O Ressalto

― Vamos ― repetiu Cressner. ― Olhe no saco.
Estávamos no seu apartamento de cobertura, no 43° andar. O tapete espesso e felpudo era cor de laranja queimada. No centro, entre a poltrona basca em que Cressner estava sentado e o sofá de couro genuíno em que não havia ninguém, estava um saco de compras de papel pardo.
― Se é um suborno, esqueça ― repliquei. ― Eu a amo.
― É dinheiro, mas não suborno. Vamos, olhe.
Cressner fumava um cigarro turco numa piteira de ônix. O sistema de circulação de ar permitiu sentir apenas uma leve amostra do aroma do fumo, antes de levá-lo embora.
Cressner usava um roupão de seda com um dragão bordado. Seus olhos eram tranqüilos e inteligentes por detrás dos óculos. Ele parecia exatamente o que era: um filho da puta de 500 quilates da mais pura qualidade. Eu amava sua esposa e ela me amava. Eu esperava que ele criasse encrencas e sabia que isso estava acontecendo agora, mas não tinha certeza de que tipo de encrenca se tratava.
Fui até o saco de compras e virei-o. Maços de notas presas com elásticos rolaram pelo tapete. Todas eram notas de vinte dólares. Peguei um dos maços e contei. Dez notas em cada maço. E havia muitos maços.
― Vinte mil dólares ― disse ele, tirando uma baforada do cigarro turco.
Levantei-me.
― Muito bem.
― Para você.
― Não quero.
― Minha mulher vai com o dinheiro.
Permaneci calado. Márcia me prevenira a respeito de como seria. Ele é como um gato, dissera ela. Um velho gato cheio de maldade. Tentará fazer de você um camundongo.
― Então, você é um tenista profissional ― disse ele. ― Acho que ainda não tive oportunidade de conhecer um.
― Quer dizer que seus detetives particulares não tiraram fotografias. ― Oh, claro que tiraram ― ele gesticulou negligentemente com a piteira. ― Até mesmo um filme de vocês dois no Motel Bayside. Uma câmera escondida atrás do espelho. Mas fotografias não são de carne e osso, não é mesmo?
― Já que você acha.
Ele ficará mudando de assunto, dissera Márcia. É assim que coloca as pessoas na defensiva. Logo você estará golpeando na direção em que julga que ele se encontre, mas ele já se achará em outro lugar. Fale o mínimo possível, Stan. E lembre-se de que eu te amo.
― Convidei-o a vir aqui porque julguei que deveríamos bater um papinho de homem para homem, Sr. Norris. Apenas uma conversa agradável entre duas pessoas civilizadas, uma das quais roubou a esposa da outra.
Comecei a replicar, mas decidi não fazê-lo.
― Gostou de San Quentin? ― indagou Cressner, tirando uma baforada preguiçosa.
― Não especialmente.
― Creio que passou três anos lá. Uma acusação de furto qualificado.
― Márcia sabe tudo a respeito ― retruquei.
Imediatamente, desejei não ter dito aquilo. Eu estava fazendo o jogo dele, exatamente o que Márcia me advertira que não fizesse. Levantando as bolas para permitir que ele matasse o ponto com rebatidas violentas.
― Tomei a liberdade de mandar remover seu carro ― disse ele, lançando um olhar à janela na extremidade oposta da sala.
Na realidade, não era propriamente uma janela: a parede inteira era de vidro. No centro, havia uma porta corrediça de vidro. Além dela, uma pequena sacada. Além desta, uma queda muito longa. Aquela porta tinha algo estranho, mas não percebi exatamente o que era.
― Este prédio é bastante agradável ― disse Cressner. ― Boa segurança. Circuito-fechado de televisão e tudo o mais. Quando eu soube que você estava no saguão, dei um telefonema. Então, um dos empregados fez uma ligação direta na ignição de seu carro e o levou do parqueamento particular do prédio para um estacionamento público a vários quarteirões daqui.
Olhou para o moderno relógio em forma de sol na parede acima do sofá. Oito e cinco.
― Às oito e vinte, o mesmo empregado usará um telefone público para fazer uma comunicação relativa ao seu carro. No mais tardar às oito e meia, os agentes da lei encontrarão quase duzentas gramas de heroína escondidas no pneu sobressalente na mala do carro. Você passará a ser ansiosamente procurado, Sr. Norris.
Ele preparara tudo para fazer de mim um bode-expiatório. Eu tentara cobrir-me da melhor maneira possível, mas, no fim, fora um brinquedo de criança nas mãos dele.
― Essas coisas acontecerão a menos que eu chame o empregado e lhe diga para esquecer de dar o telefonema.
― E tudo o que tenho a fazer é contar-lhe onde está Márcia repliquei. ― Nada feito, Cressner. Eu não sei. Preparamos tudo para você exatamente dessa forma.
― Meus homens a seguiram.
― Não acredito. Nós os perdemos no aeroporto.
Cressner suspirou, retirou o cigarro aceso da piteira e deixou-o cair no cinzeiro cromado com tampa corrediça. Sem confusão ou sujeira. O cigarro usado e Stan Norris tinham sido eliminados com a mesma facilidade.
― Na verdade, você tem razão ― disse ele. ― O velho truque de desaparecer no banheiro das senhoras. Meus agentes estão extremamente vexados por se terem deixado enganar por um golpe tão antiquado. Creio que é um estratagema tão velho que eles jamais o previram.
