Os Filhos de Babel

Por que Vanessa nunca pôde resistir àquela estrada sem placas de sinalização — a
trilha que levava a Deus sabe onde? Seu entusiasmo para seguir o próprio faro a
deixara em encrencas muitas vezes no passado. Uma noite quase fatal perdida nos
Alpes; aquele episódio em Marrakech que quase acabara em estupro; a aventura com
o aprendiz de engolidor de espadas na selva da baixa Manhattan. E mesmo assim,
apesar das experiências amargas que lhe deviam ter ensinado alguma coisa, quando a
escolha era entre a estrada com sinais e a sem sinais, ela sempre, sem dúvida, optava
pela última.
Como ali, por exemplo. Aquela estrada que serpenteava na direção da costa de
Kithnos: o que poderia oferecer a ela a não ser um passeio monótono por uma terra
com pouca vegetação — um encontro casual com uma cabra ao longo do caminho — e
uma vista dos despenhadeiros do Egeu azul. Ela poderia desfrutar de uma vista dessas
de seu hotel, na Baía de Merikha, praticamente sem sair da cama. Mas as outras
estradas que saíam daquela encruzilhada estavam tão claramente marcadas: uma ia
para Loutra, com suas ruínas de um forte veneziano, a outra para Driópis. Ela não
visitara nenhuma aldeia, e ouvira que ambas eram encantadoras, mas o fato de que
tinham nomes tão expostos diminuía seriamente sua atração por elas. Aquela outra
estrada, no entanto, embora pudesse levá-la a lugar nenhum — e provavelmente era
exatamente isso o que ocorreria —, pelo menos levava a lugar nenhum sem nome. Não
era pouca recomendação. Assim, motivada por pura perversidade, partiu.
A paisagem de cada lado da estrada (ou trilha, como rapidamente se tornou) era,
na melhor das hipóteses, indistinta. Mesmo as cabras que esperou encontrar não
estavam aparecendo ali, mas também a vegetação esparsa não parecia servir muito
para pasto. A ilha não era paraíso algum. Diferente de Santorini, com seu vulcão
pitoresco, ou Míkonos — a Sodoma das Cíclades —, com suas praias elegantes e
hotéis mais elegantes ainda, Kithnos não podia se vangloriar de nada que pudesse
atrair os turistas. Esse, em suma, era o motivo pelo qual ela estava ali: estar o mais
longe possível das multidões. Aquela trilha, sem dúvida, a levaria ainda mais longe.
O grito que ela ouviu dos morros à sua esquerda não era para ser ignorado. Era um
grito de puro alarme, e era perfeitamente audível acima do rugido de seu carro
alugado. Ela freou o velho veículo e desligou o motor. Tornou a ouvir o grito, mas dessa
vez acompanhado de um tiro, uma pausa e um segundo tiro. Sem pensar, ela abriu a
porta do carro e saiu trilha afora. O ar cheirava a lírios e tomilho — aromas que o fedor
de gasolina dentro do carro havia neutralizado com eficácia. Enquanto respirava o
perfume, ouviu um terceiro tiro, e dessa vez viu uma figura — longe demais de onde ela
estava para ser reconhecida, mesmo que pudesse ser seu marido — subindo ao cume
de um dos morros, só para desaparecer novamente do outro lado. Três ou quatro
segundos depois, e seus perseguidores apareceram. Outro tiro foi disparado; mas ela
ficou aliviada ao perceber que fora para o alto, não para o homem. Estavam avisando
para que parasse, e não disparando para matar. Os detalhes dos perseguidores eram
tão indistintos quanto os do fugitivo, só que — um toque agourento — estavam vestidos
dos pés à cabeça com uma roupa preta esvoaçante.
Ela hesitou, sem saber se deveria voltar ao carro e ir embora, ou descobrir o porquê
desse esconde-esconde. O som de armas não era particularmente agradável, mas
será que ela conseguiria dar as costas a um mistério desses? Os homens de preto
haviam sumido atrás de sua presa, mas ela pregou os olhos no ponto de que eles
haviam partido e começou a caminhar naquela direção, mantendo a cabeça baixa da
melhor forma possível.
Distâncias enganavam num terreno tão indistinto; um morro arenoso parecia com o
seguinte. Ela andou por dez minutos inteiros antes de ter certeza de que passara do
ponto onde perseguido e perseguidores haviam desaparecido — e àquela altura estava
perdida num mar de montículos cobertos de grama. Os gritos há muito haviam
cessado, os tiros também. Ela ficou apenas com o som das gaivotas e as discussão
áspera das cigarras aos seus pés.
— Merda — reclamou. — Por que faço essas coisas?
Escolheu o maior morro das redondezas e escalou seu flanco, os pés inseguros no solo
arenoso, para ver se o cume oferecia uma vista da trilha que deixara, ou mesmo do
mar. Se pudesse localizar os despenhadeiros, poderia se orientar com relação ao
ponto em que havia deixado o carro, e seguir nessa direção aproximada, sabendo que
mais cedo ou mais tarde teria que alcançar a trilha. Mas a colina era pequena demais;
tudo o que via de seu topo era a extensão de seu isolamento. Em todas as direções, as
mesmas colinas indistintas, elevando suas costas ao sol da tarde. Em desespero,
lambeu o dedo e o levantou, ao vento, deduzindo que a brisa provavelmente deveria vir
do mar, e que poderia usar essa ínfima informação para esboçar sua cartografia
mental. A brisa era desprezível, mas era o único guia de que ela dispunha, e partiu na
direção em que esperava que a trilha estivesse.
Após cinco minutos — cada um com menos fôlego que o anterior, à medida que ela
subia e descia os morros —, escalou uma das encostas e se viu olhando não para seu
carro, mas para um aglomerado de prédios caiados, dominados por uma torre baixa,
formando um anel, como uma guarnição com uma muralha alta... coisa que os cumes
anteriores não lhe haviam mostrado. Imediatamente achou que o fugitivo e seus três
admiradores superzelosos haviam saído dali, e isso provavelmente sugeriu que não
chegasse perto do lugar. Mas, sem direção, não acabaria vagando uma eternidade
naquela vastidão desolada, sem jamais achar o caminho de volta ao carro? Além do
mais, os prédios pareciam suficientemente despretensiosos para tranquilizá-la. Havia
até indícios de folhagens espreitando de cima das paredes brilhantes, sugerindo um
jardim do lado de dentro, onde ela poderia pelo menos ter alguma sombra. Mudando de
direção, encaminhou-se para a entrada.
Chegou aos portões de ferro forjado, exausta. O jardim do outro lado era pavimentado
e estava cheio de fezes de pombos: vários dos culpados estavam pousados numa mirta
e começaram a arrulhar quando ela apareceu. Do jardim, vários caminhos cobertos
levavam a um labirinto de prédios. Perversidade intocada pela aventura, seguiu o que
parecia menos promissor e saiu do sol para entrar numa passagem fresca, ladeada por
bancos simples, acabando num cercado menor. Ali, o sol caía sobre uma das paredes,
num nicho onde estava uma estátua da Virgem Maria — seu notório filho, dedos
erguidos em bênção, encarapitado em seu braço. E agora, vendo a estátua, as peças
do mistério se encaixavam: o local afastado, o silêncio, a simplicidade dos jardins e dos
caminhos. Aquilo era certamente um estabelecimento religioso.
Ela não tinha nenhum deus desde a adolescência, e raramente entrara numa igreja
nos vinte e seis anos seguintes. Agora, aos quarenta e um anos, nem se lembrava mais
desse fato, e por isso se sentia ali duplamente invasora. Mas não estava procurando
santuário, estava? Apenas uma direção. Podia perguntar e ir embora.
Enquanto avançava pelas pedras iluminadas pelo sol, teve aquela curiosa sensação
de autoconsciência que associava a estar sendo espionada. Era uma sensibilidade que
sua vida com Ronald havia sofisticado a ponto de transformá-la em sexto sentido. As
ridículas crises de ciúme dele, que apenas três meses antes haviam terminado com o
casamento dos dois, acabaram por levá-lo a estratégias de espionagem que não teriam
envergonhado especialistas de Whitehall ou Washington. Agora, sentia não um, mas
vários pares de olhos sobre ela. Embora forçasse a vista para tentar ver as janelas
estreitas que davam para o jardim, e parecesse ter visto movimento numa delas,
ninguém fez qualquer esforço para chamá-la. Seria talvez uma ordem silenciosa, o voto
de silêncio tão profundamente observado ali que ela teria de se comunicar em
linguagem de sinais? Pois bem, que fosse.
Em algum lugar atrás dela, ouviu pés correndo; vários pares, em sua direção. E,
descendo o caminho em que estava, o som dos portões de ferro sendo fechados. Por
algum motivo, seu coração deu um salto e alarmou seu sangue. Espantado, ele coloriu
seu rosto. As pernas enfraquecidas começaram a tremer novamente.
