O Último Degrau da Escada

Recebi ontem a carta de Katrina, menos de uma semana depois que meu pai e eu retornamos de Los Angeles. Estava endereçada a Wimlington, em Delaware, e já me mudei duas vezes desde então. Hoje em dia, as pessoas se mudam com tanta freqüência que é engraçado como aqueles endereços riscados e etiquetas de mudança de endereço nos envelopes das cartas podem parecer acusações. A carta de Katrina estava suja e amarrotada, com um dos cantos gasto pelo manuseio. Li o que estava escrito e logo dei por conta de mim em pé na sala, com o telefone na mão, pronto para telefonar a Papai.
Recoloquei o fone no gancho com uma sensação quase de pavor. Ele era velho e já sofrera dois ataques cardíacos. Poderia eu telefonar para contar-lhe a respeito da carta de Katrina tão pouco tempo depois de estarmos em Los Angeles? Isto seria praticamente o mesmo que matá-lo.
Portanto, não telefonei. E eu não tinha ninguém a quem revelar... uma coisa como aquela carta é por demais pessoal para ser contada a alguém, exceto a uma esposa ou um amigo muito íntimo. Não tenho tido muitos amigos íntimos nestes últimos anos e Helen e eu nos divorciamos em 1971. Atualmente, só trocamos cartões de Natal. Como vai você? Como está o trabalho. Um Feliz Ano Novo.
Passei a noite inteira acordado, com a carta de Katrina. Ela poderia ter escrito tudo num cartão postal. Havia apenas uma frase abaixo de "Querido Larry". Mas uma frase pode significar muita coisa. Pode ser o suficiente.
Lembrei-me de meu pai no avião, a fisionomia aparentando velhice e abatimento à forte luz do sol a 6.000 metros de altura, quando viajamos de Nova York para o oeste.
Havíamos acabado de sobrevoar Omaha, segundo o piloto, quando Papai disse: "É muito mais longe do que parece, Larry". Havia em sua voz uma pesada tristeza que me deixou pouco à vontade, pois não consegui entendê-la. Passei a entender melhor após ler a carta de Katrina.
Fomos criados a cento e trinta quilômetros de Omaha, numa cidadezinha chamada Hemingford Home ― meu pai, minha mãe, minha irmã Katrina e eu. Eu era dois anos mais velho que Katrina, a quem todos chamavam de Kitty. Foi uma linda criança e uma bela mulher ― mesmo aos oito anos de idade, na época em que ocorreu o incidente no celeiro, podia-se notar que seus sedosos cabelos louros cor de milho jamais escureceriam e que os olhos seriam sempre daquele azul-escuro tipicamente escandinavo. Bastaria um olhar
àqueles olhos para botar um homem a perder.
Creio que poderiam chamar-nos de caipiras. Meu pai possuía cento e vinte hectares de terra plana e fértil, onde plantava milho e criava gado. Todos chamavam simplesmente de "casa lar". Naquela época, todas as estradas eram de terra, exceto a Rodovia Interestadual 80 e a Rodovia Estadual de Nebraska 96, e uma viagem à cidade era algo que aguardávamos com ansiedade com três dias de antecedência.
Atualmente, sou um dos melhores advogados especializados em Direito Comercial de todo o país, pelo que me dizem ― e sou forçado a admitir, a bem da verdade, que acho que estão certos. Certa vez, o presidente de uma grande empresa me apresentou aos membros da diretoria como seu pistoleiro de aluguel. Uso temos caros e o couro de meus sapatos é o melhor que existe. Tenho três assistentes trabalhando em tempo integral e posso apelar para uma dúzia de outros se precisar deles. Mas, naquele tempo, eu caminhava descalço por uma estrada de terra até uma escola com apenas uma sala de aula, com os livros amarrados numa correia carregada ao ombro, e Katrina me acompanhava. Era uma época em que ninguém seria atendido num restaurante ou numa loja se não estivesse usando sapatos.
