A Madona

Jerry Coloqhoun esperou mais de trinta e cinco minutos nos degraus das Piscinas da
Leopold Road até que Garvey aparecesse, os pés pouco a pouco perdendo a
sensibilidade à medida que o frio penetrava pelas solas de seus sapatos. Um dia,
assegurou a si mesmo, seria ele quem deixaria as pessoas esperando. Na verdade,
essa prerrogativa poderia não estar tão longe, se ele conseguisse persuadir Ezra
Garvey a investir na Cúpula do Prazer. Isso exigiria vontade de se arriscar, e uma cifra
substancial, mas seus contatos lhe asseguraram que Garvey, fosse qual fosse sua
reputação, possuía ambos em abundância. A fonte do dinheiro do homem não estava
em causa, ou assim Jerry havia se convencido. Muitos plutocratas mais simpáticos
haviam recusado o projeto nos últimos seis meses; em tais circunstâncias, a fineza de
sentimentos era um luxo a que ele não podia se dar.
Não estava assim tão surpreso com a relutância dos investidores. Eram tempos
difíceis, e não se podiam correr riscos à-toa. Mas era preciso um toque de imaginação
— uma faculdade que não havia em quantidade entre as pessoas cheias de dinheiro
que conhecera — para ver as Piscinas transformadas no deslumbrante complexo de
lazer que vislumbrara. Mas suas pesquisas o haviam convencido de que numa área
como aquela — em que as casas, um dia, quase haviam sido demolidas, antes de
serem compradas e reformadas por uma geração de sibaritas de classe média — as
instalações que planejara dificilmente dariam lucro.
E havia uma vantagem. A Prefeitura, proprietária das Piscinas, estava ansiosa para
se livrar do terreno o mais rápido possível; já tinha dívidas demais. O sujeito a quem
Jerry subornava na Direção de Serviços à Comunidade — o mesmo homem que
alegremente trocara as chaves da propriedade por duas garrafas de gim — dissera-lhe
que a construção do edifício poderia sair por quase nada, se o investimento fosse feito
logo. Tudo era uma questão de ir na hora certa.
Uma habilidade que aparentemente faltava a Garvey. Quando ele chegou, a
dormência já havia se estendido até os joelhos de Jerry, cujo humor tornara-se
irritadiço. Mas não demonstrou isso quando Garvey saiu de seu Rover com chofer e
subiu os degraus. Jerry só havia conversado com ele por telefone, e esperava um
homem maior, mas apesar de sua falta de estatura não havia como duvidar da
autoridade de Garvey. Ela estava lá, no olhar direto de apreciação que ele lançou a
Coloqhoun; nos traços sem alegria; no terno imaculado.
A dupla apertou as mãos.
— E bom vê-lo, Sr. Garvey.
O homem fez que sim, mas não retribuiu a gentileza. Jerry, ansioso para sair do frio,
abriu a porta da frente e entrou, apontando o caminho.
— Só tenho dez minutos — explicou Garvey.
— Ótimo — replicou Jerry. — Eu só queria lhe mostrar o leiaute.
— Você inspecionou o local?
— Claro.
Era mentira. Jerry estivera no prédio em agosto passado, cortesia de um contato no
Departamento dos Arquitetos, e desde então vira o lugar do lado de fora diversas
vezes. Mas cinco meses haviam se passado desde que ele realmente pusera os pés
dentro do prédio; esperava que a decomposição acelerada não tivesse assumido o
controle desde então. Entraram no vestíbulo. Tinha cheiro de mofo, mas não era
insuportável.
— A eletricidade não está ligada — ele explicou. — Temos que ir à luz de lanternas.
— Tirou do bolso a lanterna profissional e apontou o feixe de luz para a porta interna.
Estava trancada com cadeado. Ficou olhando bestificado para a tranca. Se aquela
porta havia sido trancada da última vez em que ali estivera, não se lembrava. Tentou a
chave que recebera, já sabendo antes de experimentá-la que não encaixaria. Soltou um
palavrão baixinho, repassando rapidamente as opções disponíveis. Ou ele e Garvey
davam meia-volta e deixavam as Piscinas com seus segredos — se é que mofo,
podridão e um teto que estava a ponto de ceder podiam ser considerados segredos —,
ou então ele tentava forçar a entrada. Olhou de relance para Garvey, que havia retirado
um prodigioso charuto do bolso interno do paletó e estava acendendo sua ponta; uma
fumaça aveludada subia.
— Desculpe o atraso —pediu.
— Isso acontece — Garvey respondeu, obviamente imperturbável.
— Acho que será preciso uma técnica mais incisiva — sentenciou Jerry, tentando
sentir a reação do outro a uma invasão.
—- Por mim está bem.
Jerry rapidamente vasculhou o vestíbulo escuro à procura de uma ferramenta. Na
bilheteria, achou um banquinho com pernas de metal. Arrastando-o para fora da
bilheteria — ciente do olhar divertido, mas benigno de Garvey sobre ele — e usando
uma das pernas como alavanca, quebrou um elo da corrente. O cadeado caiu
ruidosamente no chão de azulejos.
— Abre-te, Sésamo — murmurou com certa satisfação, e empurrou a porta para
Garvey.
O som do cadeado caindo ainda parecia ecoar nos corredores desertos, quando
eles passaram, o barulho se transformando aos poucos em suspiro à medida que
desaparecia. O interior parecia mais inóspito do que Jerry se lembrava. A luz do dia
que penetrava pelas vidraças mofadas das claraboias, ao longo do corredor, era azulacinzentada
— e a luz e tudo sobre o qual ela caía competiam em desolação. Um dia,
sem dúvida, as Piscinas da Leopold Road haviam sido uma vitrine de design décor —
de azulejos brilhantes e mosaicos graciosos trabalhados no piso e nas paredes. Mas
certamente não na vida adulta de Jerry. Os azulejos do piso há muito haviam estufado
com a umidade; nas paredes, caíram às centenas, deixando aparecer a cerâmica
branca e o gesso escuro como um vasto e enigmático jogo de palavras cruzadas. O ar
de destruição era tão intenso que Jerry quase desistiu de tentar vender o projeto a
Garvey no local. Certamente não haveria esperança de uma venda ali, mesmo com o
preço ridículo pedido. Mas Garvey parecia mais engajado do que Jerry havia permitido.
Já estava percorrendo o corredor a passos largos, soltando baforadas do charuto e
resmungando para si mesmo enquanto caminhava. Poderia ser apenas curiosidade
mórbida, sentiu Jerry, o que levava o empreiteiro ao fundo daquele mausoléu
retumbante. E, no entanto:
—Tem atmosfera. O local tem possibilidades — reconheceu Garvey. —Não tenho
muita reputação de filantropo, Coloqhoun, você deve saber disso... mas tenho gosto
por algumas coisas finas. — Ele havia parado em frente a um mosaico que exibia
indescritível cena mitológica: peixes, ninfas e deuses brincando. Resmungou, com
apreciação, descrevendo a linha sinuosa do desenho com a ponta molhada do charuto.
— Você não vê um trabalho destes hoje em dia — comentou. Jerry não achava
aquilo nada demais, mas aduziu: — E soberbo.
— Mostre-me o resto.
O complexo um dia apresentara muitas instalações — saunas, banhos turcos,
termas — além das duas piscinas. Essas diversas áreas eram conectadas por um
conjunto de passagens que, ao contrário do corredor principal, não tinham claraboias: a
lanterna tinha de bastar ali. Escuro ou não, Garvey queria ver todas as áreas públicas.
Os dez minutos que estabelecera como seu limite se estenderam para vinte e trinta, a
exploração era constantemente interrompida à medida que ele descobria alguma
novidade para comentar. Jerry escutava com compreensão fingida: ele achava confuso
o entusiasmo do outro pela decoração.
— Eu gostaria de ver as piscinas agora — Garvey anunciou, depois que já haviam
feito uma investigação completa dos outros locais. Obediente, Jerry guiou-o pelo
labirinto até as duas piscinas. Num pequeno corredor próximo aos banhos turcos,
Garvey ordenou:
— Quieto.
Jerry parou de andar. — O que foi?
— Ouvi uma voz.
Jerry tentou escutar. O feixe de luz da lanterna, refletindo-se nos azulejos, lançava
uma luminescência fraca ao redor dos dois, o que tirava o sangue do rosto de Garvey.
— Não estou escutando...
—Eu disse quieto — Garvey cortou. Balançava a cabeça para frente e para trás
lentamente. Jerry não ouvia nada. Tampouco
Garvey, agora. Ele deu de ombros e tragou o charuto, que havia apagado graças à
umidade do ar.
— Um truque dos corredores — disse Jerry. — Os ecos neste lugar desorientam. As
vezes, você ouve os próprios passos vindo em seu encontro.
Garvey tornou a grunhir. O grunhido parecia ser a parte da linguagem que ele mais
valorizava. — Ouvi alguma coisa — enfatizou, obviamente insatisfeito com a explicação
de Jerry. Tornou a escutar. Os corredores estavam completamente silenciosos. Não
era sequer possível ouvir o tráfego na Leopold Road. Por fim, Garvey pareceu se dar
por satisfeito.
— Indique o caminho — ordenou. Foi justamente o que Jerry fez, embora a rota até
as piscinas não lhe fosse de forma alguma clara. Viraram errado várias vezes,
serpenteando por um labirinto de corredores idênticos, antes de chegar ao destino
pretendido.
— Está quente — desabafou Garvey, quando chegaram ao lado da menor das duas
piscinas.
Jerry murmurou, concordando. Em sua ansiedade para chegar às piscinas, não
havia notado que a temperatura subia cada vez mais. Mas agora que estava ali, em pé,
parado, podia sentir uma película de suor no corpo. O ar estava úmido, e tinha cheiro
não de mofo e umidade, como em todo o resto do prédio, mas de um aroma mais
enjoativo, quase opulento. Esperava que Garvey, abrigado na fumaça de seu charuto
novamente aceso, não pudesse compartilhar do cheiro; não era nada agradável.
— O aquecimento está ligado — disse Garvey.
— Sem dúvida, parece que sim —Jerry respondeu, embora não pudesse entender
por quê. Talvez os engenheiros do Departamento ligassem o sistema de aquecimento
de vez em quando, para mantê-lo em funcionamento. Nesse caso, será que eles
estariam em algum lugar no interior do edifício? Será que Garvey ouvira vozes mesmo?
Ele construiu mentalmente uma linha de explicação, caso seus caminhos se cruzassem.
— As piscinas — anunciou, e abriu uma das portas duplas. A claraboia ali estava,
ainda mais suja que as do corredor principal; pouca e preciosa luz iluminava a cena.
Garvey, no entanto, não se deixou intimidar. Entrou e caminhou até a beira da piscina.
Não havia muito que ver; as superfícies ali estavam cobertas com mofo de vários anos.
No fundo da piscina, pouco discernível por baixo das algas, havia um desenho traçado
nos azulejos. Um olho de peixe brilhante os encarava, perfeitamente inócuo.
— Sempre tive medo de água — Garvey ruminou olhando a piscina seca. — Não sei
de onde vem isso.
— Infância — Jerry arriscou.
— Acho que não — retrucou o outro. — Minha esposa diz que é do ventre.
— Do ventre?
— Ela acha que eu não gostava de nadar lá — ele replicou, com um sorriso que
poderia ter sido o seu próprio, mas que parecia mais com o da esposa.
Um ruído breve veio até eles ao longo da piscina, como se algo tivesse caído.
Garvey gelou.
— Ouviu isso? — perguntou. — Tem alguém aqui. — Sua voz havia subitamente
subido meia oitava.
— Ratos —Jerry replicou. Desejava evitar um encontro com os engenheiros, se
possível; perguntas difíceis poderiam ser feitas.
— Me dê a lanterna — ordenou Garvey, tomando-a da mão de Jerry. Ele vasculhou
o lado oposto da piscina com o feixe de luz. A lanterna iluminou uma série de vestuários
e uma porta aberta que levava para fora da piscina. Nada se moveu.
— Não gosto de vermes... — disse Garvey.
— O lugar foi abandonado — replicou Jerry.
— ...especialmente da variedade humana. — Garvey jogou a lanterna de volta às
mãos de Jerry. — Eu tenho inimigos, Sr. Coloqhoun. Mas você fez sua pesquisa a meu
respeito, não fez? Sabe que não sou flor que se cheire. — A preocupação de Garvey
com relação aos ruídos que pensava ter ouvido faziam agora um desagradável sentido.
Não estava com medo de ratos, mas de danos físicos sérios. — Acho que é melhor eu
ir — ele disse. — Me mostre a outra piscina e vamos embora.
— Claro. —Jerry estava tão feliz por ir embora quanto seu convidado. O incidente
havia feito sua temperatura subir. O suor vinha agora em profusão, escorrendo pela
nuca. A cabeça doía. Ele levou Garvey pelo corredor até a porta da piscina maior e a
empurrou. A porta não cedia.
— Algum problema?