Virou-se para ver os donos dos passos urgentes e, ao fazer isso, viu a cabeça da
Virgem de pedra se mover um mínimo. Seus olhos azuis a haviam acompanhado pelo
jardim e agora estavam inconfundivelmente olhando para suas costas. Ficou paralisada;
melhor não correr, pensou, com Nossa Senhora às costas. De qualquer forma, não
teria sido bom fugir, porque naquele instante três freiras saíam da sombra dos
claustros, as vestimentas esvoaçando. Apenas suas barbas, e os rifles automáticos
reluzentes que carregavam, quebravam a ilusão de que fossem noivas de Cristo. Ela
poderia ter rido dessa incongruência, mas eles estavam apontando as armas direto
para seu coração.
Ninguém ofereceu uma palavra de explicação sequer; mas também, num lugar que
abrigava homens armados vestidos de freiras, um lampejo de razão era sem dúvida tão
raro quanto sapos com penas.
Foi levada grosseiramente para fora do jardim pelas três irmãs
— que a trataram como se ela tivesse acabado de destruir o Vaticano
— e lhe fizeram uma revista completa e sumária. Aceitou essa invasão sem nada além
de uma objeção formal. Nem por um momento eles afastaram as miras dos rifles de
sua direção, e nessas circunstâncias parecia melhor obedecer. Revista concluída, um
deles a convidou a se vestir novamente, e ela foi escoltada até um quartinho e
trancada. Pouco depois, uma das freiras lhe trouxe uma garrafa de vinho palatável e,
para completar esse catálogo de incongruências, a melhor pizza daquele lado de
Chicago. Alice, perdida no País das Maravilhas, não poderia ter achado isso mais
curioso.
— Pode ter havido um erro — admitiu o homem de bigode encerado depois de
horas de interrogatório. Ela ficou aliviada ao descobrir que ele não tinha qualquer
desejo de se passar por aba- dessa, apesar da vestimenta da guarnição. Seu escritório
— se é que se poderia chamar aquilo de escritório — era pouco mobiliado e seu único
artefato notável era uma caveira humana sem o maxilar inferior, olhando vazia para ela,
sobre a mesa. O próprio homem estava melhor vestido; gravata-borboleta
imaculadamente colocada, suas calças bastante vincadas. Por baixo de seu inglês
calculado, Vanessa pensou ter percebido um sotaque. Francês? Alemão? Só depois
que ele pegou um pouco de chocolate em cima da mesa, ela deduziu que o homem era
suíço. Disse que seu nome era Sr. Klein.
— Um erro? — ela perguntou. — Não tem certeza, bolas?
— Localizamos seu carro. Também checamos com seu hotel. Até agora, sua história
foi verificada.
— Não sou mentirosa — ela disse. Estava muito além do ponto de cortesia com o
Sr. Klein, apesar do suborno do chocolate. Aquela altura, devia ser tarde da noite,
calculou, embora não usasse relógio, e o quartinho, que estava no interior de um dos
prédios, não tivesse janelas — e era difícil ter certeza. O tempo passado ali havia sido
enorme, apenas com o Sr. Klein e seu subnutrido ajudante, para distrair sua atenção
cansada. — Bem, fico feliz que esteja satisfeito — ela falou. — Agora, quer me deixar
voltar ao hotel? Estou cansada.
Klein balançou a cabeça.
— Não — afirmou. — Receio que isso não seja possível.
Vanessa se levantou rapidamente, e a violência de seu movimento virou a cadeira.
Um segundo depois do som, a porta se abriu e uma das irmãs barbadas apareceu,
pistola na mão.
— Tudo bem, Stanislaus — murmurou Sr. Klein. — A Sra. Jape não cortou minha
garganta.
A Irmã Stanislaus retirou-se e fechou a porta.
— Por quê? — perguntou Vanessa, sua raiva distraída pelo aparecimento de um
guarda.
— Por que o quê? —perguntou Sr. Klein.
— As freiras.
Klein soltou um longo suspiro e colocou a mão no bule que fora trazido uma hora
antes, para ver se ainda estava quente. Serviu-se meia xícara antes de responder: —
Na minha opinião, muito disto é redundante, Sra. Jape, e a senhora tem minha garantia
pessoal de que vou libertá-la tão logo seja humanamente possível. Nesse meio tempo,
peço que não leve isso a sério. Pense nisso como um jogo... — Seu rosto ficou
levemente amargo. — Eles gostam de jogos.
— Quem?
Klein franziu a testa.
— Não importa — acrescentou. — Quanto menos souber, menos teremos de fazer
você esquecer.
Vanessa olhou com raiva.
— Nada disso faz sentido — disse.
— Nem deveria — respondeu Sr. Klein. Ele parou para provar o café velho. —
Cometeu um erro lamentável ao vir aqui, Sra. Jape. E, claro, cometemos um erro ao
deixá-la entrar. Normalmente, nossas defesas são mais rígidas do que as que a
senhora encontrou. Mas a senhora nos apanhou de surpresa... e quando vimos...
— Escute — falou Vanessa. — Não sei o que está acontecendo aqui. Não quero
saber. Só quero que me deixem voltar ao hotel e terminar minhas férias em paz. — A
julgar pela expressão no rosto de seu interrogador, o apelo não estava sendo muito
convincente. — E pedir demais? — ela perguntou. — Não fiz nada, não vi nada. Qual é
o problema?
O Sr. Klein se levantou.
— O problema — ele repetiu baixinho para si mesmo. — Agora existe um problema.
— Mas não tentou responder. Apenas chamou: — Stanislaus.
A porta se abriu, e lá estava a freira.
— Leve a Sra. Jape de volta ao seu quarto, sim?
— Vou protestar com a minha embaixada! — reclamou Va- nessa, irritada. — Tenho
meus direitos!
— Por favor — replicou Sr. Klein, parecendo sentir dor. — Gritar não vai ajudar
nenhum de nós.
A freira pegou Vanessa pelo braço. Ela sentiu a proximidade de sua pistola.
— Vamos? — ele perguntou com educação.
— Tenho alguma escolha? — ela retrucou.
— Não.
O truque da boa farsa, um dia lhe dissera seu cunhado, ator itinerante, era que ela
devia ser encenada com absoluta seriedade. Não devia haver piscadelas para a plateia,
marcando a intenção cômica do farsista; nenhum recurso tão ultrajante a ponto de
destruir a realidade daquele momento. Conforme esses padrões rígidos, ela estava
cercada por um elenco de especialistas: todos dispostos — sem contar com hábitos e
Madonas espiãs — a desempenhar seus papéis como se aquela situação ridícula não
fosse de forma alguma fora do comum. Por mais que tentasse, ela não conseguia
acabar com a farsa; não anulava suas caras fingidas, não ganhava um único sinal de
autoconsciência deles. Obviamente, não tinha as habilidades necessárias para esse
tipo de comédia. Quanto mais rápido percebessem seu erro e a despedissem da
companhia, mais feliz ela ficaria.
Dormiu bem, ajudada por metade do conteúdo de uma garrafa de uísque que
alguma pessoa inteligente havia deixado em seu quartinho, quando ela voltou para lá.
Poucas vezes na vida bebera tanto em tão pouco tempo, e quando — logo antes do
amanhecer —foi acordada por leves batidas na porta, sua cabeça parecia inchada e a
língua um chumaço de algodão. Levou um instante para se orientar, durante o qual as
batidas se repetiram e a janelinha na porta abriu do outro lado. Um rosto urgente fazia
pressão contra ela: o de um velho, com uma barba cheia de fungos e olhos
perturbados.
— Sra. Jape — ele sussurrou. — Sra. Jape. Podemos conversar?
Ela foi até a porta e olhou pela janela. O hálito do velho era dois terços licor
estragado e um terço de ar puro. Isso impedia que ela chegasse perto demais da
janela, embora ele pedisse isso.
— Quem é você? — perguntou Vanessa, não simplesmente por curiosidade abstrata,
mas porque aqueles traços, curtidos, queimados de sol, a lembravam alguém.
O homem olhou-a nervoso.
— Um admirador — respondeu.
— Eu conheço o senhor?
Ele balançou a cabeça.
— Você é muito jovem — reconheceu. — Mas eu conheço você. Eu a vi chegando.
Queria avisá-la, mas não tive tempo.
— Você também é um prisioneiro aqui?
— De certa forma. Diga-me... você viu Floyd?
— Quem?
— Ele fugiu. Anteontem.
— Ah — fez Vanessa, começando a juntar os pedaços. — Floyd era o homem que
estavam caçando?
— Certamente. Sabe, ele escapou. Foram atrás dele... e deixaram o portão aberto.
A segurança é horrível hoje em dia... — Ele parecia verdadeiramente chocado com a
situação. — Não que eu não esteja satisfeito com sua presença aqui. — Havia certo
desespero em seu olhar, ela pensou; uma certa tristeza que ele lutava para manter
oculta. — Ouvimos tiros — ele comentou. — Não pegaram ele, pegaram?
— Não que eu tenha visto —respondeu Vanessa. — Fui dar uma olhada. Mas não
havia sinal...
— Ha! — fez o velho, mais animado. — Então talvez tenha escapado.
Vanessa já havia considerado que aquela conversa podia ser uma armadilha, que o
velho fosse um joguete de seu captor, e que aquilo fosse apenas outra forma de extrair
informações dela. Mas seus instintos diziam outra coisa. Ele olhava para ela com tanto
afeto, e seu rosto, que lembrava o de um grande palhaço, parecia incapaz de
sentimentos forjados. Fosse isso bom ou ruim, ela confiou nele. Não tinha muita
escolha.
