Um: trailer
Apesar da bala, Barbério sentia-se bem. É verdade que alguma coisa apertava seu
peito quando respirava com força e que o ferimento da perna não parecia nada bem,
mas já havia levado tiros antes e sempre se saíra com um sorriso. Pelo menos estava
livre, isso era o mais importante. Ninguém, jurou ele, ninguém jamais o prenderia numa
cela. Preferia matar-se a ser preso outra vez. Se não tivesse sorte e eles
conseguissem cercá-lo, enfiaria a arma na própria boca e estouraria os miolos. De jeito
nenhum eles o arrastariam vivo de volta à cela.
Quando se está preso, contando os segundos, a vida é longa demais. Precisou de
alguns meses para aprender a lição, mas a vida é longa, repetitiva e debilitante, e, se
não se toma cuidado, acaba-se achando que é melhor morrer do que continuar no
buraco do lixo. É melhor se enforcar com o cinto, no meio da noite, do que enfrentar o
tédio de outras vinte e quatro horas, oito mil seiscentos e quarenta segundos.
Assim, resolveu fugir.
Primeiro, comprou um revólver no mercado negro da prisão. Custou tudo que tinha e
mais uma porção de vales que teria de pagar fora da cadeia, se quisesse continuar
vivo. Então, fez a coisa mais óbvia na história das fugas: pulou o muro. E, sem dúvida,
o deus dos assaltantes de lojas de bebidas estava encarregado de protegê-lo naquela
noite, porque, por incrível que pareça, ele caiu do outro lado do muro sem nenhum cão
farejando seus calcanhares.
E os tiras? Por que fizeram aquela confusão toda, procurando por ele onde jamais
poderia ter ido, detendo sua irmã e seu cunhado como suspeitos de ajudá-lo na fuga,
quando nem sabiam que ele havia escapado, fazendo circular um boletim de busca que
o descrevia como era antes da prisão, com dez quilos a mais do que agora? Ficou
sabendo de tudo isso por Geraldine, uma antiga namorada dos bons tempos, que fez
um curativo em sua perna e lhe deu a garrafa de Southern Comfort, agora quase vazia
em seu bolso. Ele aceitou a bebida e a simpatia e foi embora, confiando na lendária
idiotice dos representantes da lei e no deus que o levara até ali.
Costumava chamar esse deus de Sing-Sing. Imaginava-o gordo, com um sorriso de
orelha a orelha, um salame numa das mãos e uma xícara de café forte na outra. Para
Barbério, Sing-Sing cheirava a barriga cheia na casa de mamãe, no tempo em que ela
ainda estava boa da cabeça e ele era seu orgulho e sua alegria.
Infelizmente Sing-Sing estava distraído quando o único tira com olhos de águia na
cidade inteira viu Barbério urinando numa passagem estreita atrás de uns prédios e o
reconheceu como o homem descrito naquele obscuro boletim. Um tira jovem, não mais
de vinte e cinco anos, candidato a herói. Tolo demais para compreender o significado
do primeiro tiro de Barbério. Ao invés de se proteger e deixar Barbério ir embora,
forçou a barra, caminhando diretamente para ele.
Barbério não teve escolha. Atirou.
O tira respondeu com outro tiro. Sing-Sing deve ter entrado nessa hora,
atrapalhando a pontaria do tira, e a bala, que devia encontrar o coração de Barbério,
atingiu sua perna, ao mesmo tempo guiando o tiro de Barbério bem para o nariz do tira.
Olho de águia despencou como se acabasse de se lembrar de um encontro marcado
com o chão, e Barbério afastou-se, praguejando, sangrando e assustado. Que bela
introdução à nova carreira.
Mas Sing-Sing ainda estava com ele. A perna doía, embora o curativo feito por
Geraldine tivesse estancado o sangue; a bebida fizera maravilhas para a dor, e ali
estava ele, um dia e meio depois, cansado mas vivo, após atravessar, pulando numa
perna só, a cidade apinhada de tiras vingativos, como um membro do desfile de
malucos no Baile da Polícia. Agora, só pedia ao seu protetor um abrigo para descansar
um pouco. Não por muito tempo, mas o suficiente para recuperar o fôlego e planejar os
movimentos futuros. Uma ou duas horas de sono também não seriam nada mal.
O problema era aquela dor de estômago, profunda e excruciante, que piorava a
cada dia. Talvez, depois de descansar um pouco, pudesse encontrar um telefone, falar
com Geraldine, para que ela convencesse algum médico a examiná-lo. Pretendia sair
da cidade antes da meia-noite, mas isso não parecia agora uma boa decisão. Por mais
arriscado que fosse, teria de ficar por lá aquela noite, e talvez parte do dia seguinte, e
iniciar a fuga para campo aberto depois de recuperar as energias e retirar a bala da
perna.
Puxa, como a dor de estômago estava aumentando. Sem dúvida, era uma úlcera,
provocada pela sujeira que eles chamavam de comida na penitenciária. Muitos tinham
problemas de estômago e diarreia na prisão. Depois de alguns dias comendo pizzas e
tomando cerveja, ficaria curado, tinha certeza.
A palavra câncer não fazia parte do vocabulário de Barbério. Jamais pensara em
qualquer doença terminal, especialmente em relação a si próprio. Seria o mesmo que
um boi no matadouro, preocupado com a dor no casco doente, no momento de ser
abatido. Um homem na sua profissão, cercado de instrumentos letais, nunca espera
morrer de um tumor maligno do estômago. Mas aquela dor era exatamente isso.
O restaurante atrás do cinema Movie Palace havia sido devorado pelo fogo há
alguns anos; os escombros nunca tinham sido retirados do terreno.
Não valera a pena reconstruir o restaurante, e ninguém havia demonstrado interesse
pelo terreno. Nos anos sessenta e setenta, aquela parte da cidade tinha sido bastante
movimentada. Em dez anos floresceram restaurantes, bares e cinemas. Então,
inevitavelmente, saiu de moda. Era cada vez menor o número de jovens que ia gastar
dinheiro naquele ponto. Havia novas casas de diversão, novos lugares da moda. Os
bares fecharam, depois os restaurantes. Só o Movie Palace permaneceu como símbolo
dos dias inocentes, num bairro que se tornava mais pobre e mais perigoso a cada ano.
A selva de mato e madeira podre do terreno baldio era exatamente o que Barbério
procurava. A perna estava cada vez pior, ele cambaleava de exaustão, e a dor no
estômago piorava a cada minuto. Precisava urgentemente de um lugar para encostar a
cabeça suada. Acabar com o que restava do Southern Comfort e pensar em Geraldine.
Uma e meia da manhã; o terreno era um ponto de encontro amoroso para gatos.
Correram assustados entre o mato alto quando ele empurrou para o lado alguns
pedaços de madeira e deslizou para as sombras. O refugio fedia a urina, humana e de
gato, a lixo, a antigas fogueiras, mas era como um santuário.
Encostado na parece do fundo do Movie Palace, Barbério, apoiado no cotovelo,
vomitou uma boa porção de Southern Comfort e de bílis. Perto do muro havia uma
espécie de barraca de vigas, tábuas escurecidas pelo fogo e ferro retorcido, feita sem
dúvida por crianças, um santuário dentro de um santuário. Sing- Sing sorria para ele
com as bochechas lambuzadas de gordura. Gemendo baixinho (o estômago estava
péssimo nessa noite), Barbério arrastou-se até a barraca abaixando a cabeça para
passar na porta.
Alguém mais havia usado aquele lugar para dormir: Barbério sentiu o monte de
sacos úmidos sob os dedos, e uma garrafa bateu num tijolo à sua esquerda. Procurou
não pensar no cheiro que sentia muito próximo, uma impressão de que os esgotos
estavam subindo à superfície. Aquilo era um lugar imundo, porém mais seguro do que a
rua. Encostado na parede do Movie Palace, ele respirou lenta e demoradamente,
exalando seu temor.
A menos de um quarteirão dali, meio quarteirão talvez, soou a longa sirena de um
carro de polícia, como o choro de uma criança no meio da noite, e a sensação de
segurança, há pouco adquirida, desapareceu completamente. Estavam fechando o
cerco para a sua execução, ele sabia. Haviam deixado que pensasse que estava salvo,
o tempo todo caçando como tubarões, luzidios e silenciosos, esperando que ficasse
cansado demais para opor resistência. Meu Deus, matara um tira, imagine o que iam
fazer com ele quando o pegassem. Iriam crucificá-lo.
Muito bem, Sing-Sing, e agora? Tire esse ar de surpresa da cara e me salve desta
encrenca.
Nada, por um momento. Então, o deus sorriu na sua mente, e, por coincidência,
Barbério sentiu as dobradiças nas suas costas.
Puxa! Uma porta. Estava encostado numa porta.
Gemendo de dor, virou o corpo e passou os dedos na portinhola atrás dele. Parecia
uma pequena abertura para ventilação, com menos de um metro quadrado. Talvez
levasse a um espaço entre o telhado e o teto, talvez a alguma cozinha — que diabo,
era mais seguro dentro do que fora. Todos os bebês aprendiam isso com a primeira
palmada e o primeiro choro.
O lamento da sirena continuava lá fora, arrepiando todo o corpo de Barbério. Som
horrível, que acelerava seu coração.
Os dedos grossos procuraram o fecho na grade de abertura, e lá estava o cadeado,
tão enferrujado quanto o resto.
Vamos, Sing-Sing, só estou pedindo mais uma oportunidade, me deixe entrar e juro
que serei seu para sempre.
Puxou o cadeado, mas o ferro não cedeu. Ou era mais forte do que parecia ou
Barbério estava mais fraco do que pensava. Talvez um pouco de cada coisa.
A cada segundo o carro chegava mais perto. O lamento insistente abafava o som de
sua respiração desesperada.
Tirou do bolso o revólver assassino do tira para usar como alavanca. Era impossível
aplicar muita força naquele pedaço curto de ferro, mas, depois de algumas tentativas,
conseguiu. O cadeado abriu, com uma chuva de pó enferrujado que grudou em seu
rosto. Barbério mal conteve um grito de triunfo.
Agora, abrir a grade, sair daquele mundo maldito para o escuro.
Enfiou os dedos na grade e puxou. Dor, uma dor contínua, que desceu do estômago
para a barriga e para a perna, o entontecia. Abra, droga, disse ele para a grade, abrete,
Sésamo.
