Foi só ao fim da primeira semana de viagem pela Iugoslávia que Mick descobriu
como era a pessoa mais sectária do mundo o seu amante. Na verdade, fora avisado.
Uma das bichas nos Banhos Turcos lhe havia dito que Judd estava à direita de Atila, o
rei dos hunos, mas o homem fora um dos casos de Judd, e Mick achou que havia mais
despeito do que objetividade nessa restrição de caráter.
Ah, se tivesse dado ouvidos à advertência! Então não estaria dirigindo aquele
Volkswagen por uma. estrada interminável, sentindo-o com o tamanho de um caixão de
defunto e ouvindo a opinião de Judd sobre o expansionismo soviético. Jesus, como ele
era chato! Judd não conversava, fazia conferências intermináveis. Na Itália o sermão foi
sobre a exploração do voto dos camponeses pelo comunismo. Agora, na Iugoslávia,
Judd entrava com entusiasmo no assunto, e Mick tinha vontade de dar com um martelo
naquela cabeça intolerante.
Não que discordasse de tudo o que Judd dizia. Alguns argumentos (aqueles que
Mick compreendia) pareciam bastante lógicos. Mas, na verdade, o que sabia ele do
assunto? Era professor de dança. Judd era jornalista profissional e uma autoridade no
ramo. Como a maioria dos jornalistas que Mick conhecia, achava-se na obrigação de
ter opinião própria sobre tudo que existisse sob o sol. Especialmente sobre política, o
melhor lago para se mergulhar. Era possível enfiar o focinho, os olhos, a cabeça e as
patas da frente naquela água escura e se divertir à beça, chapinhando por algum
tempo. Era um assunto inesgotável para se devorar, um cocho com um pouco de tudo,
porque, de acordo com Judd, tudo se resumia em política. As artes eram política. Sexo
era política. Religião, comércio, jardinagem, comer, beber e peidar — tudo era política.
Jesus era uma chatice de estourar os miolos; uma chatice mortal, capaz de
assassinar qualquer amor.
E, o que era pior, Judd não parecia se dar conta do quanto Mick estava
chateado, ou, se notava, não dava a menor importância. Continuava a falar, os
argumentos cada vez mais longos, as frases se esticando a cada milha que venciam.
Judd, Mick concluiu, era um egoísta filho da mãe, e logo que terminasse a lua-demel
ele o largaria.
Foi somente naquela viagem, naquela infindável caravana errante pelos cemitérios
da cultura centro-européia, que Judd descobriu quão pouco Mick sabia sobre política.
O cara demonstrava ter interesse mínimo pela economia ou pela política dos países
que atravessavam. Notou sua completa indiferença pelos fatos importantes a respeito
da situação italiana e viu quando bocejou, sim, bocejou, ao tentar (e falhar) explicar-lhe
a ameaça russa à paz do mundo. Tinha de enfrentar a amarga verdade: Mick não
passava de uma bicha, não havia outra palavra para ele. Certo, talvez não tivesse os
trejeitos, nem usasse jóias em excesso, mas ainda assim era uma bicha, feliz por
chafurdar no mundo de sonho dos frescos do começo da Renascença e nos ícones da
Iugoslávia. As complexidades, as contradições, até mesmo as agonias que haviam feito
essas culturas florescer e murchar simplesmente o aborreciam. Sua mente era tão
profunda quanto seu rosto ele era um maldito joão-ninguém.
Que bela lua-de-mel!...
A estrada para o sul que ia de Belgrado a Novi Pazar era, pelos padrões
iugoslavos, uma boa estrada. Havia menor número de buracos do que nas outras por
onde haviam passado, e era relativamente reta. A cidade de Novi Pazar ficava no vale
do Rio Raska, ao sul da cidade que tinha seu nome. Não era uma região muito
procurada por turistas. Apesar da boa estrada, era inacessível ainda assim e não
oferecia as amenidades sofisticadas; mas Mick fazia questão de ver o mosteiro em
Sopocani, a oeste da cidade, e, depois de uma amarga discussão, ele venceu.
A viagem foi pouco interessante. Os campos cultivados que ladeavam a estrada
pareciam secos e empoeirados. O verão fora extremamente rigoroso, e a seca haviam
assolado muitas aldeias. As colheitas foram más, e o gado, prematuramente abatido
para evitar que morresse de subnutrição. Havia uma expressão de derrota nos poucos
rostos que viam na estrada. Até as crianças tinham um ar tristonho; expressões tão
pesadas quanto o calor sufocante que pairava sobre o vale.
Agora, com as cartas na mesa depois da briga que tiveram em Belgrado.
viajavam em silêncio a maior parte do tempo, mas a estrada reta, como muitas
estradas, convidava à discussão.Quando a tarefa de dirigir é fácil,a mente procura
alguma coisa com que se ocupar. O que melhor do que uma briga?
— Por que, diabo, você quer ver esse mosteiro? — perguntou Judd.
Um convite inconfundível.
— Viajamos até aqui... — Mick tentou manter o tom de conversa. Não estava
disposto a discutir.
— Mais porras de Virgens, é isso?
Procurando manter a voz o mais calma possível. Mick apanhou o guia e leu.
“... ali, podem ainda ser vistas e apreciadas algumas das maiores obras da arte
sérvia, incluindo o que muitos conhecedores consideram a eterna obra-prima da escola
Raska:
“O Sono da Virgem”.
Silêncio.
Então Judd disse:
— Estou com o saco cheio de ver tantas igrejas.
— É uma obra-prima.
— Todas são obras-primas, segundo esse maldito livro.
Mick sentiu que começava a perder a calma.
— Duas horas e meia no máximo...
— Eu já disse, não quero ver outra igreja; o cheiro delas me dá náuseas., Incenso
velho, suor velho e mentiras...
— É um pequeno desvio. Depois podemos voltar para a estrada, e você pode me
dar outra aula sobre os subsídios para a agricultura em Sandzak.
— Estou apenas tentando puxar uma conversa decente em lugar desta besteira
infindável de procurar obras-primas sérvias...
— Pare o carro!
— O quê?
— Pare o carro!
Judd parou o Volkswagen no acostamento, e Mick desceu.
A estrada estava quente, mas havia uma leve brisa. Ele respirou fundo e andou
para o meio da estrada. Vazia de veículos e de pedestres nas duas direções. Em
qualquer direção, vazia. As colinas incandesciam com o calor que subia dos campos.
Papoulas silvestres cresciam nas valas laterais. Mick atravessou a estrada, agachou-se
e apanhou uma.
Ouviu a porta do Volks bater atrás dele.
— Para que paramos? — disse Judd. Sua voz estava irritada, ainda na esperança
de conseguir uma discussão, pedindo uma briga.
Mick ergueu-se, brincando com a flor, que estava para soltar as sementes dado o
período da estação. As pétalas soltaram-se do cálice quando ele as tocou, como
borrifos vermelhos caindo lentamente no asfalto cinzento.
— Eu fiz uma pergunta — disse Judd.
Mick olhou em volta. Judd estava de pé, no outro lado do carro, as sobrancelhas
franzidas numa linha de fúria crescente. Mas bonito; oh, sim, um rosto que fazia as
mulheres chorarem de. frustração por ele ser gay. Um bigode negro e farto
(perfeitamente aparado) e olhos que se podiam olhar para sempre, sem jamais ver
repetir-se neles a mesma luz. Por que, em nome de Deus, pensou Mick, um homem
assim tem de ser um merdinha tão insensível?
Judd retribuiu o olhar de desprezo e avaliação do garoto amuado no outro lado da
estrada. Aquela cena que Mick representava agora para ele era nauseante. Ficaria
bem, talvez, numa ‘virgem de dezesseis anos. Num garoto de vinte e cinco, faltava-lhe
credibilidade.
Mick deixou cair à flor e tirou a aba da camisa de dentro da calça jeans. Uma
barriga firme, depois o peito macio apareceram quando ele a tirou completamente. A
cabeça reapareceu com o cabelo despenteado e um largo sorriso. Judd olhou para
aquele corpo. Perfeito, não musculoso demais. A cicatriz da operação de apêndice
espiava sobre a cintura da calça jeans desbotada. Um cordão de ouro, pequeno, mas
refletindo a luz do sol, mergulhado na cavidade abaixo do pescoço. Sem perceber,
retribuiu o sorriso de Mick, e uma espécie de paz se estabeleceu entre eles.
Mick estava desafivelando o cinto.
— Quer trepar? — disse ele, o sorriso constante.
— Não adianta — veio à resposta, mas não a essa pergunta.