Mais tarde, minha mãe morreu ― quando eu e Katrina cursávamos o ginásio em Columbia City ― e dois anos depois Papai perdeu as terras e foi trabalhar como vendedor de tratores. Foi o fim da família, embora, na ocasião, isto não parecesse tão ruim. Papai deu-se bem no trabalho, comprou uma concessionária e foi sondado para ocupar um cargo de direção há cerca de nove anos. Eu consegui uma bolsa de estudos como jogador de futebol americano na Universidade de Nebraska e consegui aprender alguma coisa além de carregar a bola no campo.
E Katrina? Pois é a respeito dela que desejo contar-lhes.
Aquele incidente no celeiro ocorreu um sábado, no início de novembro. Para dizer a verdade, não me recordo exatamente do ano, mas Ike Eisenhower ainda era o Presidente. Mamãe estava num concurso de doces em Columbia City e Papai fora à casa de nosso vizinho mais próximo (que ficava a onze quilômetros de distância) para ajudá-lo a consertar um forcado de feno. Devia haver um empregado em casa, mas ele não apareceu naquele dia e Papai o despediu um mês depois.
Papai deixou-me uma lista de tarefas a cumprir (e algumas para Katrina, também) e disse-nos que não começássemos a brincar antes de terminarmos o trabalho. Mas não durou muito. Estávamos em novembro e, nessa época do ano, o período onde os agricultores balançavam entre o lucro e a falência já passara. Naquele ano, conseguimos lucro. Nem sempre isso acontecia.
Recordo-me nitidamente daquele dia. O céu estava nublado e, embora não fizesse frio, podia-se sentir que queria fazer frio, queria chegar o tempo das geadas, neve e granizo.
Os campos estavam nus. O gado se mostrava preguiçoso e mal-humorado. Parecia haver na casa pequenas correntes de ar que nunca tinham existido antes.
Num dia como aquele, o único lugar realmente agradável para se estar era o celeiro. Era aquecido, cheio de um aroma agradavelmente mesclado de feno, pêlo e estrume, e dos sons misteriosos e arrulhantes produzidos pelas andorinhas no alto do telhado.
Dobrando o pescoço para trás a fim de olhar para cima, era possível ver a luz branca de novembro penetrando pelas frestas no telhado e tentar, ao mesmo tempo, soletrar nossos nomes. Era uma brincadeira que só nos parecia agradável em dias nublados de outono.
Havia uma escada pregada a uma viga do terceiro andar do celeiro, uma escada que descia verticalmente até o solo. Éramos proibidos de subir nela porque estava velha e não tinha firmeza. Papai prometera mil e uma vezes a Mamãe retirar a escada dali e substituí-la por uma mais sólida, mas sempre parecia surgir alguma coisa a fazer quando ele dispunha de algum tempo... ajudar um vizinho a consertar o forcado de feno, por exemplo. E o
empregado simplesmente não funcionava.
Se galgássemos aquela escada velha e frouxa ― eram exatamente quarenta e três degraus; Kitty e eu os contamos vezes suficientes para sabermos com certeza ― acabávamos numa viga transversal vinte e três metros acima do chão de terra coberto de palha. Então, se andássemos com cuidado ao longo da viga por cerca de quatro metros, com os joelhos trêmulos e as juntas dos tornozelos estalando, a boca seca com gosto de fusível queimado, ficávamos acima do monte de feno. Então, podíamos pular da viga e cair verticalmente vinte metros, com uma sensação de desmaio, sobre uma enorme cama fofa de feno macio. O feno tem um cheiro gostoso e ficávamos deitados naquele aroma de verão renascido, tendo a impressão de haver deixado o estômago no ar durante a queda, e sentindo... bem, como Lázaro deve ter-se sentido. Caíamos e sobrevivíamos para contar a estória.
Era um lugar proibido, realmente. Se fôssemos apanhados ali, minha mãe gritaria como uma louca furiosa e meu pai nos aplicaria uma sova de correia, apesar de já estarmos bem crescidos. Por causa da escada e porque, se perdêssemos o equilíbrio e caíssemos da viga antes de chegarmos a uni ponto diretamente acima da imensa pilha de feno, certamente morreríamos de encontro ao chão duro do celeiro.
Mas a tentação era grande demais. Quando os gatos saem... bem, vocês sabem o que os ratos fazem.
Aquele dia começou como todos os outros, com uma deliciosa sensação de medo misturado à expectativa. Paramos junto à escada, encarando-nos. Kitty estava muito corada, os olhos mais escuros e faiscantes que nunca.