A porta obedeceu.
Abriu de repente, e ele caiu para trás sobre os sacos úmidos. Ficou de pé num
instante e espiou para aquela escuridão dentro da escuridão, que era o interior do
Movie Palace.
Que venha o carro dos tiras, pensou ele extasiado, tenho um esconderijo para me
aquecer. E era quente de verdade, quase quente demais. O ar que saía da abertura
parecia estar preso ali há muito tempo.
Arrastou-se, passando para a escuridão sólida lá dentro, a perna doendo à beça,
com uma câimbra dos diabos. Nesse momento, a sirena virou a esquina próxima, e ele
não ouviu mais o choro de criança. Seriam os passos da lei que soavam agora na
calçada?
Virou o corpo, com dificuldade, no escuro. A perna, um peso morto, o pé parecia do
tamanho de uma melancia, e fechou a grade de passagem. A satisfação era de quem
estivesse recolhendo uma ponte levadiça, deixando o inimigo no outro lado do fosso,
sem levar em conta que podiam abrir a grade com a mesma facilidade com que ele a
havia aberto. Como uma criança, tinha certeza de que ninguém poderia encontrá-lo ali.
E, enquanto não pudesse ver seus perseguidores, eles também não poderiam vê-lo.
Não ouviu os tiras entrando no terreno baldio. Talvez estivesse enganado. Talvez
procurassem outro pobre vagabundo da rua, não ele. Fosse como fosse, havia
encontrado um lugar para descansar um pouco, e isso era ótimo.
Engraçado, o ar não parecia tão estranho ali dentro, afinal. Não era o ar de um vão
entre o teto e o telhado, ou de um sótão. A atmosfera, no esconderijo, tinha vida. Não
era ar fresco, nada disso, cheirava a algo há muito tempo confinado, mas fervilhava de
vida. Cantava nos ouvidos, arrepiava a pele como uma chuveirada fria, esgueirava-se
sorrateiro pelas narinas, depositando coisas estranhas em seu cérebro. Era como estar
dopado, ou coisa assim, uma sensação fantástica. A perna não doía mais, ou rod a
estava sendo amortecida pelas imagens que se formavam em sua mente. Estava
repleto, quase transbordante de imagens: dançarinas e casais se beijando, despedidas
em estações, casas velhas e escuras, comediantes, caubóis, aventuras no fundo do
mar — cenas que jamais viveria em um milhão de anos, mas que o afetavam agora
como experiências vivas, reais e incontestáveis. Sentia vontade de chorar nas
despedidas e, ao mesmo tempo, queria rir com os comediantes, mas precisava olhar
as dançarinas, aplaudir os caubóis.
Que lugar era aquele, afinal? Espiou através do encanto das imagens que
ameaçavam tomar conta de seus olhos. Estava num espaço com menos de um metro e
vinte de largura, mas alto, iluminado por uma luz piscante que entrava pelas rachaduras
da parede. Barbério estava estonteado demais para reconhecer a origem da luz, e o
zumbido nos seus ouvidos impedia que percebesse o sentido das vozes, do outro lado
da divisão. Eram as vozes do filme Satyricon, o segundo dos dois filmes do programa
do Movie Palace naquela noite de sábado.
Barbério não vira o filme, nunca ouvira falar de Fellini. Teria detestado (filme de
bichas, porcaria italiana). Ele preferia aventuras no fundo do mar, filmes de guerra. Oh,
e bailarinas. Qualquer coisa com bailarinas.
Estranho, estava sozinho no esconderijo, mas com a sensação de que alguém o
observava. Através do caleidoscópio de imagens que girava dentro de sua cabeça,
sentia a atenção de milhares de olhos. Não era uma sensação desagradável a ponto de
exigir uma bebida forte, mas estavam sempre ali, olhando como se ele fosse algo que
valesse a pena ser visto, rindo dele, às vezes, chorando, outras, mas a maior parte do
tempo apenas olhando com avidez.
A verdade era que, agora, nada podia fazer a respeito. Seus braços e pernas
estavam mortos. Não sentia mais as mãos, nem os pés. Não sabia, e talvez fosse
melhor para ele não saber, que seu ferimento estava aberto e sangrava copiosamente.
Mais ou menos às duas e trinta e cinco da manhã, quando o Satyricon, de Fellini,
chegou ao seu final ambíguo, Baibério morreu no espaço contido entre a parede de
trás do prédio e a parede do cinema.
O Movie Palace fora, antigamente, um Abrigo de Missão, e, se ele tivesse olhado
para cima, antes de morrer, teria visto o desajeitado afresco representando a hóstia
consagrada, escurecido pela fuligem, e talvez tivesse pensado na própria assunção.
Mas Barbério morreu vendo as dançarinas, e satisfeito com o que via.
A falsa parede, a que deixava passar a luz da parte de trás da tela, tinha como
finalidade esconder o afresco da hóstia sagrada. Acharam que seria mais respeitoso
do que eliminar para sempre a pintura dos anjos e da hóstia, e, além disso, o homem
que havia determinado as reformas, de certa forma, suspeitava que a popularidade do
cinema não iria durar muito tempo. Então, ele poderia simplesmente demolira parede e
voltaria ao negócio da adoração de Deus, em vez da adoração de Garbo.
Isso nunca aconteceu. A popularidade do cinema, embora frágil, não terminou, e os
filmes continuaram a ser passados. Tomé, o homem de pouca fé (seu nome era Harry
Cleveland) morreu, e o espaço entre as duas paredes foi esquecido. Ninguém sabia,
agora, da sua existência. Se tivesse procurado por toda a cidade, Baibério não teria
encontrado um lugar mais secreto para morrer.
Entretanto, o espaço entre as paredes, o ar contido nele, levavam uma vida própria
há cinquenta anos. Como um reservatório, tinha recebido os olhares eletrizados de
milhares de olhos, de centenas de milhares de olhos. Meio século de espectadores
vivera os filmes passados na tela do Movie Palace, transferindo suas simpatias e suas
paixões para a ilusão iluminada, a energia das suas emoções ganhando força como um
conhaque esquecido naquela passagem de ar. Mais cedo ou mais tarde, essa energia
seria descarregada. Só precisava de um catalisador.
Até chegar o câncer de Barbério.
Dois: a principal característica
Depois de esperar vinte minutos mais ou menos no pequeno saguão do Movie Palace,
a jovem com vestido estampado de vermelho- cereja e verde-limão começou a ficar
visivelmente agitada. Eram quase três da manhã, e a última sessão havia acabado há
muito tempo.
Oito meses haviam passado desde a morte de Barbério nos fundos do cinema, oito
lentos meses de pouco movimento. Porém, as sessões duplas das sextas e sábados
ainda continuavam lotadas. Nessa noite haviam exibido dois filmes de Eastwood, dois
faroestes-espaguete. Na opinião de Birdy, a moça de vestido cereja não parecia uma fã
desse tipo de filme. Não era o gênero preferido das mulheres. Talvez estivesse ali por
causa de Eastwood, mais do que pela violência, embora Birdy não visse nada de tão
espetacular nos olhos sempre semicerrados daquele ator.
— Posso ajudá-la? — perguntou Birdy.
A moça olhou para ela, nervosa.
— Estou esperando meu namorado — respondeu. — Dean.
— Você o perdeu?
— Ele foi ao banheiro no final do filme e não voltou ainda.
— Ele estava... bem... se sentindo mal?
— Oh, não — disse ela, rapidamente, protegendo o namorado da dúvida sobre sua
sobriedade.
— Vou mandar alguém procurá-lo — disse Birdy.
Era tarde, ela estava cansada, e o efeito do estimulante começava a desaparecer.
A ideia de passar mais tempo do que o necessário naquele pulgueiro não agradava
nem um pouco. Queria ir para casa, para a cama. E dormir. Apenas dormir. Com trinta
e quatro anos, concluíra que não precisava mais de sexo. A cama fora feita para
dormir, especialmente para moças gordas.
Empurrou a porta de vaivém e enfiou a cabeça para dentro do cinema. O cheiro de
cigarro, pipoca e gente a envolveu. A temperatura estava alguns graus mais alta do que
no saguão.
— Ricky?
Ricky estava fechando a saída, na outra extremidade do cinema.
— Aquele cheiro desapareceu completamente — disse ele.
— Ótimo.
Alguns meses atrás haviam começado a sentir um fedor horrível nos fundos do
cinema.
— Alguma coisa morta no terreno baldio — dissera ele.
— Pode me fazer um favor? — perguntou ela.
— O que você quer?
Caminhou para ela sobre o tapete vermelho do cinema, com o molho de chaves
chocalhando na cintura. Sua camiseta dizia Só os Jovens Morrem Bem.
— Problemas? — perguntou.
— Tem uma moça lá fora. Disse que perdeu o namorado no banheiro.
Ricky fez uma careta.
— No banheiro?
— Isso mesmo. Quer dar uma espiada? Não se importa, não é?
Ela bem que podia esquecer as gracinhas, pensou ele, com um sorriso amarelo.
Ultimamente, mal se falavam. O fato de se compartilharem emoções, com o tempo,
acaba destruindo uma boa amizade. Além disso, Birdy havia feito algumas observações
perversas sobre seus sócios, e ele tinha respondido à altura. Depois, ficaram sem se
falar por três semanas e meia. Agora estavam numa trégua constrangida, mais para
manter a sanidade do que por outra coisa. Uma trégua meticulosamente observada.
Ricky deu meia-volta, voltou pela passagem central do cinema e entrou na fila E, na
direção do banheiro, levantando as cadeiras à medida que passava por elas. Tinham
visto dias melhores, aquelas poltronas, mais ou menos na época do Mágico de Oz.
Agora, pareciam acabadas. Precisavam ser reformadas, ou talvez até mesmo
substituídas. Só na fila E havia quatro com os assentos completamente rasgados.
Agora Ricky descobrira a quinta, mutilada naquela noite. Algum garoto, ou garota,
chateado com o filme e drogado demais para sair do cinema. Tempos atrás ele
também fazia isso, certo de estar desferindo um golpe contra os capitalistas donos dos
cinemas. Tempos atrás ele fazia uma porção de bobagens.
