Jacqueline Ess sua vontade e seu testamento

“Meu Deus – pensou ela, – isto não pode ser viver! Sempre igual, tédio, estresse
e frustração.”
“Jesus Cristo – rezou, – tire-me daqui, me libere, me crucifique se for
necessário, mas livre-me de meus sofrimentos.”
Em lugar de receber sua bênção eutanásica, teve que agarrar, em um dia cinza
de finais de março, uma navalha do Ben. Fechou-se no banheiro e cortou os punhos.
Por trás dos batimentos de seu coração que lhe ressonavam nos ouvidos, ouviu
fracamente Ben lhe falar do outro lado da porta do banheiro.
– Você está aí dentro, querida?
– Vá embora – acreditou dizer.
– Voltei logo, amor. Havia pouco trânsito.
– Vá embora, por favor.
O esforço de tentar falar a fez escorregar da privada e cair sobre os ladrilhos
brancos do chão, onde os atoleiros que seu sangue tinha formado já esfriavam.
– Querida?
– Vá embora.
– Querida.
– Rápido.
– Você está bem?
“Aquele idiota ficou lutando com a porta. Não percebia que ela não podia nem
queria abri-la?”
– Responda, Jackie.
Ela grunhiu. Não pôde conter-se. A dor não era tão terrível como esperava, mas
tinha a horrível sensação de que a tinham golpeado na cabeça. Contudo, ele não podia
chegar a tempo, era muito tarde. Nem sequer se arrombasse a porta.
Ele arrombou a porta.
Levantou a vista para ele olhando-o através de um ar tão espesso de morte que
poderia ser cortado com uma faca.
– Muito tarde – acreditou dizer.
Mas não era.
“Meu Deus – pensou, – isto não pode ser o suicídio. Não morri.”
O doutor que Ben tinha contratado para ela era muito benevolente. O melhor,
prometeu-lhe, só o melhor para minha Jackie.
– Não há nada que não possamos solucionar com um pequeno remédio –
tranqüilizou-a o médico.
“Por que não diz de uma vez? – pensou. – Não se importa comigo. Não sabe o
que me acontece.”
– Cuido de muitos problemas femininos deste tipo – confessou, destilando uma
compaixão estudada por todos os poros. – Adquire proporções de epidemia a partir de
certa idade.
Ela tinha apenas trinta anos. O que ele queria dizer? Que ela estava com uma
menopausa precoce?
– Depressão, abstinência total ou parcial, neurose de todo tipo e calibre. Você
não é a única, acredite.
“Oh, sim eu sou. Estou aqui em minha cabeça, sozinha, e você não pode saber o
que acontece dentro dela.”
– Nós vamos resolver isso rapidamente.
“Sou como um cordeiro, não é isso? Acreditam que sou um cordeiro?”
Murmurando, ele olhou para seus diplomas emoldurados, para suas unhas arrumadas,
para as canetas e para o caderno de notas que tinha sobre a mesa. Mas não olhou
para Jacqueline. Olhou para todas as partes menos para Jacqueline.
– Sei – dizia agora – pelo que passou, e foi traumático. As mulheres têm certas
necessidades. Se não forem satisfeitas...
O que seriam as necessidades femininas?
“Ele não é uma mulher”, acreditou pensar.
– O que?
Tinha falado? Sacudiu a cabeça em sinal de que não. Ele prosseguiu,
encontrando outra vez o fio:
– Não vou submetê-la a intermináveis sessões de terapia. Não é isso o que quer,
não é verdade? Quer um pouco de tranqüilidade, e algo que a ajude a dormir de noite.
Ele estava começando a irritá-la. Sua atitude condescendente era tão profunda
que não tinha fim. Bancava o pai que tudo sabe e tudo o vê. Como se possuísse
alguma maravilhosa capacidade de intuir a natureza de uma alma feminina.
– Claro que testei os cursos de terapia com os pacientes, a alguns anos. Mas
entre você e eu...
Deu-lhe uma leve palmada na mão. A palmada do pai sobre o dorso de sua
mão. Supunha-se que devia sentir-se adulada, tranqüilizada, ou talvez seduzida.
– ...entre você e eu, é pura verborréia. Uma verborréia tediosa. Francamente,
para que serve? Todos temos problemas e não se podem superar falando, não é
verdade?
“Você não é uma mulher. Não tem a aparência de mulher, não sente como uma
mulher...”
– Você disse alguma coisa?
Negou com a cabeça.
– Achei que sim. Por favor, não tenha medo de falar sinceramente comigo.
Ela não respondeu, e o doutor pareceu se cansar de tentar travar um pouco de
intimidade. Levantou-se e foi para a janela.
– Penso no que é melhor para você...
Ficou de pé contra a luz, deixando o quarto às escuras, impedindo que ela visse
as cerejeiras do jardim, atrás da janela. Observou seus ombros largos e seu quadris
estreito. Ele era um homem típico, como diria Ben. Não era do tipo que os meninos
tem. Um corpo como aquele fora feito para repovoar o mundo. E se não podia com o
mundo, teria que conformar-se com os cérebros.
– Penso no que é melhor para você...
O que ele sabia, com esses lábios e esses ombros? Era muito homem para
compreender algo dela.
– Acredito que o melhor para você seria um tratamento a base de sedativos...
Agora pousou os olhos sobre a cintura do doutor.
– ... e umas férias.
Seu espírito se concentrou no corpo que havia por baixo da roupa. Nos
músculos, ossos e sangue que havia debaixo da pele elástica. Imaginou todos os
ângulos, medindo-o, calculando sua capacidade de resistência e, finalmente,
enfocando-o de frente. Pensou:
“Seja uma mulher.”
Nada demais nessa idéia extravagante, mas ela começou a converter-se em
realidade. Infelizmente, não foi uma transformação de conto de fadas, a carne do
homem resistia a esse tipo de magia. Ela desejou que seu peito masculino desse lugar
a duas mamas, e ele começou a inchar-se de uma maneira encantadora, até que a pele
cedeu e se desprendeu do esterno. Sua pélvis, esticada e a ponto de estalar, rasgouse
pelo centro, desequilibrado, caiu sobre sua mesa e a contemplou com a face
amarela pela comoção. Chupava os lábios sem parar, tentando encontrar um pouco de
umidade que lhe permitisse falar. Tinha a boca seca e as palavras morriam antes de
nascer. Todo o ruído vinha agora de entre suas pernas: o escoamento do sangue e o
golpe surdo do intestino ao cair sobre o tapete.
Gritou ante a absurda monstruosidade que tinha imaginado e se encolheu no
canto oposto do quarto, onde vomitou no vaso de barro da seringueira.
“Meu Deus! – pensou. – Isto não pode ser um assassinato. Nem sequer o fiz
sentir dor.”
Jacqueline guardou segredo a respeito do que tinha feito naquela tarde. Não
fazia sentido ter insônia e ter alguém lhe obrigando a pensar em um talento tão
peculiar.
A polícia foi muito amável. Procurou muitas explicações para justificar a súbita
morte do doutor Blandish, embora nenhuma delas explicasse porque seu peito se
ergueu de uma maneira tão extraordinária, transformando seu peito em duas formosas
(embora peludas) cúpulas.
Concluíram que algum psicopata desconhecido tinha irrompido na sala em um
acesso de loucura, cometeu a agressão com mãos, martelos e serras e saiu,
prendendo a inocente Jacqueline Ess em um mutismo apavorado do qual nenhum
interrogatório conseguiu arrancá-la.
Uma ou várias pessoas desconhecidas tinham enviado, segundo toda evidencia,
o doutor para um lugar onde nem os sedativos nem as terapias poderiam lhe servir de
ajuda.
Jacqueline quase se esqueceu completamente do episódio durante algum tempo.
Mas com o passar dos meses, a lembrança apoderou-se gradualmente dela, como se
fosse a lembrança de um adultério mantido em segredo. A idéia do prazer proibido a
excitava. Esqueceu-se das náuseas que sentiu e lembrou o poder. Esqueceu a sordidez
do que havia feito e recordou a força. Esqueceu a sensação de culpa que se apoderou
dela logo depois e desejou voltar a fazê-lo com toda sua alma.
Só que melhor.
– Jacqueline.
“É meu marido – pensou – quem me chama por meu nome completo?”
Normalmente era Jackie, Jack ou nada absolutamente.
– Jacqueline.
Olhava-a com seus grandes olhos azuis de menino, como o do colegial que se
apaixonou a primeira vista. Mas agora tinha a boca mais dura, e seus beijos tinham
sabor de pão rançoso.
– Jacqueline.
– Sim.
– Há algo que quero lhe falar.
“Uma conversa?”, pensou. Devia ser um dia de festa nacional.
– Diga – sugeriu.
Sabia que podia lhe obrigar a falar com seu pensamento se quisesse. Fazê-lo
dizer o que ela queria ouvir. Palavras de amor, talvez, se é que ainda podia lembrar
como soavam. Mas que sentido teria isso? Era melhor a verdade.
– Querida, afastei-me um pouco do bom caminho...
– O que quer dizer? – inquiriu.
“A verdade, a verdade, bastardo?”, pensou.
– Foi quando você não estava bem. Sabe? Quando as coisas tinham deixado de
funcionar entre nós dois. Quartos separados... Você quis quartos separados... e eu
fiquei louco de frustração. Não queria te incomodar, assim não disse nada. Mas não há
sentido que tentar viver duas vidas.
– Você pode ter um caso se quiser, Ben.
– Não é um caso, Jackie. Eu te amo...
Estava preparando um de seus discursos, podia ver como ele se formava atrás
de seus dentes. As justificativas que se convertiam em acusações, as desculpas que
degeneravam em ataques a sua forma de ser. Assim que começasse não poderia detêlo.
Não queria ouvi-lo.
– ... Você não se parece em nada consigo mesma, Jackie. É frívola a sua
maneira. Suponho que pareceria superficial.
“Talvez seja melhor interrompê-lo agora, antes que crie uma confusão, como de
costume.”
– Não é caprichosa como você. É só uma mulher normal, sabe? Não quero dizer
que você não seja normal, você não é culpada de ter depressão. Mas ela não é tão
sensível...