― Duvido ― disse eu.
Kitty replicou prontamente:
― Quem duvida vai primeiro.
E, também prontamente, eu respondi:
― As meninas antes dos meninos.
― Não se for perigoso ― disse ela, baixando recatadamente o olhar, como se ninguém soubesse que ela era a segunda maior moleca de Hemingford. Mas Kitty era assim mesmo. Iria, mas não na frente.
― Está bem ― disse eu. ― Lá vou eu.
Na época eu tinha dez anos e era magro como o capeta, com cerca de quarenta e cinco quilos. Kitty tinha oito anos e pesava dez quilos menos que eu. Como a escada sempre agüentara nosso peso, pensávamos que sempre agüentaria outra vez, uma filosofia que causa problemas a muitos homens e nações, repetidamente.
Naquele dia, pude senti-lo, começando a vibrar levemente no ar, celeiro empoeirado, enquanto eu subia cada vez mais alto. Como sempre, na metade do caminho, imaginei o que me aconteceria se eu me largasse de repente e caísse lá de cima. Mas continuei a subir até conseguir agarrar a viga, içar-me paia cima dela e olhar para baixo.
O rosto de Kitty, voltado para cima a fim de me observar, era um pequeno oval branco.
Na sua camisa quadriculada e calças jeans, parecia uma boneca. Acima de mim, ainda mais alto, nos recantos empoeirados dos beirais, as andorinhas piavam suavemente.
Mais uma vez, de acordo com o roteiro:
― Ei, você aí embaixo! ― minha voz flutuando até ela nos grãos de farelo.
― Ei, você aí em cima!
Levantei-me. Balancei um pouco sobre a viga. Como sempre, parecia haver estranhas correntes de ar que não existiam no solo. Pude escutar as batidas de meu coração quando comecei a avançar vagarosamente, os braços abertos para manter o equilíbrio.
Certa vez, uma andorinha passara voando rente à minha cabeça nessa parte da
aventura e, ao recuar instintivamente, quase perdi o equilíbrio. Eu morria de medo de que isso tornasse a acontecer.
Mas não naquela ocasião. Afinal, cheguei ao lugar seguro acima do monte de feno.
Agora, olhar para baixo não era tão amedrontador, mas sensual. Houve um momento de expectativa. Então, pisei no espaço vazio, segurando o nariz para obter maior efeito, e, como sempre acontecia, a repentina ação da gravidade, arrastando-me para baixo de forma brutal, fazendo-me mergulhar e ter vontade de gritar: Oh, desculpe-me, foi um engano; leve-me de volta para cima!
Então, bati no feno, chocando-me contra ele como um projétil, o cheiro agradável e poeirento turbilhonando em torno de mim, que ainda continuava a mergulhar como se em água pesada. Acabei maciamente acomodado no feno. Como sempre, senti um espirro formar-se no nariz. E escutei um ou dois camundongos amedrontados fugirem para um lugar mais seguro do monte de feno. Senti-me, daquela maneira curiosa, renascido. Lembro-me de que Kitty me contou, certa vez, que depois de mergulhar no feno sentia-se fresca e nova como um bebê. Na ocasião, não dei importância ― parecia, ao mesmo tempo, saber e não saber o que ela queria dizer ― mas desde que recebi sua carta tenho pensado a respeito disso, também.
Desci do monte de feno, tendo quase que nadar até a beirada antes de poder saltar para o chão do celeiro. Tinha feno preso às calças e às costas da camisa. Nos sapatos de tênis e nos cotovelos. No cabelo? Podem apostar que sim.
A essa altura, Kitty já estava na metade da escada, os cabelos louros presos à moda Maria Chiquinha chegando às omoplatas, subindo através de uma empoeirada faixa de luz. Em outros dias, aquela luz seria tão dourada e brilhante quanto seus cabelos. Mas, naquele dia, não havia comparação possível; os cabelos eram a coisa mais colorida lá em cima.
Lembro-me de pensar que o balanço da escada não me agradava. Parecia nunca ter sido tão frouxo.