Birdy o viu entrar no banheiro dos homens. Ele vai adorar, pensou ela, com um
sorriso malicioso, esse é exatamente o seu passatempo preferido. E pensar que ela
estivera apaixonada por ele nos velhos tempos (há seis meses), quando homens
magérrimos, com nariz de Jimmy Durante e conhecimento enciclopédico de todos os
filmes de Niro, eram seu tipo. Agora ela o via como realmente era, restos do naufrágio
do navio da esperança. Ainda um viciado em drogas, ainda um bissexual teórico, ainda
fã dos filmes de Polanski e do pacifismo simbólico. Afinal, que droga Ricky tinha entre
as orelhas? A mesma que havia entre as dela naquele tempo pensou Birdy, quando
achava que aquele vagabundo era sexy.
Birdy esperou alguns segundos, com os olhos na porta do banheiro. Ricky não
reapareceu. Ela voltou ao saguão por um momento, para ver como estava a moça.
Fumava como uma atriz amadora que não conseguia pegar o jeito certo, encostada na
grade, e levantara um pouco a saia para coçar a perna.
— Meia-calça — disse ela.
— O gerente foi procurar Dean.
—Obrigada—disse, continuando a se coçar. — Sou alérgica a essas meias, fico
com a pele toda empolada.
Birdy viu as manchas que enfeavam as pernas bonitas da moça.
— É porque estou com calor e nervosa — tentou explicar. — Sempre que fico com
calor e nervosa, aparece essa alergia.
— Oh.
— Provavelmente, Dean fugiu, sabe, quando eu não estava olhando. Ele seria bem
capaz disso. Não dá a menor pe... Não liga a mínima.
Birdy percebeu que ela estava chorando, o que seria uma chateação. Não era muito
boa com lágrimas. Discussões aos berros, até agressão física, tudo bem. Lágrimas,
não.—
Tudo vai dar certo—foi o que conseguiu dizer para evitar as lágrimas.
— Não, não vai — disse a garota. — Não vai dar nada certo porque ele é um filho da
mãe. Trata todo mundo como lixo. — Apagou cuidadosamente o cigarro com a ponta
fina do sapato cereja, até desaparecer a última fagulha.
—Os homens não se importam, não é mesmo?—Olhou para Birdy com uma
sinceridade de derreter o coração.
Sob a maquilagem bem aplicada, não devia ter mais de dezessete anos. O rimei
estava um pouco escorrido, e havia arcos escuros de cansaço sob seus olhos.
— Não — respondeu Birdy, com toda a sua dolorosa experiência. — Não, eles não
se importam.
Birdy pensou que jamais fora atraente como aquela ninfeta cansada. Seus olhos
eram pequenos demais, e seus braços muito gordos. (Seja sincera, garota, você é toda
gorda.) Mas os braços eram o que tinha de pior, estava certa disso. Havia homens que
gostavam de seios grandes, traseiros grandes, mas nenhum gostava de braços gordos.
Sempre queriam poder segurar o pulso da namorada entre o polegar e o indicador,
como um método primitivo de medir o relacionamento. Mas seus pulsos, para ser
brutalmente sincera, eram praticamente invisíveis. Os antebraços gordos saíam
diretamente das mãos, seguidos pelos braços também gordos. Os homens não podiam
segurar seus pulsos entre dois dedos porque Birdy não tinha pulsos, e isso os afastava
dela. Bem, esse era um dos motivos. Ela era também muito inteligente, uma
desvantagem para conquistar os homens. Mas, entre os motivos pelos quais não tinha
sucesso no amor, Birdy optava pelos braços gordos.
Mas aquela jovem tinha braços de dançarina balinesa, com pulsos finos e frágeis
como vidro.
Na verdade, revoltante. Provavelmente a garota nem sabia conversar. Meu Deus,
aquela menina tinha todas as vantagens.
— Como se chama? — perguntou.
— Lindi Lee — respondeu a jovem. Só podia ser.
Ricky pensou que se havia enganado. Aquilo não podia ser o banheiro.
Estava parado no meio da rua principal de uma cidade antiga no faroeste, que vira
uma centena de vezes no cinema. Uma tempestade de areia assolava o lugar,
obrigando-o a semicerrar os olhos. Através do torvelinho do ar cinza-amarelado, tinha a
impressão de distinguir o Armazém Geral, o escritório do xerife e o bar, no lugar dos
cubículos do banheiro. Rolos de amaranto seco passavam por ele, levados pelo vento.
O chão era de areia socada, sem sinal de azulejos. Nada que lembrasse um banheiro
de cinema.
Ricky olhou para a direita. Onde devia estar à parede do banheiro, a rua continuava,
em perspectiva forçada, numa distância pintada. Era tudo mentira, sem dúvida, tudo
aquilo era mentira. Se procurasse concentrar-se, descobriria como haviam conseguido
aquela miragem. As projeções, os efeitos de luz, os panos de fundo, as miniaturas,
todos os truques do cinema. Mas, mesmo com o máximo de concentração que permitia
a sensação de irrealidade, não conseguia encaixar os dedos sob o manto da ilusão
para tirá-lo daquele lugar.
O vento continuava, o amaranto rolava. Em algum lugar, no meio da tempestade,
uma porta abria e fechava, batendo com força. Sentia até o cheiro de estrume de
cavalo. Era tudo tão perfeito que Ricky mal podia respirar de tanta admiração.
Quem quer que tivesse criado aquele efeito já havia obtido a impressão desejada.
Estava na hora de acabar com a brincadeira.
Ricky voltou-se para a porta do banheiro. Havia desaparecido. Uma parede de
poeira a substituía e, de repente, ele estava perdido e sozinho.
A porta do celeiro continuava a bater com o vento. Vozes se cruzavam no meio de
uma tempestade cada vez mais forte. Onde estavam o bar e o escritório do xerife?
Cobertos também pela poeira. Ricky teve uma sensação que não experimentava desde
criança. O pânico de perder a mão do seu guardião. Nesse caso, o progenitor perdido
era a sua sanidade.
Ouviu um tiro à sua esquerda, nas profundezas da tempestade, alguma coisa zumbiu
no seu ouvido, sentiu uma dor aguda e levou a mão ao ferimento. O brinco que usava
tinha desaparecido, e seus dedos estavam cheios de sangue, sangue de verdade.
Alguém acabara de errar por pouco a sua cabeça ou estava fazendo uma brincadeira
de péssimo gosto.
— Ei, cara — disse Ricky, dentro daquele maldito cenário de ficção, girando o corpo
para ver se conseguia localizar o agressor. Não viu ninguém. Estava completamente
envolto pela poeira. Não podia ir para trás, nem para a frente, sem se arriscar. O
atirador podia estar muito perto, esperando que ele andasse em sua direção.
— Não gosto disto — disse em voz alta, esperando que, de algum modo, o mundo
real o ouvisse e entrasse em cena para salvar sua mente em frangalhos. Procurou um
comprimido nos bolsos da calça, qualquer coisa para melhorar sua situação, mas não
tinha nenhum estimulante instantâneo, nem um simples Valium no fundo do bolso.
Sentiu-se nu. Que hora errada para se perder dentro de um pesadelo de Zane Grey.
Outro tiro, dessa vez sem o assobio da bala. Ricky sabia que isso significava que
fora atingido, mas não podia ter certeza, porque não havia dor nem sangue.
Então ouviu a batida inconfundível das folhas de vaivém da porta do bar e o gemido
de outro ser humano muito perto. Por um momento abriu-se uma brecha na
tempestade. Será que estava vendo a porta do bar e um homem jovem cambaleando
para fora, deixando atrás dele um mundo pintado de mesas, espelhos e pistoleiros?
Antes que pudesse firmar a vista, a brecha foi fechada com areia, e Ricky duvidou de
que tivesse visto alguma coisa. Então, chocado, olhou para o jovem a poucos
centímetros de onde estava, com os lábios azuis da morte, caindo para frente, nos
braços de Ricky. A jaqueta de couro era uma cópia perfeita das que estavam em moda
nos anos cinquenta, a camiseta tinha o rosto sorridente de Mickey Mouse.
O sangue escorria do olho esquerdo de Mickey. A bala tinha aceitado o coração do
homem.
Com seu último suspiro, ele perguntou:
— Que porra está acontecendo? — e morreu.
No que se referia às últimas palavras, sem dúvida, elas não tinham estilo, mas eram
carregadas de sentimento. Ricky olhou para o rosto imóvel do homem, mas o peso era
demais e ele o deixou cair. Quando o corpo tocou o solo, a areia pareceu transformarse
em azulejos manchados de urina, e a poeira rodopiou; ele estava de pé bem na rua
principal de Deadwood Gulch, com um homem morto aos seus pés.
Ricky sentiu algo parecido com a angústia provocada pela privação de drogas na
cura de um viciado. Seus membros agitaram-se numa dança de São Vito, e sentiu
vontade urgente de urinar. Mais alguns segundos e ia urinar na calça.
Em algum lugar, pensou, em algum lugar deste mundo louco existe um mictório.
Existe uma parede coberta de grafite, com números para os viciados em sexo, com
"Isto não é um abrigo antiatômica', rabiscado nos azulejos, e uma porção de desenhos
obscenos. Existem lavatórios e caixas vazias de toalhas de papel e assentos
quebrados de privada. Há o cheiro repulsivo de mijo e peidos velhos. "Encontre! Em
nome de Deus, encontre a coisa real, antes que a ficção provoque algum dano
permanente".
Se, só por hipótese, o bar e o armazém são as cabines das privadas, então o
mictório deve estar atrás de mim, pensou ele. "Dê um passo para trás. Não pode ser
mais perigoso do que ficar aqui parado no meio da rua com alguém dando tiros em
você".
Dois passos, dois passos cautelosos, e encontrou apenas ar. Mas, no terceiro —
bem, o que temos aqui? —, sua mão tocou a superfície fria do azulejo.
— Viva! — exclamou ele. Era o mictório, e tocar nele era como encontrar ouro numa
lata de lixo. Não estava sentindo o cheiro de desinfetante que vinha das privadas? Claro
que estava.
Gritando ainda de alegria, abriu o zíper e começou a aliviar a dor na bexiga, com a
pressa molhando os pés com urina. Que diabo, tinha dominado a ilusão. Se se voltasse
agora, na certa a fantasia teria desaparecido. O bar, o jovem morto, a tempestade,
tudo. Fora uma espécie de ressaca química, droga de má qualidade ainda no seu
organismo, fazendo brincadeiras de mau gosto com a sua imaginação. Sacudiu as
últimas gotas na calça jeans e ouviu a voz do herói do filme.