Permaneci calado. Márcia livrara-se dos homens de Cressner no aeroporto, tomara o ônibus da companhia aérea de volta à cidade e, depois, fora para a estação rodoviária; o plano fora este. Levava consigo duzentos dólares, tudo o que restava em minha conta na caderneta de poupança. Duzentos dólares e um ônibus Greyhound podem levar uma pessoa a qualquer ponto do país.
― Você é sempre tão pouco comunicativo? ― indagou Cressner, parecendo genuinamente interessado.
― Márcia me aconselhou a sê-lo.
Ele replicou num tom ligeiramente mais áspero:
― Então, imagino que saberá quais são seus direitos quando a polícia o prender. E a
próxima vez que verá minha mulher talvez seja quando for uma vovozinha numa cadeira de balanço. Já enfiou isto na cabeça? Entendo que a posse de duzentos gramas de heroína pode condená-lo a quarenta anos de prisão.
― Isso não lhe devolverá Márcia.
Ele exibiu um sorriso tenso:
― E esse é o âmago da questão, não é mesmo? Devo fazer uma recapitulação da nossa situação? Você e minha mulher se apaixonaram. Tiveram um caso amoroso... se você quer chamar de caso amoroso uma série de encontros de uma noite em motéis baratos.
Minha mulher me abandonou. Entretanto, eu peguei você. E você se encontra no que é chamado de um beco sem saída. Isto resume adequadamente o caso?
― Agora, posso compreender por que ela se cansou de você respondi.
Para minha surpresa, ele jogou a cabeça para trás e riu.
― Sabe, eu quase gosto de você, Sr. Norris. É vulgar e um tratante, mas parece ter coração. Márcia disse que você tinha. Eu quase duvidei. Ela é frouxa ao julgar personalidade e caráter. Mas você possui um certo... vigor. Eis o motivo pelo qual preparei as coisas desta maneira. Sem dúvida Márcia lhe disse que gosto de apostar.
― Sim.
Agora eu sabia o que havia de errado com a porta no centro da parede de vidro.
Estávamos em pleno inverno e ninguém desejaria tomar chá numa varanda a quarenta e três andares de altura. Os móveis da sacada tinham sido retirados. E a tela da porta fora removida. Ora, por que Cressner faria isso?
― Não gosto muito de minha mulher ― declarou Cressner, colocando outro cigarro na piteira. ― Isso não é segredo. Tenho certeza de que ela lhe contou. E tenho certeza de que um homem com a sua... experiência sabe que esposas satisfeitas não vão para a cama com o tenista profissional do clube local logo na primeira oportunidade. Na minha opinião, Márcia é pudica afetada com cara de coalhada, uma choramingona, uma mexeriqueira...
― Já basta ― interrompi.
Ele sorriu friamente.
― Desculpe-me. Esqueço-me de que estamos falando de sua amada. Oito e dezesseis.
Está nervoso?
Sacudi os ombros.
― Durão até o fim ― disse ele, fazendo uma breve pausa para acender o cigarro. ― De qualquer maneira, talvez tente adivinhar por que motivo, se detesto tanto Márcia, simplesmente não lhe concedo a liberdade
― Não, não tento imaginar nada.
Ele franziu a testa para mim.
― Você é um filho da puta egoísta, cobiçoso e egocêntrico. Eis aí o motivo. Ninguém pode tirar o que lhe pertence. Nem mesmo que você já não o queira mais.
Cressner ficou vermelho e depois riu.
― Um ponto para você, Sr. Norris. Muito bem.
Tomei a sacudir os ombros.
― Vou-lhe propor uma aposta. Se você ganhar, sairá daqui com o dinheiro, com a mulher e com a sua liberdade. Por outro lado, se você perder, perde a vida.
Olhei para o relógio. Não pude deixar de olhar. Oito e vinte e nove. ― Muito bem ― repliquei.
Que outra alternativa tinha eu? Pelo menos, podia ganhar tempo. Tempo para imaginar algum modo de escapar dali, com ou sem o dinheiro.
Cressner pegou o telefone e discou um número.
― Tony? Plano dois... Sim.
Desligou.
― Qual é o plano dois? ― indaguei.
― Tomarei a telefonar para Tony dentro de quinze minutos e ele removerá o... material incriminador da mala de seu carro, trazendo o carro de volta. Se eu não telefonar, ele entrará em contato com a polícia.
― Não confia muito nos outros, não é?
― Seja sensato, Sr. Norris. Entre nós, sobre o tapete, estão vinte mil dólares. Nesta cidade já se cometeram crimes por vinte centavos.
― Qual é o jogo?
Ele pareceu genuinamente magoado.
― Aposta, Sr. Norris, aposta. Cavalheiros apostam. Gente vulgar joga. ― Como queira.
― Excelente. Percebi que você olhava para a minha sacada.
― Retiraram a tela da porta.
― Sim. Mandei retirá-la esta tarde. O que lhe proponho é o seguinte: que você contorne o prédio no ressalto que se projeta logo abaixo do nível do apartamento de cobertura. Se conseguir dar a volta inteira ao edifício, ganha a aposta.
― Você está louco.
