O Fantasma

― Vim porque desejo contar-lhe minha história ― disse o homem deitado no sofá do Dr. Harper.
O homem era Lester Billings, de Waterbury, Connecticut. De acordo com os dados anotados pela Enfermeira Vickers, tinha vinte e oito anos de idade, era empregado de uma firma industrial em Nova York, divorciado e pai de três filhos. Todos falecidos.
― Não posso procurar um padre porque não sou católico. Não posso procurar um advogado porque não tenho motivo algum para contratar um advogado. Tudo que fiz foi matar meus filhos. Um de cada vez. Matei-os todos.
O Dr. Harper ligou o gravador.
Billings estava deitado reto como uma vara no sofá, sem relaxar um único centímetro do corpo. Seus pés sobravam rigidamente sobre a beirada. A figura de um homem suportando uma humilhação necessária. Tinha as mãos cruzadas sobre o peito, como um cadáver. O rosto estava cuidadosamente composto. Fitava o teto liso e branco como se visse cenas e quadros projetados nele.
― Quer dizer que realmente os matou, ou...
― Não ― um leve gesto impaciente com a mão. ― Mas fui responsável. Denny em
1967.
Shirl em 1971.E Andy este ano. Quero lhe contar tudo a respeito.
O Dr. Harper permaneceu calado. Achava que Billings parecia abatido e envelhecido.
Os cabelos ralos, a pele descorada. Os olhos continham todos os miseráveis segredos do uísque.
― Foram assassinados, entende? Só que ninguém acredita nisso. Se acreditassem, tudo estaria bem.
― Por quê?
― Porque...
Billings interrompeu-se e se ergueu nos cotovelos, olhando através da sala.
― O que é aquilo? ― perguntou rispidamente, os olhos apertando-se até serem meras fendas entre as pálpebras.
― O quê?
― Aquela porta?
― O armário embutido ― disse o Dr. Harper. ― Onde penduro o sobretudo e guardo as galochas.
― Abra. Quero ver.
O Dr. Harper levantou-se sem uma só palavra, atravessou a sala e abriu o armário. Lá dentro, um sobretudo castanho-amarelado pendurado num dos quatro ou cinco cabides.
Embaixo dele, um par de galochas brilhantes. O The New York Times fora cuidadosamente enfiado numa delas. Nada mais.
― Tudo bem? ― indagou o Dr. Harper.
― Tudo bem ― replicou Billings, deixando de apoiar-se nos cotovelos e voltando à posição anterior.
― Você estava dizendo ― disse o Dr. Harper enquanto regressava à poltrona ― que se o assassinato de seus três filhos pudesse ser comprovado, todos os seus problemas cessariam. Por quê?
― Eu iria para a cadeia ― replicou Billings de imediato. ― Pelo resto da vida. E numa cadeia pode-se ver o interior de todos os quartos. De todos.
Sorriu para ninguém.
― Como seus filhos foram assassinados?
― Não tente arrancar isso de mim à força!
Billings virou-se para fitar maleficamente o Dr. Harper.
― Eu contarei, não se preocupe. Não sou um dos seus malucos passeando por aí e fingindo ser Napoleão ou explicando que me viciei em heroína porque minha mãe não me amava. Sei que não acreditará em mim. Não me importo. Não faz diferença. Apenas contar será suficiente.
― Muito bem ― disse o Dr. Harper, pegando seu cachimbo.
― Casei-me com Rita em 1965 ― eu tinha vinte e um anos e ela dezoito. Estava grávida. de Denny.
Seus lábios se crisparam num sorriso retorcido e assustador, que desapareceu num piscar de olhos.
― Fui obrigado a abandonar os estudos e arranjar emprego, mas não me importei.
Amava-os ambos. Éramos muito felizes.
― Rita tornou a engravidar pouco depois que Denny nasceu e Shirl veio ao mundo em dezembro de 1966. Andy nasceu no verão de 1969 e Denny já estava morto nessa época. Andy foi um descuido. Era o que Rita dizia. Afirmava que às vezes esse negócio de controle de natalidade não funciona direito. Creio que foi algo mais que um descuido. Filhos prendem um homem, o senhor sabe. As mulheres gostam disso, especialmente quando o
homem é mais inteligente que elas. Não acha que é verdade?
Harper soltou um grunhido neutro.
― Não importa, porém. De todo modo, eu o amava.
Billings fez a declaração num tom quase vingativo, como se amasse o filho para fazer raiva à mulher.
― Quem matou as crianças? ― perguntou Harper.
― O fantasma ― replicou imediatamente Lester Billings. ― O fantasma matou-as todas.
Saía do armário e as matava.
Virou-se e sorriu.
― O senhor acha mesmo que sou maluco. Está escrito em sua cara. Mas não me incomodo. Tudo o que desejo fazer é contar e sumir.
― Estou escutando ― disse Harper.
― Tudo começou quando Denny tinha quase dois anos e Shirl ainda era bebê. Ele começou a chorar quando Rita o colocava na cama para dormir. Tínhamos apenas dois quartos, entende? Shirl dormia num berço em nosso quarto. A princípio, julguei que ele chorasse porque já não tinha uma mamadeira para levar consigo para a cama. Rita me disse que não fizesse drama, que o deixasse levar a mamadeira e ele acabaria por deixá-la de lado no devido tempo. Mas é assim que as crianças ficam mal acostumadas. Se formos permissivos demais, elas se tornam mimadas. Então, fazem-nos sofrer.
Engravidam alguma pequena, sabe, ou começam a tomar tóxicos. Ou viram veados. Já imaginou acordar um certo dia e descobrir que seu garoto ― o seu filho ― é bicha?