— O que pensa que está fazendo, mijando na minha rua, garoto?
Era a voz de John Wayne, perfeita até a última sílaba, e estava bem atrás dele.
Ricky não podia nem pensar em se virar. O cara, na certa, estouraria seus miolos. A
voz deixava isso muito claro, avisando com aquele tranquilo tom de ameaça: "Estou
pronto para sacar, portanto, defenda-se da melhor maneira possível." O caubói estava
armado, e tudo que Ricky tinha nas mãos era seu pênis, longe de poder competir com
um revólver, mesmo se estivesse ereto.
Cautelosamente, guardou sua arma, fechou o zíper e ergueu as mãos. Na frente
dele, a imagem trêmula do banheiro desapareceu. A tempestade rugia, o sangue
escorria de sua orelha para o pescoço.
— Muito bem, garoto, quero que tire esses cinturão com a arma e o jogue no chão.
Está ouvindo? — disse Wayne.
— Estou.
— Devagar e com cuidado, e deixe as mãos onde eu possa vê-las.
Puxa, o cara estava mesmo convencido do seu papel.
Devagar e com cuidado, como o homem disse, Ricky desafivelou o cinto, puxou-o
para fora das calças jeans e o jogou no chão. Pediu a Deus que as chaves tilintassem
ao tocar o solo. Mas não teve essa sorte. Ouviu apenas o som metálico e surdo de
metal contra a areia batida.
— Muito bem — disse Wayne. — Agora está começando a se comportar direito. O
que tem a dizer em sua defesa?
— Desculpe? — disse Ricky, hesitante.
— Desculpar?
— Por mijar na rua.
— Não me parece que pedir desculpas seja penitência suficiente — disse Wayne.
— Mas eu sinto muito mesmo. Foi tudo um engano.
— Temos tido estranhos demais por estes lados. Encontrei aquele garoto com as
calças abaixadas até os joelhos, defecando no meio do bar. Para mim isso é muita
grosseria! Afinal, onde vocês, seus filhos da puta, foram educados? É isso que estão
ensinando nas escolas elegantes do Leste?
— Nunca vou poder me desculpar suficientemente.
— Tem razão, não pode — disse Wayne, com sua voz arrastada. — Estava com o
garoto?
— De certo modo, sim.
— Que conversa mole é essa? — Encostou a arma nas costas de Ricky. Parecia
muito real. — Estava com ele ou não?
— Só quis dizer...
— Você não quer dizer nada neste território, cara, acredite em mim.
Destravou a arma.
— Por que não se vira, filho, e deixa a gente ver do que é feito?
Ricky conhecia a cena. O homem dava meia-volta, procurava apanhar uma arma
escondida, e Wayne o matava. Sem nenhuma discussão, sem tempo para debater a
ética da coisa, uma bala fazendo trabalho melhor do que qualquer palavra.
— Vire-se, eu disse.
Lentamente, Ricky voltou-se para encarar o sobrevivente de milhares de tiroteios, e
ali estava o homem, ou melhor, uma brilhante imitação dele. Um Wayne na sua melhor
fase, antes de engordar e ficar doente. Um Wayne do Rio Grande, coberto de poeira
da longa viagem e com os olhos semicerrados por uma vida inteira perscrutando os
horizontes. Os filmes de faroeste não eram os preferidos de Ricky. Detestava todo
aquele machismo forçado, a glorificação do heroísmo barato e sujo. Sua geração havia
colocado flores nos canos dos rifles, e para ele isso sempre parecera a coisa certa. Na
verdade, fazia-o até hoje.
Foda-se, se aquele ator, fosse quem fosse, ia mesmo atirar nele; não iria perder
nada dando um murro na cara do filho da mãe. O pensamento transformou-se em
ação. Ricky fechou os punhos, levou o braço para trás, para a frente e deu um soco no
queixo de Wayne. O ator era mais lento do que sua imagem na tela. Ele não se desviou
do golpe, e Ricky aproveitou a oportunidade para fazer saltar a arma da mão dele.
Continuou com uma sequência de socos no corpo do homem, como vira no cinema.
Uma demonstração espetacular.
O homem, muito maior do que ele cambaleou, sua espora enroscou-se no cabelo do
garoto morto, ele perdeu o equilíbrio e caiu no chão de terra, vencido.
O filho da mãe estava no chão! Ricky sentiu uma satisfação jamais vivenciada antes,
o prazer supremo do triunfo físico. Meu
Deus! Tinha derrubado o maior caubói do mundo. Sua faculdade crítica foi obscurecida
pela vitória.
A tempestade de areia ficou mais forte. Wayne estava ainda no chão, cheio de
sangue que saía do nariz quebrado e do lábio cortado. A areia começava a obscurecer
sua imagem, como uma cortina cobrindo a vergonha da derrota.
— Levante-se — ordenou Ricky, tentando tirar proveito da situação, antes de ser
tarde demais.
Wayne deu um largo sorriso enquanto a tempestade o cobria.
— Muito bem, garoto — disse com ar malicioso, passando a mão no queixo —, ainda
faremos de você um homem...
Então a areia rodopiante apagou a imagem e, por um momento, alguma coisa tomou
seu lugar, uma forma que Ricky não podia descrever. Era e não era Wayne e entrou
em rápida deterioração, transformando-se em algo não humano.
A poeira áspera bombardeava violentamente, invadindo olhos e orelhas. Ricky
afastou-se cambaleante, tossindo, e miraculosamente encontrou uma parede, uma
porta, e, antes que percebesse o que era, ou onde estava, a tempestade uivante o
atirou no meio do silêncio do Movie Palace.
Lá, embora tivesse prometido a si mesmo ser valente, desde quando começara a
ter barba, soltou um grito fraco, que não teria envergonhado Fay Wray, e desmaiou.
No saguão, Lindi Lee dizia a Birdy por que não tinha gostado muito do filme.
— Quero dizer, Dean gosta de filmes de caubói. Mas eu, na verdade, não gosto.
Acho que não devia dizer isso para você...
— Não, tudo bem.
— mas quero dizer, você deve gostar muito de cinema, eu acho, porque trabalha
aqui.
— Gosto de alguns filmes. Não de todos.
— Oh. — Parecia surpresa. Parecia sempre surpresa com alguma coisa. — Gosto
de filmes sobre a vida selvagem, sabe?
— Sei...
— Você sabe? Animais... e essas coisas.
— Sei... — Birdy se lembrou de sua avaliação de Lindi Lee, de que não devia ter
muito que conversar. Acertou logo de cara.
— Por que será que estão demorando? — disse Lindi.
A vida inteira que Ricky passara na tempestade de areia não tinha durado mais de
dois minutos no tempo real. Mas, afinal, nos filmes o tempo era elástico.
— Vou ver — disse Birdy.
— Provavelmente, ele foi embora e me deixou aqui — disse Lindi outra vez.
— Vamos descobrir.
— Obrigada.
— Não se preocupe — disse Birdy, pousando a mão de leve no braço da moça,
quando passou por ela. — Tenho certeza de que tudo está bem.
Birdy passou pela porta de vaivém e desapareceu dentro do cinema, deixando Lindi
sozinha no saguão. Lindi suspirou. Dean não era o primeiro namorado que fugia desse
modo, só porque ela não estava disposta a dar o que eles queriam. Lindi tinha ideias
próprias sobre quando e como se entregar completamente a alguém. Não havia
chegado a hora, e Dean não era o homem certo. Ele era muito escorregadio, muito
instável, e seu cabelo cheirava a óleo diesel. Se tinha fugido, Lindi não iria chorar por
isso. Como dizia sua mãe, tem muito mais peixe no mar.
Olhava o cartaz da próxima atração quando ouviu um baque surdo atrás dela, e lá
estava um coelho malhado, uma coisinha fofa e sonolenta, sentada no meio do saguão,
olhando para ela.
— Oi — disse Lindi para o coelho.
O animalzinho se lambeu encantadoramente.
Lindi Lee adorava animais. Gostava dos filmes de Aventuras da Vida Real, em que
animais eram mostrados no seu habitat com fundo musical de Rossini e escorpiões
executavam a dança do amor, e todos os filhotes de urso eram chamados
carinhosamente de pequenos tratantes. Simplesmente adorava esses filmes. Mas
gostava especialmente de coelhos.
O coelho deu dois pulos na direção dela. Lindi ajoelhou para acariciá-lo. O bichinho
era morno e tinha olhos redondos e rosados. Passou por ela e subiu a escada.
— Acho que você não deve subir aí — disse ela.
Para começar, estava escuro no topo da escada. Depois, tinha um aviso dizendo
"Privativo. Só pessoal da casa" pregado na parede. Mas o coelho parecia decidido e
subiu bem na frente dela.
Lá em cima estava escuro como breu, e o coelho havia desaparecido.
Outra coisa, com olhos que brilhavam no escuro, estava sentada no lugar do coelho.
Com Lindi Lee, as ilusões podiam ser muito simples. Não era preciso seduzi-la para
uma ficção completa, como o garoto. Lindi já estava sonhando. Presa fácil.
— Como vai? — disse Lindi, um pouco assustada com aquela presença. Apertou os
olhos tentando distinguir, no escuro, alguma forma, uma cabeça. Mas não havia nada.
Nem o som de respiração.
Recuou, descendo um degrau, mas a coisa avançou para ela de repente e a
apanhou antes que caísse, fazendo-a silenciar rápida e intimamente.
Esta não devia ter muito sentimento para ser roubado, mas havia outra coisa nela. O
corpo macio ainda estava em formação. Os orifícios não conheciam invasões. A coisa
carregou Lindi para
cima e a guardou para futura investigação.
— Ricky? Oh, meu Deus, Ricky!
Birdy ajoelhou ao lado do corpo de Ricky e o sacudiu. Pelo menos ele ainda
respirava e, embora à primeira vista desse a impressão de estar coberto de sangue, na
verdade, o ferimento não passava de um raspão na orelha.
