Na rua Jerusalém

Wyburd olhou o livro, e o livro retribuiu o olhar. Tudo o que lhe disseram sobre o
garoto era verdade.
— Como entrou? — McNeal quis saber. Não se notava raiva nem nervosismo em
sua voz, apenas uma curiosidade casual.
— Pulei o muro — Wyburd respondeu.
O livro assentiu.
— Veio ver se os rumores eram verdadeiros?
— É. Por aí.
Entre connoisseurs do bizarro, a história de McNeal era contada em sussurros
reverentes. Como o garoto havia se passado por médium, inventando histórias sobre os
mortos para lucro próprio; e como os mortos tinham finalmente se cansado de suas
brincadeiras, e invadiram o mundo dos vivos para realizar uma vingança imaculada.
Escreveram sobre ele; tatuaram seus verdadeiros testamentos sobre sua pele para
que McNeal nunca mais encarasse a tristeza deles em vão. Transformavam seu corpo
num livro, um livro de sangue, cada centímetro minuciosamente entalhado com suas
histórias.
Wyburd não era um homem crédulo. Jamais acreditara de fato na história — até
aquele instante. Mas prova viva de sua veracidade encontrava-se ali, de pé à sua
frente. Não havia parte da pele exposta de McNeal que não estivesse repleta de
pequenas palavras. Embora já tivessem se passado quatro anos desde que os
fantasmas apareceram para ele, a carne ainda parecia sensível, como se as feridas
jamais fossem sarar inteiramente.
— Já viu o bastante? — perguntou o garoto. — Tem mais. Está coberto da cabeça
aos pés. Às vezes, ele se pergunta se não está escrito por dentro também. —
Suspirou. — Quer uma bebida?
Wyburd aceitou. Talvez um gole de álcool fizesse com que suas mãos parassem de
tremer.
McNeal serviu-se de vodca, tomou um gole e depois encheu um segundo copo para
seu convidado. Wyburd viu então que a nuca do garoto estava tão cheia de inscrições
quanto seu rosto e suas mãos, a escrita subindo para os cabelos. Aparentemente, nem
mesmo seu crânio havia escapado à atenção dos autores.
— Por que você fala de si mesmo na terceira pessoa? — dirigiu-se a McNeal,
quando voltou com o copo. — Como se não estivesse aqui...?
— O garoto? — perguntou McNeal. — Ele não está aqui. Há muito tempo não está
aqui. Sentou-se e bebeu. Wyburd começou a sentir-se pouco à vontade. O garoto estava
apenas louco, ou brincando de algum jogo idiota?
O garoto engoliu outro gole de vodca e depois perguntou, num tom de voz tranqüilo:
— Quanto ela vale para você?
Wyburd franziu a testa.
— Quanto vale o quê?
— A pele dele — o garoto respondeu automaticamente. — Foi para isso que você
veio, não foi? — Wyburd esvaziou o copo em dois goles, sem falar nada. McNeal deu
de ombros. — Todo mundo tem direito ao silêncio — afirmou. — Menos o garoto,
claro. Para ele, não há silêncio. — Olhou para sua mão, virando-a para apreciar os
escritos na palma. — As histórias seguem e seguem. Noite e dia. Não param jamais.
Elas se contam sozinhas, sabia? Sangram e sangram. Não se pode jamais calá-las;
jamais curá-las.
Ele é louco, pensou Wyburd, e perceber isso de algum modo tornou mais fácil o
que estava para fazer. Melhor matar um animal doente do que um saudável.
— Sabe, existe uma estrada... — o garoto dizia. Não olhava sequer para seu
carrasco. — Uma estrada pela qual os mortos descem. Ele a viu. Estrada estranha,
escura, cheia de gente. Não se passa um dia sem que ele não queira... não queira
voltar lá.
— Voltar? — perguntou Wyburd, feliz por fazer com que o garoto continuasse
falando. Meteu a mão no bolso da jaqueta; tocou a faca. Ela confortava-o na presença
daquele lunático.
— Nada é o bastante — disse McNeal. — Nem amor. Nem música. Nada.
Agarrando a faca, Wyburd tirou-a do bolso. Os olhos do garoto encontraram a
lâmina, e ganharam vida com essa visão.
— Você não falou o quanto valia.
— Duzentos mil — respondeu Wyburd.
— Alguém que ele conheça?
O assassino balançou .a cabeça.
— Um exilado. No Rio de Janeiro. Um colecionador.
— De peles?
— De peles.
O garoto pôs o copo sobre a mesa. Murmurou algo que Wyburd não entendeu.
Então, muito baixinho, as palavras sairam:
— Vá em frente, e seja rápido.
Ele estremeceu um pouco quando a faca encontrou seu coração, mas Wyburd foi
eficiente. O momento chegou e passou antes que o garoto sequer soubesse o que
estava acontecendo, quanto mais sentir algo. Então tudo acabou, pelo menos para ele.
Para Wyburd, o verdadeiro trabalho apenas começara. Levou duas horas para
completar o esfolamento. Quando terminou — a pele dobrada em linho virgem e
trancada na maleta, trazida especialmente com esse objetivo — estava cansado.
Amanhã voaria para o Rio, pensou ao deixar a casa, e exigiria o resto do
pagamento. E então, Flórida.
Passou a noite no pequeno apartamento que alugara para as tediosas semanas de
reconhecimento e planejamento que haviam precedido o trabalho daquela tarde. Estava
contente por ir embora. Agora o serviço fora feito, e ele poderia compensar todo esse
tempo.
Dormiu bem, embalado pelo aroma imaginado de laranjais.
Mas não foi o cheiro de frutas que sentiu ao acordar, e sim algo picante. O quarto
estava escuro. Esticou o braço direito e tentou acender a luz do abajur de cabeceira,
mas nada aconteceu.
Ouvia agora um som molhado do outro lado do quarto. Sentou-se na cama,
forçando a vista na escuridão, mas não conseguia ver nada.
Balançando as pernas na beira da cama, levantou-se.
Seu primeiro pensamento era o de que deixara as torneiras do banheiro abertas e o
apartamento havia inundado. Estava com água morna até os joelhos. Confuso,
caminhou com dificuldade até a porta e esticou a mão para ligar o interruptor,
acendendo a luz. Não era água. Muito denso, muito precioso; muito vermelho.
Soltou um grito de nojo e virou-se para abrir a porta, mas estava trancada, e não
havia chave. Desferiu uma saraivada de socos contra a madeira sólida e gritou por
socorro. Seus apelos não foram respondidos.
Voltou-se para o quarto, a maré quente já chegando às coxas, e procurou a fonte.
A maleta. Estava na escrivaninha, onde a havia deixado, e sangrava copiosamente
por cada costura, pelas fechaduras; e pelas dobradiças — como se mil atrocidades
estivessem sendo cometidas em seu interior e ela não pudesse conter o dilúvio que
esses atos haviam desencadeado.
Viu o sangue derramando-se em abundância. Nos poucos segundos desde que
saíra da cama, a piscina aumentara em vários centímetros, e a enchente não parava.
Tentou a porta do banheiro, mas também estava trancada e não tinha a chave.
Tentou as janelas, mas era impossível mover os postigos. O sangue havia alcançado
sua cintura. A maior parte da mobília estava flutuando. Sabendo que estava perdido, a
menos que tentasse alguma ação direta, abriu caminho pela pressão do líquido até à
maleta, e pôs as mãos sobre a tampa na esperança de que ainda pudesse conter o
fluxo. Em vão. Ao seu toque, foi como se o sangue jorrasse com mais intensidade,
ameaçando arrebentar as costuras.
As histórias seguem, dissera o garoto. Sangram e sangram. E agora ele parecia
ouvi-las em sua cabeça. Dezenas de vozes, cada uma contando uma história trágica. A
enchente levou-o para o teto. Pelejava para manter o queixo acima da maré
espumante, mas em minutos mal havia um centímetro de ar no alto da sala. E quando
até mesmo essa margem ficou mais estreita, acrescentou sua própria voz à cacofonia,
implorando para que o pesadelo parasse. Mas as outras vozes o afogaram com suas
histórias, e quando ele beijou o teto seu fôlego acabou.
Os mortos possuem estradas. Elas correm, linhas retas de trens-fantasmas, de
carruagens de sonhos, pela vastidão desolada através de nossas vidas, levando um
tráfego interminável de almas. Essas rodovias têm placas, pontes e desvios. Têm
trevos e encruzilhadas.
Foi numa dessas encruzilhadas que Leon Wyburd avistou o homem de terno
vermelho. A turba pressionava-o para frente, e apenas quando chegou mais perto
percebeu seu erro. O homem não vestia terno algum. Não estava sequer vestindo sua
pele. Entretanto, não era o garoto McNeal; ele havia partido daquele ponto há muito
tempo. Era outro homem esfolado. Leon alcançou-o e eles conversaram. O esfolado
explicou como havia chegado àquele estado; das conspirações de seu genro e da
ingratidão de sua filha. Por sua vez, Leon contou-lhe seus últimos momentos.
Foi um grande alívio falar do caso. Não porque quisesse que fosse lembrado, mas
porque narrá-lo o desvencilhava do peso da história. Ela não pertencia mais a ele,
àquela vida, àquela morte. Tinha coisa melhor a fazer, como todos ali. Estradas para
viajar; esplendores a desfrutar. Ele sentia a paisagem se abrir. Sentia o ar mais puro.
O que o garoto havia dito era verdade. Os mortos têm estradas.
Somente os vivos estão perdidos.

A Última Ilusão

O que houve então — quando o mágico, tendo hipnotizado o tigre enjaulado, puxou
o cordão ornado com borlas que liberava uma dezena de espadas sobre sua cabeça —
foi assunto de séria discussão tanto no bar do teatro quanto mais tarde, após o término
da atuação de Swann, na calçada da rua 51. Alguns garantiram ter observado, de
relance, o fundo da jaula abrir-se na fração de segundo em que todos os olhos
voltavam-se para as lâminas que desciam, e visto o tigre saltar velozmente para fora
enquanto a mulher de vestido vermelho assumia seu lugar atrás das barras laqueadas.
Outros eram igualmente inflexíveis em sustentar que o animal nunca estivera na jaula,
sendo sua presença uma mera projeção que se extinguira quando um mecanismo
impulsionara a mulher do compartimento sob o palco; isso, é claro, a uma velocidade
tal que enganou os olhos de todos, menos os dos mais argutos e céticos o bastante
para percebê-lo. E as espadas? A natureza do truque — que as transformara, nos
meros segundos de sua brilhante descida de aço, em pétalas de rosa — pôs ainda
mais lenha na fogueira dos debates. As explicações iam do prosaico ao elaborado, mas
poucas pessoas, entre as que deixaram o teatro, não apresentavam nenhuma teoria.
Nem as discussões terminaram ali, na calçada. Continuaram, sem dúvida, nos
apartamentos e restaurantes de Nova Iorque
.
O prazer de ser alvo das ilusões de Swann era, ao que parecia, redobrado.
Primeiro: o espetáculo do truque em si — no extasiante momento em que a
desconfiança, se não suspensa, era ao menos elevada na ponta dos pés. Segundo:
findo o momento e após a lógica ser recuperada, no debate acerca de como o truque
se realizara.
— Como faz isso, sr. Swann? — Barbara Bernstein estava ansiosa para saber.
— É mágica — respondeu Swann. Tinha-a convidado aos bastidores a fim de
examinar a jaula do tigre em busca de algum sinal de fraude em sua construção; ela
não encontrara nenhum. Examinara as espadas: eram letais. E as pétalas, perfumadas.
Ainda assim, insistia.
— Sim, mas falando sério... — Inclinou-se para ele. — Pode me contar, prometo
que minha boca será um túmulo.
Ele deu um sorriso lento como resposta.
—Ah, já sei... — disse ela. —Vai me dizer que assinou algum tipo de juramento.
— É isso mesmo — admitiu Swann.
— E que está proibido de revelar qualquer segredo profissional.
— A intenção é dar prazer a vocês. Fracassei quanto a isso?
— Ah, não — ela não demonstrou hesitação um instante. — Estão todos falando
sobre o espetáculo. Você é o assunto de Nova Iorque.
— Não — ele protestou.
— É verdade. Conheço gente que daria um braço para estar neste teatro. E fazer
um passeio com você como guia pelos bastidores... Ora, serei invejada por todos.
— Fico contente. — Swann tocou-lhe o rosto. Ela obviamente esperava um
movimento como esse. Seria alguma coisa a mais para se gabar: sua sedução pelo
homem que os críticos chamavam de Mago de Manhattan.
— Gostaria de fazer amor com você — ele sussurrou.
— Aqui? — perguntou ela.
— Não. Não onde os tigres possam ouvir.
Ela riu. Preferia que seus amantes fossem uns vinte anos mais jovens que Swann
— ele parecia, alguém tinha comentado, um homem que lamentava o próprio aspecto,
mas seu toque prometia uma sofisticação que nenhum garoto podia oferecer. Ela
gostava do ar de dissolução que sentia por baixo de sua máscara cavalheiresca.
Swann era um homem perigoso. Se ela o recusasse, talvez nunca encontrasse outro.
— Poderíamos ir a um hotel — sugeriu ela.
— Um hotel é uma boa idéia.
Um olhar de dúvida cruzou o rosto dela.
— E quanto a sua esposa...? Podemos ser vistos.
Ele pegou sua mão.
— Sejamos invisíveis, então.
— Estou falando sério.
— Eu também — ele insistiu. — Ouça o que digo: ver não é crer. Sei do que estou
falando. É o fundamento de minha profissão. — Ela não parecia muito segura. — Se
alguém nos reconhecer, simplesmente lhes direi que seus olhos os estão enganando.
Ela sorriu e então ele a beijou. Ela devolveu-lhe o beijo com um fervor
inquestionável.
— Milagroso — falou ele, quando suas bocas se separaram. — Vamos antes que
os tigres comecem a fofocar?
Swann levou-a pelo palco. Os faxineiros ainda não tinham começado seu serviço e,
ali, abandonado na beirada, havia uma camada de botões de rosa. Alguns esmagados,
outros não. Pegou a mão dela entre as suas e caminhou para onde estavam as flores.
Ela o observou abaixar-se para pegar uma rosa do chão, encantada pelo gesto,
mas antes que ele pudesse endireitar o corpo novamente, alguma coisa no ar acima
dele prendeu-lhe os olhos. Seu olhar voltou-se para cima e encontrou uma lâmina de
aço que mergulhava em sua direção. Ela fez que ia avisá-lo, mas a espada era mais
rápida do que sua língua. No último instante ele parece ter sentido o perigo em que se
encontrava e olhou em volta, o botão em sua mão, enquanto a ponta atingia suas
costas. O impulso da espada atravessou-lhe o corpo até o punho. Sangue espirrou de
seu peito e espalhou-se pelo chão. Ele não soltou qualquer som, mas caiu para frente,
forçando dois terços da espada a saírem de seu corpo quando atingiu o palco.
Ela teria gritado, mas sua atenção foi desviada por um som de clangor de aparatos
mágicos presos nos bastidores atrás de si, um rugido sussurrado que era,
indiscutivelmente, a voz do tigre. Ela gelou. Provavelmente devia haver instruções de
como fitar tigres fugidos, mas para alguém nascido e criado em Manhattan eram
técnicas com as quais não estava familiarizada.
— Swann? — chamou, na esperança de que fosse alguma ilusão barroca encenada
apenas para ela. — Swann, por favor, levante-se.
Mas o mago apenas permaneceu deitado onde caíra, a poça aumentando sob ele.
— Se isso é uma piada — falou, irritada — não tem graça. — Como ele não se
ergueu, tentou uma tática mais atraente. — Swann, docinho, gostaria de ir embora
agora, se não se importa. O rugido soou de novo. Não queria se virar e procurar por
sua fonte, mas também não queria ser apanhada por trás.
Cautelosamente, ela se voltou. Os bastidores estavam no escuro. O clangor dos
acessórios dos contra-regras não lhe permitiam determinar a localização precisa da
fera. Contudo, ainda podia ouvi-la: seus movimentos, seus rugidos. Passo a passo, ela
recuou na direção da boca de cena do palco. As cortinas fechadas a isolavam da
platéia, mas esperava que pudesse se arrastar por debaixo delas antes que o tigre a
alcançasse. Quando encostou no tecido pesado, uma das sombras nos bastidores
deixou sua ambigüidade e o animal apareceu. Ele não era bonito, como ela imaginava
enquanto estava atrás das grades, mas grande, letal e faminto. Ela ficou de cócoras e
pegou a ponta da cortina. O tecido era muito pesado e encontrou mais dificuldade em
erguê-lo do que esperava; mas já tinha conseguido esgueirar metade de seu corpo por
baixo da cortina quando, com a cabeça e as mãos pressionadas contra as bordas,
sentiu o baque do avanço do tigre. Um segundo depois sentiu o sopro de seu bafo em
suas costas nuas e gritou enquanto ele enganchava suas garras em seu corpo e a
arrastava da frágil segurança para suas mandíbulas quentes.