― Depois de algum tempo, porém, quando ele não parou, passei a colocá-lo na cama eu mesmo. E se ele não parasse de chorar, eu lhe dava uma palmada. Então, Rita disse que ele não parava de repetir "luz". Bem, eu não sabia. Crianças daquele tamanho, como podemos saber o que estão dizendo? Só a mãe pode saber.
― Rita queria instalar uma luz noturna. Um daqueles abajures com o Camundongo Mickey ou o Pateta ou algo semelhante. Não permiti. Se um garoto não aprende a perder o medo do escuro quando ainda é pequeno, nunca mais perderá.
― De qualquer maneira, ele morreu no verão seguinte ao nascimento de Shirley. Naquela noite, eu o coloquei na cama e ele começou a chorar imediatamente. Dessa vez, escutei o que disse. Apontou para o armário quando falou. "Fantasma", disse o garoto.
"Fantasma, Papai."
― Apaguei a luz, fui para o nosso quarto e perguntei a Rita por que ela resolveu ensinar ao menino uma palavra como aquela. Fiquei tentado a dar-lhe umas bofetadas, mas não dei. Ela afirmou que nunca o ensinara a dizer aquilo. E eu a chamei de maldita mentirosa.
― Foi um péssimo verão para mim, entende? O único emprego que consegui foi carregar caminhões de Pepsi-Cola num armazém e passava o tempo todo cansado. Shirl acordava e chorava todas as noites, de modo que Rita a pegava no colo para niná-la. Vou-lhe contar, às vezes eu sentia ímpetos de atirá-las ambas pela janela. Meu Deus, às vezes as crianças nos deixam loucos. Eu seria capaz de matá-las.
― Bem, a garotinha me acordou às três da manhã, bem no horário de costume. Ainda meio adormecido, fui ao banheiro e Rita me pediu que desse uma espiada em Denny.
Respondi-lhe que ela mesmo o fizesse e voltei para cama. Já estava quase dormindo quando ela começou a gritar.
― Levantei-me e fui até lá. O menino estava deitado de costas, morto. Branco como farinha de trigo, exceto onde o sangue tinha... tinha afundado. Na parte posterior das pernas, na cabeça, na bun... nas nádegas. Tinha os olhos abertos. Isso foi o pior, sabe?
Esbugalhados e vidrados, como os olhos que vemos nas cabeças empalhadas dos
troféus de caça que alguns colocam acima da lareira. Como as fotografias daqueles garotos mortos no Vietnã. Mas um garoto americano não devia ficar assim. Morto de costas.
Usando fraldas e calcinhas de borracha, porque começara a urinar-se novamente nas duas últimas semanas. Horrível. Eu amava aquele menino.
Billings sacudiu lentamente a cabeça e depois exibiu o mesmo sorriso contorcido e assustador.
― Rita estava quase morrendo de tanto gritar. Tentou pegar Benny no colo e embalá-lo, mas não permiti. Os tiras não gostam que a gente toque nas provas. Sei que...
― Você já sabia que era o fantasma, na época? ― indagou Harper em voz baixa.
― Oh, não. Naquela época, não. Mas vi uma coisa. Na ocasião, não significou muito para mim, mas minha mente arquivou-a.
― O que foi?
― A porta do armário estava aberta. Não muito. Apenas uma fresta. Mas eu sabia que a fechara, entende? Lá dentro havia sacos plásticos da lavanderia. Uma criança mexe naquilo e pronto: asfixia. Sabe disso?
― Sim. O que aconteceu, então?
Billings sacudiu os ombros.
― Nós o enterramos.
Olhou morbidamente para as mãos que haviam lançado terra em três pequenos caixões.
― Houve algum inquérito?
― Claro ― os olhos de Billings faiscaram com um brilho sardônico. Um maldito caipira com um estetoscópio e uma maleta negra cheia de balas de hortelã e um casaco de pele de carneiro conseguida em alguma faculdade de veterinária. Morte de berço, disse ele!
Já escutou semelhante monte de merda? O garoto tinha três anos!
― A morte de berço é muito comum durante o primeiro ano ― disse cautelosamente Harper. ― Todavia, esse diagnóstico consta de atestados de óbito de crianças até a idade de cinco anos, por falta de um melhor...
― Merda! ― berrou valentemente Billings.
Harper tornou a acender o cachimbo.
― Um mês depois do enterro, passamos Shirl para o antigo quarto de Denny. Rita resistiu com unhas e dentes, mas a última palavra foi minha. Doeu-me, claro que sim. Deus, como eu gostava de ter a garotinha em nosso quarto. Mas não devemos ser superprotetores. Assim, mutilamos a criança. Quando eu era menino, minha mãe costumava levar-me à praia e depois ficava rouca de tanto gritar: "Não vá tão longe! Aí é muito fundo! Tem correnteza! Aí não dá pé!" Até mesmo mantinha-se alerta contra tubarões, juro por Deus. Hoje em dia, nem consigo chegar perto do mar. Uma vez, quando Denny ainda era vivo, Rita me obrigou a levar a família à praia em Savin Rock.
Fiquei enjoado como um cão. Eu sei, entende? Não devemos superproteger as crianças.
E também não mimá-los. A vida continua. Shirl foi direto para o berço de Denny.
Jogamos o colchão de Denny no lixo. Eu não queria que minha filha pegasse micróbios.
― Assim, um ano se passou. E uma noite, quando eu botava Shirl na cama para dormir, ela começou a chorar e berrar. "Fantasma, Papai! Fantasma, fantasma!"
