades intelectuais sendo maiores—que o agente
pode não ser capaz de trabalhar de forma tão sem limites. Mas, apesar disso, o sexo
pode nos igualar aos macacos, não pode? —Johannson se permitiu um meio-sorriso ao
enunciar o conceito. — Todas as nossas chamadas preocupações mais nobres tornamse
secundárias a isso. Por um curto tempo, o sexo nos torna obsessivos; podemos
realizar, ou pelo menos achamos que podemos, o que de outra forma pode parecer
feitos extraordinários.
— Não acho nada tão extraordinário assim no estupro — comentou Carnegie,
tentando cortar pela raiz a rapsódia de Johannson. Mas o outro não se deixou abater.
— Sexo sem fim, sem compromisso ou explicação — ele disse. — Imagine. O sonho
de Casanova.
O mundo já vira tantas Idades. A Idade das Luzes; da Reforma; da Razão. Agora,
finalmente, a Idade do Desejo. E, depois disso, um fim às Idades; um fim, talvez a tudo.
Pois os fogos que estavam sendo atiçados agora eram mais fortes do que suspeitava o
inocente mundo. Eram fogos terríveis, fogos sem fim, que iluminariam o mundo numa
última e feroz fogueira.
Assim pensava Welles, deitado em seu leito. Estava consciente há horas, mas
escolhera não demonstrá-lo. Sempre que uma enfermeira vinha ao seu quarto ele
fechava os olhos e reduzia o ritmo da respiração. Sabia que não podia manter a ilusão
por muito tempo, mas as horas lhe davam um pouco que pensar no itinerário que
seguiria daqui. Seu primeiro movimento tinha de ser a volta aos Laboratórios; havia
papéis a serem destruídos; fitas a serem apagadas. De agora em diante, estava
determinado a fazer com que cada fragmento de informação sobre o Projeto Garoto
Cego existisse somente na sua cabeça. Assim ele poderia ter controle total sobre sua
obra-prima, e ninguém poderia reclamá-la para si.
Nunca tivera muito interesse em ganhar dinheiro com a descoberta, embora
estivesse cônscio de como um afrodisíaco que funcionasse poderia ser lucrativo; jamais
dera atenção à riqueza material. Sua motivação inicial para o desenvolvimento da droga
— que encontraram por acaso enquanto testavam um agente para ajudar
esquizofrênicos — era investigativo. Mas seus motivos haviam amadurecido, durante os
meses de trabalho secreto. Começara a pensar em si mesmo como o arauto do novo
milênio. Não deixaria que ninguém tentasse lhe roubar esse papel sagrado.
Assim ele pensava, deitado em seu leito, esperando o momento de fugir.
Andando pelas ruas, Jerome teria prazerosamente endossado a visão de Welles.
Talvez ele, de todos os homens, fosse o mais ansioso parâ receber a Idade do Desejo.
Ele via seus prodígios por toda parte. Em cartazes de propaganda de cinema, em
vitrines de lojas, em telas de televisão: em toda parte, o corpo como mercadoria. Onde
a carne não fosse utilizada para vender artefatos de pedra e metal, os próprios
artefatos assumiam suas propriedades. Automóveis passavam por ele com todos os
atributos da volúpia, menos a respiração: seus corpos sinuosos brilhavam, os interiores
convidavam, luxuriantes; os edifícios o atiçavam com trocadilhos sexuais. Torres,
passagens; praças sombreadas com fontes de água branca. Sob o arrebatamento do
superficial — as milhares de distrações triviais que encontravam nas ruas e praças —
ele sentiu a vida madura do corpo informando cada detalhe.
O espetáculo mantinha o fogo nele bem atiçado; era tudo o que a força de vontade
podia fazer para evitar que ele voltasse sua atenção em toda criatura em que pusesse
os olhos. Algumas pareceram sentir o fogo nele, e se afastavam. Os cães também
sentiam. Vários o seguiram, excitados por sua excitação. Moscas orbitavam sua
cabeça em esquadrões. Mas a crescente tranquilidade que sentia com sua condição
lhe dava um controle rudimentar sobre ela. Sabia que, para fazer uma exibição pública
de seu ardor, traria toda a lei sobre ele, e que isso, por sua vez, acabaria com suas
aventuras. Logo, logo, o fogo que ele havia iniciado iria se espalhar: aí ele emergiria de
seu esconderijo e se banharia livremente nele. Até então, era melhor ser discreto.
Em outras ocasiões, ele comprara a companhia de uma garota no Soho; foi
encontrá-la. A tarde estava abafada e quente, mas não sentia cansaço. Não comia
desde a noite anterior, mas não sentia fome. Na verdade, ao subir a escadinha estreita
até o quarto do primeiro andar que Angela ocupava, sentia-se disposto como um atleta,
reluzente de saúde. A cafetina imaculadamente vestida e bisbilhoteira que normalmente
ocupava um lugar no alto das escadas estava ausente. Jerome simplesmente foi ao
quarto da garota e bateu. Não houve resposta. Bateu novamente, com mais urgência.
O ruído trouxe uma mulher de meia-idade à porta no fim do patamar.
— O que deseja?