Mesmo aí ela recusou-se a desistir de viver. Deu chutes e arrancou tufos do pêlo
da fera, e desferiu uma saraivada de socos em seu focinho. Mas sua resistência era
insólita diante de tamanha força; seu ataque, apesar de todo o vigor, não deteve nem
um pouco o tigre. Ele rasgou seu corpo com um sopapo casual. Com esse primeiro
ferimento, os sentidos dela piedosamente abandonaram todo e qualquer apego à
realidade e, em vez disso, assumiram uma dimensão despropositada. Parecia que
estava ouvindo aplausos em algum lugar e que, ao invés do sangue que certamente
despejava de seu corpo, fluíam fontes de luz cintilante. A agonia que seus terminais
nervosos sofriam não a afetava em absoluto. Mesmo quando o animal dividiu-a em três
ou quatro partes, sua cabeça deitada de lado na borda do palco observava seu dorso
ser rasgado e seus membros devorados.
Durante todo o tempo, enquanto se perguntava como tudo isso era possível — que
seus olhos pudessem viver para testemunhar essa derradeira refeição — só poderia
recordar a última resposta de Swann:
— É magia — dissera ele.
Na verdade, ela refletia exatamente sobre isso, que devia ser magia, quando o tigre
caminhou até sua cabeça e engoliu-a de uma só vez.
Em um certo grupo, Harry D’Amour gostava de acreditar que tinha alguma
reputação — uma roda seleta que, por sinal, não incluía sua ex-esposa, seus credores
ou os críticos anônimos que regularmente colocavam fezes de cachorro na caixa de
correspondência do escritório. Mas a mulher que agora falava ao telefone, sua voz tão
cheia de tristeza que devia ter chorado um ano inteiro — e estava para recomeçar —
conhecia-o pelo exemplo de perfeição que ele era.
— Preciso de sua ajuda, sr. D’Amour, preciso muito.
— Estou ocupado em vários casos no momento. Poderia vir ao meu escritório?
— Não posso deixar a casa — informou a mulher. — Eu lhe explicarei tudo. Venha,
por favor.
Ele estava seriamente tentado. Mas havia mesmo vários casos pendentes, um dos
quais, se não solucionado logo, talvez terminasse em fratricídio. Sugeriu-lhe que
tentasse outra pessoa.
— Não posso procurar qualquer um — a mulher insistiu.
— Por que eu?
— Li sobre o senhor. Sobre o que aconteceu no Brooklyn.
Mencionar seu fracasso mais patente não era um bom método de assegurar seus
serviços, pensou Harry, mas isso certamente chamou-lhe a atenção. O que aconteceu
na rua Wyckoff começara de modo bastante inocente, com um marido que o contratara
para espionar sua esposa adúltera, e terminara no último andar da casa dos Lomax,
com o mundo que ele pensava conhecer virado de cabeça para baixo. Quando a
contagem dos corpos foi feita, e os sacerdotes sobreviventes despachados, ficara com
medo de escadas e de mais perguntas a que jamais respondera nesse tipo de
conspiração familiar. Não tinha prazer nenhum em ser relembrado desses terrores.
— Não gosto de falar do Brooklyn.
— Perdoe-me — replicou a mulher — mas preciso de alguém que tenha experiência
com... com o oculto. — Parou de falar por um instante. Ele ainda podia ouvir sua
respiração pela linha: suave, mas errática.
— Preciso de você — ela disse. Ele já tinha decidido, nessa pausa quando apenas
o medo dela era audível, que resposta daria.
— Eu vou.
— Fico-lhe grata. A casa fica na rua 61 leste... — Ele anotou os detalhes. Suas
últimas palavras foram: — Por favor, rápido. — E desligou o telefone.
Fez algumas Ligações, na vã esperança de apaziguar dois de seus clientes mais
nervosos, e então vestiu o paletó, trancou o escritório e desceu as escadas. O patamar
e o saguão tinham um odor pungente. Quando chegou à porta da frente, pegou Chaplin,
o servente, saindo do porão.
— Este lugar fede — reclamou o homem.
— É desinfetante.
— É mijo de gato — falou Harry. — Faça alguma coisa quanto a isso, sim? Tenho
uma reputação a zelar.
Deixou o homem rindo.
A fachada de arenito da rua 61 leste estava em condições impecáveis. Parou sobre
o degrau escovado, suando e sentindo o hálito ruim, e achou-se um palhaço. A
expressão no rosto que o saudou, quando a porta foi aberta, não fez nada para
dissuadi-lo dessa opinião.
— Sim?
— Sou Harry D’Amour. Recebi um telefonema.
O homem assentiu.
— É melhor entrar — disse sem entusiasmo.
Estava mais fresco do lado de dentro do que fora; e mais doce. O lugar exalava
perfume. Harry seguiu o rosto desaprovador pelo saguão e entrou num grande
aposento, no qual, do outro lado — depois de um tapete oriental, que tinha tudo tecido
em sua padronagem menos o preço —viu uma viúva sentada. O preto não a favorecia;
tampouco as Lágrimas. Ela se levantou e ofereceu-lhe a mão.
— Sr. D’Amour?
— Sim.
— Se quiser beber algo, Valentin o servirá.
— Por favor. Leite, se possível. — Seu estômago estava dando voltas há uma
hora; desde que ela mencionara a rua Wyckoff, na verdade.
Valentin saiu do aposento, sem remover seus olhos intensos de Harry até o último
instante.
— Alguém morreu — Harry falou, depois que o homem saiu.
— Isso mesmo — confirmou a viúva, tornando a sentar-se. A seu convite, ele
sentou-se diante dela, em meio a um mar de almofadas que dava para encher um
harém. — Meu marido.
— Sinto muito.
— Não há tempo para sentimentos — ela retrucou, seu olhar e gestos traindo-lhe
as palavras. Ela estava feliz por sua tristeza; os sulcos das lágrimas e a fadiga
empanavam uma beleza que, se ele visse ao natural, poderia tê-lo deixado mudo de
admiração.
— Dizem que a morte de meu marido foi acidental. Eu sei que não foi.
— Posso perguntar... seu nome?
— Desculpe. Meu nome é Swann, sr. D’Amour. Dorothea Swann. Talvez tenha
ouvido falar de meu marido.
— O mágico?
— Ilusionista — corrigiu ela.
— Li a respeito. Trágico.
— Alguma vez o viu atuar?
Harry fez que não.
— Não tenho dinheiro para ir à Broadway, sra. Swann.
— Ficaríamos aqui por apenas três meses, enquanto estivesse fazendo seu show.
Voltaríamos em setembro...
— Voltar?
— Para Hamburgo — disse ela. — Não gosto desta cidade. Ela é tão quente. E
tão cruel.
— Não culpe Nova Iorque — ele falou. — O que aconteceu foi inevitável.
— Talvez — replicou ela. — O que aconteceu a Swann teria ocorrido de qualquer
modo,onde quer que estivéssemos. As pessoas vivem me dizendo: foi um acidente. E
tudo. Só um acidente.
— Mas não acredita nisso?
Valentin surgiu com um copo de leite. Colocou-o na mesa, diante de Harry.
Quando se preparava para sair, ela falou: — Valentin. A carta?
Ele a fitou com estranheza, como se achasse que ela dissera alguma coisa
obscena.
— A carta — ela repetiu.
Ele saiu.
— Estava dizendo...
Ela franziu a testa.
—Como?
— Sobre ser um acidente.
— Ah, sim. Vivi com Swann por sete anos e meio e aprendi a compreendê-lo tão
bem quanto alguém poderia efetivamente fazê-lo. Aprendi a sentir quando ele me queria
por perto, e quando não. Quando não me queria, eu saía para algum lugar e o deixava
com sua privacidade. Os gênios precisam de privacidade. E ele era um gênio, sabe. O
maior de todos os ilusionistas desde Houdini.
— E mesmo?
— Eu às vezes achava que era algum tipo de milagre ele ter me aceito em sua
vida...
Harry queria dizer que Swann estaria louco se não o fizesse, mas o comentário era
impróprio. Ela não desejava lisonjas; não precisava delas. Não precisava de nada, a
não ser, talvez, seu marido vivo de novo.
— Agora, acho que não o conhecia nem um pouco — continuou ela — não o
compreendia. Acho que isso foi algum outro truque. Outra parte de sua mágica.
— Eu o chamei de mágico ainda há pouco — comentou Harry. — A senhora me
corrigiu.
— É verdade — ela admitiu, aceitando-lhe a observação com um olhar de
desculpas. — Perdoe-me. Aquilo foi Swann falando. Ele odiava ser chamado de
mágico. Dizia que era uma palavra que deveria ser usada para feitores de milagres.
— E ele não fazia milagres?
— Ele costumava se chamar de O Grande Fingidor. — O pensamento a fez sorrir.
Valentin reaparecera, suas feições lúgubres cheias de suspeita. Segurava um
envelope, que obviamente não tinha nenhum desejo de entregar. Dorothea teve de
cruzar o tapete e tirá-lo de suas mãos.
— Acha isso sábio? — perguntou ele.
— Sim — ela respondeu.
Virou-se e fez uma retirada inteligente.
— Ele está muito triste — disse ela. — Perdoe-o por seu comportamento.
Acompanhava Swann desde o início de sua carreira. Acho que amava meu marido tanto
quanto eu.
Ela enfiou o dedo no envelope e tirou uma carta. O papel era de um amarelo-pálido
e quase transparente de tão fino.
—Algumas horas depois dele morrer, esta carta foi entregue aqui, em mãos.
Estava endereçada a ele. Eu a abri. Acho que deveria lê-la. Passou-a para Harry. A
letra cursiva de quem a escrevera era sólida e sóbria:
Dorothea, escrevera ele, se estiver lendo isto, então estou morto. Você sabe
quando pouco acredito em sonhos, premonições e coisas do gênero; mas nos últimos
dias pensamentos estranhos têm invadido minha mente e suspeito de que a morte
esteja muito perto para mim. Se estiver, que seja. Não há como evitar isso. Não
desperdice tempo tentando descobrir os porquês e senões; eles agora são história
antiga. Saiba apenas que a amo, e que, a meu jeito, sempre a amei. Desculpe-me por
qualquer infelicidade que lhe tenha causado, ou esteja causando agora, mas isto não
está em minhas mãos.
Tenho algumas instruções quanto à remoção de meu corpo. Por favor, siga-as ao
pé da letra. Não deixe que ninguém tente persuadi-la a não fazer como lhe peço.
Quero que meu corpo seja vigiado noite e dia até que tenha sido cremado. Não
tente levar meus restos de volta para a Europa.
Mande me cremarem aqui mesmo, tão logo seja possível, e depois jogue as cinzas no
rio Leste.
Meu doce amor, estou com medo. Não de sonhos ruins, ou de que possa me
acontecer nesta vida, mas do que meus inimigos possam tentar fazer após minha
morte. Sabe como são os críticos: eles esperam até que você não possa mais revidar,
e então começam o assassínio do personagem. Seria muito longo tentar lhe explicar
tudo isso, então devo simplesmente confiar em que você fará o que lhe peço.
Repito, eu a amo, e espero que nunca venha a ler esta carta. Seu adorado
Swann.
— Que bilhete de despedida — comentou Harry depois de lê-lo por duas vezes.
Dobrou-o e devolveu para a viúva.
— Gostaria que ficasse com ele — disse ela. — Que tomasse conta do corpo, se
aceitar. Apenas até que todas as formalidades legais sejam resolvidas e eu possa
encomendar sua cremação. Não deve levar muito tempo. Tenho um advogado
trabalhando nisso.
— Pergunto de novo: por que eu?
Ela evitou seu olhar.
— Como escreveu na carta, ele nunca foi supersticioso. Mas eu sou. Acredito em
presságios. E havia uma atmosfera estranha em torno do lugar alguns dias antes dele
morrer. Como se estivéssemos sendo observados.
— Acha que foi assassinado?
Ela meditou sobre isso e então disse:
— Não creio que tenha sido um acidente.
— Esses inimigos dos quais ele fala...
— Ele era um grande homem. Muito invejado.
— Inveja profissional? Isso é motivo para assassinato?
— Qualquer coisa pode ser um motivo, não? Pessoas são mortas por causa da cor
de seus olhos, não são?
Harry estava impressionado. Levara vinte anos para aprender como as coisas eram
arbitrárias. Ela falava como se isso fosse senso comum.
— Onde está seu marido? — perguntou.
— Lá em cima. Mandei que trouxessem o corpo para cá, onde posso cuidar dele.
Não finjo que compreendo o que está havendo, mas não vou correr o risco de ignorar
suas instruções.
Harry assentiu.
— Swann era minha vida — ela acrescentou suavemente, por um motivo qualquer...
e por todos.
Ela levou-o para cima. O perfume que o saudara à porta intensificou-se. O quarto
principal fora transformado numa capela, repleta de ramas e coroas de todas as
formas e variedades; seus odores misturados beiravam ao alucinógeno. Em meio a
essa abundância, o caixão — uma elaborada peça em preto e prata — apoiava-se em
cavaletes. A metade superior da tampa estava aberta, a cobertura de pelúcia recolhida.
A convite de Dorothea, ele passou pelos tributos a fim de ver o morto. Gostou do rosto
de Swann: tinha humor e uma certa malícia; era até mesmo belo em sua aparência
cansada. Mais: ele inspirara o amor de Dorothea; um rosto poderia ter poucas
recomendações melhores. Harry estava com flores até a cintura e, apesar do absurdo,
sentiu uma pontada de inveja pelo amor que esse homem devia ter vivido.
— Vai me ajudar, sr. D’Amour?
O que poderia ter dito?
— Sim, é claro que ajudarei. — E acrescentou: — Chame-me de Harry.
Sentiriam falta dele naquela noite no Wing’s Pavillion. Ele ocupava a melhor mesa
toda noite de sexta-feira nos últimos seis anos e meio, comendo numa refeição o
bastante para compensar o que sua dieta carecia em quantidade e variedade nos
demais dias da semana. Esse banquete — a melhor cozinha chinesa ao sul da rua do
Canal — era grátis, graças aos serviços que ele uma vez prestara ao dono. Essa noite,
no entanto, a mesa estaria vazia.
Não que com isso seu estômago fosse sofrer. Estava sentado com a sra. Swann
há pouco mais de uma hora quando Valentin entrou e perguntou:
— Como quer seu bife?
— Quase queimado — respondeu Harry.
Valentin não ficou muito satisfeito com a resposta.
— Odeio fritar demais um bom bife.
— E eu odeio ver sangue — replicou Harry — mesmo que não seja o meu.
O chef obviamente desprezou o paladar de seu hóspede e virou-se para sair.
— Valentin?
O homem o olhou por sobre o ombro.
— É este o seu nome de batismo? — perguntou Harry.
— Nome de batismo é para cristão — veio à resposta.
Harry assentiu.
— Não gosta de minha presença aqui, não é mesmo?
Valentin não ligou. Seus olhos tinham vagado de Harry para o caixão aberto.
— Não vou ficar aqui por muito tempo — falou Harry — mas enquanto eu estiver
aqui, não poderíamos ser amigos?
O olhar de Valentin encontrou-o uma vez mais.
— Não tenho amigos — murmurou, sem inimizade ou autopiedade. — Não agora.
— OK. Sinto muito.
— O que há para se sentir muito? Swann está morto. Está tudo acabado, menos
os gritos.
O rosto pesaroso recusava estoicamente as lágrimas. Uma pedra choraria antes,
considerou Harry. Mas havia tristeza ali, e ainda mais pungente por ser latente.
— Uma pergunta.
—Só uma?
— Por que não queria que eu lesse a carta dele?
Valentin levantou ligeiramente as sobrancelhas; eram finas o bastante para serem
feitas a lápis.
— Ele não era louco — respondeu. — Eu não queria que, por causa do que
escreveu, você pensasse que era louco. O que leu, guarde para si. Swann era uma
lenda. Não quero sua memória manchada.
— Deveria escrever um livro — disse Harry. — Contar a história de uma vez por
todas. Soube que esteve com ele por algum tempo.
— Ah, sim. Tempo bastante para saber que não deveria contar a verdade.
Após dizer isso, saiu, deixando as flores murchando e Harry com mais quebracabeças
nas mãos do que quando começara.
Vinte minutos depois, Valentin trouxe uma bandeja de comida: uma grande salada,
pão, vinho e o bife — que estava um ponto abaixo de ter virado carvão.
— Do jeito que eu gosto. — Harry começou a comer.
Ele não viu Dorothea Swann, apesar de só Deus saber como pensava intensamente
nela. Cada vez que ouvia um sussurro na escada, ou passos ao longo do patamar
acarpetado, esperava que seu rosto aparecesse na porta, um convite em seus lábios.
