Novos Assassinatos na Galle Morgue

O inverno, decidiu Lewis, não era a estação dos velhos. A neve que cobria as
ruas de Paris com dez centímetros de espessura o gelava até a medula. O que de
menino tinha sido para ele uma alegria era agora uma maldição. Odiava-a com todo
seu coração, odiava os meninos que se atiravam bolas de neve (gritos, uivos,
lágrimas), odiava também os jovens amantes, ansiosos de que os surpreendessem em
pleno frenesi (gritos, beijos, lágrimas). Era incômodo e aborrecido, e desejou
encontrar-se em Fort Lauderdale, onde o sol estaria brilhando.
Mas o telegrama de Catherine, sem ser explícito, era urgente, e os laços de
amizade que os uniam não se quebraram durante quase cinqüenta anos. Estava ali por
ela e por seu irmão Phillipe. Por vulnerável que lhe parecesse seu sangue naquele país
gelado, era estúpido queixar-se. Tinha ido a uma entrevista com o passado, e teria ido
com a mesma rapidez e de tão boa vontade se Paris estivesse ardendo.
Além disso, era a cidade de sua mãe. Tinha nascido no bulevar Diderot em uma
época em que a cidade não estava lotada de arquitetos modernos nem de engenheiros
sociais. Agora, cada vez que Lewis voltava a Paris, preparava-se para uma nova
profanação. Admitiu que nos últimos tempos eram menos freqüentes. Na Europa a
recessão tinha acabado com o entusiasmo dos governos pelas escavadoras. Mas
ainda, ano após ano, casas formosas se transformavam em entulhos. Às vezes, ruas
inteiras vinham abaixo.
Até a Rua Morgue.
Naturalmente, duvidava-se que essa rua de má fama tinha existido, mas, à
medida que envelhecia, para Lewis parecia cada vez menos pertinente distinguir entre
realidade e ficção. Essa grande distinção era para os jovens, que ainda tinham que
enfrentar a vida. Para os velhos (e ele tinha setenta e três anos), a divisão era
puramente especulativa. Que importância tinha saber o que era certo e que falso, que
era real e o que era inventado? Para ele, tudo, as verdades e as meia verdades, eram
um só contínuo de história pessoal.
Talvez tivesse existido a Rua Morgue como Poe a descreveu em seu conto
imortal, ou talvez fosse pura invenção. Em qualquer caso, a célebre rua já não figurava
em nenhum lugar de Paris.
Possivelmente Lewis se sentia ligeiramente enganado por não ter encontrado
essa rua. Afinal, fazia parte de sua herança. Se as histórias que lhe tinham contado na
infância eram certas, os acontecimentos descritos nos assassinatos da Rua Morgue
tinham sido contados a Poe pelo seu avô. O orgulho de sua mãe era que seu pai se
encontrara com Poe enquanto viajava pela América. Ao que parecia, seu avô tinha sido
um viajante, descontente se não visitava uma cidade nova a cada semana. E no inverno
de 1835 esteve em Richmond, Virginia. Foi um inverno muito duro, ou melhor não muito
diferente de que padecia agora Lewis, e uma noite o avô se refugiou em um bar de
Richmond. Ali, com a tempestade de neve açoitando o exterior, topou-se com um jovem
pequeno, escuro e melancólico chamado Eddie. Parecia uma espécie de celebridade
local por ser o autor de um conto que ganhou um concurso no Baltimore Sunday
Visitor. O relato era sobre um Manuscrito encontrado em uma garrafa, e o jovem
atormentado se chamava Edgar Allan Poe.
Os dois passaram a noite bebendo e (isso dizia a história) Poe surrupiou
sutilmente do avô a historia misteriosa, mórbida e estranha. O viajante experiente se
sentiu feliz de agradá-lo e contou-lhe milhares de retalhos de histórias fantásticas, que
o escritor refundiu mais tarde no mistério de Enjoe Roget e Os assassinatos da Rua
Morgue. Em ambos os contos, por entre as atrocidades, aparecia o gênio peculiar do
C. Auguste Dupin.
C. Auguste Dupin. Para Poe era a encarnação do perfeito detetive: tranqüilo,
racional e brilhantemente perceptivo. As narrações em que aparecia ficaram logo
famosas, e graças a elas Dupin se transformou em uma celebridade de ficção, sem
que ninguém soubesse na América que era uma pessoa real.
Era o irmão do avô do Lewis. O tio avô do Lewis era C. Auguste Dupin.
E seu caso mais importante – os assassinatos da Rua Morgue – também se
apoiava na realidade. As matanças descritas no relato tinham ocorrido. Certamente que
tinham matado brutalmente duas mulheres na Rua Morgue. Eram, como escreveu Poe,
a senhora L’Espanaye e sua filha, a senhorita Camille L’Espanaye. Duas mulheres de
boa reputação que viviam tranqüilas e sossegadas. Por isso foi muito mais terrível
descobrir que suas vidas tinham sido brutalmente arrancadas. O corpo da filha estava
metido na chaminé, o da mãe foi descoberto no pátio posterior da casa, com a
garganta cortada tão grosseiramente que tinha a cabeça quase serrada. Não se pôde
encontrar um motivo convincente para os assassinatos, e o mistério se fez ainda mais
impenetrável quando todos os ocupantes da casa manifestaram ter ouvido o assassino
falar em línguas diferentes. O francês estava seguro de que a voz era de um espanhol,
o inglês tinha ouvido alemão, o holandês acreditou que era francês. Dupin, em suas
investigações, notou que nenhuma das testemunhas conhecia a linguagem que dizia ter
ouvido dos lábios do assassino que ninguém viu. Concluiu que a pretendida língua não
era nada mais que a voz inarticulada de uma besta selvagem.
De fato, era um macaco, um monstruoso orangotango das ilhas do leste da
Índia. No punho da defunta senhora L’Espanaye encontraram cabelos avermelhados.
Só a força e agilidade da besta explicava o horroroso destino da senhorita L’Espanaye.
O animal, que pertencia a um marinho maltês, escapou e assaltou o piso da Rua
Morgue. Essa era a essência da história.
Certo ou falso, o conto exercia uma grande fascinação romântica sobre Lewis.
Gostava de pensar em seu tio avô abrindo caminho pelo mistério graças a sua lógica,
sem se deixar afetar pela histeria e horror que o rodeavam. Pensou que essa
tranqüilidade era autenticamente européia, pertencia a uma época remota em que ainda
se valorizava a luz da razão, e o pior horror que se podia conceber era uma besta
armada com uma navalha para fatiar pescoços.
Agora, à medida que o século vinte se encaminhava lentamente para seu último
quarto, terei que dar conta de atrocidades muito mais importantes, todas elas
cometidas por seres humanos. Os antropólogos examinaram o humilde orangotango e
descobriram que se tratava de um herbívoro solitário, tranqüilo e filosófico. Os
autênticos monstros eram muito menos notórios e muito mais poderosos. Suas armas
ridiculizariam as navalhas, seus crimes eram enormes. Em alguns momentos Lewis
quase se sentia feliz de ser velho e de estar a ponto de deixar o século que se
arrumasse sozinho. Sim, a neve lhe gelava a medula. Sim, contemplar uma jovem com
cara de deusa excitava em vão seus desejos. Sim, agora se sentia como um
observador em vez de um participante.
Mas não sempre foi assim.
Em 1937, na mesma habitação do número onze do Quai do Bourbon onde agora
estava sentado, viveu experiências suficientes. Nessa época Paris ainda era um palácio
do prazer que ignorava obstinadamente os rumores de guerra e conservava, embora às
vezes se notasse certa tensão, um ar de doce ingenuidade. Aqueles anos tinham sido
despreocupados nos dois sentidos da palavra, levaram vidas intermináveis de ócio
perfeito. Naturalmente que não foi assim. Suas vidas não tinham sido perfeitas nem
intermináveis. Mas durante certo tempo – um verão, um mês, um dia – pareceu que
nada no mundo iria mudar.
Meia década depois Paris queimaria, e sua alegria pecaminosa, que em
realidade não era mais que inocência, ficaria manchada para sempre. Tinham passado
muitos dias (e noites) no piso onde agora estava Lewis, e foram tempos maravilhosos,
quando pensava neles parecia que seu estômago doía de nostalgia.