— Deve estar trancada por dentro.
— Há outra maneira de entrar?
— Acho que sim. Quer que eu dê a volta para verificar?
Garvey olhou o relógio. — Dois minutos — disse. — Tenho
compromissos.
Garvey viu Coloqhoun desaparecer no corredor escurecido, a luz da lanterna
correndo à sua frente. Não gostava do homem. Fazia a barba muito rente; e seus
sapatos eram italianos. Mas — deixando o proponente de lado — o projeto tinha algum
mérito. Garvey gostou das Piscinas e suas adjacências, da uniformidade de seu
desenho, da banalidade de sua decoração. Diferente de muitos, achava as instituições
coisas reconfortantes: hospitais, escolas, até mesmo prisões. Elas recendiam a ordem
social, apaziguavam aquela parte dele que tinha medo do caos. Melhor um mundo
organizado demais do que um que não fosse o bastante.
Uma vez mais, seu charuto se apagou. Ele o meteu entre os dentes e acendeu um
fósforo. Quando a primeira chama morreu, captou uma visão de relance de uma garota
nua no corredor adiante, olhando para ele. O relance foi momentâneo, mas quando o
fósforo caiu de seus dedos e a luz acabou, ela apareceu no olho de sua mente,
perfeitamente lembrada. Era jovem — quinze anos no máximo — e seu corpo era
cheio. O suor em sua pele emprestava-lhe tamanha sensualidade que ela podia ter
saído de seus sonhos. Afastando seu charuto apagado, procurou outro fósforo e
acendeu-o, mas nos poucos segundos de escuridão a linda garota havia desaparecido,
deixando apenas sinais do cheiro doce de seu corpo no ar.
— Garota — ele chamou.
A visão de sua nudez e o choque nos olhos dela fizeram com que ele a desejasse.
— Garota!
A chama do segundo fósforo não conseguia penetrar mais do que um metro ou dois
no corredor.
— Você está aí?
Ela não podia estar longe, ele raciocinou. Acendendo um terceiro fósforo, foi à
procura dela. Só havia andado alguns passos quando ouviu alguém atrás de si. Virouse.
A luz de uma lanterna iluminou o medo em seu rosto. Era apenas o Sapatos
Italianos.
— Não há outra entrada.
—Não precisa me cegar — disse Garvey. O feixe de luz caiu.
— Desculpe.
— Tem alguém aqui, Coloqhoun. Uma garota.
— Uma garota?
— Por acaso, você sabe algo a respeito?
— Não.
— Ela estava nua em pelo. A três ou quatro metros de mim.
Jerry olhou para Garvey, estranhando. O homem estava sofrendo de ilusões
sexuais?
—Estou lhe dizendo que vi uma garota — protestou Garvey, embora nenhuma palavra
de contradição tivesse sido dita. — Se você não tivesse chegado, eu teria posto as
mãos nela. — Olhou para o corredor. — Jogue uma luz ali. — Jerry orientou o feixe no
labirinto. Não havia sinal de vida.
— Diabos — exclamou Garvey, demonstrando aborrecimento genuíno. Tornou a
olhar para Jerry. — Tudo bem — concordou . — Vamos sair logo daqui.
— Estou interessado — afirmou, quando se despediram nos degraus. — O projeto
tem potencial. Você tem uma planta-baixa do local?
— Não, mas posso arranjar uma.
— Arranje. — Garvey estava acendendo um novo charuto. — E me envie suas
propostas com maiores detalhes. Então conversaremos de novo.
Foi preciso um suborno considerável para conseguir a planta das Piscinas no
Departamento dos Arquitetos, mas Jerry acabou conseguindo pegá-la. No papel, o
complexo parecia um labirinto. E, como os melhores labirintos, não havia ordem
aparente no leiaute dos chuveiros, banheiros e vestiários. Foi Carole que provou o erro
dessa teoria.
— O que é isso? — ela perguntou enquanto ele examinava a planta à noite. Haviam
passado quatro ou cinco horas juntos no apartamento dele — horas sem as brigas e a
sensação desagradável que ultimamente haviam estragado a relação dos dois.
— E a planta-baixa das Piscinas da Leopold Road. Quer outro Brandy?
— Não, obrigada. — Ela olhava para a planta enquanto ele se levantava para encher
de novo seu copo.
— Acho que convenci Garvey a entrar no negócio.
— Você vai mesmo fazer negócios com ele, não vai?
— Não me faça parecer um mercador de escravas brancas. O homem tem dinheiro.
— Dinheiro sujo.
— O que é uma sujeirinha entre amigos?
Ela lhe lançou um olhar gelado, e ele desejou poder voltar atrás dez segundos e
apagar o comentário.
— Eu preciso deste projeto —afirmou, levando seu drinque para o outro sofá e se
sentando à frente dela, a planta-baixa aberta na mesinha entre os dois. — Preciso de
alguma coisa para me ajeitar de uma vez por todas.
Os olhos dela se recusaram a repreendê-lo.
— Só acho que Garvey e sua laia não são flor que se cheire — ela comentou. —
Não quero saber quanto dinheiro ele tem. Ele é um bandido, Jerry.
— Então eu deveria desistir de tudo? E isso o que você está dizendo? — Eles já
haviam tido essa discussão, sob uma forma ou outra, várias vezes nas últimas
semanas. — Eu deveria simplesmente esquecer todo o trabalho duro que pus nisso e
acrescentar esse fracasso aos outros?
— Não precisa gritar.
— Eu não estou gritando!
Ela deu de ombros.
— Tudo bem — ela disse baixinho. — Você não está gritando.
— Cristo!
Ela voltou a olhar a planta-baixa. Ele a observou por sobre a borda do copo de
uísque; via o repartido no meio de sua cabeça e os cabelos louros finos que caíam dali.
Eles faziam tão pouco sentido um para o outro, pensou. Os processos que os haviam
levado ao impasse atual eram perfeitamente óbvios, mas mesmo assim, de vez em
quando, não conseguiam achar o terreno comum necessário para uma troca de
opiniões frutífera. Não simplesmente na atual questão, mas em centenas de outras.
Fossem quais fossem os pensamentos que estivessem girando naquela cabeça macia,
eram um mistério para ele. E provavelmente a recíproca era verdadeira.
— E uma espiral — ela informou.
— O quê?
— A piscina. Foi projetada como uma espiral. Olhe.
Ele se levantou para ter uma visão aérea da planta-baixa, enquanto ela traçava com
o dedo indicador uma rota entre os corredores. Ela estava com a razão. Embora os
procedimentos técnicos dos arquitetos tivessem enevoado a claridade da imagem,
havia de fato uma espiral tosca construída no labirinto de corredores e quartos. Os
círculos que o dedo dela descrevia davam voltas cada vez menores. Por fim descansou
na piscina grande; a piscina trancada. Jerry ficou olhando a planta em silêncio. Se ela
não tivesse apontado aquilo, ele sabia que poderia ter ficado olhando o projeto durante
uma semana sem jamais ver a estrutura subjacente.
Carole decidiu que não passaria a noite ali. Não era que as coisas entre os dois
tivessem terminado, ela tentou explicar na porta; é que ela dava muito valor à
intimidade de ambos para usá-la como muleta. Ele entendeu razoavelmente; ela
também os imaginava como animais feridos. Pelo menos tinham alguma vida metafórica
em comum.
Ele não estava desacostumado a dormir sozinho. De muitas maneiras, preferia estar
sozinho em sua cama a partilhá-la com alguém, mesmo que fosse Carole. Mas naquela
noite ele a queria junto de si; não ela, na verdade, mas alguém. Sentia um medo
inexplicável, como uma criança. Quando o sono veio, tornou a voar, como se estivesse
com medo de sonhos.
Pouco antes do amanhecer levantou-se, preferindo ficar acordado a ter sono
entrecortado; enrolou o camisolão no corpo que tremia e foi preparar um pouco de chá.
A planta-baixa ainda estava aberta em cima da mesinha de café, onde a haviam
deixado na noite anterior. Bebericando o Assam quente e doce, levantou- se e tornou a
examiná-la. Agora que Carole havia apontado aquilo, tudo no que conseguia se
concentrar — apesar do aglomerado de detalhes marginais que exigiam sua atenção —
era a espiral, aquela evidência indisputável de uma mão oculta sob o aparente caos do
labirinto. O desenho atraía seu olhar e o impelia a seguir sua rota interminável, dando
voltas e mais voltas, ficando cada vez menor, e em direção a quê? Uma piscina
trancada.
Bêbado de chá, voltou à cama; desta vez, o cansaço levou a melhor sobre seus
nervos e o sono que ele negara o tomou de assalto. Foi acordado às sete e quinze por
Carole, que estava telefonando antes de ir para o trabalho para se desculpar pela noite
anterior.
— Não quero que tudo dê errado entre nós, Jerry. Você sabe disso, não sabe?
Você sabe que é precioso para mim.
Ele não conseguia aturar conversinhas amorosas de manhã. O que parecia
romântico à meia-noite lhe soava ridículo ao amanhecer. Respondeu às declarações de
compromisso que ela fez, o melhor que pôde, e combinou vê-la na noite seguinte. Então
voltou ao travesseiro.
Desde a visita às Piscinas, não se passavam quinze minutos sem que Ezra Garvey
pensasse na garota que havia vislumbrado no corredor. O rosto dela lhe voltara à
mente durante o jantar com sua esposa e durante o sexo com sua amante. Tao aberto
aquele rosto, tão brilhante de possibilidades.
Garvey pensava em si mesmo como um mulherengo. Diferente da maioria de seus
colegas potentados, cujas consortes eram uma conveniência bem paga — deviam estar
ausentes quando não exigidas para alguma função específica —, Garvey gostava da
companhia do sexo oposto. Suas vozes, seu perfume, suas risadas. A fome que ele
tinha da proximidade feminina conhecia poucas barreiras; as mulheres eram preciosas
criaturas cuja companhia ele procurava assegurar, gastando pequenas fortunas para
isso. Seu paletó estava, portanto, pesado de dinheiro e presentinhos caros quando
voltou, naquela manhã, à Leopold Road.
Os pedestres na rua estavam muito preocupados em manter as cabeças secas
(uma garoa fria e constante caía desde o amanhecer) para reparar no homem nos
degraus, debaixo de um guarda- chuva preto, enquanto outro se curvava no trabalho de
retirar o cadeado. Chandaman era especialista em trancas. O cadeado se abriu com
um estalido, em segundos. Garvey baixou o guarda- chuva e entrou rápido no vestíbulo.
— Espere aqui — ele instruiu Chandaman. — E feche aquela porta.
— Sim, senhor.
— Se precisar de você, eu grito. Trouxe a lanterna?
Chandaman tirou a lanterna do paletó. Garvey pegou-a, acendeu-a e desapareceu
no corredor. Estava substancialmente mais frio do lado de fora do que no dia anterior,
ou o interior estava quente. Desabotoou o paletó e afrouxou a gravata apertada.
Achava bom o calor, que o lembrava do brilho da pele da garota de seus sonhos, da
expressão lânguida de calor de seus olhos escuros. Desceu o corredor, a luz da
lanterna refletindo-se nos azulejos. Seu senso de direção sempre fora bom; ele levou
pouco tempo para achar o caminho até o ponto do lado de fora da piscina maior, onde
havia encontrado a garota. Lá, ele ficou quieto, os ouvidos a postos.
Garvey era um homem acostumado a olhar para trás. Por toda a sua vida
profissional, dentro ou fora da prisão, precisou se prevenir contra o assassino às suas
costas. Essa vigilância incessante o tornara sensível ao menor sinal de presença
humana. Sons que outro homem poderia ignorar acionavam um sinal de aviso em seu
tímpano. Mas, e ali? Nada. Silêncio nos corredores; silêncio nas antessalas e nos
banhos turcos suarentos; silêncio em cada enclave azulejado de uma ponta à outra do
edifício. Mas mesmo assim ele sabia que não estava só. Quando os cinco sentidos lhe
falhavam, um sexto — que pertencia, talvez, mais à fera dentro dele do que à
sofisticação que seu terno caro deixava evidente — percebia presenças. Esta
faculdade lhe salvara a vida mais de uma vez. Agora, ele esperava, ela o guiaria para
os braços da beleza.
Confiando no instinto, desligou a lanterna e desceu o corredor do qual a garota havia
emergido, tateando pelas paredes. A presença de sua caça o obcecava. Suspeitava
que ela estivesse apenas a uma parede de distância, mantendo o passo com ele ao
longo de alguma passagem secreta à qual ele não tinha acesso. Pensar nessa
perseguição o agradava. Ela e ele, sozinhos naquele labirinto abafado, jogando um jogo
que ambos sabiam que deveria terminar em captura. Ele andava rápido, no pescoço,
pulso e virilha batia a pulsação da caçada. Seu crucifixo estava colado ao suor do peito.