Talvez não fosse o mais apropriado dos pensamentos, dada a proximidade do cadáver
de seu marido, mas com o que o ilusionista se importaria agora? Estava para lá de
morto. Se tinha alguma generosidade de espírito, não iria querer ver sua viúva afogarse
na dor.
Harry bebeu a meia garrafa de vinho que Valentin trouxera; quando — quarenta e
cinco minutos depois — o homem reapareceu com café e Galvados, pediu para deixar
a garrafa.
O cair da noite estava próximo. O tráfego era barulhento na Lexington com a
Terceira. Por puro tédio, começou a olhar a rua da janela. Dois amantes brigavam em
voz alta na calçada: só pararam quando uma morena, com lábio leporino e um
pequinês, parou, assistindo a tudo acintosamente. Havia preparativos para uma festa
na casa do outro lado da rua; observou uma mesa arrumada com amor e velas sendo
acesas. Após um tempo, a espionagem começou a deprimi-lo, e então chamou Valentin
e perguntou se havia uma televisão portátil a que pudesse assistir. Num instante foi
providenciada, e nas duas horas seguintes Harry sentou-se com o pequeno monitor
preto e branco no chão, entre as orquídeas e os lírios, vendo um entretenimento idiota
qualquer, a luminescência prateada piscando nas flores como um belo luar.
Às quinze para a meia-noite, com a festa do outro lado da rua rolando solta,
Valentin subiu.
— Quer um lanche? — perguntou.
— Aceito.
— Leite ou algo mais forte?
— Algo mais forte.
Ele trouxe uma garrafa de conhaque fino e dois copos. Juntos, brindaram ao
homem morto.
— Ao sr. Swann.
— Ao sr. Swann.
— Se precisar de mais alguma coisa — falou Valentin —estou no aposento logo
acima. A sra. Swann está no andar de baixo; portanto, se ouvir alguém andar por lá,
não se preocupe. Ela não tem dormido bem ultimamente.
—E quem tem?
Valentin deixou-o com sua vigília. Harry ouviu o homem subir a escada e, depois, o
estalar de tacos no andar superior. Voltou sua atenção para a televisão, mas perdera o
fio da meada do filme a que estava assistindo. Faltava um bom tempo até a
madrugada; enquanto isso, Nova Iorque teria uma ótima noite de sexta: danças, brigas,
brincadeiras.
A imagem na televisão começou a piscar. Levantou-se e começou a andar até o
aparelho, mas nunca chegou lá. Dera dois passos da cadeira quando a imagem piscou
e apagou-se, lançando o
aposento em total escuridão. Harry teve um breve tempo de registrar que nenhuma luz
vinda da rua passava pela janela. Então a insanidade iniciou-se.
Alguma coisa moveu-se na escuridão: formas vagas ergueram-se e caíram. Ele
levou um instante para reconhecê-las. As flores! Mãos invisíveis faziam as coroas e os
tributos em pedaços, e as jogavam no ar. Acompanhou com os olhos sua descida, mas
elas não alcançavam o chão. Era como se os tacos tivessem perdido toda a fé em si
mesmos e desaparecessem; as flores continuavam caindo — descendo, descendo —
através do assoalho para o aposento abaixo e através do piso do porão, descendo
para onde apenas Deus sabia. O medo envolveu Harry, algo como um velho traficante
prometendo uma viagem horrível. Até mesmo os poucos tacos que permaneciam sob
seus pés tornavam-se inconsistentes. Em segundos ele seguiria o caminho das flores.
Virou-se para localizar a cadeira da qual se levantara — um ponto fixo naquele
pesadelo vertiginoso. Ainda estava lá; podia discernir sua forma na semi-escuridão.
Com botões rasgados chovendo sobre ele, tentou alcançá-la, mas quando sua mão
segurou o braço da cadeira, o chão tornou-se fantasmagórico e agora, por uma luz
medonha projetada do fosso que se abria sob seus pés, Harry viu-a rolar para dentro
do inferno, girando e girando até virar um pontinho pequeno como uma cabeça de
alfinete.
Então ela sumiu; também as flores, as paredes, as janelas e tudo o mais, exceto
ele.
Não tudo. O caixão de Swann permaneceu ali, sua tampa ainda aberta, a cobertura
virada como o lençol na cama de uma criança. O cavalete sumira, da mesma forma que
o chão sob ele. Mas o caixão flutuava no escuro como uma ilusão mórbida, enquanto
um som retumbante, vindo das profundezas, acompanhava o truque como o rufar de um
tambor.
Harry sentiu a última solidez sumindo sob ele; ouviu o chamado do fosso. Seus pés
deixaram o chão, que desfez-se em nada e, por um instante aterrador, ele pendeu
sobre os Abismos, suas mãos procurando a tampa do caixão. A mão direita segurou
um dos apoios, e fechou-a agradecida em volta dele. O braço foi quase arrancado
quando sentiu o peso de seu corpo, mas jogou o outro braço para cima e encontrou a
borda do caixão. Usando-a como apoio, ergueu-se como um marinheiro meio afogado.
Era um estranho bote salva-vidas, mas, afinal, tudo parecia um estranho mar.
Infinitamente profundo, infinitamente terrível.
Enquanto se esforçava para segurar-se melhor, o caixão balançou e Harry olhou
para cima: descobriu que o morto estava se sentando. Os olhos de Swann
arregalaram-se. Ele os voltou para Harry; pareciam longe de ser benignos. No instante
seguinte, o ilusionista morto tentava ficar de pé — o caixão flutuante balançando ainda
mais violentamente a cada movimento. Uma vez na vertical, Swann continuou a agredir
seu hóspede pisando nos nós dos dedos de Harry. Ele olhou para Swann, implorandolhe
que parasse.
O Grande Fingidor era uma visão e tanto. Os olhos arregalados em seus orifícios,
a blusa rasgada mostrando o ferimento em seu peito. Sangrava profusamente. Uma
chuva de sangue frio caiu sobre o rosto erguido de Harry. E ainda assim os pés
pisavam em suas mãos. Harry sentiu que seus dedos escorregavam. Swann, vendo seu
triunfo aproximar-se, começou a sorrir.
— Caia, rapaz! — gritou. — Caia!
Harry não podia mais agüentar. Num esforço frenético para salvar-se, soltou sua
mão direita e avançou para agarrar a perna da calça de Swann. Seus dedos
encontraram a bainha e puxaram-na. o sorriso desapareceu do rosto do ilusionista
quando sentiu que perdia o equilíbrio. Tentou agarrar a tampa do caixão como apoio,
mas o gesto apenas fez com que sacudisse mais ainda. A coberta de pelúcia
cascateou pela cabeça de Harry; flores a seguiram.
Swann rosnou em sua fúria e deu um chute maldoso na mão de Harry. Foi um erro.
O caixão emborcou de vez e lançou fora o homem. Harry teve tempo de vislumbrar o
rosto estarrecido de Swann quando o ilusionista, na queda, passou por ele. Então, ele
também perdeu as forças e caiu em seguida.
O ar escuro soprou por seus ouvidos. Abaixo dele, os Abismos esticavam seus
braços vazios. E, então, além do barulho em sua cabeça, outro som: uma voz humana.
— Ele está morto? — ela perguntou.
— Não — outra voz respondeu. — Não, acho que não. Qual o nome dele,
Dorothea?
— D’Amour.
— Mr. D’Amour? Mr. D’Amour?
O baque de Harry diminuiu de algum modo. Sob ele, os Abismos rugiram de ódio.
A voz surgiu novamente, educada porém não melodiosa.
—Sr. D’Amour.
— Harry — disse Dorothea.
A essa palavra, vinda dessa voz, ele parou de cair; sentiu-se puxado para cima.
Abriu os olhos. Estava deitado num chão sólido, sua cabeça a milímetros da tela
branca de televisão. As flores estavam todas no lugar em torno do aposento, Swann
estava em seu caixão e Deus — se as crenças deviam mesmo ser respeitadas — em
seu céu.
— Estou vivo.
Tinha uma platéia e tanto para sua ressurreição. Dorothea, claro, e dois estranhos.
Um, o dono da voz que ele ouvira primeiro, de pé perto da porta. Suas feições eram
comuns, exceto pelas sobrancelhas e cílios, pálidos ao ponto da invisibilidade. Sua
acompanhante estava por perto. Compartilhava com ele dessa enervante banalidade,
sem possuir nenhuma característica que oferecesse a Harry uma pista sobre suas
naturezas.
— Ajude-o a se levantar, anjo — ordenou o homem, e a mulher inclinou-se para
obedecer-lhe. Ela era mais forte do que parecia, colocando Harry imediatamente de pé.
Ele vomitara em seu estranho sonho. Sentia-se sujo e ridículo.
— Que diabos aconteceu? — perguntou, enquanto a mulher o escoltava para a
cadeira. Sentou-se.
— Ele tentou envenená-lo — explicou o homem.
— Quem tentou?
— Valentin, é claro.
— Valentin?
— Ele se foi, simplesmente desapareceu. — Dorothea estava tremendo. — Ouvi
você chamando, vim até aqui e encontrei-o no chão. Pensei que ia se engasgar.
— Está tudo bem — disse o homem —, agora está tudo em ordem.
— Sim — completou Dorothea, obviamente segura por seu sorriso ameno. — Este
é o advogado de quem lhe falei, Harry. Sr. Butterfield.
Harry limpou a boca.
— Prazer em conhecê-lo.
— Por que não vamos todos lá para baixo? — disse Butterfield. — E posso pagar
ao Sr. D’Amour o que lhe devemos.
— Está tudo bem — respondeu —, nunca recebo meu pagamento antes do serviço
terminar.
— Mas ele está terminado — retrucou Butterfield. — Seus serviços não são mais
necessários.
Harry lançou um olhar a Dorothea. Ela removia um antúrio murcho de um arranjo
que, de resto, conservava-se saudável.
— Fui contratado para ficar com o corpo...
— Os arranjos para a remoção do corpo de Swann já foram feitos. — A cortesia
de Butterfield era a única coisa que permanecia inalterada. — Não é mesmo,
Dorothea?
— Estamos no meio da noite — protestou Harry. — Não conseguirá uma
cremação antes de amanhã, no mínimo.
— Obrigada por sua ajuda — disse Dorothea. — Mas tenho certeza de que tudo
ficará bem agora que o sr. Butterfield chegou. Tudo ficará ótimo.
Butterfield voltou-se para sua acompanhante.
— Por que não sai e encontra um táxi para o sr. D’Amour? — sugeriu.
Então, olhando para Harry:
— Não queremos o senhor andando pelas ruas, não é mesmo?
Enquanto descia a escada, e depois, no saguão, quando Butterfield o pagou, Harry
queria que Dorothea contradissesse o advogado e afirmasse que desejava sua
permanência. Mas ela nem mesmo ofereceu-lhe uma palavra de adeus quando ele saiu
da casa. Os duzentos dólares que lhe foram dados eram, é claro, uma recompensa
mais do que adequada pelas poucas horas de ociosidade que passara ali, mas ficaria
feliz em queimar todas as notas a um sinal de que Dorothea abominava a idéia deles se
separarem. Ela obviamente não abominava. Por experiências passadas, ele sabia que
seu ego levaria vinte e quatro horas para se recuperar de tamanha indiferença.
Desceu do táxi na Terceira perto da 83 e caminhou para um bar na Lexington, onde
sabia que poderia colocar meia garrafa de Bourbon entre ele e os sonhos que tivera.
Já passava de uma hora. A rua estava deserta, exceto por ele, e pelo eco que
seus passos acabavam de adquirir. Dobrou a esquina na Lexington e esperou. Alguns
segundos depois, Valentin virou na mesma esquina. Harry pegou-o pela gravata.
— Não é um nó ruim — disse, erguendo o homem acima do chão.
Valentin não fez qualquer tentativa de se libertar.
— Graças a Deus está vivo — falou ele.
— Não graças a você — revidou Harry. — O que pôs na bebida?
— Nada — insistiu Valentin. — Por que poria?
— Então como fui parar no chão? E quanto aos sonhos ruins?
— Butterfield — falou Valentin. — Seja lá o que tenha sonhado, veio com ele, creiame.
Entrei em pânico assim que o ouvi na casa, admito. Sei que deveria tê-lo avisado,
mas eu tinha certeza de que se não saísse rápido não conseguiria sair nunca.
— Está me dizendo que ele o teria matado?
—Não pessoalmente, mas me mataria, sim. — Harry parecia incrédulo.
Percorremos um longo caminho, eu e ele.
— Ele é bem-vindo para você. — Soltou-lhe a gravata. —Estou cansado demais
para me envolver com essa merda. —Virou as costas para Valentin e começou a
afastar-se.
— Espere... — disse o outro —... eu sei que não fui muito delicado com você na
casa, mas tem de compreender, as coisas vão ficar ruins. Para nós dois.
— Pensei que tivesse dito que estava tudo sob controle, além da gritaria.
— Pensei que estivesse. Pensei que tivéssemos organizado tudo. Então o sr.
Butterfield chegou e percebi como estava sendo ingênuo. Eles não vão deixar Swann
descansar em paz. Nem agora nem nunca. Temos de salvá-lo, D’Amour.
Harry parou de andar e estudou o rosto do homem. Pensou que, se encontrasse
com ele na rua, não o consideraria um lunático.
— Butterfield subiu? — perguntou Valentin.
— Sim, subiu. Por quê?
— Lembra se ele se aproximou do caixão?
Harry sacudiu a cabeça.
— Ótimo — falou Valentin. — Então as defesas estão resistindo, o que nos dá
algum tempo. Swann era um ótimo tático, sabe? Mas podia ser desleixado. Foi assim
que o pegaram. Puro desleixo. Ele sabia que estavam atrás dele. Eu lhe disse
abertamente que deveríamos cancelar as apresentações restantes e ir para casa. Pelo
menos lá ele dispunha de algum santuário.
— Acha que foi assassinado?
— Deus do céu — disse Valentin, quase em desespero por causa de Harry — é
claro que ele foi assassinado.
— Então ele está além da salvação, certo? O homem está morto.
— Morto, sim. Além da salvação, não.
— Você fala besteira para todo mundo?
Valentin pôs a mão no ombro de Harry.
— Ah, não — respondeu com sinceridade. — Não confio em mais ninguém como
confio em você.
— Isso é muito repentino — admitiu Harry. — Posso perguntar por quê?
— Porque está nisso até o pescoço, como eu — respondeu Valentin.
— Não estou não.
Valentin ignorou a negativa de Harry e continuou o que dizia. — No momento não
sabemos quantos eles são, é claro. Podem ter mandado apenas Butterfield, mas acho
improvável.
— Com quem está Butterfield? Com a Máfia?
— Quisera ter essa sorte. — Valentin pôs a mão no bolso e tirou um pedaço de
papel. — Esta é a mulher com quem Swann estava naquela noite, no teatro. E possível
que ela saiba alguma coisa da força deles.
— Havia testemunha?
— Não apareceu, mas existia sim. Veja bem, eu era o “agente dele. Ajudava-o a
arranjar seus vários adultérios, de modo que nenhum lhe causasse constrangimentos.
Veja se vai até ela... — Parou abruptamente. Em algum lugar por perto uma música era
tocada. Soava como uma banda bêbada de jazz improvisando com gaitas de foles; uma
cacofonia ofegante e divagante. O rosto de Valentin tornou-se instantaneamente um
retrato de angústia. — Que Deus nos ajude... — disse suavemente, e começou a se
afastar de Harry.
— Qual é o problema?
— Sabe rezar? — Valentin perguntou-lhe enquanto recuava pela rua 83. O volume
da música estava aumentando a cada intervalo.
— Não rezo há vinte anos — replicou Harry.
— Então aprenda — veio à resposta, e Valentin virou-se para correr.
Ao fazê-lo, uma ondulação de escuridão moveu-se pela calçada ao norte,
obscurecendo o brilho das tabuletas dos bares e lâmpadas de rua à medida que se
aproximava. Anúncios em neon repentinamente piscaram e morreram; houve protestos
das janelas superiores quando as luzes falharam e, como que encorajada pelas
maldições, a música assumiu um ritmo ágil e ainda mais agitado. Acima de sua cabeça,
Harry ouviu um som lamuriento e, olhando para o alto, viu contra as nuvens uma silhueta
desigual que arrastava gavinhas como uma belonave enquanto descia na rua, deixando
o fedor de peixe podre em sua esteira. Seu alvo era obviamente Valentin. Ele gritou
mais do que o lamento, a música e o pânico do blecaute, mas logo ouviu o berro de
Valentin vindo da escuridão; um brado de revolta, rudemente interrompido.
Permaneceu nas trevas, seus pés sem a menor vontade de levá-lo um passo mais
próximo do local de onde partira o grito. O odor ainda assaltava suas narinas; sentindoo,
sua náusea retornou. E, então, as luzes o mesmo fizeram; uma onda de força
acionou as lâmpadas e as tabuletas dos bares quando a energia retornou pela rua. Ela
alcançou Harry e moveu-se para o local onde ele vira Valentin pela última vez. Estava
deserto; na verdade, a calçada esvaziara-se até a encruzilhada seguinte. O jazz
ensandecido havia parado.