Então, Kitty estava de pé sobre a viga, lá no alto ― agora, o pequeno era eu, meu rosto era o pequeno oval branco voltado para cima quando a voz dela flutuou até mim entre os grãos de farelo levantados por minha queda:
― Ei, você aí embaixo?
― Ei, você lá em cima!
Ela andou cautelosamente ao longo da viga e meu coração se afrouxou um pouco quando julguei que ela estava acima da segurança do feno: Isto sempre acontecia, embora ela sempre fosse mais graciosa que eu... e mais atlética, embora possa parecer estranho um irmão dizer isto da irmã mais moça.
Parou em pé, nas pontas dos sapatos de tênis, estendendo as mãos para a frente. Então, mergulhou. Falam de coisas que a gente não pode esquecer, não consegue descrever.
Bem, eu consigo descrever... de certo modo. Mas não de maneira que possa fazer vocês entenderem como era tão lindo, tão perfeito, uma das poucas coisas em minha vida que parecem totalmente reais, completamente verdadeiras. Não, sou incapaz de descrever dessa maneira. Não tenho perícia suficiente com a pena e tampouco com a língua.
Por um instante, ela pareceu suspensa no ar, como se sustentada por uma daquelas misteriosas correntes ascendentes que só existiam lá no alto, uma brilhante andorinha de plumagem dourada, como Nebraska jamais vira. Era Kitty, minha irmã, os braços jogados para trás e as costas arqueadas ― e como eu a amei naquele átimo de tempo!
Então ela caiu e mergulhou no feno, sumindo de vista. Uma explosão de farelo e risadinhas se ergueu do buraco feito por sua queda. Eu me esquecera do quanto aquela escada parecia fraca sob o peso dela. E quando dei por mim, Kitty já estava fora do feno e eu subindo a escada.
Tentei imitar o mergulho de Kitty, mas o medo me dominou como sempre e meu
belo mergulho se transformou numa "bomba". Creio que nunca acreditei que o feno estivesse ali para amparar-me, como Kitty acreditava.
Quanto tempo demorou a brincadeira? É difícil dizer. Mas, quando tornei a olhar para cima pela décima ou décima segunda vez, percebi que a luz se modificara. Nossos pais deveriam chegar a qualquer momento e estávamos cobertos de feno... o que equivaleria a uma confissão assinada. Concordamos em subir apenas mais uma vez cada um.
Subindo primeiro, senti a escada mover-se sob meu peso e escutei muito de leve ― o rangido de pregos velhos soltando-se da madeira. E, pela primeira vez, senti-me real e ativamente amedrontado. Creio que se estivesse mais próximo do chão, teria descido e colocado um ponto final no brinquedo, mas a viga estava mais perto que o solo e parecia segura. A três degraus do topo, o ranger dos pregos ficou mais forte e eu gelei subitamente de pavor, certo de que levara a brincadeira longe demais.
Então, segurei a viga cheia de farpas, retirando meu peso da escada. Um suor frio e desagradável colava-me aos cabelos os fragmentos de palha. O brinquedo perdera a graça.
Andei depressa até o ponto certo e pulei. Até mesmo a parte mais gostosa da queda perdera o sabor. Caindo, imaginei como seria se o solo duro estivesse à minha espera, em vez do feno macio.
Pulei para o chão do celeiro e vi Kitty galgando depressa os degraus. Gritei:
― Ei, desça! É perigoso!
― Agüentará! ― replicou ela, confiante. ― Sou mais leve que você!
― Kitty...
Mas não cheguei a terminar, pois foi aí que a escada quebrou.
Cedeu com estalo forte de madeira podre e lascada. Soltei uma exclamação e Kitty gritou. Estava na mesma altura em que eu me convencera de que havíamos abusado da sorte.
O degrau em que ela pisava soltou-se e, então, ambos os lados da escada quebraram. Por um instante, o pedaço de escada abaixo de Kitty, que se havia soltado completamente, parecera um enorme inseto ― um louva-deus ― que simplesmente resolvera mudar de lugar.
Então, caiu, batendo no solo com um estalo que levantou poeira e fez as vacas mugirem de susto. Uma delas deu um coice na parede da baia.
Kitty emitiu um grito alto e agudo.
― Larry! Larry! Socorro!