— Ajude-me a fugir — ela pediu. — Preciso fugir.
Ele pareceu desanimado.
— Tão cedo? — perguntou. — Você acabou de chegar.
— Eu não sou ladra. Não gosto de ser trancafiada.
Ele assentiu.
— Claro que não — respondeu, admoestando-se silenciosamente por seu egoísmo.
— Desculpe. E que uma mulher bonita...
— Parou, depois recomeçou, com nova disposição. — Nunca levei muito jeito com
palavras...
— Você tem certeza de que não o conheço de algum lugar?
— Vanessa quis saber. — Seu rosto, de alguma forma, é familiar.
— Mesmo? — ele comentou. — Que bom. Sabe, nós todos achamos que fomos
esquecidos aqui.
— Todos?
— Fomos sequestrados há muito tempo. Muitos de nós estavam apenas começando
nossas pesquisas. Foi por isso que Floyd tentou fugir. Ele queria fazer alguns meses de
pesquisa decente antes do fim. As vezes sinto a mesma coisa. — Sua melancolia fez
uma pausa e ele voltou à pergunta dela. — Meu nome é Harvey Goram. Professor
Harvey Gomm. Embora hoje em dia eu já não me lembre de que eu seja professor.
Gomm. Era um nome singular, e a lembrava de algo, mas não conseguia ligar o
nome à pessoa.
— Você não lembra, não é? — ele perguntou, olhando nos olhos dela.
Ela gostaria de poder mentir, mas isso poderia fazer com que perdesse o sujeito —
a única voz sã que encontrou — mais do que a verdade; que era:
— Não... não exatamente. Não pode dar uma pista?
Mas antes que ele lhe pudesse oferecer mais uma peça do mistério, ouviu vozes.
— Não posso falar agora, Sra. Jape.
— Me chame de Vanessa.
— Posso? — O rosto dele se iluminou no calor da generosidade dela. —Vanessa.
— Você vai me ajudar? — ela perguntou.
— Da melhor forma possível — respondeu. — Mas se me vir acompanhado...
— .. .Nunca nos vimos antes.
— Precisamente. Au revoir. —Ele fechou o painel da porta, ela ouviu os passos
desaparecerem no corredor. Quando seu guardião, um capanga amigável de nome
Guillemot, chegou alguns minutos depois trazendo chá, ela era toda sorrisos.
Sua explosão do dia anterior parecia ter gerado alguns frutos. Naquela manhã, depois
do café, o Sr. Klein apareceu rapidamente e lhe disse que poderia sair para os jardins
do local (com Guillemot a tiracolo), e aproveitar o sol. Depois deram-lhe uma nova
muda de roupa — um pouco grande para ela, mas um alívio bem-vindo para as roupas
suadas que usava há mais de vinte e quatro horas. Mas essa última concessão ao seu
conforto era uma faca de dois gumes. Por mais satisfeita que estivesse por vestir
calcinhas limpas, o fato de que as roupas lhe haviam sido dadas sugeria que o Sr. Klein
não tinha intenção de soltá-la em breve.
Quanto tempo levaria, ela tentava calcular, antes que o gerente um tanto obtuso de
seu pequeno hotel percebesse que ela não voltara? E, nesse caso, o que ele faria?
Talvez já tivesse alertado as autoridades; talvez encontrassem o carro abandonado e
traçassem seu caminho até aquela curiosa fortaleza. Quanto a esse último ponto, suas
esperanças foram arrasadas naquela mesma manhã, durante o banho de sol. O carro
estava estacionado dentro do terreno, ao lado do portão, e, a julgar pelos copiosos
excrementos de pombos sobre ele, passara a noite ali. Seus captores não eram
idiotas. Ela poderia ter de esperar até que alguém na Inglaterra ficasse preocupado e
tentasse descobrir onde estava, e durante esse tempo poderia muito bem morrer de
tédio.
Outros ali haviam encontrado distrações para afastá-los da insanidade. Enquanto
passeava com Guillemot pelo jardim naquela manhã, ela podia claramente ouvir vozes
— uma delas a de Gomm — vindas de um jardim próximo. Estavam elevadas,
animadas.
— O que está acontecendo?
— Estão jogando — respondeu Guillemot.
— Podemos assistir? — ela perguntou sem maldade.
— Não...
— Eu gosto de jogos.
— Gosta? — ele perguntou. — Então vamos jogar, ora!
Não era a resposta que ela queria, mas insistir na questão
poderia levantar suspeitas.
— Por que não? — ela disse. — Ganhar a confiança do homem só poderia lhe trazer
vantagens.
— Pôquer? — ele perguntou.
— Nunca joguei.
— Eu ensino — ele respondeu. O pensamento o agradava claramente. No jardim ao
lado, os jogadores agora gritavam. Parecia ser alguma espécie de corrida, a julgar
pelos gritos e exclamações de encorajamento, e pela diminuição subsequente do
burburinho, quando o final de algum lance era alcançado. Guillemot a pegou ouvindo.
— Sapos — ele disse. — Corrida de sapos.
— Imaginei.
Guillemot olhou para ela quase com carinho, e acrescentou:
— Melhor não pensar.
Apesar do conselho de Guillemot, uma vez que sua atenção se concentrou no som
dos jogos, ela não conseguiu afastar o bur- burinho de sua cabeça. Burburinho que
continuou durante a tarde, aumentando e diminuindo. As vezes, irrompiam gargalhadas;
quase sempre, discussões. Eram como crianças, Gomm e seus amigos, da forma
como brigavam por uma coisa inconsequente como corrida de sapos. Mas, na falta de
diversões mais interessantes, poderia ela culpá-los? Quando o rosto de Gomm
apareceu na porta no final daquela tarde, quase a primeira coisa que disse foi:
— Ouvi você esta manhã, num dos jardins. E esta tarde também. Parecia estar se
divertindo bastante.
— Ah, os jogos — respondeu Gomm. — Foi um dia ocupado. Tinha tanta coisa a ser
decidida.
— Você acha que poderia convencê-los a me deixar ficar com vocês? Está ficando
tão chato aqui.
— Pobre Vanessa. Queria poder ajudar. Mas é praticamente impossível. Estamos
tão sobrecarregados de trabalho no momento, especialmente com a fuga de Floyd.
Sobrecarregados de trabalho?, ela pensou. Com corrida de sapos? Com medo de
ofender, não expressou sua dúvida em voz alta. — O que está havendo aqui? —
perguntou. —Vocês não são criminosos, são?
Gomm pareceu ultrajado. — Criminosos?
— Desculpe...
— Não. Eu entendi por que você perguntou. Suponho que deve ser estranho para
você... uma vez que estamos trancafiados aqui. Mas não, não somos criminosos.
— Mas o que é, então? Qual é o grande segredo?
Gomm respirou fundo antes de responder: — Se eu lhe contar — disse —, você nos
ajuda a sair daqui?
— Como?
— Seu carro. Está lá na frente.
— Sim, eu vi...
— Se pudéssemos chegar até ele, você nos levaria para fora?
— Vocês são quantos?
— Cinco. Eu, Ireniya, Mottershead e Goldberg. Claro, Floyd provavelmente está lá
fora em algum lugar, mas ele vai ter que se virar sozinho, não é?
— O carro é pequeno — ela avisou.
— Somos pequenos — acrescentou Gomm. — A gente encolhe com a idade, como
as passas, sabe? E somos velhos. Com Floyd, nós tínhamos um total de trezentos e
noventa e oito anos. Toda essa experiência amarga — ele confessou — e nenhum de
nós é sábio.
Gritos explodiram subitamente no jardim, fora do quarto de Vanessa. Gomm
desapareceu da porta, tornou a aparecer rapidamente para murmurar: — Eles o
encontraram. Ah, meu Deus: eles o encontraram. — Então saiu correndo.
Vanessa foi espiar pela janela. Não conseguia ver muito do jardim embaixo, mas a
parte que podia ver estava cheia de atividade frenética, irmãs correndo de um lado
para outro. No centro do tumulto, conseguiu ver uma figura pequena — o fugitivo Floyd,
sem dúvida — lutando nos braços de dois guardas. Parecia estar horrível devido aos
dias e noites de vida ao relento, o rosto macilento sujo, a careca descascando por
excesso de sol. Vanessa ouviu a voz do Sr. Klein acima do burburinho, e ele entrou em
cena. Aproximou-se de Floyd e começou a desancá-lo sem piedade. Vanessa não
conseguiu entender mais de uma entre dez palavras, mas o ataque verbal rapidamente
reduziu o velho a lágrimas. Ela desviou o olhar, rezando em silêncio para que Klein
engasgasse com seu próprio pedaço de chocolate.
Até o momento, sua estada ali havia trazido uma curiosa coleção de experiências:
um momento agradável (o sorriso de Gomm, a pizza, os sons dos jogos num jardim),
outro desagradável (o interrogatório, a agressividade que ela acabara de testemunhar).