– Não tem problema, Ben...
– Não, porcaria! Preciso tirar isso do peito.
“E jogar isso em cima de mim”, pensou ela.
– Você nunca me deixa explicar – dizia, – sempre me lança um de seus malditos
olhares, como se quisesse que eu...
“Morresse.”
– ... me calasse.
Calar-se.
– Não se importa em como me sinto! – agora gritava. – Sempre encerrada em
seu próprio mundo.
“Cale-se”, pensou.
Estava com a boca aberta. Ela pareceu desejar que se fechasse, e ao ter essa
idéia suas mandíbulas se fecharam em seco, cortando a ponta da língua rosa. Ela lhe
caiu dos lábios e se alojou em uma dobra da sua camisa.
“Cale-se”, voltou a pensar.
As duas legiões perfeitas de dentes se enterraram uma dentro da outra,
rasgando-se e abrindo-se, os nervos, o cálcio e a saliva deixaram sair uma espuma
rosada sobre seu queixo à medida que a boca lhe escorregava para frente.
“Cale-se”, continuava pensando, enquanto seus olhos azuis e assustados de
bebê voltavam a entrar em seu crânio e o nariz deslizava em direção ao cérebro.
Já não era Ben, era um homem com a cabeça de um lagarto vermelho, que se
esmagava, enterrava-se em si mesma e, graças a Deus, nunca mais poderia falar
nada.
Agora que tinha pego o maldito, começou a concentrar-se nas mudanças que
desejava provocar em seu marido.
Atirou-o ao chão com um empurrão e começou a comprimir suas pernas e
braços, forçando a carne e o resistente osso em um espaço cada vez mais reduzido.
Os órgãos internos se dobraram para dentro, e a malha de seu estômago foi arrancada
de suas vísceras e estirada ao redor de seu corpo para envolvê-lo. Os dedos lhe
sobressaíam dos ombros, e os pés, que ainda esperneavam furiosos, se afundaram no
intestino. Deu-lhe uma última volta para esmagar seu espinha dorsal e convertê-la em
uma coluna de trinta centímetros de altura, e deu por finalizada a sessão.
Quando saiu de seu êxtase viu Ben sentado no chão, encerrado em um espaço
do tamanho aproximado de uma de suas bonitas malas de couro, enquanto o sangue, a
bílis e o líquido linfático emanavam fracamente de seu corpo mudo.
“Meu Deus – pensou, – esse não pode ser meu marido! Nunca foi assim de
pequeno.”
Desta vez não esperou que a ajudassem. Compreendeu a gravidade do que
tinha feito (entendeu, inclusive, como tinha feito) e assumiu o crime porque era justo que
agisse assim. Fez as malas e saiu da casa.
“Estou viva – pensou. – Pela primeira vez em toda minha miserável vida me
sinto viva.”
Testemunho de Vassi (primeira parte)
Dedico esta historia a quem sonha com mulheres doces e fortes. É uma
promessa tanto como uma confissão, assim como as últimas palavras de um homem
perdido que só queria amar e ser amado. Aqui estou sentado, tremendo, esperando
que caia a noite, aguardando que o fanfarrão do Koos chame outra vez à minha porta e
leve tudo o que tenho em troca da chave de sua habitação.
Não sou um homem valente e nunca fui, de forma que me assusta o que me
possa acontecer esta noite. Mas não posso passar a vida sonhando em todas as
horas, vivendo na escuridão e entrevendo o sol de vez em quando. Cedo ou tarde, é
preciso lutar (bonita expressão), levantar e participar dela. Embora isso signifique dar a
vida em troca.
Provavelmente só estou dizendo tolices. Quem encontrar este testemunho estará
pensando, estará se perguntando quem foi esse imbecil.
Meu nome é Oliver Vassi. Tenho trinta e oito anos. Fui advogado até um ano
atrás, até que empreendi a busca que culminou nesta noite com um fanfarrão, uma
chave e a rainha das rainhas.
Mas a história começou há mais de um ano. Faz muitos anos que Jacqueline
veio me ver pela primeira vez.
Chegou como chuva do céu a meu escritório, dizendo ser a viúva de meu amigo
da Faculdade de Direito, Benjamin Ess, e acabei recordando o seu rosto. Um amigo
comum que assistiu o casamento mostrou uma fotografia do Ben e de sua noiva
deslumbrante. E ali estava ela, com uma beleza tão tocante como prometia a foto.
Lembrei que me senti muito azarado durante esse primeiro encontro. Chegou
num momento delicado, e eu estava até o pescoço de trabalho. Mas me cativou tanto
que fui me esquecendo de todas as entrevistas do dia, e quando minha secretária
entrou me dirigiu um de seus olhares de aço, como se quisesse me jogar um cubo de
água fria em cima. Suponho que me apaixonei desde o começo, e ela percebeu a
atmosfera elétrica que reinava em meu escritório. Eu a fiz ver que tratava com cortesia
a viúva de um antigo amigo. Negava-me a pensar em paixões, não fazia parte de minha
natureza, ou isso acreditava. Que pouco sabemos – quero dizer, sabemos realmente –
de nossas aptidões!
A primeira vez que nos vimos, Jacqueline me contou muitas mentiras. Que Ben
tinha morrido de câncer, que quanto tinha falado de mim e com quanto carinho.
Suponho que poderia ter me dito a verdade, e eu não a teria levado em conta. Acho
que estive completamente submetido a ela desde o começo.
Mas é difícil recordar exatamente como ou quando o interesse por outro ser
humano se converte em algo mais comprometido, mais apaixonado. Pode ser que eu
invente a impressão que me causou este primeiro encontro, que recrie a história
simplesmente para justificar meus excessos posteriores. Não estou seguro. De
qualquer forma, ocorresse quando e onde ocorresse, devagar ou depressa, sucumbi
ante seus encantos e embarquei nesta aventura.
Não sou um homem particularmente inquisitivo no que concerne a meus amigos
ou companheiras de cama. Como advogado tenho passado a vida examinando a
porcaria das vidas alheias e, francamente, oito horas por dia de um trabalho parecido
me são mais que suficientes. Quando saio do escritório gosto de deixar o próximo em
paz. Não bisbilhoto nem me aprofundo nele, só lhe considero do ponto de vista de seu
aspecto exterior.
Jacqueline não foi uma exceção a esta regra. Era uma mulher que me alegrava
ter em minha vida, fosse qual fosse seu passado. Tinha um sangue-frio maravilhoso,
era inteligente, obscena e fina. Nunca tinha conhecido uma mulher mais encantadora.
Não era assunto meu como tinha vivido com o Ben, como tinha sido o matrimônio, etc...
Essa era sua história. Me bastava viver no presente e deixar que o passado morresse
por si só. Acredito que cheguei a me gabar que por muito que tivesse sofrido poderia
ajudá-la a esquecê-lo.
Certo que suas histórias eram incoerentes. Como advogado estava treinado
para ter vista de águia no referente às invenções, e por mais que tentasse não
acreditar no que me dizia a intuição, notava que não era franco comigo. Mas sabia que
todo mundo tem seus segredos. “Permitamos que ela também tenha os seus”, pensei.
Só uma vez discuti um detalhe sobre a suposta história de sua vida. Ao falar da
morte do Ben, deixou escapar que tinha recebido o que merecia. Perguntei-lhe o que
significava isso. Ela sorriu com aquele seu sorriso de Gioconda e me disse que achava
que teria que restabelecer o equilíbrio entre homens e mulheres. Não prestei atenção a
essa observação. Afinal, então já estava obcecado e à margem de toda esperança de
salvação, me fazia feliz poder assentir ante qualquer argumento dela.
Ela era tão formosa... Não em toda a extensão da palavra, não era jovem, nem
inocente, nem tinha essa simetria antiga que goza do favor dos publicitários e dos
fotógrafos. Seu rosto era a de uma mulher de quarenta e poucos anos, estava
acostumada a rir e a chorar, e o costume deixa sinais. Mas tinha a capacidade de
transformar-se da maneira mais sutil, fazendo que suas feições fossem tão mutáveis
como o céu. À princípio acreditei que se tratava de um truque de maquiagem. Mas
quando começamos a dormir juntos com mais freqüência e a observei pelas manhãs
com os olhos sonolentos, e pelas noites, cansados de cansaço, logo percebi que sobre
o esqueleto tinha mais que carne e sangue. O que a transformava era algo interno, era
efeito de sua vontade.
E vocês querem saber? Isso me fez querê-la ainda mais.
Foi então quando despertei uma noite com ela ao lado. Freqüentemente
dormíamos no chão, que ela preferia à cama. As camas, dizia, recordavam-lhe o
casamento. Seja como for, naquela noite estava deitada sob um edredom sobre o
tapete de minha sala, e eu, por mera adoração, contemplava seu rosto enquanto
dormia.
Se um se entregou por completo, observar a pessoa amada enquanto dorme
pode tornar-se uma experiência horrível. Talvez alguns de vocês conheçam essa
paralisia que se produz ao estudar traços impenetráveis. Chega-se então à conclusão
de que algo permanece sempre escondido em algum lugar inacessível da mente alheia.
Como disse, para quem se entregou, isso é um horror. Nesses momentos se percebe
que só existe uma relação com esse rosto, essa personalidade. Portanto, quando esse
rosto está fechado e a personalidade oculta em seu próprio mundo inacessível, se
sente completamente inútil. Como um planeta sem sol girando na escuridão.
Assim me senti aquela noite ao observar seus traços extraordinários, e enquanto
meditava sobre a perda de minha alma, seu rosto começou a alterar-se. Era evidente
que sonhava, mas devia ter sonhos pequenos! Toda sua constituição estava mobilizada,
seus músculos, seu cabelo, a parte inferior das bochechas se moviam sob o controle
de algum acontecimento interno. Os lábios se separavam do osso e se alteravam,
fervendo, em uma torre de pele, tinha o cabelo revolto ao redor da cabeça como se
estivesse deitada sobre a água, a substância de suas bochechas formava estrias e
ondulações semelhantes às escarificações rituais de um guerreiro, partes de uma
malha inflamada e palpitante lhe inchava o rosto. O conjunto voltava a mudar assim que
se formava uma nova máscara. Aquela flutuação me aterrorizava, e devo ter feito
algum ruído. Não despertou, mas se aproximou um pouco da superfície do sonho,
abandonando as águas profundas de onde procediam aquelas energias. As máscaras
desapareceram instantaneamente, e seu rosto voltou a ser o de uma mulher que dorme
placidamente.