Eu sabia o que precisava ser feito; percebi de imediato. Estava terrivelmente amedrontado, mas não cheguei a ficar desorientado pelo medo. Kitty estava vinte metros acima de mim, esperneando desesperadamente no vazio, com as andorinhas piando acima dela. Eu estava realmente com medo. E até hoje ainda não consigo ver um número de trapézio no circo, nem mesmo pela televisão. Sinto-me mal do estômago.
Mas sabia o que precisava ser feito.
― Kitty! ― berrei para ela. ― Trate de ficar quieta! Fique quieta!
Ela me obedeceu instantaneamente. As pernas pararam de mexer-se e seu corpo ficou imóvel na vertical, as mãos pequenas agarradas ao último degrau da escada quebrada, como um acrobata num trapézio parado.
Corri ao monte de feno, peguei dois punhados de palha, corri de volta e joguei-os no chão. Repeti a operação, incessantemente.
Não me lembro bem o que aconteceu depois disso, a não ser que o feno me penetrou no nariz e comecei a espirrar sem conseguir parar. Continuei a correr e voltar, formando um monte de feno onde estivera o pé da escada partida. Uma pilha muito pequena.
Olhando para ela e depois erguendo os olhos para Kitty, pendurada tão alto, ter-se-ia a impressão de uma dessas caricaturas em que o sujeito pula de cem metros de altura num
copo d'água.
Correndo sempre, indo e voltando, indo e voltando.
― Larry, eu não agüento mais!
A voz de Kitty era aguda e desesperada.
― Precisa agüentar, Kitty! Tem que agüentar!
Indo e voltando. Feno dentro de minha camisa. Indo e voltando. Agora, a pilha de feno me chegava à altura do queixo. Mas o monte de feno sobre o qual costumávamos pular tinha pelo menos sete metros e meio de altura. Refleti que se ela apenas fraturasse as pernas seria barato. E sabia que se ela não caísse em cima da pilha, morreria. Indo e voltando. Indo e voltando.
― Larry! O degrau! Está cedendo!
Escutei o ranger prolongado do degrau se soltando sob o peso dela. Kitty começou a espernear, em pânico. Mas se continuasse a mexer-se daquela maneira certamente erraria a pilha.
― Não! ― gritei. ― Não! Pare com isso! Apenas solte-se! Solte-se, Kitty!
Ela se soltou e caiu mal eu acabara de gritar. Veio verticalmente, como uma faca.
Pareceu-me que levou uma eternidade caindo, os cabelos dourados erguidos acima da cabeça, os olhos fechados, o rosto branco como porcelana. Não gritou. Tinha as mãos cruzadas diante dos lábios, como se rezasse.
E caiu bem no centro da pilha de feno. Desapareceu de vista ― o feno subiu para todos os lados, como se atingido por uma granada ― e escutei o baque do corpo no chão. Aquele som, um baque forte, provocou-me um arrepio gelado como a morte. Fora muito forte ― forte demais. Mas eu precisava ver.
Começando a chorar, atirei-me contra a pilha de feno, desmanchando-a, jogando para trás grandes punhados de feno. Apareceu uma pema coberta pela calça jeans, depois uma camisa quadriculada... então, o rosto de Kitty. Estava mortalmente pálido, com os olhos fechados. Estava morta; percebi logo que a avistei. O mundo ficou cinzento diante de mim, um cinza de novembro. A única coisa colorida eram os cabelos de Kitty, dourados e brilhantes.
E, em seguida, o profundo azul de seus olhos quando se abriram.
― Kitty?
Minha voz era rouca, embargada, incrédula. Minha garganta estava forrada de farelo de feno.
― Kitty?
― Larry? ― perguntou ela, atordoada. ― Estou viva?
Ergui-a do feno e abracei-a. Ela passou os braços pelo meu pescoço, abraçando-me também.
― Você está viva ― repliquei. ― Está viva, viva...
Ela fraturara o tornozelo esquerdo e nada mais. Quando o Dr. Pedersen, o clínico-geral de Columbia City, veio ao celeiro com meu pai e eu, olhou para cima, fitando a escuridão por longo tempo. O último degrau da escada ainda lá estava, de viés, preso por apenas um prego.
