Crepúsculo nas Torres

As fotografias de Mironenko, mostradas a Ballard em Munique, mostraram-se de
pouca valia. Somente uma ou duas retratavam o rosto inteiro do homem da KGB; e das
outras, a maioria estava manchada ou granulada, traindo suas origens furtivas. Ballard
não se importava muito com isso. Sabia, de longa e eventualmente amarga experiência,
que o olho humano enganava-se com facilidade; mas havia outras particularidades
remanescentes dos sentidos, agora obsoletos pela própria vida moderna — que
aprendera a considerar, capacitando-o a vislumbrar os menores sinais de traição.
Seriam essas as aptidões que usaria quando se encontrasse com Mironenko. Com
eles, arrancaria a verdade do homem.
A verdade? Aí evidentemente residia a charada, pois não era a sinceridade algo
de mutável nesse contexto? Sergei Zakharovich Mironenko fora Chefe de Seção no
Diretório 5 da KGB por onze anos, com acesso às informações mais privilegiadas
sobre a dispersão de dissidentes soviéticos no Ocidente. Nas últimas semanas, porém,
desiludiu-se com seus atuais chefes e daí o conseqüente desejo de desertar, sabido
pelo Serviço de Segurança Britânico. Em retribuição aos elaborados esforços que
teriam de ser feitos a seu favor, ofereceu-se para atuar como agente da KGB por um
período de três meses, após o qual seria conduzido ao “centro da democracia” e
escondido onde seus vingativos superiores jamais o achariam. Coube a Ballard
encontrar o russo cara a cara, na esperança de definir se a desilusão de Mironenko por
sua ideologia era real ou falsa. A resposta não seria encontrada nos lábios de
Mironenko, disso Ballard sabia, mas em alguma nuance de seu comportamento, que
apenas o instinto iria compreender.
Houve um tempo em que Ballard teria achado o enigma fascinante: cada
pensamento desperto girando em torno de sua decifração adiante. Mas essa postura
fora a de um homem convencido de que suas ações tinham algum efeito significativo
sobre o mundo. Agora, ele era mais sábio. Os agentes do Ocidente e do Oriente
cuidavam de suas missões secretas ano sim, ano não. Tramavam-nas; tornavam-se
coniventes; ocasionalmente (embora raramente) derramavam sangue. Havia desastres,
barganhas e pequenas vitórias táticas. Mas, no final, as coisas eram sempre iguais.
Aquela cidade, por exemplo. Ballard veio a Berlim pela primeira vez em abril de 1969.
Tinha 29 anos, recém-saído de anos de treinamento intensivo e pronto para viver um
pouco. Mas não se sentira à vontade em Berlim. Achou a cidade sem charme;
freqüentemente sombria. Foi preciso Odell, seu colega daqueles dois primeiros anos,
provar que Berlim era merecedora da sua afeição; uma vez convencido Ballard estava
perdido para sempre. Agora, sentia-se mais em casa nessa cidade dividida do que
jamais ocorrera em Londres. O desconforto de Berlim, seu idealismo fracassado e —
talvez mais do que tudo — seu terrível isolamento, combinavam com os dele. Ele e o
isolamento, mantendo presença em uma terra inútil, de ambição morta.
Encontrou Mironenko na galeria Germalde: sim, as fotografias haviam mentido. O
russo parecia mais velho do que seus 46 anos, e mais doente do que aparentava
naqueles retratos furtados. Nenhum dos dois fez qualquer sinal de reconhecimento.
Circularam pela exposição durante meia hora, com Mironenko mostrando minucioso —
e aparentemente genuíno — interesse nas obras. Somente quando ambos se
convenceram de que não eram observados, o russo deixou o edifício e levou Ballard
aos elegantes subúrbios de Dahlem, para uma casa considerada segura pelos dois. Lá,
em uma cozinha pequena e sem aquecimento, sentaram-se e conversaram.
O domínio do inglês de Mironenko era tênue, ou pelo menos assim aparentava,
embora Ballard tivesse a impressão de que seus esforços para fazer sentido eram tão
gramaticais quanto táticos. Poderia muito bem ter apresentado a mesma estratégia do
russo; raramente faz mal parecer menos competente do que realmente se é. Mas
apesar das dificuldades em se expressar, as declarações de Mironenko eram
inequívocas.
— Eu não sou mais um comunista — foi direto ao ponto. — Não tenho sido
partidário, não aqui — levou a mão fechada ao peito — há muitos anos. Pegou um
lenço branco no bolso do casaco, tirou uma das luvas, e puxou um frasco de
comprimidos das dobras do lenço.
— Desculpe — disse, ao despejar comprimidos do frasco. —Sinto dores. Na
cabeça, nas mãos.
Ballard esperou até que ele tivesse engolido o medicamento antes de perguntar:
— Por que você começou a ter dúvidas?
O russo colocou o frasco e o lenço no bolso, o rosto largo desprovido de
expressão.
— Como um homem perde sua... sua fé? É que eu vi demais; ou muito pouco,
talvez.
Olhou para a cara de Ballard para ver se suas palavras hesitantes haviam feito
sentido. Não encontrando compreensão, tentou novamente.
— Acho que o homem que não acredita estar perdido, está perdido.
O paradoxo foi elegantemente colocado; a suspeita de Ballard quanto ao
verdadeiro domínio do inglês de Mironenko foi confirmada.
— Você está perdido agora? — Ballard foi incisivo.
Mironenko não respondeu. Estava tirando a outra luva e fitando as mãos. As pílulas
que engolíra não pareciam estar aliviando a dor da qual se queixara. Abriu e fechou as
mãos, como quem sofre de artrite ao testar o avanço do seu estado. Sem olhar para
cima, disse:
— Ensinaram-me que o Partido tinha soluções para tudo. Isso livrou-me do medo.
—E agora?
— Agora? Agora eu tenho pensamentos estranhos. Eles me ocorrem do nada...
— Continue.
Mironenko deu um ligeiro sorriso.
— Você precisa me conhecer pelo avesso, não é? Até o que eu sonho?
— Sim — admitiu Ballard.
Mironenko acenou com a cabeça.
— Seria a mesma coisa conosco. — Depois, após uma pausa: — Pensei algumas
vezes que eu iria arrebentar. Você entende o que eu digo? Eu queria partir, porque há
muita raiva dentro de mim e isso me amedronta, Ballard. Acho que eles verão o quanto
os odeio. — Olhou para seu interlocutor. — Você precisa ser rápido, ou eles me
descobrirão. Tento não pensar no que farão.
— Novamente fez uma pausa. Todos os vestígios do sorriso, ainda que sem humor,
haviam desaparecido — O Diretório tem seções de que eu nem tenho conhecimento.
Hospitais especiais, onde ninguém pode ir. Eles têm meios de partir a alma de um
homem em pedaços.
Ballard, sempre pragmático, perguntava-se se o vocabulário de Mironenko não era
um tanto extravagante. Nas mãos da KGB, ele duvidava se o russo iria pensar na
satisfação de sua alma. Afinal, é o corpo que detém os terminais nervosos.
Conversaram por uma hora ou mais, o diálogo indo e voltando entre política e
memórias pessoais, entre trivialidades e confissões. Ao fim da reunião, Ballard não
tinha dúvidas quanto à antipatia de Mironenko por seus chefes. Era, como havia dito,
um homem sem fé.
No dia seguinte, Ballard encontrou-se com Cripps no restaurante do hotel
Schweizerhof e fez seu relatório verbal sobre Mironenko.
— Ele está pronto e aguardando. Mas insiste em que sejamos rápidos em resolver.
— Tenho certeza disso — falou Cripps. Seu olho de vidro o incomodava naquele
dia; o ar frio, explicou, deixa-o lento. Movia-se precariamente, mais devagar do que o
olho natural e, de vez em quando, Cripps tinha de tocar nele com as pontas dos ledos
para fazê-lo mover-se.
— Não nos apressaremos em tomar nenhuma decisão —Cripps informou.
— Onde está o problema? Eu não tenho dúvidas do seu comprometimento; ou do
seu desespero.
— Foi o que você disse — Cripps replicou. — Gostaria de uma sobremesa?
— Você duvida da minha avaliação? É isso?
— Coma algo doce para terminar, para que eu não me sinta um castrador total.
— Ballard pressionou. Como Cripps não respondeu, inclinou-se sobre a mesa. —
Você acha, não acha?
— Você acha que estou errado sobre ele, não acha?
— Estou apenas dizendo que há motivos para cautela. Se nós finalmente
decidirmos admiti-lo, os russos ficarão muito aflitos. Temos de estar certos de que o
negócio compensa os maus ventos que o acompanham. As coisas estão muito
arriscadas no momento.
— Quando não estão? — Ballard questionou. — Diga-me uma só vez em que não
exista alguma crise no horizonte. — Acomodou-se novamente na cadeira e tentou ler o
rosto de Cripps. Seu olho de vidro era mais sincero que o verdadeiro. — Estou
cansado desse maldito jogo — murmurou Ballard.
O olho de vidro vagueou.
— Por causa dos russos?
— Talvez.
—Acredite em mim — disse Cripps. —Tenho bons motivos para ser cauteloso com
esse homem.
— Cite um.
— Não há nada confirmado.
— O que você tem sobre ele? — Ballard insistiu.
— Como eu falei, boatos — respondeu Cripps.
— Por que não fui informado sobre isso?
Cripps sacudiu levemente a cabeça.
— Essa agora é uma questão acadêmica. Você forneceu um bom relatório. Quero
apenas que entenda que se as coisas não correm como você acha que deveriam, não é
porque suas avaliações não sejam confiáveis.
— Entendo.
— Não, você não entende. Você está se sentindo martirizado, e eu não o culpo
totalmente.
— Então o que acontecerá agora? Esperam que eu esqueça que um dia encontrei
o homem?
— Não faria mal algum — concluiu Cripps. — Longe dos olhos, longe do coração.