— O que não adianta?
— Não somos compatíveis.
— Quer apostar?
Agora o fecho da calça estava aberto e Mick caminhava para o trigal ao lado da
estrada.
Judd viu Mick abrir caminho no mar, ondulante, suas costas da cor dos grãos de
trigo, até ficar quase camuflado. Era um jogo perigoso, trepar ao ar livre — não
estavam em São Francisco nem em Hampstead Heath. Nervoso, Judd olhou para a
estrada. Ainda vazia nas duas direções. E Mick estava se voltando, no meio do trigal,
sorrindo e acenando, como um nadador boiando no mar dourado. Que diabo... ninguém
ia ver, ninguém ia saber. Só as colinas, líquidas na névoa formada pela evaporação do
calor, as colinas cobertas de florestas atentas às tarefas da terra e um cão perdido,
sentado na beira da estrada, esperando por algum dono perdido.
Judd seguiu o caminho aberto por Mick através do trigo, desabotoando a camisa
enquanto andava. Ratos do campo corriam, escondendo-se rapidamente, entre as
hastes de trigo, do gigante que se aproximava, seus passos soando como trovão. Judd
percebeu o pânico deles e sorriu. Não queria fazer mal aos animaizinhos, mas como
eles podiam saber disso? Talvez tivesse destruído centenas de vidas, ratos, insetos,
vermes, antes de chegar onde Mick estava deitado, completamente nu, num leito de
grãos amassados, ainda sorrindo.
Foi bom o que fizeram, amor bom, forte, com prazer igual para ambos; havia na
sua paixão uma precisão sentindo o momento quando o prazer fácil se tornava urgente,
quando o desejo se tomava necessidade. Abraçados, pernas entrelaçadas, língua com
língua, numa união que só o orgasmo podia realizar, as costas alternadamente
queimadas pelo sol e arranhadas pelos grãos, quando ralavam, trocando golpes e
beijos. No ardor do ato, preparando-se para o final, ouviram o puf-puf de um trator;
mas não estavam em estado de dar importância a coisa alguma.
Voltaram para o Volkswagen com trigo amassado nos cabelos e nas orelhas, nas
meias e entre os dedos dos pés. Os sorrisos forçados eram agora sinceros; a trégua,
se não permanente, duraria pelo menos algumas horas.
O carro estava um forno, e tiveram de abrir as janelas e as portas para que a
brisa o ventilasse antes de seguir viagem para Novi Pazar. Eram quatro horas, e tinham
ainda uma hora de viagem.
Quando entraram no carro, Mick disse:
— Vamos esquecer o mosteiro, certo?
Judd olhou para ele boquiaberto.
— Pensei.
— Eu não agüentaria outra porra de Virgem...
Riram juntos, beijaram-se, saboreando um ao outro e a si mesmos, uma mistura
de saliva e o gosto de sêmen salgado.
O dia seguinte amanheceu claro, mas não muito quente. Sem céu azul, apenas
uma camada uniforme de nuvens brancas. O ar da manhã era estimulante, como éter,
ou hortelã.
Na praça principal. de Popolac, Vaslav Jelovsek olhava os pombos que brincavam
com a morte na frente dos veículos que enchiam as ruas. Alguns militares, outros civis.
Um ar de sobriedade mal disfarçava a excitação que sentia, uma excitação que era
compartilhada por todos os homens, mulheres e crianças de Popolac. Compartilhada
pelos pombos também, ao que ele sabia. Talvez por isso brincavam entre as rodas dos
veículos com tanta habilidade, sabendo que naquele dia dos dias nada de mal podia
acontecer.
Olhou para o céu outra vez, o mesmo céu esbranquiçado que via desde o nascer
do dia. A camada de nuvens estava baixa, não o ideal para as comemorações. Uma
frase passou por sua mente, uma frase em inglês que ouvira de um amigo, “ter a
cabeça nas nuvens”. Significava, pelo que havia entendido, estar perdido em devaneio,
num sonho branco e invisível. Isso, pensou ele com ironia, era tudo o que o Ocidente
sabia sobre nuvens, que eram o símbolo dos sonhos. Para transformar a frase em
verdade, era necessária uma visão que eles não possuíam. Ali, naquelas colinas
secretas, não teriam criado uma espetacular realidade dessas palavras vazias? Um
provérbio vivo.
Uma cabeça nas nuvens.
O primeiro contingente já se reunia na praça. Um ou dois estavam ausentes por
motivo de doença, mas os substitutos, prontos e preparados para tomar seus lugares.
Quanto entusiasmo! Sorrisos tão largos quando um deles ouvia chamar seu nome e seu
número e saía da fila para se juntar ao membro que começava a tomar forma. Por toda
a parte milagres de organização. Todos com uma tarefa a cumprir, com um lugar para
ir. Nada de gritos nem empurrões; na verdade, raramente as vozes passavam de
murmúrios excitados. Ele observava com admiração o trabalho de armar, prender, e
amarrar.
Ia ser um longo e árduo dia Vaslav estava na praça desde uma hora antes do
nascer do sol, tomando café em xícaras de plástico importadas, discutindo as
previsões do tempo, que de meia em meia hora eram transmitidas por Pristina e
Mitrovica, e observando o céu sem estrelas quando a luz cinzenta da manhã começou a
avançar sobre ele. Agora tomava a sexta xícara de café do dia, e não eram ainda sete
horas. No outro lado da praça, Metzinger parecia tão cansado e ansioso quanto Vaslav.
Tinham visto a alvorada chegar lentamente do leste, juntos, Metzinger e ele. Mas
agora estavam separados, esquecendo o prévio companheirismo e não trocariam uma
palavra até o fim da competição. Afinal, Metzinger era de Podujevo. Tinha de torcer
pela própria cidade, na batalha que se aproximava. No dia seguinte trocariam suas
histórias de aventuras, mas hoje deviam agir como se não se conhecessem, não trocar
nem um sorriso. Pois hoje tinham de ser extremamente partidários, preocupando-se
apenas com a vitória da própria cidade sobre a opositora.
Agora estava pronta a primeira perna de Popolac, para satisfação mútua de
Metzinger e Vaslav. Todas as verificações de segurança haviam sido feitas, e a perna
deixou a praça, sua sombra imensa cobrindo a fachada dia Prefeitura.
Vaslav tomou seu café doce, muito doce, e permitiu-se um resmungo de
satisfação. Que dias aqueles, que dias! Repletos de glória, com bandeiras dançando
ao vento e cenas de virar o estômago, cenas para durar por toda a vida. Um antegozo
dourado do céu.
Que a América ficasse com seus prazeres simples, seus ratos de quadrinhos,
seus castelos cobertos de açúcar, seus cultos e suas tecnologias, ele não queria nada
disso. A maior maravilha do mundo estava ali, escondida nas colinas.
Ah, que dias aqueles!
Na praça principal de Podujevo a cena não era menos animada, E não menos
inspiradora. Talvez uma silenciosa sensação de tristeza pairasse sobre as
comemorações deste ano, mas isso era compreensível Nita Obrenovik a querida e
respeitada organizadora de Podujevo, estava morta. O último inverno a havia levado
aos noventa e quatro anos de idade, deixando a cidade sem suas opiniões decididas e
suas decididas proporções. Durante sessenta anos Nita tinha trabalhado com os
cidadãos de Podujevo, sempre planejando a próxima competição e aperfeiçoando os
desenhos, suas energias gastas na feitura de novas criações mais ambiciosas e mais
parecidas com a vida do que no ano anterior.
Agora estava morta, e sua falta era muito sentida. Não havia desorganização nas
ruas sem a sua presença, mas já estavam começando a se atrasar e eram quase sete
horas e vinte e cinco. A filha de Nita havia substituído a mãe, mas não tinha sua força
para incitar o povo à ação. Na verdade, era delicada demais para aquele trabalho. O
líder devia ser um misto de profeta e animador de circo, para persuadir, incitar e
inspirar os cidadãos a ocuparem seus lugares. Talvez depois de duas ou três décadas,
e com a organização de mais algumas competições, a filha de Nita Obrenovik pudesse
substituir a mãe. Mas, por enquanto, Podujevo estava atrasada; omitiam as
verificações de segurança, olhares nervosos substituíam a confiança dos outros anos.
Mesmo assim, quando faltavam seis minutos para as oito, o primeiro membro de
Podujevo saiu para o ponto de encontro, a fim de esperar seu companheiro.
A essa altura, os flancos já estavam presos um ao outro em Popolac, e
contingentes armados esperavam ordens na Praça da Cidade.