― Aquilo me sobressaltou. Era exatamente como Denny. E comecei a lembrar-me daquela porta do armário, apenas entreaberta quando o encontramos. Tive vontade de levá-la para nosso quarto naquela noite
― E levou?
― Não ― disse Billings, olhando para as mãos e contorcendo o rosto. ― Como eu
poderia enfrentar Rita e admitir que estava errado? Eu tinha que ser forte. Ela sempre foi tão molenga... veja com que facilidade foi para a cama comigo quando ainda não éramos casados.
Harper disse:
― Em compensação, veja com que facilidade você foi para a cama com ela.
Billings imobilizou-se no ato de recruzar as mãos e virou lentamente a cabeça para encarar Harper.
― Está querendo bancar o engraçadinho?
― Certamente que não ― replicou Harper.
― Então, deixe-me contar à minha maneira ― disse Billings, irritado. ― Vim aqui para desabafar. Para contar minha história. Não falarei de minha vida sexual, se é isso que está querendo. Rita e eu tínhamos uma vida sexual muito normal, sem nenhuma dessas sujeiras. Sei que algumas pessoas se excitam ao falar no assunto, mas não sou uma delas.
― Está bem ― disse Harper.
― Muito bem ― replicou Billings com nervosa arrogância. Parecia haver perdido o fio dos pensamentos e seus olhos procuraram inquietamente a porta do armário, que estava bem fechada.
― Gostaria que eu abrisse aquela porta? ― indagou Harper.
― Não! ― respondeu Billings depressa. Passou a mão na testa, como se tentasse colocar as recordações em ordem. ― Para que desejaria olhar para suas galochas? ― e soltou uma risadinha nervosa.
― O fantasma pegou Shirl também ― prosseguiu ele. ― Um mês depois. Mas algo aconteceu antes disso. Certa noite, ouvi um barulho lá dentro. Então, ela gritou. Abri a porta muito depressa ― a luz do corredor estava acesa ― e... ela estava sentada no berço, chorando, e... alguma coisa se mexeu. Nas sombras, perto do armário. Alguma coisa se esgueirou.
― A porta do armário estava aberta?
― Um pouco; só uma fresta ― respondeu Billings, umedecendo os lábios com a língua. ― Shirl estava gritando alguma coisa a respeito do fantasma. E disse algo mais a respeito do que me soou como "garras". Só que ela disse "galas". Crianças pequenas encontram dificuldade com o som do "r". Rita subiu correndo e perguntou o que havia. Respondi que a menina se assustara com as sombras dos galhos movendo-se no teto.
― Gala? ― disse Harper.
― Hem?
― Gala... Estaria ela, de algum modo, referindo-se ao armário?
― Talvez ― disse Billings. ― Poderia ser isso. Mas creio que foi "garras".
Seu olhar procurou outra vez a porta do armário. ― Garras. Garras compridas ― sua voz sumiu num sussurro. ― Você olhou dentro do armário?
― S-sim ― disse Billings, com as mãos fortemente cruzadas sobre o peito; a força era suficiente para deixar os nós dos dedos esbranquiçados.
― Havia alguma coisa lá dentro? Você viu o...
― Não vi nada! ― berrou bruscamente Billings.
Então, as palavras jorraram aos borbotões, como se uma rolha negra fosse retirada da garrafa de sua alma:
― Quando ela morreu eu a encontrei, entende? E ela estava toda preta. Toda. Engolira a própria língua e estava tão preta quanto um negro num espetáculo teatral. E olhava para mim. Seus olhos pareciam aqueles que vemos em animais empalhados, brilhantes e horríveis, como bolas de gude vivas, e diziam: "Ele me pegou, Papai. Você deixou ele me pegar. Você me matou. Você ajudou a me matar..."
Sua voz foi sumindo aos poucos. Uma única lágrima, muito grande e silenciosa,
escorreu-lhe pelo lado do rosto.
― Foi uma convulsão cerebral, entende? As crianças são acometidas por ela, às vezes.
Um sinal errado partido do cérebro. Fizeram uma autópsia no Hospital de Hartford e disseram que, devido à convulsão, ela engolira a própria língua, morrendo asfixiada. E tive que voltar para casa sozinho porque precisaram manter Rita no hospital, sob a ação de sedativos. Ela estava fora de si. Tive que voltar para casa sozinho e sei que uma criança não tem convulsões simplesmente porque o cérebro pifou. É possível amedrontar uma criança até provocar uma convulsão. E eu tive que voltar para a casa onde ele estava.
Em seguida, murmurou:
― Dormi no sofá da sala. Com a luz acesa.
― Aconteceu alguma coisa?
― Tive um sonho ― disse Billings. ― Eu estava num quarto escuro e havia alguma coisa que eu não conseguia... que eu não conseguia ver direito, dentro do armário. Lembrou me uma estória em quadrinhos que li quando criança. Estórias da Cripta, recorda-se?
Jesus Cristo! Tinha um sujeito chamado Graham Innes; era capaz de atrair qualquer coisa deste mundo ― e algumas de fora. De qualquer modo, na estória uma mulher afogou o marido, entende? Pôs blocos de cimento nos pés dele e o atirou no poço de uma pedreira. Só que ele voltou. Todo apodrecido, verde-escuro, e os peixes lhe tinham comido um dos olhos; havia algas em seus cabelos. Ele voltou e matou a mulher. E quando acordei no meio da noite, pensei que ele estava debruçado sobre mim. Com garras... garras compridas...
O Dr. Harper olhou para o relógio digital embutido em sua mesa de trabalho. Lester
Billings estivera falando durante quase meia hora.