Com os olhos procurando pelo homem, pela fera ou os restos de ambos, Harry
vagou pela calçada. A cerca de dezoito metros, o concreto estava molhado. Não de
sangue, ficou contente ao ver; o fluido tinha cor de bile e fedia terrivelmente. Entre as
poças, vários pedaços do que poderia ter sido tecido humano. Valentin evidentemente
lutara e tivera sucesso em abrir um ferimento em seu atacante. Havia traços de sangue
mais adiante na calçada, como se a coisa ferida tivesse se arrastado por algum tempo
antes de voltar a voar. Presumivelmente com Valentin. Diante de tal força, Harry sabia
que seus esquálidos poderes de nada lhe teriam servido, mas considerava-se culpado
assim mesmo. Ele ouvira o grito — vira o agressor investir — e ainda assim o pânico
grudara as solas de seus pés no chão.
A última vez em que sentira um medo semelhante àquele fora na rua Wyckoff,
quando o amante-demônio de Mimi Lomax finalmente desfizera-se de seu fingimento de
humanidade. O aposento tinha sido invadido pelo fedor de éter e sujeira humana: o.
demônio estava lá de pé, em sua apavorante nudez e mostrara-lhe cenas que fizeram
sua bexiga verter água. Essas cenas agora estavam com ele. Estariam com ele para
sempre.
Olhou para o pedaço de papel que Valentin lhe dera: o nome e o endereço,
rabiscados com pressa, eram quase indecifráveis.
Um homem inteligente, Harry ponderou, amassaria esta nota e a jogaria na sarjeta.
Mas se os acontecimentos na rua Wyckoff ensinaram-lhe algo, era de que, uma vez
tocado por malignidade como ele vira e sonhara nas últimas horas, não haveria como
se livrar fortuitamente disso. Ele tinha de seguir até sua fonte, não importa o quanto
esse pensamento lhe fosse repugnante, e fazer com ela todas as barganhas que a
força de seu jogo lhe permitisse.
Não existia uma hora adequada para lidar com assuntos como este: o momento
presente serviria muito bem. Caminhou de volta para Lexíngton e pegou um táxi em
direção ao endereço no papel. Não obteve resposta da campainha com o nome
Bernstein, mas despertou o porteiro e envolveu-se num debate frustrante através da
porta de vidro. O homem estava furioso por ter sido acordado àquela hora; a srta.
Bernstein não estava em seu apartamento, insistiu ele, e permaneceu impassível
mesmo quando Harry intimidou-o com o fato de tratar-se de uma questão de vida e
morte. Somente quando ele abriu a carteira é que o sujeito mostrou uma certa sombra
de interesse. Finalmente, deixou Harry entrar.
— Ela não está lá em cima — disse ele, guardando as notas. — Não está lá há
dias.
Harry pegou o elevador: suas canelas estavam doendo, bem como suas costas.
Queria dormir; um Bourbon e depois dormir. Não houve resposta no apartamento,
como previra o porteiro, mas ele continuou tocando e chamando-a.
— Srta. Bernstein? Está em casa?
Nenhum sinal de vida vindo lá de dentro; ao menos até ele anunciar: — Quero falar
de Swann.
Ele ouviu um som ofegante próximo à porta.
— Tem alguém aí? Por favor, responda. Não tem nada a temer.
Após vários segundos, uma voz indistinta e melancólica murmurou:
— Swann está morto.
Ao menos ela não estava, pensou Harry. Fossem quais fossem as forças que
tivessem levado Valentin, ainda não haviam alcançado aquele canto de Manhattan.
— Posso falar com você?
— Não. — Sua voz era uma chama de vela quase morrendo.
— Só umas perguntas, Barbara.
— Estou na barriga do tigre — veio à resposta lenta — e ele não quer que eu o
deixe entrar.
Talvez elas tivessem chegado antes dele.
— Não pode alcançar a porta? — insistiu. — Ela não está muito longe...
— Mas ele me comeu — disse ela.
— Tente, Barbara. O tigre não vai se importar. Alcance.
Fez-se silêncio do outro lado da porta, depois um som arrastado. Ela estava
fazendo o que lhe pedira? Parecia que sim. Ouviu seus dedos lutando com a fechadura.
— Isso mesmo — encorajou-a. — Pode virá-la? Tente virá-la.
No último instante, pensou: suponha que esteja dizendo a verdade e haja um tigre
com ela. Era tarde demais para recuar: a porta se abriu. Não havia sinal de animal no
saguão. Só uma mulher, e o cheiro de sujeira. Obviamente não se lavara nem mudara
de roupa desde que fugira do teatro. O vestido de noite que usava estava manchado e
rasgado, sua pele cinzenta de tão encardida. Ele entrou no apartamento. Ela moveu-se
pelo saguão, afastando-se dele, desesperada em evitar seu toque.
— Está tudo bem — tranqüilizou-a —, não há nenhum tigre aqui.
Os olhos arregalados da mulher estavam quase vazios; a presença que vagava por
lá perdera a sanidade.
— Ah, mas há sim — ela falou. — Estou no tigre. Estou dentro dele para sempre.
Como ele não tinha nem tempo nem a capacidade necessária para dissuadi-la
daquela loucura, decidiu que era mais sábio continuar com a farsa.
— Como chegou aí? — perguntou-lhe. — Dentro do tigre? Quando estava com
Swann?
Ela assentiu.
— Lembra-se disso, não?
— Ah, sim.
— Do que se lembra?
— Havia uma espada; ela caiu. Ele estava pegando... — Parou e franziu as
sobrancelhas.
— Pegando o quê?
Ela parecia repentinamente mais distraída do que nunca. — Como pode me ouvir,
se estou dentro do tigre? Você também está dentro do tigre?
— Talvez esteja — disse ele, não querendo analisar demais a metáfora.
— Estamos aqui para sempre, sabe? Nunca nos deixarão sair.
— Quem lhe disse isso?
Ela não respondeu, mas inclinou um pouco a cabeça.
— Consegue ouvir? — ela indagou.
— Ouvir?
Ela recuou mais outro passo no saguão. Harry tentou, mas nada escutou. Contudo,
a agitação crescente no rosto de Barbara era suficiente para fazê-lo voltar à porta da
frente e abri-la. O elevador estava funcionando. Ele podia ouvir seu zumbido suave pelo
patamar. Pior: as luzes no hall e nas escadas deterioravam-se; as lâmpadas perdiam
força a cada centímetro que o elevador subia.
Voltou ao apartamento e pegou o pulso de Barbara. Ela não fez nenhum
protesto. Os olhos estavam fixos na porta através da qual parecia saber que passaria
seu julgamento.
— Vamos pela escada. Ele levou-a para o patamar. As luzes estavam a um
suspiro de apagar. Olhou para o número de andares que havia acima das portas dos
elevadores. Aquele era o último ou o penúltimo? Não conseguia lembrar-se e não houve
tempo de pensar em mais nada antes que as luzes apagassem de vez.
Tropeçou pelo território desconhecido da plataforma com a garota a tiracolo,
rezando a Deus para que encontrasse a escada antes do elevador chegar àquele
andar. Barbara queria ir devagar, mas ele a forçou a apressar o passo. Quando seu pé
encontrou o topo da escada, o elevador acabou de subir.
As portas se abriram e uma fluorescência fria inundou o patamar. Ele não podia
ver a fonte, nem queria vê-la, mas seu efeito foi revelar a olho nu cada mancha e
imperfeição, cada sinal de decadência e apodrecimento que a pintura tentara camuflar.
O cenário roubou a atenção de Harry por apenas um instante; então, pegou na mão da
mulher com mais firmeza e começaram a descer. Mas Barbara não estava interessada
em fugir e sim nos movimentos no patamar. Preocupada, ela tropeçou e tombou
pesada contra Harry. Os dois teriam fatalmente caído, mas ele segurou-se no
corrimão. Furioso, virou-se para ela. Estavam fora da visão do patamar, mas a luz
infiltrava-se pela escada e banhava o rosto de Barbara. Sob um impiedoso escrutínio,
Harry viu a degradação apossar-se dela: a podridão em seus dentes, e a morte em sua
pele, cabelos e unhas. Sem dúvida alguma ele pareceria igual, se ela o fitasse, mas
Barbara olhava por sobre seus ombros, subindo a escada. A fonte de luz movia-se.
Vozes a acompanhavam.
— A porta está aberta — uma mulher falou.
— O que está esperando? — replicou uma voz. Era Butterfield.
Harry prendeu a respiração e o pulso quando a fonte de luz movimentou-se outra
vez, presumivelmente em direção à porta; foi, então, parcialmente eclipsada quando
desapareceu dentro do apartamento.
— Temos de ser rápidos — disse a Barbara. Foi com ele por três ou quatro
degraus e, então, sem aviso, seus dedos voaram-lhe no rosto, unhas arranhando sua
bochecha. Ele largou a mão dela para se proteger, e nesse instante ela se afastou —
voltando pela escada.
Soltou um palavrão e seguiu-a, cambaleante, mas sua morosidade anterior se fora;
estava agora surpreendentemente ágil. Pelas nesgas de luz que escapavam do
patamar, ele a viu alcançar o topo da escada e desaparecer de sua linha de visão.
— Aqui estou — ela chamou enquanto prosseguia.
Harry permaneceu imóvel na escada, incapaz de resolver se ia ou ficava, e,
portanto, incapaz de se mover. Odiava escadas desde a rua Wyckoff. A luz acima
piscou momentaneamente, lançando as sombras dos corrimões sobre ele; depois,
morreu novamente. Pôs a mão no rosto. Ela arranhara a pele, mas havia pouco
sangue. O que poderia esperar dela se fosse em seu encalço? Apenas mais do que já
recebera. Era uma causa perdida.
Enquanto se desesperava por ela, ouviu um ruído vindo da curva do alto da escada;
um som suave que poderia ser um passo ou um suspiro. Ela escapara da presença
deles, afinal? Ou talvez nem tivesse chegado à porta do apartamento, pensara melhor
e dera meia-volta. Enquanto pesava os prós e contras, ouviu-a dizer:
— Ajude-me... — A voz era um fantasma de um fantasma; mas era
indiscutivelmente dela, e estava aterrorizada. Pegou seu revólver e recomeçou a subir a
escada. Antes mesmo de ter virado a esquina, sentiu sua nuca coçar quando os pêlos
se eriçaram.
Ela estava lá. Mas o tigre também. No patamar, a uns trinta centímetros de Harry,
seu corpo altivo com força latente. Os olhos eram líquidos; sua mandíbula aberta
indescritivelmente grande. E ali, já em sua enorme garganta, Barbara. Ele encontrou
seus olhos fora da boca do tigre e viu um lampejo de sanidade neles, pior do que
qualquer loucura. Então a fera balançou a cabeça para trás e para frente a fim de
ajustar a presa em seu bucho. Ela, aparentemente, fora engolida inteira. Não havia
sangue no patamar, nem no focinho do tigre; apenas a visão aterradora do rosto da
garota desaparecendo pelo túnel da garganta do animal.
Ela soltou um grito final na barriga da coisa, e quando o animal ergueu-se, pareceu
a Harry que ele tentava dar um sorriso. O rosto enrugou-se grotescamente para cima,
os olhos estreitando-se como os de um Buda risonho, os lábios afastando-se para
expor uma fileira de dentes brilhantes. Depois dessa exibição, o grito foi finalmente
aquietado. Nesse instante, o tigre saltou.
Harry atirou no corpanzil devorador e quando o tiro encontrou-se com sua carne, o
olhar malicioso, o focinho e toda a sua massa listrada desfizeram-se em um segundo.
De repente ele desapareceu, e à sua volta apenas uma garoa de confetes em tons
pastéis caía em espirais. O tiro chamou atenção. Em um ou dois apartamentos
ergueram-se vozes e a luz que acompanhara Butterfield no elevador iluminava através
da porta aberta da residência de Bernstein. Harry estava quase tentado a ficar para ver
quem trazia a luz, mas a discrição levou a melhor sobre sua curiosidade; virou-se e
desceu a escada de dois em dois e depois de três em três degraus. Os confetes
rolaram atrás dele, como se tivessem vida própria. A vida de Barbara, talvez:
transformada em pedaços de papel e jogada fora.
Chegou ao saguão sem fôlego. O porteiro estava lá, fitando a escada com olhar
vago.—
Alguém foi ferido? — perguntou.
— Não — disse Harry. — Comido.
Enquanto seguia para a porta, ouviu o elevador começar a zumbir sua descida.
Talvez fosse apenas um morador, descendo para uma caminhada antes da alvorada.
Talvez não.
Deixou o porteiro onde o encontrara, carrancudo e confuso, e fugiu pelas ruas,
colocando dois quarteirões de distância entre ele e o prédio de apartamentos antes de
parar de correr. Eles não se esforçaram em vir em seu encalço. Era mais provável que
estivesse além da preocupação deles.
O que deveria fazer agora? Valentin estava morto, assim como Barbara Bernstein.
Ele não sabia mais agora do que sabia no início, exceto que aprendera novamente uma
lição que lhe fora ensinada na rua Wyckoff: que quando se lida com os Abismos, é mais
sábio nunca acreditar em seus olhos. No momento em que se confia nos sentidos, em
que se crê que um tigre é um tigre, você já é metade dele.
Não era uma lição complicada, mas parecia que a esquecera, e, como um tolo,
fora preciso duas mortes para lembrá-lo. Talvez fosse mais simples ter a regra tatuada
nas costas de sua mão; desse modo, não poderia deixar de verificar as horas sem ser
advertido: Nunca acredite em seus olhos.
O princípio ainda estava fresco em sua mente enquanto voltava a seu apartamento.
Um vulto saiu de uma porta e disse:
— Harry.
Parecia Valentin; um Valentin ferido, desmembrado e recosturado por um grupo de
cirurgiões cegos, mas em essência o mesmo homem. Mas, até aí, o tigre parecera um
tigre, não?
— Sou eu.
— Ah, não — falou Harry. — Não desta vez.
— Do que está falando? Sou Valentin.
— Então prove.
O outro homem parecia intrigado.
— Não é hora para brincadeiras, estamos numa situação desesperadora.
Harry pegou sua arma no bolso e apontou-a para o peito de Valentin. — Prove ou
atiro em você.
— Você enlouqueceu?
— Eu o vi ser feito em pedaços.
— Não exatamente — retrucou Valentin. Seu braço esquerdo estava envolto em
bandagens improvisadas das pontas dos dedos até a metade do bíceps. — Foi um
ataque rápido... mas tudo tem seu tendão de Aquiles. É só uma questão de encontrar o
ponto certo.
Harry encarou o homem. Queria acreditar que fosse realmente Valentin, mas era
incrível demais para crer que a massa frágil diante dele pudesse ter sobrevivido à
monstruosidade que vira na rua 83. Não, aquilo era outra ilusão. Como o tigre: papel e
má-fé.
O homem interrompeu a linha de pensamento de Harry:
— Seu bife...
— Meu bife?
— Gosta dele quase queimado. Eu protestei, lembra-se?
Harry lembrava-se.
— Prossiga.
— E você disse que odiava ver sangue. Mesmo que não fosse o seu próprio.
— Sim. — As dúvidas de Harry diminuíam. — É isso mesmo.
— Pediu-me para provar que sou Valentin. É o melhor que posso fazer. — Harry
estava quase convencido. — Pelo amor de Deus, temos que discutir isso parados na
rua?
— É melhor entrar.
O apartamento era pequeno, mas agora parecia mais sufocante do que nunca.
Valentin sentou-se com uma boa visão da porta. Recusou qualquer bebida ou primeirossocorros.
Harry
serviu-se de Bourbon. Estava no terceiro copo quando Valentin finalmente avisou:
— Temos de voltar à casa, Harry.
— O quê?
— Temos de resgatar o corpo de Swann antes de Butterfield.
— Eu já fiz o melhor que podia. Não é mais da minha conta.
— Então deixará Swann para o Fosso? — perguntou Valentin.
— Ela não se importa, por que eu deveria?
— Fala de Dorothea? Ela não sabe com o que Swann estava envolvido. Por isso é
tão confiante. Talvez suspeite, mas, até onde é possível não se ter culpa em tudo isto,
ela não a tem. — Fez uma pausa para ajustar a posição de seu braço ferido. — Ela era
uma prostituta, sabia? Não creio que tenha lhe contado. Uma vez Swann confessou-me
que casara com ela apenas porque as prostitutas sabem o valor do amor.
Harry deixou passar este aparente paradoxo.
— Por que ela ficou com ele? Ele não era exatamente fiel, era?
— Ela o amava — respondeu Valentin. — Não é nenhum absurdo.
— E você?