Essa foi, como se compreenderá, uma experiência decisiva, embora tenha
passado os dias seguintes tentando me convencer de que não tinha visto nada.
O esforço foi inútil. Sabia que havia algo estranho nela, e por então estava
convencido que ela não sabia de nada. Estava seguro de que havia algo anormal nela,
e que faria melhor em investigar seu passado antes de lhe dizer o que tinha visto.
Depois de refletir, parece ridiculamente ingênuo pensar que ela ignorava possuir
semelhante poder. Mas me era mais fácil imaginá-la como uma vítima desse malefício
que como sua dona. Assim falam os homens das mulheres, não se trata tão somente
do Oliver Vassi falando a respeito de Jacqueline Ess. Nós, os homens, não podemos
imaginar que o poder se encontre a disposição no corpo da mulher, a não ser que se
trate de um menino. Ela não tem poder real. O poder deve estar em mãos masculinas,
como um dom divino. Isso é o que nos dizem nossos pais, os idiotas.
Em resumo, investiguei o passado de Jacqueline tão discretamente como pude.
Tinha um contato em Nova Iorque, onde o casal viveu, e não foi difícil pôr em marcha
algumas averiguações. Meu contato levou uma semana para me contactar, porque teve
que desembaraçar uma quantidade considerável de explicações policiais para conseguir
intuir algo da verdade, mas trouxe notícias, e elas eram ruins.
Ben estava morto, nisso não tinha mentido. Mas não podia ter morrido de
câncer. Meu contato só conseguiu algumas pistas muito vagas sobre o estado do
cadáver do Ben, mas lhe permitiram chegar à conclusão de que o tinham mutilado
espetacularmente. O principal suspeito? Minha amada Jacqueline Ess. A mesma mulher
inocente que ocupava meu apartamento e dormia todas as noites a meu lado.
Assim disse que ela estava me ocultando algo. Não sei o que esperava que
respondesse. O que obtive foi uma demonstração de seu poder. Deu-a de boa
vontade, sem maldade, mas teria sido estúpido se não tivesse compreendido que aquilo
era um aviso. Primeiro me contou como tinha descoberto sua capacidade única de
controlar por completo os seres humanos. Quando estava a ponto de suicidar-se,
desesperada, encontrou nas curvas mais escondidas de seu ser faculdades cuja
existência jamais tinha suspeitado. Poderes que foram emergindo dessas zonas
remotas à medida que se recuperava, como os peixes aparecem à luz.
Logo me fez uma pequena exibição desses poderes, me arrancando um a um os
cabelos da cabeça. Só doze, foi suficiente como demonstração de suas formidáveis
habilidades. Notei como se foram. Ela se limitava a dizer, um de atrás da orelha, e eu
sentia um formigamento e um puxão na pele quando os dedos de sua vontade me
tiravam um cabelo. Logo outro e outro. Foi uma demonstração incrível, tinha
transformado esse poder em uma arte sutil, localizava e eliminava um a um os cabelos
de meu crânio com a precisão de pinças.
Na realidade tinha me sentado, rígido de medo, e eu sabia que ela se limitava a
brincar comigo. Cedo ou tarde estava certo de que chegaria o momento de me calar
para sempre.
Mas tinha dúvidas. Confessou-me que, embora os tivesse aperfeiçoado, seus
poderes a assustavam. Disse que necessitava que alguém lhe ensinasse a tirar o
máximo deles. E eu não era esse alguém. Era só um homem que a amava, que a tinha
amado antes de sua revelação e continuaria amando-a apesar de tudo.
De fato, depois dessa demonstração, criei rapidamente um novo conceito de
Jacqueline. Em lugar de temê-la, senti-me ainda mais vinculado àquela mulher que
tolerava que eu possuísse seu corpo
O trabalho começou a me irritar, era uma distração que me impedia de pensar
em minha amada. Toda a reputação que alcancei começou a desfazer-se. Perdi
clientes e respeitabilidade. No transcurso de dois ou três meses, minha vida profissional
ficou reduzida a quase nada. Meus amigos se cansaram de mim e os colegas me
evitavam.
Não que estivesse chupando meu sangue. Quero deixar isso absolutamente
claro. Não era uma vampira nem um súcubo. O que me aconteceu, minha queda em
desgraça dentro da vida ordinária, se quiserem, foi culpa minha. Ela não me enfeitiçou,
essa é uma mentira romântica para justificar a queda. Ela era um oceano e eu tive que
nadar em seu interior. Isso tem algum sentido? Tinha me dedicado muito na vida, no
mundo sólido da lei, e estava cansado dele. Ela era líquida, como um mar sem
fronteiras contido em um só corpo, um dilúvio em uma casa pequena, e eu me afogaria
nele, se tivesse a oportunidade. Mas foi minha decisão. Fique claro. Sempre foi. Decidi
ir a sua casa esta noite, e estar com ela pela última vez. Decidi isso livremente.
E que homem não o faria? Ela era (é) sublime.
O mês que se seguiu a essa demonstração de poder vivi em um êxtase
permanente em sua presença. Enquanto estive com ela me ensinou maneiras de amar
inacessíveis para qualquer outra criatura sobre a terra. Digo inacessível, mas é que
com ela nada era inacessível. E quando não estava a meu lado se prolongava o feitiço,
parecia ter transformado meu mundo.
E então ela me deixou.
Eu sabia por que, procurava alguém que lhe ensinasse a usar sua força. Mas
compreender suas razões não aliviou meu sofrimento.
Eu desmoronei, perdi meu trabalho, minha identidade e os poucos amigos que
ficavam no mundo. Apenas sentia que foram perdas menores comparadas com a de
Jacqueline...
– Jacqueline.
“Meu Deus! – pensou. – Este é o homem mais influente do país?” Parecia tão
pouco atrativo e tão pouco espetacular... Nem sequer tinha o queixo forte.
Mas Titus Pettifer era o poder.
Dirigia tantos monopólios que não podia nem contá-los. Seus comentários no
mundo financeiro podiam destroçar companhias como se fossem de papel, acabar com
as ambições de centenas e com as carreiras de milhares de pessoas. A sua sombra
fortunas ruíam da noite para o dia, empresas inteiras desmoronavam quando lhes
soprava em cima, vítimas de seu capricho. Se algum homem conhecia o poder, era ele.
Tinha coisas a ensinar.
– Não se importa que a chame de J., não é?
– Não.
– Esperou muito?
– O suficiente.
– Normalmente não faço mulheres bonitas esperarem.
– Sei que faz.
Ela já o conhecia, dois minutos em sua presença tinham bastado para tomar a
medida. Meteria-se com mais rapidez em seu terreno se fosse insolente.
– Sempre chama as mulheres a quem acaba de conhecer por suas iniciais?
– É útil para arquivá-las. Importa-se?
– Depende.
– Do que?
– Do que me dê em troca desse privilégio.
– Assim é um privilégio conhecer seu nome.
– Sim.
– Bom... Sinto-me honrado. A não ser, naturalmente, que conceda esse privilégio
a qualquer um.
Negou com a cabeça, Não, compreendeu que não era pródiga em afetos.
– Por que esperou tanto tempo para me ver?
– Por que tive que receber informe de seus assédios a minhas secretárias com
exigências contínuas de me ver? Quer dinheiro? Porque se for isso sairá com as mãos
vazias. Fiz-me rico graças à mesquinharia, e quanto mais rico fico, mais mesquinho me
torno.
A observação era correta, ele a fez com absoluta simplicidade.
– Não quero dinheiro – disse ela com a mesma simplicidade.
– Isso é reconfortante.
– Há homens mais ricos que você.
Ele levantou as sobrancelhas, surpreso. Aquela beleza sabia morder.
– Certo.
Havia pelo menos meia dúzia de homens mais ricos que ele no hemisfério.
– Não sou uma pequena admiradora insignificante. Não vim aqui me fazer com
um nome. Vim porque temos interesses comuns, muito que oferecer um ao outro.
– Como o que?
– Eu tenho meu corpo.
Ele sorriu. Era a oferta mais direta que lhe tinham feito em muitos anos.
– E o que lhe dou eu em troca por tanta generosidade?
– Quero aprender...
– Aprender?
– ... a utilizar o poder.
Aquela mulher cada vez lhe parecia mais estranha.
– O que quer dizer? – perguntou para ganhar tempo.
Não a tinha avaliado corretamente, incomodava-lhe, isso o desconcertava.
– Terei que dizer outra vez, de maneira mais educada? – perguntou ela pela sua
vez, afetando insolência, com um sorriso que começou a lhe parecer atraente.
– Não é preciso. Quer aprender a usar o poder. Suponho que poderia lhe
ensinar...
– Sei que pode.
– Seja clara, sou um homem casado. Virginia e eu estamos juntos a dezoito
anos.
– Tem três filhos, quatro casas, uma filha chamada Mirabelle. Odeia Nova Iorque
e adora Bangkok, usa camisas com colarinho dezesseis e meio, sua cor favorita é o
verde.
– Turquesa.
– Conforme envelhece você se torna mais engenhoso.
– Não sou velho.
– Dezoito anos de casamento envelhecem prematuramente qualquer um.
– Não a mim.
– Prove.
– Como?
– Me possua.
– O que?
– Me possua.
– Aqui?
– Baixe as persianas, feche a porta, desligue o computador e me possua. Eu o
desafio.–
Desafiar?
Quanto tempo havia que ninguém o desafiava a algo?
– Desafiar?
Estava excitado. Não tinha se excitado tanto desde os doze anos. Baixou as
persianas, fechou a porta e apagou a gráfica de suas fortunas na tela.
“Meu Deus – pensou ela, – ele é meu!”