Como eu disse, o médico ficou olhando durante muito tempo.
― Um milagre ― disse ele a meu pai.
Depois, deu um pontapé desdenhoso na pilha de feno que eu fizera e se encaminhou para seu empoeirado De Soto, partindo.
Meu pai pousou a mão em meu ombro.
― Vamos ao galpão da madeira, Larry ― disse ele em voz muito calma. ― Creio que já sabe o que vai acontecer lá.
― Sim, senhor ― sussurrei.
― Cada pancada que eu lhe der, Larry, quero que você agradeça a Deus por sua irmã ainda estar viva.
― Sim, senhor.
E fomos juntos. Ele me bateu muitas vezes ― tantas que passei uma semana sem poder me sentar à mesa para comer e tive que usar uma almofada na cadeira durante as duas semanas seguintes. E cada palmada que ele me aplicava com a mão grande e calejada, eu dava graças a Deus.
Em voz alta, muito alta. Mas tenho certeza de que nas últimas duas ou três palmadas Deus me escutou.
Deixaram que eu entrasse para vê-la pouco antes da hora de dormir. Lembro-me de que havia um passarinho no lado de fora da vidraça do quarto dela. O pé de Kitty, todo envolto em ataduras, estava apoiado ruma tábua.
Ela me olhou durante tanto tempo e com expressão tão amorosa que fiquei sem jeito.
Depois, disse:
― Feno. Você colocou feno.
― Claro que coloquei ― repliquei explosivamente. ― Que mais poderia fazer? Depois que a escada quebrou, não havia jeito de subir.
― Eu não sabia o que você estava fazendo ― disse ela.
― Devia saber! Eu estava bem embaixo de você, bolas!
― Não me atrevi a olhar para baixo ― replicou ela. ― Estava morta de medo. Mantive os olhos fechados o tempo todo.
Olhei para ela, atônito.
― Você não sabia? Não sabia o que eu estava fazendo?
Ela sacudiu a cabeça.
― E quando eu lhe disse para soltar-se... você se soltou?
Ela confirmou com a cabeça.
― Como foi capaz de fazer isso, Kitty?
Ela me encarou com aqueles profundos olhos azuis.
― Eu sabia que você devia estar fazendo algo para dar um jeito declarou. ― É meu irmão mais velho. Eu sabia que cuidaria de mim.
― Oh, Kitty, você não sabe do que escapou.
Cobri o rosto com as mãos. Kitty sentou-se na cama e me pegou pelos pulsos, descobrindo-me o rosto. Beijou-me a bochecha.
― Não ― disse ela. ― Mas sabia que você estava lá embaixo. Puxa, estou com sono. Vejo você amanhã, Larry. Vou colocar um aparelho de gesso, conforme disse o Dr. Pedersen.
Ela usou o aparelho durante pouco menos de um mês e todos os seus colegas o autografaram ― ela também me obrigou a assinar. E quando retirou o aparelho, isto encerrou o episódio do celeiro. Meu pai substituiu a escada por outra mais sólida, mas nunca mais tornei a subir até a viga para saltar sobre o monte de feno. Pelo que sei, Kitty também não.
Foi o final, mas, de certo modo, não foi o final. De certo modo, o final só ocorreu há nove dias, quando Kitty saltou do topo do prédio de uma companhia de seguros no centro de Los Angeles. Tenho na carteira o recorte da notícia publicada pelo Los Angeles Times. Creio que sempre o trarei comigo, não da maneira gostosa como as pessoas costumam trazer consigo fotos das pessoas de quem querem lembrar-se, ou entradas de teatro para um espetáculo realmente bom, ou de uma final do campeonato de futebol. Carrego no bolso aquele recorte como alguém carrega um peso porque foi obra sua. A manchete diz: PROSTITUTA DE LUXO MERGULHA PARA A MORTE.
Crescemos. Isso é tudo que sei, além de fatos que não têm qualquer significação. Kitty ia cursar uma escola de secretariado em Omaha, mas no verão após sua formatura no ginásio ganhou um concurso de beleza e casou-se com um dos jurados. Parece uma piada obscena, não é mesmo? A minha Kitty.