Finalmente, o corredor se dividiu. Ele parou. Não havia muita luz: a pouca que havia
provocava contornos enganosos nos túneis. Impossível julgar distâncias. Mas,
confiando em seus instintos, virou-se para a esquerda e seguiu seu nariz. Quase
imediatamente, uma porta. Estava aberta, e ele entrou num espaço mais amplo; ou
assim pensou, pelo som abafado de seus passos. Tornou a parar. Desta vez, seus
ouvidos tensos foram recompensados com um som. Do outro lado da sala, o caminhar
suave de pés nus sobre os azulejos. Seria sua imaginação, ou ele chegou mesmo a
vislumbrar a garota, seu corpo esculpido na penumbra, mais pálido que a escuridão que
a cercava, e mais macio? Sim! Era ela. Ele quase gritou para chamá-la, mas pensou
melhor. Em vez disso continuou em perseguição silenciosa, contente por jogar o jogo
dela o tempo que a agradasse. Atravessando a sala, ele passou por outra porta que
conduzia a um outro túnel. O ar ali era muito mais quente do que em qualquer outro
lugar do prédio, pressionando seu corpo de forma pegajosa e irritante. Um momento de
ansiedade agarrou sua garganta: estava negligenciando cada artigo de fé de um
autocrata, colocando sua cabeça, com tão boa vontade, nesta toca quente. Poderia ser
facilmente uma cilada: a garota, a caçada. Virando a próxima curva, os seios e a
beleza poderiam ter desaparecido, e haveria uma faca em seu peito. Mas, mesmo
assim, ele sabia que não era verdade; sabia que os passos adiante eram de mulher,
leves e suaves; que o calor que trazia novas ondas de suor podia alimentar, ali,
somente suavidade e passividade. Nenhuma faca poderia prosperar nesse calor: sua
ponta seria amaciada, sua ambição seria esquecida. Ele estava salvo.
Adiante, os passos haviam parado. Ele também parou. Havia luz em algum lugar,
embora sua fonte não fosse aparente. Lambeu os lábios, sentindo gosto de sal, e
depois avançou. Sob seus dedos, os azulejos estavam com uma camada de água; sob
seus calcanhares, estavam escorregadios. A expectativa crescia nele a cada passo.
Agora a luz estava ficando mais brilhante. Não era dia. A luz do sol não tinha como
entrar naquele santuário; aquilo parecia mais a luz do luar — suave, evasiva —, embora
ela também devesse estar exilada, ele pensou. Fossem quais fossem suas origens,
através dela ele finalmente pôs os olhos na garota; ou melhor, numa garota, pois não
era a mesma que vira dois dias antes. Estava nua, e era jovem; mas em todos os
outros aspectos era diferente. Ele a viu de relance antes que ela fugisse pelo corredor,
e virasse uma curva. O espanto agora emprestava mais excitação à caçada: não uma,
mas duas garotas, ocupando aquele lugar secreto; por quê?
Olhou para trás, para ter certeza de que sua rota de fuga continuava aberta, caso
quisesse bater em retirada, mas sua memória, conturbada pelo cheiro do ar, recusavase
a fornecer um retrato claro do caminho pelo qual viera. Uma pontada de
preocupação punha em xeque seu ânimo, mas ele se recusava a sucumbir a ela, e
continuou, seguindo a garota até o fim do corredor e virando à esquerda atrás dela. A
passagem avançava uma curta distância antes de virar mais uma vez à esquerda, a
garota acabando de desaparecer nessa curva. Mal se dando conta de que esses giros
estavam se tornando cada vez menores, à medida que ele dava voltas e mais voltas em
torno de si, foi para onde ela o levava, agora ofegando com o ar sufocante e a
insistência da caçada.
Subitamente, quando virou uma última curva, o calor se tornou bem mais próximo, e
a passagem o deixou numa câmara mal iluminada. Desabotoou o botão de cima da
camisa; as veias nas costas de suas mãos estavam repuxadas como cordas; ele
estava ciente de como seu coração e seus pulmões trabalhavam. Mas, ficou aliviado ao
ver, a caçada terminava ali. O objeto de sua perseguição estava parado, de costas
para ele, do outro lado da câmara, e a visão de suas costas lisas e das nádegas
incomuns evaporou sua claustrofobia.
— Garota... — ele ofegou. — Você me deu um trabalho e tanto.
Ela parecia não ouvi-lo, ou, o que era mais provável, estava estendendo o jogo ao
limite, por capricho.
Ele começou a atravessar os azulejos escorregadios na direção dela.
— Estou falando com você.
Ao chegar a uns cinco metros dela, a garota se virou. Não era a que havia acabado
de perseguir pelo corredor, nem sequer a outra de dois dias antes. Aquela criatura era
algo completamente diferente. Seu olhar se deteve naquele rosto estranho por apenas
alguns segundos, entretanto, antes de deslizar para encontrar a criança que ela tinha
nos braços. A criança mamava como qualquer recém-nascido, sugando o seio jovem
com muita fome. Em suas quatro décadas e meia de vida, os olhos de Garvey nunca
tinham visto uma criatura como aquela. Sentiu náuseas. Ver a garota dando de mamar
já era uma surpresa, mas a uma coisa daquelas, um pária de qualquer tribo, humana ou
animal, era quase mais do que seu estômago podia suportar. O inferno tinha uma prole
mais aceitável.
— Cristo, o que é...?
A garota ficou olhando a expressão alarmada de Garvey, e uma onda de
gargalhadas irrompeu em seu rosto. Ele balançou a cabeça, A criança nos braços da
garota desdobrou um braço mirrado e grudou-o ao seio daquela que a consolova para
ter melhor contato. O gesto transformou o nojo de Garvey em raiva. Ignorando os
protestos da garota, tomou a abominação de seus braços, segurando-a por tempo
suficiente para sentir o saco reluzente de seu corpo retorcer-se em suas mãos, então
atirou-o com toda força contra a outra parede da câmara. Quando ela atingiu os
azulejos, soltou um grito que terminou tão rápido quanto começou, apenas para ser
substituído instantaneamente pelo da mãe. Ela correu pela sala até onde a criança
jazia, o corpo aparentemente invertebrado, partido ao meio pelo impacto. Um dos
braços, dos quais possuía pelo menos meia dúzia, tentou alcançar seu rosto em
lágrimas. Ela pegou a coisa nos braços; fios de fluido brilhante escorriam por sua
barriga e seu ventre.
Além da câmara, algo fez-se ouvir. Garvey não teve dúvidas sobre sua deixa; aquilo
estava respondendo ao grito de morte da criança, e ao gemido de sua mãe — mas
aquele som era mais perturbador do que ambos. A imaginação de Garvey era uma
faculdade empobrecida. Além de seus sonhos de riqueza e mulheres, havia uma terra
desolada. Mas agora, ao som daquela voz, a terra desolada desabrochou, e deu vazão
a horrores que ele acreditara ser incapaz de conceber. Não imagens de monstros, que,
na melhor das hipóteses, não poderiam ser mais do que conjuntos de fenômenos
vividos. O que sua mente criava era mais sensação do que visão; pertencia à sua
medula, não à sua mente. Toda a certeza estremecia — masculinidade, poder; os
imperativos gêmeos do medo e da razão —, todos viravam as costas e negavam
conhecê-lo. Ele tremia, com um medo que só os sonhos poderiam provocar, enquanto o
grito continuava sem parar. Então virou as costas e saiu correndo da câmara, a luz
jogando sua sombra à frente no corredor mal iluminado.
Seu senso de direção o havia abandonado. Na primeira interseção, e depois na
segunda, cometeu um erro. Em poucos metros percebeu o erro e tentou corrigi-lo, mas
apenas exacerbou a confusão. Todos os corredores pareciam iguais: os mesmos
azulejos, a mesma meia-luz, cada nova curva que ele fazia o levava a uma câmara pela
qual não havia passado ou a um completo beco sem saída. Seu pânico aumentou. O
grito agora havia cessado; ele estava só com sua respiração ofegante e maldições
ditas pela metade. Coloqhoun era o responsável por esse tormento, e Garvey jurou que
arrancaria do homem, à força, o propósito daquilo tudo, ainda que tivesse de quebrar
cada osso de seu corpo pessoalmente. Agarrou-se à ideia dessa violência enquanto
corria; era seu único conforto. De fato, ele ficou tão preocupado com o pensamento
das agonias que faria Coloqhoun sofrer, que não percebeu que andara em círculos e
estava correndo de volta, na direção da luz, até que seus calcanhares apressados o
deixaram numa câmara familiar. A criança jazia no chão, morta e abandonada. A mãe
não estava em parte alguma.
Garvey parou e avaliou sua situação. Se voltasse pelo caminho por onde viera, a rota
só o confundiria novamente; se fosse adiante, atravessando a câmara na direção da
luz, poderia cortar o nó cego e ser levado de volta ao ponto de partida. A rapidez e
inteligência da solução o deixaram satisfeito. Cauteloso, atravessou a câmara até a
porta do outro lado e deu uma olhada. Outro pequeno corredor se apresentava, e além
dele uma porta que conduzia a um espaço aberto. A piscina! Certamente a piscina!
Mandou a cautela às favas e saiu da câmara para a passagem.
A cada passo que dava, o calor aumentava. Sua cabeça latejava. Apertou o passo
para chegar ao fim do corredor e sair na arena, mais adiante.
A piscina enorme não havia sido drenada, ao contrário da menor. Ao invés, estava
quase transbordando — não com água limpa, mas com uma espuma que fumegava até
mesmo no calor ali de dentro. Aquela era a fonte da luz. A água da piscina emitia uma
fosforescência que tingia tudo — os azulejos, o trampolim, os vestiários (ele próprio,
sem dúvida), com o mesmo tom fúlveo.
Vasculhou a cena à sua frente. Não havia sinal das mulheres. Sua rota de saída
permanecia livre; também não via qualquer sinal de cadeado ou de correntes nas
portas duplas. Começou a seguir na direção delas. Seu calcanhar deslizou nos azulejos,
e ele olhou rapidamente, de relance, para ver que havia atravessado uma trilha de
fluido — difícil, na luz enfeitiçada, distinguir sua cor — que, ou terminava à beira da
água, ou começava ali.
Tornou a olhar para a água, vencido pela curiosidade. O vapor turbilhonava; uma
pequena maré brincava com a espuma. Ali! Seus olhos captaram uma forma escura e
desconhecida deslizando sob a superfície da água. Pensou na criatura que havia
matado; em seu corpo disforme e em seus membros moles, pendentes. Seria outra da
mesma espécie? O brilho do líquido se chocava contra a borda da piscina a seus pés,
continentes de espuma se quebravam em arquipélagos. Do nadador, nem sinal.
Irritado, desviou os olhos da água. Não estava mais sozinho. Três garotas haviam
surgido de algum lugar e estavam descendo a beira da piscina em sua direção. Uma,
ele reconheceu como a garota que vira pela primeira vez ali. Estava usando um vestido
diferente de suas irmãs. Um de seus seios estava nu. Ela olhava com seriedade para
ele, enquanto ia chegando mais perto; ao seu lado, ela arrastava uma corda, decorada
em toda a extensão com fitas manchadas amarradas em laços frouxos, porém
extravagantes.
A chegada dessas três graças, as águas fermentadas da piscina começaram a se
agitar num frenesi, e seus ocupantes se ergueram para encontrar as mulheres. Garvey
podia ver três ou quatro formas incansáveis agitando — mas não rompendo — a
superfície. Foi apanhado entre seu instinto de fugir (a corda, embora ornamentada,
ainda era uma corda) e o desejo de ficar e ver o que a piscina continha. Olhou de
relance para a porta. Estava a dez metros dela. Uma disparada ligeira e ele estaria no
ar frio do corredor. De lá, Chandaman estaria ao alcance de um chamado.
As garotas pararam a poucos metros dele, e o observaram. Ele retribuiu os olhares.
Todos os desejos que o haviam levado ali tinham desaparecido. Não queria mais
segurar em suas mãos os seios dessas criaturas, ou mergulhar na interseção de suas
coxas reluzentes. Aquelas mulheres não eram o que pareciam. O silêncio delas não era
docilidade, mas um transe de drogas; sua nudez não era sensualidade, mas uma
horrível indiferença que o ofendia. Até mesmo sua juventude, e tudo o que elas traziam
— a suavidade de suas peles, o brilho de seus cabelos — mesmo isso estava de
alguma forma corrompido. Quando a garota do vestido esticou a mão e tocou seu rosto
suado, Garvey soltou um grito surdo de nojo, como se tivesse sido lambido por uma
cobra. Ela não se intimidou com a reação, mas se aproximou ainda mais, os olhos fixos
nos dele, cheirando não a perfume, como sua amante, mas à carne. Embora afrontado,
ele não conseguiu se virar. Ficou ali, parado, encarando a vadia, enquanto ela beijava
seu rosto, e a corda com fitinhas era enrolada em seu pescoço.