Não foi uma paixão tão espontânea como a que sentiu por Vassi. Por uma razão,
Pettifer era um amante torpe e inexperiente. Por outra, tinha muito medo da sua esposa
para ser um adultero consumado. Acreditava ver a esposa em toda parte, nos
vestíbulos dos hotéis em que alugavam um quarto para passar a tarde, nos táxis que
se aproximavam de seus pontos de encontro, uma vez inclusive (jurou que a
semelhança era absoluta) vestida de garçonete e limpando a mesa de um restaurante.
Nada mais que imaginação, mas tolhia a espontaneidade do romance.
Apesar de tudo, ela estava aprendendo com ele. Era tão brilhante nas finanças
como inepto no amor. Aprendeu a ser capitalista sem utilizar o poder, a não se deixar
afetar pela estupidez que as pessoas com carisma provocam entre os seres comuns, a
tomar as decisões simples de uma forma simples, a não ter piedade. Embora a este
último respeito não precisava aprender muito. Talvez fosse mais exato dizer que a
ensinou a não subestimar nunca sua instintiva falta de compaixão, a julgar friamente
quem merecia a extinção e quem podia juntar-se entre os justos.
Ela não se mostrou para ele nem uma só vez, embora utilizasse suas habilidades
com absoluta discrição para engendrar o prazer em seu sistema nervoso.
À quarta semana de sua aventura estavam deitados um ao lado do outro em um
quarto lilás, enquanto o tráfico de meia tarde rugia a seus pés. Tinha sido uma relação
sexual ruim, ele estava nervoso e não conseguiu tirá-lo de seus receios com nenhum
truque. Foi muito rápida e quase sem paixão.
Ia lhe dizer algo. Ela sabia, a revelação estava aguardando atrás de sua
garganta. Virando-se para ele, massageou-lhe as têmporas com sua mente,
tranqüilizando-o para que falasse.
Estava a ponto de arruinar o dia. Estava a ponto de arruinar sua carreira. Estava
a ponto – “Deus, me ajude!” – de arruinar sua vida.
– Tenho que parar de encontrá-la.
Não se atreveria, pensou ela.
– Não estou seguro do que sei a seu respeito, ou melhor, pelo que acredito
saber a seu respeito, mas me faz... ser cuidadoso, J. Você compreende?
– Não.
– Tenho receio do que suspeito... que você cometeu alguns crimes.
– Crimes?
– Você tem passado.
– Quem esteve mexendo nele? – perguntou. – Não foi Virginia?
– Não, Virginia, não. Ela não é nada curiosa.
– Então, quem?
– Não é assunto seu.
– Quem?
Exerceu uma ligeira pressão sobre as têmporas dele. Este gemeu de dor.
– O que há com você? – perguntou ela.
– Estou com dor de cabeça.
– Estresse, é só estresse. Posso ajudá-lo com isso Titus.
Tocou-lhe a fronte com os dedos, suavizando ao mesmo tempo a pressão que
exercia sobre ele. Ele suspirou ao aliviar-se.
– Está melhor?
– Sim.
– Quem esteve bisbilhotando, Titus?
– Tenho um secretário pessoal, Lyndon. Já te falei que ele sabe de nossa
relação desde o começo. Claro, reserva os hotéis e prepara as histórias que servem
de cobertura.
Havia algo infantil em seu discurso que era comovente. Como se estivesse
envergonhado de deixá-la com o coração destroçado.
– Lyndon é muito versátil. inventou um montão de histórias para fazer que as
coisas entre nós fossem mais simples. Assim não tem nada contra você. Só que viu por
acaso uma das fotografias que fiz de você.
– Por que?
– Não devia ter feito, foi um erro. Virginia poderia haver... – parou e recomeçou.
– Seja como for, ele a reconheceu embora não pudesse lembrar de quando a tinha
visto antes.
– Mas acabou por lembrar-se.
– Estava acostumado a trabalhar como repórter para um de meus periódicos.
Foi assim que chegou a meu ajudante pessoal. Lembrou-se da sua vida anterior, por
assim dizer. Jacqueline Ess, mulher de Benjamin Ess, morta.
– Morta.
– Trouxe-me outras fotos, não tão bonitas como as suas.
– Fotografias do que?
– De sua casa. E do corpo de seu marido. Disseram que era um corpo, embora
não houvesse nada de humano.
– Desde o começo houve pouca coisa de humano nele – disse com simplicidade,
pensando nos olhos frios de Ben e em suas mãos ainda mais frias. – Só merecia que o
encerrassem e o esquecessem.
– O que lhe aconteceu?
– A Ben? Foi assassinado.
– Como?
Sua voz tinha tremido um pouco?
– De uma maneira muito simples.
Levantou-se da cama e estava de pé junto à janela. Uma intensa luz de verão
penetrava pelas frestas da persiana e os contornos de seu rosto ficavam desenhados
por franjas de luz e sombra.
– Você fez isso.
– Sim. – Ele tinha lhe ensinado a ser franca. – Sim, fui eu.
Também tinha lhe ensinado a ser discreta em ameaças.
– Deixe-me e voltarei a fazê-lo.
Ele negou com a cabeça.
– Nunca. Não se atreverá.
Estava de pé ante ela.
– Temos que nos compreender, J. Sou poderoso e puro. Compreende? Meu
rosto público não pode ser afetado pelo escândalo. Poderia me permitir uma amante,
ou uma dúzia, mesmo se fossem descobertas. Mas, uma assassina? Não, isso me
arruinaria a vida.
– Este Lyndon o está chantageando?
Contemplou o dia através das persianas com um olhar angustiado no rosto. Teve
uma contração nos nervos da bochecha, sob o olho esquerdo.
– Sim, já que quer saber – reconheceu com uma voz apagada. – O bastardo me
tem nas mãos.
– Compreendo.
– E se ele pode suspeitar, outros também podem fazê-lo. Compreende?
– Eu sou forte, você é forte. Podemos fazê-los dar voltas sobre a ponta dos
mindinhos.
– Não.
– Sim. Eu tenho poderes, Titus.
– Não quero saber.
– Saberá – respondeu ela.
Olhou-o, agarrando-o pelas mãos sem tocá-lo. Ele observava com os olhos
arregalados enquanto suas mãos se elevavam para lhe tocar o rosto, lhe acariciar o
cabelo com o mais carinhoso dos gestos. Fez que seus dedos lhe percorressem o peito
com mais ardor do que podia reunir por iniciativa própria.
– Você é muito indeciso, Titus – disse, enquanto lhe obrigava a manuseá-la até
quase machucá-lo. – Assim é como eu gosto.
Agora as mãos de Titus se encontravam mais abaixo, fazendo que uma
expressão distinta aflorasse do rosto de Jacqueline. Estava invadida por marés, sentiase
completamente viva...
– Mais dentro...
Introduziu o dedo, acariciou-a com o polegar.
– Eu gosto disto, Titus, por que não pode me fazer isso sem que lhe tenha que
pedir?
Ele se ruborizou. Não gostava de falar do que faziam juntos. Obrigou-o a entrar
mais profundamente, sussurrando.
– Não vou me quebrar, sabe? Virginia pode ser de porcelana de Dresden, mas
eu não. Quero sentimento, quero algo que me permita lembrar de você quando não
estiver contigo. Nada é eterno, não é verdade? Mas quero algo que me dê calor
durante a noite.
Ele estava caindo de joelhos com as mãos postas, por decisão de Jacqueline,
sobre seu corpo e dentro dele, percorrendo-a como dois caranguejos luxuriosos. Tinha
o corpo empapado de suor. Ela pensou que era a primeira vez que o via suar.
– Não me mate – choramingou.
– Poderia te fazer desaparecer.
“Apagar”, pensou, mas retirou a imagem da mente antes de lhe fazer mal.
– Já sei, já sei – disse ele. – Pode me matar facilmente.
Estava chorando. “Meu Deus – pensou ela, – o homem eminente está a meus
pés, choramingando como um bebê! O que posso aprender sobre o poder em uma
representação tão pueril como esta?” Tirou-lhe as lágrimas das bochechas
empregando mais energia do que a necessária. A pele se avermelhou sob o olhar de
Jacqueline.
– Deixe-me, J. Não posso ajudá-la. Não te sirvo para mais nada.
Isso era verdade. Era absolutamente inútil. Liberou-lhe as mãos
despreciativamente. Elas caíram flacidamente de ambos os lados.
– Não tente me encontrar jamais, Titus. Compreendido? Não mande seus
capangas atrás de mim para proteger sua reputação, porque serei mais desumana do
que você jamais tenha sido.
Ele não disse nada, ficou de joelhos de cara para a janela, enquanto ela lavava o
rosto, bebia o café que tinham pedido e partia.
Lyndon se surpreendeu ao encontrar a porta de seu escritório aberta. Eram só
sete e trinta e seis. Nenhuma das secretárias chegaria antes de uma hora. Uma das
mulheres da limpeza devia ter se descuidado e deixou a porta aberta. Descobriria quem
foi e a despediria.
Empurrou a porta.
Jacqueline estava sentada de costas para ela. Reconheceu sua cabeça por
atrás, a cascata de cabelo castanho. Estava se exibindo como uma prostituta, era
muito obscena, muito selvagem. Lyndon tinha seu escritório, adjacente a do senhor
Pettifer, meticulosamente arrumado. Lançou-lhe um olhar, tudo parecia no lugar.
– O que você faz aqui?
Tomou um pouco de fôlego, preparando-se.
Aquela era a primeira vez que o fazia premeditadamente. Até então sempre
tratou de decisões impensadas.
Ele se aproximou da mesa, deixou sua mala e seu exemplar bem dobrado do
Financial Times.
– Não pode entrar aqui sem minha permissão.
Ela se virou lentamente sobre o eixo da cadeira, tal como ele estava
acostumado a fazer quando tinha que castigar alguém.
– Lyndon.
– Nada do que diga ou faça modificará os fatos, senhora Ess – disse,
economizando a dificuldade de introduzir o tema. – Você é uma assassina fria. Não tive
outra opção senão informar isso ao senhor Pettifer.
– Fez isso pelo bem de Titus?
– É obvio.
– E a chantagem também é pelo bem do Titus?
– Saia do meu escritório...