E mesmo assim não estava perto de compreender qual a função daquela prisão: por
que o lugar só tinha cinco internos (seis, contando com ela própria) e todos tão velhos,
encolhidos pela idade, como Gomm dissera? Mas depois da humilhação que Klein
fizera Floyd passar, agora estava certa de que nenhum segredo, por mais importante
que fosse, a impediria de ajudar Gomm em seu pedido de liberdade.
O Professor não voltou naquela noite, o que a desapontou. Talvez a recaptura de
Floyd tivesse significado regras mais rígidas para o lugar, concluiu, embora esse
princípio praticamente não se aplicasse a ela. Parecia ter sido esquecida. Embora
Guillemot tivesse trazido comida e bebida, não ficou para ensiná-la a jogar pôquer,
como haviam combinado, nem ela foi escoltada para respirar ar puro. Deixada no
quarto abafado sem companhia, sua mente intocada por qualquer entretenimento,
senão contar carneirinhos, ficou logo cansada e sonolenta.
Na verdade, estava cochilando no meio da tarde quando alguma coisa atingiu a
parede do lado de fora da janela. Ela se levantou, e quando caminhava para descobrir
o que era o som, um objeto foi atirado contra a janela. Caiu com um som oco no chão.
Ela tentou ver quem havia jogado aquilo, mas a pessoa já desaparecera.
O objeto era uma chave embrulhada num bilhete. "Vanessa", ele dizia, "Esteja
pronta. Seu, in saecula saeculorum. H. G."
Latim não era seu forte; ela esperava que as últimas palavras fossem uma
expressão de afeto, e não alguma instrução. Tentou a chave na porta da cela.
Funcionou. Obviamente Gomm não pretendia que ela a usasse agora, mas esperasse
por algum sinal. Com a porta aberta e o corredor dando para o sol, sem ninguém
vigiando, era tão tentador esquecer Gomm e os outros, e correr para lá. Mas H. G.
havia sem dúvida corrido algum risco para conseguir a chave. Ela lhe devia obediência.
Depois disso, não cochilou mais. Cada vez que ouvia passos nos claustros, ou um
grito no jardim, estava de pé e pronta. Mas o chamado de Gomm não veio. A tarde se
arrastou até a noite. Guillemot apareceu com outra pizza e uma garrafa de Coca-Cola
para o jantar; antes que ela percebesse, a noite havia caído e outro dia se passado.
Talvez eles viessem protegidos pela escuridão, pensou, mas isso não aconteceu. A
lua se ergueu, seus mares sorrindo afetados, e ainda não havia sinal de H. G. ou desse
êxodo prometido. Começou a suspeitar o pior: que o plano deles havia sido descoberto
e estavam todos sendo punidos por isso. Se era isso, será que o Sr. Klein não
descobriria seu envolvimento mais cedo ou mais tarde? Embora sua parte tivesse sido
mínima, que sanções o homem do chocolate poderia aplicar contra ela? Pouco depois
da meia-noite, decidiu que esperar ali que o machado caísse sobre sua cabeça não era
de forma alguma seu estilo, e seria mais inteligente fazer o que Floyd havia feito: fugir.
Saiu da cela e trancou-a atrás de si, passando apressada pelos claustros, mantendose
nas sombras da melhor forma possível. Não havia sinal de presença humana — mas
ela se lembrava da Virgem vigilante, que primeiro a espionara. Não podia confiar em
nada ali. Esgueirando-se e contando com pura sorte, acabou encontrando o caminho
para o jardim onde Floyd havia enfrentado o Sr. Klein. Passou por ali, para tentar
descobrir em que lado ficava a saída. Mas as nuvens haviam coberto a face da lua, e
na escuridão seu senso de direção a abandonava por completo. Confiando à sorte o
fato de ainda não ter sido presa, escolheu uma das saídas do jardim e passou por ela,
seguindo o próprio nariz ao longo de uma passagem coberta que serpenteava antes de
levar para outro jardim, maior que o primeiro. Uma brisa suave balançava as folhas de
dois loureiros entrelaçados no centro do jardim; insetos noturnos cantavam nas
paredes. Por mais pacífica que parecesse, a praça não oferecia promessa de caminho
que pudesse ver, e estava para voltar por onde viera, quando a lua sacudiu seus véus e
iluminou o jardim de muro a muro.
Estava vazio, exceto pelos loureiros e suas sombras, mas essa sombra caía sobre
um desenho elaborado que tinha sido pintado sobre o chão do jardim. Ela ficou olhando,
curiosa demais para ir embora, conquanto, a princípio, não conseguisse entender o que
era aquilo; o padrão parecia ser apenas isso: um padrão. Caminhou por uma das
margens, tentando entender seu significado. Então percebeu que estava vendo a figura
inteira de cabeça para baixo. Passou para o outro lado do jardim, e o desenho ficou
claro. Era um mapa-múndi, reproduzido até a mais insignificante ilha. Todas as grandes
cidades estavam marcadas e os oceanos e continentes eram atravessados por
centenas de linhas finas que marcavam latitudes, longitudes e muito mais. Embora
muitos dos símbolos fossem idiossincráticos, era claro que o mapa estava repleto de
detalhes políticos. Fronteiras contestadas; águas territoriais; zonas de exclusão. Muitos
desses detalhes haviam sido desenhados e redesenhados a giz, como em resposta a
informações diárias. Em algumas regiões, onde os eventos eram particularmente
frágeis, a massa de terra estava totalmente obscurecida por rabiscos.
A fascinação ficou entre ela e sua segurança. Não ouviu os passos no Pólo Norte
até que o dono deles saiu de seu esconderijo e se mostrou à luz. Ela já ia fugir quando
reconheceu Gomm.
— Não se mova — ele murmurou do outro lado do mundo.
Ela fez o que lhe mandaram. Olhando ao redor como
um coelho cercado, até estar certo de que o jardim estava deserto, H. G. foi até onde
Vanessa estava.
— O que está fazendo aqui? — ele quis saber.
— Você não apareceu — ela o acusou. — Pensei que havia me esquecido.
— As coisas ficaram difíceis. Eles nos observam o tempo
todo.
— Eu não podia continuar esperando, Harvey. Isto aqui não é lugar para se passar
férias.
— Você está certa, claro — ele concordou, uma expressão de desalento. —Não há
esperança. Não há esperança. Você devia ter fugido sozinha. Esqueça a gente. Eles
nunca nos deixarão sair. A verdade é terrível demais.
— Que verdade?
Ele balançou a cabeça.
— Esqueça. Esqueça que nos vimos algum dia.
Vanessa pegou-o pelo braço magro. —Não vou esquecer — afirmou. — Preciso
saber o que está acontecendo aqui.
Gomm deu de ombros.
— Talvez você deva saber. Talvez o mundo inteiro deva saber. —Pegou-a pela mão
e voltaram para a segurança relativa dos claustros.
— Para que serve o mapa? — foi a primeira pergunta.
— Aqui é onde jogamos... — ele respondeu, olhando para o turbilhão de rabiscos no
piso do jardim. Suspirou. — Claro que nem sempre são jogos. Mas sistemas decaem,
você sabe. E uma condição irrefutável comum à matéria e às ideias. Você começa com
boas intenções e em duas décadas... duas décadas... — repetiu, como se o fato lhe
tivesse ocorrido apenas agora — ... estamos brincando com sapos.
— Você não está falando coisa com coisa, Harvey — observou Vanessa. — Está
sendo deliberadamente obtuso ou isso é senilidade?
Ele riu com a acusação, mas deu certo. Olhar ainda fixo no mapa, ele disse as
próximas palavras amargamente, como se tivesse ensaiado essa confissão.
— Houve um dia de sanidade, em 1962, quando ocorreu aos potentados que eles
estavam à beira de destruir o mundo. Mesmo para potentados, a ideia de um mundo
que prestasse apenas para as baratas não era particularmente atraente. Se
quiséssemos impedir a aniquilação, eles decidiram, nossos melhores instintos tinham de
prevalecer. Os poderosos se reuniram a portas fechadas num simpósio em Genebra.
Nunca houve tamanho encontro de mentes. Líderes de Politburos e Parlamentos,
Congressos, Senados — os Senhores da Terra — num debate colossal. E foi decidido
que, no futuro, as questões mundiais deveriam ser analisadas por um comitê especial,
feito de mentes poderosas e influentes como a minha — homens e mulheres que não
se sujeitassem aos caprichos dos favorecimentos políticos, que pudessem oferecer
princípios de orientação para evitar que a espécie cometesse suicídio em massa. Esse
comitê deveria ser constituído por pessoas de muitas áreas da iniciativa humana — os
melhores dos melhores —, uma elite intelectual e moral, cuja sabedoria coletiva
pudesse trazer uma nova idade de ouro. Pelo menos, era essa a teoria...
Vanessa ouvia, sem fazer as centenas de perguntas que o pequeno discurso havia
incitado até o momento. Gomm continuou.
—. ..e por algum tempo deu certo. Realmente deu certo. Só havia treze de nós,
para manter algum consenso. Uma russa, alguns europeus, a querida Yoniyoko, claro,
um neozelandês, dois americanos... éramos um bando bem poderoso. Dois Prêmios
Nobel, eu inclusive...
Agora ela se lembrava de Gomm, ou pelo menos onde vira esse rosto um dia. Ela,
uma estudante, aprendera suas teorias de cor.