― Muito pelo contrário. Durante os doze anos de residência neste apartamento, propus essa aposta a seis pessoas diferentes. Três dentre as seis eram atletas profissionais, como você: um deles foi um notório jogador de futebol americano, mais famoso por seus comerciais para a televisão que por seus passes dentro do campo; um era jogador de beisebol; um era um jóquei bastante famoso que ganhava salários anuais fora do comum e tinha graves problemas com as pensões que tinha que pagar às ex-esposas. Os outros três eram cidadãos mais normais, que tinham profissões diferentes mas duas coisas em comum: necessidade de dinheiro e um certo grau de graça corporal.
― Não me aborreça, Sr. Norris. Creio que aceitará a aposta porque não tem outra opção.
É a minha aposta de um lado e quarenta anos em San Quentin de outro. O dinheiro e minha mulher são meras dádivas adicionais que indicam minha generosidade.
― Que garantia tenho eu de que você não me passará para trás? Talvez eu ganhe a aposta e descubra que você telefonou para Tony ordenando-lhe que fosse em frente, de qualquer maneira.
Ele suspirou.
― Você é um caso de paranóia ambulante, Sr. Norris. Não amo minha esposa. Tê-la por aqui ofende o meu elevado ego. Vinte mil dólares são uma ninharia para mim. Gasto quatro vezes isso por semana, como propina para a polícia. Quanto à aposta, porém... ― e seus olhos faiscaram ... ― isso não tem preço.
Pensei no assunto e ele me deixou pensar. Suponho que ele sabia que o verdadeiro otário sempre se convence. Eu era um tenista vagabundo com trinta e seis anos de idade e o clube estava pensando em dispensar-me quando Márcia me salvou aplicando uma delicada pressão. Tênis era minha única profissão e, sem ela, até mesmo conseguir emprego como faxineiro seria difícil ― especialmente com minha ficha criminal. Fora coisa de garoto, mas os empregadores não querem saber disso.
E o mais engraçado é que eu realmente amava Márcia Cressner. Apaixonara-me por ela depois de duas aulas às nove da manhã; e ela se apaixonara por mim com a mesma intensidade. Era realmente um caso típico da sorte de Stan Norris. Após trinta e seis anos de feliz celibato, eu caíra como um saco postal pela esposa de um dos chefões da Organização.
O velho gato ali sentado, fumando seus cigarros turcos importados, sabia de tudo isso, é claro. E de algo mais, também. Eu não tinha garantia de que ele não me entregaria se
eu aceitasse a aposta e ganhasse; por outro lado, eu sabia muito bem que estaria atrás das grades antes das dez horas se não aceitasse a aposta. E só voltaria a ser livre no final do século.
Tirou uma baforada pensativa e depois prosseguiu:
― A aposta foi imediatamente recusada em cinco ocasiões. Na outra, foi aceita. Os termos eram vinte mil dólares contra seis meses de serviços prestados a mim. Ganhei. O sujeito deu uma espiada por cima do ressalto da sacada e quase desmaiou.
Cressner parecia divertido e desdenhoso ao concluir:
― Disse que tudo lá embaixo parecia muito minúsculo. Foi o que lhe matou a coragem.
― Por que pensa que eu...
Ele me interrompeu com um gesto aborrecido:
― Quero saber uma coisa ― declarei.
― E qual seria ela, Sr. Norris?
― Olhe-me na cara e diga-me se é ou não um caloteiro.
Ele me fitou nos olhos.
― Sr. Norris ― declarou tranqüilamente ―, nunca deixei de pagar uma aposta.
― Muito bem ― disse eu.
Que outra escolha me restava?
Ele se ergueu, sorrindo.
― Excelente! Realmente excelente! Venha comigo à porta da varanda, Sr. Norris.
Caminhamos juntos até lá. Seu rosto era o de um homem que havia sonhado com aquela cena uma centena de vezes e saboreava até a última gota sua transformação em realidade.
― O ressalto tem doze centímetros e meio de largura. Medi-o pessoalmente. Na verdade, fiquei em pé sobre ele ― segurando-me na sacada, é claro. Tudo que você tem a fazer é passar por cima da grade de ferro batido. Ficará à altura do peito. Mas, naturalmente, além da sacada não existem grades ou lugar para segurar-se. Terá que avançar milimetricamente, cuidando para não desequilibrar-se.
Meu olhar pousou num objeto fora da janela... algo que fez a temperatura de meu sangue baixar vários graus: um anemômetro. O apartamento de Cressner ficava bastante próximo ao lago e tinha altura suficiente para que outros prédios elevados não aparassem o vento. Um vento frio, cortante como uma faca. A agulha do anemômetro estava firme no dez, mas uma rajada a levaria até a marca de vinte e cinco durante alguns segundos, antes de voltar à marca anterior.
― Ah, vejo que notou meu anemômetro ― disse Cressner em tom jovial. ― Naturalmente, é o outro lado do prédio que recebe o vento predominante, de modo que a brisa talvez esteja um pouco mais forte daquele lado. Mas, na verdade, esta é uma noite razoavelmente sem vento. Já vi noites em que o anemômetro chegou a marcar oitenta e cinco nós... podia-se até mesmo sentir o prédio balançar um pouco. É como estar no cesto da gávea de um navio. Esta é uma noite bem calma para a época do ano.
Apontou para a minha esquerda e avistei números luminosos no topo do edifício de um banco. Marcavam uma temperatura de sete graus, mas, com o vento, o fator frio devia estar abaixo de zero.