Ela o sacudiu outra vez, com mais força, sem nenhuma reação. Depois de procurar
nervosamente, encontrou o pulso. Estava forte e regular. Obviamente fora atacado por
alguém, provavelmente pelo namorado desaparecido de Lindi Lee. Nesse caso, onde
estava ele? No banheiro ainda, talvez, armado e perigoso. De jeito nenhum ela iria
entrar lá e cair na armadilha mais velha do mundo. Mulher em Perigo: enredo-padrão. A
sala escura, o animal de tocaia. Muito bem, em vez de entrar de cara naquele cenário,
ia fazer o que sempre aconselhava, em silêncio, às heroínas dos filmes desse tipo:
esqueça a curiosidade e chame os tiras.
Deixou Ricky ali deitado e voltou para o saguão.
Estava vazio. Lindi Lee tinha desistido do namorado, ou havia encontrado outra
pessoa na rua para levá-la para casa. Fosse como fosse, Birdy fechou a porta da
frente, deixando um leve perfume de talco infantil lá dentro. Tudo bem, isso facilitava as
coisas, pensou ela, entrando na bilheteria para chamar a polícia. Estava feliz porque a
garota, ajuizadamente, havia desistido daquele namorado.
Apanhou o fone e imediatamente alguém falou.
— Alô — disse a voz fanhosa e desagradável. — Não acha que é um pouco tarde da
noite para usar o telefone?
Não era uma telefonista, Birdy tinha certeza. Ainda não havia discado nenhum
número.
Além disso, parecia a voz de Peter Lorre.
— Quem está falando?
— Não me reconhece?
— Quero falar com a polícia.
— Gostaria de lhe prestar esse favor, gostaria muito.
— Quer sair da linha? É uma emergência! Preciso falar com a polícia.
—Já ouvi da primeira vez — continuou a voz fanhosa.
— Quem é você?
—Já disse.
— Tem alguém ferido lá dentro. Quer, por favor...
— Pobre Ricky.
Ele sabia o nome. Pobre Ricky, ele dissera, como se fosse um grande amigo.
Birdy sentiu o suor brotar de sua testa e sair pelos poros. Ele sabia o nome de
Ricky.
— Pobre, pobre Ricky — repetiu a voz. — Mas estou certo de que teremos um final
feliz. Você não acha?
— É uma questão de vida ou morte — insistiu Birdy, certa de que estava com a voz
perfeitamente firme.
— Eu sei — disse Lorre. — Não é formidável?
— Vá para o inferno! Saia desse telefone! Senão eu...
— Senão você vai fazer o quê? O que uma garota gorda como você pode fazer
numa situação destas, a não ser dizer bobagens?
— Foda-se, seu monstro.
— O prazer é todo meu.
— Eu o conheço?
— Sim e não — a voz começava a ficar hesitante.
— Você é amigo de Ricky, certo?
Um dos viciados com quem ele andava. Que brincadeira mais idiota.
— Tudo bem, já fizeram sua brincadeira cretina — disse ela. — Agora saia da linha
antes de causar algum problema sério.
— Você está nervosa — disse a voz, mais suave agora. — Eu compreendo...—o tom
mudava como numa mágica, subindo uma oitava. — Você está tentando ajudar o
homem que ama... — era uma voz feminina agora, com outra cadência, a pronúncia
deslizante, quase um ronronar. E, de repente, era Garbo.
— Pobre Richard — disse ela para Birdy. — Ele se esforçou tanto, não foi mesmo?
(Estava mansa como um cordeiro.)
Birdy ficou paralisada. A imitação era perfeita, como a de Lorre, tão feminina quanto
à outra era masculina.
— Tudo bem, estou impressionada — disse Birdy. — Agora, deixe-me falar com os
tiras.
— Não acha que a noite está linda para um passeio, Birdy? Só nós duas.
— Você sabe meu nome.
— É claro que sei. Somos muito íntimas.
— O que quer dizer com muito íntimas
A resposta foi uma risada rouca, a bela risada de Garbo.
Birdy não aguentava mais. O truque era perfeito. Sentia que estava sucumbindo à
representação, como se estivesse falando com a própria estrela do cinema.
— Não — disse ela, ao telefone. — Você não me convence, está ouvindo? — Então
perdeu o controle e gritou: — Você é uma mentira! — O fone estremeceu com a força
de sua voz e ela desligou violentamente. Abriu a porta da cabine e saiu. Lindi Lee não
havia apenas batido à porta quando deixara o cinema. Estava trancada por dentro com
o cadeado.
— Droga — disse Birdy em voz baixa.
De repente, o saguão pareceu diminuir, bem como sua reserva de calma.
Mentalmente, Birdy esbofeteou o próprio rosto, o método-padrão para uma heroína
dominada pela histeria. Pense com calma, disse para si mesma. Primeiro: a porta
estava trancada. Lindi não podia ter feito isso, nem Ricky, e ela, Birdy, sem dúvida,
também não. Estava trancada por dentro com o cadeado. O que significava...
Segundo: havia um maluco ali dentro. Talvez o mesmo, a mesma, do telefone. O que
significava...
Terceiro: ele, ela ou a coisa devia ter acesso a outro telefone no prédio. O único que
ela conhecia ficava lá em cima, no depósito.
Mas Birdy, de jeito nenhum, pretendia subir lá. Para saber os motivos, veja Heroína em
Perigo. O que significava...
Quarto: tinha de abrir a porta com as chaves de Ricky.
Entrou outra vez no cinema. As luzes estavam piscando, ou era o pânico afetando
seu nervo ótico? Não, estavam piscando um pouco. Todo o interior do cinema parecia
pulsar, como se estivesse respirando.
Ignore isso. Apanhe as chaves.
Correu pela passagem central, consciente, como sempre que corria, de que seus
seios e seu traseiro balançavam numa dança louca. Belo espetáculo para quem quer
que esteja olhando. Ricky gemia, desmaiado ainda. Birdy procurou as chaves, mas o
cinto dele havia desaparecido.
— Ricky... — disse ela, bem perto do rosto dele. Os gemidos aumentaram.
— Ricky, está me ouvindo? É Birdy, Ricky, Birdy.
— Birdy?
— Estamos trancados aqui, Ricky. Onde estão as chaves?
— ...chaves?
— Seu cinto desapareceu, Ricky — falou devagar, como se ele fosse um idiota. —
Onde-estão-suas-chaves?
O quebra-cabeças que Ricky tentava armar, de repente, se resolveu, e ele sentouse.
— O garoto! — ele disse.
— Que garoto?
— No banheiro. Morto no banheiro.
— Morto? Oh, Cristo. Morto? Tem certeza?
Ricky estava numa espécie de transe. Não olhava para ela, mas para algum ponto
além de Birdy, vendo alguma coisa que ela não via.
—Onde estão as chaves?—perguntou ela outra vez.—Ricky. É importante.
Concentre-se.
— Chaves?
— Teve vontade de esbofeteá-lo, mas seria sadismo bater naquele rosto cheio de
sangue.
— No chão — disse ele, depois de algum tempo.
— No banheiro? No chão do banheiro?
Ricky fez um gesto afirmativo. O movimento certamente reviveu pensamentos
terríveis, e, de repente, ele pareceu prestes a chorar.
— Tudo vai dar certo — disse Birdy.
Ricky ergueu as mãos e começou a apalpar o próprio rosto, como num ritual, para
certificar-se de alguma coisa.
— Eu estou aqui? — perguntou em voz baixa.
— Birdy não ouviu. Estava tomando coragem para entrar no banheiro. Tinha de
entrar, isso era óbvio, tivesse ou não um homem morto lá dentro. Entrar, apanhar as
chaves, sair. Faça isso agora.
Passou pela porta. Nesse momento, lembrou que era a primeira vez que entrava no
banheiro dos homens e, sinceramente, desejou que fosse a última.
O banheiro estava quase completamente às escuras. As luzes piscavam
sinistramente, como no cinema, mas um pouco menos intensas. Parou na porta para
acomodar a vista e olhou em volta.
O banheiro estava vazio. Nenhum garoto no chão, nem vivo, nem morto.
Mas as chaves estavam lá. O cinto de Ricky estava dentro de um dos mictórios.
Birdy o pescou do fundo, o cheiro do desinfetante irritando suas narinas. Tirou a argola
do cinto e saiu do banheiro para o ar relativamente mais limpo do cinema. E estava
tudo acabado, simplesmente acabado.
Ricky, esparramado numa poltrona, parecia mais doente e mais desanimado do que
nunca. Ergueu os olhos quando Birdy saiu do banheiro.
— Encontrei as chaves — disse ela.
Ele grunhiu. Meu Deus, Ricky parece muito mal, pensou ela.
Parte da simpatia por ele se havia evaporado. Obviamente, ele estava tendo
alucinações, e, sem dúvida, de origem química. Tudo culpa dele.
— Não tem nenhum garoto lá dentro, Ricky.
— O quê?
— Não tem ninguém no banheiro, ninguém. Afinal, o que foi que você tomou?
Ricky olhou para as mãos trêmulas.
— Não tomei nada. Verdade.
— Coisa mais idiota — disse Birdy.
De algum modo, estava convencida de que ele havia feito tudo aquilo para assustála,
mas, na verdade, brincadeiras de mau gosto não eram o estilo dele. A seu modo,
Ricky era um puritano. Esse sempre fora um de seus atrativos.
— Você precisa de um médico?
Ele balançou a cabeça, sombriamente.
— Tem certeza?
—Já disse que não — respondeu, irritado.
— Tudo bem, eu ofereci.
Birdy caminhou pela passagem, resmungando. Na porta do saguão, parou e disse
em voz alta:
— Acho que temos um intruso. Havia alguém na extensão do telefone. Quer ficar
vigiando na frente enquanto vou chamar um tira?
—Já vou.
Sentado no cinema, com a luz bruxuleante, Ricky examinou a própria sanidade. Se
Birdy dissera que o garoto não estava lá, então provavelmente era verdade. O melhor
modo de saber era ver por ele mesmo. Assim, poderia ter certeza de que havia sofrido
uma pequena crise de realidade, devido a alguma droga de segunda classe, e poderia
voltar para casa, dormir e acordar no dia seguinte perfeitamente curado. Acontece que
não queria entrar naquele banheiro fedido. E se estivesse errado e ela estivesse tendo
uma crise? Não existia essa coisa de alucinações de normalidade?
Trêmulo, levantou-se, foi até o banheiro e empurrou a porta. Estava escuro lá
dentro, mas dava para ver que não havia nenhuma tempestade de neve, nenhum garoto
morto, nenhum caubói empunhando armas, sequer uma única bola de amaranto sendo
levada pelo vento. Minha cabeça é mesmo uma coisa!, pensou ele. Criar um mundo
alternativo com aquela sinistra perfeição. Um truque maravilhoso. Uma pena que só
tivesse sido usado para deixá-lo morto de medo. Você perde um pouco, você ganha um
pouco.