Evidentemente, Cripps não acreditou que Ballard seguiria seu conselho. Embora
este último tenha feito diversas investigações discretas sobre o caso Mironenko na
semana seguinte, estava claro que seus contatos de costume haviam sido avisados
para manter os lábios selados.
Assim, a notícia seguinte sobre o caso chegou a Ballard através das páginas dos
jornais matutinos, num artigo sobre um corpo encontrado numa casa, perto da estação
de Kaiser Damm. Quando o leu, não tinha como saber de que forma o relato
relacionava-se a Mironenko, mas havia detalhes suficientes na história para despertar
seu interesse. Para começar, desconfiava de que a casa citada no artigo tivesse sido
usada pelo Serviço ocasionalmente; o artigo descrevia, ainda, como dois homens não
identificados quase foram apanhados no ato de remoção do corpo, sugerindo adiante
que aquele não era um crime passional.
Por volta do meio-dia, foi visitar Cripps em seu escritório, na esperança de
persuadi-lo com alguma argumentação, mas Cripps não estava disponível, nem estaria,
sua secretária explicou, até segunda ordem; assuntos urgentes haviam-no levado de
volta a Munique. Ballard deixou o recado que desejava falar com ele quando
retornasse.
Ao sair novamente para o ar frio, percebeu que havia ganho um admirador: um
indivíduo de rosto magro, cujos cabelos tinham retrocedido de sua fronte, deixando um
topete ridículo no topo. Ballard conhecia-o, de passagem, do séquito de Cripps, mas
não conseguia associar um nome ao rosto. Isso foi resolvido rapidamente.
— Sucklíng — o homem disse.
— Claro — disse Ballard. — Olá.
— Acho que talvez devamos conversar, se você tiver um momento — o homem
falou. Sua voz era tão contraída quanto seus traços. Ballard não queria saber da sua
tagarelice. Estava prestes a recusar a oferta, quando Suckling comentou: — Suponho
que você tenha ouvido o que aconteceu com Cripps.
Ballard sacudiu a cabeça. Suckling, deleitado em possuir essa pepita, insistiu: —
Precisamos conversar.
Caminharam ao longo da Kantstrasse, em direção ao zoológico. A rua estava cheia
de pedestres em horário de almoço, mas Ballard mal os notava. A história que Suckling
desenrolava à medida em que caminhavam exigia sua completa e absoluta atenção.
A narrativa foi simples. Cripps, ao que parecia, fizera um arranjo para encontrar-se
com Mironenko, a fim de elaborar sua própria avaliação da fidelidade do russo. A casa
em Schoneberg, escolhida para o encontro, fora usada antes em diversas ocasiões, e
era há muito considerada um dos lugares mais seguros da cidade. Contudo, não foi o
que demonstrou na noite anterior. Homens da KGB tinham, aparentemente, seguido
Mironenko até a casa e tentado acabar com a festa. Não havia ninguém para
testemunhar o que aconteceu em seguida: ambos os homens que acompanhavam
Cripps, um deles o antigo colega de Ballard, Odell, estavam mortos; Cripps encontravase
em coma.
— E Mironenko? — Ballard perguntou.
Suckling deu de ombros.
— Levaram-no para casa, para a mãe-pátria, provavelmente.
Ballard sentiu um falso ar no homem.
— Estou comovido por estar me mantendo atualizado —disse a Suckling. — Mas
por quê?
— Você e Odell eram amigos, não eram? — veio a resposta.
— Com Cripps fora de cena, não lhe restam muitos deles.
— E mesmo?
— Sem intenção de ofender — Suckling falou depressa — mas você tem a
reputação de alguém que não obedece muito às regras.
— Vá direto ao ponto.
— Não há ponto — Suckling protestou. — Apenas achei que você deveria saber o
que tinha acontecido. Estou arriscando meu pescoço aqui.
— Boa tentativa — ironizou Ballard. Ele parou de andar; Suckling deu um ou dois
passos antes de se virar e ver Ballard sorrindo para ele.
— Quem mandou você?
— Ninguém me mandou — retrucou Suckling.
— Esperteza enviar os intrigantes da corte. Eu quase caí nessa. Você é muito
plausível.
Não havia gordura suficiente no rosto de Suckling para esconder o tique em sua
bochecha.
— O que eles suspeitam de mim? Acham que sou conivente com Mironenko, é
isso? Não, não acho que sejam tão estúpidos.
Suckling sacudiu a cabeça, como um médico diante de uma doença incurável.
— Você gosta de fazer inimigos?
— Risco ocupacional. Não perderia meu sono por isso. Não perco.
— Há mudanças no ar — disse Suckling. — Eu me certificaria de ter as respostas
prontas.
— Fodam-se as respostas — Ballard replicou com educação. — Acho que já está
na hora de elaborar as perguntas certas.
Mandar Suckling para sondá-lo cheirava a desespero. Eles queriam informações
internas; mas sobre o quê? Poderiam acreditar seriamente que ele tinha algum
envolvimento com Mironenko; ou pior, com a própria KGB? Deixou que seu
ressentimento abrandasse; estava revirando muita lama, e precisava de água limpa se
quisesse mesmo livrar-se dessa confusão. Sob um aspecto, a avaliação de Suckling
era perfeitamente correta: ele realmente tinha inimigos e, com Cripps incapacitado,
estava vulnerável. Nessas circunstâncias, havia dois cursos de ação. Poderia voltar a
Londres e ficar quieto lá, ou aguardar em Berlim para ver que manobra eles tentariam
em seguida. Decidiu pela última opção. O charme do esconde-esconde acabava-se
rapidamente.
Ao virar ao norte na Leibnizstrasse, vislumbrou o reflexo de um homem de casaco
cinza em uma vitrine. Foi um relance, nada mais, mas teve a sensação de que conhecia
o rosto do sujeito. Será que haviam posto um cão de guarda atrás dele? Virou-se e
encarou o homem. O suspeito pareceu embaraçado e desviou o olhar. Uma
representação, talvez; por outro lado, talvez não. Pouco importava, Ballard pensou.
Que eles o observem o quanto quiserem. Não tinha culpa alguma. Se é que realmente
existia essa sensação daquele lado da insanidade.
Uma estranha felicidade apossara-se de Sergei Mironenko; uma felicidade sem
sentido, que preencheu seu coração a ponto de fazê-lo transbordar.
Até o dia anterior, as circunstâncias pareciam insustentáveis. A dor em suas mãos,
na cabeça e na coluna piorara, e era agora acompanhada de uma coceira tão forte que
ele teve de cortar as unhas bem rente, para evitar que se machucasse seriamente. Seu
corpo, havia concluído, revoltava-se contra ele. Era essa a idéia que tentara explicar a
Ballard: que estava separado de si mesmo, e temia que em breve fosse despedaçado.
Mas hoje o medo desaparecera.
As dores não. Estavam piores do que ontem. Seus tendões e ligamentos doíam
como se tivessem sido exercitados além dos limites de sua formação; havia
escoriações em todas as juntas, onde os vasos sangüíneos tinham se rompido. Mas
aquela impressão de rebelião iminente tinha sumido, para ser substituída por uma paz
de sonhos. E em seu coração, uma enorme felicidade.
Quando pensava nos acontecimentos recentes para tentar descobrir o que incitara
essa transformação, sua memória pregava-lhe peças. Fora chamado para se encontrar
com o superior de Ballard; disso lembrava-se. Se tinha ido ao encontro, não. A noite
era uma lacuna. Ballard saberia em que pé estavam às coisas, raciocinou. Tinha
gostado e confiado no inglês desde o início, sentindo que, apesar das muitas
diferenças entre eles, eram bem parecidos. Se deixasse seu instinto prevalecer,
encontraria Ballard, disso estava certo. Sem dúvida, o inglês ficaria surpreso ao vê-lo;
mesmo com raiva, a princípio. Mas quando contasse a Ballard sobre essa recémencontrada
felicidade, certamente suas transgressões seriam perdoadas, não seriam?
Ballard jantou tarde, e bebeu até mais tarde ainda, no The Ring, um pequeno bar
de travestis onde fora levado pela primeira vez por Odell há quase duas décadas. Não
havia dúvida de que a intenção de seu guia tinha sido a de provar sua própria
sofisticação, mostrando ao colega inexperiente a decadência de Berlim, mas Ballard,
embora nunca tivesse sentido nenhum ímpeto sexual na companhia da clientela do The
Ring, imediatamente sentira-se em casa ali. Sua neutralidade era respeitada; não
tentavam seduzi-lo. Simplesmente deixavam-no beber e observar o desfile de gêneros.
Estar ali naquela noite evocou o fantasma de Odell, cujo nome seria agora
eliminado das conversas por causa de seu envolvimento com o caso Mironenko. Ballard
já tinha visto antes aquele processo em funcionamento.
A História não perdoava o fracasso, a menos que fosse tão profundo que
alcançasse uma espécie de grandeza. Para os Odells da vida, — homens ambiciosos,
que tinham encontrado a si mesmos, em seus deslizes, numa espécie de beco sem
saída, onde qualquer retrocesso era barrado — para esses homens não haveria belas
palavras proferidas, nem medalhas cunhadas. Apenas esquecimento.
Pensar nisso deixou-o melancólico; bebeu muito para ficar meio embriagado, mas
quando — às duas horas da manhã — saiu para a rua, sua depressão estava apenas
parcialmente amortecida. Os bons cidadãos de Berlim já estavam no sétimo sono;
amanhã seria outro dia de trabalho. Somente o ruído do tráfego da Kurfürstendamm
dava sinal de vida em algum lugar próximo. Seguiu nessa direção, o pensamento
confuso. Atrás dele, risadas. Um rapaz — glamourosamente vestido como uma estrela
— passeava ao longo da rua de braços dados com seu acompanhante sério. Ballard
reconheceu o travesti como um freqüentador assíduo do bar; o cliente, a julgar pelo
terno sóbrio, era um forasteiro matando sua sede de garotos vestidos de garotas,
traindo sua esposa pelas costas. Ballard retomou o passo. A risada do jovem, sua
musicalidade pateticamente forçada, dava-lhe nos nervos.
