Naquele setembro o inferno subiu às ruas e praças de Londres, gélido porque
procedia do mesmo coração do Nono Círculo, e muito gelado como se o esquentasse o
calor de um veranico de São Martín. Tinha planejado tudo tão cuidadosamente como
sempre, mesmo que os planos não fossem mais que isso, e, além disso, fossem
frágeis. Possivelmente desta vez se mostrasse mais cuidadoso que de costume, pois
conferiu duas ou três vezes todos os detalhe para se assegurar que tinha todas as
possibilidades de ganhar aquele jogo vital.
Nunca tinha necessitado de espírito competitivo, seu fogo competiu contra a
carne em milhares de milhares de ocasiões ao longo dos séculos, ganhando às vezes,
mas perdendo mais freqüentemente. Depois de tudo, as apostas constituíam sua forma
de ganhar terreno. Sem a necessidade humana de competir, regatear e apostar,
Pandemonium poderia ter enlouquecido ao ficar insatisfeita sua avidez de cidadãos.
Aos abismos era indiferente que se tratasse de bailes, corridas de galgos ou de fazer
armadilhas, todos eram jogos em que, com a suficiente astúcia, poderia colher uma
alma ou duas. Por isso subiu o inferno a Londres nesse dia azul e brilhante: para
ganhar uma corrida e, se triunfasse, colher muitas almas para estar ocupado durante
mais uma era.
Cameron conectou a rádio. A voz do comentarista surgia e sumia como se
estivesse falando do Pólo em lugar da catedral de São Pablo. Ainda faltava um longo
quarto de hora para que a corrida começasse, mas queria ouvir os comentários
prévios, só para inteirar-se do que diziam de seu menino.
– ... a atmosfera é elétrica... provavelmente dezenas de milhares de pessoas ao
longo da pista...
A voz deixou de se ouvir. Cameron soltou uma blasfêmia e procurou outra
emissora até que voltou a escutar imbecilidades.
– ... chamaram-na a corrida do ano, e que dia! Não é mesmo, Jim?
– Magnífico, Mike...
– Este é o grande Jim Delaney, que está no alto da torre Olho do Céu, e que
acompanhará a corrida durante todo o percurso e comentará com a visão de pássaro,
certo, Jim?
– Claro, Mike...
– Bom, há muita atividade atrás da linha de largada, os corredores estão se
preparando para a competição. Vejo Nick Loyer, que leva o número três, é preciso
reconhecer que parece estar em plena forma. Disse-me ao chegar que não está
acostumado a correr aos domingos, mas que, claro, dada a fim beneficente desta
convocação, ele abriu uma exceção. Toda a arrecadação será destinada à pesquisa
sobre o câncer. Joel Jones, nosso medalha de ouro em 800 metros, também correrá
contra seu grande rival Frank McCloud, E ao lado dos grandes se encontram as caras
novas, que conhecemos ligeiramente. Com o número cinco, o sul-africano Malcolm
Voight e, completando o elenco, Lester Kinderman, vencedor inesperado da maratona
da Áustria no ano passado. E tenho que dizer que todos parecem frescos como rosas
nesta magnífica tarde de setembro. Não podíamos pedir um dia melhor, certo, Jim?
Joel tinham despertado de sonhos angustiantes.
– Tudo correrá bem, deixe de se preocupar – disse Cameron,
Mas não se sentia bem: doía-lhe a boca do estômago. Não eram a tensão de
antes de correr, estava acostumado a ela e podia suportá-la. O melhor remédio que
tinha encontrado para eliminar essa sensação era meter dois dedos na garganta e
vomitar. Não, não era a tensão anterior a corrida nem nada parecido. Para começar,
era mais intenso, como se as tripas lhe estivessem cozinhando por dentro.
Cameron não se deixou comover.
– É uma corrida beneficente, não as Olimpíadas – disse olhando para o menino
por cima do ombro. – Não seja criança.
Essa era a técnica de Cameron. Sua voz doce era feita para enrolar, mas ele a
utilizava para intimidar. Sem suas intimidações não teria havido medalhas de ouro, nem
torcidas entusiastas, nem admiradores. Um dos periódicos esportivos tinha eleito Joel
como o negro mais popular da Inglaterra. Era uma satisfação para ele que pessoas
desconhecidas o saudassem como amigo. Gostava da fama por mais efêmera que
pudesse ser.
– Eles gostam de você – disse Cameron. – Deus sabe lá por que, mas gostam
de você.
Depois de soltar seu pequeno sarcasmo pôs-se a rir.
– Tudo vai correr bem, filho – acrescentou. – Corra como se sua vida
dependesse disso.
Agora, em plena luz, Joel olhou para os outros competidores e se sentiu um
pouco mais otimista. Kinderman era resistente, mas não tinha potência nas arrancadas
nem médias distâncias. Em conjunto, a técnica de maratona requeria uma habilidade
muito distinta. Além disso, era tão míope que usava óculos com aros de aço que, de
tão grossas, davam-lhe o aspecto de uma rã perplexa. Ali não haveria perigo. Loyer
era bom, mas aquela também não era sua especialidade, tratava-se de um corredor de
obstáculos e um velocista ocasional. Seu limite eram os 400 metros, e nem sequer
neles se sentia à vontade. Voight, o sul-africano... Bom, não tinha muita informação a
respeito dele. Obviamente, a julgar por seu aspecto, estava em forma, e seria alguém
a quem controlar, para não ter alguma surpresa. Mas o verdadeiro problema da corrida
era McCloud. Joel tinha competido contra Frank Flash McCloud em três ocasiões.
Deixou-o duas vezes em segundo lugar, e as posições se inverteram (infelizmente). E
Frankie tinha algumas desforras para cobrar: especialmente a derrota nas Olimpíadas.
Não tinha gostado de ficar com a medalha de prata. Frank era o mais perigoso. Fosse
aquela uma corrida beneficente ou não, McCloud correria o melhor que pudesse para
dar satisfação à multidão e a seu próprio orgulho. Já estava na linha comprovando sua
posição de largada com as orelhas virtualmente erguidas. Flash era seu homem, sem
dúvida nenhuma.
Por um momento, Joel surpreendeu Voight olhando-o. Isso era incomum. Os
competidores raramente se observavam antes de uma corrida, era uma espécie de
covardia. Aquele homem tinha a cara pálida e cada dia mais entradas. Aparentava
trinta e poucos anos, mas seu físico era mais jovem e magro. Pernas compridas e
mãos grandes. Quando seus olhos se encontraram, Voight desviou o olhar. A bonita
corrente que levava no pescoço refletiu o sol, e o crucifixo resplandeceu, dourado, ao
balançar-se brandamente sob seu queixo.
Joel também contava com seu amuleto. Tinha uma mecha de cabelo de sua mãe
que lhe tinha trançado dez anos antes, como motivo de sua primeira corrida importante.
Tinha-o metido na cintura das calças. Ela retornou a Barbados no ano seguinte, e ali
morreu. Causou-lhe uma dor imensa, sua perda foi inesquecível. Teria desmoronado
sem Cameron.