— A mulher — ele respondeu simplesmente.
— Ângela foi embora. E é melhor sair daqui também, nesse estado. Isto aqui não é
casa de pensão.
— Quando ela volta? — ele perguntou, segurando o apetite o quanto podia.
A mulher, tão alta quanto Jerome e uma vez e meia seu peso, avançou na direção
dele.
— A garota não volta — ela disse. — É melhor dar o fora, senão chamo Isaiah.
Jerome olhou para a mulher; ela tinha a mesma profissão de
Ângela, sem dúvida, apesar de não ter a mesma idade e beleza. Sorriu para ela.
— Posso ouvir seu coração — ele disse.
—Já lhe falei-
Mas antes que ela pudesse terminar as palavras, Jerome desceu as escadas na
direção dela. Ela não estava intimidada pela abordagem dele, apenas com nojo.
—Se eu chamar Isaiah, você vai se arrepender—informou-o. As batidas de seu
coração dispararam, ele podia ouvir.
— Estou pegando fogo — ele disse.
Ela franziu a testa-, estava obviamente perdendo a batalha de verbal.
— Fique longe de mim — ela disse. — Estou lhe avisando.
O coração batia cada vez mais rápido. O ritmo, enterrado na
substância dela, o seduzia. Daquela fonte: toda a vida, todo o calor.
— Me dê seu coração — ele disse.
— Isaiah!
Mas ninguém veio correndo ao seu grito. Jerome não lhe deu oportunidade de gritar
uma segunda vez. Correu para abraçá-la, tapando sua boca com a mão. Ela deu uma
saraivada de socos nele, mas a dor só aumentava as chamas. Ele ficava mais brilhante
a cada momento: cada orifício seu inflamava a fornalha no estômago, ventre e cabeça.
O corpo superior dela não era páreo para tamanho fervor. Ele a empurrou contra a
parede — a batida do coração dela alta em seus ouvidos — e começou a aplicar-lhe
beijos na nuca, rasgando seu vestido para liberar seus seios.
— Não grite — ele disse, tentando parecer persuasivo. — Não pretendo machucá-la.
Ela balançou a cabeça, e disse:
— Não vou gritar — contra a palma da mão dele. Ele tirou a mão da sua boca, e ela
puxou o ar desesperada. Onde estava Isaiah?, ela pensou. Com certeza não estava
longe. Temendo por sua vida se tentasse resistir ao invasor — como brilhavam seus
olhos! — ela desistiu de qualquer fingimento de resistência e deixou-o fazer o que
quisesse. O suprimento de paixão dos homens, ela sabia de longa experiência,
facilmente se esgotava. Embora pudessem ameaçar mover céus e terra, meia hora
depois isso tudo seriam lençóis molhados e ressentimento. Se acontecesse o pior, ela
poderia tolerar sua conversa fiada de queimar; já ouvira conversas mais obscenas na
cama. Quanto ao que ele tentava agora enfiar dentro dela, sua aparência cômica não a
surpreendia em nada.
Jerome queria tocar seu coração; queria vê-lo molhar o rosto dele, queria se banhar
nele. Pôs a mão no seio dela, e sentiu o coração bater sob sua palma.
— Gostou? — ela perguntou enquanto ele apertava o seio dela. — Não é o primeiro.
Ele cravou as unhas em sua pele.
— Com carinho, amor — ela o repreendeu, olhando pelo ombro dele para ver se
havia algum sinal de Isaiah. — Seja gentil. É o único corpo que tenho.
Ele a ignorou. Suas unhas tiraram sangue.
— Não faça isso — ela disse.
— Ele quer sair—ele disse enfiando as unhas mais fundo, e subitamente ela se deu
conta de que ele não estava brincando.
— Pare!— ela gritou quando ele começou a rasgá-la.
Lá embaixo, na rua, Isaiah deixou cair a fatia de tarte française que havia acabado
de comprar e correu para a porta. Não era a primeira vez que sua paixão por doces o
tirava de seu posto, mas — a não ser que se apressasse em corrigir o erro — poderia
ser a última. Ouviu barulhos terríveis vindos da escada. Subiu correndo a escada. O
cenário que seus olhos viram eram piores que o que havia imaginado. Simone estava
presa contra a parede ao lado da porta, com um homem colado nela. Sangue escorria
de algum ponto entre os dois, mas ele não conseguia ver de onde.
Isaiah gritou. Jerome, mãos ensanguentadas, desviou a atenção de seus trabalhos
quando um gigante num terno Savile Row correu em sua direção. Jerome levou
segundos vitais para se livrar da confusão, tempo em que o homem já estava sobre ele.
Isaiah agarrou-o e arrastou-o para longe da mulher. Ela correu chorando para o quarto.
— Maluco filho da puta — disse Isaiah, desferindo uma série de socos. Jerome
recuou. Mas estava em chamas, e não tinha medo. Num instante pulou sobre o homem
como um babuíno enfurecido. Isaiah, apanhado de surpresa, perdeu o equilíbrio, e caiu
contra uma das portas, que se abriu com seu peso. Ele caiu para dentro de um
lavatório minúsculo, a cabeça batendo na borda do vaso sanitário. O impacto o
desorientou, e ele ficou deitado no linóleo manchado gemendo, pernas para o ar.