—... nossa missão era encorajar a compreensão mútua entre os poderes
constituídos, ajudar a formar estruturas econômicas compassivas e desenvolver a
identidade cultural das nações emergentes. Tudo lugar-comum, claro, mas soava bem
na época. Na prática, quase desde o começo nossas preocupações foram territoriais.
— Territoriais?
Gomm fez um gesto expansivo, abrangendo o mapa à sua frente.
—Ajudando a dividir o mundo — ele explicou. — Regulando pequenas guerras para
que não se tornassem grandes, impedindo ditadores de ficar muito cheios de si. Nós
nos tornamos as empregadas domésticas do mundo, limpando sempre que a sujeira
começava a se acumular demais. Era uma grande responsabilidade, mas nós a
abraçamos com alegria. Agradava-nos, no começo, pensar que nós treze estávamos
moldando o mundo, e que ninguém, senão os mais altos escalões do governo, sabia
que sequer existíamos.
Isso, pensou Vanessa, era a Síndrome de Napoleão escrita com letras enormes na
testa dele. Gomm era indiscutivelmente louco: mas que insanidade heróica! E ele era
essencialmente inofensivo. Por que precisavam trancá-lo? Certamente não era capaz
de fazer qualquer dano.
— Parece injusto — observou — que vocês estejam trancados aqui dentro...
— Bem, é para nossa própria segurança, claro — respondeu Gomm. — Imagine o
caos que seria se um grupo anarquista descobrisse onde operamos e acabasse
conosco. Nós governamos o mundo. Não era para ser assim, mas, como eu disse,
sistemas decaem. A medida que o tempo foi passando, os potentados — sabendo que
estávamos ali para tomar decisões críticas por eles
— passaram a se preocupar cada vez mais com os prazeres dos seus ofícios e cada
vez menos em pensar. Em cinco anos, não éramos mais assessores, mas líderes
substitutos, comandando nações.
— Que divertido — comentou Vanessa.
— Por algum tempo, talvez — respondeu Gomm. — Mas o encanto se desvaneceu
muito rápido. E depois de uma década, a pressão começou a aparecer. Metade do
comitê já está morta. Golovatenko se jogou de uma janela. Buchanan — o neozelandês
— tinha sífilis e não sabia. A velhice pegou a querida Yoniyoko, Bernheimer e Sourbutts.
Ela vai nos pegar a todos mais cedo ou mais tarde, e Klein fica nos prometendo
arranjar pessoas para assumirem quando tivermos morrido, mas eles não ligam. Não
dão a mínima! Somos funcionários, é tudo. —Ele estava ficando bastante agitado. —
Desde que forneçamos julgamentos a eles, eles ficam contentes. Bem... — sua voz
tornou-se um sussurro.
— Estamos desistindo.
Seria um momento de auto realização?, imaginou Vanessa. Seria possível que o
homem saudável na cabeça de Gomm estivesse tentando jogar fora a ficção da
dominação mundial? Se fosse isso, talvez ela pudesse auxiliar o processo.
— Quer dar o fora? — ela perguntou.
Gomm fez que sim.
— Gostaria de ver minha casa mais uma vez antes de morrer. Desisti de tanta coisa,
Vanessa, pelo comitê, e ele quase me deixou louco... —Ah, ela pensou, ele sabe. —
Soa egoísta dizer que minha vida parece um sacrifício grande demais a se fazer pela
paz global? —Ela sorriu com suas pretensões de poder, mas não disse nada. — Se é
assim que soa, que seja! Não me arrependo. Quero sair! Quero...
— Baixe a voz — ela aconselhou.
Gomm se deu conta disso, e concordou.
— Quero um pouco de liberdade antes de morrer. Todos nós queremos. E achamos
que você poderia nos ajudar, sabe? — Olhou para ela. — O que há de errado?
— Errado?
— Por que está me olhando assim?
— Você não está bem, Harvey. Não acho que você seja perigoso, mas...
— Espere um minuto — pediu Gomm. — O que acha que lhe contei até agora? Me
dei a todo esse trabalho...
— Harvey. E uma ótima história...
— História? O que quer dizer com história? — ele falou, petulante. —Ah... Sei. Você
não acredita em mim, não é? É isso! Acabei de lhe contar o maior segredo do mundo e
você não acredita em mim!
— Não estou dizendo que você esteja mentindo...
— E isso? Você acha que sou louco! — explodiu Gomm. Sua voz ecoou ao redor do
mundo retangular. Quase imediatamente ouviram vozes vindas de vários prédios, e logo
depois o trovejar de passos.
— Olhe só o que você fez agora — protestou Gomm.
— Eu fiz?
— Estamos em apuros.
— Escute, H. G., isso não quer dizer que...
— Tarde demais para retratações. Você fica onde está — vou fugir. Você os distrai.
Ele estava para sair quando voltou-se para ela, pegou-a pela mão e levou-a aos
seus lábios.
— Se sou louco, — concluiu — você me fez ficar assim. Então sumiu, as pernas
curtas o conduzindo a uma boa velocidade jardim afora. Mas não chegou aos loureiros
antes dos guardas. Gritaram para que parasse. Como não parou, um dos homens
atirou. Balas mergulharam no oceano ao redor dos pés de Gomm.
— Está bem! — ele gritou, parando e levantando as mãos.
— Mea culpa!
Os tiros pararam. Os guardas se separaram quando seu comandante avançou.
— Ah, é você, Sidney — H. G. disse ao Capitão. O homem ficou visivelmente
incomodado ao ser tratado dessa forma na frente de patentes inferiores.
— O que está fazendo aqui fora a esta hora da noite? — Sidney exigiu saber.
— Olhando as estrelas — pilheriou Gomm.
—Você não estava sozinho —afirmou o Capitão. O coração de Vanessa afundou.
Não havia como voltar à sua cela sem atravessar o jardim aberto; e mesmo agora, com
o alarme suspenso, Guillemot provavelmente estaria verificando como ela estava.
— E verdade — assentiu Gomm. — Eu não estava sozinho.
— Será que ela ofendera tanto o velho que ele agora iria traí-la?
— Eu estava olhando a mulher que vocês trouxeram...
— Onde?
— Pulando o muro — respondeu.
— Meu Deus! —exclamou o Capitão, e virou-se para ordenar que os homens fossem
atrás dela.
— Eu disse a ela — Gomm contava. — Eu disse "você vai quebrar o pescoço
pulando o muro. E melhor esperar até eles abrirem o portão".
Abrirem o portão. Ele não era nenhum lunático, afinal de contas.
—Phillipenko... —ordenou o Capitão — ...escolte Harvey de volta ao seu
dormitório...
Gomm protestou.
— Não preciso de canções de ninar, obrigado.
— Vá com ele.
O guarda foi até H. G. e o escoltou para longe. O Capitão ficou tempo suficiente
para murmurar: — Quem é o esperto, Sidney? — Falou baixinho e depois foi embora.
O jardim estava vazio novamente, exceto pela luz da lua e o mapa-múndi.
Vanessa esperou que cada som tivesse morrido e então esgueirou-se para fora de
seu esconderijo, tomando o caminho que os guardas despachados haviam seguido.
Acabou chegando a uma área que reconheceu vagamente de seu passeio com
Guillemot. Encorajada, correu por uma passagem que levava para o jardim com a
Nossa Senhora dos Olhos Elétricos. Esgueirou-se colada à parede e abaixou-se para
que o olhar da estátua não a visse; finalmente foi na direção dos portões. Estavam de
fato abertos. Como o velho havia protestado quando se encontraram pela primeira vez,
a segurança era mesmo terrivelmente inadequada, e ela agradeceu a Deus por isso.
Quando correu na direção dos portões, ouviu o som de botas no cascalho e olhou
para trás para ver o Capitão, rifle na mão, saindo detrás da árvore.
— Chocolate, Sra. Jape? — ofereceu o Sr. Klein.
— Isto aqui é um hospício — ela protestou quando a escoltaram de volta à sala de
interrogatório. —Nem mais nem menos. Você não tem o direito de me manter aqui.
Ele ignorou as reclamações dela.
— Você falou com Gomm — comentou. — E ele com você.
— E se ele falou?
— O que ele disse?
— Eu disse: e se ele falou?
— E eu disse: o que ele disse? — rugiu Klein. Ela não havia imaginado que ele fosse
capaz de tamanha apoplexia. — Quero saber, Sra. Jape.
Muito contra a vontade, ela percebeu que estava tremendo com a explosão dele.
— Ele me disse coisas sem sentido — respondeu. — Ele é louco. Acho que vocês
todos são loucos.
— Que coisas sem sentido ele disse?
— Besteiras.
— Eu gostaria de saber, Sra. Jape — insistiu Klein, sua fúria se apaziguando. —
Quero rir também.
— Ele disse que existia uma espécie de comitê trabalhando aqui, que tomava
decisões sobre a política mundial, e que ele era um dos membros. Foi só isso.
— E?
— E eu gentilmente lhe disse que ele estava maluco.
O Sr. Klein forçou um sorriso.
—Naturalmente, isso é uma completa ficção — reconheceu.