Este observava os preparativos dos degraus da catedral, pensava em ver a
largada e depois ir de bicicleta para assistir à chegada. Estaria ali muito antes que os
corredores, e a rádio o manteria informado da competição. Sentia-se satisfeito naquele
dia. Seu menino, com náuseas ou não, estava em boa forma, e a corrida era uma
maneira ideal de lhe manter o humor competitivo sem deixá-lo esgotado. Claro que era
uma distância muito grande: cruzar a pracinha do Ludgate, percorrer a rua Fleet e
passar pela Têmpera Bar até o varadero, entrar logo pela esquina de Trafalgar e
passar pelo Whitehall até chegar ao Parlamento. E sobre asfalto. Mas era uma
experiência útil para Joel, e lhe exigiria um pouco de esforço, o que sempre era bom.
Havia um corredor de fundo naquele menino, e Cameron sabia. Nunca tinha sido um
velocista, não se compassava com a precisão necessária. Necessitava de distância e
tempo para encontrar seu ritmo, tranqüilizar-se e descobrir a estratégia mais correta.
Nos 800 metros era um fenômeno: sua pernada era um modelo de economia, com seu
ritmo quase maquiavélico de tão perfeito. Mas o mais importante era seu valor. O valor
havia lhe valido a medalha de ouro, e o valor lhe permitiria chegar em primeiro à meta
uma e outra vez. Isso era o que fazia Joel diferente. Apareciam e desapareciam muitos
prodígios de técnica depurada, mas sem a coragem suficiente para complementá-la
não valiam quase nada. Arriscar quando valia a pena, correr até que a dor cegasse,
isso era algo único, e Cameron sabia. Gostava de acreditar que ele também teve algo
disso.
Naquele dia, o moço não parecia nada contente. Teria apostado que se tratava
de um problema de saias. Sempre surgiam problemas de mulheres, especialmente com
a reputação de menino de ouro que Joel ganhou. Tentou convencê-lo de que teria
tempo para camas e festas quando sua carreira chegasse ao seu fim, mas Joel não se
interessava em manter-se casto, e Cameron não podia desaprová-lo por isso.
Levantaram a pistola e soou o disparo. Saiu um penacho de fumaça branca
azulada, seguido por um som mais de estalo que de detonação. O disparo despertou
às pombas da cúpula de São Pablo, que elevaram o vôo, interrompida sua adoração,
em uma congregação de pássaros.
Joel saiu muito bem. Limpo, elegante e rápido.
A multidão começou a aclamar imediatamente seu nome, as vozes lhe
ressonavam nas costas e a seu redor. Foi como uma explosão de entusiasmo
apaixonado.
Cameron o contemplou durante os dez primeiros metros, enquanto os
participantes manobravam em busca de um lugar na corrida. Loyer ia à cabeça do
pelotão, embora Cameron não estivesse seguro se tinha chegado ali por decisão
própria ou por azar. Joel seguia McCloud, que ia atrás do Loyer. “Sem pressa,
menino”, disse Cameron, e abandonou a contemplação da linha de largada. Tinha a
bicicleta trancada no Paternoster Row, a um minuto da praça. Sempre odiou os carros:
eram artefatos descrentes, desvencilhados, desumanos, não cristãos. E uma bicicleta
foi seu primeiro amor. Não era isso tudo o que podia pedir de um homem?
– ... e a saída do que pode ser uma maravilhosa corrida foi muito boa. Vão
cruzando a praça e o público está acalorado. Na realidade, parece mais com uma
corrida dos Jogos Europeus que com uma competição beneficente. O que você acha,
Jim?
– Bem, Mike, posso ver aglomerações ao longo da pista na rua Fleet. A polícia
me pede que aconselhe o público que não se aproxime com carro dos corredores
porque, como é natural, todas essas ruas estão interditadas ao tráfico devido ao
evento, e quem tentar se aproximar não chegará a parte alguma.
– Quem está liderando no momento?
– Bom, Nick Loyer está ditando o ritmo nesta fase da competição embora, é
obvio, vai haver muito jogo estratégico em uma distância deste tipo. É mais que uma
distância média e menos que uma maratona, mas todos estes homens são
estrategistas, e tentarão que outros levem a princípio o peso da corrida.
Cameron sempre dizia: deixe que outros sejam os heróis.
Joel descobriu que essa era uma lição difícil de aprender. Quando se disparava
a pistola tinha que se controlar para não se por a correr a plenos pulmões, como uma
mola solta de repente, dar tudo nos primeiros duzentos metros e ficar sem reservas.
Cameron costumava dizer que era fácil ser um herói. Mas que não é inteligente,
absolutamente. Não perca tempo se exibindo, deixe para os super-homens seu
pequeno triunfo. Mantenha-se no pelotão e se preserve um pouco. É melhor ser
aclamado no final por um triunfo que ser considerado um perdedor com boa vontade.
Vontade. Vontade. Vontade.
A qualquer preço. A quase qualquer preço.
Vontade.
O homem que não quer ganhar não é meu amigo, dizia. Se o quer fazer por
amor à arte, por diversão, procure outro. Só os estudantes de colégios privados
acreditam essa besteira de jogo pelo jogo. Não há alegria para os perdedores, filho. O
que eu disse?
Não há alegria para os perdedores.
Seja bárbaro. Observe as regras, mas as force até o limite. Enquanto puder
empurrar, empurre. Não permita que outro filho da puta te diga algo diferente. Está aqui
para ganhar. O que eu disse?
Ganhar.
No Paternoster Row não se ouviam aclamações e as sombras dos edifícios
ocultavam o sol. Quase fazia frio. As pombas seguiam voando, incapazes de pousar
agora que as tinham espantado de seus ninhos. Eram os únicos habitantes daqueles
becos. O resto do mundo vivo parecia estar observando a corrida.
Cameron soltou sua bicicleta, meteu no bolso a corrente e os cadeados e
montou de um salto. “Estou bastante ágil para um homem de cinqüenta anos – pensou
– apesar de meu vício nos charutos baratos.” Ligou a rádio. As ondas, obstruídas pelos
edifícios, chegavam truncadas, só ouvia chiados. Ficou sentado sobre a bicicleta e
tratou de sintonizar melhor. Teve sorte.
– ... e Nick Loyer já está ficando para trás...
Que rápido! Cuidado, fazia dois ou três anos que Loyer tinha perdido sua
plenitude física. Tinha chegado a hora de tirar as sapatilhas e deixar o lugar para os
jovens. Teria que fazer por muito doloroso que fosse. Cameron lembrou como se sentiu
aos trinta e três, quando percebeu que seus melhores anos de corredor tinham
acabado. Era como ter um pé na tumba, um saudável aviso da rapidez com que
floresce e começa a murchar o corpo.
Ao sair pedalando das sombras e entrar em uma rua mais ensolarada, cruzou
com um Mercedes negro com chofer, que circulava tão silenciosamente que poderia ter
sido impulsionado pelo vento. Pôde entrever os passageiros muito brevemente. Em um
deles reconheceu o homem com que Voight tinha conversado antes da corrida, um
indivíduo de cara magra, de uns quarenta anos, com a boca tão apertada que parecia
que tinham lhe extirpado cirurgicamente os lábios.
A seu lado Voight estava sentado.
Por impossível que parecesse, foi a cara de Voight que voltou a vista através do
vidro escurecido, ainda estava vestido para a corrida.
Cameron não gostou nada daquilo. Tinha visto o sul-africano começar a correr
cinco minutos antes. Assim, quem era aquele? Um sósia, obviamente. Mas algo
cheirava mal, fedia a cão morto.