― Quando sua esposa voltou para casa, que atitude assumiu em relação a você?
― Ela ainda me amava ― respondeu Billings com orgulho. ― Ainda queria fazer o que eu mandava. Esse é o lugar da esposa, certo? Esse women's lib só resulta em pessoas doentes. A coisa mais importante na vida é uma pessoa conhecer seu lugar. Sua... sua... bem...
― Sua posição na vida?
― É isso aí! ― exclamou Billings, estalando os dedos. ― É exatamente isso. E uma mulher deve acompanhar o marido. Oh, ela ficou um tanto desbotada, por assim dizer, nos quatro ou cinco meses seguintes... arrastava os pés pela casa, não assistia à televisão, não cantava, não ria. Eu sabia que ficaria boa. Quando as crianças são tão pequenas, os pais não se apegam tanto a elas. Depois de algum tempo, é preciso abrir uma gaveta e olhar uma fotografia para conseguir lembrar exatamente como elas eram.
― Rita queria outro filho ― acrescentou ele sombriamente. ― Eu lhe disse que era má idéia.
Oh, não para sempre, mas durante algum tempo. Disse-lhe que era tempo de nos recuperarmos e começarmos a aproveitarmos mutuamente. Nunca tivéramos oportunidade de fazer isso antes. Se quiséssemos ir a um cinema, tínhamos que arranjar alguém para cuidar das crianças. Não podíamos ir à cidade ver os Mets jogarem, a menos que os pais dela ficassem com as crianças, pois minha mãe não queria nada conosco. Denny nasceu pouco depois de nos casarmos, entende? Minha mãe dizia que Rita era uma vagabunda, uma vigarista de esquina. Vigaristas de esquina, era assim que minha mãe sempre as chamava. Não é uma piada? Uma vez ela me obrigou a sentar e falou-me das doenças que um homem pode contrair de uma vi... de uma prostituta.
Como o ca... o pênis aparece com uma feridinha num dia e está todo podre no dia seguinte. Ela nem mesmo compareceu ao nosso casamento.
Billings tamborilou com os dedos no peito.
― O ginecologista de Rita vendeu-lhe a idéia de usar um DIU dispositivo intra-
uterino.
Infalível, afirmou ele. Basta enfiá-lo na... no lugar da mulher e pronto. Se houver alguma coisa lá dentro, o óvulo não consegue fertilizar-se. A pessoa nem mesmo sente que tem alguma coisa dentro.
Ele sorriu com sombria doçura.
― Ninguém sabe se a coisa está ou não lá dentro. E no ano seguinte Rita ficou grávida.
Que infalibilidade!
― Nenhum método de controle de natalidade é perfeito ― disse Harper. ― A pílula tem apenas noventa por cento de eficiência. O DIU pode ser expulso por cólicas, fluxo menstrual abundante e, em casos excepcionais, pelo esforço da evacuação.
― Sim. E também pode ser retirado.
― É possível.
― E o que acontece em seguida? Ela fica tricotando roupinhas, cantando no chuveiro e comendo picles como uma louca. Sentando-se no meu colo para dizer que talvez fosse pela vontade divina. Merda.
― O bebê nasceu no final do ano após a morte de Shirl?
― Exatamente. Um menino. Rita deu-lhe o nome de Andrew Lester Billings. Eu não quis saber dele, pelo menos a princípio. Meu lema era: ela o arranjou, portanto tome conta dele. Sei como isto pode soar, mas o senhor precisa compreender que passei por maus bocados.
― Mas acabei gostando dele, entende? Em primeiro lugar, foi o único de nossa prole que saiu parecido comigo. Denny se parecia com a mãe e Shirl não se parecia com ninguém, exceto, talvez, minha avó Ann. Mas Andy era minha imagem escarrada.
― Eu ia brincar com ele no cercado quando chegava em casa do trabalho. Ele agarrava meu dedo, sorria e gargarejava. Com apenas nove semanas de idade o garoto já sorria para o velho pai. Acredita?
― Então, certa noite, lá estou eu saindo de uma farmácia com um brinquedo para pendurar no berço do garoto. Eu! As crianças não apreciam brinquedos até terem idade suficiente para dizer "muito obrigado" este sempre foi o meu lema. Mas lá estava eu, comprando aquela bugiganga e, de repente, compreendendo que o amava mais que aos outros. Nessa época eu tinha outro emprego, muito bom, vendendo brocas de perfuração da Cluett & Sons. Dei-me muito bem e, quando Andy completou um ano, nós nos mudamos para Waterbury. A velha casa trazia muitas recordações desagradáveis.
― E tinha armários demais.
― Aquele ano seguinte foi o melhor para nós. Eu daria todos os dedos da mão direita para tê-lo de volta. Oh, a guerra no Vietnã continuava e os hippies ainda andavam sem roupa por aí, os negros faziam algazarra, mas nada disso nos incomodava. Morávamos numa rua tranqüila, com bons vizinhos. Éramos felizes ― resumiu Billings. ― Uma vez, perguntei a Rita se ela não estava preocupada. O senhor sabe, o azar anda por toda parte. Ela respondeu que não se preocupava por nossa causa. Disse que Andy era especial. Que Deus erguera uma muralha de proteção em volta dele.
Billings fitou morbidamente o teto.
― O ano passado não foi tão bom. Algo na casa mudou. Passei a deixar as botas no corredor, porque já não gostava de abrir a porta do armário embutido. Pensava sempre: ora, e se o fantasma estiver lá dentro? E começava a imaginar que ouvia barulhos esquisitos, como se algo negro e verde, molhado, se mexesse lá dentro.