Enquanto eu estava na faculdade de Direito, ela se divorciou e me escreveu uma longa carta, com pelo menos dez páginas, contando como tudo acontecera, como fora complicado, como poderia ter sido melhor se ela ao menos conseguisse ter um filho.
Perguntou-me se eu podia ir visitá-la, mas perder uma semana na faculdade de Direito é como perder um semestre no curso de belas-artes. Aqueles caras são como galgos de corrida: se a gente perde de vista a pequena lebre mecânica, fica fora do páreo.
Kitty mudou-se para Los Angeles e tornou a casar-se. Quando seu segundo casamento terminou, eu já terminara a faculdade. Recebi outra carta, mais curta, mais amargurada.
Nela, Kitty dizia que jamais se deixaria prender naquele carrossel. Era uma armadilha.
O único meio de se conseguir a aliança de latão era cair do cavalo e quebrar a cabeça.
Se fosse preciso pagar tal preço para um passeio gratuito, quem haveria de desejá-lo?
PS: Pode vir visitar-me, Larry? Já faz muito tempo.
Respondi a carta, dizendo que gostaria muito de ir, mas não podia. Eu arranjara emprego numa firma importante. Era um novato em posição inferior: muito trabalho e nenhum crédito. Se quisesse galgar o degrau seguinte, teria que ser naquele ano. E foi a minha longa carta: só falava da minha carreira.
Eu respondia todas as cartas de Kitty, mas não conseguia acreditar que fosse ela quem as escrevia, da mesma forma que não conseguia acreditar que o monte de feno estava lá embaixo... até que ele amortecia o baque de minha queda e me salvava a vida. Eu não podia acreditar que minha irmã e a mulher derrotada que se assinava Kitty, no meio de uma circunferência, no final daquelas cartas fossem realmente a mesma pessoa. Minha irmã era uma garota de Maria Chiquinha, ainda desprovida de seios.
Foi ela quem parou de escrever. Passei a receber cartões de Natal e de aniversário, que minha esposa respondia. Então, eu me divorciei, mudei de endereço e simplesmente esqueci. No Natal e aniversário seguintes os cartões chegaram por causa do aviso de mudança de endereço que eu deixara no correio. A primeira mudança. E eu continuava a pensar: Puxa, tenho que escrever para Kitty e avisar que me mudei. Mas nunca escrevi.
Mas, como eu já lhes disse, esses são fatos sem significação. As únicas coisas importantes são que crescemos e ela se jogou de cima daquele edifício, e o fato de ser Kitty quem sempre acreditava que o feno estivesse lá embaixo. Fora Kitty quem dissera: "Eu sabia que você devia estar fazendo alguma coisa para dar um jeito". Essas coisas interessam. E a carta de Kitty.
Hoje em dia as pessoas se mudam com tanta freqüência que é engraçado como aqueles endereços riscados e etiquetas de mudança de endereço nos envelopes das cartas podem parecer acusações. Kitty escreveu o endereço do remetente no canto esquerdo superior do envelope, o local onde residiu até saltar do edifício. Um apartamento muito bom e bonito em Van Nuys. Papai e eu fomos até lá buscar as coisas dela. A senhoria foi delicada. Gostava de Kitty.
A carta fora colocada no correio duas semanas antes da morte de Kitty. Teria chegado às minhas mãos muito antes, se não fossem as mudanças de endereço. Kitty deve ter-se cansado de esperar resposta.
Querido Larry,
"Tenho pensado muito a respeito ultimamente... e cheguei à conclusão de que teria sido melhor para mim se aquele último degrau se quebrasse antes que você pudesse colocar o feno lá embaixo.
Sua
Kitty"
Sim, sei que ela deve ter-se cansado de esperar. Prefiro acreditar nisso que julgar que ela chegou à conclusão de que eu a esquecera. Eu não desejaria que ela pensasse assim, porque aquela simples frase talvez fosse a única coisa que me fizesse ir correndo para junto dela.
Contudo, nem mesmo isso é o motivo pelo qual agora encontro tanta dificuldade para dormir. Quando fecho os olhos e começo a pegar no sono, vejo-a pulando lá da viga, os olhos bem abertos e azuis, o corpo arqueado para trás, os braços estendidos.
Foi ela quem sempre soube que o feno estaria lá.

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