Seus pensamentos se dirigiram a sucessos mais recentes. A sua exposição em
Nova Iorque, em que a série de pinturas que retratavam a condenação da Europa tinha
obtido um brilhante êxito de crítica. Aos setenta e três anos Lewis era um homem
festejado. Em todas as publicações de arte lhe dedicavam artigos. Da noite para o dia
se tinha multiplicado o número de seus admiradores e compradores, ansiosos de
comprar seu trabalho, de falar com ele, de apertar sua mão. Naturalmente, tudo muito
tarde. As angústias da criação tinham acabado fazia tempo, pois cinco anos atrás
deixou definitivamente os pincéis. Agora, quando não era mais que um espectador, seu
triunfo de crítica parecia uma paródia: observava o circo de longe com um sentimento
semelhante ao desgosto.
Quando lhe chegou o telegrama de Paris lhe pedindo ajuda trouxe um imenso
prazer, poder escapar do coro de imbecis que lhe cantavam louvores.
Agora esperava no piso que ia ficando às escuras, e observava o permanente
trânsito de carros sobre a ponte Louis-Phillipe, parisienses cansados retornavam para
casa sobre a neve. As buzinas uivavam, os motores tossiam e resmungavam, os faróis
anti neblina amarelos deixavam uma esteira de luz sobre a ponte.
E Catherine não chegava.
A neve, que tinha deixado de cair durante quase todo o dia, começava a cair de
novo sussurrando contra a janela. O tráfico discorria por cima do Sena, o Sena
discorria por baixo do tráfico. Caiu a noite. Finalmente, ouviu passos no vestíbulo e
cochichos trocados com o caseiro.
Era Catherine. Catherine, por fim.
Levantou-se e olhou a porta, imaginando que se abria antes que o fizesse,
imaginando-a no corredor.
– Lewis, querido...
Sorriu-lhe, era um sorriso pálido sobre uma cara ainda mais pálida. Parecia mais
velha do que ele esperava. Quanto tempo fazia que não a via? Quatro ou cinco anos?
Sua fragrância era a mesma que sempre a acompanhava, essa sua peculiaridade
tranqüilizou Lewis. Beijou-lhe brandamente as bochechas frias.
– Você está com bom aspecto – mentiu.
– Não, não estou. E se estou é um insulto para Phillipe. Como posso estar bem
enquanto ele tem tantos problemas?
Seu comportamento era enérgico e severo, como sempre.
Tinha três anos mais que ele, mas o tratava como um professor a um menino
recalcitrante. Sempre agiu assim: era sua forma de mostrar-se carinhosa.
Depois das saudações, sentou-se junto à janela olhando para fora, para o Sena.
Sob a ponte flutuavam pequenos pedaços de gelo cinzas, agitando-se e formando
redemoinhos na corrente. A água parecia mortífera, como se o frio pudesse lhe tirar o
fôlego.
– Que o problema de Phillipe?
– Acusam-no de...
Uma pequena vacilação. A piscada de uma pestana.
– ... assassinato.
Lewis quis rir, a só idéia era absurda. Phillipe tinha sessenta e nove anos e era
aprazível como um cordeiro.
– É verdade, Lewis. Compreenderá que não podia dizer isso por telegrama.
Tinha que lhe comunicar isso em pessoa. Acusam-no de assassinato.
– Quem?
– Uma garota, é obvio. Uma de suas formosas mulheres.
– Ainda continua fazendo a ronda, não?
– Estávamos acostumados a brincar dizendo que morreria por causa de uma
mulher, lembra-se?
Lewis assentiu levemente.
– Tinha dezenove anos. Natalie Perec. Era uma garota muito culta, ao que
parece. E encantadora. Com o cabelo vermelho e comprido. Lembra-se de como
Phillipe gostava das ruivas?
– Dezenove? Ele sai com garotas de dezenove?
Não lhe respondeu. Lewis se sentou sabendo que a irritava que desse voltas
pela sala. De perfil ainda era bonita, e o raio de cor amarela azulada que entrava pela
janela lhe suavizava as linhas do rosto, rejuvenescendo-a magicamente cinqüenta anos.
– Onde está?
– Prenderam-no. Dizem que é perigoso e que poderia voltar a matar.
Lewis agitou a cabeça. Sentia dor nas têmporas, dor que desapareceria se só
conseguisse fechar os olhos.
– Ele precisa vê-lo. Muito urgentemente.
Mas talvez o sonho só fosse uma forma de escapismo. Encontrava-se diante de
algo que não podia ser espectador.
Phillipe Laborteaux olhou para Lewis por cima da mesa nua com o rosto cansado
e absorto. Saudaram-se com um simples aperto de mão, era o único contato físico
autorizado.
– Estou desesperado – confessou. – Ela está morta. Minha Natalie está morta.
– Conte-me o que aconteceu.
– Tenho um pequeno apartamento em Montmartre. Na rua dos Mártires, apenas
um quarto, e o utilizo para receber os amigos. Catherine sempre tem o número onze
tão limpo que não posso usá-lo para essas coisas. Natalie estava acostumada a passar
ali muito tempo comigo, todo mundo da casa a conhecia. Tinha um temperamento
magnífico e era preciosa. Estava se preparando para ingressar na Faculdade de
Medicina. Era brilhante. E me queria.
Phillipe continuava sendo atraente. Na realidade, agora que a moda voltava para
as origens, sua elegância, seu rosto quase fogoso, seu encanto tranqüilo estavam na
ordem do dia. Com algo de uma época passada, talvez.
– No domingo pela manhã saí e fui à confeitaria. E quando voltei...
Custava-lhe pronunciar as palavras.
– Lewis...
Os olhos dele se encheram de lágrimas de frustração. Aquilo lhe era tão penoso,
que sua boca se negava a articular os sons necessários.
– Não... – começou Lewis.
– Preciso lhe contar isso Lewis. Quero que saiba, quero que a veja tal como eu
a vi. Para que saiba que coisas há... há... que coisas há no mundo.
As lágrimas lhe escorreram pelo rosto em dois graciosos regatos. Apertou a
mão de Lewis entre as suas com tanta força que lhe fez mal.
– Estava coberta de sangue. De feridas. A pele arrancada... o cabelo
destroçado. Sua língua estava sobre o travesseiro, Lewis. Imagine. Estava estirada
sobre o travesseiro. E seus olhos, flutuando em sangue, como se tivesse chorado
sangue. Era a criatura mais preciosa de toda a criação, Lewis. Era formosa.
– Basta.
– Quero morrer, Lewis.
– Não.
– Não quero mais viver. Não tem sentido.
– Não o declararão culpado.
– Não importa, Lewis. Deve se ocupar de Catherine. Li comentários sobre sua
exposição...
Quase sorriu.
– ... Me alegro por você. Sempre dissemos, não é verdade? Antes da guerra.
Você ia ser famoso e eu...
O sorriso tinha desaparecido.
– ... célebre. Nos periódicos dizem coisas terríveis de mim. Um velho que sai
com garotas jovens, isso lhes parece insano. Provavelmente pensam que perdi o
controle porque não podia satisfazê-la. Isso é o que pensam, estou convencido. –
Perdeu o fio, parou e recomeçou. – Você deve se ocupar de Catherine. Tem dinheiro,
mas nenhum amigo. É muito fria. Está ferida em seu interior e isso faz que as pessoas
desconfiem dela. Tem que ficar com ela.
– Farei isso.
– Já sei. Sei. Por isso estou contente, de verdade, simplesmente por...
– Não, Phillipe.
– ... morrer. Não restou nada, Lewis. O mundo é muito duro.
Lewis pensou na neve, nos pedaços de gelo, e compreendeu que morrer tinha
sentido.
O oficial encarregado da investigação foi pouco amável, embora Lewis se
apresentou como um parente do apreciado detetive Dupin. O desprezo que sentia por
aquela doninha mal vestida, sentada no buraco desordenado de seu escritório, fez a
entrevista ser tensa por causa da cólera contida.
– Seu amigo – disse o inspetor, mordiscando a cutícula avermelhada do polegar
– é um assassino, senhor Fox. Simples assim. As provas são concludentes.
– Não posso acreditar.
– Acredite no que quiser, está no seu direito. Temos todas as provas que
necessitamos para acusar Phillipe Laborteaux de assassinato em primeiro grau. Foi
uma morte a sangue frio e será castigado com todos rigores da lei. Garanto-lhe isso.