Ouviu alguém correndo por perto; vislumbrou pelo canto do olho uma sombra
movendo-se. Seu cão de guarda, muito provavelmente. Embora o álcool tivesse
anuviado seus instintos, sentiu vir à tona uma certa ansiedade, cuja causa não
conseguia determinar. Continuou andando. Leves tremores percorreram sua nuca.
Alguns metros adiante se deu conta de que as risadas provenientes da rua de trás
haviam cessado. Olhou de relance por sobre o ombro, talvez esperando ver o garoto e
seu cliente abraçando-se. Porém, ambos tinham sumido; escapuliram por uma das
vielas abaixo, sem dúvida, para concluir o contrato no escuro. Em algum lugar por
perto, um cachorro começara a latir ferozmente. Ballard virou-se para olhar o caminho
pelo qual tinha vindo, desafiando a rua deserta a mostrar-lhe seus segredos. Fosse o
que fosse que estivesse provocando o zumbido em sua cabeça e a coceira nas palmas
das mãos, não era uma ansiedade qualquer. Havia algo de errado com a rua, apesar
de sua aparente inocência; ela escondia terrores.
As luzes brilhantes da Kurfürstendamm não estavam além de uma caminhada de
três minutos, mas ele não queria dar as costas para esse mistério e refugiar-se lá. Em
vez disso, continuou a andar de volta pelo caminho que percorrera, lentamente. O
cachorro cessara o alarme e ficara em silêncio; agora, tinha apenas seus passos como
companhia.
Alcançou a esquina da primeira viela e espreitou-a. Nenhuma luz brilhava pelas
janelas ou portas. Não conseguia sentir nenhuma presença viva na escuridão.
Atravessou a rua estreita e andou até a próxima. Um exagerado mau cheiro espalhavase
pelo ar, mais forte à medida que se aproximava da esquina. E enquanto o inalava, o
zumbido em sua cabeça aumentava para uma ameaça de estrondo.
Uma única luz cintilava na entrada do beco, um débil facho vindo de uma janela
superior. Através dela, viu o corpo do forasteiro estendido no chão. Tão
traumaticamente mutilado que parecia que haviam tentado virá-lo pelo avesso. Das
tripas espalhadas emanava um cheiro próprio de podridão.
Ballard já vira mortes violentas antes, e achava-se indiferente ao espetáculo.
Porém, algo ali no beco transformou sua calma em desordem. Sentiu os membros
começarem a tremer. E então, do outro lado do facho de luz, o garoto falou:
— Pelo amor de Deus... — Sua voz tinha perdido toda a pretensão de feminilidade;
era um murmúrio de terror indisfarçado. Ballard deu um passo à frente. Nem o garoto,
nem o motivo da sua oração sussurrada tornaram-se visíveis até que ele se
aproximasse cerca de nove metros. O garoto estava caído contra a parede, entre os
restos. Suas lantejoulas e tafetás tinham sido arrancados; o corpo estava pálido e
assexuado. Ele parecia não notar Ballard: seus olhos estavam fixos nas mais profundas
sombras.
O tremor nos membros de Ballard piorava à medida que seguia o olhar do garoto;
não conseguia evitar que seus dentes rangessem. Entretanto, continuou a avançar, não
pelo bem do garoto (heroísmo tinha pouco mérito, sempre lhe ensinaram), mas porque
estava curioso, mais do que curioso, ávido, para ver que tipo de homem era capaz de
tamanha violência negligente. Olhar nos olhos de tamanha ferocidade parecia, naquele
momento, a coisa mais importante do mundo.
Vendo-o agora, o garoto murmurou uma lamentável súplica, mas Ballard mal o
ouviu. Sentia outros olhos sobre ele, e seu toque era como um murro. O barulho em
sua cabeça assumiu um ritmo nauseante, como o ruído de hélices de helicóptero. Em
questão de segundos elevou-se a um estrondo alucinante.
Ballard apertou os olhos com as mãos e tropeçou de encontro à parede,
sombriamente consciente de que o assassino estava saindo do esconderijo (os restos
foram revirados) e escapando. Sentiu algo roçar contra ele, e abriu os olhos a tempo
de vislumbrar o homem escapulindo pela viela abaixo. Parecia de algum modo
deformado; as costas encurvadas, a cabeça grande demais. Ballard soltou um grito
atrás dele, mas o ensandecido seguiu adiante, parando apenas para olhar o corpo
antes de correr em direção à rua.
Ballard levantou-se e pôs-se de pé. O barulho em sua cabeça diminuíra um pouco;
a vertigem estava passando.
Atrás dele, o garoto tinha começado a soluçar.
— Você viu? — perguntou. — Você viu?
— Quem era? Alguém que você conhecia?
O garoto fitou Ballard como uma corça amedrontada, os olhos maquiados
arregalados.
— Alguém...?
Ballard estava prestes a repetir a pergunta, quando ouviu o chiado de freios,
rapidamente seguido pelo ruído do impacto. Deixando o garoto a puxar suas roupas
esfarrapadas ao seu redor, Ballard voltou em direção à rua. Vozes elevaram-se por
perto; correu para o lugar de onde vinham. Um carro grande estava parado no asfalto,
os faróis brilhando. O motorista era socorrido em seu assento, enquanto seus
passageiros — vindos de uma festa, a julgar pelas roupas e pelos rostos afogueados
pela bebida —s aíam e discutiam acaloradamente como o acidente tinha ocorrido. Uma
das mulheres falava de um animal no caminho, mas outro passageiro a corrigiu. O
corpo que estava na sarjeta, onde tinha sido jogado, não era de um animal. Ballard
tinha visto pouco do assassino no beco, mas sabia, instintivamente, que era ele.
Contudo, não existia nenhum sinal da deformação que pensou ter vislumbrado; apenas
um homem, vestido em um terno que já tivera melhores dias, estendido com o rosto
numa poça de sangue. A polícia já tinha chegado, e um oficial gritou para que ele se
afastasse, mas Ballard ignorou a ordem e foi dar uma espiada na cara do morto. Não
havia nada da ferocidade que tanto esperava ver. Entretanto, mostrava muita coisa que
reconhecia. O homem era Odell.
Disse aos oficiais que não vira nada do acidente, o que era essencialmente
verdade, e escapou da cena antes que os acontecimentos no beco adjacente fossem
descobertos. Parecia que cada curva no caminho de volta para seus aposentos trazia
uma nova pergunta. A principal dentre elas: por que mentiram a ele sobre a morte de
Odell? E que loucura o acometeu, a ponto de fazê-lo capaz da carnificina que Ballard
havia testemunhado? Não obteria as respostas para essas perguntas de seus
eventuais colegas, disso sabia ele. O único homem de quem poderia ter extraído uma
resposta era Cripps. Recordava-se da discussão que tiveram sobre Mironenko, e a
conversa de Cripps sobre motivos para precaução ao lidar com o russo. O olho de
vidro sabia então que havia alguma coisa no ar, embora certamente nem mesmo ele
previsse a proporção do atual desastre. Dois valiosos agentes assassinados;
Mironenko desaparecido, supostamente morto; ele próprio — a se acreditar em
Suckling — à beira da morte. E tudo isso começou com Sergei Zakharovich Mironenko,
o homem perdido de Berlim. Parecia que sua tragédia era contagiosa.
Amanhã, Ballard decidiu, encontraria Suckling e lhe arrancaria algumas respostas.
Enquanto isso, sua cabeça e suas mãos doíam, queria dormir. O cansaço comprometia
o discernimento e, se precisava daquela faculdade, era exatamente agora. Mas apesar
da exaustão, o sono esquivou-se dele por uma hora ou mais e quando chegou, não foi
reconfortante. Sonhou com sussurros e firme sobre eles, elevando-se como que para
abafá-los, o estrondo dos helicópteros. Por duas vezes, emergiu do sono com a
cabeça estourando; por duas vezes, a ânsia de entender o que os sussurros lhe diziam
conduziu-o ao travesseiro novamente. Quando despertou pela terceira vez, o barulho
entre suas têmporas tornara-se dilacerante; um ataque que obliterava seu pensamento
e fazia-o temer por sua sanidade. Quase incapaz de enxergar o quarto através da dor,
rastejou para fora da cama.
— Por favor,... — murmurou, como se houvesse alguém para socorrê-lo de sua
aflição.
Uma voz fria, proveniente da escuridão, respondeu:
— O que você quer?
Não questionou quem fez a pergunta; simplesmente implorou:
— Faça minha dor parar.
— Você mesmo pode fazer isso.
Inclinou-se contra a parede, segurando a cabeça que parecia querer explodir,
lágrimas de agonia escorrendo.
— Eu não sei como — disse.
— Seus sonhos lhe causam dor — a voz respondeu — então você deve esquecêlos.
Entendeu? Esqueça-os, e a dor passará.
Entendeu a instrução, mas não como realizá-la. Não tinha poderes para governar o
sono. Ele era o objeto desses sussurros, e não o contrário. Porém, a voz insistiu:
— O sonho tem a intenção de feri-lo, Ballard. Você precisa enterrá-lo. Enterrá-lo
fundo.
— Enterrá-lo?
— Visualize-o, Ballard. Imagine-o em detalhes.
Fez o que lhe foi dito. Imaginou um funeral e uma caixa; e na caixa, esse sonho.
Fez com que cavassem fundo, como a voz o instruiu, de modo que nunca pudesse
desenterrar essa coisa nociva outra vez. Mas mesmo enquanto imaginava a caixa
descendo para a cova, ouvia suas bordas chiando. O sonho não iria repousar. Debatiase
contra o confinamento. As bordas começaram a quebrar-se.
— Rápido! — a voz apressou-o.