Mick acordou exatamente às sete horas, embora não tivessem despertador no
quarto do Hotel Beograd. Deitado, ficou ouvindo a respiração ritmada de Judd na outra
cama. A luz opaca da manhã atravessava timidamente as cortinas finas, não
encorajando uma partida imediata. Depois de olhar por alguns minutos para a tinta
descascada do teto e por um tempo mais longo para o crucifixo entalhado em madeira
na parede oposta, Mick levantou-se e foi até a janela. Um dia encoberto, como tinha
pensado. O céu cheio de nuvens e os telhados de Novi Pazar cinzentos e não definidos
na luz opaca da manhã. Mas além dos telhados, para o leste, ele via as colinas,
banhadas de sol. Percebia os raios de luz capturando o verde-azulado da floresta,
convidando a uma visita às suas encostas.
Naquele dia talvez fossem para o sul, para Kosobska Mitrovica. Havia um
mercado nessa cidade, não era mesmo, e um museu? E podiam ir pelo vale do Ibar,
seguindo a estrada ao lado do rio, onde as montanhas se erguiam selvagens e
brilhantes no outro lado. As montanhas, sim; veria as colinas nesse dia.
Eram oito e quinze.
Às nove horas, a maior parte dos corpos de Popolac e Bodujevo estava quase
inteiramente montada. Nos seus distritos respectivos, os membros das duas cidades
estavam prontos, à espera dos torsos.
Vaslav Jelovsek pôs as mãos enluvadas em pala sobre os olhos e observou o
céu. A base de nuvens tinha subido na última hora, e para o oeste havia aberturas entre
elas; às vezes, até mesmo um raio de sol. Talvez não fosse um dia perfeito para a
competição, mas seria adequado.
Mick e Judd tomaram café tarde — hemendecks, uma tradução grosseira de
ham and eggs{4} e várias xícaras de café forte. O dia estava clareando até mesmo em
Novi Pazar, e as ambições dos dois eram altas. Kosovska Mitrovica para almoço, e
talvez uma visita ao castelo de Zvecanm, na colina, à tarde.
Mais ou menos as nove e meia saíram de Novi Pazar e tomaram a estrada de
Srbovac que ia para o sul, na direção do vale Ibar. Não era uma boa estrada, mas os
calombos e buracos não davam para estragar o novo dia.
A estrada estava vazia, exceto por um ou outro pedestre, e em lugar dos campos
de milho e trigo que tinham atravessado na véspera era ladeada agora por colinas
ondulantes, com as encostas cobertas de florestas. A não ser alguns pássaros, não
viam qualquer sinal de vida. Até seus infreqüentes companheiros de viagem cansavamse
depois de algum tempo, e as raras casas de fazenda pelas quais passavam
pareciam abandonadas. Porcos negros corriam nos quintais, sem nenhuma criança
para alimentá-los. Roupas balançavam e enfunavam em varais curvos, sem nenhuma
lavadeira à vista.
A princípio a falta de contato humano na viagem solitária pelas colinas era
repousante, mas à medida que o dia se adiantava, um mal-estar tomou conta deles.
— Não devíamos ter visto uma placa indicando o caminho para Mitrovica, Mick?
Ele consultou o mapa.
— Talvez...
— Teremos tomado estrada errada?
— Se tivesse alguma placa eu teria visto. Acho que devemos tentar sair desta
estrada, ir um pouco mais para o sul — entrar no vale um pouco mais perto de
Metrovica do que havíamos planejado.
— Como saímos desta maldita estrada?
— Passamos por algumas entradas...
— Trilhas de terra.
— Bem, é isso, ou seguir em frente.
Judd franziu os lábios.
— Cigarro? — perguntou.
— Acabaram dez quilômetros atrás.
Na frente deles as colinas eram uma linha impenetrável. Nenhum sinal de vida;
nenhuma espiral de fumaça de chaminés, nenhum som de voz ou veículo.
— Tudo bem — disse Judd. Vamos entrar no primeiro desvio. Qualquer coisa é
melhor do que isto.
Continuaram. A estrada deteriorava-se rapidamente, os buracos transformavamse
em crateras, os calombos pareciam corpos sob as rodas.
E então:
— Ali!
Uma entrada, bem visível. Não uma estrada importante, por certo. Na verdade,
pouco mais do que as trilhas de terra batida de que falara Judd, mas era uma saída da
perspectiva interminável daquela em que estavam.
— Isto está virando um maldito safári — disse Judd, quando o Volkswagen
começou a pular e a sacudir no caminho estreito e esburacado.
— Onde está seu espírito de aventura?
— Esqueci de pôr na mala.
Começavam a subir agora pela encosta sinuosa. A floresta se fechou em volta
deles, escondendo o céu, criando um desenho móvel de colcha de retalhos de luz e
sombra no pára-brisa à medida que avançavam. De repente, o cantar de pássaros,
vazio e otimista, e o cheiro de pinheiro novo e terra virgem os envolveram. Uma raposa
cruzou a trilha na frente deles e por um longo momento ficou parada, vendo o carro
sacolejar. Depois, com o passo descansado de um príncipe intimorato, voltou para o
abrigo das árvores.
Fosse qual fosse o fim daquela estrada, pensou Mick, era melhor do que a que
haviam deixado. Logo talvez pudessem parar, andar um pouco, procurar um
promontório de onde fosse possível ver o vale, ou mesmo Novi Pazar, aninhada atrás
dele.
Os dois estavam ainda a uma hora de Popolac quando a vanguarda do
contingente saiu da Praça da Cidade e se colocou ao lado do corpo principal.
Essa última saída deixou a cidade completamente deserta. Nesse dia não eram
esquecidos nem os velhos nem os doentes; a ninguém era negado o espetáculo e o
triunfo da competição. Cada cidadão, criança ou doente, os cegos, os aleijados, bebês,
mulheres grávidas — todos subiam da sua cidade orgulhosa para o campo de prova. A
lei mandava que estivessem presentes, mas não precisavam da ordem legal. Nenhum
cidadão das duas cidades perderia a oportunidade de assistir ao espetáculo — de
experimentar o estímulo da competição.
O confronto tinha de ser total, cidade contra cidade. Sempre fora assim.
Desse modo, as cidades subiram para o alto das colinas. Ao meio-dia os
cidadãos de Popolac e de Podujevo estavam reunidos em seus esconderijos secretos,
longe de olhos civilizados, para a batalha antiga e ritual.
Dezenas de milhares de corações aceleraram seu ritmo. Dezenas de milhares de
corpos acomodavam-se, empertigavam-se e suavam, as duas cidades gêmeas
tomando posição. As sombras dos corpos estendiam-se sobre as áreas do tamanho de
pequenas cidades, o peso dos seus pés amassava a relva transformando-a em verde
líquido, seus movimentos matavam animais, amassavam arbustos e derrubavam
árvores. A terra literalmente reverberava com sua passagem, as colinas ecoando o
ruído surdo dos seus passos.
No imenso corpo de Podujevo, algumas falhas técnicas eram visíveis. Uma
costura fraca no flanco esquerdo tornava esse lado mais fraco. E havia os problemas
conseqüentes nos mecanismos das cadeiras. Seus movimentos eram rígidos, não
suaves, como deviam ser. Como resultado, havia considerável pressão sobre aquela
área da cidade. Estavam enfrentando o problema corajosamente; afinal, a competição
tinha como objetivo levar os competidores aos últimos limites. Mas o ponto de ruptura
estava mais próximo do que qualquer pessoa ousaria admitir. Os cidadãos não tinham
a resistência das outras competições. Uma péssima década de más colheitas tinha
produzido corpos mal alimentados, espinhas menos fortes, vontades menos resolutas.
O flanco malfeito talvez não pudesse provocar um acidente por si só, porém, ainda
mais enfraquecido pela fragilidade dos competidores, preparava o cenário para uma
cena de morte em escala sem precedentes.
Pararam o carro.
— Está ouvindo?
Mick balançou a cabeça. Desde a adolescência sua audição não era muito boa.
Muitos espetáculos de rock tinham perturbado seus tímpanos.
Judd saiu do carro.
Os pássaros estavam mais quietos agora. Ouviu novamente o barulho. Não era
simplesmente um barulho, mas quase um movimento da terra, um rugido que parecia
impresso na substância das colinas.
Trovão?
Não, tinha um ritmo muito regular. Outra vez o sentiu através das solas dos
sapatos...
Buum!
Dessa vez Mick ouviu. Pôs a cabeça para fora da janela do carro.
— E em algum lugar lá em cima. Estou ouvindo agora.