– É verdade, Lyndon?
– Você é uma puta! As putas não sabem nada, são ignorantes, animais doentes
– cuspiu. – Concordo, você é ardilosa, lhe concedo isso. Mas assim como qualquer
prostituta que busca ganhar a vida.
Levantou-se. Ele esperava uma resposta. Não obteve nenhuma ou, pelo menos,
não foi verbal. Mas sentiu que o rosto ficava rígido, como se alguém o estivesse
pressionando.
– O que... está... fazendo?
Estava lhe reduzindo os olhos a frestas como as de um menino que imitasse um
oriental monstruoso, estirava-lhe a boca pelos dois cantos, estreitando-a e conferindolhe
um sorriso resplandecente. Era difícil pronunciar as palavras...
– Pare...
Ela negou com a cabeça.
– Puta... – repetiu, desafiando-a uma vez mais.
Ela não fez mais que olhá-lo. Sua cara começava a sacudir e contrair-se sob a
pressão, os músculos se agitavam espasmodicamente.
– A polícia... – tentou dizer. – Se me puser um dedo...
– Não porei – disse sem necessidade de mentir.
Sentiu a mesma pressão no corpo, por baixo de seus vestidos, lhe estirando a
pele, aprisionando-o cada vez mais. Compreendeu que algo ia se romper. Teria alguma
parte débil que se rasgaria ante aquele ataque desumano. E começava a rachar-se
nada impediria Jacqueline de rachá-lo. Tudo isso lhe ocorreu friamente, enquanto o
corpo dele se contraía e lhe lançava maldições com seu sorriso forçado.
– Vaca! – insultou-a. – Puta sifilítica!
Não parecia estar assustado, pensou.
In extremis, deu rédea solta a todo o ódio que sentia por Jacqueline, de forma
que perdeu por completo o medo. Agora voltava a chamá-la de puta, embora tivesse o
rosto tão distorcido que era quase impossível reconhecê-lo.
E então começou a rasgar-se.
A fissura começou na ponta de seu nariz e foi para cima, cruzando a fronte, e
para baixo, seccionando os lábios, o queixo e em seguida o pescoço e o peito. Em
questão de segundos tinha a camisa tingida de vermelho, o traje escuro se tornou ainda
mais escuro, jorrava sangue pelos punhos e pelas calças. A pele lhe saiu voando das
mãos como as luvas de um cirurgião, e dois círculos de malha escarlate ficaram
pendurados de ambos os lados do rosto como as orelhas de um elefante.
Tinha parado de insultá-la.
Já fazia dez minutos que estava morto, mas ela continuava trabalhando
vingativamente em seu corpo, esfolando-o e repartindo os pedaços pela sala. Por
último, colocou-o de pé, com o traje, a camisa e os brilhantes sapatos vermelhos.
Satisfeita pelo espetáculo, liberou-o. Lyndon caiu brandamente sobre um atoleiro de
sangue e ali ficou.
“Meu Deus – pensou ao encarar com tranqüilidade as escadas dos fundos – isto
é um assassinato em primeiro grau!”
Não encontrou menção alguma da morte de Lyndon nos periódicos nem nos
boletins informativos. Pelo visto morreu assim como viveu, à margem do conhecimento
público.Mas ela sabia que teriam começado a girar rodas tão grandes que os indivíduos
insignificantes como ela não podiam ver seus eixos. Apenas conseguia imaginar o que
fariam, que modificações introduziriam em sua vida. E o assassinato do Lyndon não
tinha estado motivado só pela dor, embora tenha tido sua parte. Não, tinha pretendido
mobilizar ao mesmo tempo tantos inimigos no mundo, e fazer que a perseguissem,
obrigá-los a mostrar as garras, que mostrassem seu desprezo, seu terror. Era como se
tivesse passado a vida procurando por um indício que lhe permitisse compreender-se,
só era capaz de determinar sua natureza em função do olhar dos olhos alheios. Mas
agora ia acabar com aquilo. Era hora de enfrentar-se seus perseguidores.
Certamente todos os que a tinham visto – Pettifer primeiro e logo Vassi – se
lançariam em sua busca, e Jacqueline lhes fecharia os olhos para sempre, assim a
esqueceriam. Só poderia liberar-se mediante a destruição das testemunhas.
Pettifer não foi em pessoa, naturalmente. Era mais simples encontrar agentes,
homens sem escrúpulos nem compaixão, mas com faro para perseguição que
envergonhariam um sabujo.
Estavam lhe montando uma armadilha, embora ainda não pudesse lhes ver as
faces. Tudo eram presságios. Um vôo de pássaros atrás de uma parede, uma luz
peculiar em uma janela afastada, ruídos de passos, assobios, homens com trajes
escuros lendo periódicos à distancia. Com o passar das semanas não foram se
aproximando, mas tampouco partiram. Aguardavam como gatos em cima de uma
árvore, com a cauda arrepiada e os olhos preguiçosos.
Mas a perseguição tinha a marca de Pettifer. Tinha aprendido o suficiente dele
para reconhecer sua discrição e sua astúcia. Acabariam indo a ela, não quando ela os
esperasse, e sim quando eles quisessem. Ou melhor, nem sequer quando eles
quisessem, e sim ele. E embora não lhe visse jamais a cara, era como se Titus tivesse
em pessoa lhe pisando os calcanhares.
“Meu Deus – pensou, – minha vida está em perigo e isso não me importa!”
Sem um plano que lhes desse sentido, seus poderes sobre a carne não serviam
para nada. Ela os tinha utilizado por razões mesquinhas, para satisfazer um prazer
nervoso e uma cólera absoluta. Mas essas demonstrações não a tinham aproximado de
outros, ao contrário, tinham-na convertido em um monstro.
Às vezes pensava em Vassi, e se perguntava por seu paradeiro. Não era um
homem forte, mas guardava um pouco de paixão na alma. Mais que Ben, mais que
Pettifer, e certamente mais que Lyndon. E recordou com carinho que era o único
homem que a chamava de Jacqueline. Todos os outros lhe tinham deformado o nome:
Jackie, J. ou, nos momentos mais irritantes do Ben, Ju-ju. Só Vassi a tinha chamado de
Jacqueline, simples e sinceramente, aceitando-a, a sua maneira formal, em sua
totalidade. E quando pensava nele imaginava como poderia voltar para seu lado, sentia
medo por Vassi.
Testemunho do Vassi (segunda parte)
Claro que a procurei. Só quando se perde alguém se percebe o absurdo da
frase “o mundo é um lenço”. Não é. É um âmbito imenso, devorador, especialmente se
estiver sozinho.
Quando era advogado e freqüentava sempre às mesmas pessoas, estava
acostumado a ver rostos idênticos um ou outro dia. Com alguns trocava palavras, com
outros sorrisos, com outros assentimentos. Pertencíamos, embora pudéssemos ser
inimigos no tribunal, ao mesmo circulo. Comíamos na mesma mesa e bebíamos juntos.
Até compartilhávamos às amantes, embora nem sempre soubéssemos. Em
circunstâncias semelhantes, era simples pensar que o mundo não é ruim. Certo que
alguém cresce, mas outros fazem o mesmo. Inclusive acredita, de pura satisfação, que
o passar dos anos te faz um pouco mais inteligente. A vida é suportável, até os suores
das três da manhã, quando se inclina a balança da justiça, tornam-se menos
freqüentes.
Mas acreditar que o mundo não é ruim é enganar a si mesmo, como acreditar
nas chamadas certezas, que de fato não são mais que ilusões compartilhadas.
Quando ela foi embora, todas as ilusões desmoronaram, e todas as mentiras em
que me amparei durante a vida adquiriram uma clareza ofuscante.
O mundo não é um lenço quando nele não há mais que um rosto cuja
contemplação possa suportar, e esse rosto está perdido em alguma parte do
torvelinho. O mundo não é um lenço quando as poucas lembranças vitais do objeto de
seu carinho correm o perigo de ser pisoteadas pelas milhares de depressões que lhe
assaltam cada dia como meninos puxando a lapela, exigindo sua atenção exclusiva.
Eu era um homem desfeito.
Encontrava-me dormindo em pequenos quartos de hotéis desolados, bebendo
mais freqüentemente do que comia e escrevendo seu nome, como o típico obsessivo,
uma e outra vez, nas paredes, no travesseiro, na palma de minha mão. Rasguei a pele
da palma com a caneta e a tinta a infectou. Ainda tenho a marca, estou olhando para
ela agora. “Jacqueline – diz, – Jacqueline.”
E então, um dia, eu a vi por acaso. Soa melodramático, mas nesse momento
acreditei que ia morrer. Durante tanto tempo tinha imaginado e me torturado desejando
voltar a vê-la, que quando consegui meus membros começaram a fraquejar, e vomitei
no meio da rua. Não foi um encontro clássico. O amante, ao ver sua amada, vomita na
camisa. Mas é que nada do que ocorreu entre nós jamais foi totalmente normal. Ou
natural.
Eu a segui, embora isso fosse difícil. Havia aglomerações e ela andava
depressa. Não sabia se devia gritar seu nome ou não. Decidi que não. De qualquer
forma, o que ela teria feito ao ver aproximar-se um lunático sem se barbear, arrastando
os pés e chamando-a pelo nome? Provavelmente teria desatado a correr. Ou, pior
ainda, teria se metido em meu peito, me agarrando o coração com sua vontade, e teria
acabado com minhas misérias antes que pudesse dizer quem eu era.
Assim permaneci em silêncio e limitei-me a segui-la resignadamente ao que,
supus, seria seu apartamento. E ali fiquei, ou nas proximidades, os dois dias e meio
seguintes, sem saber bem o que fazer. Era um dilema ridículo. depois de tanto tempo
de perseguição, agora que a tinha ao alcance da voz, do tato, não me atrevia a me
aproximar.
Talvez temesse a morte. Mas aqui estou, neste quarto pestilento de Amsterdam,
escrevendo esse testemunho e esperando que Koos me traga sua chave, e agora não
tenho mais medo da morte. Provavelmente foi a proximidade o que me impediu de me
aproximar dela. Não queria que me visse destroçado e desolado, queria chegar limpo
perante ela, como seu amante sonhado.