― Rita indagou se eu andava trabalhando demais e passei a ser ríspido com ela, como nos velhos tempos. Chegava a ficar enjoado por ter que deixá-los sozinhos em casa ao ir para o trabalho, mas alegrava-me precisar sair. Deus me perdoe, mas eu ficava satisfeito
por sair. Comecei a pensar, sabe, que o fantasma se perdeu de nós durante algum tempo quando nos mudamos. Foi obrigado a caçar-nos, esgueirando-se pelas ruas à noite e talvez se arrastando pelos esgotos. Farejando-nos. Demorou um ano, mas encontrounos.
Quer Andy e me quer, também. Comecei a pensar: talvez quando pensamos bastante tempo em alguma coisa e acreditamos nela, ela se tome real. Talvez todos os monstros de que tínhamos medo em criança, Frankenstein, o Lobisomem e Mamãe, fossem reais. Bastante reais para matarem meninos que todos acreditavam terem caído em buracos, morrido afogados em lagos ou simplesmente desaparecido. Talvez...
― Está esquivando-se de alguma coisa, Sr. Billings?
Billings passou muito tempo calado; dois minutos se escoaram, pelo relógio digital.
Então, ele disse abruptamente:
― Andy morreu em fevereiro. Rita não estava em casa. Recebera um chamado do pai. A mãe dela sofrera um acidente de automóvel no dia seguinte ao Ano Novo e estava à morte. Rita tomou um ônibus naquela mesma noite.
― A mãe não morreu mas esteve em perigo de vida durante muito tempo: dois meses.
Contratei uma mulher ótima, que ficava com Andy durante o dia. E ficávamos juntos à noite. E as portas dos armários embutidos estavam sempre se abrindo.
Billings umedeceu os lábios com a língua.
― O garoto dormia no meu quarto. É curioso, também. Uma vez, quando ele tinha dois anos, Rita me perguntou se eu desejava mudá-lo para outro quarto. Spock ou algum daqueles outros charlatães alega que é prejudicial às crianças dormirem com os pais, entende? Diz que causa traumas relativos ao sexo e tudo o mais. Mas nunca fazíamos sexo a menos que o garoto estivesse dormindo. E eu não queria mudá-lo de quarto.
Tinha medo, depois do que aconteceu a Danny e Shirl.
― Mas mudou-o, não é mesmo? ― indagou o Dr. Harper.
― Sim ― respondeu Billings com um sorriso doente e amarelo. Mudei-o.
Outro silêncio. Billings pareceu lutar contra ele.
― Tive que mudar! ― bradou finalmente. ― Tive! Tudo estava bem enquanto Rita ficou em casa, mas depois que ela partiu o fantasma se tornou atrevido. Começou a... ― Billings rolou os olhos para Harper e exibiu os dentes num sorriso selvagem. ― Oh, você não vai acreditar. Sei o que pensa: sou mais um maluco para seus registros. Sei disso, mas você não esteve lá, seu maldito bisbilhoteiro.
― Uma noite, todas as portas da casa se escancararam. De manhã, levantei-me e encontrei um rastro de lama e sujeira no corredor, entre o armário embutido dos casacos e a porta da frente. O fantasma saíra? Entrara? Não sei! Juro por Deus, não sei! Discos arranhados e cobertos de lama, espelhos quebrados... e os barulhos... os barulhos...
Passou a mão pelos cabelos.
― Eu acordava às três da manhã, olhava para a escuridão e dizia a princípio: "É apenas o relógio." Mas, além disso, escutava algo que se movia furtivamente. Contudo, não furtivamente demais, pois queria que eu escutasse. Um barulho úmido e escorregadio, como algo escorrendo no ralo da cozinha. Ou estalidos, como garras arranhando levemente o corrimão da escada. E eu fechava os olhos, sabendo que era ruim escutar aquilo, mas pior seria ver...
― E sempre tinha medo de que os ruídos cessassem durante algum tempo e, depois, uma gargalhada explodisse em meu rosto, ou um hálito com cheiro de repolho podre, e mãos me apertassem a garganta.
Billings estava pálido, trêmulo.
― Portanto, mudei Andy de quarto. Sabia que o fantasma iria buscá-lo, entende? Por que ele era o mais fraco. E foi o que aconteceu. Logo na primeira noite, o garoto gritou
de madrugada e, finalmente, quando tive cojones para entrar no quarto, encontrei-o em pé na cama, berrando: "Papai... fantasma... quero ir com Papai, ir com Papai."
A voz de Billings ficou muito aguda, como a de uma criança; ele deu a impressão de murchar no sofá.
― Mas eu não pude ― continuou, no mesmo tom agudo e trêmulo. Não pude. E uma hora mais tarde escutei outro grito. Um grito horrível, gorgolejante. E compreendi o quanto eu o amava, pois corri para o quarto e nem mesmo acendi a luz. Corri, corri, corri... Oh, meu Jesus, o fantasma o pegara; sacudia-o, como um cão sacode um trapo... Pude ver algo horrível, com ombros curvados e cabeça de espantalho... Senti um cheiro terrível, como o de um camundongo morto numa garrafa vazia... E escutei...
A voz de criança morreu aos poucos. De repente, voltou ao tom adulto:
― Escutei o pescoço de Andy partir-se ― a voz era fria, inexpressiva. ― Um barulho semelhante ao do gelo se quebrando sob um patinador durante o inverno.
― Então, o que aconteceu?
― Oh, eu fugi ― respondeu Billings na mesma voz fria e inexpressiva. ― Fui para um restaurante que ficava aberto a noite inteira. Que tal isso como exemplo de covardia?