— Ah, eu também o amava, apesar de suas idiotices. Por isso temos de ajudá-lo.
Se Butterfield e seus cúmplices puserem a mão nos restos mortais de Swann, vamos
passar o diabo.
— Eu sei. Tive uma idéia na casa de Bernstein.
—O que viu?
— Alguma coisa e nada — disse Harry. — Um tigre, pensei; só que não era.
— A velha parafernália — comentou Valentin.
— E havia mais alguma coisa com Butterfield. Alguma coisa que espalhava luz: não
vi o que era.
— O Castrato — murmurou Valentin para si, claramente desconcertado. —
Devemos ter cuidado.
Levantou-se, o movimento fazendo-o estremecer.
— Acho que temos de ir logo, Harry.
— Está me pagando para isso? Ou estou fazendo isso tudo por amor?
— Está fazendo isso por causa do que aconteceu na rua Wyckoff — veio a
resposta suave. — Porque perdeu a pobre Mimi Lomax para os Abismos e não quer
perder Swann. Quero dizer, se já não o perdeu.
Pegaram um táxi na avenida Madison e voltaram para a rua 61, mantendo silêncio
enquanto seguiam. Harry tinha meia centena de perguntas a fazer a Valentin. Quem era
Butterfield e qual fora o crime de Swann que fazia com que fosse perseguido até a
morte e além dela? Tantos mistérios. Mas Valentin parecia doente e incapaz de
responder a perguntas. Além disso, Harry sentia que, quanto mais soubesse, menos
entusiasmado ficaria quanto à jornada que fariam agora.
— Talvez tenhamos uma vantagem... — disse Valentin quando se aproximaram da
rua 61. — Eles não devem estar esperando por este ataque frontal. Butterfield acha
que morri e que provavelmente você esconde sua cabeça num terror mortal.
— Estou trabalhando nisso.
— Você não se encontra em perigo — respondeu Valentin — pelo menos do jeito
em que Swann está. Se eles fossem rasgar você membro a membro, não seria nada
comparado aos tormentos que planejam para o mago.
— Ilusionista — corrigiu Harry, mas Valentin balançou a cabeça.
— Ele era mago, e sempre será.
O motorista interrompeu-os antes que Harry pudesse citar Dorothea nessa
questão.
— Que número vocês querem?
— Pode nos deixar aqui à direita — instruiu Valentin. — E espere por nós, sim?
— Claro.
Valentin virou-se para Harry.
— Dê cinqüenta dólares ao homem.
— Cinqüenta?
— Quer que ele espere ou não?
Harry pôs cinco notas de dez na mão do motorista.
— É melhor manter o motor ligado — disse ele.
— Tudo o que quiserem — o motorista sorriu.
Harry juntou-se a Valentin na calçada e caminharam os sessenta metros que os
separavam da casa. A rua ainda estava barulhenta apesar da hora: a festa que Harry
vira sendo preparada à meia-noite atingia o auge. Não havia, porém, qualquer sinal de
vida na casa de Swann.
Talvez eles não estejam esperando por nós, pensou Harry. Este ataque de loucura
certamente era uma das mais absurdas táticas imagináveis, e como tal deveria pegar o
inimigo de guarda baixa. Mas será que essas forças alguma vez estiveram de guarda
baixa? Haveria um minuto sequer, em suas vidas maníacas, em que suas pálpebras
caíssem e o sono os anestesiasse por algum tempo? Não. Pela experiência de Harry,
apenas o bem precisava de sono; a iniqüidade e seus praticantes estavam acordados,
ávidos, em todos os momentos, planejando novos crimes.
— Como vamos entrar? — perguntou diante da casa.
— Tenho a chave — Valentin respondeu, e foi até a porta.
Não havia mais como recuar. A chave foi virada, a porta aberta e eles saíram da
relativa segurança da rua. Dentro, a casa parecia tão escura quanto fora. Não se ouvia
som de presença humana em nenhum dos andares. Era possível que as defesas que
Swann pusera em volta do corpo tivessem realmente afastado Butterfield, e que ele e
seu grupo houvessem recuado. Valentin dirimiu esse otimismo mal articulado quase que
imediatamente, pegando no braço de Harry e chegando mais perto para sussurrar:
— Eles estão aqui.
Não era hora de indagar a Valentin como ele sabia disso, mas Harry fez um registro
mental de perguntar-lhe quando, ou melhor se, eles sairiam da casa com suas línguas
ainda dentro das cabeças.
Valentin já estava na escada. Harry — seus olhos ainda se acostumando à luz
residual que se infiltrava da rua — atravessou o saguão depois dele. O outro andava
confiante na penumbra e Harry sentia-se feliz por isso. Sem Valentin puxando-lhe a
manga e o guiando pela semiplataforma, ele poderia ter tropeçado em si mesmo.
Apesar do que Valentin dissera, havia tanto som ou sinal de ocupação no andar de
cima quanto no andar de baixo, mas conforme avançavam em direção ao quarto
principal — onde Swann presumivelmente estava — um dente cariado na arcada
inferior de Harry, ultimamente tranqüilo, começou a latejar e seus intestinos doíam,
pedindo alívio. A ansiedade era aflitiva. Sentiu um impulso quase irreprimível de gritar e
de obrigar o inimigo à mostrar seu jogo, se é que ele realmente tinha um jogo a ser
mostrado.
Valentin chegara à porta. Virou a cabeça na direção de Harry e mesmo na
escuridão era visível que o medo também cobrava um preço sobre ele. Sua pele
brilhava; fedia a suor fresco.
Ele apontou para a porta. Harry assentiu. Estava tão pronto quanto jamais
imaginara. Valentin alcançou a maçaneta. O som da tranca pareceu
ensurdecedoramente alto, mas não trouxe nenhuma resposta de qualquer lugar da
casa. A porta abriu-se e o odor intoxicante de flores os saudou. Tinham começado a
apodrecer no calor forçado da casa; havia um ranço sob o perfume. Mais bem-vindo
que o odor foi à luz. As cortinas no aposento não foram totalmente fechadas e a
claridade vinda da rua descrevia o interior: as flores aglomeravam-se como nuvens em
volta do caixão; a cadeira onde Harry se sentara, a garrafa de Calvados ao lado; o
espelho acima da lareira mostrando ao aposento seu lado secreto.
Valentin já movia-se na direção do caixão e Harry ouviu-o suspirar quando seus
olhos encontraram o antigo mestre. Não demorou-se muito: ergueu imediatamente a
tampa. Ela, porém, desafiava seu único braço são e Harry foi ajudá-lo, ansioso para
acabar logo com o trabalho e ir embora. Tocar a madeira sólida do caixão trouxe seu
pesadelo de volta com força arrasadora: o Fosso abrindo-se sob ele, o ilusionista
erguendo-se de sua cama como alguém que fora despertado contra a vontade. Mas
agora não havia nenhum espetáculo como esse. Na verdade, um pouco de vida no
cadáver poderia ter facilitado o trabalho. Swann era um homem grande e seu corpo
sem energia não cooperava em nada. O simples ato de ergue-lo do caixão roubou-lhes
todo o fôlego e atenção. Ele finalmente veio, ainda que relutante, seus longos membros
batendo em volta.
—Agora... — disse Valentin —.. .para baixo.
Quando se encaminhavam para a porta, alguma coisa na rua acendeu-se, ou assim
parecia, pois o interior foi repentinamente iluminado. A luz não foi gentil para seu fardo.
Revelou a crueza dos cosméticos aplicados nos rosto de Swann, e o germinar de
putrescência sob eles.
Harry teve apenas um instante para apreciar esses detalhes; então, a luz brilhou
novamente e percebeu que ela não estava do lado de fora, mas do lado de dentro.
Olhou para Valentin e quase desesperou-se. A luminescência era ainda menos
caridosa com o servo do que com o mestre; parecia remover a carne do rosto de
Valentin. Harry teve apenas um vislumbre do que era revelado — acontecimentos
roubaram-lhe a atenção um segundo depois — mas viu o bastante para concluir que se
Valentin não fosse seu cúmplice nesta aventura, certamente fugiria dele.
— Tire-o daqui! — gritou Valentin.
Soltou as pernas de Swann, deixando Harry cuidar sozinho dele. O corpo, contudo,
mostrou-se recalcitrante. Harry tinha apenas dado dois passos em direção à saída
quando as coisas tenderam ao cataclismo.
Ouviu Valentin soltar uma imprecação, olhou para cima e viu que o espelho desistira
de fingir reflexos: alguma coisa movia-se de suas profundezas líquidas, trazendo
consigo a luz.
— O que é isso? — suspirou Harry.
— O Castrato — veio à resposta. — Quer ir embora?
Não houve tempo, porém, de obedecer à instrução em pânico de Valentin antes da
coisa oculta partir a superfície do espelho e invadir o aposento. Harry estava errado.
Ela não carregava a luz: ela era a luz. Ou melhor, algum holocausto ardia em seus
intestinos, cujo brilho escapava pelo corpo da criatura por toda e qualquer rota que
encontrasse. Algum dia, ela fora humana; um homem enorme com a barriga e os peitos
de uma Vênus neolítica. Mas o fogo em seu corpo espalhara-se, vagando por suas
palmas e seu umbigo, queimando sua boca e narinas num único buraco rasgado.
Tivera, como seu nome indicava, o sexo arrancado; e também desse buraco a luz
cuspia. Com isso, a decadência das flores deu-se em segundos. Secaram e morreram.
Em instantes o aposento ficou cheio de fedor de matéria vegetal apodrecendo.
Harry ouviu Valentin chamar seu nome uma e outra vez. Só então lembrou-se do
corpo em seus braços. Desviou os olhos do viscoso Castrato e carregou Swann dando
mais um passo. A porta estava às suas costas, e aberta. Arrastou seu fardo para o
patamar enquanto o Castrato chutava o caixão. Ouviu o tumulto e, então, os gritos de
Valentin. Seguiu-se outra terrível agitação e a voz aguda do Castrato, falando através
daquele buraco em seu rosto.
— Morra e seja feliz — disse ele, e uma saraivada de mobília voou contra a parede
com tal força que as cadeiras ficaram presas no gesso. Contudo, Valentin escapara ao
ataque, ou assim parecia, pois um instante depois Harry ouviu o Castrato guinchar. Era
um som de arrepiar, deplorável e revoltante. Ele teria tapado os ouvidos, mas tinha as
mãos ocupadas.
Já quase alcançara o topo da escada. Puxando Swann por mais alguns passos,
baixou o corpo. A luz do Castrato não diminuíra, apesar de seus reclamos; ainda
piscava na parede do quarto como uma tempestade de verão. Pela terceira vez
naquela noite — uma vez na rua 83, e novamente na escada do apartamento da srta.
Bernstein — Harry hesitou. Se voltasse para ajudar Valentin, talvez tivesse visões ainda
piores do que as da rua Wyckoff. Mas não poderia haver recuos desta vez. Sem
Valentin estava perdido. Voltou correndo pelo patamar e abriu a porta. O ar estava
denso; as lâmpadas balançavam. No meio do aposento pendia o Castrato, ainda
desafiando a gravidade. Segurava Valentin pelos cabelos. A outra mão estava
posicionada com os dedos indicador e médio esticados como chifres gêmeos e prontos
para furar os olhos de seu prisioneiro.
Harry tirou seu revólver do bolso, mirou e disparou. Sempre fora horrível quando
tinha mais de um instante para mirar, mas in extremis, quando o instinto governava o
pensamento racional, não era assim tão ruim. E esta era uma dessas ocasiões. A bala
encontrou o pescoço do Castrato e abriu outra ferida. Talvez mais por surpresa do que
pela dor, soltou Valentin. Havia um vazamento de luz do buraco em seu pescoço e ele
pôs a mão no local.
Valentin pôs-se rapidamente de pé.
— De novo — disse para Harry. — Atire de novo!
Harry obedeceu. A segunda bala furou o peito da criatura; a terceira, a barriga.
Este último ferimento pareceu particularmente traumático; a carne distendida, propícia
para explodir, partiu-se, e o fio de luz que fluía do ferimento rapidamente transformouse
numa torrente quando o abdômen rasgou.
Novamente o Castrato rugiu, desta vez em pânico, e perdeu todo o controle sobre
seu vôo. Girou como um balão furado para o teto, suas mãos gordas tentando
desesperadamente controlar o motim em sua substância. Mas ele alcançara uma
massa crítica; feito o estrago não havia como desfazê-lo. Nacos de sua pele
começaram a soltar-se.
Valentin, surpreso ou fascinado demais, permaneceu fitando a desintegração,
enquanto chuvas de carne cozida caíam à sua volta. Harry puxou-o em direção à porta.
O Castrato finalmente fazia jus ao nome, soltando uma desolada nota de perfurar
os tímpanos. Harry não esperou para observar seu falecimento; fechou a porta do
quarto quando a voz alcançava um tom absurdo e as janelas despedaçavam-se.
Valentin sorria.
— Sabe o que fizemos? — perguntou ele.
— Deixa pra lá. Vamos dar o fora daqui, porra.
A visão do cadáver de Swann no topo da escada pareceu abrandar Valentin.
Harry instruiu-o para ajudá-lo e ele o fez tão eficientemente quanto sua condição atônita
o permitia. Juntos começaram a escoltar o ilusionista escada abaixo. Ao chegarem à
porta da frente, ouviu-se um grito final vindo de cima, quando o Castrato desfez-se em
pedaços nas fendas. Depois, o silêncio.
A agitação não passara despercebida. Foliões surgiram da casa em frente, uma
multidão de pedestres noturnos formou-se na calçada. “Que festa”, comentou um deles
quando o trio emergiu. Harry esperava que o táxi tivesse desertado deles, mas não
contara com a curiosidade do taxista. O homem estava fora do veículo fitando a janela
do primeiro andar.
—Ele precisa de um hospital? — perguntou quando jogaram Swann na parte de
trás do carro.
— Não — respondeu Harry. — Melhor do que está, impossível.
— Quer dirigir? — falou Valentin.
— Claro. Só me diga para onde.
— Qualquer lugar — veio à resposta cansada. — Mas dê o fora daqui logo.
— Espere um minuto — avisou o motorista —, não quero me meter em encrenca.
— Então é melhor andar — ordenou Valentin.
O motorista fitou o olhar de seu passageiro. O que quer que tenha visto lá, suas
palavras seguintes foram:
— Estou dirigindo — e partiram pela 61 leste como o proverbial morcego saído do
inferno.
— Conseguimos, Harry — disse Valentin quando já rodavam há alguns minutos. —
Nós o pegamos de volta.
— E essa coisa? Fale-me dela.
— O Castrato? O que há a ser dito? Butterfield deve tê-lo deixado como cão de
guarda até que pudesse trazer um técnico para decodificar os mecanismos de defesa
de Swann. Tivemos sorte. Ele precisava de uma ordenha. Isso os torna instáveis.
— Como sabe tanto sobre tudo isso?
— E uma longa história — suspirou Valentin. — Não para um passeio de táxi.
— E agora? Não podemos andar em círculos a noite toda.
Valentin fitou o corpo sentado entre eles, vítima de cada capricho da suspensão do
carro e da perícia de quem consertava as ruas. Gentilmente, pôs as mãos de Swann
no colo dele.
— Você está certo, é claro — admitiu. — Temos de tomar providências para a
cremação, o mais rápido possível.
O táxi quicou sobre uma cratera. O rosto de Valentin fechou-se.
— Está com dor? — preocupou-se Harry.
— Já estive pior.
— Podíamos ir para meu apartamento e descansar lá.
Valentin balançou a cabeça.
— Não é muito inteligente. É o primeiro lugar que vão procurar.
— Meu escritório, então...
— O segundo lugar.
— Ora, Jesus, este táxi vai acabar ficando sem gasolina.
Neste ponto o motorista interferiu.
— Digam-me, vocês mencionaram cremação?
— Talvez — replicou Valentin.
— É que meu cunhado tem uma funerária no Queens.
— E mesmo? — animou-se Harry.
— Preços bastante razoáveis. Posso recomendá-lo. Sério.
— Poderia contactá-lo agora? — perguntou Valentin.
— São duas da manhã.
— Estamos com pressa.
O motorista ajustou o espelho; olhava para Swann. — Não se importam se eu
perguntar, mas o que vocês têm um “presunto”?
— É sim — falou Harry. — E ele está ficando impaciente.
O motorista soltou um brado.
— Merda! Já tive uma mulher parindo gêmeos nesse assento; putas trabalhando;
até um jacaré, uma vez. Mas esta ganha de todas! — Ponderou por um instante:—
Vocês o mataram, não é?
— Não — respondeu Harry.
— Acho que estaríamos seguindo para o rio Leste se tivessem, hein?
— Exatamente. Queremos apenas uma cremação decente. E rápido.
— E compreensível.
— Qual é o seu nome? — perguntou-lhe Harry.
— Winston Jowitt. Mas todo mundo me chama de Byron. Sou um poeta, sabe? Ao
menos nos finais de semana.