Jerry ligou para o escritório de Garvey em intervalos de meia hora durante o dia. No
início, disseram-lhe que o homem não estava, e que poderia ser encontrado mais para
o fim da tarde. Entretanto, à medida que o dia passava, a mensagem mudava. Garvey
não iria estar no escritório naquele dia, Jerry foi informado. O Sr. Garvey não está
passando bem, disse a secretária; foi descansar em casa. Por favor, torne a ligar
amanhã. Jerry deixou com ela o recado de que havia conseguido a planta-baixa das
Piscinas e adoraria encontrar com o Sr. Garvey e discutir seus planos de acordo com a
conveniência dele.
Carole ligou no fim da tarde.
— Vamos sair esta noite? — ela perguntou. — Um filme?
— O que você quer ver? — ele perguntou.
— Não pensei ainda. Falamos sobre isso à noite, certo?
Acabaram indo ver um filme francês, que parecia, até onde
Jerry pôde entender, completamente sem enredo; era simplesmente uma série de
diálogos entre personagens, que discutiam seus traumas e aspirações, sendo os
primeiros em proporção direta às falhas das últimas. Saiu do cinema se sentindo
entorpecido.
— Você não gostou...
— Não muito. Muita filosofada.
— E nenhum tiro.
— Nenhum tiro.
Ela sorriu para si mesma.
— Qual é a graça?
— Nada...
— Não diga nada.
Ela deu de ombros.
— Eu só estava sorrindo. Não posso?
—Jesus! Tudo o que esta conversa precisa é de legendas.
Desceram um pouco a Oxford Street.
— Quer comer? — ele perguntou, quando chegaram à entrada da Poland Street. —
Podíamos ir ao Red Fort.
— Não, obrigada. Detesto comer tarde.
— Pelo amor de Deus, não vamos discutir por causa da droga de um filme.
— Quem está discutindo?
— Você é tão irritante...
— E uma coisa que temos em comum, não é ? — ela retrucou. Seu pescoço estava
vermelho.
— Esta manhã você disse...
— O quê?
— Sobre não perdermos um ao outro...
— Isso foi de manhã — comentou, olhos frios. E então, de repente: — Você está
cagando e andando, Jerry. Pra mim, pra todo mundo.
Ela o encarou, quase desafiando-o a não reagir. Quando ele não reagiu, ela pareceu
curiosamente satisfeita.
— Boa-noite... — ela se despediu, e começou a se afastar. Ele a viu dar cinco, seis,
sete passos para longe, o mais profundo de seu ser querendo chamar o nome dela,
mas uma dezena de irrelevâncias — orgulho, cansaço, inconveniência — o impediram
de fazê-lo. O que acabou por tirá-lo da inércia, pondo o nome dela em sua boca, foi
pensar na cama vazia aquela noite; nos lençóis quentes apenas onde ele estivesse
deitado, e as partes ao redor frias como o inferno.
— Carole.
Ela não se virou; seus passos sequer vacilaram. Teve de dar uma corridinha para
alcançá-la, consciente de que essa cena provavelmente estava divertindo os passantes.
— Carole — ele a pegou pelo braço. Ela parou. Quando ele deu a volta para encarála,
ficou chocado ao ver que ela chorava. Isso o incomodou; só odiava as lágrimas dela
um pouco menos do que as suas próprias.
— Eu me rendo — ele confessou, tentando um sorriso. — O filme era uma obraprima.
Que tal?
Ela se recusava a se acalmar com as brincadeiras dele; seu rosto estava
intumescido de tristeza.
— Não — ele disse. — Por favor, não. Eu não sou... (muito bom em pedir desculpas,
ele queria dizer, mas era tão ruim nisso que não conseguia sequer dizer essas
palavras).
— Deixa pra lá — ela respondeu baixinho. Não estava zangada, ele viu; apenas se
sentindo péssima.
— Vem comigo para o apartamento.
— Não quero.
— Eu quero —ele respondeu. Isso pelo menos era sincero. — Não gosto de
conversar na rua.
Chamou um táxi, e voltaram para Kentish Town, mantendo silêncio. No meio da
subida dos degraus para a porta do apartamento, Carole comentou: — Que perfume
horrível.
Havia um cheiro forte, ácido, nas escadas.
— Alguém esteve aqui — ele reconheceu, subitamente ansioso, e subiu correndo o
lance de escadas até a porta da frente do apartamento. Estava aberta; a tranca havia
sido forçada sem a menor cerimônia, a madeira do caixilho, lascada. Ele soltou um
palavrão.
— O que foi? — Carole perguntou, subindo atrás.
— Arrombamento.
Ele entrou no apartamento e acendeu a luz. O interior estava um caos. O apartamento
inteiro havia sido completamente devastado. Por toda parte, pequenos atos de
vandalismo — quadros quebrados, travesseiros rasgados, móveis reduzidos a
pedaços. Ele ficou no meio do turbilhão e estremeceu, enquanto Carole ia de aposento
em aposento, descobrindo a mesma e completa destruição em cada um.
— Isso é pessoal, Jerry.
Ele fez que sim.
— Vou chamar a polícia — ela se ofereceu. — Descubra o que está faltando.
Pálido, ele fez o que ela disse. O impacto dessa invasão o deixou entorpecido.
Enquanto andava desanimado pelo apartamento para inspecionar o pandemônio —
revirando objetos quebrados, colocando gavetas no lugar —, percebeu que estava
imaginando os intrusos fazendo aquilo tudo, gargalhando enquanto mexiam em suas
roupas e guardados. No canto do quarto achou uma pilha de fotos suas. Haviam
urinado em cima delas.
—A polícia está a caminho — informou Carole. —Disseram para não tocar em nada.
— Tarde demais — ele murmurou.
— O que está faltando?
— Nada — afirmou. Todas as coisas de valor — os equipamentos de som e vídeo,
seus cartões de crédito, suas poucas joias — estavam ali. Só então ele se lembrou da
planta-baixa. Voltou à sala de estar e começou a escavar os escombros, mas sabia
muito bem que não ia encontrá-la.
— Garvey — ele lembrou.
— O que tem ele?
— Ele veio pegar a planta-baixa das Piscinas. Ou mandou alguém.
— Por quê? — Carole quis saber, olhando para o caos. — Você ia dá-la a ele de
qualquer forma.
Jerry balançou a cabeça. — Bem que você me avisou para ficar longe dele...
— Nunca esperei algo assim.
— Então somos dois.
A polícia chegou e se foi, pedindo desculpas esfarrapadas pelo fato de que
achavam improvável uma prisão. — Tem muito vandalismo por aí no momento — falou
o policial. — Não há ninguém no andar de baixo...
— Não. Foram embora.
— Receio que fosse a última esperança. Estamos recebendo ligações desse tipo o
tempo todo. Tem seguro?
— Tenho.
— Bom, já é alguma coisa.
Durante a entrevista, Jerry não falou de sua suspeita, embora várias vezes tivesse
sentido a tentação de comportar-se como um dedo-duro. Não havia muito propósito em
acusar Garvey àquela altura. Para começar, Garvey teria álibis preparados; depois, o
que acusações sem provas poderiam fazer senão inflamar ainda mais o comportamento
irracional do sujeito?
— O que vai fazer? — Carole perguntou, quando a polícia pegou suas coisas e saiu.
— Não sei. Nem tenho certeza de que foi mesmo Garvey. Num minuto, ele é todo
sorrisos e gentilezas; no outro, isto. Como é que eu vou lidar com uma cabeça dessas?
— Não tente. Deixe ficar como está — ela respondeu. — Quer ficar aqui, ou ir lá
para a casa?
— Ficar — ele disse.
Tentaram restaurar o ambiente de forma desleixada — pondo de pé a mobília que
não estava destruída demais e varrendo o vidro quebrado. Depois viraram o colchão
rasgado para o outro lado, acharam duas almofadas intactas e foram para a cama.
Ela quis fazer amor, mas essa ideia, como tantas coisas ultimamente na vida deles,
estava condenada ao fracasso. Não havia como transformar em algo de bom, entre os
lençóis, o que já estava tão amargo. A raiva dele o embruteceu, e sua brutalidade, por
sua vez, a fez ficar com raiva. Ela franziu o rosto debaixo dele, aplicando-lhe beijos
relutantes e tensos. A atitude dela só o fez ficar ainda mais rude.
— Pare — ela disse, quando ele estava para penetrá-la. — Não quero assim.
Ele queria, e muito. Forçou a penetração antes que ela pudesse reforçar sua
recusa.
— Eu disse não, Jerry.
Ele a ignorou. Tinha quase o dobro do peso dela.
— Pare.
Ele fechou os olhos. Ela mandou novamente que ele parasse, dessa vez com
verdadeira fúria, mas ele só forçou mais — do jeito que às vezes ela lhe pedia que
fizesse, quando estavam realmente com tesão, até implorando. Mas agora ela só
xingava, ameaçava, e cada palavra que dizia o fazia sentir-se mais disposto a não
desistir daquilo, embora não sentisse em seu ventre senão uma sensação de que
estava cheio e desconfortável, e a necessidade de se livrar urgentemente do incômodo.
Ela começou a lutar, arranhando as costas dele com as unhas, e puxando os
cabelos dele para afastar o rosto de seu pescoço. Passou pela cabeça dele, enquanto
agia, que ela o odiaria por isso, e que nisso, pelo menos, eles concordariam, mas o
pensamento logo se perdeu na sensação.
O veneno passou, ele rolou de cima dela.
— Filho da puta... — ela o xingou.
As costas dele doíam. Quando se levantou da cama, deixou sangue nos lençóis.
Remexendo no caos da sala de estar, encontrou uma garrafa de uísque intacta. Os
copos, entretanto, estavam todos quebrados, e por pura e absurda preguiça não queria
beber da garrafa. Agachou-se contra a parede, as costas geladas; não se sentia
horrível nem orgulhoso. A porta da frente se abriu, e foi batida. Ele esperou, ouvindo os
pés de Carole nas escadas. Então vieram as lágrimas, embora ele também se sentisse
profundamente dissociado delas. Por fim, a crise superada, foi até a cozinha, achou
uma xícara e bebeu até perder os sentidos.
O estúdio de Garvey era uma sala impressionante; ele mandara decorá-la como a
de um advogado de impostos que conhecera, as paredes cheias de livros adquiridos a
metro, a cor do carpete e das paredes igualmente neutra, como se tivessem sofrido a
ação da fumaça de charutos e do tempo. Quando sentia dificuldade para dormir, como
era o caso agora, podia se recolher ao estúdio, sentar-se na sua poltrona atrás de uma
vasta mesa e sonhar com a legitimidade. Mas esta noite, não; esta noite seus
pensamentos estavam ocupados de outra forma. Sempre, por mais que ele tentasse
seguir outro caminho, voltavam para a Leopold Road.
Não se lembrava de muito do que havia acontecido nas Piscinas. Isso, por si só, era
perturbador; sempre se orgulhara da agudez de sua memória. Na verdade, a
lembrança de rostos vistos e favores realizados não o havia ajudado pouco para que
tivesse o poder que tinha. Das centenas de empregados que se gabava de ter, não
havia porteiro ou faxineiro que não pudesse chamar pelo nome.
Mas, dos eventos em Leopold Road, que haviam ocorrido há menos de trinta e seis
horas, ele só tinha uma pálida lembrança; das mulheres que o cercaram e da corda
envolvendo seu pescoço; delas o levando ao longo da beira da piscina para alguma
câmara cuja sujeira praticamente lhe arrebatara os sentidos. O que acontecera após
sua chegada ali movia-se em sua memória como aquelas formas na sujeira da piscina,
obscuras, mas horrivelmente perturbadoras. Ele sofrerá humilhação e horrores, não?
Além disso, não se lembrava de nada.
Mas não era homem de se ligar a essas ambiguidades sem argumentar. Se
houvesse mistérios a serem desvendados ali, então ele o faria, e aguentaria as
consequências da revelação. Sua primeira ofensiva fora a de enviar Chandaman e
Fryer para virar o apartamento de Coloqhoun do avesso. Se, como ele suspeitava, toda
essa empreitada fosse alguma armadilha elaborada, planejada por seus inimigos, então
Coloqhoun estava envolvido. Nada mais que um homem de fachada, sem dúvida;
certamente não era o mentor. Mas Garvey estava satisfeito com o fato de que a
destruição dos bens e objetos pessoais de Coloqhoun alertaria seus patrões de sua
intenção de lutar. Isso havia gerado outros frutos também. Chandaman havia retornado
com a planta-baixa das Piscinas; estava aberta sobre a mesa de Garvey agora. Ele
havia traçado sua rota através do complexo repetidas vezes, esperando que sua
memória pudesse ser reavivada. Ficou desapontado.
Cansado, levantou-se e caminhou até a janela do estúdio. O jardim atrás da casa
era vasto, e muito bem cuidado. Mas não conseguia ver muito bem as imaculadas
fronteiras dele no momento; a luz das estrelas mal descrevia o mundo lá fora. Tudo o
que ele podia ver era seu próprio reflexo no vidro polido.