Corri para o restaurante e tomei seis xícaras de café. Depois, voltei para casa. O dia já raiava. Chamei a polícia antes mesmo de subir. Andy estava caído no chão, fitando-me.
Acusando-me. Um filete de sangue lhe escorria do ouvido. Só uma gota, na verdade. E a porta do armário estava aberta ― só uma fresta.
A voz se calou. Harper olhou para o relógio digital. Cinqüenta minutos haviam transcorrido.
― Marque hora com a enfermeira ― disse ele. ― Na realidade, marque várias consultas. Às terças e quintas estará bem?
― Só vim contar minha história ― disse Billings. ― Desabafar, Menti à polícia, entende?
Disse-lhes que o garoto devia ter tentado sair do berço durante a noite... Eles engoliram.
Claro que engoliram. Era o que parecia. Mas Rita sabia. Rita... finalmente... sabia...
Cobriu os olhos com o braço direito e começou a chorar.
― Sr. Billings, temos muito sobre que conversarmos ― disse o Dr. Harper após um intervalo. ― Creio que poderei remover parte do seu sentimento de culpa, mas antes é preciso que o senhor deseje livrar-se dele.
― O senhor não acredita que eu deseje? ― exclamou Billings, tirando o braço dos olhos vermelhos, inchados, magoados.
― Ainda não ― replicou Harper tranqüilamente. ― Terças e quintas?
Após prolongado silêncio, Billings resmungou:
― Maldito charlatão. Está bem. Está bem.
― Marque hora com a enfermeira, Sr. Billings. E passe um bom dia.
Billings riu ocamente e saiu depressa do consultório, sem olhar para trás.
A mesa da enfermeira estava vazia. Um pequeno aviso colocado sobre o mata-borrão dizia: "Voltarei num minuto."
Billings deu meia-volta e entrou no consultório.
― Doutor, a enfermeira...
A sala estava vazia.
Mas a porta do armário embutido estava aberta. Só uma fresta.
― Ótimo ― disse a voz dentro do armário. ― Ótimo.
As palavras soavam como se tivessem passado entre lábios cheios de algas marinhas apodrecidas.
Billings permaneceu pregado ao chão quando a porta do armário se escancarou.
Sentiu vagamente um calor nas pernas ao urinar-se.
― Ótimo ― disse o fantasma, saindo do armário com andar trôpego.
Ainda trazia a máscara do Dr. Harper na mão descamada, de garras compridas.
* * *
O HOMEM QUE ADORAVA FLORES
No início de uma noite de maio de 1963, um jovem com a mão no bolso subia energicamente a Terceira Avenida em Nova York. O ar era suave e lindo, o céu escurecia gradativamente de azul para o belo e tranqüilo violeta do crepúsculo. Existem pessoas que amam a metrópole e aquela era das noites que motivavam esse amor. Todos os que estavam parados às portas das confeitarias, lavanderias e restaurantes pareciam sorrir. Uma velha empurrando dois sacos de verduras num velho carrinho de bebê sorriu para o jovem e o cumprimentou
― Oi, lindo! O jovem retribuiu com um leve sorriso e ergueu a mão num aceno. Ela seguiu caminho, pensando: Ele está apaixonado.
O jovem tinha aquela aparência. Usava um temo cinza-claro, a gravata estreita ligeiramente frouxa no colarinho, cujo botão estava desabotoado. Tinha cabelo escuro, cortado curto. Pele clara, olhos azuis-claros. Não era um rosto marcante, mas naquela suave noite de primavera, naquela avenida, em maio de 1963, ele era lindo e a velha refletiu com instantânea e doce nostalgia que na primavera qualquer pessoa pode ser linda... se estiver indo às pressas encontrar-se com a pessoa de seus sonhos para jantar e, talvez, depois dançar. A primavera é a única estação em que a nostalgia parece nunca tornar-se amarga e a velha seguiu seu caminho satisfeita por haver cumprimentado o rapaz e alegre por ele haver retribuído o cumprimento erguendo a mão num aceno.
O jovem atravessou a Rua 66 andando a passos ágeis e com o mesmo leve sorriso nos lábios. Na metade do quarteirão estava um velho junto a um surrado carrinho de mão cheio de flores ― cuja cor predominante era o amarelo; uma festa amarela de junquilhos e crocos. O velho também tinha cravos e algumas rosas de estufa, na maioria amarelas e brancas. Comia um doce e escutava um volumoso rádio transistorizado equilibrado de través no canto do carrinho.
O rádio difundia notícias ruins que ninguém escutava: um assassino que abatia as vítimas a martelo ainda estava à solta; John Fitzgerald Kennedy declarava que a situação num pequeno país asiático chamado Vietnã (que o locutor pronunciava "Vaitenum"), merecia ser observada com atenção; o cadáver de uma mulher não identificada fora retirado do East River; um júri de cidadãos deixara de pronunciar um manda-chuva do crime, na campanha movida pelas autoridades municipais contra o tráfico de tóxicos; os soviéticos tinham explodido uma bomba nuclear. Nada daquilo parecia real, nada daquilo parecia importante. O ar era suave e gostoso. Dois homens com barrigas de bebedores de cerveja estavam à porta de uma padaria, jogando níqueis e gozando-se mutuamente. A primavera estremecia na orla do verão e, na metrópole, o verão é a estação dos sonhos.