Jerome podia ouvir seu sangue, as veias ansiosas; podia sentir o cheiro do açúcar no
seu hálito. Sentiu a tentação de ficar. Mas o instinto de autopreservação falou mais
alto; Isaiah já estava tentando se levantar novamente. Antes que conseguisse, Jerome
virou-se e desceu correndo as escadas.
O calor do dia encontrou-o na porta, e ele sorriu. A rua o queria mais do que a
mulher na escada, e aceitou com prazer. Começou a correr pela calçada, a ereção
ainda querendo furar as calças. Atrás dele, ouviu o gigante descendo rápido as
escadas. Passou sebo nas canelas às gargalhadas. O fogo ainda estava queimando
nele, e emprestava velocidade aos seus pés; desceu correndo a rua, sem ligar se
Hálito de Açúcar o estava seguindo ou não. Pedestres, indiferentes, nessa época
desapaixonada, a registrar mais que um interesse casual no sátiro sujo de sangue,
abriam caminho para deixá-lo passar. Alguns apontavam, talvez supondo que fosse um
ator. A maioria nem reparou. Ele abriu caminho por um labirinto de ruas estreitas,
consciente, sem precisar olhar, de que Isaiah ainda estava no seu encalço.
Talvez o acaso o tivesse levado à rua do mercado; talvez, e o mais provável, fosse
que o calor levasse consigo o cheiro misturado de carnes e frutas às suas narinas, e
ele queria se banhar nele. A passagem estreita estava apinhada de compradores,
turistas e barracas cheias de produtos. Fundiu-se alegremente à turba, esfregando-se
em nádegas e coxas, encarando o olhar espantado de colegas de carne a cada lado.
Que dia! Ele e seu cacete mal podiam acreditar em sua sorte.
Atrás dele, ouviu Isaiah gritar. Acelerou o passo, dirigindo-se para as áreas mais
densamente populosas do mercado, onde poderia se perder num oceano quente de
pessoas. Cada contato era um êxtase doloroso. Cada clímax — e eles vinham um atrás
do outro à medida que ele atravessava a massa — era um espasmo seco em seu
sistema. Suas costas doíam, seus testículos doíam: mas o que era seu corpo agora?
Apenas um suporte para aquele monumento singular, seu cacete. A cabeça não era
nada; a mente não era nada. Seus braços eram simplesmente feitos para trazer o
amor mais para perto, suas pernas, para levar a exigente vara qualquer lugar onde ela
pudesse encontrar satisfação. Ele se via como uma ereção ambulante, o mundo se
abrindo ao seu redor: carne, tijolo, metal, ele não queria saber: devoraria tudo.
Subitamente, sem que se desse conta, a multidão se abriu, e ele se achou na
passagem principal e numa rua estreita. A luz do sol se derramava entre os prédios,
seu fervor magnificado. Ele estava para se virar para reunir-se à massa novamente
quando captou um cheiro e uma visão que o atraíram. Um pouco abaixo, na rua que
fedia pelo calor, três rapazes sem camisa trabalhavam entre pilhas de caixotes de
frutas, cada um contendo dúzias de cestos de morangos. Aquele fora um ano de
produção excessiva, e no calor impiedoso muitas das frutas começavam a ficar moles e
apodrecer. O trio de trabalhadores vasculhava os cestinhos, separando os morangos
bons dos ruins, e jogando os estragados no esgoto. O cheiro naquele espaço estreito
era terrível: uma doçura tão forte que teria enjoado qualquer um exceto Jerome, cujos
sentidos haviam perdido toda capacidade para repulsa ou rejeição. O mundo era o
mundo era o mundo; ele o aceitaria, como num casamento, para melhorou pior. Ficou
ali onde estava, vendo o espetáculo como num transe; os trabalhadores suados
brilhando ao cair do sol, mãos, braços e torsos sujos de suco escarlate; o ar cheio de
todo inseto que se alimentasse de néctar; a fruta descartada se acumulava no ralo do
esgoto em montes podres. Ocupados com seu trabalho sujo, os rapazes não o viram
no começo. Então um dos três levantou a cabeça, e percebeu a extraordinária criatura
que os observava. O riso no seu rosto morreu quando encarou os olhos de Jerome.
— Que diabo é isso?
Agora os outros dois levantaram a cabeça.
— Doce — disse Jerome; ele podia sentir os corações deles estremecerem.
— Olhe só pra ele — disse o mais novo, apontando para o ventre de Jerome. —
Está mostrando o pau.
Ficaram paralisados à luz do sol, os quatro, enquanto as vespas voejavam ao redor
das frutas e, na fatia estreita de verão azul entre os telhados, pássaros passavam.
Jerome queria que o momento continuasse para sempre: sua cabeça nua sentia gosto
de paraíso ali.
E então o sonho acabou. Ele sentiu uma sombra às costas. Um dos rapazes deixou
cair a cestinha que vasculhava; as frutas podres caíram no cascalho. Jerome franziu a
testa, e deu meia volta. Isaiah tinha achado a rua; sua arma era de metal, e brilhava.