– Que provas têm contra ele?
– Senhor Fox, não lhe devo nenhum favor. As provas que temos são nosso
assunto. Baste lhe dizer que não se viu nenhuma outra pessoa durante o tempo em que
o acusado diz ter estado em uma fictícia confeitaria, e como só se pode chegar à
habitação em que se encontrou a defunta pelas escadas...
– Não há janelas?
– Três pisos mais acima. E no meio, uma parede nua. Salvo um acrobata,
ninguém mais pôde cometer o crime.
– E o estado do corpo?
O inspetor fez uma careta de asco.
– Horrível. A pele e o músculo separados do osso. Toda a espinha dorsal
exposta. Sangue, muito sangue.
– Phillipe tem setenta anos.
– E?
– Um homem velho não seria capaz...
– Em outros aspectos – interrompeu o inspetor – parece muito capaz, oui?
Como amante, sim? Amante apaixonado, disso sim era capaz.
– E que motivo diria que teve?
Torceu a boca, virou seus olhos e golpeou o peito.
– O coeur humain – disse, como se pusesse em dúvida a influência da razão
sobre os assuntos de coração. – O coeur humain, quel mystère, n’est-ce pas?
E exalando a fetidez de sua úlcera sobre Lewis, indicou a porta aberta.
– Obrigado, senhor Fox. Compreendo sua confusão, oui? Mas está perdendo
seu tempo. Um crime é um crime. É real, não como seus quadros.
Viu a surpresa em Lewis.
– Oh, não sou tão pouco civilizado para não conhecer sua reputação, senhor
Fox. Mas lhe peço que crie suas invenções o melhor que possa, para isso está
preparado, oui? Eu estou para descobrir a verdade.
Lewis não podia suportar mais os modos daquela doninha.
– Verdade? – soltou ao inspetor. – Não reconheceria a verdade mesmo que
tropeçasse nela.
A doninha fez cara de ter sido esbofeteada com um peixe molhado.
Foi uma satisfação ínfima, mas fez com que Lewis se sentisse melhor durante
cinco minutos pelo menos.
A casa da rua dos Mártires não estava em boas condições, e Lewis sentia o
cheiro de umidade enquanto subia ao pequeno quarto do terceiro piso. As porta se
abriam a sua passagem, e sussurros nervoso fizeram-lhe se apressar escada acima,
embora ninguém tentasse detê-lo. O quarto onde havia acontecido a atrocidade estava
fechado. Sentia-se contrariado, mas sem saber como ou por que, tinha a convicção de
que se visse o interior poderia ajudar Phillipe. Desceu as escadas e saiu para o ar
invernal. Catherine já tinha voltado para o Quai de Bourbon. Assim que a viu, Lewis
soube que ia ouvir alguma novidade. Tinha o cabelo solto em lugar do coque que
gostava de usar, e lhe pendurava desordenadamente pelos ombros. À luz do abajur,
sua cara apresentava uma cor cinza amarelada e doentia. Até no ambiente fechado de
seu piso com calefação central sentia calafrios.
– O que aconteceu? – perguntou-lhe.
– Fui ao apartamento de Phillipe – disse Catherine.
– Eu também. Estava fechado.
– Mas eu tenho a chave, Phillipe guardava uma cópia. Só queria recolher um
pouco de roupa para ele.
Lewis assentiu.
– E?
– Havia alguém mais lá.
– Polícia?
– Não.
– Quem?
– Não pude distingui-lo. Não sei exatamente. Carregava um casaco folgado e um
cachecol sobre o rosto, chapéu, luvas – deteve-se. – Tinha uma navalha, Lewis.
– Uma navalha?
– Uma navalha de barbear aberta.
Lewis teve um pressentimento. Uma navalha aberta, um homem tão vestido que
não podia ser reconhecido...
– Aterrorizou-me.
– Fez-lhe algum mal?
Negou com a cabeça
– Gritei e ele saiu correndo.
– Não te disse nada?
– Não.
– Seria algum amigo de Phillipe?
– Conheço os amigos de Phillipe.
– Então da garota. Um irmão.
– Talvez. Mas...
– O que?
– Havia algo estranho nele. Cheirava a perfume, muito forte, e andava a
passinhos muito curtos e cuidadosos, embora fosse imenso.
Lewis a rodeou com o braço.
– Fosse quem fosse, você o assustou. Basta que não volte lá. Se alguém tiver
que ir procurar a roupa do Phillipe, irei eu.
– Obrigado. Sinto-me estúpida, pode ser que entrou simplesmente por acaso.
Que fosse ver a casa do assassino. As pessoas fazem essas coisas, não é verdade?
Por uma espécie de fascinação mórbida...
– Amanhã falarei com a doninha.
– Doninha?
– O inspetor Marais. Farei que reviste o lugar.
– Você viu Phillipe?
– Sim.
– Está bem?
Lewis não respondeu durante um bom momento.
– Ele quer morrer, Catherine. Já abandonou a luta, antes de ir a julgamento.
– Mas se não fez nada!
– Não podemos prová-lo.
– Você se gaba sempre de seus antepassados, de seu bendito Dupin.
Demonstre-o...
– Por onde começo?
– Fale com algum de seus amigos, Lewis. Por favor. Talvez a garota tivesse
inimigos.
Jacques Solal contemplou Lewis através de suas lentes côncavas, com as íris
ampliadas e distorcidos pelo cristal. Sentia-se péssimo, tinha bebido muito conhaque.
– Ela não tinha inimigos. Ela não. Oh, talvez algumas poucas mulheres invejosas
de sua beleza...
Lewis brincou com os torrões de açúcar que lhe tinham servido com o café. Solal
estava tão pouco comunicativo como bêbado, mas, por estranho que parecesse,
Catherine assegurava-lhe que o garoto que tinha do outro lado da mesa era o melhor
amigo do Phillipe.
– Acredita que Phillipe a matou?
Solal apertou os lábios.
– Quem sabe?
– O que você acha?
– Ah, era meu amigo. Se soubesse quem a matou diria.
Parecia veraz. Talvez aquele homenzinho afogava simplesmente suas mágoas
em conhaque.
– Ele era um cavalheiro – disse Solal, desviando os olhos para a rua.
Do outro lado do cristal defumado da cervejaria, bravos parisienses combatiam
contra a fúria de uma nova tempestade de neve, tentando em vão manter a dignidade e
compostura em pleno vendaval.
– Um cavalheiro – repetiu.
– E a garota?
– Era formosa, e ele estava apaixonado por ela. Tinha outros admiradores,
naturalmente. Uma mulher como ela...
– Admiradores ciumentos?
– Quem sabe?
Outra vez o “quem sabe?”. A pergunta ficava pendurada no ar como um
encolhimento de ombros. Quem sabe? Quem sabe? Lewis começou a compreender a
paixão do inspetor pela verdade. Possivelmente pela primeira vez em dez anos sua vida
tinha um objetivo: a ambição de descer do ar esse “quem sabe?” indiferente. De
descobrir o que tinha ocorrido naquele quarto da rua dos Mártires. Não queria uma
aproximação nenhuma explicação fictícia, a não ser a verdade, a verdade absoluta e
indisputável.
– Lembra se algum homem em particular a queria? – perguntou.
Solal sorriu. Só tinha dois dentes na mandíbula inferior.
– Oh, sim. Havia um...
– Quem?
– Nunca soube seu nome. Era um homem corpulento, vi-o fora da casa três ou
quatro vezes. Embora pelo aroma parecesse...
Fez uma cara que mostrava bem às claras que acreditava homossexual. As
sobrancelhas arqueadas e os lábios apertados lhe fazia parecer duplamente ridículo
atrás dos óculos.
– Cheirava?
– Oh, sim.
– A que?
– A perfume, Lewis. A perfume.
Em algum lugar de Paris havia um homem que conheceu a garota que amava
Phillipe. Uma fúria de ciúmes se apoderou dele. Em um arrebatamento de cólera
incontrolável, assaltou o apartamento de Phillipe e assassinou à garota. Era assim que
tinha acontecido.
Em algum lugar de Paris.
– Outro conhaque?
Solal negou com a cabeça.
– Já estou enjoado – confessou.
Lewis chamou o garçom, e ao fazê-lo seus olhos pousaram sobre alguns
recortes do periódico cravados atrás do balcão.