O jovem passou pelo carrinho de flores e o som das notícias ruins ficou para trás. Ele hesitou, olhou por cima do ombro, parou para pensar um momento. Enfiou a mão no bolso do paletó e apalpou mais uma vez algo que estava lá dentro. Por um instante, seu rosto pareceu intrigado, solitário, quase acossado. Então, ao retirar a mão do bolso, reassumiu a
expressão anterior de entusiástica expectativa.
Retornou ao carrinho de flores, sorrindo. Levaria algumas flores para ela, que gostaria.
Ele adorava ver os olhos dela faiscarem de surpresa e prazer quando lhe levava algum presente ― coisinhas simples, porque estava longe de ser rico. Uma caixa de bombons.
Uma pulseira. Certa vez, só uma dúzia de laranjas de Valência, pois sabia que eram as preferidas por Norma.
― Meu jovem amigo ― saudou o vendedor de flores ao ver o homem de terno cinzento voltar, correndo os olhos pelo estoque exposto no carrinho.
O vendedor devia ter sessenta e oito anos; usava um surrado suéter cinzento de tricô e um boné macio a despeito da noite morna. Seu rosto era um mapa de rugas, os olhos empapuçados. Um cigarro lhe tremia entre os dedos. Contudo, ele também se lembrava de como era ser jovem na primavera ― jovem e tão apaixonado que corria para todos os lados. Normalmente, a expressão no rosto do vendedor de flores era azeda, mas agora ele sorriu um pouco, assim como sorrira a velha que empurrava as compras no carrinho de bebê, porque aquele rapaz era deveras um caso óbvio. Limpando farelos de doce do peito da suéter larga, pensou: Se esse rapaz estivesse doente, certamente o manteriam no CTI.
― Quanto custam as flores? ― indagou o jovem.
― Preparo-lhe um belo buquê por um dólar. Aquelas rosas são de estufa, por isso um pouco mais caras. Setenta centavos cada uma. Vendo-lhe meia dúzia por três dólares e melo.
― Caras ― comentou o rapaz. ― Nada sai barato, meu jovem amigo. Sua mãe nunca lhe ensinou isso?
O jovem sorriu.
― Talvez tenha mencionado algo a respeito.
― Claro. Claro que ela ensinou. Dou-lhe meia dúzia de rosas: duas vermelhas, duas amarelas e duas brancas. Não possa fazer melhor que isso, posso? Colocarei uns raminhos de cipreste e umas folhas de avenca ― elas adoram. Ótimo. Ou prefere o buquê por um dólar?
― Elas? ― perguntou o rapaz, ainda sorrindo.
― Meu jovem amigo ― disse o vendedor de flores, jogando o cigarro na sarjeta e retribuindo o sorriso ―, em maio, ninguém compra flores para si mesmo. É uma lei nacional, entende o que quero dizer?
O rapaz pensou em Norma, em seus olhos felizes e surpresos, em seu doce sorriso, e meneou ligeiramente a cabeça.
― Creio que entendo, por sinal.
― Claro que entende. O que me diz, então?
― Bem, o que você acha?
― Vou-lhe dizer o que acho. Ora! Conselhos ainda são gratuitos, não são?
O rapaz tornou a sorrir e disse:
― Creio que é a única coisa gratuita que resta no mundo.
― Pode ter absoluta certeza disso ― declarou o vendedor de flores. Muito bem, meu jovem amigo. Se as flores forem para sua mãe, leve para ela o buquê. Alguns junquilhos, alguns crocos, alguns lírios-do-vale. Ela não estragará tudo, dizendo: "Oh, meu filho, adorei as flores, mas quanto custaram? Oh, é muito caro. Será que ainda não sabe que não deve desperdiçar seu dinheiro? "
O jovem jogou a cabeça para trás e riu.
O vendedor de flores continuou:
― Mas se forem para sua pequena, é muito diferente, meu filho, e você sabe muito
bem.
Leve-lhe rosas e ela não se transformará num guarda-livros, entende? Ora! Ela vai abraçar você pelo pescoço e...
― Levarei as rosas ― disse o rapaz.
Então, foi a vez de o vendedor de flores rir. Os dois homens que jogavam níqueis olharam para ele e sorriram.
― Ei, garoto! ― chamou um deles. ― Quer comprar barato uma aliança de casamento? Venderei a minha... não a quero mais.
O jovem sorriu, corando até as raízes dos cabelos escuros.
O vendedor de flores escolheu seis rosas de estufa, aparou os talos, borrifou-as com água e embrulhou-as num comprido pacote cônico.
― Hoje à noite o tempo será exatamente como você quer ― anunciou o rádio. ― Tempo bom e agradável, temperatura por volta dos vinte e um graus, perfeito para subir ao terraço e olhar as estrelas, se você for do tipo romântico. Aproveite, Grande Nova York, aproveite!
O vendedor de flores prendeu as bordas do papel com fita gomada e aconselhou o rapaz a dizer à namorada que um pouco de açúcar adicionado à água na jarra das rosas serviria para conservá-las frescas por mais tempo.
― Direi a ela ― prometeu o jovem entregando ao vendedor de flores uma nota de cinco dólares. ― Obrigado.
― É o meu serviço, meu jovem amigo ― respondeu o vendedor de flores, entregando ao rapaz o troco de um dólar e meio. Seu sorriso se tornou um pouco tristonho: ― Beije-a por mim.