Ela cruzou o espaço entre ele e Jerome num curto segundo. Jerome sentiu uma dor no
tronco quando a faca penetrou nele.
— Cristo — disse o rapaz, e começou a correr; seus dois irmãos, sem a menor
vontade de serem testemunhas de uma briga daquelas, hesitaram apenas mais um
pouco antes de fazer o mesmo.
A dor fez Jerome gritar, mas ninguém no mercado barulhento ouviu-o. Isaiah retirou
a lâmina; o calor veio junto. Ele fez menção de esfaquear novamente, mas Jerome era
rápido demais para o atacante; saiu de seu alcance e correu trêmulo para a rua. O
pretenso assassino, temeroso de que os gritos de Jerome atraíssem muita atenção,
apressou-se para terminar o serviço. Mas o asfalto estava escorregadio com as frutas
podres, e seus sapatos finos de camurça eram mais lisos que os pés descalços de
Jerome. O abismo entre eles aumentou de mais um passo.
— Não, senhor—disse Isaiah, determinado a não deixar seu humilhador escapar.
Empurrou para o lado uma torre de caixotes de frutas: cestinhas caíram e espalharam
seu conteúdo pelo caminho de Jerome. Jerome hesitou, para aspirar o buquê de frutas
amassadas. Essa indulgência quase o matou. Isaiah aproximou-se, pronto para agarrálo.
Jerome, seu sistema levado quase ao ponto de erupção pelo estímulo da dor, viu a
lâmina chegar perto para abrir sua barriga. Sua mente conjurou a ferida: o abdômen
rasgado — o calor se derramando para juntar-se ao sangue dos morangos no esgoto.
O pensamento era tão tentador. Ele quase o queria.
Isaiah já tinha assassinado antes, duas vezes. Conhecia o vocabulário sem palavras
do ato, e podia ver o convite nos olhos da vítima. Contente em ajudar, foi ao seu
encontro, faca em punho. No último instante possível Jerome reagiu, e ao invés de se
entregar para o abate, deu um soco no gigante. A faca voou da mão dele e caiu entre o
lixo de cestinhos e frutas. Jerome virou-se enquanto o caçador—sua vantagem perdida
—parava para localizar a faca. Mas sua presa havia escapado antes que seu punho
forte a tivesse encontrado: perdera-se novamente nas ruas lotadas de gente. Não teve
oportunidade de guardar a faca no bolso antes que o uniforme saísse da massa e se
juntasse a ele no corredor abafado
— O que aconteceu? — o policial quis saber, olhando para a faca. Isaiah
acompanhou seu olhar. Afaça ensanguentada estava preta de moscas.
Em seu escritório, o Inspetor Carnegie bebericava seu chocolate quente, o terceiro
na última hora, e via o crepúsculo. Sempre quis ser detetive, desde que se entendia por
gente; e, naquela época, essa sempre fora uma hora mágica. A noite caindo sobre a
cidade; miríades de criminosos vestindo seus farrapos e saindo para brincar. Uma hora
de vigilância, de uma nova força moral.
Mas, quando criança, não havia imaginado a fadiga que o pôr-do-sol invariavelmente
trazia. Estava cansado até os ossos, e se dormisse nas próximas horas sabia que seria
ali, em sua cadeira, com os pés sobre a mesa no meio de pilhas de copinhos plásticos.
O telefone tocou. Era Johannson.
—Ainda trabalhando?—ele perguntou, impressionado pela dedicação de Johannson
ao trabalho. Já passava das nove. Talvez Johannson não tivesse uma casa para a qual
não valesse a pena voltar.
— Ouvi dizer que nosso homem teve um dia ocupado — comentou Johannson.
— Isso mesmo. Uma prostituta no Soho; e depois conseguiu ser esfaqueado.
— Então ele não foi apanhado?
— Isso acontece — replicou Carnegie, cansado demais para ser espirituoso. — O
que posso fazer por você?
— Só achei que gostaria de saber: os maçados começaram a morrer.
As palavras despertaram Carnegie de seu estupor.
— Quantos?
— Dos quatorze, três, até agora. Mas o resto estará morto ao amanhecer, eu
acho.
—O que os está matando? Exaustão?—Carnegie lembrou-se da orgia desesperada
que assistira nas jaulas. Que animal — humano ou não — poderia manter aquele ritmo
sem entrar em colapso?
— Não é físico — disse Johannson. — Ou pelo menos não da forma que você está
insinuando. Temos de esperar pelos resultados da dissecação antes de obtermos
quaisquer explicações detalhadas...
— Sua melhor hipótese?
— Se é que vale algo... — disse Johannson — ...e vale: acho que estão
explodindo.
— Como?
— Sobrecarga cerebral de alguma espécie. Seus cérebros estão simplesmente se
desligando. O agente não se dispersa, sabia? Ele se alimenta de si mesmo. Quanto
mais febris ficam, mais droga é produzida; quanto mais droga, mais febris ficam. Um
círculo vicioso. Mais quentes e mais loucos. No fim das contas o sistema não pode
suportar mais, e de repente estou até o pescoço de macacos mortos. — O sorriso
voltou à voz novamente, frio e pervertido. — Não que isso estrague a diversão dos
outros. Necrofilia está virando a última moda aqui em baixo.