Quando se concentrou na imagem, pareceu que seus contornos tremeram, e ele
sentiu um relaxamento no baixo ventre, como se um nó tivesse se desatado ali. Levou
uma das mãos ao abdome. O lugar repuxava, tremia, e por um instante ele estava de
volta às Piscinas, nu, e alguma coisa se movia diante de seus olhos. Quase gritou, mas
parou dando as costas à janela e olhando para o quarto; para os tapetes, livros e
mobília: uma realidade sóbria e sólida. Mesmo assim, as imagens se recusavam a
deixar sua cabeça inteiramente. Suas entranhas ainda estavam trêmulas.
Vários minutos se passaram até que conseguisse olhar novamente seu reflexo na
janela. Quando finalmente o fez, todos os traços de hesitação haviam desaparecido.
Ele não passaria mais noites assim, sem dormir, assombrado. Com a primeira luz do
amanhecer veio a convicção de que aquele era o dia de quebrar o Sr. Coloqhoun.
Jerry tentou ligar para Carole em seu escritório aquela manhã. Ela nunca estava. Ele
acabou desistindo de tentar e voltou suas atenções para a tarefa hercúlea de pôr
alguma ordem no apartamento. Mas não tinha a concentração e a energia para fazer
um bom trabalho. Depois de uma hora fútil, onde pareceu não ter feito mais que um
paliativo para a resolução do problema, desistiu. O caos refletia com precisão a sua
opinião a respeito de si mesmo. Melhor talvez que o caos fosse deixado ali.
Logo antes do meio-dia recebeu uma ligação.
— Sr. Coloqhoun? Sr. Gerard Coloqhoun?
— Eu mesmo.
— Meu nome é Fryer. Estou ligando a mando do Sr. Garvey...
— Sim.
Era para se mostrar, ou ameaçar mais ainda?
— O Sr. Garvey estava esperando algumas propostas do senhor — observou Fryer.
— Propostas?
— Ele está muito animado com o projeto da Leopold Road, Sr. Coloqhoun. Ele sente
que há uma possibilidade substancial de lucro ali.
Jerry não disse nada; o palavrório o confundia.
— O Sr. Garvey gostaria de outra reunião, o mais rápido possível.
— Sim?
— Nas Piscinas. Há alguns detalhes arquitetônicos que ele gostaria de mostrar a
seus colegas.
— Sei.
— O senhor poderia encontrá-lo mais tarde hoje?
— Sim. Claro.
— Quatro e meia?
A conversa mais ou menos terminou ali, deixando Jerry pasmo. Não havia o menor
traço de inimizade nos modos de Fryer; nenhum sinal, por mais sutil, de raiva entre as
duas partes. Talvez, como a polícia havia sugerido, os eventos da noite anterior
tivessem mesmo sido obra de vândalos anônimos; o roubo de uma planta-baixa estaria,
então, fora de cogitação. Seu ânimo melhorou. Nem tudo estava perdido.
Tornou a ligar para Carole, animado por essa virada nos acontecimentos. Dessa
vez, não aceitou as repetidas desculpas das colegas dela, mas insistiu em falar com
ela. Por fim, ela pegou o fone.
— Não quero falar com você, Jerry. Vá pro inferno.
— Só me escute...
Ela bateu o telefone antes que ele dissesse outra palavra. Ele ligou de novo,
imediatamente. Quando ela respondeu e ouviu sua voz, parecia surpresa por ele ter
ficado tão ansioso por consertar as coisas.
— O que está tentando? — perguntou. —Jesus Cristo, para que isso? — Ele podia
ouvir as lágrimas na garganta dela.
— Quero que entenda como eu estou me sentindo mal. Me deixe corrigir o erro. Por
favor, me deixe corrigir o erro.
Ela não respondeu ao seu apelo.
—Não bata o telefone. Por favor, não. Eu sei que foi imperdoável. Jesus, eu sei...
Ela continuava em silêncio.
— Pense nisso, certo? Me dê uma chance de corrigir as coisas. Pode fazer isso?
Muito baixinho, ela retrucou: —Não vejo por quê.
— Posso ligar para você amanhã?
Ele a ouviu soluçar.
— Posso?
— Pode. Pode.
A ligação caiu.
Ele partiu para seu encontro na Leopold Road com uns bons quinze minutos de
sobra, mas a meio caminho de seu destino a chuva caiu, grandes pingos que
desafiavam os melhores esforços de seus limpadores de para-brisa. O tráfego ficou
mais lento; ele se arrastou por oitocentos metros, apenas as lanternas traseiras do
carro que ia adiante eram visíveis no dilúvio. Os minutos se passavam, a ansiedade
aumentava. Quando conseguiu abrir caminho pelo tráfego engarrafado, para encontrar
outra rota, já era tarde. Não havia ninguém esperando nos degraus das Piscinas, mas o
Rover azul de Garvey estava estacionado um pouco lá embaixo, na estrada. Não havia
sinal do motorista. Jerry achou um lugar para estacionar do lado oposto da estrada e
atravessou debaixo da chuva. Era uma questão de cinquenta metros da porta do carro
até a entrada das Piscinas, mas quando chegou lá estava encharcado e sem fôlego. A
porta estava aberta. Garvey havia claramente mexido no cadeado e entrado para
escapar da chuva. Jerry entrou.
Garvey não estava no vestíbulo, mas alguém estava. Um homem da altura de Jerry,
mas com metade de sua largura. Usava luvas de couro. Seu rosto, não fosse pela falta
de costuras, poderia ser do mesmo material.
— Coloqhoun?
— Sim.
— O Sr. Garvey está esperando pelo senhor lá dentro.
— Quem é você?
— Chandaman — respondeu o homem. — E só seguir direto.
Havia uma luz no fim do corredor. Jerry empurrou as portas envidraçadas do
vestíbulo e desceu na direção da luminosidade. Atrás dele, ouviu a porta da frente se
fechar, e depois os passos do ajudante de Garvey.
Garvey estava conversando com outro homem, mais baixo que Chandaman, e que
estava segurando uma lanterna de tamanho razoável. Quando a dupla ouviu Jerry se
aproximar, olhou em sua direção. Garvey não estendeu a mão nem cumprimentou, mas
disse apenas: —Já era hora.
— A chuva... — começou Jerry. Então pensou melhor antes de dar uma explicação
óbvia.
—Você vai acabar morrendo — falou o homem da lanterna. Jerry reconheceu
imediatamente o tom suave de sua voz.
— Fryer.
— Eu mesmo — respondeu o homem.
— Prazer em conhecê-lo.
Apertaram as mãos. E, quando o fizeram, Jerry viu Garvey, que estava olhando para
ele como se estivesse vendo uma segunda cabeça. O homem não disse nada por
cerca de meio minuto; simplesmente ficou estudando o desconforto crescente no rosto
de Jerry.
— Não sou idiota — Garvey respondeu finalmente.
A declaração, dita sem motivo, exigia resposta.
— Não acredito que você seja o homem por trás disso tudo — continuou Garvey. —
Estou preparado para ser caridoso.
— Por que isso?
— Caridoso, — repetiu Garvey — porque acho que você passou dos seus limites.
Não é verdade?
Jerry limitou-se a franzir a testa.
— Acho que é verdade — replicou Fryer.
— Acho que você não está entendendo o tamanho do problema em que está metido,
não é? — comentou Garvey.
De repente, Jerry deu-se conta, desconfortavelmente, de Chandaman em pé atrás
dele, e de sua própria e profunda vulnerabilidade.
— Mas acho que ignorância jamais deveria ser uma bênção — dizia Garvey. —
Quero dizer: mesmo que você não entenda, isso não o isenta de nada, não é?
— Não tenho a menor ideia do que está falando — Jerry protestou sem muito
esforço. O rosto de Garvey, à luz da lanterna, estava fechado e pálido; ele parecia
precisar de férias.
— Este lugar — retrucou Garvey. — Eu estou falando sobre este lugar. As mulheres
que você colocou aqui... para meu benefício. Para que tudo isso, Coloqhoun? E tudo o
que eu quero saber. Para que tudo isso ?
Jerry deu de ombros. Cada palavra que Garvey pronunciava simplesmente o deixava
ainda mais perplexo; mas o homem já havia dito que ignorância não seria considerada
desculpa legítima. Talvez uma pergunta fosse a resposta mais sábia.
— Você viu mulheres aqui? — ele perguntou.
— Putas, melhor dizendo — respondeu Garvey. Ele tinha o hálito das cinzas do
charuto da semana passada. — Para quem você está trabalhando, Coloqhoun?
— Para mim mesmo. O negócio que ofereci...
— Esqueça a porra desse negócio — comentou Garvey. — Não estou interessado
em negócios.
— Sei — respondeu Jerry. — Então não vejo motivo para essa conversa. — Deu
meio passo para longe de Garvey, mas o braço do homem se esticou de repente e
agarrou sua capa encharcada de chuva.
— Eu não disse que você podia ir embora — falou Garvey.
— Eu tenho negócios...
— Então eles vão ter que esperar — respondeu o outro, sem relaxar muito a
pressão. Jerry sabia que, se tentasse dar um safa- não em Garvey e correr para a
porta da frente, seria detido por Chandaman antes de dar três passos; se, por outro
lado, ele não tentasse fugir...
—Não gosto muito do seu tipo — observou Garvey, tirando a mão de cima dele. —
Garotos espertos com um olho na grande chance. Você acha que é muito inteligente só
porque tem um sotaque diferente e uma gravata de seda. Deixe eu dizer uma coisa...
— espetou o dedo na garganta de Jerry — Estou cagando pra você. Só quero saber
para quem você trabalha. Entendeu?
— Eu já lhe disse...
— Para quem você trabalha? — insistiu Garvey, pontuando cada palavra com uma
espetadela. — Ou você vai passar muito mal.
— Pelo amor de Deus, não estou trabalhando para ninguém. E não sei nada de
mulher nenhuma.
— Não torne isso pior do que já está — aconselhou Fryer, fingindo preocupação.
— Estou dizendo a verdade.
— Acho que o homem quer ser machucado — insinuou Fryer. Chandaman deu uma
gargalhada sem alegria. — E isso o que você quer?
— Só me dê alguns nomes — pediu Garvey. — Ou vamos quebrar suas pernas. — A
ameaça, por mais clara que fosse, não fez nada para clarear a mente de Jerry. Ele não
conseguia pensar em nenhuma forma de escapar senão continuando a insistir em sua
inocência. Se inventasse o nome de algum chefão, a mentira seria descoberta em
instantes, e as consequências poderiam ser ainda piores pela tentativa de tapeação.
— Verifique minhas credenciais — ele pediu. — Você tem os recursos. Procure. Não
trabalho para ninguém, Garvey. Nunca trabalhei.
O olho de Garvey deixou o rosto de Jerry por um momento e foi até seu ombro.
Jerry compreendeu o significado do sinal uma fração de segundo tarde demais para se
preparar para o golpe nos rins dado pelo homem às suas costas. Cambaleou para a
frente, mas antes que pudesse se chocar com Garvey, Chandaman agarrou seu
colarinho e o jogou contra a parede. Ele se dobrou, a dor o deixando insensível a
qualquer pensamento. Vagamente, ouviu Garvey perguntar novamente quem era seu
chefe. Ele balançou a cabeça. Seu crânio estava cheio de pesos de metal; eles
chocalhavam entre suas orelhas.
— Jesus... Jesus... — ele , apalpando o chão como se estivesse procurando alguma
palavra de defesa para evitar outra pancada, mas o levantaram antes que qualquer
uma surgisse. O facho da lanterna virou-se em sua direção. Ele ficou com vergonha
pelas lágrimas que rolavam por sua face.
— Nomes — ordenou Garvey.
Os pesos de metal continuavam chocalhando.
— De novo — falou Garvey, e Chandaman aproximou-se para dar mais exercício aos
seus punhos. Garvey mandou que se afastasse quando Jerry chegou a ponto de
desmaiar. O rosto de couro afastou-se.
— Levante quando eu falar com você — mandou Garvey.
Jerry tentou obedecer, mas seu corpo não estava disposto a cooperar. Ele tremia,
sentia-se pronto para morrer.
— Levante-se — reiterou Fryer, movendo-se entre Jerry e seu torturador para
apontar o caminho de casa. Agora, perto dele,
Jerry sentiu o cheiro que Carole havia sentido nas escadas: era a colônia de Fryer.
— Levante-se! — insistiu o homem.
Jerry levantou uma mão fraca para proteger o rosto da luz ofuscante. Não conseguia
ver nenhum dos três rostos, mas estava razoavelmente consciente de que Fryer
bloqueava o acesso de Chandaman a ele. A direita de Jerry, Garvey acendeu um
fósforo e levou a chama a um charuto. Um momento se apresentou: Garvey ocupado, o
capanga afastado. Jerry o aproveitou.
Mergulhando sob o raio de luz, afastou-se de seu lugar contra a parede,
conseguindo derrubar a lanterna da mão de Fryer ao fazer isso. A fonte de luz caiu
ruidosamente sobre os azulejos e se apagou.