O ruído dos rotores elevara-se a um nível extremo, aterrorizante. Sangue tinha
começado a jorrar de suas narinas; sentia gosto de sal no fundo da garganta.
— Termine! — a voz gritou acima do tumulto. — Cubra isso!
Ballard olhou para a sepultura. A caixa estava batendo de um lado para o outro.
— Cubra, desgraçado!
Tentou fazer o funeral obedecer; tentou desejar que pegassem suas pás e
enterrassem viva aquela coisa ultrajante, mas eles não o fariam. Em vez disso,
encaravam a sepultura como ele, e observavam enquanto o conteúdo da caixa buscava
a luz.—
Não! — a voz ordenou, sua fúria aumentando. — Você não deve olhar!
A caixa dançava no buraco. A tampa quebrou-se em lascas. Logo, Ballard
vislumbrou algo brilhando entre as bordas.
— Vai matar você — disse a voz e, como que para provar sua razão, o volume de
ruído elevou-se além do ponto de tolerância, varrendo funeral, caixa e tudo, numa
explosão de dor. De repente, parecia que a voz dizia a verdade; que ele estava perto
da morte. Contudo, não era o sonho que conspirava para matá-lo, mas sim a sentinela
que tinham colocado entre ele e o sonho: essa cacofonia que despedaçava seu
cérebro.
Somente agora percebia que caíra no chão, prostrado pelo ataque. Tateando às
cegas, encontrou a parede e arrastou-se em direção a ela, as máquinas ainda
trovejando por trás de seus olhos, o sangue quente em seu rosto.
Ergueu-se o melhor que pôde e começou a andar na direção do banheiro. Atrás
dele, a voz, controlado seu ataque, recomeçou sua exortação. Soava tão íntima, que
olhou em volta na total expectativa de ver o interlocutor, e não se decepcionou. Por um
instante de hesitação, parecia estar num pequeno aposento sem janelas, as paredes
pintadas de branco. O ambiente ali era claro e sem brilho e, no meio do aposento, o
rosto por trás da voz, sorrindo.
— Seus sonhos lhe causam dor. — Era o primeiro Mandamento outra vez. —
Enterre-os Ballard, e a dor passará;
Ballard chorou como uma criança; esse escrutínio o constrangia. Desviou os olhos
de seu tutor para esconder as lágrimas.
— Confie em nós — outra voz ouviu-se, ali perto. — Somos seus amigos.
Não confiava nessas palavras gentis. A dor, da qual diziam querer livrá-lo, era
produzida por eles: uma vara para surrá-lo, se os sonhos se manifestassem.
— Nós queremos aludá -lo — um deles disse.
— Não... — murmurou. — Não, seus filhos da... Eu não acredito...
O aposento desvaneceu-se e ele estava no quarto de novo, agarrando-se à parede
como um alpinista num penhasco. Antes que pudessem vir atrás dele com mais
palavras, mais dor, retomou seu caminho às cegas para o porta do banheiro, e
tropeçou rumo ao chuveiro. Houve um momento de pânico enquanto localizava as
torneiras, e então a água caiu num jato. Estava excessivamente fria, mas pôs a cabeça
embaixo dela, enquanto a investida das lâminas dos rotores tentava sacudir seu crânio
até desmontá-lo. Água gelada escorria por suas costas, mas deixou que o jato caísse
sobre ele como uma torrente e, aos poucos, os helicópteros retiraram-se. Não se
moveu, embora seu corpo tremesse de frio violentamente, até que o último deles
tivesse ido. Então, sentou-se na beirada da banheira, secando a água do pescoço, do
rosto e do corpo e, finalmente, quando sentiu suas pernas suficientemente firmes,
voltou para o quarto.
Deitou-se nos mesmos lençóis amarrotados, quase na mesma posição em que
estava deitado antes; no entanto, nada era igual. Não sabia o que havia mudado nele,
ou como. Mas deitou-se ali, sem que o sono perturbasse o sossego das horas que
ainda restavam da noite, tentando descobrir. Um pouco antes do amanhecer, recordou
as palavras que havia murmurado diante da ilusão. Palavras simples; mas, ah, o poder
que elas continham.
— Eu não acredito... — murmurou; e os Mandamentos tremeram.
Eram onze e meia quando chegou à pequena firma de exportação de livros que
servia de fachada para Suckling. Sentia-se sagaz, a despeito dos distúrbios da noite, e
logo arranjou um jeito de encantar a recepcionista e entrar na sala de Suckling sem ser
anunciado. Quando seus olhos avistaram o visitante, Suckling levantou-se da mesa com
um pulo, como se atirassem nele.
— Bom dia — disse Ballard. — Achei que era hora de conversarmos. Os olhos de
Suckling fugiram para a porta da sala, que Ballard havia deixado entreaberta.
— Desculpe; tem alguma corrente de ar? — Ballard fechou a porta gentilmente. —
Quero ver Cripps.
Suckling nadou por entre o mar de livros e manuscritos que ameaçava engolfar sua
mesa. — Você está louco, voltando aqui.
— Diga-lhes que sou amigo da família — sugeriu Ballard.
— Não posso acreditar que você seria tão estúpido.
— Basta me dizer onde está Cripps e eu vou embora.
Suckling ignorou a proposta.
— Foram necessários dois anos para estabelecer minhas credenciais aqui.
Ballard sorriu.
— Eu vou relatar isso, porra!
— Acho que você deve — admitiu Ballard, aumentando o volume. — Enquanto isso,
onde estd Cripps?
Suckling, aparentemente convencido de que estava diante de um lunático, controlou
sua apoplexia.
— Está bem. Mandarei alguém lhe telefonar; levar você a ele.
— Isso não basta — Ballard replicou. Foi até Suckling em dois passos curtos e
agarrou-o pela lapela. Em dez anos, tinha passado no máximo três horas com Suckling,
mas dificilmente lembrava-se de um instante em que estivesse tão louco de vontade de
fazer o que estava fazendo agora. Afastando as mãos de Suckling, empurrou-o contra
a parede de livros enfileirados. Um monte de livros, atingidos pelo tombo de Suckling,
foram derrubados.
— Vou repetir — disse Ballard. — O velho.
— Tire as suas mãos de mim — irritou-se Suckling, sua fúria redobrada ao ser
tocado.
— De novo — disse Ballard. — Cripps.
— Farei com que seja repreendido por isso. Farei com que seja expulso!
Ballard inclinou-se contra o rosto avermelhado e sorriu.
— Estou fora, de qualquer maneira. Pessoas morreram, recorda-se? Londres
precisa de um bode expiatório, e acho que serei eu. — Suckling ficou de queixo caído.
— Então não tenho nada a perder, tenho? — Não houve resposta. Ballard chegou mais
perto de Suckling, aumentando a pressão contra ele. — Tenho?
A coragem de Suckling o abandonou.
— Cripps está morto.
Ballard não o soltou.
— Você disse o mesmo sobre Odell. Ao ouvir o nome, os olhos de Suckling
arregalaram-se. — E eu o vi ontem mesmo —? Ballard continuou. — Na cidade.
— Você viu Odell?
— Oh, sim.
A menção do homem morto trouxe a cena do beco de volta à mente. O cheiro do
corpo; os soluços do garoto. Existiam outras crenças, Ballard pensou, além daquela
que uma vez compartilhou com o sujeito agora pressionado por ele. Crenças cujas
devoções eram feitas com calor e sangue, cujos dogmas eram sonhos. Onde melhor se
batizar na nova crença do que ali, no sangue do inimigo?
Em algum lugar, bem no fundo de sua cabeça, podia ouvir os helicópteros, mas não
os deixaria alçar vôo. Estava forte hoje; sua cabeça, suas mãos, tudo. Quando enfiou
suas unhas nos olhos de Suckling, sangrou facilmente. Teve uma súbita visão do rosto
sob a carne, dos traços de Suckling despidos de sua essência.
— Senhor?
Ballard olhou de relance por cima do ombro. A recepcionista estava em pé, diante
da porta aberta.
— Ah, desculpe-me — disse, preparando-se para sair. A julgar pelo seu rubor,
supôs que fosse um encontro amoroso que ela havia interrompido.
— Fique — disse Suckling. — O Sr. Ballard... já estava de saída.
Ballard soltou sua presa. Haveria outras oportunidades para tirar a vida de Suckling.
— Eu o verei de novo — avisou.
Suckling tirou um lenço do bolso superior e pressionou-o contra o rosto.
— Conte com isso — retrucou.
Agora, viriam atrás dele, não poderia ter dúvidas quanto a isso. Era um elemento
desgarrado, e eles se empenhariam em silenciá-lo o mais rápido possível. O
pensamento não o afligiu. Fosse o que fosse que tentavam fazê-lo esquecer com sua
lavagem cerebral, era mais ambicioso do que haviam previsto. Por mais profundamente
que o tenham ensinado a enterrar, cavava seu caminho de volta à superfície. Ainda não
podia vê-lo, mas sabia que estava próximo. Mais de uma vez, ao retornar a seus
aposentos, imaginou olhos atrás dele. Talvez ainda estivesse sendo seguido de perto,
mas seus instintos diziam-lhe outra coisa. A presença que sentia por perto — tão perto
que estava, às vezes, em seus ombros — era, talvez, simplesmente outra parte dele.
Sentia-se protegido por ela, como que por um Deus local.
Esperava, de certa forma, que houvesse um comitê de recepção aguardando-o em
seus aposentos, mas não viu ninguém. Ou Suckling tinha sido obrigado a atrasar sua
chamada de alarme, ou os escalões superiores ainda estavam discutindo suas táticas.
Colocou no bolso as poucas lembranças que queria preservar em seus olhos calculistas
e deixou o edifício novamente, sem que ninguém fizesse qualquer movimento para detêlo.
Era bom estar vivo, apesar do frio que tornava as ruas ainda mais medonhas.