— Byron.
— Veja bem, qualquer outro motorista ficaria apavorado, certo? Encontrar dois
caras com um corpo no assento traseiro. Mas do modo como vejo, é tudo material.
— Para os poemas.
— Exato — confirmou Byron. — A Musa é uma amante caprichosa. É preciso
pegá-la onde quer que ela apareça, sabe? Falando nisso, os senhores têm alguma
idéia de onde gostariam de ir?
— Que seja para seu escritório. — Valentin virou-se para Harry. — E de lá ele
pode ligar para o cunhado.
— Ótimo — falou Harry. Então, para Byron: — Siga para oeste pela rua 45 para a
8.
— É pra já — disse Byron, e a velocidade do táxi dobrou no espaço de vinte
metros. — Gostariam de um poema?
— Agora? — Harry espantou-se.
— Gosto de improvisar — replicou Byron. — Escolha um assunto. Qualquer
assunto.
Valentin apertou mais seu braço ferido. Calmamente, sugeriu:
— Que tal o fim do mundo?
— Ótimo tema — respondeu o poeta. — Dêem-me um minuto ou dois.
— Tão rápido? — perguntou Valentin.
Pegaram uma rota tortuosa para o escritório, enquanto Byron Jowitt tentava uma
seleção de rimas para Apocalipse. Na rua 45, os sonâmbulos procuravam uma ou outra
viagem; alguns sentavam-se nas portas, um deles estava jogado na calçada. Nenhum
deu ao táxi ou a seus ocupantes mais do que uma olhadela. Harry destrancou a porta
da frente e ele e Byron carregaram Swann para o terceiro andar.
O escritório era o lar fora de casa: entulhado e caótico. Puseram Swann na cadeira
giratória atrás das xícaras de café sujas e os pedidos de pensão alimentícia
amontoados na mesa. O morto, de longe, parecia o mais saudável do quarteto. Byron
suava como um porco após a subida; Harry sentia-se — e certamente assim o parecia
— como se não tivesse dormido por sessenta dias; Valentin sentou-se estirado na
cadeira dos clientes, tão sugado de vitalidade que parecia estar à beira da morte.
— Você está horrível — disse Harry.
— Não importa. Tudo acabará logo.
Harry virou-se para Byron.
— Que tal ligar para seu cunhado?
Enquanto Byron fazia isso, Harry retornou sua atenção para Valentin.
— Tenho uma caixa de primeiros-socorros em algum lugar aqui. Posso cuidar
desse braço?
— Obrigado, mas não. Como você, odeio ver sangue. Principalmente o meu.
Byron, ao telefone, passava um sermão no cunhado por sua ingratidão.
— Qual é o drama? Tenho um cliente para você! Pelo amor de Deus, eu sei que
horas são, mas negócio é negocio...
— Diga-lhe que pagaremos o dobro de seu preço normal — avisou Valentin.
— Ouviu isso, Mel? O dobro de seu preço normal. Então venha até aqui, sim? —
Passou o endereço para seu cunhado e baixou o fone. — Ele está vindo — anunciou.
— Agora? — perguntou Harry.
—Agora. — Byron olhou no relógio. — Meu estômago acha que minha garganta foi
cortada. Que tal comermos? Tem alguma loja “tipo vinte e quatro horas” por aqui?
— Tem uma, descendo um quarteirão.
— Quer comida? — Byron perguntou a Valentin.
— Acho que não. Ele estava parecendo cada vez pior.
— Certo — falou Byron para Harry — então somos só você e eu. Tem dez mangos
pra me emprestar?
Harry deu-lhe uma nota, as chaves da porta da rua e um pedido de rosquinhas e
café; Byron saiu. Somente depois que ele se foi Harry desejou ter convencido o poeta a
suportar sua fome por mais algum tempo. O escritório estava angustiantemente
silencioso sem ele: Swann postado atrás da mesa, Valentin sucumbido ao sono na
outra cadeira. A quietude trouxe à sua mente outro silêncio semelhante, durante aquela
última e assustadora noite na casa dos Lomax, quando o amante-demônio de Mimi,
ferido pelo padre Hesse, fugira para dentro das paredes por um tempo e os deixara
esperando e esperando, sabendo que ele voltaria, mas nem quando nem como. Por
seis horas permaneceram sentados — Mimi ocasionalmente quebrando o silêncio com
risadas ou falando besteiras — e a primeira coisa que chamou a atenção de Harry para
seu retorno foi o cheiro de excremento cozinhando, e o grito de Mimi de “Sodomita!”
quando Hesse rendeu-se a um ato que sua fé há muito lhe proibira. Não houve mais
silêncio a partir de então, por um longo espaço de tempo: apenas os gritos de Hesse, e
os pedidos de Harry por esquecimento. Todos tinham ficado sem resposta.
Parecia agora que ele podia ouvir a voz do demônio, suas exigências, seus
convites. Mas não; era apenas Valentin. O homem jogava sua cabeça para trás e para
frente em seu sono, o rosto todo contraído. De repente, saltou de sua cadeira, uma
palavra em seus lábios:
— Swann!
Seus olhos se abriram e, quando se fixaram no corpo do ilusionista, que estava na
cadeira oposta, lágrimas surgiram, incontroláveis, destroçando-o.
— Está morto — disse, como se tivesse esquecido esse fato penoso em seu
sonho. — Fracassei, D’Amour. Por isso ele está morto. Por causa de minha
negligência.
— Está fazendo o melhor por ele agora. — Harry sabia que as palavras eram um
consolo pobre. — Ninguém poderia pedir para ter melhor amigo.
— Nunca fui amigo dele. — Valentin fitava o cadáver com olhos marejados. —
Sempre esperei que um dia ele confiasse totalmente em mim. Mas nunca fez isso.
— Por que não?
— Ele não poderia dar-se ao luxo de confiar em ninguém. Não em sua situação. —
Secou as bochechas com as costas das mãos.
—Talvez — principiou Harry — esteja na hora de me contar tudo.
— Se quiser ouvir.
— Quero ouvir.
— Muito bem — começou Valentin. — Há trinta e dois anos Swann fez uma
barganha com os Abismos. Concordava em ser um embaixador deles se, em troca, lhe
dessem magia.
— Magia?
— A capacidade de realizar milagres. Transformar matéria. Enfeitiçar almas. Até
mesmo afastar Deus.
— Isso é um milagre?
— É mais difícil do que você pensa — Valentin replicou.
— Então Swann era um mago genuíno?
— Realmente era.
— Então, por que ele não usava seus poderes?
— Ele os usava. Todas as noites, a cada apresentação.
Harry parecia desconcertado.
— Não entendo.
— Nada do que o Príncipe das Mentiras oferece à humanidade tem algum valor —
disse Valentin — ou não seria oferecido. Swann não sabia disso na primeira vez em
que fez seu Pacto. Mas logo aprendeu. Milagres são inúteis. Magia é uma distração
das preocupações reais. E retórica. Melodrama.
— Então o que são exatamente as preocupações reais?
— Deveria saber melhor do que eu. Companheirismo, talvez? Curiosidade? Pouco
importa se a água pode ser transformada em vinho ou se Lázaro vive mais um ano.
Harry entendeu o significado, mas não como levara o mago para a Broadway.
Contudo, não precisou perguntar. Valentin continuava a história. Suas lágrimas
sumiram; alguns traços de vida voltaram às suas feições.
— Não demorou muito para Swann perceber que vendera sua alma por um monte
de nada. E quando o fez, ficou inconsolável. Ao menos por um tempo. Ele então
começou a preparar uma vingança.
— Como?
— Pronunciando o nome do inferno em vão. Usando a magia da qual gabava-se
como um entretenimento trivial, degradando a força dos Abismos ao mostrar suas
maravilhas como meras ilusões. Veja bem, era um ato de perversidade heróica. A cada
vez que um truque de Swann era explicado como um truque de mãos, os Abismos
contorciam-se.
— Por que não o mataram?
— Ah, tentaram. Muitas vezes. Mas Swann tinha aliados. Agentes no campo deles
que o avisavam de suas tramas contra ele. Desse modo, escapou de sua retribuição
por anos.
— Até agora?
— Até agora — suspirou Valentin. — Ele foi descuidado, como eu fui. Agora está
morto, e os Abismos estão loucos por ele.
— Sei.
— Mas não estávamos totalmente despreparados para esta eventualidade. Ele
pedira suas desculpas para o céu; e ouso esperar que tenha sido perdoado por suas
transgressões. Reze para que tenha sido. Esta noite há mais do que a salvação dele
em jogo.
— A sua também?
— Todos nós que o amamos estamos maculados, mas se pudermos destruir seus
restos físicos antes que os Abismos os reclamem, então talvez possamos evitar as
conseqüências de seu Pacto.
— Por que esperou tanto? Por que simplesmente não o cremaram quando morreu?
— Os advogados deles não são idiotas. O Pacto prescreve especificamente um
período de corpo presente. Se tivéssemos tentado ignorar essa cláusula, sua alma
teria sido automaticamente levada.
— E quando termina esse período?
— Daqui a três horas, exatamente à meia-noite — anunciou Valentin. — Por isso
estão tão desesperados. E tão perigosos.
Outro poema ocorreu para Byron Jowitt enquanto ele ia pela Oitava avenida,
mordiscando um sanduíche de salada de atum pelo caminho. Sua Musa não devia ser
apressada. Os poemas podiam levar até cinco minutos para serem finalizados; mais
tempo ainda se envolvessem uma rima dupla. Portanto, não apertou o passo na volta
ao escritório; vagou numa espécie de sonho, virando os versos pelo avesso para fazêlos
se encaixar. Desse modo esperava chegar com outro poema terminado. Dois numa
única noite era mais do que bom.
Mas ainda não havia terminado de burilar os dois últimos versos quando alcançou a
porta. Operando em piloto automático, mexeu em seu bolso à procura das chaves que
D’Amour lhe emprestara e entrou. Ia fechar a porta quando uma mulher entrou pela
fresta, sorrindo para ele. Era uma beleza e Byron, como um poeta, era um tolo quanto
à beleza.
— Por favor, preciso de ajuda.
— O que posso fazer por você? — perguntou Byron através do mastigar de um
bocado de comida.
— Conhece um homem chamado D’Amour? Harry D’Amour?
— Claro. Vou para o escritório dele neste instante.
— Pode me mostrar o caminho? — pediu a mulher enquanto Byron fechava a porta.
— Será um prazer — respondeu ele, e levou-a pelo saguão até o início da escada.
— Sabe, você é um amor. — Byron derreteu-se todo.
Valentin estava parado diante da janela.
— Alguma coisa errada? — quis saber Harry.
— Só uma sensação — comentou Valentin. — Tenho uma suspeita de que talvez o
Demônio esteja em Manhattan.
— O que há de novo nisso?
— Talvez esteja vindo atrás de nós. — Como se fosse uma deixa, ouviu-se uma
batida na porta. Harry saltou. — Está tudo bem — Valentin acalmou-o —, ele nunca
bate. Harry foi até a porta, sentindo-se um tolo.
— É você, Byron? — perguntou antes de destrancá-la.
— Por favor — falou uma voz que ele pensou jamais ouvir novamente. — Ajude-me.
Abriu a porta. Era Dorothea, é claro. Ela estava incolor como água e igualmente
imprevisível. Mesmo antes de Harry tê-la convidado a passar pela soleira do escritório,
uma dúzia de expressões, ou sombras do que seriam expressões, cruzaram seu rosto:
angústia, suspeita, terror. E agora, quando seus olhos fixaram-se no corpo de seu
amado Swann, alívio e gratidão.
—Você está mesmo com ele — disse, entrando no escritório.
Harry fechou a porta. Havia uma corrente de ar subindo a escada.
— Graças a Deus. Graças a Deus. — Pegou o rosto de Harry entre suas mãos e
beijou-o levemente nos lábios. Somente então notou Valentin.
Baixou suas mãos.
— O que ele está fazendo aqui?
— Está comigo. Conosco.
Ela parecia duvidar.
— Não — retrucou.
— Podemos confiar nele.
— Eu disse não! Livre-se dele, Harry. — Havia uma fúria gelada nela; tremia. —
Livre-se dele!
Valentin fitava-a, seus olhos vítreos.
— A dama protesta demais — murmurou.
Dorothea pôs os dedos em seus lábios como que para segurar outra explosão.
— Sinto muito. — Ela virou-se novamente para Harry. —Mas você deve saber do
que este homem é capaz...
— Sem ele, seu marido ainda estaria na casa, sra. Swann —apontou Harry. — É a
ele que deve ser grata, não a mim.
Com isso a expressão de Dorothea suavizou-se, passando de frustração para uma
nova gentileza.
— Ah, é? — Agora olhava de novo para Valentin. — Desculpe. Quando fugiu da
casa, presumi uma certa cumplicidade...
— Com quem? — Valentin perguntou.
Ela balançou levemente a cabeça.
— Seu braço. Está ferido?
— Um ferimento menor.
—Já tentei fazer uma nova bandagem — explicou Harry —, mas o idiota é teimoso
demais.
— Sou teimoso mesmo — replicou Valentin, sem inflexão na voz.
— Mas logo acabaremos isso... — Harry comentou.
Valentin interrompeu-o.
— Não lhe diga nada — cortou ele.
— Só ia explicar-lhe sobre o cunhado... — falou Harry.
— O cunhado? — disse Dorothea, sentando-se. O murmúrio das pernas dela
cruzando-se era o som mais encantador que Harry ouvira nas últimas vinte e quatro
horas. — Ah, por favor, conte-me sobre o cunhado...
Antes que Harry pudesse abrir a boca, Valentin revelou:
— Não é ela, Harry.
As palavras, ditas sem um traço de dramaticidade, levaram alguns segundos para
fazer sentido. Mesmo quando fizeram, a loucura era evidente. Lá estava ela, em carne
e osso, perfeita em cada detalhe.
— Do que está falando?
— Como posso dizer isso de modo mais óbvio? — replicou Valentin. — Não é ela.
É um truque. Uma ilusão. Eles sabem onde estamos e enviaram isto para espionar
nossas defesas.
Harry teria rido, mas essas acusações trouxeram lágrimas aos olhos de Dorothea.
— Pare com isso — disse a Valentin.
— Não, Harry. Pense por um minuto. Todas as armadilhas que puseram, todas as
criaturas que reuniram. Acha que ela poderia ter escapado de tudo isso? — Afastou-se
da janela em direção a Dorothea. — Onde está Butterfield? No saguão, à espera de
seu sinal?
— Cale-se — falou Harry.
— Ele está com medo de vir por si mesmo, não está? — Valentin prosseguiu: —
Com medo de Swann, provavelmente com medo de nós depois do que fizemos a seu
capão.
Dorothea fitou Harry.
— Faça ele parar.
Harry interrompeu Valentin com uma mão em seu peito ossudo.
— Você ouviu a dama.
— Ela não é uma dama. — Os olhos de Valentin cintilavam. — Não sei o que é,
mas não é uma dama.
Dorothea levantou-se.
— Vim aqui porque esperava sentir-me segura.
— Você está segura — disse Harry.
— Não com ele por perto. — Olhou para Valentin. — Acho que é melhor partir.
Harry tocou seu braço.
— Não.
— Sr. D’Amour — falou com doçura —, já mereceu dez vezes seus honorários.
Agora acho que é hora de eu assumir a responsabilidade sobre meu marido.
Harry sondou aquele rosto vivo. Não havia sequer um traço de embuste nele.
— Estou com um carro lá embaixo. Será que... poderia levar Swann pela escada
para mim?
Harry ouviu um barulho como o de um cão acuado atrás dele e virou-se para ver
Valentin de pé ao lado do cadáver. Pegara o isqueiro pesado de mesa e estava
acendendo-o. Faíscas surgiram, mas nenhuma chama.
— Que diabos vai fazer? — perguntou Harry.
Valentin não fitava seu interlocutor, mas Dorothea.
— Ela sabe.
Ele descobrira o truque do isqueiro; a chama acendeu.
Dorothea fez um som baixo e desesperado.
— Por favor, não.
— Se necessário, vamos todos queimar com ele — ameaçou Valentin.
— Está ensandecido. — As lágrimas de Dorothea sumiram de repente.
— Ela está certa — Harry repreendeu Valentin. — Está agindo como um louco.
— E você é um tolo por cair por algumas lágrimas! — veio a resposta. — Não pode
deduzir que, se ela o levar, teremos perdido tudo por que lutamos?
— Não ouça — murmurou ela. — Você me conhece, Harry. Confia em mim.
— O que há sob esse seu rosto? — O que é você? Um coprólito? Um homúnculo?
Os nomes nada significavam para Harry. Tudo de que sabia era da proximidade da
mulher a seu lado; a mão dela pousada em seu braço.
— E quanto a você? — perguntou a Valentin. Em seguida, mais suavemente: — Por
que não nos mostra seu ferimento?