Carnegie olhou o chocolate quente que esfriava; formara-se uma pele fina na
superfície, que tremia quando ele tocava o copo.
— Então é só questão de tempo? — ele perguntou.
— Antes que nosso homem entre em pane? Acho que sim.
— Está certo. Obrigado pela informação. Mantenha-me informado.
— Quer vir aqui e ver os restos?
— Posso dormir sem corpos de macaco, obrigado.
Johannson deu uma gargalhada. Carnegie pôs o fone no
gancho. Quando virou-se para a janela, a noite havia caído definitivamente.
No laboratório, Johannson foi até o interruptor na porta; enquanto conversara com
Carnegie o resto do dia havia acabado. Viu o golpe que o derrubou uma fração de
segundo antes; pegou-o no lado do pescoço. Uma de suas vértebras estalou, e suas
pernas cederam. Ele caiu sem tocar no interruptor. Mas quando atingiu o chão a
diferença entre dia e noite era acadêmica.
Welles não se incomodou em conferir se a pancada fora letal ou não; tempo era um
luxo. Passou sobre o corpo e dirigiu-se para a bancada onde Johannson havia estado
trabalhando. Ali, deitado num círculo de luz da lâmpada como se para o ato final de
uma tragédia simiesca, jazia um corpo de macaco. Claramente havia morrido num
frenesi; seu rosto estava tenso: a boca escancarada e molhada de saliva, olhos fixos
num último olhar de alarme. Seu pelo havia sido arrancado em tufos no auge de suas
cópulas; seu corpo, desgastado com o esforço, era uma massa de contusões. Welles
levou meio minuto de estudo para reconhecer as implicações do cadáver, e dos outros
dois que agora via deitados num banco próximo.
—O amor mata—murmurou filosoficamente para si mesmo, e iniciou a destruição
sistemática do Garoto Cego.
Estou morrendo, pensou Jerome, estou morrendo de alegria terminal. O
pensamento o divertiu. Era o único em sua cabeça que fazia um certo sentido. Desde
seu encontro com Isaiah, e a fuga da polícia logo depois, não se lembrava de muita
coisa coerentemente. As horas de esconderijo e cura das feridas — de sentir o calor
tornar a crescer, e descarregá-lo — há muito haviam se fundido num sonho de noite de
verão, do qual, ele sabia com prazerosa certeza, só a morte o despertaria. A chama o
devorava completamente, das entranhas para fora. Se fosse eviscerado agora, o que
encontrariam as testemunhas? Apenas cinzas.
Mesmo assim, seu amigo de um olho só exigia mais; mesmo assim, enquanto
voltava aos Laboratórios — aonde mais um homem feito poderia ir quando os pontos
se rompiam, senão de volta ao lugar de origem do tratamento? — mesmo assim as
grades olhavam sedutoras para ele, e cada tijolo oferecia centenas de convites
terrosos.
A noite estava quente: noite de canções de amor e romance. Na privacidade
questionável de um estacionamento a poucos quarteirões de seu destino, ele viu duas
pessoas fazendo sexo no banco de trás de um carro, as portas abertas para acomodar
membros e ventilar os corpos. Jerome parou para ver o ritual, enfeitiçado como nunca
pelos corpos entrelaçados, e o som—tão alto que parecia um trovão — de corações
gêmeos batendo num ritmo crescente. Observando, sua vara ficou ansiosa.
A mulher o viu primeiro, e alertou seu parceiro para a ruína de ser humano que os
via com deleite tão infantil. O homem desviou a atenção de onde estava para olhá-lo
fixamente. Estou queimando, perguntou-se Jerome? Será que meus cabelos estão em
chamas? Finalmente a ilusão ganha substância? A julgar pelo olhar em seus rostos, a
resposta era certamente não. Eles não estavam com medo dele, apenas com raiva e
revolta.
— Estou pegando fogo — disse a eles.
O homem levantou-se e cuspiu em Jerome. Quase esperava que o cuspe virasse
vapor ao aproximar-se dele, mas pousou em seu rosto e peito como uma ducha
refrescante.
— Vá para o inferno — disse a mulher. — Deixe a gente em
paz.
Jerome balançou a cabeça. O homem avisou-o de que outro passo o obrigaria a
quebrar a cabeça de Jerome. Isso não perturbou nosso homem nem um pouco; nem
palavras nem socos poderiam silenciar o imperativo da vara.
Seus corações, ele percebeu enquanto se aproximava deles, não batiam mais em
uníssono.
Carnegie consultou o mapa, que já tinha cinco anos, na parede do escritório, para
marcar com um alfinete o local do ataque que acabara de ser relatado. Aparentemente
nenhuma das vítimas se machucara seriamente; a chegada de um carro cheio de gente
que vinha de uma festa impediu Jerome (era Jerome, sem dúvida) de prosseguir. Agora
a área estava inundada de policiais, meia dúzia deles armados; em questão de minutos
todas as ruas nas vizinhanças do ataque seriam isoladas. À diferença do Soho, que
estava lotado, aquela área não daria ao fugitivo muitos esconderijos.