Decidiu, sem nenhum motivo em especial, ir ao zoológico, o que, embora estivesse na
cidade há duas décadas, nunca fizera. Enquanto caminhava, ocorreu-lhe que jamais
sentira-se tão livre como agora; que havia se desprendido da dominação como alguém
que se livra de um casaco velho. Não era de admirar que o temessem. Tinham um bom
motivo.
A Kantstrasse estava movimentada, mas ele abriu caminho entre os pedestres com
facilidade, quase como se sentissem nele uma rara certeza e o evitassem. Contudo, ao
aproximar-se da entrada do zoológico, alguém o empurrou. Olhou em volta para
repreender o sujeito, mas viu apenas a cabeça do homem por trás, ao imergir na
multidão, dirigindo-se à Hardenbergstrasse. Suspeitando de uma tentativa de roubo,
conferiu seus bolsos e descobriu que um pedaço de papel fora enfiado num deles. Era
experiente o bastante para examiná-lo ali, mas relanceou ao redor casualmente outra
vez, para ver se reconhecia o mensageiro. O homem já tinha escapulido.
Protelou a visita ao zoológico e, em vez disso, foi ao Tiergarten; lá — nos desertos
do grande parque — achou um lugar para ler a mensagem. Era de Mironenko e pedia
um encontro para falar de um assunto de considerável urgência, citando uma casa em
Marienfelde como local. Ballard memorizou os detalhes, depois rasgou o bilhete.
Era perfeitamente possível que o convite fosse uma armadilha, claro, preparada
por sua própria facção ou pela oposição. Talvez um modo de testar sua lealdade; ou
para manipulá-lo rumo a uma situação na qual pudesse ser facilmente despachado.
Todavia, a despeito dessas dúvidas, não tinha outra escolha senão ir, na esperança de
que esse encontro às escuras fosse realmente com Mironenko. Quaisquer perigos que
a reunião trouxesse, não seriam tão novos. De fato, dadas as suas dúvidas, há muito
sustentadas, sobre a eficácia da visão, todos os encontros que já tiveram, não foram,
de certa forma, às escuras?
Ao cair da noite, o ar úmido estava se condensando numa neblina e, quando Ballard
desceu do ônibus em Hildburghauserstrasse, ela já tomara a cidade, fazendo o frio
incomodar mais ainda. Seguiu rapidamente pelas ruas sossegadas. Mal conhecia o
bairro, mas sua proximidade do Muro tirava-lhe o pouco de charme que poderia ter tido
algum dia. Muitas das casas estavam desocupadas; entre as ocupadas, a maioria
permanecia lacrada contra a noite e o frio e as luzes que brilhavam a partir das torres
de observação. Foi apenas com a ajuda de um mapa que conseguiu localizar a
pequenina rua citada no bilhete de Mironenko.
Não havia nenhuma luz acesa na casa. Ballard bateu forte, mas não ouviu passos
no hall. Tinha previsto diversas situações possíveis, mas ausência de resposta na casa
não estava entre elas. Bateu de novo; e mais uma vez. Só então escutou ruídos vindos
de dentro e, finalmente, abriu-se a porta. O vestíbulo era pintado de cinza e marrom,
iluminado apenas por uma simples lâmpada. A silhueta do homem contra esse interior
monótono não era a de Mironenko.
— Sim? O que você quer? — Seu alemão era falado com uma nítida inflexão
moscovita.
— Estou procurando um amigo meu — disse Ballard.
O homem, que era quase tão largo quanto à entrada da porta, sacudiu a cabeça.
— Não há ninguém aqui. Somente eu.
— Disseram-me...
— Você deve estar na casa errada.
No exato momento em que falava, um barulho irrompeu do vestíbulo lúgubre.
Móveis estavam sendo virados; alguém tinha começado a gritar.
O russo olhou por cima do ombro e ia bater a porta na cara de Ballard, mas seu pé
estava lá para detê-lo. Aproveitando-se da atenção desviada do homem, Ballard pôs o
ombro contra a porta e empurrou-a. Estava no vestíbulo — na verdade, no meio dele
— antes que o russo o perseguisse. O barulho de demolição aumentara e era agora
abafado pelo som de um homem gritando. Ballard seguiu o barulho, passando pela
claridade da lâmpada solitária, rumo à escuridão nos fundos da casa. Poderia ter
perdido o caminho naquele ponto, não fosse uma porta que se escancarou à sua frente.
O aposento adiante tinha chão de tábuas escarlates: cintilavam como se
houvessem sido pintadas recentemente. E agora o decorador aparecia em pessoa. Seu
torso tinha sido rasgado do pescoço ao umbigo. Pressionou suas mãos contra a
represa fendida, mas elas eram inúteis para deter o transbordamento; o sangue saía
em esguichos e, junto com ele, tripas. Encontrou o olhar de Ballard, os olhos inundados
pela morte, mas o corpo ainda não tinha recebido a instrução para estender-se e
morrer; continuava tremendo, numa lamentável tentativa de escapar da cena da
execução atrás dele.
O espetáculo fez Ballard deter-se, e o russo da porta agora o segurava e o puxava
de volta ao vestíbulo, gritando na sua cara. A explosão, num idioma excitado, estava
além da compreensão de Ballard, mas ele não precisava de tradução para as mãos
que circundavam sua garganta. O outro tinha a metade do seu peso e agarrava-o como
um perito estrangulador, mas Ballard sentia-se, sem esforço, superior ao homem.
Arrebatou as mãos do atacante do seu pescoço e esbofeteou-o. Foi um golpe fortuito.
O russo caiu para trás contra a escada, seus gritos silenciados.
Ballard olhou para trás, em direção ao aposento escarlate. O morto havia
desaparecido, embora sobras de carne fossem deixadas na soleira da porta.
Vindo de dentro, risadas.
Ballard virou-se para o russo.
— Meu Deus, o que está acontecendo? — queria saber, mas o homem
simplesmente encarava-o através da porta aberta.
Justo quando falava, as risadas pararam. Uma sombra moveu-se pela parede
respingada de sangue do interior, e uma voz chamou:
— Ballard?
Havia nela uma aspereza, como se o interlocutor estivesse gritando o dia e a noite
inteira, mas era a voz de Mironenko.
— Não fique aí fora no frio, entre. E traga Solomonov.
O outro tentou alcançar a porta da frente, mas Ballard segurou-o antes que
pudesse dar dois passos.
— Não há nada a temer, camarada — disse Mironenko. —O cachorro se foi.
Apesar das palavras de conforto, Solomonov começou a soluçar à medida que
Ballard o puxava em direção à porta aberta.
Mironenko estava certo: lá dentro era mais quente. E nenhum sinal de cachorro.
Contudo, havia sangue em abundância. O homem que Ballard tinha visto por último,
ziguezagueando na entrada da porta, fora arrastado de volta para o abatedouro
enquanto ele e Solomonov lutavam. O corpo, tratado com barbaridade assombrosa; a
cabeça, esfacelada; as tripas, uma miscelânea medonha e abjeta.
Agachado no canto sombrio desse aposento horrível, Mironenko. Tinha sido
impiedosamente espancado, a julgar pelo inchaço em torno da sua cabeça e da parte
superior do tronco, mas o rosto com a barba por fazer trazia um sorriso para seu
salvador.
— Sabia que você viria. — Seu olhar recaiu sobre Solomonov. — Eles me
seguiram. Pretendiam me matar, suponho. É isso que tencionava, camarada?
Solomonov tremeu de medo — seus olhos passando rapidamente da lua escoriada
da cara de Míronenko aos pedaços de tripa que se exibiam por toda parte — não
encontrando refúgio em parte alguma.
— O que os deteve? — Ballard perguntou.
Mironenko levantou-se. Até esse leve movimento fez Solomonov titubear.
— Conte ao sr. Ballard — sugeriu Mironenko. — Conte a ele o que aconteceu. —
Solomonov estava aterrorizado demais para falar. — Ele é da KGB, claro — Mironenko
continuou. — Ambos homens de confiança. Porém não confiáveis o suficiente para
serem avisados, pobres idiotas. Então, foram enviados para me assassinar com
apenas uma arma e uma oração. — Sorriu ao pensar nisso. — Nenhuma das quais de
muita utilidade nas circunstâncias.
— Eu imploro... — Solomonov murmurou — ... deixe-me ir. Não direi nada.
— Você dirá o que eles querem que você diga, camarada, como todos nós
devemos fazer — respondeu Mironenko. — Não está certo, Ballard? Todos escravos
de nossa crença?
Ballard observou atentamente o rosto de Mironenko; estava cheio, o que não podia
ser explicado inteiramente pelas escoriações. A pele parecia quase se arrepiar.
— Tornaram-nos esquecidos — .disse Mironenko.
— De quê? — perguntou Ballard.
— De nós mesmos. — E com a resposta Mironenko saiu de seu canto escuro para
a luz.O que Solomonov e seu companheiro tinham feito a ele? Sua carne era uma massa
de pequeninas contusões, e havia protuberâncias ensangüentadas no seu pescoço e
nas têmporas, que Ballard poderia ter tomado como escoriações se não palpitassem,
como se houvesse algo alojado sob a pele. Contudo, Mironenko não deu nenhum sinal
de desconforto ao alcançar Solomonov. Ao seu toque, o assassino fracassado perdeu
o controle da bexiga, mas as intenções de Mironenko não eram homicidas. Com uma
estranha ternura, esfregou suavemente uma lágrima na bochecha de Solomonov. —
Volte para eles — aconselhou ao homem trêmulo. — Conte-lhes o que você viu.
Solomonov parecia mal acreditar em seus ouvidos, ou suspeitava — como Ballard
— que esse perdão era uma simulação: qualquer tentativa de partir traria
conseqüências fatais. Mas Mironenko enfatizou sua posição.
— Vá. Deixe-nos, por favor. Ou você preferiria ficar e comer?
Solomonov deu um único e hesitante passo rumo à porta. Como não veio nenhum
golpe, deu um segundo passo, e um terceiro, e agora estava além da porta, e longe.