Judd fez um gesto de assentimento.
Buum!
O trovão dentro da terra soou outra vez.
— Que diabo é isso? — perguntou Mick.
— Seja lá o que for, eu quero ver...
Judd voltou para o carro, sorrindo.
— Quase parece barulho de tiros — disse ele, ligando o motor. — De grandes
canhões.
Com seus binóculos de fabricação russa, Vaslav Jelovsek viu o juiz de partida
erguer o revólver. Viu a fumaça sair do cano da arma, e um segundo depois o som do
tiro ecoou no vale.
A competição começou.
Olhou para as torres gêmeas de Popolac e Podujevo. Cabeças nas nuvens —
bem, quase nas nuvens. Praticamente esticavam-se para tocar o céu. Era um
espetáculo impressionante, uma visão de tirar o fôlego, de tirar o sono. Duas cidades
oscilando e se contorcendo, preparando-se para os primeiros passos do confronto, da
batalha ritual.
Podujevo parecia a menos estável. Houve uma pequena hesitação antes de
erguer a perna esquerda e começar a marcha. Nada sério, apenas uma dificuldade na
coordenação entre os músculos dos quadris e das coxas. Alguns passos e a cidade
encontraria o ritmo certo; mais alguns e seus habitantes estariam se movendo como
uma só criatura, um gigante perfeito combinando sua graça e força contra a outra, que
era como sua própria imagem.
O tiro de revólver assustou os pássaros nas árvores que rodeavam o vale
secreto. Revoaram, comemorando a grande competição, tagarelando excitados sobre
a arena.
— Ouviu um tiro? — perguntou Judd.
Mick assentiu com a cabeça.
— Exercícios militares...? — o sorriso de Judd se iluminou. Já podia ver as
manchetes — reportagem exclusiva sobre manobras secretas no interior da Iugoslávia.
Tanques russos, talvez, exercícios táticos feitos longe dos olhos do Ocidente.
Com sorte, ele seria o portador da notícia.
Buum!
Buum!
Pássaros voavam. O ruído era mais alto agora.
Pareciam tiros de canhão.
— É depois da próxima cadeia de montanhas... — disse Judd.
— Acho que não devemos ir nessa direção.
— Preciso ver.
— Eu não preciso. Não devíamos estar aqui.
— Não vejo qualquer aviso.
— Eles vão nos pegar, nos deportar — sei lá — mas penso...
Buum!
— Tenho de ver isso.
As palavras mal tinham saído de sua boca quando os gritos começaram.
Podujevo estava gritando, um grito de morte. Alguém, dentro do flanco mais
fraco, tinha morrido com o esforço e isso provocou uma cadeia de desmembramentos
no sistema. Um homem perdeu seu vizinho, e este perdeu o seu, alastrando o câncer
do caos por todo o corpo da cidade. A coerência da imensa estrutura deteriorou com
apavorante rapidez, a falha de uma parte da anatomia pressionando insuportavelmente
as outras.
A obra-prima que os bons cidadãos de Podujevo tinham construído com sua
carne e seu sangue cambaleou e então — como um arranha-céu dinamitado, começou
a cair.
O flanco partido expeliu cidadãos, como uma artéria cortada jorrando sangue.
Então, com um gesto lento e gracioso que aumentava a agonia dos cidadãos, curvouse
para a terra, seus membros soltando-se enquanto caía.
A cabeça enorme, há pouco raspando as nuvens, foi lançada para trás, presa ao
pescoço grosso. Dez mil bocas gritaram pela boca imensa um apelo sem palavras,
infinitamente comovente, dirigido para o céu. Um brado de perda, um brado de
antecipação, um brado de espanto. Como, perguntava aquele grito, podia o dia dos
dias terminar assim, numa confusão de corpos amontoados?
— Ouviu aquilo?
Sem dúvida era humano, mas quase ensurdecedor. O estômago de Judd subiu
até a garganta. Olhou para Mick que estava branco como um lençol.
Judd parou o carro.
— Não faça isso — disse Mick.
— Escute, por Jesus Cristo...
O barulho de gemidos agonizantes, apelos e imprecações enchia o ar. Muito
perto deles.
— Acho melhor darmos o fora — implorou Mick.
Judd balançou a cabeça. Estava preparado para ver um espetáculo militar —
todo o exército russo, em massa, na próxima colina — mas aquele barulho nos seus
ouvidos era de carne humana — humana demais para ser descrita. Lembrou-se da
idéia que fazia do inferno quando era garoto; os tormentos infindáveis e indescritíveis
com os quais sua mãe o ameaçava se não aceitasse o Cristo. Um terror que havia
ficado esquecido durante vinte anos. Mas, de repente, ali estava ele, novo em folha.
Talvez o próprio inferno se abrisse logo depois do próximo horizonte, com sua mãe de
pé na borda, convidando-o a experimentar os castigos.
— Se não quer dirigir, eu dirijo.
Mick saiu do carro e deu a volta pela frente, olhando para a estrada. Houve um
momento de hesitação, não mais do que um momento, quando seus olhos piscaram
incrédulos, antes de se virar para o pára-brisa do carro, seu rosto mais pálido do que
antes:
— Jesus Cristo!... —a exclamou ele, com voz espessada. pela náusea.
Seu amante estava sentado atrás da direção, a cabeça nas mãos, tentando
apagar as lembranças.
— Judd...
Judd ergueu os olhos lentamente. Mick olhava para ele como um louco, o rosto
brilhando com um suor gelado. Judd olhou mais para a frente. A poucos metros de
onde estavam, a trilha havia escurecido misteriosamente, e uma torrente se movia
devagar para o carro, um rio de sangue espesso e profundo. A razão de Judd
contorceu-se e deu voltas para interpretar de qualquer outro modo o que via, para fugir
à inevitável conclusão. Mas não podia ser explicado de outro modo. Era sangue
mesmo, numa abundância insuportável, sangue sem fim...
E agora, na brisa, havia o odor de carcaças recém-abertas, os cheiros das
profundezas do corpo humano, meio doces, meio picantes.
Mick cambaleou de volta para o carro e segurou com a mão trêmula a maçaneta
da porta do lado do passageiro. A porta se abriu de repente e ele caiu no banco com
os olhos vidrados.
— Dê marcha a ré — ele disse.
Judd estendeu a mão para a chave. A torrente de sangue já batia contra as rodas
dianteiras. Na frente deles, o mundo estava pintado de vermelho.
— Vamos, ora porra! Vamos já!
Judd nem estava tentando ligar o motor.
— Precisamos olhar — disse, sem muita convicção. — Devemos fazer isso.
— Não precisamos fazer coisa alguma — disse Mick — a não ser dar o fora
daqui. Não é assunto nosso...
— Algum desastre de avião...
— Não há fumaça alguma.
— O som é de vozes humanas...
O instinto dizia a Mick para deixar as coisas como estavam. Poderia ler sobre a
tragédia nos jornais — poderia ver as fotografias no dia seguinte, quando as imagens
fossem cinzentas e granuladas. Mas naquele momento a cena era fresca demais,
imprevisível demais...
Qualquer coisa podia estar no fim daquela trilha, sangrando...
— Precisamos...
Judd ligou o motor, enquanto ao lado dele Mick começava a gemer baixinho. O
VW andou devagar para a frente, as rodas escorregando na torrente pegajosa e cheia
de espuma.
— Não — disse Mick em voz baixa. — Por favor, não...
— Devemos — foi a resposta de Judd. — Devemos, devemos.
A poucos metros dali a cidade sobrevivente de Popolac refazia-se de suas
convulsões iniciais. Olhava com mil olhos para as ruínas do seu inimigo ritual, espalhado
agora numa confusão de cordas e corpos sobre o chão duro, destruído para sempre.
Popolac afastou-se cambaleante da cena, suas pernas imensas amassando a floresta
que circundava o campo da disputa, seus braços girando no ar. Mas manteve o
equilíbrio, mesmo com a insanidade em massa despertada pelo horror ali a seus pés,
que corria por seus músculos e obscurecia seu cérebro. A ordem desapareceu; o corpo
girou afastando-se do apavorante tapete de Podujevo e fugiu para as colinas.
Na fuga para o nada, o corpo imenso passou entre o Volkswagen e o sol,
lançando uma sombra fria sobre a estrada cheia de sangue. Mick nada viu, pois as
lágrimas enchiam seus olhos e Judd, atento, preparando-se para o que ia ver depois da
próxima curva, percebeu vagamente que alguma coisa havia diminuído a luz por um
minuto. Uma nuvem talvez, um bando de pássaros.