— Naturalmente — concordou Vanessa. —Meu Deus, não me trate como uma
imbecil, Sr. Klein. Sou uma mulher crescida...
— O Sr. Gomm...
— Ele disse que era professor.
— Outra ilusão. O Sr. Gomm é um esquizofrênico paranóico. Pode ser
extremamente perigoso, se lhe der a menor chance. Você teve muita sorte.
— E os outros?
— Outros?
— Ele não está sozinho. Eu ouvi outros. São todos esquizofrênicos?
Klein suspirou.
— São todos perturbados, embora suas condições variem. E, em seu tempo, por
mais improvável que isso possa parecer, foram todos assassinos. — Parou para
permitir que essas informações fossem assimiladas. — Alguns cometeram vários
assassinatos. Por isso têm esse lugar oculto para eles. Por isso, os policiais estão
armados...
Vanessa abriu a boca para perguntar por que eles estavam disfarçados de freiras,
mas Klein não ia lhe dar uma oportunidade.
— Acredite, é tão inconveniente para mim quanto irritante para você estar aqui — ele
concordou.
— Então me deixe ir embora.
— Quando minhas investigações estiverem completas — sentenciou. —Nesse meio
tempo, eu apreciaria a sua cooperação. Se o Sr. Gomm ou qualquer um dos outros
pacientes tentar cooptá-la para um plano ou outro, por favor, me diga imediatamente.
Fará isso?
— Suponho que...
— E, por favor, não tente mais fugir. A próxima tentativa poderia ser fatal...
— Eu queria perguntar...
— Talvez amanhã —escusou-se o Sr. Klein, olhando o relógio enquanto se levantava.
— Por ora, dormir.
Ela discutiu consigo mesma quando o sono se recusou a vir. De todas as rotas para
a verdade que estavam à sua frente, qual era o caminho mais improvável? Ela
recebera várias alternativas: de Gomm, de Klein, de seu próprio senso comum. Todas
eram tentadoramente improváveis. Todas, como o caminho que a havia levado até ali,
sem sinais de seu destino final. Havia sofrido a consequência de sua perversidade ao
seguir aquela trilha; ali estava, cansada e derrotada, trancafiada, com poucas
esperanças de escapar. Mas essa perversidade era sua natureza — talvez, como
Ronald lhe dissera um dia, o único fato indiscutível a seu respeito. Se desconsiderasse
esse instinto agora, apesar de tudo o que lhe havia trazido, estava perdida. Ficou
acordada, revirando as alternativas disponíveis em sua cabeça. Quando a manhã
chegou, já se decidira.
Esperou o dia inteiro, na esperança de que Gomm aparecesse, mas não ficou
surpresa quando isso não aconteceu. Era possível que os acontecimentos da noite
passada o tivessem colocado em mais problemas do que ele próprio pudesse se livrar
com sua lábia. Mas ela não estava inteiramente só. Guillemot ia e vinha, com comida,
bebida e — no meio da tarde — cartas. Aprendeu pôquer de cinco cartas rapidamente,
e eles passaram uma hora ou duas divertidas, jogando, enquanto o ar trazia gritos do
jardim onde os internos faziam sua corrida de sapos.
— Acha que poderia me arranjar um jeito de tomar um banho de banheira, ou pelo
menos uma ducha? — ela perguntou quando ele voltou para pegar sua bandeja de
jantar naquela noite.
— Já estou começando a não me suportar.
Ele chegou a sorrir ao responder: — Vou ver para você.
— Verdade? — ela disse aliviada. — Que gentileza sua.
Ele voltou uma hora depois para lhe dizer que a permissão
havia sido dada; ela poderia acompanhá-lo até os chuveiros.
— Você vai esfregar minhas costas? — ela perguntou sem maldade.
Os olhos de Guillemot entraram em pânico com o comentário e suas orelhas ficaram
roxas. — Por favor, me acompanhe - ordenou ele. Obediente, ela o acompanhou,
tentando traçar um quadro mental de sua rota, caso quisesse percorrê-la depois, sem
seu guarda.
As instalações onde ele a levou não eram nada primitivas, e ela lamentou, ao entrar
no banheiro cheio de espelhos, que na verdade o banho não estivesse em primeiro
lugar em sua lista de prioridades. Não importava; a limpeza poderia ficar para outro dia.
— Vou ficar do lado de fora — falou Guillemot.
— Fico mais tranquila assim — ela respondeu, oferecendo a ele um olhar que
esperava que fosse interpretado pelo homem como promissor, e fechou a porta. Então
ela ligou o chuveiro o mais quente possível, até o vapor começar a invadir o ambiente,
e abaixou-se para esfregar o sabão no piso. Quando o banheiro estava suficientemente
oculto e o piso suficientemente escorregadio, chamou Guillemot. Poderia ter ficado
lisonjeada pela velocidade da reação dele, mas estava ocupada demais colocando-se
atrás dele, quando ele diminuiu a velocidade para tentar ver algo no vapor, e dando-lhe
um bom empurrão. Ele deslizou no piso e tropeçou sob o chuveiro, gritando quando a
água escaldante bateu em sua cabeça. Seu rifle automático caiu no chão, e quando ele
procurava se aprumar ela já estava com a arma na mão, apontando-a para seu torso,
um alvo substancial. Embora não fosse uma excelente atiradora, e suas mãos
estivessem tremendo, nem uma cega poderia errar àquela distância; ela sabia, e
Guillemot também. Ele levantou as mãos.
— Não atire.
— Se você mover um músculo...
— Por favor... Não atire.
— Agora... Você vai me levar ao Sr. Gomm e os outros. Rápido e em silêncio.
— Por quê?
— Leve-me — ordenou, gesticulando com o rifle para que ele fosse na frente. — E
se tentar qualquer movimento espertinho, dou-lhe um tiro nas costas — continuou. —
Sei que isso não é coisa que um homem faça, mas não sou homem. Sou simplesmente
uma mulher imprevisível. Então me trate com muito cuidado.
— ...sim.
Ele fez como ela mandou, manso, levando-a para fora do prédio e através de uma
série de passagens que os conduziram — ou assim ela achava — à torre do sino e ao
complexo que se aglomerava ao redor. Ela sempre supusera que aquilo, o coração da
fortaleza, fosse uma capela. Não poderia estar mais errada. O lado de fora poderia ser
de telhado de azulejos e paredes caiadas, mas era apenas uma fachada; passaram
pelo umbral e entraram num labirinto de concreto que mais lembrava um bunker do que
um lugar de oração. Rapidamente ocorreu-lhe que o lugar havia sido construído para
suportar um ataque nuclear, impressão reforçada pelo fato de que todos os corredores
levavam para baixo. Se aquilo fosse um asilo, havia sido construído para abrigar
lunáticos de alguma espécie rara.
— Que lugar é este? — ela perguntou a Guillemot.
—Nós o chamamos de Boudoir —ele respondeu. — E onde tudo acontece.
Não acontecia muita coisa naquele momento; a maioria dos escritórios ao longo dos
corredores estava às escuras. Numa sala, um computador calculava suas chances de
pensamento independente, sem nenhum operador; noutra, um telex escrevia cartas de
amor para si mesmo. Desceram às entranhas do lugar sem que ninguém aparecesse,
até que, fazendo uma curva, deram de cara com uma mulher abaixada, de quatro,
esfregando o linóleo. O encontro assustou os três, e Guillemot foi rápido ao tirar
vantagem do momento. Derrubou Vanessa contra a parede e saiu correndo. Antes que
ela tivesse tempo para fazer mira, ele já havia sumido.
Xingou a si mesma. Agora seria questão de momentos até que os alarmes
começassem a soar e os guardas viessem correndo. Ela estava perdida se ficasse
onde estava. As três saídas daquele corredor pareciam igualmente desoladoras,
portanto ela simplesmente escolheu a mais próxima, deixando a mulher da limpeza
olhando para ela. A rota que escolheu provou ser outra aventura. Levou-a por uma
série de salas, uma das quais estava cheia de relógios, todos exibindo horários
diferentes; a sala seguinte continha mais de cinquenta telefones pretos; a terceira e
maior estava cheia, de ponta a ponta, de telas de televisão. Uma em cima da outra,
iam do chão ao teto. Todas desligadas, menos uma. A exceção a essa regra exibia o
que a princípio pensou ser uma luta na lama, mas era na verdade um filme pornô
malfeito. Sentado, vendo o filme, escarrapachado numa cadeira com uma lata de
cerveja equilibrada no estômago, uma freira de bigode. Ela apontou o rifle para ele.
— Vou matar você — ela falou.
— Merda.
— Onde estão Gomm e os outros?
— O quê?
— Onde estão eles? — ela exigiu saber. —Rápido!
—Descendo o corredor. Vire à esquerda e depois à esquerda de novo — ele
explicou. E acrescentou: — Eu não quero morrer.
— Então sente e cale a boca — ela respondeu.
— Graças a Deus — ele disse.
— Por que não agradece mesmo? — perguntou. Quando saiu da sala, o homem caiu
de joelhos, enquanto os lutadores davam cambalhotas atrás dele.