Solal seguiu seu olhar.
– Phillipe gostava das fotos.
Lewis se levantou.
– Às vezes vinha aqui olhá-las.
Os recortes eram velhos, e estavam manchados e descoloridos. Alguns eram,
ao que parecia, de interesse puramente local. Notícias de um meteorito visto em uma
rua próxima, de um menino de dois anos queimado vivo em seu berço, da fuga de um
puma, de um manuscrito inédito do Rimbaud, das mortes de um acidente de aviação no
aeroporto de Orleans (fotografia incluída). Mas havia outros recortes, alguns muito
mais velhos que outros: atrocidades, crimes estranhos, violações rituais, um anúncio do
Fantasma, outro da obra do Cocteau A bela e a fera. E, quase enterrada naquele
monte de curiosidades, havia uma fotografia sépia tão absurda que poderia ter sido
obra do Max Ernst: um semicírculo de cavalheiros bem vestidos, muitos deles
apresentando o grande bigode que esteve na moda na década de 1890, estava reunido
em torno de uma massa imensa e sangrenta de um macaco suspenso pelos pés. Os
rostos da foto refletiam um orgulho calado, uma autoridade absoluta sobre a besta
morta, que Lewis reconheceu claramente como um gorila. Sua cabeça investida tinha
uma expressão quase nobre ao morrer: a fronte afundada e enrugada, a mandíbula,
embora destroçada por uma ferida terrível, adornava-se com uma barba fina como a
de um patrício, e os olhos, deslocados, pareciam muito preocupados com este mundo
desumano. Esses olhos exagerados lhe recordaram à doninha em seu buraco,
golpeando o peito.
O coeur humain.
Lamentável.
– O que é isso? – perguntou a um garçom cheio de acne, assinalando a foto do
gorila morto.
Toda a resposta que recebeu foi um encolher de ombros, indiferente ao destino
de homens e animais.
– Quem sabe? – disse Solal a suas costas. – Quem sabe?
Não era o macaco da história de Poe, isso era certo. O conto tinha sido narrado
em 1835, e a fotografia era muito mais recente. Além disso, o macaco da foto era um
gorila sem a menor duvida.
Repetiu-se a história? Outro macaco escapou, de uma espécie diferente, mas
macaco em que apesar de tudo, vagava pelas ruas de Paris nos finais do século
passado?
E, se fosse assim, se a história do macaco podia repetir-se uma vez... por que
não duas?
Enquanto Lewis voltava naquela noite gélida ao quarto do Quai do Bourbon, a
repetição de acontecimentos que tinha imaginado se tornou mais atrativa e lhe
ocorreram novas analogias. Era possível que ele, o sobrinho neto de C. Auguste Dupin,
se visse envolvido em uma nova perseguição, não totalmente diferente da primeira?
A chave do piso do Phillipe na Rua dos Mártires gelava a mão de Lewis, e
embora já fosse mais de meia-noite não pôde evitar sair da ponte e encaminhar-se
para o bulevar Sébastopol, para o Oeste em direção ao bulevar Bonne-Nouvelle, e ao
norte de novo, para a praça Pigalle. Foi uma caminhada larga e exaustiva, mas sentia
necessidade de ar frio, de tirar o sentimentalismo da cabeça. Custou-lhe uma hora e
meia chegar à rua dos Mártires.
Era sábado de noite e ainda havia muito ruído em grande parte dos
apartamentos. Lewis subiu os dois lances de escadas tão silenciosamente como pôde,
e a animação ocultou sua presença. A chave girou com facilidade e a porta se abriu.
As luzes da rua iluminaram o quarto. A cama, que dominava o lugar, estava nua.
Sem dúvida tinham tirado os lençóis e mantas para fazer análises forenses. O sangue
vertido sobre o colchão parecia escondido na penumbra. Fora isso, não havia indícios
da violência que o quarto fora testemunha.
Lewis alcançou o interruptor da luz e o acionou, mas a luz não acendeu. Entrou e
olhou a instalação. A lâmpada estava destroçada.
Pensou vagamente em ir embora, em deixar o quarto às escuras e voltar na
manhã seguinte, quando houvesse menos sombras. Mas sob a lâmpada rota seus
olhos começaram a penetrar a penumbra um pouco melhor, e começou a distinguir a
forma de uma grande cômoda de teca próxima à parede em frente. Sem dúvida seria
questão de minutos encontrar uma roupa de Phillipe. Assim não teria que voltar no dia
seguinte, e se evitaria outro longo passeio pela neve. Melhor fazê-lo agora e cuidar dos
ossos.
O quarto era amplo e a polícia o tinha deixado um desastre. Ao cruzar em
direção à cômoda, Lewis tropeçou em um abajur caído e um vaso destroçado, e soltou
um palavrão. No piso de baixo, os uivos e gritos de uma festa prolongada tampavam
todos os ruídos que ele produzia. Era uma orgia ou uma briga? Pelo ruído podia ter
sido qualquer das duas coisas.
Lutou com a gaveta superior da cômoda e, finalmente, conseguiu abri-la,
rebuscando em seu interior os requisitos principais para a comodidade de Phillipe: uma
camiseta limpa, um par de meias e lenços com suas iniciais imaculadamente
engomados.
Espirrou. O tempo gelado lhe tinha acentuado o catarro do peito e carregado o
nariz, Tinha um lenço à mão e assoou. Com as fossas nasais limpas, sentiu pela
primeira vez o cheiro do quarto.
Um aroma flutuava acima da umidade e a verdura rançosa: perfume, o
persistente aroma do perfume.
Virou-se no quarto escuro, ouvindo o ranger de seus ossos, e seus olhos
pousaram sobre uma sombra que havia atrás da cama. Era uma sombra imensa, uma
massa que crescia ao fazer-se visível.
Era, viu em seguida, o estranho da navalha. Ali estava, à espreita.
Curiosamente, Lewis não se assustou.
– O que está fazendo? – perguntou, com uma voz clara e forte.
Ao sair de seu esconderijo, a cara do personagem ficou exposta à luz aquosa da
rua, era um rosto largo, sem traços e esfolado. Tinha os olhos afundados, mas sem
maldade, e sorria, sorria generosamente para Lewis.
– Quem é você? – perguntou este outra vez.
O homem sacudiu a cabeça, na realidade sacudiu o corpo inteiro, fazendo
gestos com a mão enluvada sobre a boca. Era mudo? Agora sacudia a cabeça com
mais violência, como se estivesse a ponto de sofrer um ataque.
– Você está bem?
De repente parou de agitar-se, e Lewis viu surpreso como apareciam lágrimas,
grosas e espessas, e lhe rolavam pelas duras bochechas até o matagal da barba.
Como se estivesse envergonhado por essa demonstração de sentimentos, o
homem se afastou da luz, engasgando com um forte soluço, e saiu do quarto. Lewis o
seguiu, com mais curiosidade pelo estranho que inquietação ante suas intenções.
– Espere!
O homem já estava no meio do primeiro lance de escadas, ágil apesar de sua
constituição.
– Espere, por favor, quero falar com você.
Lewis se lançou atrás dele pelas escadas, mas a perseguição estava perdida de
antemão. A idade e o frio lhe haviam enrijecido as articulações, e era tarde. Não era
momento de pôr-se a correr atrás de um homem muito mais jovem que ele, com um
pavimento escorregadio por causa do gelo e da neve. Seguiu o estranho até a porta e
logo o viu desaparecer na rua, avançava a passinhos muito curtos e cuidadosos, como
havia dito Catherine. Parecia com o andar de um pato: ridículo para um homem do seu
tamanho.
O vento do Nordeste já tinha dispersado o aroma de seu perfume. Sem fôlego,
Lewis voltou a subir as escadas, atravessando o estrépito da festa a fim de procurar
um pouco de roupa para Phillipe.