Se tivesse olhado para cima naquele momento, um olhar rápido que fosse para
nordeste, teria visto a cabeça do Popolac, a vasta, imensa cabeça da cidade
ensandecida, desaparecendo além da linha de visão, marchando para as colinas. Teria
compreendido que estava em território além da sua capacidade de entendimento e que
não havia cura possível naquele canto do inferno. Mas não viu a cidade. Tanto ele
quanto Mick haviam ultrapassado o último ponto de possível retorno. Dali em diante,
como Popolac e sua irmã gêmea morta, estavam perdidos para a sanidade e para toda
esperança de vida.
Dobraram a curva da estrada, e as ruínas de Podujevo apareceram.
Suas imaginações domesticadas jamais poderiam ter concebido algo tão
incrivelmente brutal.
Talvez nos campos de batalha da Europa os corpos tivessem se empilhado
daquele modo, mas quantos deles eram de mulheres e de crianças, presos aos corpos
dos homens? Havia pilhas de mortos tão altas quanto as que estavam vendo, mas
haveria tantos com tamanha abundância de vida há tão pouco tempo? Cidades haviam
sido destruídas no passado com a mesma rapidez, mas quando uma cidade inteira,
perdida simplesmente pela lei da gravidade?
Era uma visão além da insanidade. Diante dela, a mente se arrastava a passos
lentos, as forças da razão apanhavam a evidência com mãos meticulosas, procurando
uma falha, um lugar onde pudesse dizer:
“Isto não está acontecendo. Isto é um sonho de morte, não a própria morte.”
Mas a razão não encontrava qualquer ponto fraco naquele muro. Aquilo era
verdade. Era sem dúvida a morte.
Podujevo tinha caído.
Trinta e oito mil, setecentos e sessenta e cinco cidadãos estavam espalhados
pelo chão, ou melhor, atirados em pilhas distorcidas e sangrentas. Não haveria
sobreviventes daquela cidade, a não ser o pequeno grupo de espectadores que havia
deixado suas casas para assistir à disputa. Esses poucos cidadãos de Podujevo, os
aleijados, os doentes, os muito velhos, olhavam agora, como Mick e Judd, para a
carnificina, tentando não acreditar no que viam.
Judd foi o primeiro a sair do carro. O chão sob seus sapatos de pelica estava
pegajoso com sangue coagulado. Observou o massacre. Não havia destroços; nenhum
sinal de acidente de avião, nem fogo, nem cheiro de combustível. Somente dezenas de
milhares de corpos, nus ou com uma roupa igual de sarja cinzenta, homens, mulheres e
crianças. Alguns, ele via agora, usavam presilhas de couro passadas na parte superior
do peito, e saindo delas havia pedaços de corda, metros e metros de corda. Quanto
mais perto ele chegava, mais notava o sistema extraordinário de nós e de voltas nas
cordas que mantinha os corpos ainda unidos. Por algum motivo, aquela gente fora
amarrada junta, lado a lado. Alguns estavam montados nos ombros de outros, como
garotos brincando de cavalinho. Outros estavam de braços dados e amarrados com
cordas, formando uma parede de músculos e ossos. Outros ainda estavam
enroscados, com a cabeça entre os joelhos. Todos, de um modo ou de outro ligados
uns aos outros, unidos como num jogo insano e coletivo de servidão.
Outro tiro.
Mick ergueu os olhos.
No campo, um homem solitário, com um sobretudo, andava entre os mortos com
um revólver na mão, despachando os que agonizavam. Um ato comovente e
inadequado de misericórdia, mas ele continuava, escolhendo primeiro as crianças.
Esvaziando a arma, carregando outra vez, esvaziando, carregando, esvaziando,
carregando...
Mick perdeu o controle.
Gritou a plenos pulmões, abafando os gemidos das vítimas:
— O que é isto?
O homem ergueu a vista de tarefa dolorosa, o rosto tão cinzento quanto o
sobretudo.
— Hã? — rosnou ele, franzindo a testa e olhando para os intrusos através das
lentes espessas dos óculos.
— O que aconteceu aqui? — Mick gritou para ele.
Era bom gritar, era bom falar zangado com o homem. Ele talvez ele fosse o
culpado. Seria ótimo poder culpar alguém.
— Diga — gritou Mick. Ouvia as lágrimas pulsando em sua voz. — Diga, pelo
amor de Deus. Explique-nos.
Casaco-cinzento balançou a cabeça. Não entendia uma só palavra do que
aquele jovem idiota dizia. Estava falando inglês, era tudo que podia entender. Mick
começou a andar na direção dele, sentindo o tempo todo os olhos dos mortos
observando-o. Olhos como pedras negras e brilhantes nos rostos destruídos; olhos que
o observavam de baixo para cima, nas cabeças separadas dos corpos. Cabeças que
tinham sólidos uivos como voz. Olhos nas cabeças além dos uivos, além da respiração.
Milhares de olhos.
Chegou perto de Casaco-cinzento, cuja arma estava quase vazia. Tinha tirado
os óculos e jogado para o lado. Ele também chorava com tremores que lhe percorriam
todo o corpo deformado.
Aos pés de Mick alguém estendia o braço para ele. Não queria olhar, mas a
mão tocou seu sapato e não teve outra escolha. Um jovem deitado como uma cruz
gamada de carne, todas as juntas partidas. Uma criança estava embaixo dele, as
pernas sangrentas esticadas como duas varetas.
Mick queria o revólver do homem para fazer com que aquela mão deixasse de
tocá-lo. Melhor ainda, queria uma metralhadora, um lança-chamas, qualquer coisa para
fazer desaparecer toda aquela agonia.
Quando levantou os olhos viu que Casaco-cinzento erguia o revólver.
— Judd — disse ele, mas antes que acabasse de falar o cano do revólver estava
na boca de Casaco-cinzento, e o gatilho, puxado.
Casaco-cinzento havia-se reservado a última bala. A parte de trás da sua cabeça
abriu-se como um ovo, e a casca voou pelos ares. O corpo amoleceu e desabou
lentamente com o revólver ainda entre os lábios.
— Nós devemos... — começou a dizer Mick, para ninguém em particular. —
Devemos...
Qual era o imperativo? Naquela situação, o que deviam fazer?
— Devemos...
Judd estava atrás dele.
— Ajudar — disse para Mick.
— Sim. Devemos ir buscar ajuda. Devemos...
— Já!
Ir! Era isso o que deviam fazer. Com qualquer pretexto, por mais frágil que fosse,
por qualquer motivo covarde, deviam ir embora dali. Sair do campo de batalha, sair do
alcance da mão do homem agonizante, com um ferimento no lugar de um corpo.
— Precisamos notificar as autoridades. Encontrar uma cidade. Chamar socorro.
— Padres — disse Mick. — Eles precisam de padres.
Era absurdo pensar em dar o último sacramento a tanta gente. Seria necessário
um exército de padres, um caminhão cheio de água-benta, um alto-falante para as
bênçãos.
Deram as costas ao horror e abraçaram-se, depois abriram caminho entre a
carnificina na direção do carro.
Estava ocupado.
Vaslav Jelovsek estava sentado atrás da direção, tentando ligar o motor. Virou a
chave uma vez. Duas. Na terceira, o carro pegou e as rodas espirraram a lama
vermelha quando deu marcha à ré na trilha. Vaslav viu os ingleses correndo para o
carro, xingando em voz alta. Não havia outra coisa a fazer. Não queria roubar o carro,
mas tinha muitas tarefas à sua espera. Ele fora um dos juízes, responsável pela
competição e pela segurança dos contestantes. Uma das cidades heróicas havia caído.
Precisava fazer todo o possível para evitar que Popolac caísse também. Precisava ir
atrás de Popolac e falar com ela. Acalmar seu terror com palavras brandas e
promessas. Se falhasse, haveria outro desastre igual ao que tinha diante de si, e sua
consciência já estava bastante pesada.
Mick corria ainda atrás do carro, gritando para Jelovsek. O homem ignorou-o,
concentrando-se em manobrar o carro de marcha à ré na trilha escorregadia. Mick
estava perdendo rapidamente. O carro ganhava velocidade. Furioso, mas sem fôlego
para expressar sua fúria, Mick parou na estrada, as mãos nos joelhos, respirando com
dificuldade e soluçando.
— Filho da puta! — gritou Judd.
Mick olhou para a estrada estreita. O carro já tinha desaparecido.
— O fodido nem ao menos sabe dirigir direito.
— Precisamos... precisamos.., alcançá-lo... — disse Mick entre resfôlegos.