Na escuridão súbita, Jerry tentou uma fuga trôpega para a liberdade. Atrás dele,
ouviu Garvey soltar um palavrão; ouviu Chandaman e Fryer colidirem enquanto
tentavam pegar a lanterna caída. Começou a procurar caminho tateando pela parede
até o fim do corredor. Evidentemente não havia rota segura passando por seus
torturadores até a porta da frente; sua única esperança estava em se perder nas redes
de corredores que estavam adiante.
Alcançou um corredor e virou para a direita, lembrando-se vagamente de que esse
caminho o levaria para longe das principais passagens e para os corredores de serviço.
A surra que levara, embora interrompida antes de deixá-lo incapacitado, fizera com que
ficasse sem fôlego e cheio de escoriações. Sentia a cada passo uma dor aguda na
parte inferior do abdome e nas costas. Quando escorregou nos azulejos cheios de limo,
o impacto quase fez com que gritasse.
As suas costas, Garvey tornava a gritar. A lanterna tinha sido achada. A luz descia pelo
labirinto para encontrá-lo. Jerry se apressou, feliz pela iluminação pobre, mas não por
sua fonte. Eles viriam atrás dele, e rápido. Se, como Carole havia dito, o lugar fosse
uma simples espiral, os corredores descrevendo um laço incansável, sem saída da
configuração, ele estava perdido. Mas não havia como voltar atrás. A cabeça tonta com
o calor cada vez maior, ele continuou, rezando para encontrar uma saída que lhe desse
passagem para fora daquela armadilha.
— Ele foi por aqui — afirmou Fryer. — Deve ter ido.
Garvey concordou. Era realmente a rota mais provável que
Coloqhoun deveria ter tomado. Longe da luz e dentro do labirinto.
— Vamos atrás dele? — perguntou Chandaman. O homem estava praticamente
salivando para terminar a surra que havia começado. — Ele não pode ter ido longe.
— Não — assentiu Garvey. Nada, nem mesmo a promessa de se tornar cavaleiro, o
teria feito segui-lo.
Fryer já havia descido a passagem alguns metros, lançando o feixe de luz contra as
paredes reluzentes.
— Está quente — falou.
Garvey sabia muito bem o quanto estava quente. Um calor daqueles não era natural,
não para a Inglaterra. A ilha era temperada-, por isso, ele nunca pusera os pés fora
dela. O calor asfixiante de outros continentes criava coisas grotescas que ele não
queria ver.
— O que vamos fazer? — Chandaman quis saber. — Esperar que ele saia?
Garvey ponderou. O cheiro que vinha do corredor estava começando a perturbá-lo.
Suas entranhas reviravam, sua pele arrepiava. Instintivamente, colocou a mão sobre o
ventre. Seu sexo havia encolhido com a trepidação.
— Não — ordenou subitamente.
— Não?
— Não vamos esperar.
— Ele não pode ficar lá para sempre.
— Eu disse que não! —Não havia previsto o quanto o suor do lugar o aborreceria.
Por mais que fosse irritante deixar Coloqhoun escapar assim, ele sabia que se ficasse
ali por mais tempo corria o risco de perder o autocontrole.
—Vocês dois podem esperar por ele em seu apartamento — sugeriu a Chandaman.
— Ele terá de passar em casa mais cedo ou mais tarde.
— Droga — Fryer resmungou ao saírem do corredor. — Adoro uma perseguição.
Talvez não o estivessem seguindo. Já fazia vários minutos desde que Jerry ouvira as
vozes atrás dele. Seu coração já não batia furiosamente. Agora, sem adrenalina para
dar velocidade aos calcanhares e distrair os músculos doloridos, seu passo arrastavase.
O corpo protestava até mesmo por isso.
Quando a agonia de dar outro passo tornou-se aguda, deslizou parede abaixo e caiu
sentado no chão da passagem. Suas roupas encharcadas de chuva colavam no corpo e
na garganta; sentia-se ao mesmo tempo congelado e sufocado por elas. Puxou o nó da
gravata e desabotoou o colete e a camisa. O ar no labirinto estava quente em sua pele.
Aquele toque era bem-vindo.
Fechou os olhos e tentou estudadamente se auto hipnotizar para que a dor
passasse. O que sentia seria um truque das terminações nervosas? Havia técnicas
para deslocar a mente do corpo e deixar a agonia para trás. Mas assim que suas
pálpebras se fecharam ouviu sons abafados em algum lugar ali por perto. Passos;
murmúrio de vozes. Não eram Garvey e seus associados; as vozes eram femininas.
Jerry levantou a cabeça pesada e abriu os olhos. Ou acostumara-se à escuridão em
seus poucos momentos de meditação, ou uma luz entrara no corredor; certamente
ocorria a última opção.
Levantou-se. Seu paletó era peso morto, e ele o descartou, deixando-o no lugar em
que estivera sentado. Então começou a caminhar na direção da luz. O calor parecia ter
aumentado consideravelmente nos últimos minutos, e provocava-lhe leves alucinações.
As paredes pareciam ter esquecido a verticalidade, o ar parecia ter trocado a
transparência por uma aurora brilhante.
Virou uma esquina. A luz brilhava. Mais outra, e ele chegou a uma pequena câmara
de azulejos, cujo calor tirou seu fôlego. Sufocou como um peixe fora d' água, e olhou —
o ar engrossando a cada segundo — para a porta do lado oposto à câmara. A luz
amarelada através dela estava ainda mais brilhante, mas ele não conseguia reunir
forças para segui-la mais um metro; o calor ali o havia derrotado. Sentindo que estava
a um passo da inconsciência, ergueu a mão para se apoiar, mas sua palma deslizou
nos azulejos escorregadios e ele caiu de lado. Não pôde evitar um grito.
Gemendo de angústia, levou as pernas para perto do corpo e ficou onde havia
caído. Se Garvey tivesse ouvido o grito, e enviado os ajudantes em sua perseguição,
não importava. Ele não ligava mais.
O som de um movimento o alcançou do outro lado do corredor. Levantando a
cabeça um centímetro do chão, abriu uma fresta nos olhos. Uma garota nua havia
aparecido na porta oposta, ou pelo menos seus sentidos semiconscientes o
informavam. A pele dela brilhava como se tivesse óleo; aqui e ali, nos seios e nas
coxas, manchas do que podia ser sangue pisado. Mas não o sangue dela. Não havia
uma ferida que maculasse seu corpo reluzente.
A garota havia começado a rir dele, uma risada suave e tranquila que o fazia se
sentir um idiota. Mas a musicalidade da risada o deixou num transe, e ele fez um
esforço para dar uma olhada melhor na garota. Ela havia começado a atravessar a
câmara em sua direção, ainda rindo; e agora ele via outras atrás dela. Eram essas as
mulheres de que Garvey havia reclamado; era essa a armadilha que ele acusara Jerry
de montar.
— Quem é você? — murmurou quando a garota se aproximou. A risada da garota
parou quando ela olhou para suas feições contorcidas de dor.
Ele tentou se sentar, mas seus braços estavam dormentes, e ele tornou a
escorregar nos azulejos. A mulher não respondeu sua pergunta e não fez qualquer
tentativa de ajudá-lo. Simplesmente ficou olhando para ele como um pedestre poderia
olhar um bêbado na sarjeta, a expressão indefinível. Olhando para ela, Jerry sentiu que
desaparecia seu tênue laço com a consciência. O calor, a dor e agora essa súbita
erupção de beleza eram demais para ele. As mulheres distantes estavam se
dispersando na escuridão, a câmara inteira se fechando como a caixa de um mágico,
até que uma sublime criatura à sua frente reclamasse totalmente sua atenção. E agora,
com sua insistência silenciosa, o olho de sua mente parecia ser arrancado de sua
cabeça, e subitamente ele era atirado sobre a pele dela, aquela carne era uma
paisagem, cada poro um abismo, cada fio de cabelo uma pilastra. Ela era inteiramente
dele. Ela o afogou em seus olhos e o esfolou com seus cílios; rolou-o ao longo de seu
abdome, descendo pelo canal suave de sua espinha. Levou-o entre suas nádegas, e
então para dentro do calor dela, e novamente para fora justamente quando ele pensava
que iria ser queimado vivo. A velocidade o deixou sem fôlego. Ele tinha a consciência
de que seu corpo, em algum lugar abaixo, tornava-se frio pela ação do terror; mas sua
imaginação — que não precisava respirar — ia de boa vontade para onde ela o
enviava, dando voltas como um pássaro, até ser jogado, esfarrapado e tonto, de volta
ao cálice de seu crânio. Antes que pudesse aplicar a frágil ferramenta da razão ao
fenômeno que acabara de vivenciar, seus olhos se fecharam e ele desmaiou.
O corpo não precisa da mente. Ele tem suas regras de funcionamento — pulmões a
serem enchidos e esvaziados, sangue a ser bombeado e comida a ser consumida —,
nenhuma das quais exige a autoridade do pensamento. Apenas quando uma ou mais
dessas regras falham é que a mente se torna consciente da complexidade do
mecanismo que habita. O desmaio de Coloqhoun durou apenas alguns minutos; mas
quando voltou a si, estava consciente de seu corpo como nunca antes: o corpo como
uma armadilha. Sua fragilidade era uma armadilha; seu tamanho, sua forma, seu
próprio gênero era uma armadilha. E não havia como fugir dele; estava preso a, ou em,
essa coisa abjeta.
Esses pensamentos iam e vinham. Entre eles havia breves visões através das quais
sentia-se tonto, e momentos ainda mais breves em que vislumbrava o mundo fora de si
mesmo.
As mulheres o haviam levantado. Sua cabeça pendia; seus cabelos arrastavam-se
pelo chão. Sou um troféu, pensou num instante mais coerente, quando a escuridão
chegou mais uma vez. E mais uma vez ele lutou para Ci íegar à tona, e agora ela o
carregava ao longo da beira da piscina. Suas narinas se encheram de cheiros
contraditórios, alguns gostosos, outros fétidos. Do canto de seu olho preguiçoso podia
ver a água tão brilhante que parecia queimar quando batia nas margens da piscina: e
mais alguma coisa também — sombras se movendo no brilho.
Elas querem me afogar, ele pensou. E então: já estou me afogando. Imaginou a
água enchendo sua boca; imaginou as formas que havia vislumbrado na piscina
invadindo sua garganta e deslizando para dentro de seu estômago. Lutou para vomitálas,
seu corpo entrando em convulsões.
Uma mão foi posta em seu rosto. A palma era maravilhosamente fria. — Shh —
alguém murmurou para ele, e com esse som suas ilusões se desvaneceram.
A mão havia evaporado de sua testa. Olhou ao redor da sala sombria em busca de
seu salvador, mas seus olhos não foram longe. Do outro lado dessa câmara — que
parecia ter sido um chuveiro coletivo —, vários canos, dispostos a uma certa altura na
parede, jogavam sólidos arcos de água sobre os azulejos, onde ralos a conduziam para
fora. Uma nuvem fina de vapor e o esguicho das fontes enchiam o ar. Jerry se sentou.
Havia movimento por trás do véu cascateante de água: uma forma vasta demais para
ser humana. Ele olhou através da cortina de água para tentar distinguir as dobras de
carne. Era um animal? Havia um cheiro pungente ali, que tinha algo de jaula.
Movendo-se com cautela considerável para não chamar a atenção da fera, Jerry
tentou se levantar. Mas suas pernas não correspondiam à sua intenção. Tudo o que
podia fazer era se arrastar um pouco de quatro ao longo do aposento, e olhar — uma
fera olhando a outra — através do véu.
Sentiu que estava sendo percebido; que a criatura escura e imóvel voltara os olhos
na sua direção. Sob seu olhar, sentiu a pele arrepiar, mas não conseguia desviar os
olhos dela. E então, quando apertou os olhos para examiná-la melhor, uma fagulha de
fosforescência começou em sua substância, e se espalhou — ondas flutuantes de luz
amarelada — por sobre sua tremenda forma, revelando-se para Coloqhoun.
E era ela. Ele sabia sem dúvida que essa criatura era fêmea, embora não
lembrasse qualquer espécie que ele conhecesse. A medida que as ondas de
luminescência se moviam pelo físico da criatura, ela revelava a cada nova pulsação
alguma configuração nova e elaborada. Observando-a, Jerry pensou em algo lento e
derretido — vidro, talvez; ou pedra — sua carne irrompendo em formas elaboradas e
chamada novamente à fornalha para ser refeita. Não tinha nem cabeça nem membros
que pudessem ser reconhecidos como tais, mas seus contornos estavam cheios de
aglomerados de bolhas brilhantes que poderiam ter sido olhos, e ela jogava aqui e ali
fitas iridescentes — chamas lentas, em tons pastéis — que por um momento
pareceram incendiar o próprio ar.
Agora o corpo enviava uma série de ruídos suaves: gemidos e suspiros. Ele se
perguntou se ela estaria falando com ele, e, se fosse o caso, como deveria responder.