O dia seguinte Paris amanheceu com uma tempestade de neve de uma
ferocidade sem precedentes. As chamadas para as missas se perderam, não se
venderam croissants quentes de domingo e os periódicos ficaram por ler nos
quiosques. Poucas pessoas tiveram coragem ou motivo suficiente para aparecer no
vendaval que rugia na rua. Sentaram-se junto ao fogo, esfregando os joelhos e
sonhando com a primavera. Catherine queria ir à prisão visitar Phillipe, mas Lewis
insistiu em ir sozinho. Não era somente o tempo frio o que lhe impulsionava a cuidar
dela, tinha que dizer a Phillipe palavras duras, fazer-lhe perguntas delicadas. Depois do
encontro da noite anterior em seu apartamento, não tinha nenhuma dúvida que Phillipe
tinha um rival, provavelmente um rival assassino. Ao que parecia, a única forma de
salvar a vida do Phillipe consistia em seguir aquele homem. E se isso implicaria em
revirar os assuntos sexuais de Phillipe, teria que fazê-lo. Mas não era uma conversa
que ele ou Phillipe desejassem manter na presença de Catherine.
As roupas que Lewis levou foram registradas e logo entregues a Phillipe, que as
agarrou movendo a cabeça em sinal de agradecimento.
– Fui ao seu apartamento ontem de noite procurar isto para você.
– Oh.
– Já havia alguém no quarto.
Phillipe começou a mover a mandíbula, fazendo ranger os dentes. Evitava o
olhar do Lewis.
– Um homem grande, com barba. Você o conhece ou sabe algo dele?
– Não.
– Phillipe.
– Não.
– O mesmo homem atacou Catherine – disse Lewis.
– O que?
Phillipe tinha começado a tremer.
– Com uma navalha.
– Atacou-a? – perguntou Phillipe. – Tem certeza?
– Ou esteve a ponto.
– Não! Jamais a teria machucado. Jamais!
– Quem é ele, Phillipe? Você sabe?
– Diga-lhe que não volte a ir lá, por favor, Lewis... – Seus olhos imploravam. –
Por favor, pelo amor de Deus, diga-lhe que não volte. Fará isso? Você tampouco deve
voltar. Você tampouco.
– Quem é?
– Diga-lhe.
– Não, você não entenderia, Lewis. Não posso esperar que comprenda.
– Eu o farei. Mas tem que me dizer quem é esse homem, Phillipe.
Sacudiu a cabeça. Agora rangia os dentes de uma maneira audível.
– Você não entenderia, Lewis. Não posso esperar que compreenda.
– Diga-me, quero te ajudar.
– Deixe-me morrer.
– Quem é ele?
– Deixe-me morrer... Quero esquecer. Por que tenta me fazer lembrar? Quero...
Levantou o olhar: tinha os olhos injetados de sangue, e suas olheiras revelavam
noites inteiras chorando. Parecia, entretanto, que já não havia mais lágrimas, só uma
sensação de aridez onde houve medo justificado da morte, amor ao amor e vontades
de viver. O que encontraram os olhos do Lewis foi uma indiferença universal: à
continuidade, à salvação própria, ao sentimento.
– Ela era uma puta! – exclamou subitamente.
Suas mãos eram punhos. Lewis nunca tinha visto Phillipe tão exaltado em sua
vida. Agora cravou as unhas na suave carne da palma até que o sangue começou a
emanar.
– Puta! – repetiu, com uma voz muito alta para a pequena cela.
– Controle-se – advertiu o vigilante.
– Uma puta!
Desta vez Phillipe assobiou a acusação entre dentes, dentes que mostrava como
um babuíno enfurecido.
Lewis não conseguia entender o porquê daquela transformação.
– Você começou com tudo isto... – disse Phillipe, olhando diretamente para
Lewis, encontrando-se pela primeira vez com seus olhos.
Era uma acusação amarga, embora Lewis não entendesse seu significado.
– Eu?
– Com suas histórias. Com seu maldito Dupin.
– Dupin?
– Era todo uma estúpida mentira. Mulheres, assassinato...
– Refere-se à história da Rua Morgue?
– Estava muito orgulhoso dela, não é? Todas aquelas tolas mentiras. Nada era
certo.
– Claro que era.
– Não. Nunca foi, Lewis, foi uma história, isso é tudo. Dupin, a Rua Morgue, os
assassinatos...
Sua voz se apagou como se as palavras seguintes fossem inexprimíveis.
– ... O macaco.
Aí estavam essas palavras: o que parecia não poder dizer foi pronunciado como
se lhe tivessem arrancado cada sílaba do pescoço.
– ... O macaco.
– O que aconteceu com o macaco?
– Há bestas, Lewis. Algumas são lamentáveis, animais de circo. Não têm
cérebro, são vítimas natas. Mas também há outras.
– Que outras?
– Natalie era uma puta! – voltou a gritar, com os olhos arregalados. Agarrou
Lewis pela lapela e começou a sacudi-lo. Todos na pequena cela se voltaram para
olhar a briga dos dois anciões sobre a mesa. Os condenados e suas noivas sorriram
quando separaram Lewis de seu amigo, que pronunciava incoerências e obscenidades
enquanto esperneava, seguro pelo vigilante.
– Puta! Puta! Puta! – era tudo o que podia dizer enquanto o arrastavam para sua
cela.
Catherine se encontrou com Lewis à porta do quarto dela. Estava sobressaltada
e chorosa. Atrás dela viu a habitação de pernas para cima.
Soluçou contra seu peito enquanto ele a tranqüilizava, mas era inconsolável.
Fazia muitos anos que não consolava a uma mulher, e tinha perdido o costume. Estava
embaraçado em lugar de tranqüilizador, e ela percebeu. Separou-se de seu abraço,
melhor que não a tocasse.
– Ele esteve aqui – disse.
Não teve necessidade de perguntar quem. O estranho, o choroso estranho da
navalha.
– O que queria?
– Não parou de me dizer “Phillipe”. O dizia pela metade, mais que dizê-lo,
grunhia. E como eu não lhe respondia, limitou-se a destroçar os móveis e os vasos.
Nem sequer procurava nada, só queria quebrar tudo.
A inutilidade do ataque a enfurecia.
O quarto estava em ruínas. Lewis passeou sacudindo a cabeça, por entre os
fragmentos de porcelana e as malhas em farrapos. Em sua mente se confundiam os
rostos chorosos: Catherine, Phillipe, o estranho. Ao que parecia, todos estavam loucos
e destroçados em seu pequeno mundo. Todos sofriam, entretanto, a origem, o coração
do sofrimento, não se encontrava em nenhuma parte.
Só Phillipe tinha levantado um dedo acusador contra o próprio Lewis: “Você
começou com tudo isto”. Não foram essas suas palavras? “Você começou com tudo
isto.”
Mas como?
Lewis ficou de pé junto à janela. Os destroços tinham rachado três pequenos
vidros da janela, e um vento gélido estava se introduzindo no quarto. Olhou as águas
congeladas do Sena, e um movimento lhe chamou a atenção. Revolveu-lhe o estômago.
A cara do estranho estava voltada para a janela e tinha uma expressão
selvagem. As roupas que sempre tinha vestido tão impecavelmente estavam
desordenadas, e seu olhar era de um desespero profundo, tão lamentável que quase
parecia trágico. Ou, talvez, era a representação de uma tragédia: a dor de um ator.
Assim que Lewis pousou sua vista sobre ele, o estranho levantou os braços em direção
à janela Com um gesto que parecia implorar perdão ou compaixão ou as duas coisas.
Essa chamada de atenção fez Lewis retroceder. Era muito, excessivo. No
momento, o estranho estava cruzando o pátio, afastando-se do quarto. Sua cuidadosa
forma de andar tinha degenerado em um oscilante passo comprido. Lewis emitiu uma
longa queixa de reconhecimento quando a massa mau vestida desapareceu de sua
vista.
– Lewis?
Aquele rebolado, aquele balanço não se pareciam em nada com o andar de um
homem. Era o passo de uma besta posta de pé, de um animal que tivessem ensinado a
andar e agora, sem professor, estivesse esquecendo o aprendido.
Era um macaco.
Meu deus, Meu deus, era um macaco.
– Tenho que ver o Phillipe Laborteaux.
– Sinto muito, monsieur, mas as visitas da prisão...
– É questão de vida ou morte, oficial.
– Isso se diz logo, monsieur.
Lewis ensaiou uma mentira.
– Sua irmã está morrendo. Suplico-lhe um pouco de compaixão.
– Oh... bom...
Uma pequena dúvida. Lewis fez um pouco mais de pressão.
– Só uns minutos, para organizar os preparativos.
– Não pode esperar a manhã?
– Terá morrido antes da manhã.
Lewis odiava falar assim de Catherine, apesar do objetivo dessa mentira, mas
era necessário, tinha que ver Phillipe. Se sua teoria fosse correta, a história podia
repetir-se antes que a noite se acabasse.