Esquerda e esquerda novamente. As direções foram corretas: elas a levaram a uma
série de quartos. Preparou-se para abrir uma das portas à força, quando o alarme
soou. Mandando a cautela às favas, abriu todas as portas. Vozes de dentro
reclamaram ao ser acordadas, e perguntaram por que o alarme soava. No terceiro
quarto, encontrou Gomm. Ele sorriu para ela.
— Vanessa — exclamou, pulando para o corredor. Estava vestindo um camisolão, e
mais nada. —Você veio. Você feto!
Os outros estavam saindo de seus quartos, zonzos de sono. Ireniya, Floyd,
Mottershead, Goldberg. Ela podia acreditar — olhando seus rostos devastados — que
eles realmente tinham quatrocentos anos de idade no total.
— Acordem, bichas velhas — ordenou Gomm. Havia encontrado um par de calças e
as estava vestindo.
— O alarme está tocando... — comentou um. Seus cabelos, que eram de um branco
brilhante, batiam quase nos ombros.
— Estarão aqui logo... — observou Ireniya.
— Não importa — respondeu Gomm.
Floyd estava quase vestido. — Estou pronto — anunciou.
— Mas estamos em menor número — protestou Vanessa. — Nunca sairemos vivos.
— Ela tem razão — reconheceu um deles, olhando de es- guelha para ela. — Não
temos saída.
— Cale a boca, Goldberg — reclamou Gomm. — Ela tem uma arma, não tem?
— Uma — disse o indivíduo de cabelos brancos, que devia ser Mottershead. — Uma
arma contra todos.
— Vou voltar para a cama — falou Goldberg.
— Há uma chance de escapar — sugeriu Gomm. — Provavelmente a única chance
que teremos.
— Ele tem razão — concordou a mulher.
— E quanto aos jogos? — Goldberg lembrou.
— Esqueça os jogos — Floyd respondeu ao outro. — Deixe que eles esquentem a
cabeça um pouco.
— E tarde demais — avisou Vanessa. — Eles estão chegando. — Ouviram gritos de
ambos os lados do corredor. — Pegaram-nos.
— Ótimo — fez Gomm.
— Você é louco — ela lhe disse pura e simplesmente.
—Você ainda pode atirar em nós —ele respondeu, sorrindo.
Floyd grunhiu.
— Não quero sair daqui tanto assim — confessou.
—Ameace! Ameace! — pediu Gomm. — Diga que se tentarem algo você matará
nós todos!
Ireniya sorriu. Havia deixado os dentes no quarto. — Você não é só uma carinha
bonita — ela falou a Gomm.
— Ele tem razão — reconheceu Floyd, que agora sorria. — Eles não se atreveriam a
se arriscar. Terão de nos deixar partir.
— Vocês estão malucos — resmungou Goldberg. — Não há nada lá fora para nós...
—Voltou para seu quarto e bateu a porta. Nesse momento, o corredor foi bloqueado
em ambas as extremidades por uma massa de guardas. Gomm agarrou o rifle de
Vanessa e levantou-o para que apontasse para seu coração.
— Seja carinhosa — sussurrou, e jogou-lhe um beijo.
— Abaixe a arma, Sra. Jape — ordenou uma voz familiar. O Sr. Klein havia
aparecido por entre a turba de guardas. — Pode acreditar, a senhora está
completamente cercada.
— Vou matá-los, todos — afirmou Vanessa, um pouco hesitante. Então, novamente,
agora com mais sentimento: — Estou avisando. Estou desesperada. Vou matá-los,
todos, antes que vocês me matem.
— Sei... — Klein resmungou baixinho. — E por que você acha que dou a mínima, se
você matá-los ou não? Eles são loucos. Eu já disse isso: todos loucos, assassinos...
— Nós dois sabemos que não é verdade — aduziu Vanessa, ganhando confiança ao
ver a ansiedade no rosto de Klein. — Quero os portões da frente abertos e a chave na
ignição do carro. Se tentar alguma coisa idiota, Sr. Klein, vou matar esses reféns um a
um. Agora mande os capangas embora e faça o que estou dizendo.
O Sr. Klein hesitou, e então fez sinal para uma retirada geral.
Os olhos de Gomm brilharam.
— Muito bem — murmurou.
— Por que não vai na frente? — sugeriu Vanessa. Gomm fez como foi instruído, e
seu pequeno grupo saiu em fila indiana passando pelos amontoados de relógios,
telefones e telas de vídeo. A cada passo, Vanessa esperava que uma bala a atingisse,
mas o Sr. Klein obviamente estava muito preocupado com a saúde dos anciões para
arriscar e pagar para ver. Chegaram ao lado de fora sem incidentes.
Os guardas estavam mobilizados do lado de fora, embora procurassem se manter
afastados. Vanessa manteve o rifle apontado para os quatro reféns, enquanto se
dirigiam, passando pelos jardins, para onde seu carro estava estacionado. Os portões
tinham sido abertos.
— Gomm — ela murmurou. — Abra as portas do carro.
Gomm abriu as portas. Ele havia dito que a idade encolhera
todos, e talvez fosse verdade, mas eram cinco a entrar no veículo pequeno, e ele ficou
bem apertado. Vanessa foi a última a entrar.
Quando se abaixou para entrar no lugar do motorista, um tiro ecoou, e ela sentiu o
impacto no ombro. Largou o rifle.
— Filhos da puta — xingou Gomm.
— Deixe ela — alguém disse na parte de trás, mas Gomm já estava do lado de fora,
empurrando Vanessa para o assento traseiro, ao lado de Floyd. Então ele próprio
passou para o lado do motorista e ligou o motor.
— Pode dirigir? — Ireniya quis saber.
— Claro que posso, droga! — ele retrucou, e o carro arrancou portões afora, as
marchas rangendo.
Vanessa nunca levara um tiro antes, e esperava — se sobrevivesse a esse episódio
— evitar que isso acontecesse novamente. A ferida em seu ombro sangrava demais.
Floyd fez o melhor possível para estancar o sangue, mas com Gomm dirigindo qualquer
ajuda realmente construtiva ficava praticamente impossível.
— Há uma trilha — ela conseguiu dizer — para o lado de lá.
— Lá onde? — gritou Gomm.
—À direita! A direital — ela gritou de volta.
Gomm tirou as duas mãos do volante e olhou para eles.
— Direita onde?
— Pelo amor de Deus...
Ireniya, no assento ao lado, apertou as mãos dele, levando-as de volta para o
volante. O carro dançou uma tarantela. Vanessa gemia a cada solavanco.
— Estou vendo! — disse Gomm. — Estou vendo a trilha! — Acelerou o carro.
Uma das portas traseiras, que não havia sido bem fechada, abriu-se de repente e
Vanessa quase caiu. Mottershead, esticando o braço por cima de Floyd, puxou-a de
volta à segurança, mas antes que a pudessem fechar, a porta encontrou a pedra que
marcava a convergência das duas trilhas. O carro virou quando a porta foi arrancada.
— Precisamos de mais ar aqui dentro — reclamou Gomm, e continuou em frente.
O motor do carro não era o único a perturbar a noite do Egeu. Havia luzes atrás
deles, e o som de uma perseguição apressada. Com o rifle de Guillemot caído no
convento, não tinham morte de refém algum para barganhar, e Klein sabia disso.
— Pise fundo! — ordenou Floyd, sorrindo de orelha a orelha. — Estão vindo atrás de
nós.—
Estou indo o mais rápido possível — insistiu Gomm.
— Desligue os faróis — sugeriu Ireniya. — Seremos um alvo menos fácil.
— Mas assim não passo enxergar o caminho — Gomm reclamou sobre o rugido do
motor.
— E daí? Você não está dirigindo nele mesmo.
Mottershead riu, e — contra seus melhores instintos — Vanessa o acompanhou.
Talvez a perda de sangue a estivesse tornando irresponsável, mas ela não conseguia
evitar. Quatro matusaléns e ela num carro de três portas avançando no escuro: só um
maluco teria levado aquilo a sério. E ali estava a prova final e incontestável de que
aquelas pessoas não eram lunáticas, como Klein os havia rotulado, pois todos sabiam
ver o humor daquilo tudo. Gomm havia até começado a cantar enquanto dirigia: trechos
de Verdi e uma interpretação em falsete de Over the Rainbow.
E se — como sua mente entorpecida havia concluído — eles eram criaturas tão
normais quanto ela? Como ficava a história que Gomm lhe contara? Aquilo seria
verdade também? Seria possível que aquele Armagedon tivesse sido mantido a
distância por essa ala geriátrica?
— Estão chegando perto! —avisou Floyd. Estava ajoelhado no banco de trás,
olhando pelo vidro traseiro.
— Não vamos conseguir — observou Mottershead, diminuindo só um pouco as
gargalhadas. — Vamos todos morrer.
— Lá! — gritou Ireniya. — Outra trilha! Tente aquela! Tente aquela!
Gomm girou o volante e o carro quase capotou ao sair da trilha principal e seguir a
nova rota. Com os faróis apagados era impossível ver mais que um relance da estrada
adiante, mas o estilo de Gomm não ia ser destruído por essas pequenas
considerações. Pisou fundo até o motor gritar. O carro levantou poeira em todas as
direções, e entrou pela abertura onde a porta ficava; à frente, uma cabra voou do
caminho segundos antes de perder a vida.