O Mercedes já estava dobrando a esquina. Cameron desligou o rádio e
começou a pedalar atropeladamente atrás do carro. Ao correr, o sol balsâmico o fazia
suar.
O Mercedes ia abrindo caminho pelas ruas estreitas com certa dificuldade,
ignorando todos os sinais de proibição. A baixa velocidade do veículo permitiu a
Cameron mantê-lo em vista sem que seus ocupantes o descobrissem, embora o
esforço começasse a lhe criar problemas nos pulmões.
O Mercedes parou em uma avenida pequena e anônima a oeste do beco Fetter,
onde as sombras eram particularmente densas. Cameron, oculto em uma esquina a
menos de vinte metros do carro, viu o chofer abrir a porta e descer o homem sem
lábios e o simulacro do Voight desceu atrás, logo entraram em um edifício indescritível.
Quando os três desapareceram, Cameron apoiou sua bicicleta contra uma parede e os
seguiu.
Na rua reinava um silêncio sepulcral. A tanta distância do rugido da massa, não
chegava mais que um leve murmúrio. A rua poderia ter sido de outro mundo. As
sombras revoluteantes dos pássaros, as janelas dos edifícios muradas com tijolos, a
pintura descascada, o aroma de podre daquele ar leve. Junto a uma boca-de-lobo jazia
um coelho morto, um coelho negro com um colar branco, o mascote que alguém teria
perdido. As moscas se levantavam e equilibravam sobre ele, ao mesmo tempo
assustadas e vorazes.
Cameron se aproximou da porta aberta com todo o sigilo de que foi capaz. Não
tinha nada a temer. Fazia um bom momento que o trio tinha desaparecido pelo escuro
corredor da casa. No vestíbulo o ar era fresco e cheirava a úmido. Bancando o
intrépido, embora se sentisse assustado, Cameron entrou naquele edifício. O papel das
paredes do corredor era de cor de merda, igual à pintura. Era como entrar em um
intestino, o intestino de um homem morto, frio e cheio de caca. As escadas que tinha
em frente afundaram, impedindo o acesso ao piso superior. Logo não se dirigiram
acima, mas sim tinham descido.
A porta que conduzia ao porão estava ao lado da escada destroçada, e
Cameron pôde ouvir vozes vindas de abaixo.
“Quanto antes melhor”, pensou, e abriu a porta o suficiente para poder deslizar
na escuridão que havia atrás dela. Estava gélida. Não fria ou úmida simplesmente,
parecia refrigerada. Por um momento acreditou que tinha entrado em uma câmara
frigorífica. Seu fôlego se converteu em bafo: esteve a ponto de bater os dentes.
“Não posso ir atrás deles agora”, pensou, e começou a descer pelas escadas
escorregadias de gelo. Reinava uma escuridão inverossímil. Ao final das escadas,
muito abaixo, piscou uma pálida luz, e seu brilho mortiço pareceu aspirar à luz do dia.
Cameron jogou um olhar nostálgico à porta que tinha atrás dele. Era tentadora, mas ele
era curioso, muito curioso. A única coisa que podia fazer era continuar descendo.
O cheiro do lugar lhe irritou as narinas. Tinha o olfato atrofiado e o paladar ainda
pior, como a sua mulher gostava de lhe recordar. Estava acostumado a dizer que não
era capaz de distinguir entre uma rosa e um alho, e provavelmente estava certa. Mas o
cheiro daquele buraco lhe sugeria algo, algo que lhe estimulava os ácidos do estômago.
Cabras. Teria gostado de poder dizer imediatamente a sua mulher: cheirava a
cabras.
Já quase tinha chegado ao final das escadas, talvez se encontrasse a cinco ou
dez metros clandestinamente. Ainda podia ouvir as vozes ao longe, atrás de uma
segunda porta.
Entrou em uma pequena câmara cujas paredes tinham sido mal caiadas e que
estavam borradas com desenhos obscenos, reproduções em sua maioria do ato
sexual. No piso havia um candelabro com sete braços. Só estavam acesas duas velas
sujas, e ardiam com uma chama apagada quase azul. O cheiro de cabra ficou mais
intenso, e se mesclou com um aroma tão adocicado que parecia vir de um bordel turco.
Duas portas conduziam para fora da câmara, e atrás de uma delas Cameron
ouviu a continuação da conversa. Cruzou com um cuidado escrupuloso o pavimento
escorregadio até a porta, esforçando-se por compreender o sentido daqueles
murmúrios. Havia urgência nos tons das vozes.
– ... depressa...
– ... as habilidades necessárias...
– Meninos, meninos...
Uma gargalhada.
– Acredito que... amanhã... todos nós...
Outra gargalhada.
De repente, as vozes pareceram mudar de direção, como se os interlocutores
voltassem para a porta. Cameron deu três passos atrás pelo chão gélido e esteve a
ponto de se chocar com o candelabro. Quando passou em frente às chamas, estas
chisparam e crepitaram.
Tinha que escolher entre as escadas ou a outra porta. As escadas significavam
a retirada absoluta. Se as subisse estaria a salvo, mas não teria descoberto nada. Não
saberia nunca a razão do frio, das chamas azuis e do cheiro de cabras. A porta
representava sua única possibilidade. Voltou-se para ela com os olhos fixos na que
estava em frente, e lutou com o trinco de cobre, de um frio cortante. Este acabou por
ceder, e Cameron se escondeu no preciso instante em que se abria a porta de frente.
Os dois movimentos tinham sido perfeitamente sincrônicos: Deus estava com ele.
Assim que fechou a porta, compreendeu que tinha cometido um erro. Deus não
estava com ele.
O frio penetrou-lhe na cabeça, nos dentes, nos olhos, nos dedos como se
fossem agulhas. Sentiu-se como se tivesse sido atirado nu em pleno coração de um
iceberg. O sangue parecia ter se paralisado nas veias: a saliva se cristalizou na língua:
o suor que tinha em torno do nariz ardeu ao congelar-se. O frio disparava flechas de tal
forma que nem sequer podia se mexer.
Movendo o menos possível suas articulações, procurou seu isqueiro com dedos
tão adormecidos que poderiam ser cortados sem que doessem.
O isqueiro caiu em seguida da mão, pois o suor dos dedos tinha congelado.
Tentou acendê-lo face à escuridão e o frio. Faiscou reticentemente e ardeu com uma
chama vacilante.
A sala era ampla: uma caverna coberta de gelo. As paredes e o chão cheio de
crostas brilhavam e lançavam brilhos. Sobre sua cabeça penduravam estalactites de
gelo agudas como lanças. O chão que pisava, mal nivelado, inclinava-se para um
buraco aberto no meio do quarto. A menos de dois metros, a parede tinha tanto gelo
que parecia que um rio tinha ficado congelado ao irromper na escuridão.
Pensou em Xanadú, um poema que se sabia de cor.
Visões de outra Albión...
Onde Alph, o rio sagrado, deslizava
por cavernas incomensuráveis para o homem
até um mar sem sol
Se realmente havia um mar ali embaixo tinha que estar gelado. Era a morte
eterna.
Foi tudo o que pôde fazer para manter-se de pé, para evitar escorregar para o
desconhecido. O acendedor piscou quando uma rajada de ar frio o apagou.
