O Barril de Amontillado

Está bem - disse eu, guardando outra vez a ferramenta debaixo da capa e
oferecendo-lhe o braço. Apoiou-se pesadamente em mim. Continuamos nosso
caminho, em busca do Amontillado. Passamos através de uma série de baixas
abóbadas, descemos, avançamos ainda, tornamos a descer e chegamos,
afinal, a uma profunda cripta, cujo ar, rarefeito, fazia com que nossas velas
bruxuleassem, ao invés de arder normalmente.
Na extremidade mais distante da cripta aparecia uma outra, menos espaçosa.
Despojos humanos empilhavam-se ao longo de seus muros, até o alto das
abóbadas, à maneira das grandes catacumbas de Paris. Três dos lados dessa
cripta eram ainda adornados dessa maneira. Do quarto, os ossos haviam sido
retirados e jaziam espalhados pelo chão, formando, num dos cantos, um monte
de certa altura. Dentro da parede, que, com a remoção dos ossos, ficara
exposta, via-se ainda outra cripta ou recinto interior, de uns quatro pés de
profundidade, três de largura e seis ou sete de altura. Não parecia haver sido
construída para qualquer uso determinado, mas constituir apenas um intervalo
entre os dois enormes pilares que sustinham a cúpula das catacumbas, tendo
por fundo uma das paredes circundantes de sólido granito.
Foi em vão que Fortunato, erguendo sua vela bruxuleante, procurou divisar a
profundidade daquele recinto. A luz, fraca, não nos permitia ver o fundo.
- Continue - disse-lhe eu. - O Amontillado está aí dentro. Quanto a Luchesi . . .
- É um ignorante - interrompeu o meu amigo, enquanto avançava com passo
vacilante, seguido imediatamente por mim.
Num momento, chegou ao fundo do nicho e, vendo 0 caminho interrompido
pela rocha, deteve-se, estupidamente perplexo. Um momento após, eu já o
havia acorrentado ao granito, pois que, em sua superfície, havia duas argolas
de ferro, separadas uma da outra, horizontalmente, por um espaço de cerca de
dois pés. De uma delas pendia uma corrente; da outra, um cadeado. Lançar a
corrente em torno de sua cintura, para prendê-lo, foi coisa de segundos. Ele
estava demasiado atônito para oferecer qualquer resistência. Retirando a
chave, recuei alguns passos.
- Passe a mão pela parede - disse-lhe eu. - Não poderá deixar de sentir o
salitre. Está, com efeito, muito úmida. Permita-me, ainda uma vez, que lhe
implore para voltar. Não? Então, positivamente, tenho de deixá-lo. Mas,
primeiro, devo prestar-lhe todos os pequenos obséquios ao meu alcance.
- O Amontillado! - exclamou o meu amigo, que ainda não se refizera de seu
assombro.
- É verdade - respondi -, o Amontillado.
E, dizendo essas palavras, pus-me a trabalhar entre a pilha de ossos a que já
me referi. Jogando-os para o lado, deparei logo com uma certa quantidade de
pedras de construção e argamassa. Com este material e com a ajuda de minha
colher de pedreiro, comecei ativamente a tapar a entrada do nicho.
Mal assentara a primeira fileira de minha obra de pedreiro, quando descobri
que a embriaguez de Fortunato havia, em grande parte, se dissipado. O
primeiro indício que tive disso foi um lamentoso grito, vindo do fundo do nicho.
Não era o grito de um homem embriagado. Depois, houve um longo e
obstinado silêncio. Coloquei a segunda, a terceira e a quarta fileiras. Ouvi,
então, as furiosas sacudidas da corrente. O ruído prolongou-se por alguns
minutos, durante os quais, para deleitar-me com ele, interrompi o meu trabalho
e sentei-me sobre os ossos. Quando, por fim, o ruído cessou, apanhei de novo
a colher de pedreiro e acabei de colocar, sem interrupção, a quinta, a sexta e a
sétima fileiras. A parede me chegava, agora, até a altura do peito. Fiz uma nova
pausa e, segurando a vela por cima da obra que havia executado, dirigi a fraca
luz sobre a figura que se achava no interior.
Uma sucessão de gritos altos e agudos irrompeu, de repente, da garganta do
vulto acorrentado, e pareceu impelir-me violentamente para trás. Durante breve
instante, hesitei... tremi. Saquei de minha espada e pus-me a desferir golpes no
interior do nicho; mas um momento de reflexão bastou para tranqüilizar-me.
Coloquei a mão sobre a parede maciça da catacumba e senti-me satisfeito.
Tornei a aproximar-me da parede e respondi aos gritos daquele que clamava.
Repeti-os, acompanhei-os e os venci em volume e em força. Fiz isso, e o que
gritava acabou por silenciar.
Já era meia-noite, a minha tarefa chegava ao fim. Completara a oitava, a nona
e a décima fileiras. Havia terminado quase toda a décima primeira - e restava
apenas uma pedra a ser colocada e rebocada em seu lugar. Ergui-a com
grande esforço, pois que pesava muito, e coloquei-a, em parte, na posição a
que se destinava. Mas, então, saiu do nicho um riso abafado que me pôs os
cabelos em pé. Seguiu-se-lhe uma voz triste, que tive dificuldade em
reconhecer como sendo a do nobre Fortunato. A voz dizia:
- Ah! ah! ah! . . . eh! eh! eh! . . . Esta é uma boa piada... uma excelente piada!
Vamos rir muito no palazzo por causa disso . . . ah! ah! ah! . . . por causa do
nosso vinho... ah! ah! ah!
- O Amontillado! - disse eu.
- Ah! ah! ah! . . . sim, sim . . . o Amontillado. Mas não está ficando tarde? Não
estarão nos esperando no palácio. . . a Sra. Fortunato e os outros? Vamos
embora.
- Sim - respondi -, vamos embora. - Pelo amor de Deus, Montresor!
- Sim - respondi -, pelo amor de Deus!
Mas esperei em vão qualquer resposta a estas palavras. Impacientei-me.
Gritei, alto:
- Fortunato!
Nenhuma resposta. Tornei a gritar:
- Fortunato!
Ainda agora, nenhuma resposta. Introduzi uma vela pelo orifício que restava e
deixei-a cair dentro do nicho. Chegou até mim, como resposta, apenas um
tilintar de guizos. Senti o coração opresso, sem dúvida devido à umidade das
catacumbas. Apressei-me para terminar o meu trabalho. Com esforço, coloquei
em seu lugar a última pedra - e cobri-a com argamassa. De encontro à nova
parede, tornei a erguer a antiga muralha de ossos. Durante meio século, mortal
algum os perturbou. In pace requiescat!

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