Carnegie pôs um alfinete no local do ataque, e percebeu que ficava a alguns
quarteirões dos Laboratórios. Certamente não era acidente algum. O homem estava
voltando ao local do crime. Ferido, e sem dúvida à beira do colapso — os amantes
haviam descrito um homem que parecia mais morto do que vivo —Jerome seria
provavelmente apanhado antes de chegar em casa. Mas sempre havia o risco de
passar por entre os buracos da rede, e chegar aos Laboratórios. Johannson estava
trabalhando lá, sozinho; a guarda no prédio era, naqueles tempos de crise,
necessariamente pequena.
Carnegie pegou o fone e discou para Johannson. O telefone tocava do outro lado,
mas ninguém atendeu. O homem foi para casa, pensou Carnegie, contente por ter sido
aliviado de sua preocupação, são dez e cinquenta da noite e ele merece um descanso.
Mas quando ia botar o fone no gancho, alguém atendeu do outro lado.
—Johannson?
Ninguém respondeu.
—Johannson? Aqui é Carnegie. — Nada de resposta ainda. — Responda, diabos.
Quem está aí?
Nos Laboratórios, o fone foi esquecido. Não foi posto de volta ao gancho, mas
deixado sobre a bancada. Do outro lado da linha, Carnegie podia ouvir os macacos,
suas vozes agudas.
—Johannson?—perguntou Carnegie, inquieto. —Você está aí? Johannson?
Mas só os macacos responderam.
Welles havia feito duas fogueiras do material do Garoto Cego nas pias, e depois
acendeu-as. Elas subiram entusiasticamente. Fumaça, calor e cinzas encheram a
grande sala, espessando o ar. Quando as fogueiras começaram a queimar em
profusão ele jogou todas as fitas em que pôde colocar as mãos, e acrescentou todas
as notas de Johannson por via das dúvidas. Várias das fitas já haviam sido retiradas
dos arquivos, ele reparou. Mas tudo o que podiam mostrar a qualquer ladrão eram
algumas cenas provocantes de transformação: o coração do segredo continuava seu.
Com os procedimentos e fórmulas agora destruídos, só restava lavar das pias as
pequenas doses do agente que restavam e matar e incinerar os animais.
Preparou uma série de injeções letais, fazendo o serviço com cuidado fora do
normal. Aquela destruição sistemática o gratificava. Não lamentava a forma como as
coisas haviam acontecido. Desde aquele primeiro momento de pânico, quando vira
indefeso o soro Garoto Cego fazer seu efeito assustador em Jerome — até aquela
última eliminação de tudo o que se dera antes — fora, ele via agora, um processo firme
de erradicação. Com aquelas fogueiras ele trazia um fim à farsa da investigação
científica; depois disso ele era indiscutivelmente o Apóstolo do Desejo, o João Batista
no deserto de ideias. O pensamento o cegava para qualquer outro.
Sem se importar com os arranhões dos macacos, ele os pegou um por um, de suas
jaulas, para dar-lhes a dose mortal. Havia despachado três, e estava abrindo a jaula do
quarto quando uma figura apareceu na porta do laboratório. Através do ar enfumaçado
era impossível ver quem. Os macacos sobreviventes pareciam tê-lo reconhecido,
entretanto: largaram suas cópulas e lhe deram gritos de boas-vindas.
Welles ficou parado onde estava, e esperou que o visitante fizesse seu movimento.
— Estou morrendo — disse Jerome.
Welles não havia esperado por isso. De todas as pessoas que esperava, Jerome
era a última.
— Você me ouviu? — o homem quis saber.
Welles fez que sim com a cabeça.
— Estamos todos morrendo Jerome. A vida é uma doença lenta, nem mais nem
menos. Mas uma luz dessas no meio do caminho, hein?
—Você sabia que isto ia acontecer—disse Jerome. — Sabia que o fogo me
consumiria.
— Não — foi a resposta séria. — Eu não sabia. Verdade.
Jerome saiu da porta e caminhou até a luz mortiça. Estava um
farrapo; um retalho humano, sangue no corpo, fogo nos olhos. Mas Welles sabia que
não devia confiar na aparente vulnerabilidade daquele espantalho. O agente em seu
sistema o havia tornado capaz de atos super-humanos: vira Dance ser rasgada com
poucas carícias descuidadas. Era preciso ter tato. Embora estivesse claramente perto
da morte, Jerome ainda era formidável.
— Eu não tive a intenção, Jerome — disse Welles, tentando dominar o tremor na
voz. — Eu queria, de certa forma, poder dizer que sim. Mas não tive essa visão. Foi
preciso tempo e dor para ver o futuro com clareza.
O homem em chamas o observava com o olhar fixo.
— Tamanhos fogos, Jerome, esperando para serem acesos.
— Eu sei... —Jerome respondeu. — Acredite... eu sei.
—Você e eu; nós somos o fim do mundo.
O monstro deformado ponderou isso por um momento, e então concordou
lentamente. Welles exalou discretamente um suspiro de alívio; a diplomacia do leito de
morte estava funcionando. Mas tinha pouco tempo para desperdiçar com conversas. Se
Jerome estava ali, as autoridades não estariam logo atrás?