Enquanto a esperava, eles apareceram procurando-a.
Não sei quem eram. Dois homens, vestidos com roupas comuns. Não acredito
que fossem policiais, eram muito educados, cultos até. E ela não resistiu. Foi
sorridente, como se estivesse indo para a ópera.
Assim que pude, voltei para o edifício um pouco melhor vestido, localizei seu
apartamento com ajuda do porteiro e irrompi nele. Ela tinha vivido de uma maneira
simples. Em um canto do quarto tinha colocado uma mesa e se pôs a escrever suas
memórias. Sentei-me para ler e acabei por levar as folhas. Não tinha passado dos sete
primeiros anos de sua vida. Perguntei-me, por vaidade, se me citaria no livro.
Provavelmente não.
Também levei alguns de seus vestidos, só os que tinha enquanto vivemos juntos.
E nada intimo, não sou um fetichista. Não ia enterrar a cabeça no aroma de sua roupa
intima. Mas queria algo que me recordasse e me permitisse imaginá-la, depois de
refletir, cheguei à conclusão de que não sei de outro ser humano melhor preparado
para vestir exclusivamente sua pele.
Foi assim que a perdi pela segunda vez, mais por culpa de minha própria
covardia que pelas circunstâncias.
Pettifer passou quatro semanas sem se aproximar da casa em que mantinham a
senhora Ess. Concediam-lhe mais ou menos tudo o que pedia, salvo a liberdade,
embora ela quisesse uma coisa abstrata. Não lhe interessava escapar, coisa que teria
sido fácil. Às vezes perguntava se Titus teria dito aos dois homens o que a mulher que
mantinham prisioneira naquela casa era capaz de fazer. Imaginou que não. Tratavamna
como se fosse simplesmente uma mulher em quem Titus se prendeu e a quem
desejava. Tinham-lhe proporcionado uma senhora com quem deitar-se, apenas isso.
Com uma casa própria e todo o papel que quisesse, voltou a escrever suas
memórias desde o começo.
O verão estava avançado e as noites começavam a refrescar. Às vezes se
deitava no chão (pediu-lhes que levassem a cama) para esquentar-se e desejava que
seu corpo ondulasse como a superfície de um lago. Seu corpo, sem sexo, converteu-se
de novo em um mistério para ela. Percebeu pela primeira vez que o amor físico tinha
sido uma forma de explorar a região mais íntima, mas também mais ignorada de seu
ser, a carne. Compreendeu-se melhor abraçando outra pessoa, só tinha visto
claramente sua substância quando outros lábios, adoradores e gentis, pousavam-se
sobre ela. Voltou a pensar em Vassi e, ao fazê-lo, o lago se encrespou como em plena
tormenta. Seus seios se elevaram como montes arrepiados, seu estômago foi
percorrido por extraordinárias marés, seu rosto se contorceu e atravessavam-na em
todos os sentidos correntes que lhe estalavam nos lábios e deixavam seu rastro como
as ondas sobre a areia. E se fez tão líquida como o era na lembrança de Vassi.
Pensou nas poucas ocasiões que encontrou o amor, e o amor físico, afastando
a ambição e a vaidade, que sempre tinham precedido nesses instantes. Era possível
que houvesse outros caminhos, mas tinha pouca experiência. Sua mãe sempre dizia
que as mulheres, por estarem mais em harmonia consigo mesmas que os homens,
precisavam evadir-se menos de seus conflitos. Mas a experiência lhe tinha
demonstrado o contrário. Sua vida estava cheia de feridas, mas desprovida de meios
para evitá-las.
Deixou de escrever suas memórias quando chegou aos nove anos. Não quis
seguir contar sua história a partir do primeiro aviso da puberdade iminente. Queimou os
papéis em uma fogueira que fez em seu quarto no dia em que Pettifer chegou.
“Meu Deus – pensou, – isto não pode ser o poder!”
Pettifer parecia doente, estava tão mudado fisicamente como um amigo de
Jacqueline que morreu de câncer. Um mês atrás parecia são, e um mês depois estava
abatido, como se tivesse devorado a si mesmo. Parecia a casca de um homem, tinha a
pele cinza e salpicada. Só seus olhos brilhavam, mas como os de um cão louco.
Estava vestido imaculadamente, como para um casamento.
– J.
– Titus.
Olhou-a de cima abaixo.
– Você está bem?
– Sim, obrigado.
– Dão-lhe tudo o que pede?
– São anfitriões perfeitos.
– Você não resistiu.
– Resistir?
– A estar aqui. Presa. Depois do que fez a Lyndon esperava outra matança de
inocentes.
– Lyndon não era inocente, Titus. Estas pessoas sim. Não lhes foi dito nada.
– Não considerei isso necessário.
Ele era seu captor, mas agia como um emissário no território de uma potência
mais poderosa. Gostava de sua maneira de comportar-se com ela, estava acovardado,
mas contente. Fechou a porta e passou a chave.
– Eu a amo, J. E tenho medo de você. De fato, acredito que te amo por causa
desse medo. É um vício?
– Eu diria que sim.
– Sim, eu também.
– Por que demorou tanto para vir?
– Tinha que organizar meus assuntos. Senão, quando eu me fosse, seria o caos.
– Se vá?
Olhou-a fixamente, com os músculos do rosto tensos pelo que tinha que dizer.
– Espero que sim.
– Para onde?
Ainda não tinha conseguido entender o que o tinha empurrado até aquela casa
depois de organizar seus assuntos, pedir perdão a sua esposa enquanto dormia, fechar
todas as vias de fuga e esquecer suas contradições.
Ainda não tinha lhe ocorrido que seu propósito era morrer.
– Só falta você, J. Não restou nada. E não posso ir a nenhuma parte. Você me
acompanha?
– Não.
– Não posso viver sem você.
O assunto era imperdoável. Não podia pensar em uma maneira melhor de
expressar seus sentimentos? Esteve a ponto de rir de sua trivialidade. Mas ele não
tinha acabado.
– ... E certamente não posso viver com você. – O tom mudou abruptamente. –
Porque você me dá nojo, mulher, todo seu ser me repugna.
– E então? – perguntou ela brandamente.
– Então... – tornou-se terno de novo, e ela começou a compreender – ... mateme.
Era grotesco. Estava olhando-a fixamente com os olhos brilhantes.
– É o que desejo. Acredite, é tudo o que desejo neste mundo. Mate-me da
maneira que você preferir. Irei sem resistência, sem uma só queixa.
Recordou a velha piada. O masoquista diz ao sádico: “Me bate! Pelo amor de
Deus, me bate!”. E o sádico ao masoquista: “Não”.
– E se me recusar? – respondeu.
– Não pode se recusar. Sou odioso.
– Pois eu não te odeio, Titus.
– Deveria. Sou fraco. Sou inútil. Não te ensinei nada.
– Ensinou-me muito. Agora posso me controlar.
– A morte do Lyndon foi controlada, não?
– Certamente.
– Pareceu-me um pouco excessiva.
– Recebeu seu castigo,
– Dê-me o que mereço. Eu a prendi. Rechacei-a quando necessitava de mim.
Castigue-me por isso.
– Eu sobrevivi.
– J.!
Nem sequer nesse momento supremo foi capaz de chamá-la por seu nome.
– Peço-lhe isso por Deus. É só o que quero de você. Faça isso por qualquer
rancor oculto que tenha por mim. Por compaixão, por desprezo ou por amor. Mas façao,
faça-o, por favor.
– Não.
Subitamente, Titus cruzou o quarto e a esbofeteou com raiva.
– Lyndon me disse que você foi uma puta. Tinha razão, você é. Um rato de
esgoto, nada mais que isso.
Afastou-se, virou-se, encarou-a outra vez, voltou a golpeá-la com mais rapidez,
com mais força, uma e outra vez, seis ou sete vezes, a frente e atrás.
Depois parou ofegante.
– Quer dinheiro?
Agora oferta. Primeiro golpes e depois ofertas. Estava cheio de lágrimas,
emocionado, e Jacqueline não podia fazer nada para evitá-lo.
– Quer dinheiro? – repetiu.
– O que você acha?
Não captou o sarcasmo e começou a lançar notas a seus pés, dúzias e mais
dúzias, como oferendas ao redor da estátua da Virgem.
– Tudo o que quiser, Jacqueline.
Sentiu algo parecido a dor de estômago quando começou a sentir vontade de
matá-lo, mas se dominou. Isso significaria lançar-se em seus braços, converter-se no
instrumento de sua vontade, ficar sem poder. Voltavam a utilizá-la, isso era tudo que
tinha conseguido em sua vida. Tinham-na criado como se fosse uma vaca, para que
rendesse algo. Um pouco de carinho para os maridos, de leite para os bebês, de morte
para os velhos. E, como uma vaca, esperava-se que fosse complacente com qualquer
petição que lhe fizesse e nas circunstâncias que fossem. Bom, pois desta vez não.
Dirigiu-se para a porta.
– O que está fazendo?
Agarrou a chave.
– Sua morte é assunto seu, não meu.
Titus correu para ela e a alcançou antes que pudesse abrir a porta, e o golpe
que lhe deu – por sua força e sua maldade – foi totalmente inesperado.
– Puta! – gritou, e uma chuva de golpes acompanharam o primeiro.
A coisa que em seu estômago queria matar cresceu um pouco mais.
Titus tinha agarrado o cabelo de Jacqueline. Levou-a de rastros para o quarto,
gritando uma corrente interminável de obscenidades, como se tivesse aberto um dique
cheio de esgoto que se derramava em cima dela. Para ele era só mais uma forma de
conseguir o que queria, disse a si mesma: “Se sucumbir você está perdida, ele está te
manipulando”. Os insultos continuavam aumentando, as mesmas palavras sujas que
tinham cuspido a gerações de mulheres insubmissas. Puta, herética, cadela, monstro.
Sim, ela era tudo isso.
“Sim – pensou, – sou um monstro.”
Essa idéia simplificou tudo. Virou-se. Ele soube o que ela se propunha a fazer
antes que o olhasse. Deixou cair as mãos de cima de sua cabeça. Jacqueline já tinha a
cólera na garganta, estava a ponto de alagá-lo com ela.