– Merda! – exclamou Cameron ao ficar no escuro.
Nunca saberia se sua voz alertou o trio que se encontrava fora ou se Deus o
abandonou por completo nesse instante e convidou o trio a abrir a porta. Mas quando
esta se abriu de par em par, Cameron caiu no chão. Muito gelado para evitar a queda,
estatelou-se contra o piso gelado assim que uma baforada do cheiro de cabra entrou
no quarto.
Virou-se pela metade. Na porta estavam o sósia de Voight, o chofer e o terceiro
homem do Mercedes. Vestia um casaco, que parecia, com várias peles de cabra. Dele
ainda pendiam cascos e chifres por toda parte. O sangue que manchava essas peles
era marrom e viscoso.
– O que faz aqui, senhor Cameron? – perguntou-lhe o homem do casaco de
cabra.
Cameron não podia falar. A única sensação que sentia era de uma angústia
espetada no meio da cabeça.
– Que infernos está acontecendo aqui? – perguntou, com os lábios tão gelados
que quase não podia movê-los.
– Precisamente isso, senhor Cameron – replicou o homem. – Os infernos se
abriram.
Ao passar St. Mary Strand, Loyer olhou para trás e deu um tropeção. Joel, a
uns três metros do líder, compreendeu que Loyer estava se cansando. Muito rápido,
isso era ruim. Diminuiu a velocidade, deixando que McCloud e Voight o ultrapassassem.
Não tinha pressa. Kinderman estava a uma distância considerável, era incapaz de
competir com aqueles jovens tão rápidos. Era a tartaruga da corrida, sem dúvida
nenhuma. Loyer foi superado por McCloud, em seguida por Voight e finalmente por
Jones e Kinderman. Seu fôlego tinha acabado de repente, e sentia as pernas pesadas.
Pior ainda, via o asfalto ranger e rachar-se a seus pés, e emergir dedos dele para
prendê-lo. Parecia que ele era o único a vê-los. A multidão continuava rugindo enquanto
essas mãos imaginárias emergiam de suas tumbas sob o pavimento e o agarravam
firmemente. Caiu exausto nos braços daqueles mortos, com a juventude truncada e a
energia consumida. Os ansiosos dedos dos mortos continuaram prendendo-o muito
depois que os doutores o retiraram da pista, examinaram-no e lhe administrassem
calmantes.
Claro que sabia por que razão lhe tinham disparado flechas dessa forma
enquanto estava estirado sobre o asfalto quente. Havia olhado para trás. Isso era o
que lhes tinha atraído. Havia olhado...
– E depois da sensacional queda do Loyer, a corrida ainda está por decidir-se.
Frank Flash McCloud é quem dita o ritmo neste momento, e está se afastando
substancialmente de Voight, o novo campeão. Joel Jones está ainda mais atrasado,
não parece manter-se entre os líderes. O que acha, Jim?
– Bom, ou já está cansado ou confia em que os outros se cansem. Lembre que
esta distância é nova para ele...
– Sim, Jim.
– E isso poderia fazer que ele se descuidasse. Certamente vai ter que trabalhar
muito para melhorar seu terceiro posto atual.
Joel estava enjoado. Por um momento, ao ver Loyer perder o controle da
corrida, tinha ouvido Loyer rezar em voz alta. Rogar a Deus que o salvasse. Tinha sido
o único a ouvir suas palavras...
Sim, embora atravesse
as sombras do Vale da Morte
não temerei mal algum, pois
tú está comigo,
com sua vara e seu bastão...
Agora o sol esquentava mais, e Joel começava a ouvir as queixas familiares dos
seus membros ao se cansar. Correr sobre asfalto era duro para os pés e para as
articulações, mas não tanto para obrigar um homem a rezar. Tratou de esquecer o
desespero de Loyer e de concentrar-se no que fazia.
Ainda havia muita corrida pela frente, não tinham coberto nem a metade do
percurso. Tinha tempo de sobra para alcançar os heróis, de sobra.
Enquanto corria, repassava prazerosamente as orações que sua mãe lhe tinha
ensinado se por acaso necessitasse delas, mas os anos as tinham erodido e quase as
tinha esquecido por completo.
– Meu nome – disse o homem do casaco de cabra – é Gregory Burgess.
Membro do Parlamento. Não deveria me conhecer. Desejo passar despercebido.
– Membro do Parlamento? – perguntou Cameron.
– Sim. Independente. Muito independente.
– Esse é o irmão do Voight?
Burgess olhou para a outra encarnação de Voight. Aquele frio tão intenso não o
fazia sem sequer tremer, apesar de só estar vestido com uma camiseta fina e calças
curtas.
– Irmão? – disse Burgess. – Não, não. É meu... como se diz? Familiar.
A palavra soava a algo, mas Cameron não tinha lido muito. O que era um
familiar?
– Aprendiz – concedeu magnanimamente Burgess.
O rosto de Voight se agitou, sua pele pareceu encolher-se, os lábios se
enrolaram sobre os dentes, os dentes se desfizeram em uma cera branca que caiu em
um esôfago que por sua vez estava se transformando em uma coluna de prata
brilhante. Aquela face já não era humana, nem sequer a de um mamífero. Transformouse
em um leque de facas cujas lâminas resplandeciam à luz das velas que havia depois
da porta. Assim que se transformou nesse espantalho, começou a mudar de novo, as
facas se desfaziam e obscureciam, voltava a brotar pele, reapareciam os olhos e se
inchavam como globos. Desta nova cabeça surgiram antenas, a massa em
transfiguração expulsou suas mandíbulas, e uma cabeça de abelha, grande e
perfeitamente complexa, ficou assentada sobre o pescoço de Voight.
Burgess adorou a demonstração e aplaudiu com as mãos enluvadas.
– Os dois são familiares – disse, assinalando o chofer, que tinha tirado a boina,
deixando que um redemoinho de cabelo castanho lhe caísse sobre os ombros.
Era arrebatadoramente formoso, um rosto pelo qual valia a pena morrer. Mas,
como o outro, tão somente uma ilusão. Capaz sem dúvida de encarnar uma infinidade
de pessoas.
– Os dois são meus, é obvio – esclareceu Burgess com orgulho.
– O que? – foi tudo o que pôde responder Cameron, e esperou que isso
resumisse todas as perguntas que tinha na cabeça.
– Sirvo ao inferno, senhor Cameron. E o inferno por sua vez também me serve.
– Inferno?
– Atrás de você se encontra uma das entradas ao Nono Círculo. Conhece Dante,
suponho.
Aqui Diz! Este é o lugar
em que deve armar seu coração com poder!
– Por que está aqui?
– Para ganhar esta corrida. Melhor dizendo, meu terceiro familiar já está
participando dela. Desta vez não o vencerão. Desta vez se trata de um espetáculo
infernal, senhor Cameron, e não nos arrebatarão o prêmio.
– Inferno... – repetiu Cameron.
– Acredita em Deus, não é verdade? É um bom praticante. Ainda reza antes de
comer, como qualquer alma temerosa a Deus. Tem medo de se engasgar com o jantar.
– Como sabe que eu rezo?
– Sua mulher me disse. Sim, sua mulher me deu muita informação a seu
respeito, senhor Cameron, abriu-se realmente para mim. Era muito acomodada. É uma
analista consumada graças a meus conselhos. Deu-me tanta... informação... É um bom
socialista, não? Como seu pai.