— Tenho trabalho urgente a fazer, meu amigo — ele disse calmo. — Você me
acharia mal-educado se eu prosseguisse com ele?
Sem esperar resposta, abriu outra jaula e tirou o macaco condenado dela, virando
habilidosamente seu corpo para facilitar a injeção. O animal convulsionou-se em seus
braços por alguns momentos, e depois morreu. Welles soltou os dedos rígidos do
macaco de sua camisa e jogou o cadáver e a seringa usada na bancada, virando-se
com a precisão de um carrasco para reclamar a próxima vítima.
— Por quê? — perguntou Jerome, olhando os olhos abertos do animal.
— Ato de misericórdia — replicou Welles, apanhando outra seringa.—Pode ver como
estão sofrendo.—Estendeu a mão para abrir a próxima jaula.
— Não faça isso — pediu Jerome.
— Não há tempo para sentimentos — retrucou Welles. — Peço que pare com isso.
Sentimento, pensou Jerome, lembrando-se mal e mal das canções no rádio que
primeiro lhe reacenderam o fogo. Welles não entendia que os processos do coração,
da cabeça e do ventre eram indivisíveis? Que o sentimento, por mais fútil, podia levar a
regiões desconhecidas? Ele queria contar isso ao doutor, explicar tudo o que vira e que
amara naquelas horas de desespero. Mas em algum lugar entre mente e língua as
explicações se esconderam.
Tudo o que podia dizer, para reforçar a empatia que sentia por todo o mundo sofrido,
era:—
Não — quando Welles abriu a jaula seguinte; O doutor ignorou-o e meteu a mão
na cela gradeada. Ela continha três animais. Pegou o que estava mais perto e puxou-o,
sob protestos, dos abraços de seus companheiros. Sem dúvida ele sabia que destino o
aguardava; uma confusão de gritos esganiçados assinalava seu terror.
Jerome não tinha estômago para essa exibição casual. Moveu-se, a ferida no tronco
um tormento, para impedir a matança. Welles, distraído pelo avanço de Jerome, largou
sua presa que se debatia: o macaco saiu em disparada por sobre as bancadas. Ao
partir para recapturá-lo, os prisioneiros na jaula atrás dele aproveitaram a chance e
escaparam.
— Merda — Welles gritou para Jerome. — Não vê que não temos tempá Não
entende?
Jerome entendia tudo, e nada. A febre que compartilhava com os animais ele
entendia; seu propósito, o de transformar o mundo, também. Mas por que deveria
terminar assim — aquela alegria, aquela visão — porque tudo deveria acabar numa
sala sórdida cheia de fumaça e dor, acabar em fragilidade, em desespero — isso ele
não entendia. Nem, agora percebia, Welles, que fora o arquiteto dessas contradições.
Quando o doutor partiu para um dos macacos fugitivos, Jerome foi sorrateiro até as
jaulas que restavam e abriu-as todas: os animais pularam para sua liberdade. Welles,
no entanto, conseguira sua recaptura, e tinha os macacos sob seu domínio, à beira de
receberem a panacéia. Jerome correu em sua direção.
— Solte-o — ele gritou.
Welles enfiou a agulha no corpo do macaco, mas antes que pudesse pressionar o
êmbolo Jerome puxou seu braço. A agulha cuspiu seu veneno no ar, e caiu ao chão: o
macaco, conseguindo se libertar, foi o próximo.
Jerome puxou Welles para perto.
— Eu lhe mandei que o soltasse—ele disse.
A resposta de Welles foi levar o punho ao flanco ferido de Jerome. Lágrimas de dor
brotaram de seus olhos, mas não soltou o doutor. O estímulo, por mais desagradável
que fosse, não podia dissuadi-lo de segurar aquele coração pulsante perto de si.
Desejava, abraçando Welles como um amigo pródigo, que pudesse se inflamar: que o
sonho de carne queimando que havia passado se tornasse agora uma realidade,
consumindo criador e criatura numa única chama purificadora. Mas sua carne era
apenas carne-, seu osso, osso. Os milagres que vira foram uma revelação particular, e
agora não havia tempo para comunicar suas glórias ou horrores. O que vira morreria
com ele, para ser redescoberto (talvez) por alguém no futuro, apenas para ser
esquecido e descoberto novamente. Como a história de amor que o rádio lhe contara; a
mesma alegria perdida e encontrada, encontrada e perdida. Olhou para Welles com
uma nova compreensão surgindo, ouvindo ainda o bater aterrorizado do coração do
homem. O doutor estava errado. Se deixasse o homem viver, ele saberia de seu erro.
Eles não eram arautos do milênio. Ambos estiveram sonhando.
—Não me mate—implorou Welles.—Eu não quero morrer.
Pior para você, idiota, pensou Jerome, e soltou o homem.
O espanto de Welles foi genuíno: não podia acreditar que seu apelo pela vida
tivesse sido ouvido. Esperando a morte a cada passo, recuou do alcance de Jerome,
que simplesmente virou as costas para o doutor e afastou-se.
Do andar de baixo veio um grito, e depois muitos gritos. Polícia, pensou Welles.