— Conte a eles! — Mironenko gritou atrás dele. A porta da frente bateu com
violência.
— Contar a eles o quê? — Ballard indagou.
— Que eu me recordei — respondeu Mironenko. — Que eu achei a pele que eles
roubaram de mim.
Pela primeira vez desde que entrou na casa, Ballard começou a sentir-se enjoado.
Não era o sangue, nem os ossos a seus pés, mas o olhar de Mironenko. Tinha visto
olhos tão brilhantes antes. Mas onde?
— Você — disse calmamente —, você fez isso.
— Certamente — Mironenko respondeu.
— Como? Havia um estrondo familiar elevando-se do fundo da cabeça de Ballard.
Tentou ignorá-lo e forçar alguma explicação sobre o russo. — Como, porra?
— Nós somos iguais — replicou Mironenko. — Eu farejo isso em você.
— Não — falou Ballard. O clamor estava aumentando. — As doutrinas são apenas
palavras. Não é o que nos ensinam, mas sim o que sabemos que importa. Em nossa
medula; em nossas almas.
Ele falara de almas antes; de lugares que seus superiores tinham construído onde
um homem podia ser partido. Na ocasião, Ballard achara tal conversa mera
extravagância; agora não estava tão certo. O que era o funeral senão a subjugação de
alguma parte secreta dele? A parte essencial; a parte da alma.
Antes que Ballard pudesse encontrar as palavras para se expressar, Mironenko
gelou, seus olhos brilhando mais do que nunca,
— Eles estão lá fora.
— Quem?
O russo deu de ombros.
— Isso importa? Seu lado ou o meu. Ambos irão nos silenciar, se puderem.
Aquilo era verdade.
— Precisamos ser rápidos — disse, e dirigiu-se para o vestíbulo. A porta da frente
estava entreaberta. Mironenko chegou lá em instantes. Ballard o seguiu. Juntos,
escaparam para a rua.
A neblina havia engrossado. Vagueava em volta dos postes, turvando a luz, fazendo
da entrada de cada porta um esconderijo. Ballard não esperou para incitar os
perseguidores a virem para fora, mas seguiu Mironenko, que já estava bem à frente,
rápido apesar de sua corpulência. Ballard teve que apertar o passo para mantê-lo à
vista. Num instante era visível, no outro a neblina fechava-se à sua volta.
Os conjuntos de prédios residenciais por onde passavam davam lugar agora a mais
construções isoladas anônimas, armazéns talvez, cujas paredes estendiam-se pela
tenebrosa escuridão, não interrompidas por janelas. Ballard chamou-o para diminuir seu
passo aleijado. O russo parou e voltou-se para Ballard, seu contorno ondulando na luz
sitiada. Era um truque da neblina ou o estado de Mironenko deteriorara-se desde que
deixaram a casa? Seu rosto parecia estar porejando; as protuberâncias no pescoço
tinham inchado mais.
—Não precisamos correr — falou Ballard. — Eles não estão nos seguindo.
— Estão sempre seguindo — replicou Mironenko. Como que para dar peso à
observação, Ballard ouviu passos amortecidos pela neblina numa rua por perto.
— Não há tempo para discutir — Mironenko murmurou e, girando sobre os
calcanhares, correu. Em segundos, a neblina fizera-o desaparecer misteriosamente
outra, vez.
Ballard hesitou por um momento. Por mais imprudente que fosse, queria vislumbrar
seus perseguidores, a fim de conhecê-los para o futuro. Mas agora, à medida que as
passadas macias de Mironenko diminuíam até silenciar, dava-se conta de que os
outros passos também tinham cessado. Saberiam que estava esperando por eles?
Segurou a respiração, mas não havia ruídos nem sinal deles. A neblina vagabunda
continuava vagueando. Ele parecia estar sozinho nela. Relutantemente, desistiu de
esperar e foi correndo atrás do russo. Alguns metros adiante, o caminho se dividia. Não
havia sinal de Mironenko em parte alguma. Maldizendo sua estupidez em permanecer
para trás, Ballard seguiu o caminho mais encoberto pela neblina cerrada. A rua era
curta e terminava num muro coberto de espetos, além do qual havia uma espécie de
parque. A neblina agarrava-se com mais tenacidade a esse espaço de terra úmida do
que à rua, e Ballard não podia ver mais do que três ou quatro metros através do
gramado em que ele se encontrava agora. Porém, sabia intuitivamente que tinha
escolhido o caminho certo; que Mironenko tinha escalado esse muro e esperava por ele
em algum lugar próximo. A sua volta, a neblina mantinha seu segredo. Os
perseguidores o perderam, ou seu próprio caminho, ou ambos. Subiu no muro, evitando
as estacas de metal de raspão, e desceu do lado oposto.
A rua parecia absolutamente sossegada, mas evidentemente não estava, pois
dentro do parque sentia-se mais tranqüilidade ainda. Mais fria ali, a neblina cobria-o
com mais insistência, conforme avançava através do gramado molhado. O muro atrás
dele — seu único porto seguro nesse cenário desolador — tornou-se um espectro de si
mesmo, e depois desapareceu inteiramente.
Agora comprometido, deu mais alguns passos, sem nem saber ao certo se estava
tomando um caminho reto. Subitamente, a cortina de neblina abriu-se e viu uma figura
esperando por ele poucos metros adiante. As escoriações agora deformavam tanto seu
rosto, que Ballard não teria sabido que era Mironenko não fossem seus olhos, que
ainda brilhavam tão intensamente.
O russo não esperou por Ballard, mas virou-se novamente e saltou para a
inconsistência, deixando o inglês a segui-lo, maldizendo a caçada e a caça. Ao fazê-lo,
sentiu um movimento próximo. Seus sentidos eram inúteis no abraço viscoso da neblina
e da noite, mas viu com aquele outro olho, ouviu com aquele outro ouvido, e soube que
não estava sozinho. Será que Mironenko havia desistido da corrida e voltado para
acompanhá-lo? Falou o nome dele, sabendo que com isso tornava sua posição
conhecida para qualquer um, mas igualmente certo de que fosse quem fosse que o
espreitasse sorrateiramente, já sabia precisamente onde ele estava.
— Fale.
Não houve nenhuma resposta da neblina.
Então, o movimento. A neblina enroscou-se e Ballard vislumbrou uma forma
dividindo seus véus. Mironenko! Chamou-o novamente, dando diversos passos no
escuro, em perseguição a ele; de repente, algo estava andando ao seu encontro. Viu o
fantasma apenas por um instante; o suficiente para deparar-se com olhos
incandescentes e dentes tão arreganhados que torciam a boca em uma careta
permanente. Daqueles elementos — olhos e dentes — ele estava certo. Das outras
coisas bizarras — a carne peluda, os membros monstruosos — tinha menos certeza.
Talvez sua mente, exausta com tanto barulho e dor, estivesse finalmente perdendo o
contato com o mundo real; inventando terrores para amedrontá-lo de volta à ignorância.
Filho da puta — disse, desafiando tanto o estrondo que vinha para cegá-lo
novamente quanto os fantasmas diante dos quais ficaria cego. Quase que como para
testar seu desafio, a neblina adiante tremulou e abriu-se: algo que ele poderia ter
tomado como humano, se não tivesse a barriga no chão, esgueirou-se à vista e sumiu.
À direita, ouviu grunhidos; à esquerda, outra forma indeterminada apareceu e sumiu.
Estava cercado, ao que parecia, por homens loucos e cachorros selvagens.
E Mironenko? Era parte dessa assembléia ou presa dela? Ouvindo meia palavra
proferida atrás dele, virou-se e viu uma figura que era possivelmente a do russo
recuando para a neblina. Dessa vez, não andou em seu encalço; correu e sua
velocidade foi recompensada. A figura reapareceu à sua frente e Ballard esticou-se
para agarrar a jaqueta do homem. Seus dedos alcançaram-no, e de repente Mironenko
estava cambaleando, um grunhido na garganta, e Ballard encarava um rosto que quase
o fez berrar. Sua boca era uma ferida em carne viva, os dentes vastos, os olhos como
fendas de ouro derretido; as protuberâncias em seu pescoço tinham inchado e se
espalhado, de forma que a cabeça do russo não se elevava mais acima do corpo, mas
sim era parte de uma energia indivisível. O crânio tornando-se torso sem a intervenção
de um eixo.
— Ballard — a besta sorriu.
Sua voz agarrava-se à coerência com a maior dificuldade, mas Ballard ouvia nela
os restos de Mironenko. Quanto mais esquadrinhava a carne fervente, mais estarrecido
ficava.
— Não tenha medo — disse Mironenko.
— Que doença é essa?
—A única doença de que já sofri foi o esquecimento, e estou curado disso. — Fazia
uma careta enquanto falava, como se cada palavra fosse formada em contradição com
os instintos da sua garganta.
Ballard pôs a mão na cabeça. Apesar da sua revolta contra a dor, o barulho
aumentava cada vez mais.
— Você se recorda também, não é? Você é igual.
— Não — murmurou Ballard.
Mironenko estendeu uma mão peluda para tocá-lo.
— Não tenha medo. Você não está sozinho. Existem muitos de nós. Irmãos e
irmãs.—
Eu não sou seu irmão — falou Ballard. O barulho era ruim, mas a cara de
Mironenko era pior. Irritado, deu as costas, mas o russo simplesmente o seguiu.
— Você não sente o gosto da liberdade, Ballard? E da vida? Tão perto.
Ballard continuou andando, o sangue começando a escorrer pelas narinas. Deixou
que escorresse.
— Dói apenas por um instante — sussurrou Mironenko. —Depois a dor se vai...
Ballard manteve a cabeça baixa, olhos para o chão. Mironenko, vendo que não o
estava impressionando muito, deixou-se ficar para trás.