― Tem um casaco? ― perguntei, pois estava usando apenas um paletó leve demais para aquelas condições.
― Infelizmente, não.
Os números iluminados se alteraram para mostrar a hora: 8:32.
― E acho bom você começar logo, Sr. Norris, para que eu possa telefonara Tony e mandá-lo colocar em ação o plano três. É um bom rapaz, mas um tanto impulsivo. Você
compreende, não é?
Sim, eu compreendia muito bem. Demais.
Contudo, a idéia de estar com Márcia, livre de Cressner e seus tentáculos, com dinheiro suficiente para iniciar vida, fez-me empurrar a porta corrediça de vidro e sair para a sacada. Estava frio e úmido; o vento me soprava os cabelos sobre os olhos.
― Bon soir ― disse Cressner às minhas costas, mas não me dei o trabalho de olhar para trás.
Aproximei-me da grade mas não olhei para baixo. Ainda não. Comecei a fazer respiração profunda.
Não era absolutamente um exercício, mas uma forma de autohipnose. Com cada inspiração e exalação de ar expulsamos da mente uma distração, até que nada resta senão o desafio que temos pela frente. Livrei-me do dinheiro com um movimento respiratório e de Cressner com dois. Livrar-me de Márcia levou mais tempo ― seu rosto insistia em vir-me à mente, dizendo-me para não ser estúpido, para não fazer o jogo de Cressner, pois talvez ele não fosse caloteiro, mas sempre cuidava de estar em vantagem quando apostava. Não lhe dei ouvidos. Não podia permitir-me tal luxo. Se eu perdesse a aposta, não teria que pagar as cervejas e agüentar as gozações; seria apenas uma massa sangrenta espalhada em ambas as direções da Deakman Street, no espaço de um quarteirão.
Quando julguei estar preparado, olhei para baixo.
O prédio descia verticalmente, como um liso penhasco de calcário, até a rua distante. Os carros estacionados ao longo da calada pareciam aqueles modelos em miniatura que estão à venda nas lojas de brinquedos. Os que passavam em frente ao prédio eram apenas minúsculos pontos de luz, com faróis pequenos como cabeças de alfinete. Se alguém caísse daquela altura, teria tempo suficiente para dar-se conta do que acontecia, para sentir o vento nas roupas à medida que a terra o atraísse com uma aceleração cada vez maior. Teria tempo de soltar um grito agudo e prolongado. E o barulho produzido pela queda no calçamento seria igual ao de uma melancia madura demais.
Pude entender por que o outro sujeito se amedrontara. Mas ele tinha apenas seis meses com que preocupar-se. Eu encarava quarenta longos anos sombrios, sem a presença de Márcia.
Olhei para o ressalto. Parecia pequeno; eu jamais vira doze centímetros e meio se parecerem tanto com apenas cinco. Pelo menos o prédio era razoavelmente novo; o ressalto não se quebraria sob meu peso.
Assim eu esperava.
Passei por cima da grade da sacada e arriei-me cautelosamente até ficar em pé no ressalto. Meus calcanhares ficaram no ar. O chão da sacada chegava-me à altura do peito e eu olhava para o interior do apartamento de cobertura de Cressner através dos arabescos da grade de ferro batido. Cressner estava de pé dentro da sala, junto à porta, observando-me da mesma maneira que um cientista observa uma cobaia para verificar o resultado da mais recente injeção.
― Telefone ― disse eu através da grade.
― O quê?
― Telefone para Tony. Não me moverei até você telefonar.
Ele voltou à sala de visitas ― que parecia surpreendentemente aquecida, segura e acolhedora ― e pegou o telefone. Na realidade, era um gesto inútil de minha parte: com o vento, eu não podia escutar o que ele dizia lá dentro. Cressner desligou o telefone e voltou à porta.
― Tudo providenciado, Sr. Norris.
― Acho melhor estar mesmo.
― Adeus, Sr. Norris. Tomarei a vê-lo daqui a pouco... talvez.
Era hora de começar. A conversa terminara. Permiti-me pensar em Márcia uma última vez, lembrando-me de seus cabelos castanho-claros, seus grandes olhos cinzentos, seu lindo corpo. Então, tirei-a definitivamente da cabeça. E nada de tornar a olhar para baixo, também. Seria muito fácil ficar paralisado de medo ao ver tamanha altura. Fácil demais enregelar-me até perder o equilíbrio ou simplesmente desmaiar de medo. Era hora de ter uma visão de antolhos. Hora de concentrar-me apenas num pé e depois no outro.
Comecei a avançar para direita, segurando-me à grade da sacada pelo maior tempo possível. Não demorei muito a perceber que precisaria de toda a força muscular que o tênis me proporcionara aos tornozelos. Com os calcanhares além da beira do ressalto, os tendões teriam que agüentar todo o meu peso.
Cheguei à extremidade da sacada e, por um momento, pensei que não conseguiria largar a segurança da grade. Obriguei-me a fazê-lo. Diabo, doze centímetros e meio era espaço bastante. Se o ressalto estivesse a meio metro do solo, ao invés de mais de cento e trinta metros de altura, eu poderia contornar o prédio inteiro em apenas quatro minutos. Ao menos, foi o que eu disse a mim mesmo. Portanto, bastava fingir que me encontrava a meio metro do chão.
Sim. E quando se está a meio metro do chão, a gente cai, diz um palavrão e recomeça tudo. Lá em cima, tem-se apenas uma oportunidade.