Provavelmente acharam o corpo do policial que estivera de guarda na porta. Não havia
tempo agora para terminar as tarefas que tinha vindo realizar. Tinha de fugir antes que
chegasse.
No piso de baixo, Carnegie viu os policiais armados sumirem escada acima. Havia um
cheiro fraco de fogueira no ar; ele temia o pior.
Eu sou o homem que chega depois do ato, ele pensou consigo mesmo; estou
perpetuamente no cenário quando o melhor da ação acabou. Por mais acostumado que
estivesse à espera, paciente como um cachorro fiel, daquela vez não conseguiu segurar
a ansiedade enquanto os outros avançavam. Sem ligar para as vozes que lhe pediam
para esperar, começou a subir as escadas.
O laboratório no andar de cima estava vazio, a não ser pelos macacos e pelo
cadáver de Johannson. O toxicologista estava deitado de bruços onde caíra, pescoço
quebrado. A saída de emergência, que dava para a escada de incêndio, estava aberta;
o ar enfumaçado era levado para fora através dela. Quando Carnegie afastou-se do
corpo de Johannson, os policiais já estavam na escada de incêndio, chamando seus
colegas abaixo para que procurassem o fugitivo.
— Senhor?
Carnegie olhou para o indivíduo de bigode que se aproximara dele.
— O que foi?
O policial apontou para a outra ponta do laboratório: para a câmara de testes. Havia
alguém à janela. Carnegie reconheceu as feições, muito embora estivessem mudadas
demais. Era Jerome. Primeiro pensou que o homem olhava para ele, mas um breve
olhar descartou essa ideia. Jerome olhava, com lágrimas nos olhos, seu próprio reflexo
no vidro sujo. Carnegie viu o rosto afastar-se para a penumbra da câmara.
Outros policiais também haviam notado o homem. Esgueiravam-se laboratório
adentro, tomando posições atrás das bancadas de onde pudessem visualizar bem a
porta, armas em punho. Carnegie já estivera presente em situações daquelas antes;
tinham vida própria. A menos que interviesse, haveria sangue.
— Não — ele disse. — Esperem um pouco.
Empurrou de lado o policial que protestava e começou a atravessar o laboratório,
não fazendo a menor tentativa de esconder o avanço. Passou pelas pias onde se
atulhavam os restos do Garoto Cego, pela bancada sob a qual, séculos atrás,
encontraram o corpo de Dance. Um macaco, cabeça baixa, arrastou-se por ali,
aparentemente surdo à sua proximidade. Deixou-o encontrar um buraco onde morrer, e
depois foi até a porta da câmara. Estava entreaberta. Esticou a mão para a maçaneta.
Atrás dele, o laboratório estava no mais completo silêncio; todos os olhos estavam
nele. Ele abriu a porta. Dedos coçaram gatilhos. Mas não houve ataque. Carnegie
entrou.
Jerome estava de pé, contra a parede oposta. Se vira Carnegie entrar, ou o ouvira,
não deu a entender. Um macaco morto jazia aos seus pés, uma das mãos ainda
segurando a barra de suas calças. Outro gemia no canto, segurando a cabeça nas
mãos.
—Jerome?
Seria imaginação de Carnegie, ou estava sentindo cheiro de morango?
Jerome piscou os olhos.
— Você está preso — disse Carnegie. Hendrix apreciaria a ironia disso, pensou. O
homem tirou a mão ensanguentada da ferida no seu flanco e levou-a à frente das
calças, e começou a se acariciar.
—Tarde demais — disse Jerome. Podia sentir o último fogo subindo por ele. Mesmo
que aquele intruso quisesse cruzar a câmara e prendê-lo agora, os próximos segundos
lhe negariam a captura. A Morte estava ali. E o que era ela, agora que podia vê-la com
clareza? Apenas outra sedução, outra doce escuridão para ser preenchida, satisfeita e
tornada fértil.
Um espasmo começou no seu períneo, e um raio viajou em duas direções desse
ponto, para sua vara e para sua espinha. Uma gargalhada começou em sua garganta.
No canto da câmara o macaco, ouvindo os risos de Jerome, começou a gemer
novamente. O som chamou por um momento a atenção de Carnegie, e quando seu
olhar voltou para Jerome os olhos míopes haviam se fechado, a mão caído, e ele
estava morto, de pé contra a parede. Por um breve instante o corpo desafiou a
gravidade. Então, graciosamente, as pernas cederam e Jerome caiu para a frente. Ele
era, notou Carnegie, um saco de ossos, nada mais. Era de espantar que tivesse vivido
tanto.
Cauteloso, foi até o corpo e colocou o dedo no pescoço do homem. Não tinha
pulsação. Os restos da última gargalhada de Jerome permaneciam no seu rosto,
entretanto, recusando-se a desaparecer.
— Diga-me...—Carnegie sussurrou para o homem, sentindo que apesar de seu
avanço ele havia perdido o momento; que mais uma vez ele era, e talvez sempre fosse
ser, simplesmente uma testemunha de consequências: — Diga-me. Qual foi a piada?
Mas o garoto cego, como é de hábito de sua tribo, não respondeu.
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