— Para onde estamos indo? —Vanessa gritou.
— Não tenho ideia — comentou Gomm. — Você tem ?
Para onde quer que estivessem indo, iam a uma boa velocidade. Aquela trilha era
mais plana do que a anterior, e Gomm tirava toda vantagem do fato. Estava cantando
novamente.
Mottershead inclinava-se para fora da janela do outro lado do carro, os cabelos
cascateando. Vigiava seus perseguidores.
— Estão ficando para trás! — uivou triunfante. — Estão ficando para trás!
O ânimo tomou conta de todos os viajantes, e começaram a cantar com H. G.
Cantavam tão alto que Gomm não ouviu Mottershead informá-los de que a estrada
adiante parecia ter desaparecido. Na verdade, H. G. não se dera conta de que havia
levado o carro para o despenhadeiro até que o veículo mergulhou, e o mar se
aproximou para encontrá-los.
— Sra. Jape? Sra. Jape?
Vanessa acordou sem vontade. A cabeça doía, o braço doía.
Passara por poucas e boas recentemente, embora fosse levar algum tempo para se
lembrar do conteúdo desses momentos. Então as lembranças voltaram. O carro caindo
da ribanceira; o mar gelado entrando rápido pela porta aberta; os gritos frenéticos ao
seu redor enquanto o veículo afundava. Ela conseguira se libertar, semiconsciente,
percebendo vagamente que Floyd flutuava ao seu lado. Ela dissera seu nome, mas ele
não respondeu. Agora ela o repetia.
— Mortos — concluiu o Sr. Klein. — Estão todos mortos.
— Oh, meu Deus — ela murmurou. Olhava não para o rosto dele, mas para uma
mancha de chocolate em seu colete.
— Não pense mais neles — ele insistiu.
— Não pensar?
— Existem coisas mais importantes, Sra. Jape. Precisa se levantar, e rápido.
A urgência na voz de Klein fez Vanessa se levantar. — Já é de manhã? — ela
perguntou. Não havia janelas no quarto que ocupavam. Aquele era o Boudoir, a julgar
por suas paredes de concreto.
— Sim, é de manhã — respondeu Klein, impaciente. —Agora, quer vir comigo?
Tenho algo para lhe mostrar. —Ele abriu a porta e saíram para o corredor sombrio.
Pouco adiante, um barulho como o de uma grande discussão; dezenas de vozes,
xingamentos e clamores elevados.
— O que está acontecendo?
— Um aquecimento para o Apocalipse — ele respondeu, e levou-a para dentro da
sala, onde Vanessa vira pela última vez os lutadores na lama. Agora todas as telas de
vídeo estavam ligadas, e cada uma mostrava um interior diferente. Havia salas de
guerra e suítes presidenciais, gabinetes e salas do Congresso. Em cada uma delas,
alguém estava gritando.
— Você esteve inconsciente dois dias inteiros — Klein lhe disse, como se isso
explicasse a história toda. A cabeça dela doía. Ela olhou de uma tela para outra: de
Washington a Hamburgo, de Sidney ao Rio de Janeiro. Em toda parte do globo, os
poderosos aguardavam notícias. Mas os oráculos estavam mortos.
— Eles são apenas performers — disse Klein, gesticulando para as telas que
gritavam. — Não conseguiriam correr num pé só, quanto mais governar o mundo. Estão
ficando histéricos, e os dedos que apertam os botões estão começando a coçar.
— O que eu deveria fazer ? — retrucou Vanessa. Aquela apresentação de Babel a
deixava deprimida. — Não sou estrategista.
— Gomm e os outros também não eram. Podiam ter sido um dia, mas as coisas logo
se deterioraram.
— Sistemas degeneram — ela reconheceu.
— Não é verdade. Quando cheguei aqui, metade do comitê já estava morta. E o
resto havia perdido todo o interesse em suas tarefas...
— Mas ainda promoviam julgamentos, como disse H. G.?
— Ah, claro.
— Governavam o mundo?
— De certa forma — respondeu Klein.
— O que você quer dizer com de certa forma?
Klein olhou para as telas. Seus olhos pareciam estar à beira das lágrimas.
— Ele não explicou? Eles participavam de jogos, Sra. Jape. Quando ficavam
entediados com a razão e o som das próprias vozes, desistiam da discussão e
começavam a jogar moedas para o alto.
— Não.
— E disputar corrida de sapos, claro. Era o jogo favorito deles.
— Mas os governos... — ela protestou —... certamente eles não aceitavam
simplesmente...
—Acha que eles se importam? —perguntou Klein. —Desde que estejam na mídia, o
que lhes importa a verborragia que derramam ou como chegaram a ela?
Sua cabeça girou.
— E tudo obra do acaso? — ela perguntou.
—Por que não? O acaso tem uma tradição muito respeitável. Nações caíram por
decisões divinatórias lidas nas entranhas de cordeiros.
— E absurdo.
— Concordo. Mas eu lhe pergunto, com toda a honestidade, se não é muito mais
terrível do que deixar o poder nas mãos deles. — Apontou para as fileiras de rostos
irados. Democratas suando frio, com medo de que o dia seguinte viesse encontrá-los
sem causa a abraçar ou aplausos a receber; déspotas com pavor de que, sem
instruções, suas crueldades perdessem o apoio e eles fossem derrubados. Um premier
parecia ter sofrido um ataque dos brônquios e estava sendo ajudado por dois
assessores; outro pegou um revólver e apontava para a tela, exigindo satisfação; um
terceiro mastigava sua peruca. Eram aqueles os melhores frutos da árvore política;
idiotas balbuciantes, brigões, bajuladores, levados à apo- plexia porque ninguém queria
lhes dizer para que lado pular. Não havia homem ou mulher entre eles em que Vanessa
confiasse para ajudá-la a atravessar a rua.
— Melhor os sapos — ela murmurou, por mais amargo que fosse o pensamento.
A luz no jardim, após a iluminação morta do bunker, era estonteantemente brilhante,
mas Vanessa considerava-se satisfeita por estar fora do alcance da estridência lá de
dentro. Muito em breve, eles encontrariam um novo comitê, Klein lhe dissera enquanto
saíam para o ar livre: era questão de semanas antes que o equilíbrio fosse restaurado.
Enquanto isso, o mundo poderia ser leito em pedacinhos pelas criaturas desesperadas
que ela acabara de ver. Eles precisavam de julgamentos, e rápido.
— Goldberg ainda está vivo — lembrou Klein. — E continuará com os jogos. Mas
para jogar precisamos de dois.
— Por que não você?
— Porque ele me odeia. Odeia a todos nós. Diz que só joga com você.
Goldberg estava sentado sob os loureiros, jogando paciência. Era um jogo lento.
Sua miopia exigia que ele levasse cada carta a dois centímetros do nariz para vê-la.
Quando chegava ao fim da fileira, já havia esquecido as cartas do início.
— Ela concordou — falou Klein. Goldberg não levantou os olhos do jogo. — Eu
disse: ela concordou.
— Sou cego, e não surdo — Goldberg disse a Klein, ainda olhando para as cartas.
Quando finalmente levantou a cabeça, forçou a vista para olhar Vanessa. — Eu disse a
eles que ia acabar mal... — aduziu mansinho, e Vanessa percebeu que por baixo
daquela exibição de fatalismo ele sentia profundamente a perda dos companheiros. —
...Eu disse desde o começo: estávamos aqui para ficar. Não havia como escapar. —
Deu de ombros e voltou para as cartas. — Fugir para onde? O mundo mudou. Eu sei.
Nós o mudamos.
— Não foi tão ruim — reconheceu Vanessa.
— O mundo?
— A forma como eles morreram.
— Ah.
— Nós nos divertimos até o último minuto.
— Gomm era tão sentimental — lembrou Goldberg. — Nunca gostamos um do outro.
Um sapo enorme pulou no caminho de Vanessa. Goldberg reparou no movimento.
— O que é isso? — perguntou.
A criatura olhou o pé de Vanessa, perniciosamente. —Apenas um sapo — ela
respondeu.
— Como é ele?
— Gordo — ela explicou. — Com três pontinhos vermelhos nas costas.
— Esse é Israel — ele falou. — Não pise nele.
— Podemos tomar algumas decisões ao meio-dia? — Klein interrompeu. — Em
particular, a situação do Golfo, e a discussão mexicana, e...
— Sim, sim, sim — disse Goldberg. — Agora vá embora.
— ...Poderia acontecer outra Baía dos Porcos.
— Você não está dizendo nada que eu já não saiba. Vá! Está perturbando as
nações. — Ele olhou para Vanessa. — Bem, você vai sentar ou não vai?
Ela sentou.
— Vou deixar vocês — disse Klein, e se retirou.
Goldberg começara a produzir um som na garganta, imitando a voz de um sapo. Em
resposta, coaxares em vários pontos do jardim. Ouvindo o som, Vanessa conteve um
sorriso. Farsa, ela dissera a si mesma uma vez, tinha de ser desempenhada com
seriedade, como se o ator acreditasse em cada palavra absurda que dissesse.
Somente a tragédia exigia risos; e isso, com o auxílio dos sapos, eles ainda poderiam
impedir.

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