Ouvindo passos atrás de si, virou-se e viu uma das mulheres. Tentava orientar-se.
— Não tenha medo — ela o acalmou.
— Não tenho — ele respondeu. Era verdade. O prodígio à sua frente era eletrizante,
mas não lhe despertava qualquer medo.
— O que é ela? — perguntou.
A mulher estava de pé a seu lado. Sua pele, banhada pela luz brilhante que saía da
criatura, era dourada. Apesar das circunstâncias — talvez por causa delas —, ele
sentiu um tremor de desejo.
— Ela é a Madona. A Mãe Virgem.
— Mãe? — Jerry balbuciou, virando a cabeça para trás e vendo a criatura
novamente. As ondas de fosforescência haviam cessado de vibrar pelo corpo dela.
Agora a luz pulsava apenas numa parte de sua anatomia, e, naquela região, em
harmonia com a pulsação, a substância da Madona estava inchando è se rompendo.
Ele ouviu passos atrás; e agora sussurros ecoavam na câmara, gargalhadas, e
aplausos.
A Madona estava dando à luz. A carne inchada estava se abrindo; luz líquida; cheiro
de fumaça e sangue enchia a sala dos chuveiros. Uma garota deu um grito, como por
simpatia por Madona. Os aplausos aumentaram, e subitamente a fenda sofreu um
espasmo e entregou seu filho — o cruzamento entre uma lula e um cordeiro pelado —
sobre os azulejos. A água dos canos acordou-o imediatamente, e ele jogou para trás a
cabeça para olhar ao redor; seu único olho imenso e perfeitamente lúcido. Contorceuse
sobre os azulejos por alguns momentos antes que a garota ao lado de Jerry desse
um passo para o véu de água e o apanhasse. Sua boca sem dentes procurou o seio
dela imediatamente. A garota o conduziu à mama.

— Não é humano... — murmurou Jerry. Ele não havia se preparado para uma criança
tão estranha, e mesmo assim tão inequivocamente inteligente. — Elas... Todas as
crianças são assim?
A mãe adotiva olhou para o saco de vida em seus braços.
— Nenhuma é igual a outra — ela respondeu. — Nós os alimentamos. Uns morrem.
Outros vivem, e seguem seus caminhos.
— Para onde, pelo amor de Deus?
— Para a água. Para o mar. Para dentro dos sonhos.
Ela o ninou. Um bracinho em forma de flauta, onde a luz corria como em sua mãe,
se debatia no ar com prazer.
— E o pai?
—Ela não precisa de marido — foi a resposta. — Ela poderia fazer filhos a partir de
uma chuva, se assim o desejasse.
Jerry olhou de volta para a Madona. Os últimos vestígios de luz haviam se extinguido
nela. O vasto corpo estendeu um tentáculo de chamas cor de açafrão, que apanhou a
cascata de água, e lançou formas dançantes na parede. Então tudo ficou em silêncio.
Quando Jerry olhou para trás, procurando a mãe e o filho, eles haviam desaparecido.
Na verdade, todas as mulheres haviam sumido, menos uma. Era a garota que
aparecera para ele pela primeira vez. O sorriso que então ela dera estava novamente
em seu rosto, enquanto ela se sentava, encarando-o do outro lado do salão, as pernas
abertas. Ele olhou para o lugar entre os dois, e depois para seu rosto.
— Do que você está com medo? — ela perguntou.
— Não estou com medo.
— Então por que não vem a mim?
Ele se levantou e atravessou a câmara até onde ela estava. Atrás dele, a água
ainda batia e descia pelos azulejos, e atrás das fontes a Madona murmurava em sua
carne. Ele não estava intimidado pela presença dela. Pessoas como ele certamente
não eram dignas da atenção de uma criatura daquelas. Se ela em algum momento o
vira, sem dúvida o achara ridículo. Deus! Ele era ridículo até para si mesmo. Não tinha
esperança nem dignidade a perder.
Amanhã tudo isso seria um sonho: a água, as crianças, a beleza que naquele
momento se levantava para abraçá-lo. Amanhã, ele acharia que havia morrido por um
dia e visitado uma sauna para anjos. Mas hoje aproveitaria a oportunidade como
pudesse.
Depois de fazer amor com a garota sorridente, quando tentou se lembrar dos pontos
específicos do ato, não pôde ter certeza de havê-lo realizado. Apenas as lembranças
mais vagas permaneciam com ele, e não eram dos beijos dela, ou de como haviam
copulado, mas de um esguicho de leite do peito dela e da forma como ela murmurara
"Nunca... nunca...", quando se entrelaçaram. Quando acabaram, ela ficou indiferente.
Não houve mais palavras nem sorrisos. Ela simplesmente o deixou sozinho debaixo dos
respingos da câmara. Ele abotoou as calças encharcadas e deixou a Madona com sua
fecundidade.
Um pequeno corredor levava para fora dos chuveiros e para a piscina grande. Ela
estava transbordante, como ele havia registrado vagamente quando o levaram à
presença da Madona. Os filhos dela brincavam na água radiante em suas múltiplas
formas.
As mulheres não estavam em parte alguma, mas a porta para o corredor externo
estava aberta. Passou por ela, e não deu mais de cinco passos antes que ela se
fechasse suavemente atrás dele.
Agora, tarde demais, Ezra Garvey sabia que retornar às Piscinas (mesmo para um
ato de intimidação, de que ele tradicionalmente gostava) fora um erro. Havia reaberto
uma ferida interior que esperava curar rapidamente; e essa ferida trouxe lembranças de
sua segunda visita àquele lugar, das mulheres e do que elas haviam mostrado a ele
(lembranças que ele procurou tornar mais claras até conseguir apreender a verdadeira
natureza delas) mais perto da superfície. Elas o haviam drogado de alguma forma, não
haviam?; e então, quando estava fraco e havia perdido todo senso de propriedade, elas
o haviam explorado para seu entretenimento. Deram-lhe de mamar como se ele fosse
uma criança, e fizeram dele seu brinquedo. Essas lembranças o deixavam
simplesmente perplexo; mas havia outras, profundas demais para serem bem nítidas,
que chocavam. De alguma câmara interior, e de água caindo em cortina; de uma
escuridão terrível, e uma luminescência mais terrível ainda.
Era chegada a hora, ele sabia, de passar por cima daqueles sonhos, e acabar com
tamanha estupefação. Era um homem que não se esquecia dos favores prestados,
nem dos favores devidos; pouco antes das onze teve duas conversas por telefone, para
cobrar alguns desses favores. O que quer que vivesse nas Piscinas da Leopold Road
não prosperaria mais ali. Satisfeito com suas manobras da noite, subiu para a cama.
Havia bebido a maior parte de uma garrafa de schnapps desde que voltara do
incidente com Coloqhoun, com frio e sem conforto. Agora a bebida começava a fazer
efeito em seu organismo.
Seus membros estavam pesados, a cabeça ainda mais pesada. Sequer se preocupou
em tirar a roupa, mas deitou-se em sua cama de casal por alguns minutos para permitir
que os sentidos voltassem a adquirir clareza. Quando tornou a se levantar, era uma e
meia da manhã.
Sentou-se. O estômago dava voltas novamente; na verdade, todo o corpo parecia
estar traumatizado. Raramente estivera doente em seus cinquenta e tantos anos: o
sucesso havia mantido as doenças em xeque. Mas agora sentia-se horrível. Tinha uma
dor de cabeça que quase o cegava — e saiu cambaleando do quarto até a cozinha
mais por auxílio do tato que da visão. Pegou um copo de leite, sentou-se à mesa e
levou o líquido aos lábios. Mas não bebeu. Seu olhar parou na mão que segurava o
copo. Ficou olhando para ela através de uma névoa de dor. Não parecia ser a mão
dele: era fina demais, macia demais. Tremendo, colocou o copo de volta, mas ele
virou, e o leite derramou sobre o tampo de fórmica, escorrendo para o chão.
Levantou-se, o som do leite sobre os azulejos da cozinha despertando pensamentos
curiosos, e caminhou inseguro até seu estúdio. Precisava estar com alguém: qualquer
pessoa serviria. Pegou seu caderno de telefones e tentou entender os rabiscos em
cada página, mas os números não lhe apareciam com clareza. Seu pânico cresceu.
Seria loucura? A ilusão de sua mão transformada, as sensações antinaturais que
percorriam seu corpo. Levou a mão à camisa para desabotoá-la, e ao fazê-lo ela roçou
em outra ilusão, mais absurda que a primeira. Sem vontade nos dedos, rasgou a
camisa, repetindo para si mesmo sem cessar que nada daquilo era possível.
Mas as provas estavam ali. Ele tocou um corpo que não era mais o seu. Ainda havia
sinais de que a carne e os ossos lhe pertenciam — a cicatriz do apêndice em seu baixo
ventre, um sinal de nascença debaixo do braço —, mas a substância de seu corpo
havia sido alterada (ainda estava sendo alterada, a olhos vistos) em formas que o
envergonhavam. Enfiou as unhas nas formas que desfiguravam seu torso, como se elas
pudessem se dissolver sob aquela pressão, mas simplesmente sangraram.
Em seu tempo, Ezra Garvey havia sofrido muito, quase todos os sofrimentos auto
infligidos. Sofrerá períodos de aprisionamento; chegara perto de se ferir gravemente;
suportara as maquinações de belas mulheres. Mas esses tormentos não eram nada
perto da angústia que sentia agora. Ele não era ele mesmo! Seu corpo fora roubado de
si enquanto dormia, e esse ser mutante ficara em seu lugar. O horror que isso
representava destruiu sua autoestima, e deixava sua sanidade à beira do abismo.
Incapaz de conter as lágrimas, começou a puxar o cinto que segurava as calças. Por
favor, Deus, ele murmurava, por favor, Deus, permita que eu ainda esteja inteiro. As
lágrimas mal o deixavam enxergar. Enxugou-as, e olhou para baixo. Vendo as
deformidades que aconteciam ali, urrou até os vidros das janelas estremecerem.
Garvey não era homem de tergiversar. Sabia que nada se realizava através de
discussões. Não tinha certeza de como aquele tratado de transformação havia sido
escrito em seu organismo, e não queria saber. Só pensava em como morreria de
vergonha se aquela condição vil algum dia fosse revelada. Voltou à cozinha, apanhou
uma faca enorme de carne na gaveta, ajeitou as roupas e saiu.
Suas lágrimas haviam secado. Haviam sido um desperdício, e ele não era homem de
desperdícios. Foi até o trecho vazio da cidade próximo ao rio, atravessando a ponte de
Blackfriars. Estacionou ali, e desceu até a beira da água. O nível do Tamisa estava
alto, a corrente forte , e a superfície coberta de espuma branca.
Somente agora, tendo chegado tão longe sem examinar suas intenções muito de
perto, o medo da extinção lhe deu um descanso. Era um homem rico e influente; não
haveria outras rotas para longe dessa provação além da que estava prestes a tomar?
Médicos vagabundos poderiam reverter a loucura que tomara conta de suas células?
Cirurgiões poderiam cortar as partes ofensivas e recosturá-lo de volta ao que era
antes? Mas por quanto tempo essas soluções iriam durar? Mais cedo ou mais tarde, o
processo recomeçaria: ele sabia disso. Estava além de qualquer ajuda.
Uma rajada de vento soprou espuma para longe da água. Ela respingou em seu
rosto, e a sensação finalmente rompeu o selo de seu esquecimento. Finalmente
lembrava-se de tudo: os chuveiros, o barulho dos canos rompidos caindo no chão, o
calor, as mulheres rindo e aplaudindo. E, por último, a coisa que vivia atrás da parede
de água, uma criatura pior do que qualquer pesadelo de feminilidade que sua mente
triste pudesse conjurar. Ele havia trepado lá, na presença daquela criatura, e na fúria
do ato — quando havia por alguns momentos esquecido de si mesmo — as piranhas
haviam jogado esse feitiço sobre ele. Não havia mais como lamentar. O que estava
feito, estava feito. Pelo menos havia feito preparativos para a destruição daquele antro.
Agora desfaria, por autocirurgia, o que haviam conseguido por magia, e também, pelo
menos, negar-lhes a visão de sua obra.
O vento estava frio, mas seu sangue estava quente. Veio esguichando quando ele
fez os cortes em seu corpo. O Tâmisa recebeu a libação com entusiasmo. Lambeu
seus pés; formou marolas. Mas ele ainda não havia terminado o serviço, quando a
perda de sangue o venceu. Não importa, pensou quando os joelhos cederam e ele caiu
na água, ninguém me conhecerá agora, a não ser os peixes. Sua prece, enquanto as
águas do rio se fechavam sobre ele, era de que a morte não fosse mulher.
Muito antes de Garvey acordar e descobrir a rebelião em seu corpo, Jerry havia
deixado as Piscinas, entrado no carro e tentado dirigir para casa. Mas não estava à
altura dessa tarefa simples. Seus olhos estavam turvos, seu senso de direção confuso.