Tiraram Phillipe de um sonho de sedativos. Tinha grandes olheiras.
– O que você quer?
Lewis não tratou sequer de prolongar sua mentira, estava claro que tinham
drogado Phillipe e provavelmente sentia enjôos. Seria melhor lhe pôr a verdade diante e
ver o que acontecia.
– Você amestrou um macaco, não é verdade?
Um olhar de terror cruzou o rosto de Phillipe, contido pelas drogas que levava no
sangue, mas suficientemente explícito.
– Não é verdade?
– Lewis...
Phillipe parecia muito velho.
– Responda, Phillipe, rogo-lhe isso: antes de que seja muito tarde. Você
amestrou um macaco?
– Foi um experimento, isso é tudo. Um experimento.
– Por que?
– Suas histórias. Suas malditas histórias, queria saber se era verdade que esses
animais eram selvagens. Queria transformá-lo em um homem.
– Transformá-lo em um homem.
– E essa puta...
– Natalie.
– Ela o seduziu.
Lewis se sentiu enjoado. Essa era uma possibilidade que não tinha previsto.
– Ela o seduziu?
– Puta! – exclamou Phillipe, com uma lástima infinita.
– Onde está seu macaco?
– Você o matará.
– Irrompeu no piso com Catherine dentro. Destroçou tudo, Phillipe. É perigoso
agora que não tem amo. Não compreende?
– Catherine?
– Não, ela está bem.
– Ele está domesticado: não lhe fará mal. Observou-a de um esconderijo. Vem e
vai tão silenciosamente como um camundongo.
– E a garota?
– Estava com ciúmes.
– Foi por isso que a matou?
– Talvez. Não sei. Não quero pensar nisso.
– Por que não disse isso a polícia, se por acaso tivesse sido ele?
– Não sei se foi verdade. Provavelmente tudo seja uma ficção, uma de suas
malditas ficções, uma história mais.
Um sorriso amargo e matreiro cruzou-lhe o rosto exausto.
– Tem que saber a que me refiro, Lewis. Poderia ser uma história, não é
verdade? Como seus relatos de Dupin. Só que talvez a tornei realidade durante uma
temporada. Já tinha lhe ocorrido isso? Talvez a tornei realidade.
Lewis se levantou. Era um tema esgotado: realidade e ilusão. Uma coisa era ou
não era. A vida não é um sonho.
– Onde está seu macaco?
Phillipe apontou para a têmpora.
– Aqui, onde nunca poderá encontrá-lo – disse, e cuspiu no rosto de Lewis.
O cuspe lhe acertou no lábio, como um beijo.
– Não sabe o que fez. Nunca saberá.
Lewis secou o lábio enquanto os vigilantes escoltavam o prisioneiro para fora da
sala e o devolviam a sua feliz inconsciência drogada. Tudo o que lhe ocorria agora,
sozinho na fria sala de visitas, era que Phillipe tinha sorte. Refugiou-se em uma
pretendida culpabilidade e encerrado em um lugar em que a memória, a vingança e a
verdade, a amarga verdade, não poderiam voltar a afetá-lo. Nesse momento odiou
Phillipe com todo seu coração. Odiou nele o diletante e o covarde que sempre soube
que foi. Não era um mundo cômodo o que Phillipe tinha criado a seu redor, era um
esconderijo, igualmente falso como aquele verão de 1937. Não se podia viver como ele
o fez sem que cedo ou tarde chegasse o momento de ajustar contas, e por fim esse
momento tinha chegado.
Essa noite, Phillipe despertou na segurança de sua cela. O ambiente era quente,
mas ele tinha frio. Mordeu os punhos na mais completa escuridão até que um rio de
sangue se verteu em sua boca. Voltou a tombar sobre a cama e sangrou
silenciosamente até morrer fora da vista e da mente.
Um breve artigo na segunda página do Le Monde informou do suicídio. A grande
noticia do dia seguinte foi o sensacional assassinato de uma prostituta ruiva em um
quarto próximo à rua Rochechouar. A companheira com quem vivia achou Monique
Zevaco às três da madrugada com o corpo em um estado tão horrível que “desafiava
qualquer descrição”.
Apesar da suposta impossibilidade da tarefa, os meios de informação se
lançaram a descrever o indescritível com um entusiasmo mórbido. Fez uma detalhada
descrição do mínimo arranhão, rasgão e ferida do corpo parcialmente nu de Monique,
tatuado, como narrava satisfeito o Le Monde, como um mapa da França. O mesmo
fizeram com o aspecto de seu assassino, bem vestido e perfumado em excesso, que
ao parecia esteve espiando enquanto se asseava, atrás de uma janela traseira, e logo
irrompeu no quarto de banho e atacou à senhorita Zevaco. O assassino se precipitou
logo escada abaixo, chocando-se com a companheira de quarto, que descobriria
minutos depois o cadáver mutilado de Zevaco. Só um comentarista relacionou o
assassinato da rua dos Mártires e o da senhorita Zevaco, mas não se fixou na curiosa
coincidência de que o acusado Phillipe Laborteaux se suicidou naquela mesma noite.
O funeral foi celebrado em plena tormenta, o cortejo avançou lastimosamente
pelas ruas abandonadas e cobertas de neve, que caía com fúria, sobre Montparnasse.
Lewis se sentou com Catherine e Jacques Solal quando deixaram Phillipe na tumba.
Todos de seu círculo o tinham abandonado, não queriam assistir ao funeral de um
suicida e sentenciado de assassinato. Sua inteligência, sua eloqüência e sua infinita
capacidade de cativar não lhe serviram de nada no final.
Em troca, nem todos os estranhos se esqueceram de chorar sua morte.
Enquanto se encontravam ao lado da sepultura e o frio os açoitava, Solal se inclinou
para Lewis e lhe deu uma cotovelada.
– O que?
– Aí. Debaixo da árvore.
Solal fez gestos por trás do sacerdote, que rezava.
O estranho estava a certa distância, quase escondido depois dos mausoléus de
mármore. Tinha a cara envolta por um grosso cachecol negro e um chapéu de asa
larga sobre a fronte, mas sua silhueta era inconfundível. Catherine também o tinha
visto. Abraçada a Lewis, de pé, tremia, não só de frio, mas também de medo. Era
como se a criatura fosse um anjo doentio que tivesse ido fazer uma ronda e desfrutar
com a dor alheia. Era grotesco e horripilante que aquela coisa fosse ver como
confinavam Phillipe na terra geada. O que sentia? Angústia? Culpa?
Sim. Sentia-se culpado?
Sabia que o tinham visto. Virou-se e fugiu arrastando os pés. Sem dizer uma
palavra a Lewis, Jacques Solal se afastou da tumba e se lançou em sua perseguição.
Em pouco tempo, o estranho e seu perseguidor desapareceram na neve.
De novo no Quai do Bourbon, Catherine e Lewis não comentaram o incidente.
Entre eles se tinha formado uma espécie de barreira que só lhes permitia entrar em
contato para comunicar questões mais corriqueiras. Não havia sentido em analisar nem
lamentar nada. Phillipe estava morto. O passado, seu passado compartilhado, tinha
morrido. Este último capítulo de sua vida em comum turvou profundamente tudo o que
lhe precedia, de forma que não podiam desfrutar de nenhuma lembrança compartilhada
sem que o prazer se desfizesse. Phillipe tinha morrido de uma forma horrível,
devorando sua própria carne e seu próprio sangue, talvez enlouquecido pela
consciência de sua culpa e depravação. Nem a inocência nem a lembrança da sorte
podiam ficar à margem desse fato. Lamentaram silenciosamente não só a morte de
Phillipe, mas também de seu próprio passado. Lewis compreendeu agora a reticência
de Phillipe para a vida quando tinha perdido tanto no mundo.
Solal chamou por telefone. Sem fôlego depois da perseguição, mas regozijado,
falou-lhe em sussurros com Lewis, desfrutando manifestamente sua excitação.
– Estou na Gare du Nord, e descobri onde vive nosso amigo. Encontrei-o, Lewis!
– Excelente. Vou em seguida. Eu o encontro nas escadas da Gare du Nord.
Pegarei um táxi, chego em dez minutos.
– É no porão da rua Fleurs, número dezesseis. Vejo-o ali...