Escorreguei o pé direito para mais longe e, depois, trouxe o esquerdo para junto dele.
Ergui as mãos abertas, deixando que as palmas descansassem de encontro à parede áspera do edifício. Acariciei a parede. Seria até capaz de beijá-la.
Uma rajada de vento me atingiu, batendo a gola do paletó no meu rosto e fazendo-me o corpo balançar no ressalto. Meu coração passou a bater na garganta e continuou ali até que o vento amainou. Uma rajada um pouco mais forte me arrancaria daquele poleiro e me lançaria pelos ares. E o vento estaria mais forte no outro lado.
Voltei a cabeça para a esquerda, comprimindo o lado do rosto contra a parede. Cressner estava debruçado na sacada, observando-me.
― Divertindo-se? ― indagou num tom afável.
Usava um sobretudo pardo de pêlo de camelo.
― Pensei que você não tivesse um casaco ― repliquei.
― Menti ― retrucou ele com a maior calma. ― Minto a respeito de muitas coisas.
― Que quer dizer com isso?
― Nada... absolutamente nada. Ou talvez signifique alguma coisa. Um pouco de guerra psicológica, não é, Sr. Norris? Não lhe aconselho demorar aí por muito tempo. Os tornozelos cansam e, se eles cederem...
Tirou do bolso uma maçã, mordeu-a e depois jogou-a por cima da grade. Não houve qualquer som durante longo tempo. Depois, um horripilante plop! Cressner riu baixinho.
Ele conseguira quebrar minha concentração e pude sentir o pânico começar a roer-me a orla da mente com dentes de aço. Uma torrente de pavor ameaçava invadir-me e afogar-me.
Virei a cabeça para longe de Cressner e passei a respirar fundo, afastando o pânico.
Olhei para os números iluminados no topo do edifício do banco, que agora marcavam 8:46. Hora de investir na Caderneta de Poupança Mutual!
Quando os números iluminados marcaram 8:49, julguei-me novamente sob controle.
Creio que Cressner achou que eu me petrificara, pois escutei um aplauso zombeteiro quando recomecei o avanço em direção à esquina do prédio.
Comecei a sentir os efeitos do frio. O ar trazia a umidade dó lago; uma umidade pegajosa que me mordia a pele como uma broca. Meu paletó fino enfunava-se às minhas
costas à medida que me movimentava cautelosamente. Com frio ou não, eu prosseguia lentamente. Se eu pretendia levar a tarefa a cabo, tinha que agir vagarosa e deliberadamente. Se me apressasse, cairia.
Quando cheguei à esquina da parede o relógio digital luminoso marcava 8:52. Não parecia haver problema ― o ressalto continuava, fazendo uma quina em ângulo reto ― mas minha mão sentiu um vento de través. Se eu fosse apanhado em inclinação errada, voaria muito em breve.
Esperei que o vento amainasse, mas ele se recusou a fazê-lo por muito tempo, quase como se fosse aliado de Cressner. Castigava-me com dedos maldosos e invisíveis, fustigando, cutucando, fazendo cócegas. Afinal, depois que uma rajada particularmente forte abalou-me da cabeça aos pés, compreendi que poderia esperar ali para sempre e o vento jamais cessaria totalmente.
Portanto, na próxima vez em que ele amainou um pouco, escorreguei o pé direito ao longo da quina e, agarrando-me à parede com ambas as mãos, dobrei a esquina do edifício. O vento de través empurrou-me para ambos os lados ao mesmo tempo e vacilei. Por um segundo, tive a terrível certeza de que Cressner ganharia a aposta.
Então, avancei mais um passo e colei-me totalmente à parede.
Foi então que o insultante ruído imitando um peido me soou repentinamente junto ao ouvido.
Sobressaltado, recuei até quase perder o equilíbrio. Minhas mãos perderam contato com a parede e rodaram loucamente, buscando equilibrar o corpo. Acho que se uma delas tivesse esbarrado na parede eu cairia. Todavia, após o que pareceu uma eternidade, a força da gravidade resolveu permitir-me voltar à parede, em vez de recuar para o vazio e espatifar-me na calçada, quarenta e dois andares abaixo.
Minha respiração deixava os pulmões em soluços, produzindo um silvo doloroso.
Minhas pernas pareciam de borracha. Os tendões dos tornozelos vibravam como fios de alta voltagem. Nunca me senti tão mortal. O esqueleto empunhando a foice estava suficientemente próximo para conseguir ler por cima de meu ombro.
Virei o pescoço, olhei para cima e lá estava Cressner, debruçado na janela de seu quarto, um metro e vinte acima de mim. Sorria e segurava na mão direita um apito tipo língua-de-sogra, desses que se usam em festas infantis.
― Apenas para manter você alerta ― disse ele.
Não desperdicei o fôlego. De qualquer maneira, mal conseguiria falar. Meu coração saltava loucamente no peito. Avancei mais um metro e meio para o lado, caso ele estivesse pensando em debruçar-se mais e dar-me um bom empurrão. Então, parei e fechei os olhos, respirando fundo até controlar-me outra vez.
Agora, eu estava na fachada mais curta do prédio. À minha direita, apenas os mais altos arranha-céus da cidade se erguiam acima de mim. À esquerda, só o círculo escuro do lago, com minúsculos pontos luminosos boiando na superfície. O vento soprava e gemia.