— Como?
— A pé...
— Não temos nem um mapa... está no carro.
— Jesus... Cristo... Todo-poderoso.
Caminharam juntos pela trilha, afastando-se do campo de batalha.
Depois de alguns metros o rio de sangue começou a diminuir. Apenas alguns
filetes coagulados corriam para a estrada principal. Mick e Judd seguiram as marcas
ensangüentadas dos pneus até o cruzamento.
A estrada de Jerovac estava vazia. As marcas dos pneus indicavam uma curva
para a esquerda.
— Ele foi para o interior das colinas — disse Judd, olhando para a bonita estrada
e para a distância verde-azulada. — Ele está louco!
— Vamos voltar por onde viemos?
— Teríamos de andar a noite toda.
— Arranjamos uma carona.
Judd balançou a cabeça; seu rosto estava inexpressivo, o olhar perdido.
— Não compreende, Mick? Todos sabiam que isso estava acontecendo. O
pessoal das fazendas tratou de fugir enquanto aquela gente enlouquecida lutava lá em
cima. Não vamos encontrar carro algum nesta estrada. Aposto quanto quiser —
somente talvez algum outro par de turistas idiotas como nós — e ninguém irá parar
para duas figuras neste estado.
Tinha razão. Pareciam açougueiros — sujos de sangue. Seus rostos brilhavam
com a oleosidade da pele, os olhos eram de loucos.
— Temos de andar — disse Judd — seguindo a direção que seguíamos antes.
Apontou para a estrada. As colinas estavam mais escuras agora; o sol de
repente se apagou nas suas encostas.
Mick deu de ombros. Para a frente ou para trás, tinham uma noite de caminhada
a fazer. Mas ele queria andar para algum lugar — qualquer lugar — desde que se
afastasse dos mortos.
Em Popolac reinava uma espécie de paz. Em lugar do pânico frenético de antes
havia agora uma inércia, uma aceitação mansa do mundo como ele é. Presos nas suas
posições, amarrados uns aos outros em um sistema vivo que não permitia a qualquer
voz se elevar mais do que a outra, a nenhum corpo se esforçar mais do que o outro,
deixaram que um consenso insano substituísse a voz tranqüila da razão. Estavam
transformados num só espírito, num só pensamento, numa só ambição. Haviam-se
incorporado no espaço de poucos momentos, no gigante irredutível que, com tanto
brilhantismo, tinham criado. A ilusão de individualidade mesquinha desaparecia na
corrente impetuosa do sentimento coletivo — não a paixão de uma turba, mas um surto
telepático que fundia as vozes de milhares num irresistível comando.
E a voz dizia: vão!
A voz dizia: levem para longe este espetáculo horrível, para onde eu jamais
precise vê-lo.
Popolac foi para as colinas, suas pernas dando passos de meio quilômetro cada
um. Nenhum homem, mulher ou criança naquela torre furiosa podia enxergar alguma
coisa. Viam somente através dos olhos da cidade. Não pensavam, só os pensamentos
da cidade. E acreditavam que eram imortais com sua força desajeitada e implacável.
Vasta, louca e imortal.
Tinham andado três quilômetros quando sentiram cheiro de gasolina e logo depois
viram o Volkswagen. Estava capotado na vala cheia de junco ao lado da estrada. Não
se incendiara.
A porta do motorista estava aberta, e o corpo de Vaslav Jelovsek, caído para
fora. Seu rosto, calmo e inconsciente. Não parecia haver qualquer sinal de ferimento, a
não ser um ou dois pequenos cortes no rosto severo. Cuidadosamente tiraram o ladrão
de dentro da vala suja deitando-o na estrada. Ele gemeu um pouco enquanto
colocavam o suéter enrolado de Mick sob sua cabeça e lhe tiravam o paletó e a
gravata.
De repente, ele abriu os olhos.
Olhou para os dois.
— Você está bem? — perguntou Mick.
O homem não respondeu por um momento. Parecia não ter compreendido.
E então:
— Ingleses? — disse. Sua voz era arrastada, mas a pergunta, muito clara.
— Sim.
— Ouvi suas vozes. Ingleses.
Franziu a testa e fez uma careta.
— Está sentindo dor? — perguntou Judd.
Aparentemente o homem achou graça na pergunta.
— Se estou sentindo dor? — repetiu, com um misto de agonia e prazer no rosto
contraído.
— Vou morrer — disse, entre os dentes cerrados.
— Não — disse Mick — você está bem.
O homem balançou a cabeça com absoluta autoridade.
— Vou morrer — disse outra vez, decidido. — Eu quero morrer.
Judd agachou ao lado dele. A voz do homem ficava cada vez mais fraca.
— Diga o que devemos fazer — disse ele.
O homem tinha fechado os olhos e Judd o sacudiu rudemente.
— Diga — repetiu, a amostra de compaixão desaparecendo completamente. —
Diga o que é tudo isto.
— Tudo isto? — disse o homem sem abrir os olhos. —Foi uma queda, só isso.
Apenas uma queda...
— O que foi que caiu?
— A cidade. Podujevo. Minha cidade.
— De onde ela caiu?
— Dela mesma, é claro.
O homem não explicava coisa alguma, apenas respondia a um enigma com outro.
— Para onde estava indo? — perguntou Mick, procurando ser o menos agressivo
possível.
— Atrás de Popolac — disse o homem.
— Popolac? — perguntou Judd.
Mick começava a ver algum sentido na história.
— Popolac é outra cidade. Corno Podujevo. Cidades gêmeas. Estão no mapa...
— Onde está a cidade agora? — perguntou Judd.
Aparentemente Vaslav Jelovsek resolveu dizer a verdade. Por um momento
considerou a possibilidade de morrer com um enigma nos lábios ou viver o bastante
para contar sua história. Que importava se fosse contada agora? Jamais haveria outra
competição; tudo aquilo tinha acabado.
— Elas iam lutar — disse ele, a voz muito serena agora. — Popolac e Podujevo.
Fazem isso de dez em dez anos...
— Lutar? — disse Judd. — Quer dizer que toda aquela gente foi assassinada?
Vaslav balançou a cabeça.
— Não, não. Eles caíram. Eu já disse.
— Muito bem, como é que elas lutam? — perguntou Mick.
— Vão para as colinas — foi à única resposta.
Vaslav abriu um pouco os olhos. Os rostos acima do seu pareciam exaustos e
doentes. Tinham sofrido aqueles inocentes. Mereciam uma explicação.
— Como gigantes — disse ele. — Lutam como gigantes. Eles fazem um corpo
com seus corpos, compreendem? A estrutura, os músculos, o osso, os olhos, nariz,
dentes, tudo feito de homens e mulheres.
— Está delirando — disse Judd.
— Vão para as colinas — repetiu o homem. — Vejam por vocês mesmos se não
estou dizendo a verdade.
— Mesmo supondo... — começou Mick.
Vaslav interrompeu, ansioso para terminar o que tinha a dizer:
— Eram bons nesse jogo de gigantes. Tiveram muitos séculos de prática, a cada
dez anos fazendo o gigante maior. Um sempre procurando ser maior do que o outro.
Cordas para amarrar os habitantes uns aos outros, com perfeição. Músculos,
ligamentos... Havia comida na sua barriga.., canos para expelir os excrementos. Os
que tinham vista mais perfeita ficavam nas órbitas, os que tinham melhores vozes, na
boca e na garganta. Não acreditariam na perfeita obra de engenharia que eram as
cidades.
— Não acredito — disse Judd, levantando-se.
— É o corpo do estado — disse Vaslav em voz baixa, pouco mais que um
sussurro — é o formato das nossas vidas.
Fez-se silêncio. Pequenas nuvens passavam acima da estrada, silenciosas,
soltando pedaços no ar.
— Era um milagre — disse ele. — Como se pela primeira vez compreendesse a
enormidade do fato. — Era um milagre.
E era o bastante. Sim. O bastante.
A boca se fechou, quando acabou de falar, e ele morreu.
Mick sentiu mais aquela morte do que as milhares das quais tinha fugido; ou
melhor, esta morte era a chave que abria a angústia que sentia por todas as outras.
Fosse qual fosse o caso, um homem contando uma história fantástica antes de
morrer, ou dizendo apenas a verdade, Mick sentia-se inútil e inadequado. Sua
imaginação era estreita demais para acomodar a idéia. Sua cabeça doía só em pensar,
e sua compaixão desmoronou sob o peso da própria miséria.
Ficaram parados na estrada, enquanto as nuvens passavam, suas sombras vagas
e cinzentas correndo para as colinas misteriosas.