– Agora política...
– Oh, a política é o eixo de tudo, senhor Cameron. Sem política estaríamos
expostos à barbárie, não é verdade? Até o inferno necessita de ordem. Nove grandes
círculos: uma ordenação implacável dos castigos. Olhe para baixo, veja por si mesmo.
Cameron podia sentir o buraco atrás de si, não precisava olhar.
– Defendemos a ordem, sabe? Não o caos. Isso é mera propaganda celestial. E
sabe o que vamos ganhar?
– É uma corrida beneficente.
– A caridade é o de menos. Não participamos desta corrida para salvar o mundo
do câncer. Corremos pelo governo.
Cameron captou pela metade a idéia.
– Governo – disse.
– Uma vez por século se celebra esta corrida entre São Pablo e o palácio do
Westminster. Antes se corria sem sapatos e sem aplausos. Hoje se faz a pleno sol,
com milhares de espectadores. Mas sejam quais sejam suas circunstâncias, se trata da
mesma corrida. Seus atletas contra um dos nossos. Se vocês ganharem, cem anos
mais de democracia. Se nós ganharmos... como ocorrerá... o fim do mundo tal como o
conhecem.
Cameron sentiu uma vibração as suas costas. A expressão do rosto de Burgess
mudou bruscamente, desapareceu sua segurança, e aquele ar de suficiência se
converteu em pura excitação nervosa.
– Bom, bom – disse, agitando as mãos como se fossem pássaros. – Parece que
temos visita dos poderes superiores. Quanta honra...
Cameron se virou e olhou pela borda do buraco. Sua curiosidade já não podia
piorar as coisas. Tinham-no em suas mãos, assim melhor ver tudo o que havia por ver.
Desse circulo sem sol ascendeu uma rajada de ar gélido, através da qual pôde
ver uma figura aparecer por entre a escuridão do poço. Avançava com passo firme, e
tinha a cabeça inclinada para trás para ver melhor o mundo.
Cameron o ouviu respirar, viu-lhe abrir e fechar os olhos machucados, e viu
como seus ossos oleosos boquejavam como um caranguejo no buraco.
Burgess estava ajoelhado, flanqueado pelos familiares, que jaziam no chão, com
as caras pregadas como mariscos ao pavimento.
Cameron compreendeu que era sua última chance. Levantou-se cambaleando e
avançou às cegas para Burgess, cujos olhos estavam fechados em uma súplica
reverente. Ao passar, mais por acidente que com intenção, seu joelho acertou Burgess
debaixo da mandíbula, e este caiu estirado. As mãos de Cameron deslizaram pelo chão
em direção à saída da caverna de gelo, até que entrou na câmara iluminada pelo
candelabro.
A suas costas o quarto estava se enchendo de fumaça e de gemidos. Cameron,
como a mulher do Lot quando escapava da destruição da Sodoma, lançou um único
olhar para trás para contemplar a imagem proibida.
Estava emergindo do poço, tampando o buraco com sua massa cinza, iluminado
por algum resplendor subterrâneo. Seus olhos, enterrados no osso visível de sua
cabeça elefantina, encontraram-se com os de Cameron. Pareceram tocá-lo com a
suavidade de um beijo, penetrando diretamente em seus pensamentos.
Não o tinham transformado em sal. Desviando o olhar daquele rosto, patinou
pelo hall e começou a subir as escadas de dois em dois e de três em três degraus,
caindo e voltando a subir uma e outra vez. A porta ainda estava entreaberta. Atrás dela
se encontrava a luz do dia, o mundo.
Abriu a porta de repente e caiu no corredor, sentindo que o calor começava a
despertar seus nervos congelados. Nos degraus que tinha deixado atrás de si não se
ouvia nenhum ruído, estavam manifestamente muito aterrados pela visita daquele ser
imaterial para lançar-se em sua perseguição. arrastou-se ao longo da parede do
corredor com o corpo sacudido de tremores.
Ninguém o seguia.
Fora o dia tinha um brilho fulgurante, e se deixou contagiar pela hilaridade
posterior à fuga. Era a primeira vez que se sentia um pouco vivo. Ter estado tão
perto... e sobreviver, entretanto. Deus tinha estado com ele, apesar de tudo.
Cambaleou pela rua em direção a sua bicicleta, determinado a deter a corrida, a
contar ao mundo...
Ninguém havia mexido na bicicleta, que tinha o guidão quente como os braços de
sua mulher.
Ao lhe passar a perna por cima, seus olhos, que tinham lançado um olhar ao
inferno, incendiaram-se. O corpo, ignorante de que seu cérebro ardia, continuou
funcionando um momento. Colocou os pés sobre os pedais e começou a afastar-se.
Cameron sentiu que a cabeça se incendiava e compreendeu que estava morto.
Por ter olhado para atrás, por apenas um olhar.
A mulher de Lot.
Como a estúpida mulher de Lot...
Um raio mais certeiro que o pensamento lhe estalou entre as orelhas.
Seu crânio rachou, e o raio incandecente saiu disparado do forno que era seu
cérebro. Os olhos ficaram nas órbitas como se fossem nozes secas. Sua boca e seu
nariz soltavam luz. A combustão o reduziu a uma coluna de carne negra em questão de
segundos, sem uma só chama ou voluta de fumaça.
O corpo do Cameron estava incinerado por completo quando a bicicleta saiu do
meio-fio e se chocou contra a vitrine de uma alfaiataria, onde ficou caída como uma
marionete derrubada entre os trajes poeirentos. Ele também havia olhado para atrás.
A multidão apinhada na praça Trafalgar era uma massa vibrante de entusiasmo.
Aclamações, lágrimas e bandeiras. Era como se essa corrida se convertesse em algo
especial para toda aquela gente, um ritual cujo significado não podiam conhecer. E,
entretanto, sentiam de uma maneira confusa que o dia estava carregado de enxofre,
pressentiam que suas vidas pendiam de um fio. Especialmente os meninos. Corriam ao
longo da pista gritando preces incoerentes, com a cara tensa de medo. Alguns
pronunciavam seu nome.
– Joel! Joel!
Ou estava imaginando? Tinha imaginado também que Loyer rezava? Os
presságios gravados nas caras radiantes dos bebês, içados para que contemplassem
os corredores, também eram imaginários?
Ao entrar no Whitehall, Frank McCloud lançou um olhar confiado por cima do
ombro, e o inferno se apoderou dele.
Foi simples, instantâneo.
Cambaleou, uma mão gélida lhe esmagou o pescoço e lhe arrebatou a vida. Joel
diminuiu o passo ao aproximar-se de seu inimigo. Tinha a cara púrpura e os lábios
cheios de espuma.
– McCloud – disse, parando para ver o rosto de seu grande rival.
McCloud levantou a vista e o olhou através de um véu de fumaça que havia
tornado ocres seus olhos cinzas. Joel se agachou para ajudá-lo.
– Não me toque – resmungou McCloud.
As veias e filamentos de seus olhos estavam inchados e sangravam.
– Cãibra? – perguntou Joel. – É uma cãibra?
– Corra, bastardo, corra – dizia McCloud, enquanto aquelas mãos lhe
arrancavam a vida das vísceras. Dos poros da cara lhe começou a gotejar sangue,
chorava lágrimas vermelhas. – Corra e não olhe para trás. Pelo amor de Deus, não
olhe para trás.