Depois de um quase-acidente num cruzamento, estacionou o carro e começou a andar
de volta ao apartamento. Suas lembranças do que havia acabado de acontecer não
eram nítidas, embora os eventos tivessem se passado há poucas horas. Sua cabeça
estava cheia de estranhas associações. Ele caminhou no mundo sólido, mas meio que
sonhando. Foi a visão de Chandaman e Fryer, esperando por ele no quarto de seu
apartamento, que o despertou para a realidade. Não esperou que o cumprimentassem:
virou-se e saiu correndo. Eles haviam esvaziado seu estoque de bebidas durante a
tocaia, e tiveram reação lenta. Desceu as escadas e saiu da casa antes que
conseguissem correr em sua perseguição.
Caminhou até a casa de Carole; ela não estava. Ele não se importava em esperar.
Ficou sentado nos degraus da frente da casa por meia hora e, quando o inquilino do
apartamento do andar de cima chegou, convenceu-o a ficar no relativo calor da casa e
manter guarda nas escadas. Ali, ele cochilou e rememorou os passos pela rota que
havia tomado, até o cruzamento em que abandonara o carro. Uma multidão passava
pelo local. — Para onde estão indo ? — ele lhes perguntou. — Ver os iates —
responderam. — Que iates? — quis saber, mas eles já estavam se afastando,
conversando entre si. Continuou a andar por algum tempo. O céu estava escuro, mas,
apesar disso, as ruas estavam iluminadas por uma luz azul e sem sombras. Quando
estava para avistar as Piscinas, ouviu um barulho de água e, virando uma esquina,
descobriu que a maré estava subindo pela Leopold Street.
Que mar é este?, perguntou às gaivotas que passavam sobre sua cabeça, pois o
cheiro de sal no ar indicava que essas águas eram de oceano, não de rio. Importava de
que mar era?, elas retrucaram; não eram todos os mares um único mar, afinal? Ele se
levantou e ficou observando as pequenas ondas subindo pelo asfalto. Seu avanço,
ainda que suave, derrubava postes de luz e corroía tão rapidamente as fundações dos
prédios que eles caíam, silenciosos, sob a onda glacial. Logo as ondas estavam aos
seus pés. Peixes, minúsculos dardos de prata, se moviam na água.
— Jerry?
Carole estava na escada, olhando para ele.
— Que diabos aconteceu com você?
— Eu podia ter me afogado — ele disse.
Ele falou da armadilha que Garvey lhe preparara na Leopold Road e de como havia
sido surrado; e da presença dos capangas em sua própria casa. Ela ofereceu uma
simpatia distante. Ele não disse nada a respeito da caçada pela espiral, ou das
mulheres, ou da coisa que vira na sala dos chuveiros. Não conseguiria ter articulado
nada a respeito, mesmo que quisesse: cada hora que passava, desde que deixara as
Piscinas, o deixava menos certo de ter visto alguma coisa.
— Quer ficar aqui? — ela perguntou quando ele terminou o relato.
— Pensei que não ia perguntar.
— E melhor tomar um banho. Tem certeza de que não quebraram nenhum osso seu?
— Acho que eu já estaria sentindo, a esta altura.
Nenhum osso quebrado, talvez; mas ele não havia escapado
sem marcas. Seu torso era um amálgama de escoriações, e ele sentia dores da
cabeça aos pés. Quando, depois de meia hora, saiu da banheira e se inspecionou no
espelho, seu corpo parecia estar inchado da surra, a pele do peito suave e repuxada.
Não era uma visão bonita.
—Amanhã, você precisa ir à polícia — Carole lhe disse mais tarde, quando deitados
lado a lado. — E mandar prender esse filho da puta do Garvey...
— Acho que sim... — ele concordou.
Ela se inclinou sobre ele. Seu rosto estava neutro de tanto cansaço. Ela o beijou
com suavidade.
— Gostaria de amar você — confessou. Ele não olhou para ela. — Por que torna as
coisas tão difíceis?
— Eu? — ele perguntou, as pálpebras caindo. Ela queria enfiar a mão por baixo do
roupão de banho que ele ainda vestia — ela nunca entendera sua timidez, mas isso a
encantava — e acariciá-lo. Mas havia certo isolamento na forma como ele deitava,
deixando claro seu desejo de não ser tocado, e ela o respeitou.
—Vou apagar a luz — ela falou, mas ele já estava dormindo.
A maré não foi gentil com Ezra Garvey. Ela apanhou seu corpo e brincou com ele de
um lado para outro por algum tempo, como alguém que brinca com o alimento que não
tem vontade de comer. Carregou o cadáver um quilômetro e meio rio abaixo, e então
se cansou de seu peso. A corrente o relegou à água mais lenta perto das margens, e lá
— diante de Battersea — ele ficou preso num cabo de amarração. A maré baixou;
Garvey, não. Quando o nível da água caiu, ele continuou pendurado pela corda, o
corpo sem sangue revelado centímetro por centímetro à medida que a maré o deixava,
e a aurora vinha olhar. Por volta das oito horas, a plateia era bem maior.
Jerry acordou com o som da água correndo no chuveiro no banheiro adjacente. As
cortinas do quarto ainda estavam puxadas. Somente um fino dardo de luz o atingiu.
Virou-se para enterrar a cabeça no travesseiro, onde a luz não pudesse perturbá-lo,
mas seu cérebro, uma vez perturbado, começou a funcionar. Teria um dia difícil à sua
frente, em que seria obrigado a fazer um relato dos acontecimentos recentes à polícia.
Haveria perguntas a fazer, e algumas não seriam muito agradáveis. Quanto mais cedo
pensasse na história que iria contar, mais à prova de falhas ela seria. Virou-se e jogou
o lençol para o lado.
Seu primeiro pensamento, quando olhou para si mesmo, foi de que ainda não havia
acordado, mas ainda tinha o rosto enterrado no travesseiro, e estava apenas sonhando
que estava desperto. E sonhando também o corpo no qual habitava — com seus seios
despontando e seu ventre macio. Esse corpo não era seu; o seu pertencia a outro
sexo.
Tentou acordar, mas não havia como acordar. Ele estava ali. Aquela anatomia
transformada era dele — sua fenda, sua suavidade, seu peso estranho — tudo dele.
Durante horas, a partir da meia-noite, havia sido descosturado e refeito; agora tinha
outra imagem.
Da porta ao lado, o som do chuveiro trouxe a Madona de volta à sua cabeça. E
também a mulher que o havia atraído para dentro dela e sussurrado, enquanto ele
franzia a testa e copulava, "Nunca... nunca...", dizendo a ele, embora ele não tivesse
como saber, que essa cópula era a sua última como homem. Elas haviam conspirado
— mulher e Madona — para realizar essa maravilha sobre ele; e não era a maior falha
de sua vida o fato de que não tinha controle nem sobre o próprio sexo? A
masculinidade que lhe fora prometida, como riqueza e influência, não lhe fora tomada
novamente?
Saiu da cama, virando as mãos para admirar-lhes a maciez recém-descoberta,
correndo as palmas sobre os seios. Não estava com medo, nem contente. Aceitava
esse fato consumado como um bebê aceita sua condição, sem ter ideia do bem ou do
mal que isso poderia provocar.
Talvez houvesse mais encantamentos no lugar em que esse surgira. Se fosse o
caso, voltaria às Piscinas e os descobriria sozinho; seguiria a espiral até seu coração
quente e discutiria mistérios com a Madona. Havia milagres no mundo! Forças que
podiam transformar a carne dentro dele sem tirar sangue; que podiam derrubar a
tirania do real e brincar nas suas ruínas.
Na porta ao lado, a água continuava correndo no chuveiro. Ele foi à porta do
banheiro, que estava ligeiramente entreaberta, e deu uma olhada. Embora o chuveiro
estivesse ligado, Carole não estava sob ele. Estava sentada na borda da banheira, as
mãos no rosto. Ela o ouviu à porta. Seu corpo estremeceu. Ela não levantou a cabeça.
— Eu vi... — ela disse. Sua voz era gutural; estava rouca, com nojo mal disfarçado.
— ...estou ficando louca?
— Não.
— Então o que está acontecendo?
— Não sei — ele replicou simplesmente. — É tão terrível?
— Odioso — falou. — Revoltante. Não quero olhar para você. Está me ouvindo? Não
quero ver.
Ele não tentou discutir. Ela não queria conhecê-lo, e essa era sua prerrogativa.
Ele voltou ao quarto, vestiu suas roupas sujas e malcheirosas, e voltou para as
Piscinas.
Entrou sem ser notado; ou melhor, se alguém, ao longo de sua rota, notava algo de
estranho no companheiro que passava — uma disparidade entre as roupas e o corpo
que as vestia —, olhava para o outro lado, sem vontade de encarar um problema
desses àquela hora.
Quando chegou à Leopold Road, havia três homens nos degraus. Estavam falando,
embora ele não o soubesse, de demolição iminente. Jerry parou à porta de uma loja do
outro lado da estrada até que o trio foi embora, e então se dirigiu até a porta da frente.
Temia que pudessem ter trocado a fechadura, mas não fizeram isso. Entrou facilmente
e fechou a porta atrás de si.
Não havia trazido uma lanterna, mas quando penetrou no labirinto deu um voto de
confiança ao instinto, e ele não o abandonou. Depois de alguns minutos de exploração
nos corredores escuros, tropeçou no paletó que havia descartado no dia anterior; mais
algumas curvas e deu com a câmara onde a garota risonha o havia encontrado. Havia
sinais de luz solar por ali, mais além da piscina. Os últimos vestígios de luminescência
que antes o levaram até ali, haviam desaparecido.
Apressou-se na câmara, as esperanças desaparecendo. A água ainda espumava na
piscina, mas quase toda a luz se esvaíra. Estudou a espuma: não havia movimento nas
profundezas. Haviam partido. As mães; os filhos. E, sem dúvida, a primeira causa. A
Madona.
Atravessou a sala dos chuveiros. Ela havia realmente ido embora. Além disso, a
câmara havia sido destruída, como num repente de fúria. Os azulejos foram arrancados
das paredes; os canos, rasgados do estuque e derretidos no calor da Madona. Aqui e
ali viu manchas de sangue.
Dando as costas à destruição, voltou às piscinas, se perguntando se havia sido sua
invasão que os afugentara daquele templo improvisado. Fosse qual fosse a razão, as
bruxas tinham ido embora, e ele, sua criatura, estava abandonado à própria sorte,
privado de seus mistérios.
Vagou pela beira da piscina, desesperado. A superfície da água não estava muito
calma: um círculo de ondulações despertara ali, e estava crescendo a cada segundo.
Ele ficou olhando para a margem à medida que ela ganhava impulso, balançando os
braços ao longo da piscina. O nível da água havia subitamente começado a cair.
Rapidamente as ondulações transformavam-se num redemoinho, a água espumando ao
redor. Uma armadilha fora aberta no fundo da piscina e as águas estavam sendo
drenadas. Era para lá que a Madona fugira? Ele correu de volta para a outra margem
da piscina e examinou os azulejos. Sim! Ela havia deixado uma trilha de fluido para trás
quando se arrastou para fora de seu santuário e entrou na segurança da piscina. Se
aquele fosse realmente o caminho por onde ela partira, não teriam todos a seguido?
Ele não tinha como saber para onde as águas estavam sendo drenadas. Para os
esgotos, talvez, e depois para o rio, e finalmente para o mar. Morte por afogamento; a
extinção da magia. Ou por algum canal secreto no fundo da terra, para algum santuário
seguro, onde a magia não era proibida.
A água rapidamente se tornava um frenesi, à medida que a sucção a chamava. O
vórtice girava, espumava e cuspia. Ele estudou a forma que o vórtice descrevia. Uma
espiral, claro, elegante e inevitável. As águas afundavam rápido; o espadanar era agora
um rugido. Muito em breve, tudo estaria acabado, a porta para o outro mundo selada e
perdida.
Ele não tinha escolha: pulou. O empuxo circulante o agarrou na hora. Mal teve tempo
de tomar fôlego antes de ser sugado para baixo e arrastado. Sentiu-se pressionado
contra o piso da piscina, e então deu uma cambalhota ao ser puxado inexoravelmente
para perto da saída. Abriu os olhos. A corrente o arrastava para a beira, e além. O
fluxo tomou-o em seu movimento, e o atirava de um lado para o outro em sua fúria.
Havia luz adiante. A que distância ficava, ele não podia calcular, mas o que
importava? E se ele afundasse antes de atingir aquele lugar e terminasse a jornada
morto? E daí? A morte não era mais certa do que o sonho de masculinidade que ele
vivera todos esses anos. Termos de descrição feitos somente para serem virados do
avesso. A terra era brilhante, não era?, e provavelmente cheia de estrelas. Ele abriu a
boca e gritou para o redemoinho, à medida que a luz crescia e crescia, um hino em
louvor ao paradoxo.

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