A noite estava chegando.
Popolac não podia andar mais. Sentia a exaustão em cada músculo. Aqui e ali, na
sua imensa anatomia alguém tinha morrido, mas não havia lamento na cidade pelas
células mortas. Se os mortos estavam no interior do corpo, ficavam dependurados
pelas amarras. Se formam a pele da cidade, eram desafivelados e soltos, atirados na
floresta lá embaixo.
O gigante não era capaz de sentir piedade. Sua única ambição era continuar até
não poder mais.
Quando o sol se escondeu Popolac descansou sentada numa pequena colina,
segurando a cabeça gigantesca nas mãos enormes.
As estrelas apareceram com o aviso de sempre. A noite se aproximava,
misericordiosamente tratando dos ferimentos do dia, cegando olhos que haviam visto
demais.
Popolac ergueu-se outra vez e começou a andar, um passo retumbante depois do
outro. Logo, sem dúvida, a fadiga a venceria, antes que pudesse deitar no túmulo de
algum vale perdido e morrer.
Mas por mais algum tempo precisava caminhar, cada passo mais
agonizantemente lento do que o outro, enquanto a noite desabrochava negra em volta
da sua cabeça.
Mick queria enterrar o ladrão do carro em algum lugar perto da floresta. Porém
Judd observou que, na manhã seguinte, à luz menos insana do dia, isso poderia
parecer suspeito. Além disso, não seria absurdo preocuparem-se com um corpo,
quando milhares de outros espalhavam-se a poucos quilômetros dali?
Assim, o corpo foi deixado para descansar em paz, e o carro para afundar mais
ainda na vala.
Recomeçaram a caminhada.
Estava frio, mais frio a cada momento, e sentiam fome. Mas as poucas casas por
onde passavam estavam desertas, fechadas, seladas todas,
— O que ele quis dizer? — perguntou Mick, quando olhavam para outra porta
fechada.
— Estava falando por metáforas...
— Todo aquele negócio sobre gigantes?
— Alguma bobagem trotskista... insistiu Judd.
— Acho que não.
— Pois eu tenho certeza de que é. Foi seu discurso do leito de morte,
provavelmente preparado durante anos.
— Acho que não — repetiu Mick, e começou a voltar para a estrada.
— Muito bem, o que acha então? — Judd estava atrás dele.
— O homem não estava repetindo uma frase de nenhum partido.
— Está dizendo que acredita que há um gigante aqui, em algum lugar? Ora, pelo
amor de Deus!
Mick voltou-se para Judd. Seu rosto quase não era visível no escuro. Mas a voz
estava segura.
— Sim. Acho que ele estava dizendo a verdade.
— Isso é absurdo. Isso é ridículo. Não.
Naquele momento, Judd odiou Mick. Odiou sua ingenuidade, sua tendência para
acreditar em qualquer história idiota, desde que tivesse a vaga sugestão de romance. E
isto agora. Era o pior, o mais absurdo de tudo...
— Não! — repetiu. — Não! Não! Não!
O céu tinha a maciez da porcelana, e o contorno das colinas era negro como
breu.
— Estou gelado — disse Mick da escuridão. — Vai ficar aqui ou continua comigo?
Judd gritou.
— Não vamos encontrar coisa alguma indo por aqui.
— Bem, é um longo caminho de volta.
— Estamos cada vez entrando mais nas colinas.
— Faça o que quiser... — Eu vou andar.
Seus passos se afastaram — a noite fechou-se sobre ele.
Depois de um minuto, Judd o seguiu.
A noite estava sem nuvens e fria. Andaram, as golas levantadas, os pés inchados
dentro dos sapatos. Lá em cima o céu inteiro era uma procissão de estrelas. Um triunfo
de luz borrifada, com o qual os olhos podiam formar tantos desenhos quantos
permitissem a paciência. Depois de algum tempo, abraçaram-se cansados, para
conforto e calor.
Mais ou menos às onze horas viram uma janela iluminada à distância.
A mulher na porta da casa de pedra não sorria, mas compreendeu a condição
deles e os deixou entrar. Não parecia haver necessidade de explicar para a mulher ou
para o marido aleijado o que tinha acontecido. A casa não tinha telefone e não viram
sinal de qualquer veículo, portanto, mesmo que pudessem chegar a explicar, nada
poderia ser feito.
Com gestos e caretas disseram que estavam famintos e exaustos. Tentaram
dizer também que estavam perdidos, censurando-se por terem deixado o livro de
frases na língua do país dentro do carro. A mulher não parecia ter entendido metade
do que tentaram dizer, mas os fez sentar perto do fogo, e pôs uma panela sobre as
chamas para esquentar a comida.
Comeram sopa de ervilhas com ovos, sem sal e uma vez ou outra sorriam,
agradecendo à mulher. O marido, sentado perto do fogo, nem tentava falar ou olhar
para os visitantes.
A comida era boa. Melhorou o estado de espírito dos dois. Dormiriam até o
nascer do dia e começariam a longa viagem de volta. A essa hora, os corpos no campo
já deviam ter sido contados, identificados e enviados para as famílias. O ar estaria
repleto de ruídos normais, cancelando os gemidos que soavam ainda nos ouvidos
deles. Veriam helicópteros, caminhões de homens organizando a operação de limpeza.
Todos os ritos e a parafernália de um desastre civilizado.
E, depois de algum tempo, poderia ser aceito. Seria parte da história dos dois.
Uma tragédia é claro, mas algo que podiam explicar, classificar e aprender a viver com
sua lembrança. Tudo estaria bem, quando chegasse o novo dia.
O sono da extrema fadiga chegou rapidamente. Dormiram onde estavam,
sentados à mesa com as cabeças nos braços cruzados. Vasilhas vazias e migalhas de
pão espalhavam-se em volta deles.
Não sabiam de nada. Não sonharam. Não sentiram nada.
Então começou a trovoada.
Na terra, nas profundezas da terra, um passo ritmado como o de um gigante que
aos poucos se aproximava.
A mulher acordou o marido. Apagou a vela e foi até a porta. O céu noturno estava
iluminado pelas estrelas, as colinas negras nos dois lados.
O trovão continuava, meio minuto entre cada passo, mas estava mais perto
agora. O barulho cada vez mais alto.
Ficaram juntos na porta, marido e mulher, ouvindo o eco enviado pelas colinas.
Não havia relâmpago acompanhando aqueles trovões.
Só o estrondo...
Bumm
Bumm
Fazia tremer o chão, a poeira caía do batente da porta, as janelas sacudiam
barulhentamente.
Bumm
Bumm
Não sabiam o que era, mas fosse qual fosse sua forma, fossem quais fossem
suas intenções, não adiantava fugir. Onde estavam, no pobre abrigo da pequena casa,
era tão seguro quanto dentro da floresta. Como podiam escolher, entre centenas de
milhares de árvores aquela que estaria de pé quando o trovão passasse? Melhor
esperar, e observar.
A mulher não enxergava bem, e duvidou do que viu quando a escuridão da colina
mudou de forma e se ergueu, escondendo as estrelas. Mas o marido viu também; a
cabeça imensa, mais vasta na escuridão enganadora, subindo e subindo, fazendo das
colinas anãs à sombra da sua ambição.
Ele caiu de joelhos, as pernas artríticas contorcidas sob o corpo.
A mulher gritou; não conhecia qualquer palavra para deter aquele monstro —
nenhuma prece, nenhuma súplica teria poder sobre ele.
Dentro da casa, Mick acordou, e o braço estendido, num espasmo de câimbra,
derrubou da mesa o prato e a lâmpada.
Caíram no chão, partindo-se.
Judd acordou.
Os gritos lá fora tinham parado. A mulher desapareceu na floresta. Qualquer
árvore, qualquer uma era melhor do que aquela coisa. O marido murmurava ainda
preces com os lábios flácidos quando a grande perna do gigante ergueu-se para mais
um passo...
Bumm
A casa estremeceu. Pratos dançaram e caíram do aparador. Um cachimbo de
barro rolou de cima da lareira e partiu-se sobre as cinzas.
Os amantes conheciam o barulho que ressoava em sua própria substância;
aquele trovão sobre a terra.
Mick estendeu o braço e segurou o ombro de Judd.
— Está vendo? — disse ele, os dentes cinza-azulados na escuridão da casa. —
Está vendo? Está vendo?
Uma espécie de histeria fervilhava em suas palavras. Ele correu para a porta,
tropeçando numa cadeira, no escuro. Praguejando e com a perna machucada saiu para
a noite...