– O que aconteceu?
– Corra, por sua vida!
Não pedia, ordenava.
Corra.
Nem pelo ouro nem pela glória. Só pela vida.
Joel jogou uma olhar acima. Acabava-se de perceber que tinha uma imensa
cabeça atrás de si lhe jogando um fôlego frio no pescoço.
Levantou-se e correu.
– Bom, as coisas não vão muito bem para os corredores, Jim. Depois da queda
tão sensacional de Loyer, Frank McCloud acaba de tropeçar. Nunca tinha visto algo
semelhante. Mas parece que trocou algumas palavras com Joel Jones quando este
passava a seu lado. Assim deve estar bem.
McCloud já estava morto quando o meteram na ambulância, e putrefato na
manhã seguinte.
Joel correu. Cristo, como correu! O sol lhe golpeava ferozmente a cara,
rabiscando a mancha de cor que eram as massas excitadas, as caras, as bandeiras.
Tudo lhe parecia uma cortina de ruídos desprovida de qualquer traço humano.
Conhecia a sensação que estava se apossando dele, essa sensação de ter o
corpo deslocado que acompanha o excesso de oxigênio e o cansaço. Estava correndo
metido na bolha que sua própria consciência criava, pensando, suando, sofrendo por si
mesmo, para si mesmo, em nome de si mesmo.
E essa solidão não era tão terrível. A cabeça começou a se encher de canções,
retalhos de hinos, doces frases de canções de amor, rimas obscenas. Sua
personalidade consciente relaxou, e o inconsciente, inominado e temerário, saiu à
superfície.
Diante dele, esfumado pela luz esbranquiçada, entrevia Voight. Esse era o
inimigo, o homem que terei que bater. Voight, com seu reluzente crucifixo balançando
ao sol. Podia conseguir desde que não olhasse, que não olhasse...
Para trás...
Burgess abriu a portinhola do Mercedes e subiu nele. Tinham perdido um tempo
precioso. Já deveria estar no Parlamento, na linha de chegada, preparado para dar as
boas-vindas aos corredores. Tinha que representar uma pantomima em que ficaria a
máscara doce e sorridente da democracia. E amanhã? Já não seria tão doce.
Suas mãos suavam de emoção, e seu traje de pele de cabra que era obrigado a
vestir no quarto cheirava à distância. Contudo, ninguém perceberia isso, e embora se
alguém percebesse, que cidadão inglês ia incorrer na descortesia de mencionar que ele
fedia a cabras?
Odiava a Câmara dos Comuns, aquele buraco de bocejos que pressentia
confusamente sua inutilidade, com sua atmosfera sempre gélida. Mas já tinha acabado
tudo aquilo. Tinha realizado suas oblações, tinha mostrado sua infinita adoração ao
poço, agora chegava o momento de recolher a recompensa.
Conforme o carro avançava, pensou nos muitos sacrifícios que tinha devotado a
sua ambição. À princípio foram coisas de pouca importância: gatinhos e frangos. Mais
tarde descobriria quão ridículas que lhes pareciam tais façanhas. Mas a princípio agiu
com inocência: não sabia o que oferecer nem como fazê-lo. Com o passar dos anos
começaram a formular suas exigências de uma maneira clara e ele, com o tempo,
aprendeu as formalidades requeridas para poder vender sua alma. Planejava
cuidadosamente e representava à perfeição suas mortificações, embora lhe tivessem
deixado sem mamilos e sem a possibilidade de ter filhos. Mas o sacrifício valeu a pena,
cada dia tinha mais poder. Um apartamento triplo em Oxford, uma mulher que superava
os sonhos de um priapista, um assento no Parlamento e logo, muito em breve, todo o
país.
Os cotos de seus polegares começaram a doer, como costumava ocorrer
quando estava nervoso. Distraidamente, chupou um.
– Bom, já estamos assistindo aos últimos momentos do que foi uma corrida
verdadeiramente infernal, não é, Jim?
– Sim, foi toda uma revelação, não? Voight parece o vencedor contra todos os
prognósticos, aí está, afastando-se dos outros competidores sem muito esforço. É
preciso lembrar que Jones teve o generoso gesto de comprovar se McCloud estava
bem, e isso o atrasou.
– Isso o fez perder a corrida, não é certo?
– Acredito que sim. Acredito que o fez perder a corrida...
– Claro que se trata de uma corrida beneficente.
– Efetivamente. E em uma situação semelhante não se trata de ganhar ou
perder...
– Mas sim de jogar limpo.
– Certo.
– Certo.
– Bom, já temos o Parlamento à vista, estão dobrando a esquina do Whitehall. E
a multidão anima a seu favorito, embora acredite sinceramente que se trate de uma
causa perdida...
– Não se precipite. Lembre-se que na Suécia ele tirou um ás da manga.
– Certamente. Tem razão.
– Talvez volte a conseguir.
Joel continuava correndo, e a distância que o separava de Voight começava a
reduzir-se. Concentrou-se em suas costas, atravessou-lhe a camisa com os olhos,
estudando seu ritmo, procurando suas debilidades.
Estava diminuindo sua velocidade. O homem não ia tão rápido como antes. Sua
pernada se desequilibrou, era um indício inequívoco de cansaço.
Podia alcançá-lo. Se demonstrasse seu valor podia alcançá-lo.
E Kinderman? Tinha esquecido de Kinderman. Sem pensar no que fazia, Joel
olhou por cima do ombro e olhou atrás.
Kinderman estava muito atrasado, mantinha o mesmo passo regular. Era a
pernada eterna do corredor de maratona. Mas atrás de Joel havia outra coisa, outro
corredor, lhe pisando quase nos calcanhares, fantasmagórico, gigante.
Afastou os olhos e olhou para frente, amaldiçoando sua estupidez.
Cada passo o aproximava mais de Voight. Era evidente que ele estava ficando
sem fôlego. Joel sabia que se se esforçasse poderia passá-lo. Tinha que esquecer seu
perseguidor, fosse quem fosse, esquecer-se de tudo menos de passar Voight...
Mas a visão que tinha atrás não saia da sua cabeça.
“Não olhe para trás”, essas foram as palavras do McCloud. Muito tarde, já o
tinha feito. Postas assim as coisas, melhor saber quem era aquele fantasma.
Voltou a olhar.
Ao princípio não viu nada, só Kinderman avançando pouco a pouco. E então o
corredor fantasma reapareceu, e soube que ele tinha acabado com Loyer e McCloud.
Não era um corredor, nem vivo nem morto. Nem sequer era humano. Era um
corpo fumegante que abria as trevas ante ele, era o próprio inferno o que o açulava.
Não olhe para trás.
Tinha a boca, se é que aquilo era uma boca, aberta. Seu fôlego era tão frio que
fez que Joel se engasgar com seu próprio ofego. Por isso Loyer tinha murmurado suas
orações enquanto corria. De pouco lhe tinham servido, afinal tinha morrido.
Joel afastou a vista, já não lhe interessava ver o inferno tão de perto. Tratou de
ignorar a súbita debilidade de seus joelhos.