– Não entre, Jacques. Me espere. Não...
A linha foi cortada e a voz do Solal emudeceu. Lewis agarrou seu casaco.
– Quem era?
Ela perguntou, mas não queria saber. Lewis se encolheu os ombros dentro do
casaco e disse:
– Ninguém. Não se preocupe. Não vou demorar.
– Leve o cachecol – recomendou ela, sem se virar.
– Sim. Obrigado.
– Você vai congelar.
Deixou-a contemplando o Sena vestido de noite, observando a dança dos
pedaços de gelo sobre a água negra.
Quando chegou à casa da rua Fleurs, não encontrou Solal em nenhuma parte,
mas os rastros frescos sobre a neve conduziam à porta principal do número dezesseis,
e dali, fazendo-se mais profundas, davam a volta até chegar à parte traseira da casa.
Lewis as seguiu. Ao entrar no pátio posterior por uma porta podre que Solal tinha
forçado violentamente, percebeu que não levava armas consigo. Melhor voltar,
encontrar uma alavanca, uma faca, algo. Enquanto refletia sobre este ponto, a porta de
trás se abriu e o estranho fez sua aparição, vestido com seu já familiar casaco. Lewis
se apertou contra a parede do pátio, onde as sombras eram mais escuras, seguro de
que o descobriria. Mas a besta tinha outras preocupações, ficou no corredor com a
cara completamente visível e, pela primeira vez, pôde ver claramente a fisionomia da
criatura. Tinha a cara recém barbeada, e o aroma da colônia era forte, inclusive ao ar
livre. Sua pele era rosada como um pêssego, embora uma navalha pouco cuidadosa
tinha lhe feito um par de cortes. Lewis pensou na navalha aberta com que ameaçara
Catherine. Por isso tinha ido ao quarto de Phillipe, para procurar um bom barbeador?
Estava tirando luvas de couro das mãos grandes e também barbeadas, emitindo uma
tosse que soavam quase como grunhidos de satisfação. Lewis teve a impressão de
que estava se preparando para sair ao mundo exterior, e esse espetáculo era tão
enternecedor como intimidante. Tudo naquele ser queria ser humano. Aspirava, a sua
maneira, ao modelo que Phillipe lhe tinha dado, que tinha alimentado nele. Agora,
desprovido de mentor, confuso e infeliz, tratava de enfrentar o mundo tal como lhe
tinham ensinado a fazer. Não havia forma de voltar atrás. Seus dias de inocência tinham
acabado: nunca poderia voltar a ser uma besta sem ambições. Apanhado em sua nova
personalidade, não tinha mais opção que continuar com a vida que seu dono lhe havia
inventado. Sem jogar um só olhar para onde Lewis se encontrava, fechou com cuidado
a porta que tinha atrás de si e cruzou o pátio, nesses poucos passos, seu andar
passou de um arrastar-se simiesco ao rebolado cuidadoso que utilizava para imitar os
humanos.
Logo desapareceu.
Lewis esperou um momento nas sombras, respirando com cuidado. Agora lhe
doíam todos os ossos do corpo por causa do frio, e tinha os pés intumescidos. Não
parecia que a besta fosse voltar, assim se arriscou a sair de seu esconderijo e testou a
porta. Não estava fechada. Ao entrar, uma baforada de fetidez o jogou para trás, o
aroma doce e doentio de frutas podres misturado com o aroma enjoativo da colônia,
um cruzamento entre o zoológico e a penteadeira.
Deslizou por um lance de pequenos degraus de pedra e por um curto corredor
de azulejos para uma porta. Tampouco estava fechada, a lâmpada nua iluminava uma
estranha cena.
No chão, um tapete persa grande e meio puído, móveis dispersados, uma cama
coberta imperfeitamente com mantas e almofadas manchadas, um armário inchado de
roupas muito grandes, muitas frutas desprezadas, parte delas pisoteadas no chão, um
cubo cheio de palha e que fedia a lixo. Sobre a parede, um grande crucifixo. No suporte
da chaminé uma fotografia de Catherine, Lewis e Phillipe juntos em um passado
ensolarado, sorrindo. Na pilha, os utensílios de barbear que a criatura empregava:
sabão, broxa e navalha. Espuma fresca. No aparador, um montão de dinheiro, atirado
descuidadamente e em grandes quantidades junto a uma pilha de agulhas hipodérmicas
e uma coleção de frascos. Fazia calor no esconderijo da besta, talvez a caldeira da
casa rugisse em um porão adjacente. Solal não estava ali.
De repente, ouviu um ruído.
Lewis virou-se para a porta, esperando que o macaco a cobrisse com os dentes
apertados e os olhos endemoninhados. Mas estava desorientado, o ruído não procedia
da porta, mas sim do armário. Algo se moveu atrás da pilha de roupas.
– Solal?
Jacques Solal caiu pela metade do armário e ficou estendido sobre o tapete
persa. Tinha o rosto desfigurado por uma ferida profunda, de forma que não restavam
quase traços.
A criatura o tinha cortado pelo lábio e tinha separado a carne do osso como se
lhe tirasse uma máscara. Os dentes expostos rangeram em um último espasmo ante a
morte iminente, seus membros se agitaram e rangeram. Mas Jacques já estava morto.
Aqueles tremores e contrações não eram indícios de que houvesse capacidade de
pensamento ou personalidade, era somente o estertor da morte. Lewis se ajoelhou ao
lado de Solal, tinha o estômago resistente. Durante a guerra, por ser impedimento de
consciência, apresentou-se como voluntário para servir no hospital militar, e poucas
eram as transformações do corpo humano que não tivesse visto em uma ou outra
combinação. Embalou meigamente o corpo, sem perceber que tinha sangue. Não tinha
gostado daquele homem, apenas tinha lhe interessado ligeiramente, mas agora só
queria tirá-lo dali, da jaula do macaco, e encontrar uma sepultura humana. Também
levaria a foto. Era demais ter dado à besta uma foto dos três amigos juntos. Fez-lhe
odiar ao Phillipe mais que nunca.
Levantou o corpo do tapete. Foi necessário um esforço tremendo, e o sufocante
calor da habitação, depois do frio do mundo exterior, enjoou-o. Sentia que os membros
lhe tremiam de medo. Seu corpo estava a ponto de traí-lo, sabia, a ponto de
desfalecer, de perder a coesão e vir abaixo.
“Aqui não. Em nome de Deus, aqui não.”
Talvez deveria ir procurar um telefone. Isso seria o melhor. Chamar à polícia,
sim... Chamar Catherine, sim... até encontrar na casa alguém que o ajudasse. Mas
para isso teria que deixar Jacques na guarida para que a besta o assaltasse de novo, e
havia se tornado estranhamente protetor do cadáver, não queria deixá-lo sozinho.
Indeciso ante essa confusão de intenções, incapaz de deixar Jacques, mas também
incapaz de continuar arrastando-o, ficou no meio do quarto e não fez absolutamente
nada. Isso era o melhor, sim. Nada de nada. Muito cansado, muito fraco. O melhor era
não fazer nada.
Essa sonolência durou uma eternidade. O ancião ficou paralisado no ponto
crucial de seus sentimentos, incapaz de adiantar-se para o futuro ou de voltar sobre
seu passado. Incapaz de recordar. Incapaz de esquecer.
Esperando, durante um momento de semi inconsciência, o fim do mundo.
O macaco chegou a casa tão ruidosamente como um homem bêbado, e o ruído
que fez ao abrir a porta exterior fez Lewis reagir fracamente. Com certa dificuldade,
arrastou Jacques para o interior do armário e se escondeu também, com a cabeça sem
rosto em seu regaço.
Ouviu-se uma voz no quarto, uma voz feminina. Talvez não fosse a besta, depois
de tudo. Mas não, através da fresta da porta do armário Lewis pôde ver o animal e
uma jovem ruiva com ele. Não parava de falar, eram as eternas trivialidades de uma
inteligência dispersa.
– Tem mais, querido! Oh, homem maravilhoso, maravilhoso! Olhe tudo isto.
Tinha pílulas na mão e as tragava como doces, alegre como um menino no
Natal.
– De onde tirou tudo isto? De acordo, se não quer dizer não me zango.
Era aquilo obra do Phillipe, ou era o macaco o que tinha roubado a mercadoria
para seus intuitos? Seduzia regularmente a prostitutas ruivas com drogas?