Bumm
O trovão era ensurdecedor. Dessa vez quebrou todas as janelas. No quarto de
dormir, uma das vigas do teto rachou, deixando cair poeira lá embaixo.
Judd juntou-se ao amante na porta. O velho estava agora de bruços no chão, os
dedos inchados crispados, os lábios apertados contra a terra.
Mick olhava para cima, para o céu. Judd olhou também.
Havia um pedaço sem estrelas. Era a forma escura de um homem, um colossal
corpo humano, imenso, pairando como se quisesse alcançar o céu. Não era um gigante
perfeito. Os contornos não eram definidos; parecia fervilhar como um enxame.
Parecia mais largo também, aquele gigante, do que qualquer homem de verdade.
As pernas eram estranhamente grossas e mal-feitas, e os braços não eram longos. As
mãos, que se abriam e fechavam sem parar, tinham juntas deformadas e eram
delicadas demais para o corpo.
Então ele ergueu um enorme pé chato e o firmou sobre a terra outra vez, dando
um passo na direção deles.
O passo do gigante fez ruir o telhado de casa. Tudo que o ladrão de automóvel
tinha dito era verdade. Popolac era uma cidade e um gigante, e tinha ido para as
colinas...
Agora os olhos deles começavam a se acostumar com o negror da noite. Podiam
ver os horríveis detalhes da construção daquele monstro. Era uma obra-prima de
engenharia humana; um homem todo feito de homens. Ou melhor, um gigante
assexuado, feito de homens, mulheres e crianças. Todos os cidadãos de Popolac
contorciam-se e se esticavam dentro do corpo do gigante tecido com carne, os
músculos tensos a ponto de arrebentar, os ossos quase se partindo.
Viam agora como os arquitetos de Popolac haviam alterado sutilmente as
proporções do corpo humano como a coisa tinha sido feita atarracada para abaixar o
centro de gravidade; como as pernas eram elenfantinas para suportar o peso do corpo;
como a cabeça era enfiada nos ombros, minimizando os problemas de um pescoço
fraco demais para suportar seu peso.
Apesar dessas deformidades, era horrivelmente humano. Os corpos amarrados
uns aos outros para formar sua superfície estavam nus a não ser pelas tiras de couro
que os prendiam, e brilhavam à luz das estrelas, como um vasto torso humano. Até os
músculos eram bem-feitos, embora simplificados. Viam como os corpos amarrados uns
aos outros empurravam-se e puxavam em sólidas cordas de carne e de ossos. Viam as
pessoas que formavam o corpo, de costas unidas umas às outras para o movimento do
peitoral; os acrobatas amarrados nas articulações dos braços e das pernas, enrolando
e desenrolando para articular a cidade.
Mas sem dúvida o mais espantoso era o rosto.
Rostos de corpos; órbitas cavernosas nas quais cabeças olhavam, cinco para
cada órbita do gigante; o nariz largo e chato, a bola abrindo e fechando, os músculos
da mandíbula se enchendo e esvaziando ritmadamente. E daquela boca, com dentes
feito de crianças calvas, a voz do gigante, agora apenas uma fraca imitação da sua
força, dizia uma única nota de música idiota.
Popolac caminhava e Popolac cantava.
Haveria na Europa alguma coisa igual?
Mick e Judd observaram o gigante quando ele deu outro passo na direção deles.
O velho tinha molhado a calça. Murmurando coisas sem sentido, suplicando,
arrastou-se para longe da casa destruída, para as árvores próximas.
Os ingleses ficaram onde estavam; olhando o espetáculo que se aproximava. Não
sentiam medo, nem horror, apenas um sentimento de espantada reverência que os
pregava no chão. Sabiam que jamais iam ver coisa igual; aquilo era o ápice, depois
todo o resto era experiência comum. Era melhor ficar e ver enquanto aquilo ainda
estava ali. E se os matasse, se o monstro os matasse, pelo menos teriam visto um
milagre, conhecido aquela terrível majestade por um breve momento. Parecia uma
troca justa.
Popolac estava a dois passos da casa. Viam claramente as complexidades da
sua estrutura. Os rostos dos cidadãos apareciam em detalhe: brancos, molhados de
suor, e contentes em seu cansaço extremo. Alguns estavam mortos, dependurados
pelas correias, as pernas balançando como as dos enforcados. Outros, especialmente
crianças, não obedeciam mais ao treinamento e estavam relaxadas nas sua posições,
fazendo com que aos poucos a forma do corpo se degenerasse, começando a fervilhar
com as bolhas das células rebeldes.
Mas continuava, cada passo um esforço incalculável de coordenação e energia.
Buum...
O passo que amassou a casa chegou antes do que esperavam.
Mick viu a perna erguida, viu os rostos das pessoas na canela, no tornozelo e no
pé — tão grandes quanto ele, agora todos homens fortes, escolhidos para suportar o
peso daquela grande criação. Muitos estavam mortos. A sola do pé, ele via agora, era
um labirinto de corpos amassados e cobertos de sangue, amassados pelo peso dos
seus concidadãos.
O pé desceu com um rugido.
Numa questão de segundos, a casa foi reduzida a lascas e pó.
Popolac cobriu o céu completamente. Por um momento ela era o mundo, céu e
terra, sua presença inundando todos os sentidos. De perto, um olhar não era bastante
para ver toda a cidade; os olhos tinham de ir de um lado ao outro para ver sua forma e,
mesmo assim, a mente recusava-se a aceitar toda a verdade.
Um fragmento de pedra desprendeu-se da casa quando ela caía e atingiu Judd no
rosto. Dentro da sua cabeça ele ouviu o golpe mortal, como uma bola batendo na
parede; a morte de um campo de esportes. Nenhuma dor, nenhum remorso. Apagou
como uma lâmpada, uma minúscula e insignificante lâmpada, seu brado de morte
perdido no pandemônio, seu corpo escondido entre a fumaça e a escuridão da noite.
Mick não viu nem ouviu a morte de Judd.
Estava atento, olhando para o pé que parou por um momento sobre as ruínas da
casa, enquanto a outra perna reunia forças para o passo seguinte.
Mick aproveitou a oportunidade. Berrando como uma alma penada, correu para a
perna, procurando abraçar o monstro. Tropeçou nos destroços, caiu, levantou-se
ensangüentado, tentando segurar o pé antes que ele se erguesse do chão e o deixasse
para trás. Um calor de agonia acompanhou a mensagem de que o pé devia se mover;
Mick viu os músculos da canela unindo-se e se entrelaçando quando a perna começou
a levantar. Mais uma vez atirou-se para o pé quando ele começava a se erguer do
chão, agarrando uma correia ou uma corda, ou cabelo humano, ou carne — qualquer
coisa para agarrar aquele milagre e se tornar parte dele. Era melhor ir com ele agora,
servi-lo no seu objetivo, fosse qual fosse, melhor morrer do que viver sem ele.
Agarrou o pé e encontrou apoio para as mãos no tornozelo. Gritando de puro
êxtase com o sucesso, sentiu que a perna enorme se erguia e olhou para baixo,
através da poeira rodopiante para o lugar onde tinha estado, que ficava cada vez mais
distante â medida que a perna se levantava.
A terra desapareceu debaixo dele. Tinha conseguido carona num deus; a vida que
tinha deixado não era nada agora, nem nunca. Viveria com aquela coisa, sim, viveria
com ela — vendo-a, vendo-a sempre, devorando-a com os olhos até morrer de pura
gula.
Mick gritou e berrou, balançando-se nas cordas,embriagando-se com seu triunfo.
Lá embaixo, muito longe, viu o corpo de Judd, encolhido, pálido sobre o chão escuro,
irrecuperável. Amor, vida e sanidade tinham desaparecido, como a lembrança do seu
nome, do seu sexo, da sua ambição. Nada disso tinha significado. Nada.
Bumm
Bumm...
Popolac andava, o ruído dos seus passos afastando-se para leste. Popolac
andava, o zumbido da sua voz perdido na noite.
Depois de um dia, os pássaros voltaram, as raposas voltaram, as moscas, as
borboletas, as vespas voltaram. Judd se moveu, Judd mudou de posição, Judd deu â
luz. Nas suas entranhas vermes se aqueceram, na toca de uma raposa a carne da sua
coxa foi motivo de disputa. Depois disso, foi rápido. Os ossos amarelados, os ossos
desfeitos; logo um espaço vazio que ele havia ocupado antes com respiração e
opiniões.
Trevas, luz, trevas, luz. Não interrompeu nenhuma delas com seu nome.
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