Voight também olhava por cima do ombro. O aspecto de sua cara era sombrio e
de desassossego, e Joel, sem saber muito bem por que, compreendeu que ele fazia
parte do inferno, que a sombra a suas costas era o amo de Voight.
– Voight. Voight. Voight. Voight – Joel pronunciava seu nome a cada pernada.
Voight ouviu que o chamavam.
– Bastardo negro! – disse em voz alta.
A pernada do Joel se alargou um pouco. Estava a menos de dois metros do
corredor vindo do inferno.
– Olhe... atrás... de você – disse Voight.
– Já vi.
– Está... vindo... te buscar.
Era evidente que pretendia enganá-lo. Ele era o amo de seu próprio corpo, não?
E não temia a escuridão porque ele também era negro. Não era isso o que o fazia
menos humano em seu trato com muitas pessoas? Ou mais, mais que humano, com
mais sangue, mais suor e mais carne. Mais braço, mais perna, mais cabeça. Mais
força, mais apetite. O que o inferno podia fazer? Comer-lhe e teria sabor ruim.
Congelá-lo? Tinha o sangue muito quente, era muito rápido, estava muito vivo.
Ninguém o apanharia, era um bárbaro com maneiras de cavalheiro.
Na realidade, nem uma coisa nem outra.
Voight estava sofrendo, havia dor em seu fôlego entrecortado, nas prolongadas
hesitações de sua pernada. Só faltavam cinqüenta metros entre os degraus e a linha de
chegada, mas a vantagem de Voight se reduzia constantemente, cada passo
aproximava mais os corredores.
Então começaram as ofertas.
– Escute... me.
– O que é?
– Poder... Eu lhe darei poder... Basta que... nos... deixe... ganhar.
Joel já estava quase a seu lado.
–Tarde demais.
As pernas se alegraram a cabeça lhe dava voltas de prazer. Tinha o inferno a
frente, o inferno ao lado, mas que mais importava? Ainda podia correr.
Ultrapassou o Voight com as articulações distendidas: era uma máquina perfeita.
– Bastardo. Bastardo. Bastardo... – dizia-lhe o familiar com o rosto contraído
pela angústia e o cansaço.
Seu rosto não piscou quando Joel o ultrapassou? Não pareceu que seus traços
perdiam por um momento a aparência de humanidade?
Voight ficou para trás: as massas rugiram e o mundo voltou a se alagar de
cores. Tinha a vitória a frente. Não sabia que causa estava defendendo, mas tinha a
vitória ao alcance da mão.
Por fim viu Cameron nos degraus, de pé ao lado de um homem que não
conhecia, um homem com um traje estranho. Cameron sorria e gritava com um
entusiasmo pouco característico dele, fazia gestos.
Em todo caso, correu mais depressa para a linha de chegada, Cameron tinha lhe
infundido novas forças.
Então pareceu que seu rosto mudava. Era o brilho solar que fazia que seu
cabelo brilhasse? Não, a carne das bochechas também borbulhava, e tinha manchas
escuras no pescoço que cada vez se obscureciam mais. O cabelo ficou em pé e seu
crânio lançou brilhos intermitentes de luz cegadora. Cameron estava queimando.
Cameron queimava, mas ainda sorria e lhe assinalava com a mão.
Joel sentiu um desespero súbito.
O inferno atrás. O inferno a frente.
Esse não era Cameron. Não via Cameron em nenhuma parte, logo Cameron
estava morto.
Compreendeu como se tivesse tido uma revelação. Cameron tinha morrido, e
essa paródia negra que lhe sorria e lhe dava as boas-vindas eram seus últimos
momentos, representados para distração de seus admiradores.
O passo do Joel se tornou vacilante, perdeu o ritmo de pernada. Atrás ouviu o
fôlego do Voight, horrivelmente denso, próximo, cada vez mais próximo.
De repente, todo seu corpo se encrespou. Seu estômago queria expulsar o que
estava dentro, sua cabeça se negava a pensar, as pernas começaram a fraquejar, só
tinha medo.
– Corra – disse a si mesmo. – Corra. Corra. Corra.
Mas tinha o inferno à frente. Como podia correr e lançar-se nos braços de
tamanha infâmia?
Voight tinha reduzido o intervalo que os separava e estava à altura de seu
ombro. Deu-lhe um tranco ao ultrapassá-lo. Estavam roubando a vitória de Joel com a
mesma facilidade com que tirariam doces de um bebê.
A chegada estava a doze passos e Voight ia de novo à frente. Sem perceber
totalmente o que fazia, Joel agarrou e golpeou Voight, agarrando-o pela camiseta. Foi
um golpe que todos os espectadores perceberam. Mas que diabo!
Agarrou forte o braço de Voight e os dois tropeçaram. A multidão lhes abriu
espaço quando saíram da pista e caíram pesadamente ao chão, Voight em cima de
Joel.
O braço deste, estirado para impedir que a queda fosse muito brusca, ficou
esmagado pelo peso dos dois corpos. Pego em má posição, quebrou o osso do
antebraço. Joel o ouviu quebrar-se antes de sentir o espasmo, a dor lhe arrancou um
grito dos lábios.
Nos degraus, Burgess gritava como um louco. Toda uma exibição. As câmaras
fotográficas disparavam, os locutores faziam comentários.
– Levante-se! Levante-se! – gritava o homem.
Mas Joel tinha agarrado Voight com seu braço são e não ia soltá-lo por nada
neste mundo.
Os dois rodaram pelo cascalho, e cada volta esmagava o braço de Joel e lhe
provocava acessos de náusea nas vísceras.
O familiar que fazia o papel de Voight estava exausto. Nunca havia se sentido
tão cansado, não estava preparado para a corrida que seu amo lhe tinha obrigado a
correr. Tinha pouca resistência, estava quase a ponto de perder o controle. Joel podia
cheirar seu fôlego, era o cheiro de uma cabra.
– Mostre-se – disse.
Os olhos dessa coisa tinham perdido as pupilas: estavam completamente
brancos. Joel puxou um coágulo de escarro no fundo de sua boca cheia de saliva e o
cuspiu no familiar.
Este perdeu o controle.
Sua cara se dissolveu. O que tinha parecido carne adotou uma nova aparência,
era como uma armadilha devoradora, sem olhos, nariz, orelhas nem cabelo.
Em torno deles a multidão se afastou. As pessoas gritavam e desmaiavam. Joel
não viu nada disso, mas ouviu com satisfação os gritos. Esta transformação não se
realizava só para ele, era de conhecimento público. Todos estavam contemplando a
verdade, a asquerosa e desumana verdade.
Tinha uma boca imensa, cheia de dentes em fila como a mandíbula de algum
peixe abissal. Era ridiculamente grande. Joel sujeitava com seu braço são a mandíbula
inferior de seu inimigo, conseguindo mantê-la afastada com muita dificuldade, enquanto
pedia socorro.
Ninguém deu um passo à frente.
A multidão se manteve a uma prudente distancia, observando e gritando, mas
sem intenção de interferir. Era uma espécie de esporte-espetáculo, a luta contra o
demônio. Os presentes não se sentiam envolvidos.
Joel sentiu que ficava sem forças, e seu braço deixou de conter a mandíbula.
Desesperado, sentiu como os dentes se cravavam na sua fronte e no queixo, como
atravessavam sua carne e seus ossos e, por último, sentiu como lhe invadia a branca
noite quando aquela boca lhe arrancava o rosto com uma dentada.