“Você me chamou de monstro, logo sou um monstro. Faço isto por mim, não por
ele. Nunca por ele. Para mim!”
Ficou boquiaberto quando ela o tocou com sua vontade, e os olhos brilhantes
deixaram de brilhar por um momento, o desejo de morrer se transformou em desejo de
viver. Muito tarde, claro. Rugiu. Ela ouviu um eco de gritos, passos e ameaças
procedente das escadas. Estariam no quarto em questão de segundos.
– Você é um animal.
– Não – respondeu Titus, convencido de que já estava sujeito a sua vontade.
– Você não existe – disse, avançando para ele. – Jamais encontrarão os restos
do que foi Titus. Titus desapareceu. O resto só é...
A dor foi terrível. Impediu-lhe de articular palavra alguma. Ou era ela quem lhe
modificava a garganta, o paladar e toda a cabeça? Estava lhe separando as placas do
crânio e as reorganizando.
“Não – quis dizer, – este não é o ritual refinado que eu tinha previsto. Queria
morrer dobrado dentro de você, queria ir com os lábios colados aos seus, encontrando
dentro de ti a tranqüilidade da morte. Não é assim que quero.”
Não. Não. Não.
Os homens que a tinham vigiado estavam golpeando a porta. Não os temia,
naturalmente, mas podiam danificar sua obra antes que lhe desse os últimos retoques.
Alguém se lançou contra a porta. A madeira se rachou e a porta se abriu de
repente. Os dois homens estavam armados. Tinham as armas firmemente empunhadas
e a apontaram.
– Senhor Pettifer? – perguntou o mais jovem.
No canto do quarto, sob a mesa, brilharam os olhos de Pettifer.
– Senhor Pettifer? – repetiu, ignorando à mulher.
Pettifer negou com sua cabeça esmagada. “Não se aproxime mais, por favor”,
pensou.O homem se abaixou e olhou por baixo da mesa a repugnante besta que estava
escondida ali, ensangüentada por causa da transformação, mas viva. Ela tinha matado
os nervos, de forma que não sentiu nada de dor. Sobreviveu com as mãos dobradas
como garras, as pernas enroladas ao redor das costas, os joelhos virados de tal forma
que parecia um caranguejo de quatro patas, o cérebro à vista, os olhos sem pálpebras,
a mandíbula inferior destroçada e dobrada sobre a superior como um bulldog, sem
lágrimas, a espinha dorsal partida, reencarnou-se em algo que não era humano.
“Você é um animal”, havia dito ela. E o que estava à vista não era uma réplica
ruim de sua condição de besta.
O pistoleiro teve ânsias ao reconhecer os fragmentos de seu chefe. Levantou-se
e lançou um olhar à mulher.
Jacqueline encolheu os ombros.
– Você fez isto? – perguntou com uma mescla de respeito e repugnância.
Ela assentiu.
– Venha, Titus – disse, estalando os dedos.
A besta negou com a cabeça, soluçando.
– Venha, Titus – insistiu com mais força, e Titus Pettifer saiu rebolando de seu
esconderijo, deixando atrás dele um rastro de sangue como um saco de carne furado.
O homem disparou sobre os restos de Pettifer por puro instinto. Apenas para
evitar que aquela criatura asquerosa se aproximasse.
Titus deu dois passos atrás cambaleando sobre suas garras ensangüentadas,
agitou-se como se quisesse tirar a morte de cima de si e morreu sem conseguir.
– Contente? – perguntou ela.
O pistoleiro levantou o olhar do cadáver. O poder estava falando com ele? Não,
a pergunta de Jacqueline era para outro, ela contemplava os restos de Pettifer.
– Contente?
O pistoleiro deixou cair sua arma. Seu companheiro fez o mesmo.
– Como isso aconteceu? – perguntou o homem que estava junto à porta.
Era uma pergunta simples, uma pergunta infantil.
– Ele pediu – disse Jacqueline. – Era tudo o que eu podia dar.
O homem da pistola assentiu e caiu de joelhos.
Testemunho do Vassi (última parte)
O azar desempenhou um papel estranhamente importante em meu romance com
Jacqueline Ess. Às vezes parece que tinha estado sujeito a qualquer acontecimento que
estremecesse o mundo, afetado pelo mais ínfimo capricho do destino. Em outras
ocasiões, tive a suspeita de que era ela quem estava dirigindo minha vida com sua
mente, como fazia com centenas, com milhares de pessoas, preparando todos os
meus encontros casuais, coreografando minhas vitórias e minhas derrotas, me guiando
cegamente até o último encontro.
Encontrei-a sem saber que a tinha encontrado, essa foi a ironia. Primeiro segui
sua pista até uma casa no Surrey, uma casa que no ano anterior tinha sido testemunha
da morte de um tal Titus Pettifer, um multimilionário assassinado por um disparo de um
de seus guardas pessoais. No piso de acima, onde tinha acontecido o crime, tudo era
serenidade. Se ela realmente esteve ali, tinham apagado todos os seus rastros. A
casa, agora quase em ruínas, foi objeto de todo tipo de grafites, e sobre a parede de
gesso manchada do quarto alguém tinha desenhado os traços de uma mulher. Tinha
atributos exageradamente obscenos, e em seu sexo aberto reluzia o que parecia um
raio. A seus pés se encontrava uma criatura de uma espécie indeterminada. Talvez um
caranguejo ou um cão, ou talvez um homem. Fosse o que fosse, não tinha controle
sobre si mesmo. Estava sentado à luz da presença torturante daquela mulher, e por
sua expressão parecia considerar-se um escolhido. Olhando para aquela criatura
murcha com os olhos voltados para contemplar a Madonna ardente, soube que o
quadro era um retrato de Jacqueline.
Não sei quanto tempo estive olhando para o grafite, mas fui interrompido por um
homem que parecia se encontrar em piores condições que eu. Sem se barbear nem se
lavar, seu porte refletia tal abatimento que me surpreendeu que conseguisse manter-se
ereto. Soltava um fedor que não teria envergonhado um gambá.
Não cheguei a saber seu nome, mas me disse que era o autor do quadro na
parede. Era fácil acreditar. Seu desespero, sua fome, sua confusão, tudo eram indícios
de que aquele homem tinha visto Jacqueline.
Estou certo de que se fui duro ao interrogá-lo, perdoou-me por isso. Contar tudo
o que tinha visto no dia em que Pettifer foi assassinado e saber que eu acreditava com
convicção foi para ele um alívio. Disse-me que seu companheiro de serviço, o homem
que efetuou os disparos que acabaram com Pettifer, havia se suicidado no cárcere.
Sua vida, disse, carecia de sentido. Ela o tinha tirado. Consolei-o como pude,
dizendo que ela não era má e que não devia temer que voltasse para acabar com ele.
Quando lhe disse isso pôs-se a chorar, na minha opinião mais desamparado que
aliviado. Por último perguntei-lhe se sabia onde Jacqueline estava. Acredito que deixei
essa pergunta para o final, a que mais me interessava, porque não me atrevi a supor
que pudesse respondê-la. Mas, graças a Deus, conhecia seu paradeiro. Não
abandonou a casa imediatamente depois da morte de Pettifer. sentou-se junto a ele e
ele lhe falou tranqüilamente de seus filhos, sua esposa e seu carro. Perguntou-lhe por
sua mãe, e lhe respondeu que foi prostituta. “Tinha sido feliz?”, perguntou-lhe
Jacqueline. Respondeu-lhe que ignorava. “Ela chorou alguma vez?”, inquiriu. Disse-lhe
que nunca a ouviu rir ou chorar em sua vida. E Jacqueline assentiu e lhe agradeceu.
Mais tarde, antes de suicidar-se, o outro pistoleiro lhe disse que Jacqueline foi
para Amsterdam. Tinha descoberto isso de um homem chamado Koos. E assim
começa a fechar o círculo, não é verdade?
Passei sete semanas em Amsterdam sem encontrar uma só pista de seu
paradeiro até ontem à tarde. Foram sete semanas de castidade, o que era incomum
para mim. Decaído e frustrado, dirigi-me ao bairro das prostitutas em busca de uma
mulher. Sentavam-se junto às janelas, sabem? Como manequins, ao lado de abajures
de franjas rosadas. Umas tinham pequenos cães no colo, outras liam. A maioria delas
se limitavam a olhar a rua como se estivessem hipnotizadas.
Não encontrei caras que me interessassem. Todas pareciam tristes, apagadas,
muito distintas à sua maneira. Entretanto, não podia ir embora. Era como um menino
gordo em uma loja de caramelos, muito enojado para comprar algo, mas muito guloso
para me afastar dali.
No meio da noite, um homem jovem entre a multidão se dirigiu para mim. Depois
de uma inspeção mais detalhada, percebi que não tinha nada de jovem, mas sim que
estava muito maquiado. Não tinha sobrancelhas, só traços de lápis sobre a pele
brilhante. Um cacho de pendentes dourados na orelha esquerda, um anel no dedo
médio na mão enluvada de branco, sandálias abertas, unhas pintadas. Agarrou-me a
manga como se eu fosse sua propriedade.
Certamente sorri burlonamente ante seu aspecto doentio, mas não pareceu que
meu desprezo o incomodasse. “Você parece ser um homem judicioso”, disse. Não me
parecia em nada com isso. “Deve estar equivocado, respondi.” “Não – replicou, – não
estou equivocado. Você é Oliver Vassi.”
Absurdamente, minha primeira idéia foi que pretendia me matar. Tentei escapar,
mas tinha me agarrado fortemente.
“Quer uma mulher”, disse. Exitei o suficiente para que interpretasse como um
sim minha negativa? “Tenho uma mulher que não se parece com nenhuma – prosseguiu,
– é um milagre. Sei que vai querer conhecê-la carnalmente.”