Ela afastou-se do abrigo de Harry e cruzou a sala até a mesa. A chama do isqueiro
gotejou à sua aproximação.
— Prossiga... — ela disse, sua voz não mais alta do que um suspiro — ... eu o
desafio.
Fitou Harry.
— Peça-lhe, D’Amour. Peça-lhe que mostre o que tem escondido sob as
bandagens.
— Do que ela está falando? — assustou-se Harry. O brilho de ansiedade nos olhos
de Valentin era o bastante para convencê-lo de que Dorothea tinha razão. — Explique.
Valentin, porém, não teve a chance. Distraído pelo pedido de Harry, foi uma presa
fácil quando Dorothea atacou pelo lado da mesa e derrubou o isqueiro de sua mão.
Curvou-se para recuperá-lo, mas ela pegou na ponta da bandagem e puxou. A atadura
rasgou e caiu no chão.
Ela recuou.
— Está vendo?
Valentin fora revelado. A criatura na rua 83 tirara a máscara de humanidade de seu
braço; o membro na verdade era uma massa de escamas arroxeadas. Cada dígito da
mão empolada terminava numa unha que se abria e fechava como um bico de
papagaio. Não fez nenhuma tentativa para esconder a verdade. A vergonha eclipsava
qualquer resposta.
— Eu avisei — afirmou ela. —Avisei que ele não era confiável.
Valentin fitava Harry.
— Não tenho desculpas. Apenas peço que acredite que quero o melhor para
Swann.
— Como pode? — falou Dorothea. — Você é um demônio.
— Mais do que isso — Valentin retrucou. — Sou o demônio de Swann. Familiar a
ele; a criatura dele. E pertenço mais a ele do que jamais pertenci aos Abismos. E eu os
desafiarei... — encarou Dorothea — ... e a seus agentes.
Ela virou-se para Harry.
—Você tem uma arma. Atire nessa nojeira. Não deve deixar uma coisa dessas
viver.
Harry viu o braço purulento; as unhas estalando: o que havia à espera, e ainda mais
repugnante sob a máscara de carne?
— Atire nele — insistiu a mulher.
Sacou a arma do bolso. Valentin parecia ter encolhido em instantes desde a
revelação de sua verdadeira natureza. Inclinava-se agora contra a parede, o rosto
lívido de desespero.
— Mate-me, então; mate-me se eu o revolto tanto. Mas, Harry, eu imploro, não
entregue Swann a ela. Prometa-me isso. Espere até o motorista voltar e disponha do
corpo do jeito que puder. Mas não o entregue a ela!
— Não escute — sustentou Dorothea. — Ele não se preocupa com Swann como eu
me preocupo.
Harry ergueu a arma. Mesmo olhando a morte de frente, Valentin não recuou.
—Você fracassou, Judas — ela acusou Valentin. — O mágico é meu.
— Que mágico? — perguntou Harry.
— Ora, Swann, é claro! —ela respondeu, excitada. — Quantos mágicos você tem
aqui em cima?
Harry baixou sua pontaria de Valentin.
— Ele é um ilusionista. Você mesma me disse isso bem no início. Nunca o chame
de mágico, você comentou.
— Não seja pedante — ela tentava rir de seu passo em falso. Harry ergueu a arma
para Dorothea. Ela repentinamente jogou a cabeça para trás, seu rosto contorcido, e
soltou um som que, se Harry não o ouvisse saindo de uma garganta humana, jamais
teria acreditado que uma laringe seria capaz de emiti-lo. Ressoou pelo corredor e pela
escada, à procura de algum ouvido à escuta.
— Butterfield está aqui — Valentin falou sem emoção.
Harry assentiu. No mesmo instante, ela veio em direção a ele, suas feições
grotescamente contorcidas. Era forte e rápida; um borrão de veneno que o pegou de
guarda baixa. Ouviu Valentin dizer-lhe para matá-la, antes que ela se transformasse.
Levou um instante para compreender o significado disso, e quando entendeu, os dentes
dela já estavam em volta de sua garganta. Uma de suas mãos era uma garra fria em
torno do pulso; sentiu nela força suficiente para transformar seus ossos em pó. Seus
dedos já estavam dormentes devido ao aperto; não teve mais tempo de fazer nada a
não ser acionar o gatilho. A arma disparou. O hálito dela em sua garganta parecia ter
saído à força. Ela então soltou-o e cambaleou para trás. O tiro abrira seu abdômen.
Estremeceu ao ver o que fizera. A criatura, apesar de todos os seus guinchos,
ainda se parecia com uma mulher que ele poderia ter amado.
— Ótimo — alegrou-se Valentin, quando o sangue atingiu o chão do escritório aos
borbotões. — Agora ela tem de se mostrar.
Ouvindo-o, ela balançou a cabeça.
— Isto é tudo o que há para mostrar — murmurou.
Harry jogou fora a arma.
— Meu Deus, é ela...
Dorothea fez uma careta. O sangue continuava a jorrar.
— Uma parte dela... — completou.
— Então esteve sempre com eles? — perguntou Valentin.
— É claro que não.
— Por que então?
— Nenhum lugar para onde ir... — ela disse, sua voz diminuindo a cada sílaba. —
Nada em que acreditar. Tudo mentiras. Tudo: mentiras.
— Então tomou o partido de Butterfield?
— Melhor o inferno do que um falso céu.
— Quem lhe ensinou isso? — indagou Harry.
— Quem você pensa? — replicou virando o olhar para ele. Apesar de sua força
estar esvaindo-se com o sangue, os olhos ainda cintilavam. — Você está acabado,
D’Amour. Você, o demônio e Swann. Agora não há mais ninguém para ajudá-los.
Apesar do desprezo nas palavras, ele não podia ficar ali e vê-la sangrar até
morrer. Ignorando a ordem de Valentin de que ficasse longe, foi até ela. Assim que se
aproximou o bastante, ela o açoitou com força surpreendente. O golpe cegou-o por um
instante; caiu contra o arquivo alto, que tombou para o lado. Harry e o arquivo atingiram
o chão juntos. O arquivo cuspiu papéis; ele, palavrões. Estava vagamente ciente de
que a mulher passava por ele para escapar, mas, ocupado demais, tentando evitar que
sua cabeça girasse, para segurá-la. Quando o equilíbrio retornou, ela havia partido,
deixando suas impressões ensangüentadas na parede e na porta.
Chaplin, o servente, era cioso de seu território. O porão do prédio era um domínio
particular no qual remexia em lixo de escritórios, alimentava sua amada fornalha e lia
em voz alta suas passagens favoritas do Bom Livro; tudo sem medo de interrupção.
Seus intestinos — que estavam longe de ser saudáveis — permitiam-lhe pouco
descanso. Umas poucas horas à noite, não mais, que ele complementava cochilando
durante o dia. Não era tão ruim. Tinha privacidade suficiente no porão para descansar
sempre que a vida nos andares de cima se tornasse por demais exigente; e o calor às
vezes trazia estranhos sonhos, mesmo estando acordado.
Seria aquele sujeito insípido em seu terno elegante um desses sonhos? Se não
era, como conseguira acesso ao porão quando a porta estava trancada e barrada?
Não fez perguntas ao intruso. Alguma coisa no modo como o homem o fitava segurava
sua língua.
— Chaplin — os lábios finos quase não se movendo —, eu gostaria que você
abrisse a fornalha.
Em outras circunstâncias, ele bem poderia pegar sua pá e acertar o sujeito no meio
da cabeça. A fornalha era seu bebê. Conhecia, como ninguém mais, suas sutilezas e
ocasional petulância: amava, como ninguém mais, o rugido que ela dava quando estava
contente. Não gostou nem um pouco do tom ditatorial usado pelo outro. Mas perdera a
vontade de resistir. Pegou um trapo e abriu a porta descascado, oferecendo o coração
quente como Lot oferecera suas filhas ao estranho em Sodoma.
Butterfield sorriu ao cheiro de calor da fornalha. Três andares acima, ouviu a mulher
gritar por socorro; e, poucos instantes depois, um tiro. Ela fracassara. Ele já pensara
que isso aconteceria. Mas a vida dela estava mesmo perdida. Enviá-la pela brecha fora
a chance mínima de que poderia conseguir tirar o corpo de seus protetores. Isso teria
poupado a inconveniência de um ataque em grande escala, mas não importava agora.
Ter a alma de Swann valia qualquer esforço. Ela desafiara o bom nome do Príncipe
das Mentiras. Por isso, sofreria como nenhum outro mágico descrente. Ao lado da
punição de Swann, a de Fausto seria uma inconveniência e a de Napoleão um cruzeiro
prazeroso.
Quando os ecos do tiro morreram lá em cima, tirou a caixa de laca negra do bolso
de seu casaco. Os olhos do servente estavam voltados para cima. Ele também ouvira o
tiro.
— Não foi nada — disse Butterfield. — Alimente o fogo.
Chaplin obedeceu. O calor no porão apertado cresceu rapidamente. O zelador
começou a suar; o visitante não. Ele permanecia a poucos centímetros da porta aberta
da fornalha e fitava a claridade com feições impassíveis. Finalmente, pareceu satisfeito.
— Basta — ordenou, e abriu a caixa. Chaplin pensou ter visto movimento dentro
dela como se estivesse cheia de larvas até a boca, mas antes que pudesse ter a
oportunidade de olhar mais de perto, tanto a caixa quanto seu conteúdo foram jogados
nas chamas.
— Feche a porta. — Chaplin obedeceu a Butterfield. — Pode observá-los por um
tempo, se assim lhe aprouver. Eles precisam do calor. Isso os torna poderosos.
Deixou o servente em sua vigília ao lado da fornalha e voltou para o saguão. Pela
porta da rua aberta entrara um traficante, fugido do frio, para tratar de negócios com
um cliente. Negociavam nas sombras até que o meliante viu o advogado.
— Não se preocupem comigo. — Butterfield subiu a escada. Encontrou a viúva
Swann no primeiro patamar. Ela não estava totalmente morta, mas ele rapidamente
terminou o trabalho que D’Amour iniciara.
— Estamos com problemas — alertou Valentin. — Estou ouvindo ruídos lá embaixo.
Há outro meio de sair daqui?
Harry estava sentado no chão, inclinado contra o arquivo caído e tentava não
lembrar do rosto de Dorothea quando à bala a encontrara, ou pensar na criatura da
qual agora estava condenado a necessitar.
— Há uma saída de emergência — respondeu. — Ela desce pelos fundos do
prédio.
— Mostre-me. — Valentin tentava pô-lo de pé.
— Tire suas mãos de mim!
Valentin recuou, magoado pela repulsa.
— Desculpe. Talvez não devesse esperar por sua aceitação. Mas espero.
Harry nada comentou; simplesmente levantou-se no meio do lixo de relatórios e
fotografias. Levara uma vida suja: espionando adultérios para esposas vingativas;
cavucando cortiços à procura de crianças perdidas; lidando com gente de merda
porque merda flutuava, e o resto simplesmente afundava. Seria possível que a alma de
Valentin fosse ainda mais suja?
— A saída de incêndio é descendo pelo saguão — explicou.
—Ainda podemos tirar Swann. Ainda podemos lhe dar uma cremação decente... —
A obsessão do demônio com a dignidade de seu mestre era lisonjeira à sua maneira.
— Mas você precisa ajudar-me, Harry.
— Eu ajudo. — Ele evitava olhar para a criatura. — Só não espere carinho e afeto.
Se era possível ver um sorriso, foi o que aconteceu.
— Eles querem acabar com isso antes do amanhecer.
— Não deve faltar muito.
— Uma hora, talvez — replicou o demônio. — Mas é o bastante. De qualquer
forma, é o bastante.
O som da fornalha acalmou Chaplin; seus murmúrios e rugidos eram-lhe tão
familiares quanto a reclamação de seus próprios intestinos. Mas havia outro som
crescendo atrás da porta, como nunca ouvira antes. Sua mente criava imagens idiotas
para combinar com ele. De porcos gargalhando; de vidro e arame farpado passando
entre dentes; de pés com cacos dançando na porta. Sua trepidação cresceu junto com
os ruídos, mas quando chegou à porta do porão para pedir ajuda, estava trancada; a
chave havia sumido. E agora, como se as coisas já não estivessem ruins o bastante, a
luz apagava-se.
Começou a procurar na memória uma prece.
— Ave Maria, mãe de Deus, rogai por nós, pecadores, agora e na hora...
Mas parou quando uma voz o chamou de forma indiscutível.
— Michelmas.
Era sua mãe, sem dúvida. E também não poderia haver dúvidas quanto ao lugar de
onde vinha. Vinha da fornalha!
— Michelmas — chamou com veemência. — Você vai me deixar cozinhar aqui
dentro?
Não era possível, é claro, que ela estivesse ali em carne e osso.
— Abra, Michelmas — sua mãe ordenou, naquela voz especial que usava quando
tinha alguma coisa boa para dar-lhe. Como um bom filho, aproximou-se da porta. Nunca
havia sentido tamanho calor saído da fornalha quanto agora; era possível sentir os
pêlos de seus braços se arrepiarem.
— Abra a porta — a mãe repetiu. Não havia como negar. Apesar do ar tórrido, ele
estendeu a mão para obedecer.
— Zelador filho da puta — berrou Harry, dando um chute na porta de incêndio
trancada. — Esta porta deveria estar sempre destrancada. — Deu um puxão nas
correntes que cercavam a tranca. — Teremos de ir pelas escadas.
Ouviram um ruído que vinha do fundo do corredor; um rugido no sistema de
aquecimento que fazia os radiadores antiquados ratearem. Nesse momento, no porão
lá embaixo, Michelmas Chaplin estava obedecendo à sua mãe e abrindo a porta da
fornalha. Um grito veio de baixo quando seu rosto foi arrancado na explosão. Em
seguida, o som da porta do porão sendo esmagada.
Harry olhou para Valentin, a repugnância esquecida por um instante.
— Melhor não pegarmos as escadas — disse o demônio.
Urros, rateios e gritos estridentes podiam ser ouvidos. O que quer que tivesse
nascido no porão, era precoce.
— Precisamos encontrar alguma coisa para quebrar a porta — falou Valentin. —
Qualquer coisa.
Harry tentava traçar mentalmente o caminho pelos escritórios adjacentes, buscando
alguma ferramenta que fizesse efeito na porta de incêndio ou nas rígidas correntes que
a mantinham fechada. Mas não havia nada de útil: somente máquinas de escrever e
arquivos.
— Pense, homem — insistiu Valentin.
Ele saqueou sua memória. Era necessário algum instrumento pesado. Um pé-decabra;
uma marreta. Um machado! Havia um agente chamado Shapiro no andar de
baixo, que representava exclusivamente atores pornôs, um dos quais tentara dar um
tiro no seu saco um mês atrás. A atriz falhara, mas um dia ele vangloriou-se nas
escadas que tinha comprado o maior machado que pudera encontrar, e decapitaria
com prazer qualquer cliente que tentasse um ataque à sua pessoa.
A agitação de baixo diminuíra. O silêncio era, à sua maneira, mais perturbador que
o burburinho de antes.
— Não temos muito tempo — avisou o demônio.
Harry deixou-o em frente à porta trancada.
— Pode pegar Swann? — perguntou ao afastar-se correndo.
— Vou fazer o melhor que puder.
Quando Harry alcançou o topo da escada, os últimos ruídos estavam morrendo;
quando começou a descer o lance, cessaram completamente. Não havia como julgar a
distância do inimigo. No andar seguinte? Virando a curva? Tentou não pensar neles,
mas sua imaginação febril enchia de habitantes cada sombra.
Mas chegou ao pé da escada sem incidentes, e esgueirou-se ao longo do corredor
escuro do segundo andar em direção ao escritório de Shapiro. A meio caminho de seu
destino, ouviu um leve assoviar as suas costas. Olhou para trás, o corpo louco para
correr. Um dos radiadores, aquecido além do limite, estava vazando por uma válvula.
Seus canos soltavam um vapor sibilante. Deixou o coração bater mais devagar, e então
apressou-se para a porta de Shapiro, rezando para que o homem não estivesse
apenas contando vantagem com seu papo de machados. Se fosse o caso, eles
estavam perdidos. O escritório estava trancado, claro, mas quebrou o vidro opaco com
o cotovelo, e esticou a mão para abrir a maçaneta por dento, os dedos procurando o
interruptor. As paredes estavam repletas de fotografias de deusas do sexo. Harry nem
deu bola; seu pânico aumentava a cada segundo em que passava ali. Desajeitado,
vasculhou a sala, revirando os móveis em sua impaciência. Mas nem sinal do machado
de Shapiro.
De repente, outro ruído vindo de baixo. Ele subiu pelas escadas e percorreu o
corredor à sua procura — uma cacofonia alienígena como a que ouvira na rua 83. Isso
mexeu com seus dentes; os nervos do molar podre começaram a latejar com
intensidade renovada. O que a música queria dizer? Seu avanço?