No rádio, os Four Seasons começaram a cantar "Sherry". O rapaz continuou a subir a avenida, os olhos abertos e entusiasmados, bem alertas, olhando não tanto ao seu redor para a vida que fluía pela Terceira Avenida, mas para o interior e o futuro, na expectativa. Entretanto, determinadas coisas lhe causavam impressão: uma jovem mãe empurrando um bebê num carrinho, o rosto da criança comicamente lambuzado de sorvete; uma garotinha pulando corda e cantarolando: "Betty e Henry em cima da árvore, SE BEIJANDO! Primeiro vem o amor, depois o casamento e lá vem Henry com o bebê no carrinho, empurrando!" Duas mulheres conversavam em frente a uma lavanderia, trocando informações sobre a gravidez enquanto fumavam. Um grupo de homens olhava pela vitrina de uma loja de ferragens para uma imensa TV a cores com uma etiqueta de preço de quatro algarismos ― o aparelho mostrava um jogo de beisebol e os jogadores pareciam verdes. Um deles tinha cor de morango e os New York Mets estavam vencendo os Phillies pela contagem de seis a um no último tempo.
O rapaz prosseguiu, carregando as flores, sem perceber que as duas mulheres grávidas em frente à lavanderia tinham parado momentaneamente de conversar e o fitavam com olhos sonhadores quando ele passou com o embrulho; o tempo de receberem flores já terminara há muito para elas. Também não percebeu o jovem guarda de trânsito que parou os carros na esquina da Terceira Avenida com a Rua 69 para deixá-lo atravessar; o guarda era noivo e reconheceu a expressão sonhadora na fisionomia do rapaz por causa da imagem que via no espelho ao fazer a barba, onde vinha observando aquela mesma expressão ultimamente. Não percebeu as duas adolescentes que cruzaram com ele em sentido contrário e depois soltaram risadinhas.
Parou na esquina da Rua 73 e virou à direita. A rua era um pouco mais escura que as outras, ladeada por casas transformadas em prédios de apartamentos, com restaurantes italianos nos porões. Três quarteirões adiante, um jogo de beisebol de rua continuava animado à luz do anoitecer. O jovem não chegou até lá; depois de andar meio quarteirão, entrou numa travessa estreita.
Agora as estrelas tinham surgido no céu, cintilando levemente; a travessa era escura e cheia de sombras, com vagas silhuetas de latas de lixo. O jovem estava sozinho, agora... não, não totalmente. Um berro ondulante soou na penumbra avermelhada e ele franziu a testa. Era a canção de amor de um gato e isso nada tinha de lindo.
Andou mais devagar e consultou o relógio. Faltavam quinze para as oito e a qualquer momento Norma...
Então, avistou-a, vindo pelo quintal em direção a ele, usando calça comprida azulmarinho e uma blusa de marinheiro que fizeram o coração do rapaz doer. Era sempre uma surpresa avistá-la pela primeira vez, sempre um choque delicioso ― ela parecia tão jovem.
Agora, o sorriso dele brilhou ― radiante. Caminhou mais depressa.
― Norma! ― chamou ele.
Ela ergueu os olhos e sorriu, mas... quando se aproximou o sorriso murchou.
O sorriso do rapaz também tremeu um pouco e ele ficou momentaneamente inquieto. O rosto acima da blusa de marinheiro lhe pareceu subitamente difuso. Estava ficando escuro... estaria ele enganado? Certamente que não. Era Norma.
― Eu trouxe flores para você ― disse ele, feliz e aliviado, entregando-lhe o embrulho.
Ela o encarou por um momento, sorriu ― e devolveu as flores.
― Muito obrigada, mas está enganado ― declarou. ― Meu nome é...
― Norma ― sussurrou ele.
E tirou o martelo de cabo curto do bolso do paletó, onde o guardara durante todo o tempo.
― Elas são para você, Norma... sempre foi para você... tudo para você.
Ela recuou, o rosto um círculo branco difuso, a boca uma abertura negra, um O de pavor ― e não era Norma, pois Norma morrera há dez anos. E não fazia diferença. Porque ela ia gritar e ele golpeou com o martelo para conter o grito, para matar o grito. E quando desferiu a martelada, o embrulho de flores caiu-lhe da outra mão, abrindo-se e espalhando rosas vermelhas, amarelas e brancas perto das amassadas latas de lixo onde os gatos faziam um amor alienado no escuro, gritando de amor, gritando, gritando.
Ele golpeou com o martelo e ela não gritou, mas poderia ter gritado porque não era Norma, nenhuma delas era Norma, e ele golpeou, golpeou, golpeou com o martelo. Ela não era Norma e por isso ele golpeava com o martelo, como fizera cinco vezes anteriormente.
Sem saber quanto tempo depois, ele guardou o martelo de volta no bolso do paletó e recuou para longe da sombra escura estendida nas pedras do calçamento, para longe das rosas espalhadas perto das latas de lixo. Deu meia-volta e saiu da travessa estreita. Era noite fechada, agora. Os jogadores de beisebol tinham voltado para casa. Se existissem manchas de sangue em seu terno, elas não apareceriam por causa do escuro. Não no escuro daquela noite de final de primavera. O nome dela não era Norma mas ele sabia como era seu próprio nome. Era... era... Amor.
Chamava-se amor e perambulava pelas ruas escuras porque Norma o esperava. E ele a encontraria. Algum dia, em breve.
Começou a sorrir. A agilidade voltou-lhe ao andar quando ele desceu a Rua 73. Um casal de meia-idade sentado nos degraus do prédio onde morava observou-o passar de cabeça tombada para um lado, olhar distante, um leve sorriso nos lábios. Depois que ele passou, a mulher perguntou:
― Por que você nunca mais tem aquela aparência?
― Hem?
― Nada ― disse ela.
Mas observou o jovem de terno cinza desaparecer na escuridão da noite e refletiu
que se existia algo mais lindo que a primavera, era o amor dos jovens.

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