O irritante balbuceio da garota se acalmava à medida que as pílulas faziam
efeito, sedando-a, transportando-a a um mundo só dela. Lewis observou, extasiado,
como começava a despir-se.
– Faz muito... calor... aqui.
O macaco a olhava de costas para Lewis. Que expressão tinha sua cara
barbeada? Havia luxúria em seus olhos, ou dúvida?
Os seios da garota eram preciosos, embora tivesse o corpo muito magro. Sua
jovem pele era branca, e os mamilos rosados como flores. Levantou os braços sobre a
cabeça e, ao estirar-se, os globos perfeitos se ergueram e se achataram ligeiramente.
O macaco alargou uma mão imensa para seu corpo e lhe deu um tenro puxão em um
dos mamilos, fazendo-o girar entre seus dedos escuros. A garota suspirou.
– É meu... Quer tudo?
O macaco grunhiu.
– Você não é muito falador, não é?
Baixou a saia vermelha, rebolando. Agora estava quase nua, vestia só as
calcinhas. Jogou-se na cama estirando-se outra vez, encantada por seu corpo e pelo
calor acolhedor do quarto, sem se preocupar sequer de olhar para seu admirador.
Esmagado sob o corpo de Solal, Lewis começou a sentir-se enjoado outra vez.
Tinha os membros inferiores totalmente intumescidos, e não sentia o braço direito,
aprisionado contra a parte de trás do armário, mas não se atrevia a mover-se. Sabia
que o macaco era capaz de tudo. Se o descobrisse, que não se decidiria a fazer com
ele e com a garota?
Agora tinha todo o corpo dormente ou contraído de dor. Em seu regaço o corpo
sangrento de Solal parecia pesar mais a cada momento. Sua espinha dorsal gritava de
dor, e a nuca doía como se lhe estivessem cravando agulhas incandescentes. O
sofrimento estava se tornando insuportável, começou a pensar que morreria naquele
patético esconderijo enquanto o macaco fazia amor.
A garota suspirou e Lewis voltou a olhar para a cama. O macaco tinha a mão
entre as pernas da garota, e ela se retorcia com suas carícias.
– Sim, oh sim! – dizia uma e outra vez, enquanto seu amante a despia
totalmente.
Era excessivo. O enjôo se estendeu pelo cérebro de Lewis. Era isso a morte?
As luzes de sua cabeça e o assobio de seus ouvidos?
Fechou os olhos, deixando de ver os dois amantes, mas foi incapaz de não ouvir
o ruído. Parecia interminável, invadia-lhe a cabeça. Suspiros, pequenos gritos.
Por fim, a escuridão.
Lewis despertou em um estado indescritível: tinha o corpo deformando pela
estreiteza de seu esconderijo. Levantou a vista. A porta do armário estava aberta e o
macaco o estava olhando, tentando sorrir. Estava nu e quase totalmente barbeado. Na
fenda de seu imenso peito brilhava um pequeno crucifixo de ouro. Reconheceu-o
imediatamente. Tinha comprado aquele crucifixo para Phillipe nos Campos Elíseos
pouco antes da guerra. Agora repousava sobre um matagal de cabelo ruivo alaranjado.
A besta estendeu uma mão e Lewis a agarrou maquinalmente. A mão o tirou de
debaixo do cadáver de Solal. Não podia manter-se ereto. Tinha as pernas moles e os
tornozelos não o suportavam. A besta o agarrou e lhe serviu de apoio. Com a cabeça
dando voltas, Lewis olhou para o armário, onde Solal estava jogado, enroscado como
um bebê no berço, com o rosto para a parede.
A besta fechou a porta diante do cadáver e levou Lewis para a pilha, onde este
vomitou.
– Phillipe?
Percebeu levemente que a mulher ainda estava ali, na cama, recém acordada
depois de uma noite de amor.
– Phillipe, quem é esse?
Estava se arrastando em busca de pílulas sobre a mesa que havia junto à cama.
A besta se precipitou e as arrebatou das suas mãos.
– Ah... Phillipe... Por favor. Quer que me deite com ele também? Farei isso se
quiser. Mas me devolva as pílulas.
Apontou para Lewis.
– Não estou acostumada a me deitar com velhos.
O macaco resmungou. A expressão da garota mudou, como se tivesse pela
primeira vez a suspeita do que era aquele fulano. Mas a idéia era muito complexa para
sua mente drogada, e a deixou passar.
– Por favor.. – Phillipe – choramingou.
Lewis estava olhando para o macaco. Tinha tomado a foto do suporte. Tinha a
unha negra sobre a figura de Lewis. Sorria. Tinha-o reconhecido, apesar de que
quarenta anos lhe tivessem tirado muita vitalidade.
– Lewis – disse, encontrando a palavra muito fácil de pronunciar.
O ancião não tinha nada no estômago para vomitar nem tinha mais nada que
temer. Era o final do século, deveria estar preparado para algo. Até para que o
saudasse como a um amigo de um amigo a besta barbeada que se elevava ante ele.
Sabia que não lhe faria mal. Provavelmente Phillipe havia dito ao macaco algo de sua
vida em comum, fizera que a criatura amasse Catherine e a ele tanto como adorava o
Phillipe.–
Lewis – repetiu, e apontou para a mulher (que agora estava sentada com as
pernas abertas na cama), oferecendo-se para que gozasse dela.
Lewis negou com a cabeça.
Dentro e fora, dentro e fora, metade ficção e metade realidade.
Até que ponto tinham chegado as coisas: que um macaco nu oferecesse uma
mulher. Era o último, pelo amor de Deus, o último capítulo da ficção a que seu tio avô
tinha começado. Do amor ao assassinato e daí outra vez ao amor. O amor de um
macaco por um homem. Ele tinha começado com tudo aquilo, graças a seus sonhos de
heróis de ficção, imbuído da razão mais absoluta. Tinha empurrado Phillipe a
transformar em reais as histórias de uma juventude perdida. Ele era o responsável e
não o pobre macaco que se pavoneava, perdido entre a selva e a Bolsa, e tampouco
Phillipe, que desejava ser eternamente jovem, e certamente ainda menos Catherine,
que depois daquela noite ficaria totalmente sozinha. Era ele. Seu era o crime, sua a
culpa, seu o castigo.
Suas pernas tinham recuperado um pouco de sensibilidade e começou a
cambalear em direção à porta.
– Não vai ficar? – perguntou a mulher ruiva.
– Esta coisa... – não podia nomear ao animal.
– Refere-se a Phillipe?
– Não se chama Phillipe – disse Lewis. – Nem sequer é humano.
– Você é quem diz – respondeu ela, e encolheu os ombros.
A suas costas o macaco falou, pronunciando seu nome. Mas desta vez, em lugar
de ser uma espécie de palavra-grunhido, seu paladar simiesco imitou a inflexão da voz
de Phillipe com uma precisão inquietante, melhor que o mais hábil dos louros. Era a voz
de Phillipe, idêntica:
– Lewis – dizia.
Não suplicava nem exigia. Simplesmente nomeava, pelo prazer de nomear um
igual.
Alguns transeuntes viram o ancião subir ao parapeito da ponte do Carrossel,
mas não fizeram nenhum gesto para evitar que saltasse. Vacilou um momento ao ficar
em pé, e logo se jogou à água congelada, revolta e mortal.
Uma ou duas pessoas cruzaram a ponte para ver se a corrente o tinha levado e
assim foi. Saiu à superfície com a cara arroxeada e sem expressão, como a de um
bebê, e logo algum redemoinho potente o agarrou pelos pés e o arrastou para debaixo
da água. As águas espessas se abateram sobre sua cabeça e continuaram se
agitando.
– Quem era esse? – perguntou alguém.
– Quem sabe?
Era um dia de céu espaçoso. Tinha caído a última neve invernal, e o degelo
começaria por volta do meio-dia. Os pássaros, exultantes pelo súbito sol, pousaram
sobre o Sagrado Coração. Paris começou a despir-se para a primavera, pois seu
branco virginal já estava muito manchado para continuar a usá-lo por mais tempo.
Por volta de meia amanhã, uma jovem ruiva, pendurada no braço de um grande
homem feio, passeava sem pressa pelas escadas do Sagrado Coração. O sol os
benzeu. Os sinos soaram.
Era um novo dia.

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