— Eles não o levarão de volta — disse. — Você viu demais. O estrondo dos
helicópteros não bloqueou inteiramente essas palavras. Ballard sabia que havia verdade
nelas. Seu andar vacilou e, através da cacofonia, ouviu Mironenko murmurar:
—Veja...
Adiante, a neblina tinha atenuado um pouco e o muro do parque era visível por
entre farrapos de névoa. Atrás dele, a voz de Mironenko tinha abaixado para um
resmungo.
— Veja o que você é.
As hélices estrondavam; Ballard sentia como se suas pernas fossem se dobrar e
fazê-lo cair. Porém, manteve seu avanço rumo ao muro. A alguns metros dele,
Mironenko chamou-o novamente, mas desta vez as palavras tinham-lhe escapado
totalmente. Havia apenas um baixo grunhido. Ballard não pôde resistir; apenas uma vez.
Olhou por cima do ombro. Novamente a neblina o confundiu, mas não inteiramente. Por
instantes — tão longos e ainda assim tão breves — Ballard viu a coisa que tinha sido
Mironenko em toda sua plenitude e, com aquela visão, o som das hélices aumentaram
para um tom alarmante. Colocou as mãos contra o rosto. Ao fazê-lo, um tiro ressoou;
depois outro; depois uma saraivada de tiros. Caiu no chão, tanto por fraqueza como
para se defender, e descobriu os olhos, vendo diversas figuras humanas movendo-se
na neblina. Embora tivesse esquecido seus perseguidores, eles não o tinham
esquecido. Seguiram-no até o parque e o encaminharam para o meio dessa loucura;
agora, homens, meio-homens e coisas não-humanas perdiam-se na neblina, e havia
uma confusão sanguinolenta por toda parte. Um pistoleiro atirando numa sombra,
apenas para ver um aliado surgir por entre a neblina com uma bala na barriga; uma
coisa aparecendo em quatro pernas e sumindo outra vez em duas; outro, ao correr,
carregando uma cabeça humana pelos cabelos e rindo da sua cara focinhuda.
O tumulto espalhou-se até ele. Temendo por sua vida, levantou-se e cambaleou de
volta em direção ao muro. Os berros, tiros e rosnados continuavam; esperava que uma
bala ou uma fera o encontrassem a cada passo que dava. Mas alcançou o muro com
vida e tentou escalá-lo. Contudo, sua coordenação o abandonara. Não tinha escolha
senão acompanhar o muro em toda sua extensão até chegar ao portão.
Atrás dele, as cenas de desmascaramentos, transformações e identidades erradas
prosseguiam. Seus pensamentos depauperados voltaram-se brevemente para
Mironenko. Ele, ou alguém da sua tribo sobreviveria a esse massacre?
— Ballard — ouviu um som na neblina. Não podia ver quem falava, embora
reconhecesse a voz. Ele a tinha escutado em seu delírio, dizendo-lhe mentiras.
Sentiu uma pontada no pescoço. O homem tinha vindo por trás e estava enfiando
uma agulha nele.
— Durma — ordenou a voz. E, juntamente com as palavras, veio à inconsciência.
A princípio, não conseguia se lembrar do nome do homem. Sua mente perambulava
como uma criança perdida, embora seu interrogador exigisse sua atenção a todo
momento, falando com ele como se fossem velhos amigos. E havia, de fato, algo
familiar em seu olho errante, que se mexia muito mais lentamente do que seu
companheiro. Finalmente, ocorreu-lhe o nome.
— Você é Cripps.
— Claro que sou Cripps — o homem respondeu. — Sua memória está lhe
pregando peças? Não se preocupe. Dei-lhe alguns supressivos para evitar que você
perdesse o equilíbrio. Não que eu pense que seja muito provável. Você lutou
bravamente, Ballard, apesar da considerável provocação. Quando penso na forma
como Odell se arrebentou... — suspirou. — Lembra-se de alguma coisa da noite
passada?
A princípio, o olho da sua mente estava cego. Mas depois as lembranças
começaram a surgir. Formas vagas movendo-se numa neblina.
— O parque — disse finalmente.
— Simplesmente tirei você de lá. Deus sabe quantos estão mortos.
— O outro... O russo...?
— Mironenko? — Cripps ajudou. — Eu não sei. Não sou mais encarregado, você
entende; entrei apenas para salvar alguma coisa, se pudesse. Londres precisará de
nós outra vez, mais cedo ou mais tarde. Principalmente agora que eles sabem que os
russos têm um corpo especial como nós. Tínhamos ouvido boatos, claro; e então,
depois que você se encontrou com ele, começou-se a questionar sobre Mironenko. Foi
por isso que arranjei o encontro. E evidentemente, quando o vi frente a frente, eu
soube. Há algo nos olhos. Algo faminto.
— Eu o vi mudar...
— Sim, e que visão, não é? O poder que emana. Por isso, desenvolvemos o
programa, entende, para dominar aquele poder, fazê-lo trabalhar para nós. Mas é difícil
de controlar. Foram necessários anos de terapia de repressão, enterrando lentamente
o desejo de transformação, de modo que restou-nos um homem com faculdades de
uma fera. Um lobo em pele de ovelha. Pensamos que tivéssemos resolvido o problema;
que, se os sistemas de crença não o mantivessem subjugado, a resposta de dor o
faria. Porém, estávamos enganados. — Levantou-se e caminhou até a janela. — Agora
temos de recomeçar.
— Suckling disse que você tinha sido ferido.
— Não. Meramente rebaixado. Mandado de volta a Londres.
— Mas você não irá.
— Irei agora; agora que o encontrei. — Olhou ligeiramente para Ballard.
— Você é a prova viva de que minhas técnicas são viáveis. Você tem total
consciência de seu estado e, ainda assim, a terapia segura a correia. — Virou-se para
a janela. A chuva batia contra o vidro. Ballard podia quase senti-la sobre sua cabeça,
sobre suas costas. Fria, suave chuva. Por bem-aventurados instantes, parecia que ele
estava correndo na chuva, rente ao chão, com o ar impregnado de aromas que o
aguaceiro tinha desprendido do solo.
— Mironenko disse...
— Esqueça Mironenko — Cripps retrucou. — Ele está morto. Você é o último da
velha ordem, Ballard. E o primeiro da nova.
Lá embaixo soou uma campainha. Cripps espiou pela janela as ruas abaixo.
— Bem, bem, uma delegação, vindo para implorar que voltemos. Espero que esteja
lisonjeado. — Foi até a porta. — Fique aqui. Não precisamos exibi-lo esta noite. Você
está fatigado. Deixe que esperem, hein? Deixe que suem. — Deixou o aposento mal
conservado, fechando a porta atrás de si. Ballard ouviu seus passos na escada.
Tocavam a campainha pela segunda vez. Levantou-se e foi até a janela. A tênue luz do
final da tarde combinava com a sua fraqueza; ele e a cidade ainda estavam em
harmonia, apesar da maldição que havia sobre si. Lá embaixo, um homem surgiu de
trás do carro e foi até a porta da frente. Mesmo desse ângulo estreito, Ballard
reconheceu Suckling.
Ouviu vozes no vestíbulo; com o surgimento de Suckling, a discussão pareceu
tornar-se mais acalorada. Ballard foi até a porta e escutou, mas sua mente embotada
pelas drogas não conseguia apreender bem o sentido da discussão. Rezou para que
Cripps mantivesse sua palavra e não permitisse que o vissem. Não queria ser uma
besta como Mironenko. Não era liberdade ser tão terrível? Era simplesmente uma
espécie diferente de tirania. Mas também não queria ser o primeiro da heróica nova
ordem de Cripps. Não pertencia a ninguém, percebeu; nem a si mesmo. Estava
desesperadamente perdido. Todavia, Mironenko não dissera naquele primeiro encontro
que o homem que não acreditava estar perdido, estava perdido? Talvez fosse melhor
isso — melhor existir no crepúsculo entre um estado e outro, prosperar da melhor
forma possível através da dúvida e da ambigüidade — do que sofrer as certezas da
torre.
A discussão lá embaixo ganhava impulso. Ballard abriu a porta para ouvir melhor.
Foi a voz de Suckling que chegou até ele. O tom era impertinente, mas nem por isso
menos ameaçador.
— Acabou... — falava a Cripps — ... você não entende inglês claro? — Cripps
tentou protestar, mas Suckling interrompeu-o. — Ou você vem como um cavalheiro, ou
Gideon e Sheppard o carregam para fora. Como vai ser?
— O que é isso? — Cripps perguntou. — Você não é ninguém, Suckling. Você é
uma piada.
— Isso foi ontem — o outro replicou. — Fizeram algumas mudanças. Todo cão tem
o seu dia, não é mesmo? Você deveria saber isso melhor do que ninguém. Eu pegaria
um casaco se fosse você. Está chovendo.
Houve um breve silêncio, então Cripps falou:
— Está bem, eu vou.
— Bom rapaz. — O comentário de Suckling veio suavemente. — Gideon, vá checar
lá em cima.
— Estou sozinho.
— Acredito em você. — Suckling virou-se para Gideon. —Vá mesmo assim.
Ballard ouviu alguém mover-se através do vestíbulo e depois uma súbita agitação.
Cripps estava escapando ou atacando Suckling, um dos dois. Suckling gritou; houve um
tumulto. Então, através da confusão, um único tiro.
Cripps berrou, depois veio o ruído de sua queda.
Agora a voz de Suckling, cheia de fúria.
— Idiota — murmurou. — Idiota.
Cripps gemeu alguma coisa que Ballard não entendeu. Tinha pedido para ser
despachado, talvez, pois Suckling lhe disse: — Não. Você vai voltar a Londres.
Sheppard, faça-o parar de sangrar. Gideon, lá em cima.
Ballard recuou do topo da escada quando Gideon começou a subir. Sentiu-se
frouxo e incapaz. Não havia saída da armadilha. Iriam encurralá-lo e exterminá-lo. Ele
era uma besta, um cachorro louco num labirinto. Se ao menos tivesse matado Suckling
quando teve forças para isso. Por outro lado, que espécie de bem isso faria? O mundo
estava cheio de homens como Suckling, homens aguardando a sua hora, até que
pudessem mostrar como realmente eram. Homens desprezíveis, untuosos, secretos.