O vento de través na segunda esquina não foi tão perigoso e contornei-a sem maiores dificuldades. Então, algo me mordeu.
Prendi a respiração e contraí os músculos. A alteração do equilíbrio me causou medo e tratei de comprimir-me contra a parede. Fui mordido outra vez. Não... não mordido, mas bicado. Olhei para baixo.
Havia um pombo no ressalto, olhando-me com olhos brilhantes e odiosos.
Acostumamo-nos aos pombos na cidade; são tão comuns quanto motoristas de táxi que se recusam a trocar dez dólares. Não gostam de voar e só abrem caminho com relutância, como se as calçadas lhes pertencessem por usucapião. Oh, sim, e costumamos encontrar seus cartões de visita nas capotas de nossos carros. Mas nunca reparamos muito neles. Podem irritar-nos ocasionalmente, mas são fatores interpolados no nosso mundo.
Eu, porém, estava no mundo do pombo. E quase indefeso. Parece que ele adivinhava isto. Tomou a bicar meu tornozelo direito fatigado, lançando-me uma pontada de dor pela perna acima.
― Suma-se ― disse eu. ― Caia fora.
O pombo apenas me bicara. Obviamente, eu me intrometera no que ele considerava seu lar; aquela parte do ressalto estava coberta de fezes de pombo, novas e velhas.
Um ruído abafado acima de mim.
Dobrei o pescoço para trás até o máximo que consegui e olhei para cima. Um bico avançou-me contra o rosto e quase recuei. Se tivesse recuado, talvez me tomasse a primeira pessoa da cidade vitimada por um pombo. Era a mamãe pomba, protegendo um bando de pombinhos abrigados num ninho situado logo abaixo do estreito beiral no topo do prédio. Graças a Deus, longe demais para me bicar a cabeça.
O marido dela tornou a bicar-me o tornozelo e o sangue começou a escorrer. Pude senti-lo.
Recomecei a avançar centímetro por centímetro, esperando afugentar o pombo do ressalto. Nada disso. Os pombos não se amedrontam. Pelo menos, não os pombos urbanos. Se um caminhão de mudança faz meramente com que andem um pouco mais depressa, um homem agarrado a uma parede no alto de um arranha-céu não conseguirá impressioná-lo.
À medida que eu avançava, o pombo recuava, os olhos brilhantes nunca se afastando de meu rosto, exceto quando o bico afiado baixava para ferir-me o tornozelo. E a dor se tomava cada vez mais intensa; a ave bicava carne viva... e, ao que me constava, talvez a comesse também.
Dei-lhe um pontapé com o pé direito. Um pontapé fraco, do único tipo que eu podia dar naquelas condições. O pombo se limitou a bater levemente as asas e depois voltou ao ataque. Eu, em compensação, quase me despenquei lá de cima.
E o pombo continuou a bicar-me repetidamente. Uma rajada de vento frio abalou-me até o limite do equilíbrio; a parte carnuda da ponta dos dedos raspou na parede áspera e terminei com o lado esquerdo do rosto comprimido contra a parede, a respiração arquejante.
Cressner não seria capaz de conceber uma tortura pior se levasse dez anos planejando.
Uma bicada não era tão ruim. Duas ou três eram apenas um pouco pior. Mas aquele maldito pombo deve ter-me bicado o tornozelo ao menos sessenta vezes antes que eu chegasse à grade da sacada do apartamento de cobertura situado na fachada oposta ao de Cressner.
Chegar àquela grade foi como atingir os portões do céu. Minhas mãos se fecharam docemente sobre as colunas da grade e seguraram-nas como se jamais fossem soltá-las.
Bicada.
O pombo me fitava com ar quase superior, os olhos brilhando, confiante na minha impotência e na sua invulnerabilidade. Lembrei-me da expressão de Cressner quando se despedira de mim na varanda da fachada oposta.
Agarrando com força as grades da sacada, desferi um violento pontapé que atingiu o pombo em cheio. A ave emitiu um satisfatório pio de dor e elevou-se no ar, batendo as asas. Algumas penas cinzentas pousaram de volta no ressalto ou desapareceram vagarosamente, descendo no escuro, balançando-se no ar.
Arquejante, ergui-me para a varanda e deixei-me cair no chão. A despeito do frio, meu corpo estava molhado de suor. Não sei quanto tempo permaneci ali, recuperando-me. O prédio escondia o relógio luminoso e não costumo usar relógio de pulso.
Sentei-me antes que meus músculos se endurecessem e baixei cuidadosamente o cano da meia. O tornozelo direito estava cortado e sangrava, mas o ferimento parecia superficial. Ainda assim, eu teria que tratar dele, caso conseguisse escapar dali. Deus sabe
que micróbios os pombos carregam consigo. Cheguei a pensar em fazer um curativo improvisado, mas decidi em contrário. Eu poderia tropeçar numa atadura improvisada. Mais tarde, haveria tempo de sobra. Então, eu poderia comprar vinte mil dólares de ataduras.
Levantei-me e olhei cobiçosamente para o apartamento de cobertura oposto ao de Cressner. Vazio, desocupado, sem móveis nem morador. A porta estava protegida pela pesada tela contra tempestades. Eu poderia arrombá-la, mas isto equivaleria a perder a aposta. E eu tinha mais a perder que o dinheiro.