Desesperado, foi até a mesa de Shapiro para ver se o homem tinha outra coisa
que pudesse ser usada para o serviço, e ali, escondido entre a mesa e a parede,
encontrou o machado. Tirou-o de seu esconderijo. Conforme Shapiro se vangloriara,
era dos bons, seu peso a primeira garantia de segurança que Harry sentia em muito
tempo. Voltou ao corredor. O vapor do cano aberto era mais espesso agora. Através
de seus véus, ficava claro que o concerto havia assumido um novo fervor, O gemido
pungente aumentava e abaixava, pontuado por uma certa percussão frouxa.
Aventurou-se pela nuvem de fumaça e apertou o passo para a escada. Quando pôs
o pé no primeiro degrau, a música pareceu pegá-lo pela nuca e sussurrar escute no seu
ouvido. Não tinha o menor desejo de ouvir; o som era vil. Mas de alguma forma —
enquanto se distraíra procurando o machado — ela havia aberto caminho para dentro
do seu crânio. Sugava a força de seus braços. Em instantes o machado começou a ter
um peso impossível.
— Desça — a música seduzia-o — desça e junte-se à banda.
Embora tentasse formar a simples palavra “não”, a melodia o influenciava cada vez
mais, a cada nota tocada. Começou a ouvir acordes na algazarra; longos temas
circulares que faziam seu sangue correr mais lento, e seus pensamentos mais idiotas.
Sabia que não havia prazer a ser obtido na fonte da música — que ela tentava-o
somente à dor e à desolação — mas mesmo assim não conseguia afastar o delírio.
Seus pés começaram a mover-se ao compasso dos gaiteiros.
Esqueceu-se de Valentin, Swann e de toda a ambição de fuga, e ao invés disso
começou a descer as escadas. A melodia tornou-se mais complexa. Agora, podia ouvir
vozes, cantando um acompanhamento sem graça numa língua que não entendia. De
algum lugar acima, ouviu seu nome ser chamado, mas ignorou o apelo. A música
capturou-o, e então — enquanto descia o próximo lance de escadas — os intérpretes
apareceram.
Eram mais brilhantes do que havia pensado, e mais variados. Mais barrocos em
suas configurações (as crinas, as múltiplas cabeças); mais particulares em suas
decorações (o traje feito de rostos esfolados; o ânus avermelhado); e — seus olhos
drogados e doloridos agora viam — mais atrozes na escolha dos instrumentos. E que
instrumentos! Byron estava ali, seus ossos ocos e com buracos perfurados neles, sua
bexiga e seus pulmões usados, através de rasgos em seu corpo, como reservatórios
para o fôlego do gaiteiro: colocado, em posição invertida, sobre o colo do músico, que
tocava nele — o saco inflando, a cabeça sem língua emitindo urna nota soprada.
Dorothea estava escarrapachada ao seu lado, não menos transformada, as cordas de
seus intestinos esticadas entre suas pernas abertas como uma lira obscena; seus
peitos eram tambores. Havia ainda outros instrumentos, homens que vieram das ruas e
caíram vítimas da banda. Até Chaplin estava ali, a maior parte de sua carne queimada,
sua caixa torácica sendo tocada de forma indistintamente correta.
— Eu não o considerava um amante da música — disse Butterfield, dando uma
tragada num cigarro e sorrindo em sinal de boas-vindas. — Largue o machado e venha
juntar-se a nós. A palavra machado lembrou Harry do peso em suas mãos, embora não
conseguisse desvencilhar-se dos compassos da melodia para lembrar o que ela
significava.
— Não tenha medo — insistiu Butterfield. — Você é um inocente nesta história. Não
temos nada contra você.
— Dorothea... — murmurou.
— Ela também era inocente — explicou o advogado. — Até que mostramos a ela
algumas visões.
Harry olhou para o corpo da mulher; para as mudanças terríveis que eles haviam
provocado nela. Vendo isso, um tremor percorreu seu corpo, e algo intrometeu-se entre
ele e a música; a iminência das lágrimas a tornava indefinida.
— Largue o machado — Butterfield ordenou.
Mas o som do concerto não era páreo para a tristeza que começava a invadi-lo.
Butterfield aparentemente viu a mudança em seus olhos; o nojo e a raiva crescendo
neles. Jogou o cigarro pela metade no chão e fez um sinal para que a música parasse.
— Então vai ser preciso a morte? — perguntou Butterfield; mas mal havia
terminado de falar, Harry começou a descer os últimos degraus em sua direção.
Levantou o machado e baixou-o sobre o advogado, mas falhou no golpe. A lâmina
enterrou-se no estuque da parede, errando o alvo por meio metro.
Com essa erupção de violência, os músicos jogaram de lado os instrumentos e
começaram a atravessar o saguão, arrastando seus paletós e fraques em sangue e
gordura. Harry percebeu esse movimento com o canto dos olhos. Atrás da horda, ainda
enraizada nas sombras, estava outra forma, maior do que o maior dos demônios
reunidos, de onde vinha agora uma batida que poderia ser a de uma gigantesca
marreta. Tentou distinguir o que ouvia ou via, mas não conseguia fazer nenhuma das
duas coisas. Não havia tempo para curiosidades; os demônios estavam quase em cima
dele. Butterfield deu uma olhada ao redor para encorajar seu avanço, e Harry —
aproveitando o momento — desceu o machado uma segunda vez. O golpe pegou o
ombro de Butterfield; o braço foi cortado na hora. O advogado soltou um berro
estridente; a parede ficou coberta de sangue. Mas não houve tempo para um terceiro
golpe. Os demônios estavam quase chegando perto dele, com sorrisos mortais.
Virou-se e começou a subir as escadas, dois, três, quatro degraus de cada vez.
Butterfield ainda gritava lá embaixo; do andar de cima ouviu Valentin chamar seu nome.
Não tinha tempo nem fôlego para responder.
Estavam nos seus calcanhares, subindo num burburinho de grunhidos, urros e bater
de asas. E atrás de tudo, a marreta batia na direção das escadas, seu barulho de
longe mais intimidador que os ruídos das criaturas às suas costas. Essa batida estava
em seu estômago, em suas tripas. Como o batimento cardíaco da morte, firme e
irrevogável.
No segundo patamar, ouviu um zumbido logo atrás, e virou-se para ver uma
mariposa de cabeça humana do tamanho de um urubu voando em sua direção.
Enfrentou-a com a lâmina do machado, e derrubou-a. Ouviu um grito vindo de baixo
quando o corpo caiu pelas escadas, suas asas funcionando como remos. Harry
acelerou o passo pelo resto dos degraus até onde Valentin estava esperando, na
escuta. Não prestava atenção no barulho da turba, nem nos gritos do advogado, mas
na marreta.
— Trouxeram o Saqueador — ele disse.
— Eu feri Butterfield...
— Eu ouvi. Mas isso não os deterá.
— Ainda podemos tentar a porta.
— Acho que é tarde demais, meu amigo.
— Não! — gritou Harry, empurrando Valentin para o lado. O demônio desistira de
tentar arrastar o cadáver de Swann até à porta, e havia deixado o mágico no meio do
corredor, mãos cruzadas sobre o peito. Num último ato misterioso de reverência,
pusera cuias de papel dobrado nos pés e na cabeça de Swann, e uma minúscula flor
de origami em seus lábios. Harry ficou parado apenas o suficiente para reacostumar-se
com a doçura da expressão de Swann; então, correu para a porta e começou a atacar
as correntes. Seria um longo trabalho. O ataque fez mais danos ao machado do que
aos elos de aço. Mas não ousava desistir. Era a única rota de fuga que tinham agora,
além da opção de se atirarem para a morte por uma das janelas. Isso ele faria, decidiu,
se o pior acontecesse. Pularia e morreria, mas não seria brinquedo deles.
Seus braços logo ficaram entorpecidos com os golpes repetidos. Era uma causa
perdida; a corrente era inquebrável. Seu desespero aumentou ainda mais com um grito
de Valentin — um apelo alto e choroso ao qual não podia deixar de responder.
Abandonou a porta de incêndio e voltou, passando pelo corpo de Swann, para o alto da
escada.
Os demônios tinham apanhado Valentin. Enxamearam em cima dele como abelhas
sobre mel, rasgando-o de alto a baixo. Por um brevíssimo instante ele libertou-se da
fúria deles, e Harry viu a máscara de humanidade em ruínas e a verdade brilhando
sangrenta por baixo. Era tão vil quanto os que o cercavam, mas Harry foi em seu
socorro mesmo assim, tanto para ferir os demônios quanto para salvar sua presa.
O machado fez estragos por toda parte, jogando os torturadores de Valentin
escada abaixo, membros cortados, rostos abertos. Nem todos sangravam. Uma
barriga fatiada derramou ovos aos milhares, uma cabeça ferida deu à luz pequenas
enguias, que fugiram para o teto e ficaram penduradas ali pelos lábios. Na confusão,
perdeu Valentin de vista. Na verdade, esqueceu-se dele, até ouvir a marreta
novamente, e lembrar-se do olhar melancólico no rosto de Valentin quando dera nome à
coisa. Ele a chamara de Saqueador, ou algo semelhante.
E agora, enquanto sua memória dava forma à palavra, ela aparecia. Não tinha o
mesmo aspecto de seus companheiros; não tinha asas, nem crina, nem vaidade.
Sequer parecia ser feita de carne, mas forjada, uma máquina que só precisava de
maldade para manter-se funcionando.
Quando surgiu, o resto recuou, deixando Harry no alto das escadas em meio a um
lixo de criaturas. Seu progresso era lento, meia dúzia de membros movendo-se em
configurações oleosas e elaboradas para perfurar as paredes das escadas e assim
manter-se em pé. Lembrou-se de um homem de muletas, colocando os apoios à frente
e em seguida puxando o próprio peso, mas não havia nada de inválido no trovejar de
seu corpo; nenhuma dor no olho branco que queimava na cabeça arrepiada.
Harry achava que conhecia o desespero, mas não era verdade. Só agora sentia o
gosto de suas cinzas na garganta. Havia apenas a janela para ele. Isso, e o chão bemvindo.
Recuou do alto das escadas, esquecendo o machado.
Valentin estava no corredor. Não morto, como Harry presumira, mas ajoelhado ao
lado do cadáver de Swann, seu próprio corpo babando por uma centena de feridas.
Agora ele curvava-se sobre o mágico. Pedindo desculpas ao mestre, sem dúvida. Mas
não. Era mais do que isso. Com o isqueiro na mão, acendia uma bucha. Então,
murmurando alguma prece para si mesmo, levou a bucha à boca do mágico. A flor de
origami incendiou-se. A luz era estranhamente brilhante, espalhou-se com uma
eficiência sobrenatural pelo rosto de Swann e desceu por seu corpo. Valentin levantouse,
o brilho das chamas lustrando suas escamas. Achou forças suficientes para inclinar
sua cabeça junto ao corpo enquanto a cremação começava; então, suas feridas o
venceram. Caiu para trás, e não mexeu-se mais. Harry viu as chamas aumentarem.
Obviamente o corpo havia sido molhado com gasolina ou coisa do gênero, pois o fogo
cresceu em instantes, dourado e verde.
Subitamente, alguma coisa agarrou sua perna. Olhou para baixo; um demônio, a
carne parecida com amoras maduras, ainda tinha apetite por ele. Sua língua estava
enrolada ao redor da canela de Harry; suas garras tentavam alcançar sua virilha. O
ataque fez com que esquecesse a cremação ou o Saqueador. Curvou-se para rasgar a
língua com as mãos nuas. Mas ela era escorregadia demais, e invalidou suas
tentativas. Recuou cambaleando enquanto o demônio subia por seu corpo, envolvendoo
com os braços.
A luta levou-os ao chão, e rolaram para longe das escadas, na direção do outro
braço do corredor. A briga estava longe de ser desequilibrada; a repugnância de Harry
era, no mínimo, contraponto para o ardor da criatura. O dorso pressionado contra o
chão, subitamente lembrou-se do Saqueador. Seu avanço reverberava em cada tábua
e parede. Agora ele aparecia no alto das escadas, e virou sua cabeça lenta na direção
da pira funerária de Swann. Mesmo daquela distância, Harry podia ver que as
tentativas improvisadas de Valentin para destruir o corpo de seu mestre haviam
falhado. O fogo mal começara a devorar o mágico. Eles ainda conseguiriam pegá-lo.
Olhos fixos no Saqueador, Harry esqueceu seu inimigo mais próximo e enfiou um
pedaço de carne em sua boca. Sua garganta encheu-se com um fluido pungente;
sentiu-se engasgado. Abriu a boca e mordeu com força o órgão, decepando-o. O
demônio não gritou, mas soltou jatos de excremento escaldante dos poros ao longo de
suas costas, e soltou-se. Harry cuspiu o pedaço de músculo, e o demônio fugiu
arrastando-se. Então tornou a olhar para a fogueira.
Todas as outras preocupações foram esquecidas diante do que via.
Swann havia se levantado!
Queimava da cabeça aos pés. Cabelos, roupas, pele. Não havia parte dele que não
estivesse acesa. Mas mesmo assim estava de pé e levantava as mãos para dar as
boas-vindas ao seu público.
O Saqueador havia interrompido seu avanço. Estava a um ou dois metros de
Swann, os membros absolutamente parados, como se estivesse hipnotizado por aquele
truque fantástico.
Harry viu outra figura emergir do alto das escadas. Era Butterfield; o toco de seu
braço tinha uma atadura improvisada; um demônio apoiava seu corpo desequilibrado.
— Apague o fogo — exigiu o advogado do Saqueador. —Não é tão difícil.
A criatura não se moveu.
— Vamos — disse Butterfield. — É só um truque dele. Está morto, porra. É só uma
conjuração.
— Não — reagiu Harry.
Butterfield olhou para ele. O advogado sempre fora insípido. Agora estava tão
pálido que sua existência certamente estava em questão.
— O que você sabe? — ele perguntou.
— Não é conjuração — falou Harry. — E mágica.
Swann pareceu ouvir a palavra. Suas pálpebras abriram-se, e ele enfiou lentamente
a mão dentro do paletó e com um floreio tirou um lenço. Também estava em chamas. E
não estava sendo consumido. Ao sacudir o lenço, pequenos pássaros brilhantes
começaram a surgir zumbindo as asas. O Saqueador ficou encantado com o passe de
mágica. Seu olhar fixo seguiu a ilusão dos pássaros enquanto eles voavam para o alto
e dispersavam, e nesse momento o mágico deu um passo à frente e abraçou a
máquina.
Ela pegou o fogo de Swann imediatamente, as chamas espalhando-se por seus
ombros, que se debatiam. Embora lutasse para se libertar do abraço do mágico,
Swann não iria permitir isso. Agarrou-a com mais força do que a um irmão que não se
via há muito, e não soltou-a até que ela começou a murchar com o calor. Quando a
decomposição começou, parecia que o Saqueador fora devorado em segundos, mas
era difícil ter certeza. Levou um minuto? Dois? Cinco? Harry jamais saberia. Não que
quisesse parar para pensar nisso. Descrença era para covardes; e sem dúvida, um
hábito que podia ser fatal. Contentou-se em olhar — sem saber se Swann estava vivo
ou morto; se pássaros, fogo, corredor ou ele próprio — Harry D’Amour — eram reais
ou ilusórios.
Por fim, o Saqueador não existia mais. Harry levantou-se. Swann também estava
de pé, mas sua performance de despedida obviamente já terminara.
A derrota do Saqueador havia acabado com a coragem da horda. Todos fugiram,
deixando Butterfield sozinho no alto das escadas.
— Isto não será esquecido ou perdoado — ele disse para Harry. — Não haverá
descanso para você. Jamais. Sou seu inimigo.
— Espero que sim — Harry assentiu.
Virou-se e olhou para Swann, deixando que Butterfield se retirasse.
O mágico voltara a se deitar. Os olhos estavam fechados, as mãos repousadas
sobre o peito. Era como se ele jamais tivesse se movido. Mas agora o fogo estava
mostrando seus verdadeiros dentes. A carne de Swann começou a borbulhar, as
roupas se descascando em fuligem e fumaça. Demorou um bom tempo para as
chamas completarem seu trabalho, mas acabaram reduzindo o homem a cinzas.
A essa altura já amanhecera, mas era domingo, e Harry sabia que não haveria
visitantes para interromper seu trabalho. Teria tempo de recolher os restos; de reunir
as lascas de ossos e pô-las, junto com as cinzas, numa sacola. Então sairia e
encontraria uma ponte ou um cais, e jogaria Swann no rio.
Muito pouco sobrou do mágico depois que o fogo fez seu trabalho; nada que
lembrasse um homem.
Coisas vinham e iam embora; esse era um tipo de mágica. E no meio?
Perseguições e conjurações; horrores, disfarces. A alegria ocasional.
Haver espaço para a alegria; ah! isso também era mágica.