De repente, a besta pareceu mover-se em Ballard, pensou no parque, na neblina e no
sorriso no rosto de Mironenko, e veio uma onda de pesar por algo que nunca sentira
antes: a vida de um monstro.
Gideon estava quase no topo da escada. Embora isso pudesse apenas protelar o
inevitável por alguns instantes, Ballard esgueirou-se pelo patamar e abriu a primeira
porta que encontrou. Era o banheiro. Havia um ferrolho na porta, que ele girou.
O som de água corrente preencheu o aposento. Um pedaço da calha quebrara-se e
jogava uma torrente de água da chuva no peitoril da janela. O barulho e o frio do
banheiro trouxeram de volta a noite das ilusões. Lembrou-se da dor e do sangue;
lembrou-se do chuveiro — água batendo em seu crânio, expurgando-o da dor
subjugante. Ao pensar nisso, três palavras vieram aos seus lábios espontaneamente:
— Eu não acredito.
Ele tinha sido ouvido.
— Tem alguém aqui em cima — Gideon chamou. O homem aproximou-se da porta
e bateu. — Abra.
Ballard ouviu-o claramente, mas não respondeu. Sua garganta ardia e o estrondo
das hélices aumentava novamente. Encostou-se na porta e entrou em desespero.
Suckling chegou lá em cima e, em segundos, estava à porta.
— Quem está aí? Responda! Quem está aí? — Não obtendo resposta, ordenou
que Cripps fosse trazido para cima. Houve mais tumulto enquanto a ordem era
obedecida.
— Pela última vez... — disse Suckling.
A pressão crescia no crânio de Ballard. Desta vez parecia que o barulho tinha
intenções letais; seus olhos doíam como se estivessem prestes a saltar das órbitas.
Viu alguma coisa no espelho acima da pia; algo com olhos brilhantes, e outra vez
vieram as palavras “Eu não acredito”. Agora, porém, sua garganta, ardendo por outras
coisas, mal conseguiu proferi-las.
— Ballard — disse Suckling. Havia triunfo na palavra. — Meu Deus, pegamos
Ballard também. E o nosso dia de sorte.
Não, pensou o homem no espelho. Não havia ninguém com aquele nome aqui.
Ninguém com nome algum, na verdade, pois não eram nomes o primeiro ato de fé, a
primeira borda da caixa na qual se enterrou a liberdade? A coisa em que estava se
transformando não receberia um nome; nem seria encaixotada; nem enterrada. Nunca
mais. Por um momento perdeu a visão do banheiro e sentiu-se suspenso acima da
sepultura que o tinham feito cavar; nas profundezas, a caixa dançava enquanto seu
conteúdo lutava contra o enterro prematuro. Podia ouvir a madeira se rompendo em
lascas — ou era o barulho da porta sendo arrombada?
A tampa da caixa voou longe. Uma chuva de pregos caiu sobre as cabeças dos
presentes ao funeral. O barulho em sua cabeça, como que sabendo que seus
tormentos tinham sido infrutíferos, foi-se subitamente, e com ele a ilusão. Estava de
volta ao banheiro, encarando a porta aberta. Os homens que o fitavam tinham cara de
idiotas. Bambos e estupidificados com o choque — vendo como ele estava inflamado.
Vendo seu focinho, seus pêlos, o olho dourado e dentes amarelos. O horror deles
envaideceu-o.
— Mate-o — ordenou Suckling, e empurrou Gideon pela abertura. O homem já
tinha tirado a arma do bolso e estava apontando-a, mas seu dedo era muito lento no
gatilho. A fera agarrou sua mão e amassou a carne em volta do aço. Gideon gritou e
desceu aos tropeções escada abaixo, ignorando os brados de Suckling.
Quando a fera ergueu a mão para cheirar o sangue nela, houve um clarão de fogo
e ela sentiu o tiro no ombro. Contudo, Sheppard não teve chance de atirar uma
segunda vez antes que sua presa atravessasse a porta e se jogasse sobre ele.
Largando a arma, lançou-se inutilmente para a escada, mas a mão do animal abriu sua
cabeça com um simples golpe. O pistoleiro tombou para frente, o patamar estreito
impregnando-se com seu cheiro. Esquecendo os outros inimigos, a fera caiu sobre o
refugo e comeu.
Alguém disse:
— Ballard.
A fera engoliu os olhos do morto de uma só vez, como ostras de primeira
qualidade.
De novo, aquelas sílabas: — Ballard. — Teria continuado sua refeição, não fosse o
som do choro penetrando em seus ouvidos. Estava morto para ele mesmo, mas não
para a tristeza. Largou a carne dos seus dedos e olhou para trás, para o patamar.
O homem que estava chorando lacrimejava por apenas um olho; o outro olho
contemplava estranhamente intocado. Mas a dor no órgão vivo era realmente profunda.
Era desespero, a fera sabia; um sofrimento muito próximo dele para que a suavidade
da transformação o tivesse apagado inteiramente. O homem em prantos estava preso
nos braços de outro homem, que tinha a arma apontada contra a cabeça de seu
prisioneiro.
— Se fizer outro movimento — disse o captor — vou estourar a cabeça dele. Você
entendeu?
A fera limpou a boca.
— Diga-lhe, Cripps! Ele é seu bebê. Faça-o entender.
O caolho tentou falar, mas as palavras o derrotaram. O sangue do ferimento do
abdômen escorria por entre seus dedos.
— Nenhum de vocês precisa morrer — repetiu o captor. A fera não gostou do tom
de sua voz; era estridente e falso. — Londres iria preferir tê-los com vida. Então por
que não lhe diz, Cripps? Diga-lhe que não quero lhe fazer mal algum.
O homem choroso acenou com a cabeça.
— Ballard... — murmurou. Sua voz era mais suave que a outra. A fera escutou.
— Diga-me, Ballard, como se sente?
A fera não conseguia entender a pergunta.
— Por favor, diga-me. Por curiosidade...
— Filho da puta — praguejou Suckling, apertando a arma contra a carne de Cripps.
— Isto aqui não é um talk-show.
— É bom? — Cripps perguntou, ignorando o homem e a arma.
— Cale-se!
— Responda-me, Ballard. Como se sente?
Ao fitar os olhos desesperados de Cripps, o significado dos sons que ele proferira
surgiu claro, as palavras encaixando-se como peças de um mosaico. — E bom? — o
homem perguntou.
Ballard ouviu risadas em sua garganta e encontrou nela as sílabas para responder.
— Sim. Sim. É bom.
Não tinha acabado de responder quando a mão de Cripps adiantou-se para agarrar
a de Suckling. Se ele tentou cometer suicídio ou escapar, ninguém jamais saberá. O
dedo puxou o gatilho e uma bala atravessou a cabeça de Cripps, espalhando seu
desespero pelo teto. Suckling jogou o corpo para longe e ia apontar a arma, mas a fera
já estava sobre ele. Se ainda existisse algo de humano nele, Ballard poderia ter
imaginado fazer Suckling sofrer, mas não tinha essa ambição perversa. Seu único
pensamento era destruir o inimigo o mais eficientemente possível. Dois golpes violentos
e mortais liquidaram-no. Ballard foi até onde Cripps estava estendido. Seu olho de vidro
escapara da destruição. Ele contemplava fixamente, intocado pelo holocausto em volta.
Ballard soltou-o da cabeça mutilada e colocou-o no bolso; depois saiu para a chuva.
Estava anoitecendo. Não sabia para qual bairro de Berlim fora trazido, mas seus
impulsos, livres da razão, levaram-no através das ruas seguintes e das sombras, até
um terreno baldio nas imediações da cidade, no meio do qual havia uma ruína solitária.
Ninguém saberia ao certo o que a construção poderia ter sido algum dia (um
abatedouro? uma casa de ópera?), porém, por um capricho do destino, escapara da
demolição, embora todos os outros prédios tivessem sido derrubados por centenas de
metros, em cada direção. Enquanto caminhava através do cascalho emaranhado de
ervas daninhas, o vento mudou de direção e levou o cheiro de sua tribo até ele. Havia
muitos lá, juntos sob a proteção das ruínas. Alguns encostavam-se contra o muro e
compartilhavam um cigarro; uns eram perfeitos lobos e buscavam a escuridão como
fantasmas de olhos dourados; outros, todavia, poderiam ter passado por inteiramente
humanos não fossem suas caudas.
Embora desconfiasse que nomes fossem coisas proibidas em meio a esse clã,
perguntou a dois amantes no cio, resguardados pelo muro, se sabiam de um homem
chamado Mironenko. A cadela tinha as costas macias e sem pêlo e uma dúzia de fartas
tetas pendendo de sua barriga.
— Escute — disse ela.
Então Ballard ouviu alguém falando a um canto das ruínas. A voz subia e descia.
Seguiu o som através do interior sem telhado até onde estava um lobo, cercado por
uma audiência atenta, um livro aberto nas patas anteriores. A aproximação de Ballard,
um ou dois da platéia voltaram seus olhos luminosos para ele. O lobo parou.
— Ssh! O Camarada está lendo para nós.
Era Mironenko quem falava. Ballard esgueirou-se entre os ouvintes, enquanto o
ledor retomava a história.
— E Deus os abençoou, e Deus lhes disse, crescei e multiplicai-vos, e ocupai a
terra...
Ballard ouvira aquelas palavras antes, mas esta noite elas eram novas.
— ... e conquistem-na; e tenham domínio sobre o peixe do mar, e sobre a ave do
ar...
Olhou em volta do círculo de ouvintes, enquanto as palavras descreviam as regras
familiares.
— ... e sobre todas as coisas vivas que se movam sobre a terra.
Em algum lugar próximo, uma fera chorava.

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