Quando não consegui mais adiar, passei por cima da grade e voltei ao ressalto. O pombo, com menos algumas penas, estava pousado abaixo do ninho da companheira, onde o guano era mais denso, fitando-me de modo malévolo. Mas não acreditei que ele tornasse a incomodar-me quando percebesse que eu me afastava dali.
Foi muito difícil afastar-me ― muito mais difícil que sair da sacada de Cressner. Meu cérebro sabia que era preciso, mas meu corpo, especialmente os tornozelos, parecia gritar que era uma loucura abandonar aquele refúgio seguro. Mas prossegui, com o rosto de Márcia incitando-me na escuridão.
Cheguei à segunda fachada curta, fiz a dobra da esquina e avancei devagar pela largura do prédio. Agora que me aproximava do final, sentia um impulso quase incontrolável de apressar-me, a fim de acabar logo com aquilo. Contudo, se me apressasse eu morreria.
Portanto, obriguei-me a avançar devagar.
O vento cruzado quase me pegou outra vez na quarta esquina e só consegui contorná-la mais por sorte que por habilidade. Descansei de encontro ao prédio, recuperando o fôlego. Mas, pela primeira vez, senti que chegaria ao final, que ganharia a aposta.
Minhas mãos pareciam dois bifes meio congelados, os tornozelos doíam como se estivessem em fogo (principalmente o direito, bicado pelo pombo), o suor escorria para dentro dos olhos, fazendo-os arderem, mas eu sabia que chegaria ao final. No centro da fachada do prédio, luz amarela jorrava da sacada de Cressner. Ao longe, os números luminosos no topo do edifício do banco brilhavam como uma faixa de boas-vindas.
10:48. Mas eu tinha a impressão de que passara a vida inteira naqueles doze centímetros e meio de ressalto.
E Deus se apiedasse de Cressner caso este tentasse passar-me o calote. A vontade de avançar depressa cessou. Prossegui quase preguiçosamente. Os números marcavam 11:09 quando pus a mão direita na grade de ferro batido. Depois, a mão esquerda. Alcei-me, passei por cima da grade e caí, com uma sensação de agradecimento, no chão da varanda... e senti o cano frio de uma pistola calibre 45 encostar-se em minha têmpora.
Ergui os olhos e vi um facínora bastante feio para fazer parar a maquinaria de relojoaria do Big Ben. Ele sorria.
― Excelente! ― veio a voz de Cressner, do interior do apartamento. ― Faço questão de aplaudi-lo, Sr. Norris!
E fez exatamente isso, acrescentando-o:
― Traga-o para dentro, Tony.
Tony me ergueu pela gola e colocou-me de pé tão bruscamente que meus tornozelos enfraquecidos quase se dobraram. Entrando, cambaleei e esbarrei na porta de vidro.
Cressner estava de pé junto à lareira da sala, bebericando conhaque num copo de cristal que mais parecia um aquário. O dinheiro fora recolocado no saco de compras.
Continuava ao centro do tapete cor de laranja queimada.
Vi-me de relance num pequeno espelho no outro lado da sala: cabelos desgrenhados, rosto pálido a não ser por duas manchas brilhantes e rosadas nas bochechas, olhos que pareciam insanos.
Só vi um relance porque no momento seguinte voei através da sala. Bati na poltrona basca e caí sobre ela, rolando e puxando-a para cima de mim, perdendo o fôlego.
Quando recobrei parte dele, sentei-me e consegui dizer:
― Seu maldito caloteiro. Planejou tudo.
― Claro que planejei ― disse Cressner, colocando cuidadosamente o copo de conhaque sobre o aparador da lareira. ― Mas não sou caloteiro, Sr. Norris. Certamente que não.
Apenas um péssimo perdedor. Tony está aqui apenas para termos certeza de que você não tomará qualquer atitude... impensada.
Colocou os dedos sob o queixo e soltou uma risadinha. Não parecia um mau perdedor; parecia-se mais com um gato com o focinho sujo de penugens de canário. Levantei-me, sentindo-me repentinamente mais amedrontado que lá fora no ressalto.
― Você preparou tudo ― declarei devagar. ― De algum modo, preparou tudo.
― Nem tudo. A heroína foi removida de seu carro. O carro propriamente dito está de volta ao estacionamento. O dinheiro está ali. Pode pegá-lo e sair.
― Ótimo ― respondi.
Tony estava de pé junto à porta da sacada, ainda parecendo algo que sobrara da Noite das Bruxas. Empunhava a pistola 45. Fui até o saco de compras, peguei-o e me encaminhei para a porta com os tornozelos trêmulos, esperando levar um tiro nas costas a qualquer momento. Entretanto, quando abria porta comecei a ter a mesma sensação que me invadira lá fora, quando dobrei a quarta esquina: eu ia conseguir.
― Você não pensa realmente que aquele velho truque do banheiro das senhoras enganou alguém, não é mesmo?
A voz de Cressner, indolente e divertida, fez-me estacar.
Voltei-me vagarosamente, ainda segurando o saco de compras nos braços.
― Que quer dizer com isso?
― Eu lhe disse que não sou caloteiro e é verdade. Você ganhou três coisas, Sr. Norris: o dinheiro, sua liberdade e minha esposa. Está de posse das duas primeiras, mas terá que ir ao necrotério municipal pegar a terceira.
Fitei-o, incapaz de me mover, petrificado por um raio silencioso produzido pelo choque.