O familiar se levantou do chão onde jazia o cadáver, com os farrapos da cabeça
do Joel pendurados dos seus dentes. Tinha-lhe despojado de seus traços como se
fosse uma máscara, deixando tão somente uma confusão de sangue e músculo
esmigalhado. No que antes fora a boca do Joel, a raiz de sua língua se agitava
espasmodicamente e jogava fervuras de sangue, incapaz de lamentar-se.
Burgess não se preocupava que o mundo o conhecesse. A corrida era tudo,
teria que ganhá-la de qualquer forma, custasse o que custasse. Afinal, Joel também
tinha usado golpes baixos.
– Aqui! – gritou ao familiar. – Depressa!
Este voltou a cara ensangüentada para ele.
– Venha aqui – ordenou-lhe Burgess.
Separavam-nos alguns poucos metros, algumas poucas pernadas em direção à
chegada e a corrida estava ganha.
– Corra para mim! – gritava Burgess. – Corra! Corra! Corra!
O familiar estava cansado, mas reconheceu a voz de seu amo. Deu alguns
passados compridos em direção à chegada, seguindo às cegas as chamadas de
Burgess.
Quatro passos. Três...
E Kinderman o superou e cruzou a linha de chegada. O míope Kinderman
ganhou a corrida um passo a frente de Voight sem saber que vitória tinha alcançado,
sem ver sequer os horrores que jaziam a seus pés.
Não houve aclamações nem felicitações quando cruzou a linha de chegada.
Ao redor dos degraus o ar pareceu obscurecer-se, e o ambiente se encheu de
um frio que não correspondia a aquela estação.
Agitando a cabeça como se pedisse perdão, Burgess caiu de joelhos.
– Pai nosso que está nos céus, santificado seja seu nome...
Era um truque muito velho. Uma reação muito ingênua. A multidão começou a
retirar-se. Alguns tinham começado a correr. Os meninos, conhecendo a natureza da
escuridão por acabar de sair dela, foram os menos afetados. Tomaram seus pais pela
mão e os tiraram do lugar como se fossem cordeiros, dizendo-lhes que não olhassem
para trás, e seus pais quase se recordaram do útero, o primeiro túnel, a primeira saída
dolorosa de um paradeiro enfeitiçado, a primeira tentação terrível de olhar para trás e
morrer. E, enquanto foram recordando, desapareciam com seus filhos.
Só Kinderman parecia indiferente a tudo. Sentou-se nos degraus e limpou os
óculos, sorridente por seu triunfo e sem se importar com o frio.
Burgess, sabendo que suas preces eram inúteis, pôs os pés em funcionamento
e desapareceu dentro do palácio de Westminster.
O familiar, desamparado, renunciou a toda pretensão de aparência humana e se
transformou em si mesmo. Etéreo, insípido, cuspiu a carne repelente de Joel. O rosto
do corredor, mascado pela metade, caiu sobre o cascalho, ao lado de seu corpo. O
familiar entrou no ar e voltou para o Circulo que o chamava de volta a sua casa.
O ar dos corredores do poder estava viciado, não havia nele vida nem
esperança de socorro.
Burgess não estava em forma, e sua corrida se converteu logo em passeio.
Andou tranqüilamente pelos corredores revestidos de penumbra, a maciez do tapete
amortecia seus passos.
Não sabia exatamente o que fazer. Estava claro que lhe culpariam por não ter
previsto todas as eventualidades, mas confiava em que poderia justificar-se. Daria-lhes
tudo o que pedissem como castigo por sua falta de previsão. Uma orelha, um pé, só
tinha carne e sangue a perder.
Mas devia preparar cuidadosamente sua defesa, porque eles odiavam a lógica
defeituosa. Se fosse a seu encontro com desculpas arriscaria mais que a vida.
Atrás dele fazia um frio espantoso, ele sabia qual era sua causa. O inferno o
tinha seguido por esses corredores silenciosos até chegar às vísceras da democracia.
Apesar disso sobreviveria, desde que não se virasse, enquanto tivesse os olhos fixos
no chão, ou em suas mãos sem polegares, não lhe fariam mal. Negociar com os
abismos era uma das primeiras lições que se aprendia.
O ar estava cheio de geada. Burgess via seu fôlego, doía-lhe a cabeça de frio.
– Eu o sinto – disse sinceramente a seu perseguidor.
A voz que lhe respondeu era mais suave do que tinha esperado.
– Não foi sua culpa.
– Não – respondeu Burgess, tranqüilizado por um tom tão conciliador. – Foi um
engano e estou contrito. Passei por cima de Kinderman.
– Isso foi um equívoco. Todos os cometemos – lhe desculpou o inferno. –
Contudo, dentro de cem anos voltaremos a tentar. A democracia ainda é uma religião
recente, ainda não perdeu seu brilho superficial. Vamos conceder-lhe outro século e
então acabaremos com ela.
– Sim.
– Mas você...
– Já sei.
– Não terá poder, Gregory.
– Não.
– Não é o fim do mundo. Olhe para mim.
– Agora não, se não se importar.
Burgess recomeçou a marcha, dando um passo cauteloso atrás de outro.
Conservemos a calma, sejamos racionais.
– Olhe para mim, por favor – rogou o inferno em um arrulho.
– Mais tarde, senhor.
– Só peço que olhe para mim. Apreciaria um pouco de respeito de sua parte.
– Eu farei isso. Realmente o farei. Mais tarde.
O caminho se dividia em dois. Burgess tomou o caminho da esquerda,
acreditando que o simbolismo poderia ser adulador. Era um beco sem saída.
Ficou olhando para a parede. Sentia o ar frio metido na medula e o que restava
de seus polegares estava doendo. Tirou as luvas e chupou os cotos atentamente.
– Olhe para mim. Vire-se e olhe para mim – ele disse com voz cortês.
O que podia fazer agora? Presumivelmente, voltar, sair do corredor e encontrar
um caminho melhor. Só teria que andar em círculos e mais círculos até que tivesse
defendido o bastante sua causa para que seu perseguidor o deixasse em paz.
Enquanto estava de pé considerando que alternativa escolher sentiu uma ligeira
pressão no pescoço.
– Olhe para mim – repetiu a voz.
E lhe apertaram a garganta. Houve um estranho ruído de trituração em sua
cabeça, o ruído de um osso esfregando-se contra outro. Parecia que estavam
introduzindo uma faca na base do crânio.
– Olhe para mim – disse pela última vez o inferno, e a cabeça de Burgess se
virou.
Mas seu corpo não. Este ficou tal como estava, de pé em frente a parede lisa
do beco sem saída.
Sua cabeça se virou como uma manivela sobre seu eixo, transgredindo as leis
da razão e da anatomia. Burgess se asfixiou quando seu pescoço girou sobre si mesmo
como uma corda de carne, suas vértebras se reduziram a pó, suas cartilagens a um
montão de fibras soltas. Os olhos sangraram, os ouvidos estalaram, e morreu olhando
aquela cara apagada e etérea.
– Eu mandei que olhasse para mim – disse o inferno, e seguiu por seu caminho
cheio de amarguras, deixando-o ali de pé, para que os democratas encontrassem um
curioso paradoxo quando chegassem, em pleno bate-papo, ao palácio do Westminster.
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