O que me fez saber que me falava de Jacqueline? Talvez tivesse me
reconhecido entre a multidão, como se ela estivesse em alguma janela ordenando que
levassem seus admiradores até ela, igual a um comensal escolhendo sua lagosta do
aquário. Talvez também a forma que seus olhos brilharam, sem medo, ao encontrar-se
com os meus, porque o medo, como o êxtase, só sentia na presença de uma criatura
neste mundo cruel. Não pôde ocorrer também que eu me visse refletido em seu
aspecto de delinqüente? Conhecia Jacqueline sem dúvida alguma.
Sabia que eu estava fascinado, porque assim que vacilei se virou com um ligeiro
encolhimento de ombros como se dissesse: perdeu sua oportunidade. “Onde ela está?”
perguntei agarrando-o por um braço tão magro como um ramo. Assinalou a rua abaixo
com a cabeça e o segui, tão estúpido de repente como qualquer idiota da turba. A rua
se esvaziava à medida que avançávamos, e as luzes vermelhas deram espaço primeiro
a penumbra e logo em seguida à escuridão. Perguntei-lhe uma dúzia de vezes para
onde íamos, mas preferiu não responder até que chegamos a uma porta estreita de
uma casa estreita de uma ruela da largura de uma navalha de barbear. “Aqui estamos”,
anunciou, como se aquele lugar fosse o palácio de Versalhes.
Na casa, que pelo resto estava vazia, havia um quarto com uma porta negra no
alto de dois lances de escadas. Empurrou-me para ela. Estava fechada.
– Olhe – disse. – Está lá dentro.
– Está fechada – repliquei.
Tinha o coração a ponto de estalar, estava perto, seguro, sabia que ela estava
perto.
– Olhe – voltou a dizer, e me indicou um pequeno buraco no painel da porta.
Devorei a luz que saía por ele, apertando o olho para vê-la pelo pequeno buraco.
O pequeno quarto estava vazio, salvo um colchão e Jacqueline. Jazia com os membros
estendidos, as mãos e os tornozelos amarrados a grossos postes cravados no chão
nos quatro cantos do colchão.
– Quem fez isso? – perguntei sem afastar os olhos de sua nudez.
– Ela mandou – replicou. – É desejo dela, quer assim.
Tinha ouvido minha voz, ergueu a cabeça com certa dificuldade e olhou
diretamente para a porta. Ao me olhar, todos os cabelos da minha cabeça se
arrepiaram, juro, em sinal de boas-vindas, e ondularam a sua vontade.
– Oliver – chamou.
– Jacqueline.
Pronunciei seu nome dando um beijo na madeira. Todo seu corpo fervia, seu
sexo depilado se abria e fechava como uma planta deliciosa, púrpura, lilás e rosa.
– Deixe-me entrar – pedi a Koos.
– Não sobreviverá a uma noite com ela.
– Deixe-me entrar.
– É cara – me avisou.
– Quanto quer?
– Tudo o que tem. A camisa que veste, o dinheiro, as jóias, logo será dela.
Queria jogar a porta abaixo ou lhe quebrar um a um seus dedos manchados de
nicotina até que me desse a chave. Ele adivinhou meus pensamentos.
– A chave está escondida – advertiu – e a porta é resistente. Tem que pagar,
senhor Vassi. Além disso, você quer pagar.
Ele estava certo. Eu queria pagar.
– Quer me dar tudo o que teve alguma vez, tudo o que foi. Quer perder-se com
ela sem que nada o retenha. Já sei. Assim é que todos vão a ela.
– Todos? São muitos?
– É insaciável – disse sem entusiasmo. Não era presunção de fanfarrão, pelo
contrário, constituía um sofrimento para ele, conforme compreendi claramente. – Não
paro de trazer-lhes e de enterrá-los.
Enterrá-los.
Essa, suponho, é a tarefa de Koos, desfazer-se dos mortos. E depois desta
noite me porá em cima suas mãos de unhas esmaltadas, me arrancará do lado de
Jacqueline quando estiver ressecado e lhe seja inútil e encontrará algum poço, canal ou
forno para me jogar. A idéia não era muito atrativa.
E, entretanto, aqui estou. Todo o dinheiro que ganhei com a venda do pouco que
tinha colocado na mesa à minha frente, sem dignidade, com a vida pendendo de um fio,
esperando um fanfarrão e uma chave.
A noite já está avançada e ele não foi pontual. Mas acredito que é obrigado a
vir. Não pelo dinheiro, provavelmente tenha poucas necessidades além do rimel e da
heroína. Deverá negociar comigo porque ela exige e o tem tão aterrorizado como a
mim. Sim, virá. É obvio que virá.
Bom, acredito que já é suficiente.
Este é meu testemunho. Não tenho tempo de voltar a lê-lo. Já escuto seus
passos na escada (ele manca) e devo ir com ele. Recomendo apenas a quem o
encontrar para que o use como achar conveniente. Pela manhã estarei morto e serei
feliz. Acreditem.
“Meu Deus – pensou, – Koos me enganou!”
Vassi tinha estado do outro lado da porta, tinha notado mentalmente a presença
de sua carne e ela o tinha abraçado. Mas Koos não lhe permitiu entrar, apesar das
suas ordens explícitas. Entre todos os homens só Vassi devia ter acesso livre, e Koos
sabia. Mas a tinha enganado, igual a todos, salvo Vassi. Com ele (talvez) tinha havido
amor.
Passava toda a noite deitada na cama, sem dormir jamais. Raramente dormia
mais que alguns poucos minutos, e só quando Koos a vigiava. Feria-se enquanto
dormia, mutilava-se sem perceber, despertava sangrando e gritando, com agulhas
cravadas por toda parte, agulhas que tinha fabricado com sua própria pele e seus
próprios músculos, parecia um cacto de carne.
Supôs que seria de noite outra vez, embora fosse difícil ter certeza. Naquele
quarto de cortinas opacas e uma só lâmpada, sempre era dia para os sentidos, e uma
noite perpétua para a alma. Morreria com dores nas costas e nas nádegas, escutando
os longínquos sons da rua, às vezes cochilando um pouco, outras comendo da mão de
Koos, sendo lavada, asseada e utilizada.
Uma chave girou na fechadura. Curvou-se sobre o colchão para ver quem era. A
porta estava abrindo... abria-se... abriu-se totalmente.
Vassi. Deus, era Vassi, por fim! Viu-o cruzar o quarto e dirigir-se para ela.
“Espero que não seja outra lembrança – implorou, – por favor, que seja ele
desta vez, em carne e osso.”
– Jacqueline.
Pronunciou o nome de sua carne, o nome inteiro.
– Jacqueline.
Era ele. Atrás dele, Koos olhava o vão entre suas pernas, fascinado pela dança
de seus lábios.
– Koos... – chamou tentando sorrir.
– Eu o trouxe – disse-lhe com um sorriso, mas sem afastar os olhos de seu
sexo.
– Um dia – sussurrou ela. – esperei um dia, Koos. Você me fez esperar...
– O que é um dia para você? – objetou sem parar de sorrir.
Já não necessitava mais do fanfarrão, embora ele ignorasse isso. Em sua
inocência, acreditou que Vassi era só mais um dos que tinha seduzido em seu caminho,
um homem a quem exaurir e despachar, como o resto. Koos estava convencido de que
continuaria sendo necessário no dia seguinte, por isso jogava limpamente aquele jogo
mortal.
– Feche a porta – pediu-lhe. – Fique se quiser.
– Ficar? – Seu tom era imoral. – De verdade? E olhando?
Ele olhava de qualquer forma. Ela sabia que a observava pelo buraco que tinha
feito na porta, às vezes o ouvia ofegar. Mas desta vez deixou que ficasse para sempre.
Cuidadosamente, Koos tirou a chave, fechou a porta, deslizou a chave na
fechadura interior e a fez girar. Matou-o assim que fechou o fecho, antes que pudesse
se virar para olhá-la de novo. Não houve nada espetacular na execução, limitou-se a
meter-se em seu peito de pomba e lhe esmagar os pulmões. Koos desabou contra a
porta e deslizou até o chão, manchando a madeira com o rosto.
Vassi nem sequer se virou para vê-lo morrer, ela era tudo o que queria ver.
Aproximou-se do colchão, abaixou-se e começou a lhe desatar os tornozelos.
Tinha a pele machucada, a corda estava cheia de crostas de sangue velho. Desfez os
nós com parcimônia, encontrando uma calma que acreditava ter perdido, pela simples
alegria de estar por fim ali, incapaz de voltar, e sabendo que o caminho que tinha diante
de si conduzia para ela.
Quando terminou de soltar os tornozelos começou a soltar as mãos, tampando a
visão do teto ao inclinar-se sobre ela. Sua voz era suave.
– Por que deixou que ele fizesse isto?
– Tinha medo...
– Do que?
– De me mover. Até de viver. Cada dia era uma agonia.
– Sim.
Ele compreendeu perfeitamente aquela incapacidade total de existir. Notou que
estava a seu lado, despindo-se, e logo depositando um beijo na pele cítrica do corpo
que ocupava. Levava a marca de seus sofrimentos, a pele tinha sido esticada mais do
que podia e ficou coberta de estrias para sempre.
Deitou-se ao lado dela, e a sensação de colar seu corpo ao da mulher não foi
desagradável.
Tocou-lhe a cabeça. Tinha as articulações rígidas, seus movimentos eram
dolorosos, mas queria lhe atrair o rosto para o seu. Ele entrou sorridente em seu
campo de visão e se beijaram.
“Meu deus – pensou ela, – estamos juntos!”
E pensando que estavam juntos, sua vontade se materializou. Sob os lábios de
Oliver se dissolveram os traços de Jacqueline, que se converteu no mar vermelho que
ele tinha sonhado e se estrelou contra seu rosto, que também estava se dissolvendo no
caudal comum, feito de vontade e de ossos.
Ela o atravessou com seus seios pequenos como flechas, ele, com a ereção
aguda pelo desejo, matou-a com um só impulso. Envoltos em uma onda de amor,
pensaram em sua extinção e, extinguiram-se.
Fora, o mundo cruel seguia lamentando-se, e o bate-papo de compradores e
vendedores se prolongou toda a noite. Finalmente, a indiferença e a fadiga fizeram
presa do mais ávido dos mercados. Dentro e fora das casas reinava um silêncio
reparador, era o fim dos encontros e das despedidas.

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