Então ele viu o sangue. Nos azulejos. Uma mancha de sangue que não tinha saído
de sua orelha, era grande demais para isso. Ha! Não havia imaginado tudo. Havia
sangue, marcas de sapatos, todos os sinais de que realmente tinha visto o que
pensava ter visto. Mas, Jesus, o que era melhor? Ver ou não ver? Não seria melhor
estar errado e um pouco dopado do que estar certo e nas mãos de uma força que
podia mudar literalmente o mundo?
Ricky acompanhou com os olhos a trilha de sangue até a cabine à sua esquerda. A
porta estava fechada. Antes estava aberta. O assassino, fosse quem fosse, havia
deixado o garoto ali dentro. Ricky sabia disso, sem precisar verificar.
— Muito bem — disse ele — agora te peguei.
Empurrou a porta. Lá estava o garoto, sentado no vaso, as pernas abertas, os
braços pendentes.
Haviam arrancado os olhos dele. Não meticulosamente, não com a técnica de um
cirurgião, mas puxando, deixando as marcas da violência no rosto do garoto.
Ricky tampou a boca com a mão e disse a si mesmo que não iria vomitar. Seu
estômago deu uma virada, mas obedeceu, e ele correu para a porta do banheiro como
se, a qualquer momento, o garoto fosse levantar-se e exigir a devolução do dinheiro da
entrada.
— Birdy... Birdy...
A cadela gorda estava errada, completamente errada. Havia morte ali dentro, e
coisa muito pior.
Ricky lançou-se para dentro do cinema.
As luzes nas paredes dançavam lentamente atrás dos lustres Deco, bruxuleando
como velas prestes a se apagar. Ficar no escuro agora seria demais, na certa ele
enlouqueceria.
Havia algo de familiar naquele pisca-pisca das luzes, alguma coisa que não
conseguia lembrar. Ficou ali de pé por um momento, desamparado, perdido.
Então ouviu a voz e, embora tivesse quase certeza de que era a morte quem falava,
ergueu os olhos.
—Como vai, Ricky?—dizia ela, caminhando em sua direção, pela fila E. Não era
Birdy. Não, Birdy jamais usaria um vestido de gaze, diáfano, jamais tivera lábios
grossos e sensuais, nem cabelos tão finos, ou olhos tão suavemente cheios de
promessas. Era Monroe quem caminhava para ele, a rosa destruída da América.
— Não vai me dizer alô? — perguntou ela, numa censura terna.
— ...bem...
— Ricky. Ricky. Ricky. Há quanto tempo!...
Tanto tempo? Do que ela estava falando, tanto tempo?
— Quem é você?
Ela respondeu com um sorriso radiante.
— Como se você não soubesse.
— Você não é Marilyn. Marilyn está morta.
— Ninguém morre nos filmes, Ricky. Sabe disso tão bem quanto eu. A gente sempre
pode rolar o celuloide outra vez...
.. .era isso. As luzes piscando, a passagem do celuloide pela frente do projetor, uma
imagem quente no próximo, a ilusão de vida criada a partir de uma sequência perfeita
de pequenas mortes.
...e lá estamos, falando, cantando. — Seu riso era como gelo tilintando num copo.
Nunca erramos uma fala, nunca envelhecemos, nunca perdemos uma deixa...
— Você não é real — disse Ricky.
A observação aparentemente a aborreceu, como se Ricky estivesse sendo pedante.
Agora ela estava a menos de um metro dele. A essa distância, a ilusão era mais
maravilhosa e mais completa do que nunca. De repente, Ricky sentiu vontade de
possuí-la, ali mesmo no cinema. E se fosse de mentira? Ora, era perfeitamente
possível trepar com uma ficção, quando não se pensa em casamento.
— Quero você — disse ele, surpreso com a própria ousadia.
— E eu quero você— respondeu ela, o que o surpreendeu mais ainda. — Na
verdade, preciso de você. Estou muito fraca.
— Fraca?
— Não é fácil ser o centro das atenções. Precisamos delas cada vez mais.
Precisamos que as pessoas olhem para nós. A noite toda, o dia todo.
— Estou olhando.
— Sou bonita?
— Você é uma deusa, seja lá quem for.
— Sou toda sua, isso é que sou.
Uma resposta perfeita. Ela se definia por meio dele. Sou uma função da sua pessoa,
feita por você, para você. A fantasia perfeita.
— Continue olhando para mim, para sempre, Ricky. Preciso de seu olhar amoroso.
Não posso viver sem ele.
Quanto mais ele olhava, mais a imagem se definia. As luzes quase não piscavam
agora. Tudo parecia mergulhado numa imensa paz.
— Você quer me tocar?
Ricky pensou que ela jamais iria perguntar isso.
— Quero — respondeu.
— Ótimo. — Ela sorriu, convidativa, e ele estendeu o braço para o contato.
Com suave elegância, no último momento, ela evitou os dedos dele e correu, rindo,
na direção da tela. Ricky foi atrás. Ela queria brincar, estava ótimo para ele.
Chegaram a um canto sem salda. Não era possível sair do cinema por aquele lado,
e, a julgar pelos gestos encorajadores, ela sabia disso. Voltou-se para ele, encostada
na parede, com as pernas um pouco separadas.
Ricky estava a uns dois metros quando uma brisa, saída de lugar nenhum, levantou
a saia dela até a cintura. A mulher riu, semicerrando os olhos, enquanto a saia subia
rodopiando, expondo metade do corpo completamente despido.
Ricky estendeu o braço novamente, e, dessa vez, ela não o evitou. O vestido subiu
um pouco mais, e ele olhou, estatelado, para a parte de Marilyn que jamais havia visto,
o triângulo coberto de pelos que fora o sonho de milhões.
Estava manchado de sangue. Não muito, apenas marcas vermelhas de dedos no
interior das coxas. A maciez perfeita da pele maculada com sangue. Ele continuou
olhando, os lábios abriram-se um pouco com o movimento do corpo, e ele percebeu
que o brilho úmido que via não era fluido do corpo dela, mas uma coisa completamente
diferente. Com o movimento dos músculos, os olhos injetados, mergulhados naquele
corpo, fixaram-se nele.
Pela expressão de Ricky, ela percebeu que não havia escondido bem aqueles olhos,
mas onde uma mulher, com a nudez coberta por um tênue véu, podia esconder os
frutos do seu trabalho?
— Você o matou — disse Ricky, sem desviar os olhos dos lábios e dos olhos que
espiavam entre eles. Era uma imagem tão fascinante, tão perfeita que quase anulava o
horror que sentia. Numa reação pervertida, a repulsa alimentava seu desejo, ao invés
de matá-lo. O que importava se ela era uma assassina? Marilyn era uma lenda.
— Quero que me ame — disse ela. — Que me ame para sempre.
Ricky aproximou-se, certo agora de que caminhava para a morte. Mas a morte era
relativa, não era? O corpo de Marilyn estava morto, mas vivo naquele instante, fosse na
sua mente, fosse na matriz sussurrante do ar, ou em ambas, e ele podia ficar com ela.
Abraçaram-se. Beijaram-se. Era fácil. Os lábios dela eram mais macios do que
Ricky havia imaginado, e seu desejo era tanto que sentia quase que uma dor entre as
pernas.
Os braços esguios como galhos rodearam sua cintura, e ele mergulhou no seio da
luxúria.
—Você me dá forças — disse ela — olhando para mim como você olha. Preciso que
olhem para mim, do contrário, eu morro. É o estado normal das ilusões.
Os braços que apertavam suas costas não pareciam mais delicados e macios. Ricky
procurou livrar-se do desconforto.
— Não adianta — disse ela. — Você é meu.
Ricky olhou para trás e, para seu espanto, percebeu que os braços não eram mais
braços, mas um laço em volta dele, sem mãos, dedos ou pulsos.
—Jesus Cristo! — exclamou ele.
— Olhe para mim, garoto — disse ela.
A voz perdeu toda a delicadeza. Não era mais Marilyn que o tinha nos braços. Nada
que se parecesse com ela. O abraço apertou-se mais ainda, tirando todo o ar do corpo
de Ricky, impedindo-o de encher novamente os pulmões sob a pressão tremenda. Sua
espinha partiu-se, e a dor percorreu seu corpo como fachos de luz, que explodiram,
coloridos, em seus olhos.
—Você devia ter saído da cidade — disse Marilyn, enquanto o rosto de Wayne
aparecia sob os traços perfeitos dela. O olhar era de desprezo, mas Ricky teve apenas
um momento para registrar, antes de a imagem se partir também e algo diferente
aparecer atrás da fachada daqueles dois rostos famosos. Pela última vez na vida Ricky
perguntou:
— Quem é você?
Seu raptor não respondeu. Bebia sofregamente a fascinação nos olhos de Ricky. E,
enquanto ele olhava, órgãos gêmeos saltaram daquela coisa, como chifres de uma
lesma, antenas talvez, transformando-se em sondas, atravessando o espaço entre sua
cabeça e a de Ricky.
— Preciso de você — disse a coisa, que não era mais Wayne, nem Marilyn, mas que
soava como a voz pouco educada de um bandido vulgar. — Estou uma porra de fraco.
Ficar no mundo me esgota.
Estava se ligando a Ricky, alimentando-se com seu olhar, antes de adoração —
agora de horror. Ricky sentia a vida saindo aos poucos pelos olhos, deleitando-se nos
olhares cheios de sentimento que entregava à coisa enquanto morria.
Tinha certeza de que estava quase morto, porque há muito tempo não respirava.
Pareciam minutos, mas podia ser mais.
Enquanto procurava ouvir as batidas do próprio coração, as antenas abriram-se e se
encaixaram em suas orelhas. Mesmo naquele estado de semi-inconsciência, a
sensação era repulsiva, e sentiu vontade de gritar, pedindo para parar com aquilo. Mas
os dedos começaram a penetrar em sua cabeça, rasgando os tímpanos, atravessando,
como vermes curiosos, o crânio e entrando no cérebro. Ele ainda estava vivo, olhando
para seu algoz, e sabia que os dedos chegavam aos globos oculares, pressionando-os
de dentro para fora.