― Não acreditava realmente que eu lhe permitisse ficar com ela, não é mesmo? ― perguntou Cressner num tom penalizado. ― Oh, não. O dinheiro, sim. Sua liberdade, sim.
Mas não Márcia. Ainda assim, não sou caloteiro. E depois que enterrá-la, você...
Não me aproximei dele. Ainda não. Ele ficaria para depois. Andei na direção de Tony, que pareceu surpreso até que Cressner disse numa voz cheia de enfado:
― Atire nele, por favor.
Joguei o saco de dinheiro, que bateu em cheio, com força, na mão que empunhava a pistola. Lá fora eu não utilizara os braços e os punhos, que são as melhores partes do corpo de um tenista. De qualquer jogador de tênis. A bala de Tony atingiu o tapete cor de laranja queimada e, então, eu o alcancei.
Sua parte mais dura era a cara. Arranquei-lhe a pistola da mão e acertei-lhe o nariz com o cano. Ele desabou com um único grunhido, parecendo-se com Rondo Hatton.
Cressner quase já saíra pela porta quando lhe disparei um tiro por cima do ombro e adverti:
― Pare ou eu o mato.
Ele escutou e parou. Quando se voltou para encarar-me, sua atitude cosmopolita de enfado estava um pouco alterada. E alterou-se ainda mais quando ele viu Tony caído no tapete, engasgando-se com o próprio sangue.
― Ela não está morta ― declarou Cressner. ― Eu tinha que salvar alguma coisa,
não acha?
Mostrou-me um sorriso amarelo, covarde.
― Sou otário, mas não tanto ― repliquei. Minha voz me soou sem vida, morta.
Por que não? Márcia era minha vida e aquele homem a enviara para uma mesa de mármore no necrotério.
Com um dedo ligeiramente trêmulo, Cressner apontou para os maços de dinheiro espalhados aos pés de Tony.
― Isso aí é ninharia ― declarou. ― Posso conseguir-lhe cem mil. Ou quinhentos mil. Que tal um milhão, depositado num banco suíço? Que tal? Que tal...
― Você vai fazer uma aposta comigo ― interrompi vagarosamente.
Ele olhou do cano da pistola para meu rosto.
― Uma...
― Uma aposta ― repeti. ― Um jogo para valer. Aposto que você não consegue contornar o prédio andando naquele ressalto.
Seu rosto assumiu uma palidez mortal. Por um instante, julguei que ele fosse desmaiar.
― Você... ― murmurou.
― O que está em jogo é o seguinte: se você conseguir, eu o deixarei viver ― declarei com minha voz morta. ― Que tal?
― Não... ― balbuciou ele, com os olhos esbugalhados.
― Muito bem, então ― disse eu, engatilhando a pistola.
― Não! ― exclamou Cressner, estendendo as mãos para a frente. Não! ― Não atire! Eu... está bem.
Umedeceu os lábios com a língua.
Gesticulei com a pistola e ele saiu na minha frente para a sacada.
― Está trêmulo ― comentei. ― Isso vai dificultar as coisas.
― Dois milhões ― disse ele, não conseguindo erguer a voz além de uma lamúria rouca. ― Dois milhões em dinheiro vivo.
― Não ― repliquei. ― Nem por dez milhões. Mas se você conseguir contornar o prédio, pouparei sua vida.
Um minuto depois, Cressner estava em pé no ressalto. Era mais baixo que eu; vi-lhe os olhos um pouco acima do chão da sacada, arregalados e suplicantes, e as mãos brancas agarrando as grades como se fossem as barras de aço de uma cela.
― Por favor ― sussurrou ele. ― Darei qualquer coisa...
― Está perdendo tempo ― repliquei. ― Enfraquece os tornozelos.
Mas ele só se moveu quando encostei a boca do cano da 45 no centro de sua testa.
Então, começou a avançar para a direita, gemendo. Olhei para o relógio luminoso: 11:29.
Não pensei que ele conseguisse chegar à primeira esquina. Ele não queria ir e, quando se movimentou, fé-lo aos arrancos, correndo riscos com o centro de gravidade, o roupão enfunando-se às suas costas.
Dobrou a esquina, sumindo de minha vista, às 12:01. Há quase quarenta minutos. Fiquei atento ao prolongado grito quando o vento de través o apanhasse, mas o grito não soou.
Talvez o vento tenha amainado. Lembro-me de ter pensado, lá fora, que o vento estava a favor dele. Ou talvez Cressner tenha apenas sorte. Talvez agora ele esteja na outra sacada, caído a tremer, com medo de prosseguir.
Todavia, provavelmente ele sabe que, se eu o encontrar lá quando arrombar a porta do outro apartamento de cobertura, matá-lo-ei como se mata um cão danado. A propósito, falando no outro lado do prédio, imagino se ele estará gostando do pombo.
Será que escutei um grito? Não sei. Talvez fosse o vento. Não importa. O relógio luminoso está marcando 12:44. Logo eu arrombarei o outro apartamento e examinarei a sacada, mas, no momento, estou apenas sentado aqui na varanda de Cressner, empunhando a pistola 45 de Tony. Só para a remota possibilidade de que Cressner dobre a última esquina do prédio, com o roupão enfunado às suas costas.
Cressner declarou que nunca deixou de pagar uma aposta.
Mas eu já deixei de pagar algumas.

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