Seus olhos saltaram de repente, soltando-se, espirrando para fora das órbitas. Por
um momento, Ricky viu o mundo de um ângulo diferente, e sua visão cascateou pelo
rosto abaixo. Lá estavam seus lábios, seu queixo...
Uma experiência tremenda, felizmente curta. Então, o rosto com que Ricky havia vivido
durante trinta e sete anos partiu-se no meio do rolo do filme, e ele mergulhou nos
braços da ficção.
A sedução e morte de Ricky não levaram mais de três minutos. Durante esse tempo,
Birdy havia experimentado todas as chaves, e nenhuma abrira a porta. Se não fosse
persistente, teria voltado ao cinema para pedir ajuda. Mas as coisas mecânicas,
mesmo fechaduras e chaves, eram um desafio para a sua feminilidade. Detestava a
superioridade que os homens demonstravam, quando se tratava de máquinas, sistemas
e processos lógicos, e não iria voltar choramingando e dizer a Ricky que não conseguia
abrir a porta.
Quando, afinal, desistiu, Ricky acabava de fazer o mesmo. Estava morto e
desaparecido. Birdy disse uma porção de palavrões para as chaves e admitiu a
derrota. Ricky, sem dúvida, tinha um jeito especial com essas coisas que ela não
conseguia entender. Esperava que ele tivesse sorte. Tudo que Birdy queria era sair
daquele lugar. Começava a sentir claustrofobia. Não gostava da ideia de ficar trancada,
sem saber o que a espreitava lá em cima.
E agora, para piorar as coisas, as luzes do saguão começaram a se apagar, aos
poucos.
Que diabo estava acontecendo, afinal?
De repente, todas as luzes se apagaram, e ela ouviu um movimento no outro lado da
porta, dentro do cinema. Um facho de luz apareceu na outra extremidade, mais forte do
que uma lanterna, contorcendo-se, colorido.
— Ricky? — perguntou, no escuro.
A escuridão devorou suas palavras. Ela não acreditava que fosse Ricky, mas alguma
coisa a mandava chamar, se precisasse, em voz baixa.
— Ricky...?
As folhas da porta estalaram, juntando-se suavemente, como que empurradas por
dentro.
— ...é você?
O ar estava elétrico, a estática estalou dos seus sapatos quando caminhou para a
porta, os pelos de seus braços eriçaram- se. A luz, no outro lado, ficava cada vez mais
forte à medida que ela se aproximava.
Birdy parou para pensar. Não era Ricky, tinha certeza. Talvez fosse o homem, ou a
mulher do telefone, algum louco de pedra que gostava de perseguir mulheres gordas.
Recuou dois passos, na direção da cabine da bilheteria, com fagulhas saindo dos
pés, e estendeu a mão para apanhar, sob o balcão, a Filha da Mãe, uma barra de ferro
que guardava ali desde que fora encurralada na cabine por três ladrões, com cabeças
raspadas e furadores elétricos. Ela gritara como louca, e eles fugiram, mas Birdy jurou
que da próxima vez amassaria um deles (ou todos) em vez de se apavorar. E a Filha da
Mãe, com um metro de comprimento, foi a arma escolhida.
Armada agora, olhou para a porta.
As duas folhas de vaivém abriram-se de repente, e o rugido do ruído branco inundou
sua cabeça, enquanto uma voz dizia:
— Aqui estou olhando para você garota.
Um olho, um único e vasto olho enchia o vão da porta. O barulho a ensurdecia, o
olho piscava, imenso, úmido e preguiçoso, examinando aquela boneca à sua frente com
a insolência do Deus Verdadeiro e Único, o criador da Terra e do Céu do celuloide.
Birdy ficou apavorada. Não havia outra palavra para descrever o que sentia. Não se
tratava de um filme de suspense do tipo olhe-atrás-de-você, não havia nenhuma
antecipação deliciosa, nenhum medo agradável e excitante. Era medo de verdade,
medo nas entranhas, sem enfeites e feio como fezes.
Birdy ouvia a própria voz choramingando sob aquele olhar implacável, sentia que suas
pernas enfraqueciam. Logo iria cair no tapete em frente à porta e seria o seu fim.
Então, lembrou-se da Filha da Mãe. Querida Filha da Mãe, bendito seja teu aspecto
fálico. Brandindo a arma com as duas mãos, correu para o olho.
Antes de fazer contato, o olho se fechou, a luz se apagou, e ela estava outra vez no
escuro, a retina ardendo e ofuscada.
No escuro, alguém disse:
— Ricky está morto.
Nada mais. Era pior do que o olho, pior do que todas as vozes mortas de Hollywood,
porque ela sabia que era verdade. O cinema transformara-se num matadouro. O Dean
de Lindi Lee estava morto, como Ricky havia dito que estava, e agora Ricky. As portas
estavam todas trancadas, o jogo tinha só dois jogadores. Ela e a coisa.
Correu para a escada, sem saber ao certo o que iria fazer, mas convicta de que
seria suicídio permanecer onde estava. Quando pôs o pé no primeiro degrau, a porta
de vaivém abriu-se com um suspiro, e alguma coisa foi atrás dela, rápida e
tremeluzente. Estava a uns dois passos de distância quando Birdy correu escada
acima, maldizendo sua gordura. Espasmos de luz brilhante passavam por ela como as
primeiras centelhas de um rojão de fogos de artifício. A coisa estava preparando outro
truque, Birdy sabia.
Chegou ao topo da escada com seu admirador nos calcanhares. O corredor,
iluminado por uma única lâmpada encardida, não prometia nenhuma segurança.
Estendia-se por todo o comprimento do cinema, e algumas salas de depósito abriamse
para ele, cheias de lixo: cartazes, óculos de terceira dimensão, fotografias
amareladas. Birdy tinha certeza de que havia uma saída de incêndio numa delas. Mas
em qual? Só estivera ali uma vez, há dois anos.
— Merda, merda, merda — disse ela. Correu para a primeira porta. Trancada. Bateu
nela com força. Continuou trancada. A seguinte, a mesma coisa. E a terceira. Mesmo
que conseguisse lembrar onde ficava a saída de incêndio, as portas eram pesadas
demais para serem arrombadas. Se tivesse dez minutos, talvez a Filha da Mãe a
ajudasse. Mas o Olho estava atrás dela. Não tinha nem dez segundos, quanto mais dez
minutos.
Só restava o confronto. Deu meia-volta, murmurando uma prece, virando para a
escada e para seu perseguidor. O patamar estava vazio.
Birdy olhou para as lâmpadas queimadas e para a tinta descascada das paredes,
como que procurando descobrir o invisível, mas a coisa não estava na sua frente, como
esperava, e sim atrás. A luminosidade cintilou, dessa vez o rojão foi aceso, o fogo
tornou-se luz, a luz, imagem, e glórias quase esquecidas esparramaram-se pelo
corredor em sua direção. Cenas soltas de milhares de filmes, cada uma com uma
associação única. Pela primeira vez Birdy começou a entender a origem daquela
espécie notável. Era um fantasma na máquina do cinema: um filho do celuloide.
— Entregue-me sua alma — disseram milhares de estrelas.
— Não acredito em almas — disse Birdy com franqueza.
— Então, dê-me o que você dá para a tela, o que todo mundo dá. Dê-me um pouco
de amor.
Era por isso que estavam passando todas aquelas cenas, e repassando, e tornando
a passar, em frente a seus olhos. Eram momentos em que o público identificava-se
magicamente com a tela, sangrando através de seus olhos, olhando, olhando e
olhando. Birdy havia feito isso muitas vezes. Havia sentido uma dor quase física
quando, no fim, os créditos apareciam na tela e a ilusão tornava-se parte do seu íntimo,
porque sentia que estava deixando uma parte dela mesma para trás, perdida entre
seus heróis e heroínas. Talvez fosse verdade. Talvez o ar transportasse seus desejos,
depositando-os em algum lugar, misturados às emoções de outros corações, todos
amontoados no mesmo nicho até que...
Até que isto pudesse acontecer. O fruto dessas paixões coletivas, esse sedutor em
tecnicolor, astuto, vulgar e extremamente encantador.
Muito bem, pensou ela, uma coisa é entender nosso algoz, outra, muito diferente, é
convencê-lo a deixar de lado seu dever profissional.
Enquanto procurava decifrar o enigma, Birdy sorvia as imagens da coisa, não podia
evitar. Cenas esparsas e provocantes de vidas que ela havia vivido, rostos que tinha
amado. Mickey Mouse dançando com uma vassoura, Gish em Flores do Lodo, Garland
(com Totó) observando o furacão em Kansas, Astaire em Picolino, Welles em Cidadão
Kane, Brando e Crawford, Tracy e Hepburn — pessoas tão gravadas em nossos
corações que não precisavam dos primeiros nomes. E era muito melhor a provocação
só daqueles momentos, a suavidade da antecipação do beijo, não o beijo propriamente
dito. A bofetada, não a reconciliação. A sombra, não o monstro; o ferimento, não a
morte.
Birdy estava completamente fascinada. Presa dos próprios olhos, como se eles
estivessem na ponta de seus pés, acorrentados.
— Sou bonita? — a coisa perguntou.
Sim, era bela.
— Por que não se entrega a mim?
Birdy não pensava mais, perdida que estava toda a sua capacidade de análise, até
surgir algo, no meio das imagens, que a fez voltar a si. "Dumbo", o elefante gordo. Seu
elefante gordo, nada mais do que isso, o elefante gordo que Birdy pensava que era ela.
O encanto se quebrou. Desviou os olhos da criatura. Por um momento, com o canto
dos olhos, viu algo nojento como uma mosca-varejeira sob toda aquela beleza. Quando
era criança, todos a chamavam de Dumbo, todas as crianças do bairro. Vivia há vinte
anos com aquele horror ridículo, sem jamais ter conseguido livrar- se dele. O corpo
gordo lembrava seu próprio corpo, o olhar perdido, seu sentimento de solidão. Pensava
nele acalentado na tromba da mãe, condenado como um Elefante Louco, e tinha
vontade de matar de pancada aquela coisa sentimentalóide.
— É uma porra de mentira! — gritou.
— Não sei do que está falando — protestou a coisa.
— Então, o que há debaixo de todo esse espetáculo? Algo muito cruel, eu imagino.
A luz começou a piscar, o desfile de trailers ficou indistinto. Birdy via outra forma,
pequena e escura, espreitando atrás das cortinas de luz. Cheia de dúvida, dúvida e
medo de morrer, Birdy sentia o cheiro do medo a dez passos de distância.
— O que é você, aí embaixo?
Deu alguns passos para a coisa.
— O que está escondendo, hein?
A coisa recuperou a voz. Uma assustada voz humana.
— Você não tem nada com isso.
— Você tentou me matar.
— Eu quero viver.
— Eu também.
Estava ficando muito escuro naquela extremidade do corredor, e Birdy sentia um
cheiro esquisito de coisa podre. Ela conhecia o cheiro da podridão e sabia que se
tratava de algo animal. Na última primavera, logo que a neve derretera, tinha
encontrado uma coisa morta no pátio atrás de seu apartamento. Um cãozinho, ou um
gato grande, era difícil dizer. Alguma coisa doméstica que havia morrido de frio durante
a repentina nevada do inverno anterior. Agora estava cercada de vermes, amarelados,
acinzentados, rosados, uma máquina voadora em tons pastéis com milhares de partes
móveis.
E o cheiro era o mesmo que sentia agora. Talvez houvesse carne por detrás
daquela fantasia.
Enchendo-se de coragem, os olhos vendo ainda a imagem de "Dumbo", avançou
para a miragem oscilante, com a Filha da Mãe erguida, para o caso de ela tentar
alguma coisa.
As tábuas sob seus pés estalaram, mas Birdy, concentrada na sua presa, não
percebeu o aviso. Era hora de pegar aquele assassino, sacudi-lo e obrigá-lo a
desvendar seu segredo.
Estavam quase na outra extremidade do corredor, Birdy avançando, a coisa
recuando. Não poderiam passar dali.
De repente, o assoalho cedeu, desfazendo-se em fragmentos empoeirados sob o
peso deles, e ela estava despencando numa nuvem de pó. Deixou cair a Filha da Mãe
quando estendeu as mãos procurando agarrar-se em alguma coisa, mas tudo estava
comido pelos vermes e se desfazia ao contato de seus dedos.
Birdy caiu desajeitadamente e aterrissou com força em alguma coisa macia. Ali, o
cheiro de podre era tão forte que levava o estômago até a boca. Estendeu a mão para
se levantar no escuro, e por todo lado havia a massa pegajosa e fria. Era como se
tivesse caído numa caixa de peixe parcialmente limpo. Acima dela, a luz ansiosa
atravessava as tábuas, iluminando seu leito. Birdy olhou, embora Deus soubesse que
não queria olhar. Estava deitada sobre os restos de um homem, espalhados por toda
parte por seus devoradores. Birdy quis gritar. O instinto mandava que tirasse a blusa e
a saia, cheios de matéria putrefata, mas não podia ficar nua, não na frente do filho do
celuloide.
A coisa continuava a olhar para ela lá de cima.
— Agora você sabe — disse, com voz perdida.
— Isto é você?...
— Isso é o corpo que eu ocupei. O nome dele era Barbério. Um criminoso nada
espetacular. Jamais teve qualquer desejo de grandeza.
— E você?
— O câncer dele. O pedaço dele com aspirações, que desejava ser mais do que
uma humilde célula. Sou uma doença de sonhos. Não admira que adore o cinema.
O filho do celuloide chorava na beirada do assoalho afundado. Com o verdadeiro corpo
exposto, não precisava fabricar glórias.
Era uma coisa imunda, um tumor engordado com sentimentos desperdiçados. Um
parasita com a forma de uma lesma e a textura de fígado cru. Por um momento, uma
boca desdentada, mal formada, apareceu naquela cabeça e disse:
— Tenho de encontrar outro meio de comer sua alma.
Despencou no espaço entre as duas paredes, ao lado de Birdy. Sem a capa
cintilante de muitos filmes em tecnicolor, tinha o tamanho de uma criança raquítica. Ela
recuou e ele estendeu um sensor para tocá-la. Fugir daquele contato era uma
possibilidade limitada. O espaço era estreito e bloqueado numa das extremidades com
o que parecia ser um monte de cadeiras quebradas e missais abandonados. A única
saída era o lugar por onde havia entrado, três metros acima de sua cabeça.
Hesitante, o câncer tocou o pé de Birdy, e ela ficou nauseada. Não pôde evitar,
embora sentisse vergonha de se deixar dominar por uma reação tão primitiva. Jamais
havia sentido tamanha repulsa. Fazia pensar em algo abortado, uma coisa jogada no
lixo.—
Vá para o inferno — disse Birdy, dando um pontapé na cabeça da coisa, mas
ela continuou o movimento, e a massa nojenta envolveu as pernas da garota. Birdy
sentia as contorções das entranhas da coisa, esforçando-se para subir por seu corpo.
A sensação de peso na virilha e na barriga era quase sensual e, enojada com os
próprios pensamentos, pensou se aquilo aspirava a uma relação sexual. Alguma coisa
na insistência dos sensores que mudavam constantemente de forma sobre sua pele,
explorando carinhosamente sob a blusa, esticando-se para tocar seus lábios, só podia
ser interpretada como desejo. Que venha então, pensou Birdy, que venha, se tem de
vir.
Deixou que a coisa subisse até pousar toda sobre seu corpo, controlando a vontade
de jogá-la para longe — e então deu o golpe.
Birdy rolou o corpo, deitando-se de bruços.
Seu último peso fora 112 quilos e agora provavelmente mais. A coisa passara para
debaixo dela antes de entender como ou por que aquilo havia acontecido, e dos seus
poros escorria o fluido acre dos tumores.
A coisa lutou, mas não conseguia sair de baixo, por mais que se contorcesse. Birdy
enfiou as unhas nela e começou a rasgá-la, tirando pedaços grandes, esponjosos, dos
quais espirrava mais fluido ainda. Os gritos de raiva eram agora gritos de dor. Depois
de um curto tempo, a doença de sonho parou de lutar.
Birdy ficou imóvel por um momento. Nada se movia sob seu corpo.
Finalmente, levantou-se. Era impossível saber se o tumor estava morto. Por todos
os padrões que ela conhecia, jamais estivera vivo. Além disso, não estava mais
tocando nele. Preferia lutar com o próprio demônio a ter de abraçar outra vez o câncer
de Barbério.
Olhou para o corredor lá em cima e se desesperou. Ia morrer ali, agora, como
Barbério. Então, quando abaixou os olhos, viu a grade, invisível enquanto era ainda
noite lá fora. Mas o dia estava nascendo, e colunas de luz encardida insinuavam-se
entre os ferros da grade.
Inclinou-se, empurrou, e, de repente, o dia estava com ela naquele espaço entre as
duas paredes, envolvendo-a toda. Não foi fácil passar pela abertura estreita, e a todo
momento tinha a impressão de sentir coisas se arrastando nas suas pernas, mas saiu
para o mundo sem avaria maior do que os seios doloridos.
O terreno baldio não tinha mudado muito desde a morte de Barbério. Só estava
mais atravancado de lixo e de mato. Birdy parou por um momento, respirando grandes
haustos de ar fresco, depois caminhou até a cerca e passou para a rua.
Entregadores de jornais e cães deram voltas para não passar por perto daquela
mulher abatida, com roupas malcheirosas.
Três: cenas censuradas
Não terminou assim.
A polícia foi ao Movie Palace logo depois das nove e meia. Birdy também. A busca
revelou os corpos mutilados de Dean e Ricky, bem como os restos de "Sonny"
Barbério. No segundo andar, num canto do corredor, encontraram um pé de sapato cor
de cereja.
Birdy ficou calada, mas ela sabia. Lindi Lee jamais saíra do cinema.
Birdy foi julgada por um assassinato duplo que ninguém acreditava que ela tivesse
cometido e considerada inocente por falta de provas. O juiz recomendou que Birdy
ficasse sob observação psiquiátrica por um período não inferior a dois anos. A mulher
podia não ter cometido os crimes, mas estava claro que era completamente louca. Uma
história de câncer ambulante não fazia bem à credibilidade de quem quer que fosse.
No começo do verão do ano seguinte, Birdy deixou de comer por uma semana. A
maior parte do peso que perdeu foi de água, mas o suficiente para fazer com que as
amigas acreditassem que ela finalmente resolvera dar atenção ao Problema Real.
Naquele fim de semana ela desapareceu por vinte e quatro horas.
Birdy encontrou Lindi Lee numa casa abandonada, em Seattle. Não foi tarefa muito
difícil. Ultimamente, Lindi já não conseguia controlar-se, muito menos evitar possíveis
perseguidores. Tanto assim que seus pais haviam desistido de cuidar dela há muitos
meses. Só Birdy continuou a procurar, contratando para isso um investigador, e,
finalmente, sua paciência foi recompensada quando viu a frágil beldade, mais frágil do
que nunca, mas bela ainda, sentada naquele quarto vazio. Moscas giravam no ar. Uma
coisa nojenta, talvez humana, estava sentada no chão.
Birdy abriu a porta com uma arma na mão. Lindi Lee ergueu os olhos dos próprios
pensamentos, ou talvez dos pensamentos da coisa, e sorriu. O sorriso durou apenas
um momento. O parasita em Lindi Lee reconheceu o rosto de Birdy, viu a arma na sua
mão e compreendeu exatamente por que ela estava ali.
— Muito bem — disse a coisa, levantando-se para ir ao encontro da visitante.
Os olhos de Lindi Lee explodiram, sua vagina, seu ânus, as orelhas e o nariz, tudo
explodiu, e o tumor escorreu dela em rios cor de rosa. Saiu como vermes dos seios
muito brancos, de um corte do dedo da mão, de um arranhão na coxa. Escorria de
todas as aberturas.
Birdy ergueu a arma e atirou três vezes. O câncer se esticou uma vez na direção
dela, recuou, cambaleou e caiu. Quando ficou imóvel, Birdy tirou a garrafa de ácido do
bolso, abriu a tampa e derramou o conteúdo escaldante nos membros humanos e no
tumor. Tudo se dissolveu em silêncio, e Birdy o deixou aqueles restos ali, num remendo
de sol, com uma fumaça ardida erguendo-se da confusão.
Com o dever cumprido, saiu para a rua e seguiu seu caminho, planejando
confiantemente viver até muito depois das linhas de crédito dessa comédia terem
aparecido na tela.
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